segunda-feira, 22 de março de 2010

Escolho a beleza das flores

Ludmila Rohr*
Moro em Houston, no Texas, desde dezembro, (alguns de voces sabem disso). Sou baiana, nasci e me criei em Salvador. Adoro minha cidade apesar de todo o seu caos. Muitas vezes falo mal de Salvador e do Brasil, mas só eu posso falar, sou como uma mãe de bandido, sei das coisas ruins da minha cidade, mas se alguém falar mal dela, vou defendê-la.
Tenho viajado e conhecido alguns lugares no mundo e não tenho uma visão romântica com relação a nenhum deles. Estou gostando muito da minha experiência aqui nesse país, mas também consigo ver coisas, que para mim, são assustadoras. Não gosto da padronização das casas, das lojas, dos ambientes..não gosto de como as regras estão acima das pessoas, embora reconheça o quanto isso funciona, mas vejo também o quanto aniquila o indivíduo.
No Brasil o individualismo está tão acima do coletivo, que vivemos o caos da esperteza que gera o desrespeito aos direitos de todos. O ditado que mais odeio e que representa tão bem isso é: "Farinha pouca, meu pirão primeiro". As pessoas querem se dar bem, em detrimento do coletivo. Querem se dar bem, mesmo que tenham que passar na frente do outro. A pessoa acha que pode estar acima das regras, e isso é assustador também.
Nunca achei que existisse um lugar no mundo que fosse perfeito. Nunca tive a ilusão da existência de Shangrilá, e nunca o busquei fora de mim, porque sempre soube que o meu Shangrilá está dentro de mim, e esse, só eu posso acessar! Então posso ter uma visão tranqüila dos lugares que conheço e desse que moro agora sem paixões, porque o que conta pra mim são as experiências e não as paisagens.Posso inclusive, tranquilamente mudar de paisagens, pois não procuro nelas, nada que já não tenha encontrado dentro de mim.
Esse é o tema deste artigo, porque cada vez fica mais claro pra mim, o quanto as paisagens são semelhantes, mas o quanto as experiências são absolutamente diferentes! Posso viver no mesmo lugar com outra pessoa e descrever esse lugar de forma absolutamente oposta da outra pessoa, porque minhas experiências foram diferentes, porque meu olhar sempre virá carregado do meu perfume interno, das minhas paisagens internas...
Não temos poder sobre as paisagens externas, mas temos muito poder sobre as experiências. Não posso mudar o lugar que estou, mas posso mudar o meu olhar, posso decidir buscar experiências que me enriqueçam, posso escolher crescer e aprender coisas, ao invés de julgar e criticar.
Não é a melhor escolha, olhar outra cultura e julgá-la com o olhar da minha cultura, em sociologia isso chama-se etnocêntrismo. Perco tempo quando julgo outra cultura, ou mesmo outra pessoa a partir dos meus valores. Posso olhar as "paisagens" (lugares, pessoas..tudo que está fora de mim), e perceber como elas reverberam dentro de mim...como as percebo...como as sinto. Isso é bom, mas isso não produz uma verdade absoluta, isso é apenas minha experiência.
A primavera chegou nos EUA. Nunca morei em lugar que houvesse primavera, então tem sido uma experiência mágica. As flores simplesmente começaram a brotar por todos os lugares. As cores são lindas. Tudo muito encantador... Fico muito feliz de ver algo assim e de poder falar sobre isso. A primavera é linda! Junto com a beleza da primavera, vieram meus espirros. Espirro o tempo todo. Percebo que tem algo a ver com as flores que estão em todo lugar. Percebo também que posso começar a culpá-las pelos meus espirros...e transformar a linda primavera em uma vilã na minha vida. Calma...., pois definitivamente, não farei isso.
Que venham as flores, e se o preço pra ver esse espetáculo for espirrar muito, que venham os espirros! Cada vez que eu espirrar pensarei nas flores e o quanto elas estão encantando minha alma e saberei que é um preço justo...justíssimo!
Namastê
*Ludmila Rohr é psicoterapeuta e professora de Hatha Yoga

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