domingo, 28 de março de 2010

Manuel Pinto de Aguiar, o homem de sete instrumentos

Consuelo Novais Sampaio*
Uns dizem que ele era o mago das finanças; outros, um construtor de bairros; para muitos, um inovador incansável; professor incomparável. Tão diversificada e abrangente foi a capacidade de realização de Manuel Pinto de Aguiar, que o homem do povo, na sua imbatível sabedoria, sentenciou: ele é um homem de sete instrumentos.
Posso garantir que a todos tocava com grande maestria e soberba harmonia, como se fora a reencarnação do próprio Rachmaninoff, seu compositor favorito. Suas obras são visíveis. O Parque Cruz Aguiar, que ergueu no barro do Rio Vermelho; o Jardim Lobato, na região petrolífera; os Barris, beirando o dique, cujo projeto de urbanização deixou pronto, e o Alto do Garcia foram algumas de suas criações na Secretaria de Finanças de Salvador. Por tanto realizar numa Prefeitura que encontrou falida, o seresteiro popular afirmou que ele era o mago das finanças -- ao invés de coelhos, tirava dinheiro da cartola! Qual o truque? Estranhou: “Não houve truque algum. Apenas bom senso, absoluta isenção e equilíbrio no tratamento de todos os casos. Junto a uma pequena base teórica e experiência prática, recuperamos a confiança do contribuinte”.
Partidário ferrenho do planejamento, criou a Comissão de Plano da Cidade, para tratar do crescimento ordenado de Salvador, órgão que hoje arquitetos e engenheiros pressionam o Prefeito para por em ação. Logo foi fisgado para a esfera nacional, a Diretoria Financeira da Petrobrás e, depois, da Eletrobrás. Teve de afastar-se da Faculdade de Economia da UFBA, que ajudara a criar; abandonou os seus negócios particulares, inclusive a Editora Progresso, instrumento de divulgação de muitos escritores baiano, à qual amava devotadamente. No Rio de Janeiro, dedicou-se por inteiro aos negócios do petróleo. Tornou-se um dos homens mais entendidos no assunto, em todo o País, como ficou provado. A ele devemos o Conjunto Petroquímico da Bahia (COPEB), que dizia ser a menina dos seus olhos; as articulações iniciais para a implantação da Usina Siderúrgica da Bahia (USIBA), para não falar na conclusão do terminal de Ilhéus, e na instalação de vários outros projetos, inclusive de refinarias em Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul. Com base nos estudos técnicos que de perto acompanhava, e nos resultados que a Inglaterra vinha obtendo no Mar do Norte, afirmou: “as mais promissoras perspectivas de produção de óleo, no Brasil, estão na plataforma continental; esses campos poderão dar a auto-suficiência ao Brasil”. Obviamente referia-se à hoje cantada e decantada camada do pré-sal. Na Eletrobrás, graças à estrutura econômico-financeira por ele implantada, pôde-se executar o Plano Nacional de Eletrificação. Também a ele deve-se a definição, bastante complicada, da organização bi-nacional da Eletrobrás. E porque há muito para registrar sobre este inovador e progressista baiano, decidi concluir neste 7 de março de 2010, quando se comemora o centenário do seu nascimento, a sua biografia que vinha escrevendo e espero seja publicada neste ano. Menos para que sirva de exemplo e mais para ficar claro que o homem, ainda em condições adversas como as que viveu Pinto de Aguiar, pode influenciar e mesmo promover mudanças na sociedade em que vive.Dentre tantas realizações, Pinto de Aguiar foi, acima de tudo, um homem feito de livros, como disse o jornalista Luiz Guilherme Tavares. Além da sua notável produção intelectual, publicou mais de 500 livros na Progresso, para a qual fez 27 traduções, do inglês, italiano, francês, além de escrever orelhas, prefácios, introduções etc. Vivia cercado de livros. Livro na mão, na cabeça, no coração. Creio mesmo que o seu coração tinha a forma de livro, cujas páginas eram preenchidas por gotas de sangue sob a forma de letras que, ao ritmo de suas batidas, enchiam-lhe as veias. Organizavam-se no cérebro, em linhas, páginas e mais páginas, formando livros que lhe chegavam às mãos para serem distribuídos Brasil afora, levando escritores baianos a quantos quisessem ler e saber. Assim foi esse brasileiro. Que sempre viva entre nós.
* Consuelo Novais, integra a Academia de Letras da Bahia

5 comentários:

  1. Adoei esse site naum te ajuda em nada essa peste

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  2. ELE É MEU BISAVÔ CARA.
    ALEXANDRA PINTO DE AGUIAR

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  3. Ele era meu grande avó!!!Um honra!!!

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    1. Meu avô tbm !! Mais infelizmente faleceu mtt cedo !
      Atenciosamente , Fernanda

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  4. Alexandra,
    Gostaria imensamente de estabelecer um contato contigo, pois pesquiso a vida e obra do seu bisavô, Pinto de Aguiar. Ficaria bastante feliz se pudesse ter acesso a mais detalhes sobre sua obra, e saber, por exemplo, se todo o seu acervo foi realmente doado, se a família guarda consigo manuscritos, livros, cartas, fotografias... elementos que podem contribuir muito para que eu possa dar continuidade ao meu trabalho, valorizar e publicar, cada vez mais, a história desse homem ímpar.
    Aproveito ainda para estender meu pedido a todos que possam ler essa postagem e que possam contribuir com informações que aquietem meu coração acadêmico e sedento por mais informações "aguiarianas".

    Aguardando respostas: Elizete Leal (kaw_hannah@yahoo.com.br / kawhannah@hotmail.com / Eliz Freitas - Facebook).

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