quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

As cidades se reinventam

 Carlos Leite*
As metrópoles são o grande desafio estratégico do planeta neste momento. Se elas adoecem, o planeta fica insustentável. No entanto, a experiência internacional - de Barcelona a Vancouver, de Nova York a Bogotá, para citar algumas das cidades mais verdes - mostra que as metrópoles se reinventam. Se refazem. Já existem diversos indicadores comparativos e rankings das cidades mais verdes do planeta. Fora dos países ricos, Bogotá e Curitiba colocam-se na linha de frente como cases a serem replicados. Quais são as cidades mais inovadoras atualmente, aquelas que já estão sinalizando as mudanças para daqui a 25 anos? Por que as metrópoles contemporâneas compactas - densas, vivas e diversificadas nas suas áreas centrais - propiciam um maior desenvolvimento sustentável, concentrando tecnologia, novas oportunidades de crescimento, gerando inovação e conhecimento em seu território?
As metrópoles são o lócus da diversidade - da economia à ideologia, passando pela religião e cultura. E diversidade gera inovação. As maiores cidades do hemisfério norte descobriram isso há alguns anos e têm se beneficiado enormemente desse diferencial, dessas externalidades espaciais - inclusive com atração de investimentos. E têm promovido seus projetos de regeneração por políticas de inovação. Centros urbanos diversificados, em termos de população e usos, com empresas ligadas à nova economia, têm se configurado nas novas oportunidades de inovação urbana em áreas anteriormente abandonadas (caso do Barcelona 22@, San Francisco Mission Bay, além de diversas áreas em Nova York, Boston ou Londres). As cidades inteligentes, as smart cities, expressam a necessidade de uma reformulação radical das cidades na era da economia global e da sociedade baseada no conhecimento.
A capacidade de inovação se traduz em competitividade e prosperidade. Alguns parâmetros são fundamentais: presença da nova economia, sistema de mobilidade inteligente, ambientes inovadores/criativos, recursos humanos de talento, habitação acessível/diversificada e e-governance, que deverá incorporar sistemas inteligentes e integrados de governo, transporte, energia, saúde, segurança pública e educação. A democratização das informações territoriais com os novos sistemas de tecnologia de informação e comunicação, favorecendo a formação de comunidades participativas, além de e-governance: serviços de governo inteligente mais ágeis, transparentes e eficientes, por compartilhamento de informações.
Por fim, devemos ficar atentos às imensas perspectivas que as tecnologias verdes aliadas à gestão inteligente estão abrindo no desenvolvimento urbano de novos territórios, sejam novos bairros sustentáveis (por aqui, o pioneiro é o Cidade Pedra Branca Urbanismo Sustentável em Santa Catarina), sejam cidades inteiras verdes (Masdar, em Abu Dhabi, desenvolvida por Sir Norman Foster é o maior exemplo). E as nossas cidades? Decisão política, boas ideias e competência na gestão urbana sempre serão bem-vindas e algumas cidades atuais demonstram isso claramente e jogam otimismo no futuro das nossas cidades. Curitiba iniciou há 20 anos o processo e suas boas práticas devem ser replicadas cada vez mais, pois a sociedade civil organizada exigirá - como o sistema integrado de transportes coletivos, destacando-se os corredores de ônibus expressos ligados a corredores planejados de adensamento, coleta seletiva de lixo e rede polinucleada de parques.
Nossas duas megacidades, São Paulo e Rio de Janeiro, trazem parâmetros oportunos importantes. O incrível boom imobiliário atual (terceiro maior do planeta), aliado à pujança do setor da construção civil e à força econômica de São Paulo e Rio, além da concentração, rara no Brasil, dos famosos 3T's - Talento, Tecnologia e Tolerância - defendidos por Richard Florida como essencial para a inovação urbana pode alavancar as desejáveis reinvenções dessas cidades. Resta ao nosso mercado imobiliário incorporar melhor as lições que as cidades campeãs em inovação no mundo estão promovendo ao aliar, à pujança econômica, modelos urbanístico mais interessantes, com maior sociodiversidade espacial, como menos condomínios fechados e distantes. 
As cidades inteligentes estão chegando 
As cidades do futuro serão inteligentes em diversos aspectos. Uma gestão inteligente do território será capaz de propiciar maior agilidade na gestão integrada online das diversas mobilidades urbanas. Essencialmente, transporte público multimodal ágil e competente, como já há em diversas cidades desenvolvidas, mas também sistemas inteligentes de uso compartilhado de transporte individual, de bicicletas motorizadas aos smart city cars. 
Na verdade, as cidades inteligentes atuarão como um sistema de redes inteligentes conectadas. É natural que as contínuas inovações em tecnologia da informação e comunicação propiciem inúmeras revoluções urbanas. Empresas como a IBM (Smarter Cities), Cisco (Connected Urban Development), Siemens e outras já estão desenvolvendo programas e os ofertando às cidades. Não há mistério. O século 21 mostra, cada vez mais, a substituição da economia fordista industrial pela nova economia: de serviços. É óbvio que as cidades do futuro se pautarão assim também, serão polos numa imensa rede global de conexões inteligentes. 
As pessoas serão usuárias dos diversos sistemas e terão, cada vez mais, acesso online a todos os serviços urbanos, do consumo de água à escolha do posto de saúde. Do compartilhamento de smart cars à execução de trabalho em lugares flexíveis, espaços sem dono fixo, compartilháveis.Resta saber como tudo isso será acessível, democrático, inclusivo. Novamente, olhemos a história das cidades e lembremos que elas sempre foram o espaço das contradições e conflitos de suas sociedades. Seria inocente pensar que as inovações tecnológicas do século 21 propiciarão maior inclusão social e cidades mais democráticas por si só.
*Arquiteto, mestre e doutor (FAUUSP), pós-doutorado pela California Polytechnic University,
**Trecho do artigo, " Cidades dos Futuro", originalmente publicado na Revista do CAU

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Três grandes oportunidades para transformar o transporte

Holker Dalkmann*
A necessidade de ação em transporte sustentável nunca foi mais evidente do que é hoje. A população mundial deve chegar a 9,8 bilhões de pessoas em 2050, com cerca de 70% delas vivendo nas cidades. Enquanto isso, as emissões de gases de efeito estufa (GEE) estão em ascensão. O Transporte contribui para 13% das emissões globais, impulsionando a mudança climática e criando uma perigosa poluição do ar. 
O transporte sustentável – como sistemas de transporte coletivo, ciclovias e caminhadas – tem a capacidade de salvar vidas, reduzir o uso de energia e as emissões de GEE, além de facilitar o acesso a bens e serviços que apoiem o desenvolvimento sustentável, melhorando a qualidade geral de vida nas cidades. A necessidade do transporte sustentável tem sido aceita em algumas partes do mundo e, agora, ganha força globalmente. As cidades, que são tão importantes para a economia global, desempenham um papel fundamental.

Um momento crucial para o transporte sustentável

Os bancos multilaterais de desenvolvimento (BMD) sinalizaram uma mudança de paradigma quando se comprometeram em investir U$ 175 bilhões no transporte sustentável, ao longo de 10 anos, durante a Conferência Rio+20, em junho passado. Enquanto o financiamento provém de recursos já alocados para o desenvolvimento, este compromisso representa a primeira vez que os BMDs reservaram uma quantia dessa magnitude para o transporte sustentável. Este compromisso financeiro pode ajudar a alavancar o impacto dos investimentos em infraestrutura de transporte, que já respondem por mais de US $ 1 trilhão por ano no mundo. Ele também pode apoiar o trabalho em nível nacional, bem como a liderança histórica das cidades no transporte. Temos agora uma chance de realmente abraçar o transporte sustentável em níveis local, nacional e internacional. É primordial que nós aproveitemos a oportunidade apresentada por este alinhamento sem precedentes de vontades. 

3 grandes oportunidades para transformar o transporte

1) Liderança Local - As cidades têm historicamente assumido a liderança no transporte sustentável e em iniciativas ambientais. Tomemos como exemplo a cidade de Nova Iorque: Enquanto a os Estados Unidos têm lutado para lidar eficazmente contra as mudanças climáticas, a iniciativa do prefeito Bloomberg, a PlaNYC 2030, alcançou mudanças para medir e aumentar a saúde dos nova-iorquinos, tornar as ruas mais seguras, reduzir as emissões de gases de efeito estufa e melhorar o meio ambiente. A transformação da icônica Times Square em um local de comércio e entretenimento para os pedestres irá inspirar outras cidades em todo o mundo a adotarem o transporte sustentável. A Cidade do México também tem feito progressos notáveis em relação ao ano passado, como o acréscimo de uma linha de BRT, a expansão do sistema de compartilhamento de bicicletas públicas, e a implementação de um sistema de estacionamento em uma área movimentada. Enquanto isso, o Rio de Janeiro está implementando uma rede de 150 km de corredores BRT, duplicando o tamanho de seu sistema de aluguel de bicicletas públicas, e abrindo novos espaços verdes que incentivam a vida urbana sustentável antes da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Ainda esta semana, o ex-prefeito da Cidade do México, Marcelo Ebrard, recebeu o Prêmio de Transporte Sustentável por sua liderança, juntamente com Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro. É conveniente que prefeitos e administradores municipais conduzam o transporte sustentável, já que entendem as questões econômicas, sociais e políticas específicas que impactam cada ambiente urbano. As cidades devem continuar liderando projetos sustentáveis de transporte, mesmo se eles forem financiados por dinheiro nacional ou internacional. Determinar como alavancar investimentos nacionais e internacionais, sem prejudicar iniciativas locais é um desafio fundamental para capitalizar sobre as grandes oportunidades diante de nós. Em face do aumento da motorização e urbanização, é também vital que mais cidades implementem o transporte sustentável para alcançar uma visão de rua para as pessoas e não de estradas para carros. 

2) Políticas Nacionais
Nos últimos anos, várias novas políticas nacionais foram feitas, canalizando investimentos substanciais em transporte sustentável em áreas urbanas em crescimento. Os governos nacionais começaram a mostrar interesse em transporte sustentável, pois isto ajuda o seu próprio desenvolvimento – o transporte é um fator-chave para alcançar as metas nacionais sobre as emissões de gases de efeito estufa e mudanças climáticas. O México, por exemplo, reconheceu o transporte sustentável em sua legislação sobre mudança climática de 2012, que direciona a um objetivo de redução de emissões de 30% em 2020 e 50% até 2050. A Índia é outro exemplo. O programa JnNURM II vai canalizar 40 bilhões de dólares para projetos de desenvolvimento urbano ao longo dos próximos cinco anos. E no Brasil, a fase II do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) está prestes a investir cerca de US$ 526 bilhões de 2011 a 2014, em infraestrutura urbana, energia e transporte antes da Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016. As políticas nacionais são importantes, mas devem apoiar iniciativas da cidade – e não operar em um fluxo de trabalho separado. Dada à natureza bem local do transporte e o conhecimento que as cidades possuem, as comunidades urbanas devem ser quem deve implementar melhorias de transporte sustentáveis. Os governos nacionais devem também dar às cidades mais autoridade jurídica e fiscal, permitindo-lhes servir como motores do crescimento econômico e qualidade de vida. 

3) Compromissos Globais
O compromisso de oito BMDs para investir US$ 175 bilhões em transporte sustentável ao longo dos próximos 10 anos não é o único compromisso global do transporte. A Década de Ação pela Segurança no Trânsito 2011-2021, da ONU, e a promessa da implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, também, dão maior ênfase aos benefícios humanos do transporte sustentável. Esta atenção internacional é encorajadora, mas o dinheiro deve ser gasto com os tipos certos de projetos. Os compromissos dos bancos devem apoiar a expansão significativa dos financiamentos para o transporte urbano, transporte coletivo rápido, e a integração do uso do solo – e reduzir, significativamente, os empréstimos para a construção de estradas. A Iniciativa de Transporte Sustentável (The Sustainable Transport Initiative), lançada pelo Banco de Desenvolvimento da Ásia, em 2008, é um bom ponto de partida para enquadrar esta transferência de recursos. Como os clientes dos bancos multilaterais são os governos nacionais e as autoridades locais, os bancos também desempenham um papel importante ao incentivar estados e cidades a escolherem as opções de transporte sustentável. Isto poderia ser traduzido oferecendo taxas de juros mais baixas para projetos sustentáveis, acesso mais fácil e rápido para o financiamento, e acesso direto a recursos para os governos locais. Uma ideia promissora seria misturar o financiamento dos BMDs com as finanças climáticas através de uma “Facilidade de Baixo Carbono + Transporte Sustentável”. Esta estratégia poderia promover a execução do transporte sustentável no âmbito da UNFCCC e fornecer planos de ação em transporte sustentável para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, com o financiamento que necessita. 

Olhando para o futuro
Como lidamos com o transporte hoje impactará a forma como as cidades do mundo vão operar no futuro, incluindo as suas pegadas ambientais e como elas impactam saúde, mobilidade e qualidade de vida dos cidadãos. Nós não podemos nos dar ao luxo de ignorar as três grandes oportunidades que estão na nossa frente. É importante que os investimentos locais, nacionais e internacionais trabalhem em conjunto para transformar o transporte. 
*Holger Dalkmann, diretor da EMBARQ
** Originalmente publicado, em inglês, no WRI Insights em 16/01/2013. Fonte: The City Fix Brasil

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Cidades sustentáveis precisam de um bom planejamento


Roland Busch*
Hoje, as cidades são os principais centros de crescimento das economias, bem como os centros de crescimento de populações e da utilização dos recursos. Acreditamos também que as cidades são os protagonistas, dirigindo a mudança, rumo a um futuro mais sustentável e com melhor qualidade de vida. No mundo, mais de um bilhão de pessoas ainda não têm acesso a saneamento, eletricidade ou água potável. O número de habitantes urbanos dos países em desenvolvimento deverá dobrar - de 2 a 4 bilhões de pessoas nos próximos 20 anos.
Entre 2000 e 2030, os desafios e oportunidades para as cidades nos países em desenvolvimento devem ser compreendidos nesse contexto - onde, atualmente, há uma lacuna entre a oferta de  serviços básicos  e o rápido crescimento da população urbana. Enormes quantidades de infra-estrutura terão de ser construídas em áreas urbanas nas próximas décadas.
As necessidades futuras são claras. Cidades precisam se tornar mais eficiente e com energia buscar um equilíbrio entre três objetivos fundamentais: qualidade de vida,  competitividade econômica  e proteção ambiental.
Existem cidades de todos os tamanhos e formas e algumas vão ser criados a partir do zero e muitas cidades existentes continuarão a se expandir e crescer.  O bom planejamento urbano pode fornecer a estrutura para viabilizar  decisões que são imprescindíveis para tornar os recursos eficazes e viabilizar a sustentabilidade para todas as cidades. A experiência demonstra que bem gerenciados e cuidadosamente concebido, o planejamento urbano das cidades oferecem maior bem-estar para os seus cidadãos. As decisões que os líderes locais tomam sobre a densidade, uso da terra e padrões espaciais  têm um grande impacto na consumo de energia, a produção de CO2 e os custos de construção.
Integrar o conhecimento da infra-estrutura e fornecedores de tecnologia nos estágios iniciais do  planejamento espacial é essencial para obter a infra-estrutura "certa". Parcerias entre os governos locais e a iniciativa privada também podem ser uma forma eficaz de viabilizar complexos projetos de infra-estrutura, e um setor privado ativo é essencial para enfrentar os desafios de urbanização. Investimentos em infraestrutura  são decisões de longo prazo e as escolhas que fazemos hoje vão determinar os padrões que ditam a intensidade do nosso desenvolvimento futuro. O "Planejamento urbano para os líderes das cidades", é uma iniciativa da ONU-Habitat que a Siemens tem orgulho de apoiar, porque acreditamos que planejamento urbano sustentável é um dos pré-requisitos para a infra-estrutura ecológica urbana.
Vamos tornar nossas cidades de classe mundial.
Dr. Roland Busch
CEO do Setor de Infra-estrutura e Cidades - Membro do Conselho de Administração da Siemens AG

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Planejamento que transforma cidades

Aníbal Gaviria Correa*
"Um bom planejamento irá transformar a sua cidade"
O planejamento urbano é uma ferramenta fundamental para os líderes locais no apoio à realização da visão de uma cidade. Um guia que oferece aulas e ideias sobre o planejamento urbano é importante para prefeitos e outros líderes locais. Em nossa experiência em Medellín, na Colômbia, nós aprendemos a importância do planejamento urbano para o bom desenvolvimento. Temos instrumentos para o planejamento urbano que são aprovados pelo Conselho Municipal, com o envolvimento dos moradores e é obrigatório para os líderes locais para produzir planos. Embora sejam muitas vezes considerado como uma exigência burocrática, planos urbanos - mesmo aqueles com uma validade curta de quatro anos - pode ter um impacto sobre a cidade para os próximos 20 anos e mais, se forem devidamente concebidos e sistematicamente executada.
De fato, um bom plano é a chave para o desenvolvimento. Se ele é criado com a participação dos moradores e identifica claramente os pilares do desenvolvimento futuro, pode desempenhar um papel crucial no crescimento da cidade. Seu impacto é dependente de vários fatores: ele precisa refletir o contrato social do território específico e não devem estar sujeitos à alterações abruptas e modificações com cada mudança no governo.
Em Medellín, temos conseguido uma importante transformação da cidade, porque nós conseguimos manter uma continuidade de ideias e abordagens para o desenvolvimento urbano nos últimos 10 anos. Isso foi possível porque os sucessivos governos ao longo deste período foram sincronizados – aproveitando as ideias do bom planejamento anterior, até que as metas de planejamento fossem alcançados.
Planos urbanos e a extensão de serviços e infra-estruturas que os suportam têm sido críticos em Medellín para demonstrar a presença de autoridades públicas e do Estado, especialmente em áreas da cidade onde o desenvolvimento informal era a caótica norma. A articulação dos agentes públicos para tais áreas teve um poderoso efeito transformador. Em Medellín, abordamos problemas criados pela topografia difícil para o planejamento de sistemas de transporte de massa. Lidar com a geografia e com o as necessidades de transporte de uma forma inovadora, com a utilização de vantagens económicas e ecológicas, resultou em melhoramentos na mobilidade. Isto, combinado com os investimentos em outras infra-estruturas, serviços públicos e equipamento, mudou áreas que anteriormente eram totalmente degradadas e marginalizadas.
"Urban Planning for City Leaders ", é um guia que  oferece insights de experiências reais sobre o que é preciso para ter um impacto e transformar uma realidade urbana através do planejamento urbano. É particularmente inspirador porque demonstra claramente as ligações de planejamento e financiamento, o que é importante para a efetiva execução. Planejamento urbano só pode alcançar êxito, com o investimento público e projeções realistas de investimentos.
O apoio de investidores privados, dos moradores e desenvolvedores também são importantes. Participação pública e diálogo com a comunidade são fundamentais, principalmente durante a execução de qualquer intervenção. “Planejamento Urbano para os Líderes da Cidade” apresenta muitas práticas bem sucedidas que enfatizam estratégias para abordar problemas reais. Ele compartilha ideias e fornece inspiração em torno de princípios-chave de planejamento urbano que podem resultar na transformação urbana real.
Aníbal Gaviria Correa, na apresentação da publicação da UN Habitat:  " Urban Planning for City Leaders
Prefeito da cidade de Medellin, Colômbia - 2012-2015

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Salvador: revitalizar ou expandir?

 Osvaldo Campos Magalhães*
No momento em que importantes decisões sobre o futuro de Salvador estão sendo engendradas, sem a devida participação da sociedade civil, cabe uma reflexão sobre as consequências destes atos para a qualidade de vida futura na cidade.
Em evento realizado no final de 2012, na Federação das Indústrias do Estado da Bahia, onde se discutiu os transportes e o futuro da nossa metrópole, foi ressaltado por urbanistas participantes dos diversos painéis, da necessidade de planejar o futuro das cidades não mais em função dos automóveis, mas das pessoas. Ao invés de se pensar em criar infraestruturas viárias voltadas para a expansão e espraiamento da nossa metrópole, os urbanistas presentes ressaltaram que a prioridade deveria ser a requalificação e o adensamento do centro da cidade e a priorização do sistema de transporte público de qualidade.
Discutindo-se questões semelhantes, foi realizado nos dias 17 e 18 de janeiro, em Washington D.C, o evento “Transformar os Transportes”, patrocinado pelo World Resources Institute (WRI), e que contou, pela primeira vez, com a presença do presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, talvez indicando que o transporte urbano sustentável, finalmente subiu na lista de prioridades de todo o mundo. Também ali foi ressaltada a necessidade de serem adotados novos padrões mais sustentáveis ​​de desenvolvimento urbano, com maior densidade dos núcleos urbanos e sistemas de transporte sustentáveis ​​no coração desses lugares.
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Citando o exemplo de Hong Kong, onde o número de carros havia dobrado nas últimas décadas, e que, através de uma política pública bem sucedida, que contou com o suporte do Banco Mundial, conseguiu reduzir pela metade, o presidente Jim Yong Kim afirmou. "Não tem de ser uma intervenção dispendiosa. Nós podemos intervir para melhorar a qualidade de vida nas grandes cidades". Afirmou ainda que o principal desafio será "melhorar as condições de vida de milhares de milhões no mundo que vivem nas grandes metrópoles.” Enquanto as próprias cidades devem tomar decisões difíceis, o Banco Mundial, disse ele, está disponível para prestar assessoria política e de financiamento.
Já o prefeito de NY, Michael Bloomberg, também presente no evento, e que dirige o C40: Grupo de Liderança Climática que reúne as 40 principais metrópoles do mundo ressaltou o importante papel dos prefeitos: “somos executivos e devemos decidir quem ganha e quem perde, para isto é que fomos eleitos, para tomar decisões estratégicas para o futuro das cidades”.
Bloomberg está agora cada vez mais focado no redesenho das vias públicas, adaptando-as para todas as modalidades de transporte: "prioridade agora é para as pessoas, não apenas carros.", citando a transformação da região do Times Square, que foi recentemente fechada ao tráfego de automóveis e ônibus e se tornou um calçadão permanente.
Voltando a Salvador, especificamente em relação ao projeto de construção da ponte Salvador – Itaparica, as divergências entre os urbanistas e os representantes do governo do Estado da Bahia presentes à Agenda Bahia realizada na FIEB foram gritantes. A expansão da metrópole para o vetor sul, incorporando principalmente o litoral da ilha de Itaparica, trará consequências negativas para Salvador, afirmaram os urbanistas. Será repetido de certa forma, o fenômeno observado com a expansão já ocorrida para o litoral norte, que acentuou a decadência de importantes áreas da cidade, como a sua região central e toda a cidade baixa e provocou o caos no sistema de trânsito de Salvador.
Antes de qualquer decisão sobre o projeto da ponte, valeria a pena conferir experiências de sucesso que outras cidades no mundo estão realizando, qualificando o sistema público de transportes, revitalizando as regiões centrais e melhorando a qualidade de vida dos habitantes. Os exemplos de Bogotá, Portland, Copenhagen, entre outras, deveriam nos inspirar. Estas cidades são hoje referências mundiais em planejamento e revitalização de centros urbanos.
Priorizar as pessoas, a qualidade de vida, não os automóveis e os grandes sistemas viários, eis as novas palavras de ordem.
*Engenheiro Civil e Mestre em Administração, com foco em Tecnologia, Competitividade e Estratégia

Mobilidade Urbana Sustentável

Neojiba e Filarmônica de Berlim no TCA - 21/02/03



Sob regência do pianista e maestro Ricardo Castro, este concerto com a Orquestra Sinfônica Juvenil da Bahia, do Neojibá - Núcleo de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia - terá a participação de músicos da Filarmônica de Berlim, uma das mais importantes orquestras do mundo. O público poderá conferir parte do programa da 2ª edição do Festival Música em Trancoso, que será realizado entre os dias 23 de fevereiro e 02 de março, no sul do estado, onde a Sinfônica Juvenil da Bahia se apresentará nos dias 23 e 24/02.
Data: 21/02/2013
Horário: 20:00
Valor: Gratuito

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O que o centro antigo precisa


Paulo Ormindo Azevedo*
Depois de 50 anos de abandono e algumas intervenções equivocadas, o Centro Antigo precisa de investimentos. E é assim que se entende a reação de alguns intelectuais a novos projetos. Mas investimentos dentro de um planejamento urbano para reintegra-lo à dinâmica da cidade. Não é verdade que a única possibilidade de recuperação de áreas degradadas seja a verticalização. 
Pelo contrario, a verticalização expulsa e transfere a miséria para a periferia e encostas periclitantes, com a morte da esperança e dos controles sociais.
Nesses bolsões a melhoria da mobilidade e da cultura é fundamental. A inclusão de favelas em Medelín e Bogotá se fez com a instalação do BRT Transmilenio integrado a teleféricos, recuperação de espaços públicos e construção de enormes bibliotecas. Pouquíssimos moradores foram deslocados, mas se expropriou o território das máfias, se ocupou os jovens com a internet e os esportes e se valorizou o patrimônio e a auto-estima daquelas populações marginalizadas. 
A violência urbana foi reduzida para um quinto da anterior.No Rio de Janeiro se está começando a reproduzir estas experiências com resultados já palpáveis. 
Recuperar o Centro Antigo de Salvador passa pela reabilitação dos ascensores, pela construção de passarelas ligando o Pelourinho ao Desterro, o Carmo à Saúde e galerias e elevadores subterrâneos conectando a estação de metrô do Campo da Pólvora ao Terreiro de Jesus e ao Comercio. 
Passa também pela instalação de escadas rolantes ligando a Preguiça e a Contorno ao mirante da Praça Castro Alves. Obras que devem ser complementadas pela criação de um centro cultural dinâmico no Pelourinho,aproveitando construções abandonadas, como os cines Jandaia, Excelsior e Pax, este com um estacionamento vizinho subutilizado e dar um uso cultural ao Solar do Saldanha e não apenas burocrático. A Caixa Econômica e o Banco do Brasil bancariam esses projetos prazerosamente.
Construir uma arena-de-bolso a um custo equivalente a 500 casas populares num dos maiores gargalos da cidade, ameaçando ensurdecer e quebrar as vidraças dos vizinhos,quando temos três arenas subutilizadas e um Parque de Exposições, que é o único espaço capaz de receber os festivais carnavalescos baianos é um desperdício. 
No mesmo Centro Antigo há projetos mais interessantes e menos custosos esperando financiamento, como a remodelação de três largos e um palco retrátil no Pelourinho capaz de eliminar o mafuá que se arma todo fim de ano e carnaval naquela praça.
Fica a pergunta chave, quem irá bancar e administrar a nova arena? A Secretaria de Turismo, que não tem nenhuma tradição neste campo?
Nos últimos 40 anos a cidade foi governada pela “politica do concreto”, ditada pelas empreiteiras e indústria imobiliária. Nenhuma obra urbana importante foi realizada, apenas viadutos que ligam um congestionamento a outro. 
São obras de baixíssimo nível técnico. 
Não há um só viaduto alinhado com a pista de acesso ou com concordâncias verticais e super-elevações corretas. Há inclusive um túnel que não coincide com o viaduto de acesso. A julgar pelas maquetes exibidas pela Setur, a nova arena descoberta supera tudo em termos de impropriedade urbanística, arquitetônica, paisagística e teatral. 
Quem conseguirá sentar naquela placa de concreto voltada para o poente e calcinada durante todo o dia? Qual a companhia lírica ou sinfônica de respeito irá programar espetáculo sem uma arena descoberta numa cidade que não tem estações fixas. Não estamos em Roma ou em Atenas. 
Este é mais um elefante branco que se pretende criar na cidade na onda da Copa, zombando da inteligência de seus cidadãos.
Apesar deter levado a cidade ao fundo do poço, João Henrique provocou uma reação positiva. A cidadania não aceita mais engolir sapos. Nunca se discutiu tanto a cidade nas associações profissionais e de bairros, nos movimentos urbanos, na mídia escrita e falada e em especial nas redes sociais.
A Arena Castro Alves é a bola da vez. Queremos investimentos como os sugeridos, mas sem impactos negativos e integrados ao planejamento urbano.
*Arquiteto, Urbanista e Professor - Artigo publicado no jornal A Tarde -03/02/03

Carnaval: gosto se discute, sim


Lourenço Mueller*
Pois é, o ditado popular está errado, bom e mau gosto se discutem. Não se pode é seguir a norma subliminarmente imposta pela Rede Globo que, para defender-se de programas de extrema mediocridade e mau gosto como o BBB, fomenta este medo da discordância, essa unanimidade burra – e conheço intelectual que está “embarcando” nessa de não discordar para não parecer antipático – como se polemizar fosse politicamente incorreto.  “ah, o cara é muito chato e discorda de tudo”, tenho ouvido isso, como se fosse rabugice do sujeito que tem coragem de proferir e preferir o dissenso.
Discutir a opinião do outro é até sinal de respeito, uma provocação intelectiva que dinamiza sobretudo que pode superar a mesmice dominante.
Do meu lado procuro ouvir os outros. Sugerem-me temas, discordam ou concordam, e tenho constatado que estou sendo lido até por políticos e pessoas que decidem, numa época em que não mais se lê.
Para discutir opiniões quero lembrar a entrevista do novo diretor da Fundação Gregório de Mattos, Fernando Guerreiro, na Radio Educadora no último dia 10, onde ele expressa o Carnaval como questão cultural e afirma que sua “beleza plástica se perdeu”. Também “bate” na cultura qualificando a municipal como “terra devastada”.
Concordo e discordo desse brilhante diretor de teatro que dirigiu Frank Menezes em O indignado e aproveito para desejar-lhe uma bela gestão, já não era sem tempo, a Fundação foi entregue por último a simpático puxa-saco, mas medíocre em todos os sentidos e incapaz de dar àquela instituição a grandeza que merece.
Continuo encontrando “beleza plástica” no carnaval dos blocos de trio, não é porque são burgueses que ficam feios. O carnaval de Dodô e Osmar foi feito sem cordas, enfrentou esta mesma “zelite” (com licença, mestre Ubaldo, pelo termo tão oportuno) no vagalhão da fóbica contra o desfile de carros alegóricos dos clubes de então, o Fantoches da Euterpe, o Cruz Vermelha e o Inocentes em Progresso com sua banda tocando ária de ópera Verdi, enquanto cavaleiros fantasiados, arautos de uma realeza ilegítima, cavalgavam animais imponentes na frente do carro alegórico, com sua rainha e princesas jogando beijos, confetes e serpentinas para as pessoas sentadas em cadeiras em plena Rua Chile. O “pau elétrico” e a guitarra tocando um frevo e subindo a praça do poeta esmagaram o som da banda e este foi o desastre simbólico de uma revolução social, o povo empurrando a “fóbica” e a própria felicidade, as também derrubando a baiana do acarajé e foi gente queimada por todo lado, me contou o próprio Osmar Macedo: a dupla elétrica tinha chegado para ficar.
Alguém me disse uma vez que não brincava Carnaval porque Carnaval é coisa séria e não se brinca com coisa séria; tem razão se atentarmos para a quantidade de gente que ganha um dinheiro informal com ele e outros que ganham um dinheirão nem sempre formal, também com ele. É bem verdade que esse cara caía na “coisa séria” no sábado e só tirava a “camisa listada” nas Cinzas. Mas isso é passado saudosista...
Lourenço Mueller é arquiteto, urbanista e articulista do jornal A Tarde.