domingo, 31 de maio de 2009

Indicação de viagem: Pucon

Aos pés do vulcão
por Fabio Rigobelo

Antes de chegar a Pucón, ainda na cidade de Villarrica, na extremidade oposta do lago de mesmo nome, um cheiro peculiar começa a tomar as narinas: a lenha que queima em praticamente todas as casas e estabelecimentos das duas cidadelas deixa no ar um constante odor de lareira, amadeirado e defumado, como um perfume indicando conforto e calor.
Localizada 785 km ao sul da capital do Chile, Santiago, Pucón tem características que fazem dela uma espécie de Campos do Jordão chilena, guardadas as devidas diferenças: é uma cidade encravada nas montanhas (no caso, nada menos do que os Andes chilenos), assumidamente turística e de clima frio, cheia de bons hotéis, opções de lazer e paisagens elegantes, com um leve ar europeu. Um gigante não adormecido, porém, é o grande atrativo dessa pequena cidade.
Como uma imensa sentinela guardando Pucón, o Villarrica pode ser considerado o "vulcão ideal": simétrico, lembra o formato do monte Fuji, no Japão. Sempre coberto de neve e constantemente soltando fumaça, ele teve sua última grande erupção em 1984. Os caminhos abertos pela lava são agora córregos de águas límpidas de fundo escuro, resultado da solidificação do material incandescente que desceu rumo ao lago queimando tudo.
Com 2.847 m de altura, o Villarrica é o principal destino dos aventureiros que visitam Pucón. De carro ou van, chega-se rápido ao centro de esqui localizado na base da montanha, a 1.200 m de altura e a 12 km de distância da cidade.
Apesar de simples, se comparada aos superequipados centros de esqui de Santiago ou do Valle Nevado, a estação de Pucón oferece nove teleféricos e aluguel de todo o material necessário para quem quer esquiar. Quem curte caminhar não deve perder a fantástica vista da cratera do vulcão. Ir ao topo e voltar, porém, não é brincadeira e leva cerca de quatro horas. Mas o visual compensa o cansaço e uma provável dor de cabeça, causada pela altitude.
Bela vista - Cortada pela simpática avenida O’Higgins, Pucón tem boas opções de comércio e vários cafés e restaurantes simpáticos. Objetos do artesanato mapuche (os nativos daquela região), roupas de lã e equipamentos para esportes dominam as vitrines da cidade.
Seguindo a mesma avenida em direção ao lago, chega-se a um destino peculiar: com sua areia negra e água geladíssima, La Poza, a principal e minúscula "praia" de Pucón, fica lotada de famílias chilenas, de fanáticos por esportes aquáticos e de turistas durante o verão. É um cenário privilegiado para quem se hospeda no Gran Hotel Pucón, o mais antigo da cidade (1936).
Nada comparado à maravilhosa vista que se tem de qualquer quarto do Villarrica Park Lake Hotel, localizado em um ponto do lago sem praia, a 13 km do centro, na bucólica estrada que liga Pucón a Villarrica.
Abrir as cortinas de manhã, ao acordar no Villarrica Park Lake, é um convite à contemplação: com sorte, é possível observar coelhos no jardim, enquanto a névoa vai se dissipando e revelando os patos em sua água prateada.
Com 70 quartos e um spa formidável, o Villarrica hospedou em sua suíte presidencial, em 2003, o então casal Leonardo DiCaprio e Gisele Bündchen, devidamente acompanhado da família da top, acontecimento largamente divulgado pelos orgulhosos funcionários do hotel.
Um pouco mais perto de Pucón, a cerca de dois quilômetros do centro, fica o hotel Antumalal, construído em 1945 pelo arquiteto chileno Jorge Elton. Hoje decadente, o prédio ostenta, nas paredes do hall de entrada, fotos de erupções do Villarrica. Há imagens também da rainha da Inglaterra Elizabeth 2ª, que se hospedou por ali nos anos 1960.
Cravado à beira do lago Villarrica, o Antumalal ostenta as formas modernas e funcionais típicas da arquitetura da Bauhaus, mescladas com muita madeira, pedras e peles de animais.
Já o Hotel del Lago, localizado logo atrás do Gran Hotel Pucón e um dos grandes da cidade, não precisou da ira do vulcão para arder em chamas: pegou fogo em 2007, lotado de hóspedes. Ninguém se feriu, mas o prédio continua vazio. Seu grande diferencial, porém, continua ativo: livre do incêndio, o Enjoy Casino & Resort, logo ao lado, tem unidades espalhadas por todo o Chile, onde o jogo é permitido e funciona a todo vapor.
Escondidas sob as paisagens frias da região de Pucón e Villarrica, com seus vulcões cobertos de neve, existem fontes de águas termais, aquecidas pela mesma lava que jorra dos vulcões e responsáveis por cerca de dez estações termais, todas com acesso fácil desde o centro de Pucón.
Divididas conforme a temperatura, as piscinas do parque termal Menetúe, localizado a aproximadamente 30 km do centro, deixam qualquer um relaxado, com águas naturalmente aquecidas a mais de 30ºC. Banhos de barro, saunas, duchas e um restaurante são outras opções de lazer, abrigadas sob uma construção rústica, com muita madeira e vidro, através do qual é possível ver os corajosos frequentadores que ousam entrar nas piscinas descobertas, onde a temperatura externa, no inverno, fica por volta de 5ºC.
No caminho para Menetúe é possível ver bem de perto o rio Trancura, cenário de esportes radicais, como rafting e rapel, principalmente nos dias mais quentes. Rodeada por riachos de águas cristalinas, lagos grandes e pequenos e parques nacionais, Pucón reúne os requisitos ideais para quem procura contato direto com a natureza, alternando esportes de inverno e o aconchego dos seus hotéis.
ONDE FICA
Pucón fica no Distrito dos Lagos, na nona região chilena (Araucanía). Durante o inverno, o aeroporto da cidade fica fechado. É preciso tomar um voo de Santiago até Temuco e, depois, um ônibus para Pucón (cerca de 110 km de distância)
PARA QUEM Famílias, casais, amantes de esportes radicais
QUANDO IR De julho a setembro, para quem quer esquiar; dezembro a fevereiro, para aproveitar a "praia" e o verão
MOEDA R$ 1 = 278 pesos chilenos, aproximadamente (cotação da última quarta-feira)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O Folclore nos Transportes

Almir Santos
Engenheiro Civil, cultiva o mar, a lua, música e as histórias da Cidade do Salvador.

Não constam em nenhum dicionário, mas são palavras e expressões que fizeram ou fazem parte da história dos transportes de Salvador. Algumas datam do tempo dos antigos bondes. Vejamos:
Marinete: denominação dada aos primeiros ônibus de Salvador por serem lançados na época que passou pela cidade um poeta futurista italiano chamado Marinetti;
Saltar: descer do transporte;
Pongar: pegar o bonde em movimento;
Despongar: descer do bonde em movimento. Nisso um jovem chamado Zeca Maria, que morava na Rua Treze era um craque nos bondes 14-Rio Vermelho, 16-Amaralina e 36-Segundo Arco. Pongava, despongava dos bondes de frente, de costas, na mão, na contramão, driblava os postes que se situavam no meio da pista. Um verdadeiro artista dos bondes.
Paraquedista: aquele que descia do bonde em movimento para não pagar a passagem quando o condutor se aproximava. Assim, de bonde em bonde chegava ao destino. Gente importante, hoje Conselheiro do Tribunal de Contas, confessa que assim fazia quando jovem nos bondes da linha 8-Liberdade para chegar ao Centro.
Fazer terra: aproveitar-se do bonde ou ônibus cheio para se encostar às garotas;
Traseirista: quem desce do ônibus pela porta traseira sem pagar a passagem;
Motô: motorista de ônibus;
Cobra: cobrador de ônibus;
Morcego: meninos de rua que viajam agarrados nas carrocerias dos ônibus Cozinha: parte traseira dos bondes;
Galinheiro: bonde com apenas um controler e o lado esquerdo fechado com tela;
Humilhante: ônibus ou bonde;
Busu: ônibus;
Curral: passagem estreita na entrada o ônibus antes da catraca para forçar o passageiro a pagar a passagem;
Viajar de 11: aquele que se desloca a pé;
Pegar o bonde de Canela: aquele que se deslocava a pé no tempo dos bondes;

Salvador, rica em histórias e folclore, o transporte não podia ficar à margem, tinha de dar a sua parcela de contribuição.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Seminário discutirá a Orla Atlântica de Salvador

A importância da orla atlântica de Salvador não carece de ser enfatizada. É também evidente que ela está a merecer especiais cuidados e requer a adoção de medidas de amplo alcance. Proteger a paisagem urbana, garantir o manejo adequado de áreas, ampliar o espaço público para lazer, disciplinar seus usos e garantir de forma equilibrada e sustentável o desenvolvimento são algumas medidas necessárias. O objetivo do Seminário Orla Atlântica de Salvador, a ser realizado nos dias 28 e 29 de maio no auditório do CREA, é abrir um espaço de discussão democrático que garanta a reflexão sobre o assunto e estabeleça as bases para um acordo de princípios sem o qual não poderá haver planejamento eficaz e coerente. O Fórum de Entidades em Defesa dos Interesses Coletivos da Cidade do Salvador e Região Metropolitana – A Cidade Também é Nossa e O Movimento Vozes de Salvador pretendem, com este evento, iniciar um diálogo que envolva gestores públicos, técnicos, estudiosos, comunidades e segmentos interessados, de modo a fazer com que o planejamento indispensável de uma política urbana para a orla tenha caráter participativo e ponderado, com base em princípios claramente estabelecidos.
Objetivos
Debater as propostas pertinentes ao tratamento da orla atlântica de Salvador; Suscitar o diálogo amplo entre os setores, instâncias de governo, segmentos e comunidades diretamente interessadas na questão da orla atlântica; Buscar uma definição dos critérios que devem orientar os planos e projetos pertinentes à Orla Atlântica de Salvador. Inserir a sociedade civil organizada no debate e na gestão de um plano para Orla Atlântica de Salvador.
Discussões
Os expositores irão abordar temas relacionados aos diferentes aspectos da Orla Atlântica de Salvador, buscando discorrer sobre os princípios e critérios que devem guiar o planejamento do espaço em questão, considerando também sua relação com todo o complexo urbano da capital baiana. Serão analisados diferentes perspectivas, aspectos físicos da orla, contemplando infra-estrutura, formas e perfis de ocupação; a configuração da paisagem urbana; os imperativos da preservação do patrimônio histórico-cultural nela destacados; aspectos econômicos e ambientais pertinentes; interesses da população praiana e dos usuários em geral do espaço em tela (e dos equipamentos aí disponíveis ou passíveis de implantação); aspectos legais e relativos à preservação do patrimônio cultural envolvido e concernentes à cidadania, a ser contemplados no planejamento e na execução de projetos.
Feitas as exposições, será realizado um debate e finalmente um relator fará um apanhado das conclusões que encaminhará por escrito ao Fórum para fomento de novas análises e futura preparação de documento pertinente.
DATA: 28 e 29 de maio de 2009
LOCAL: Auditório do CREA-BA
ENDEREÇO: Rua Prof. Aloísio de Carvalho Filho, nº 402, Engenho Velho de Brotas, Salvador – BA
Inscrições:3453-8937 E-mail: inscrição@creaba.org.br

terça-feira, 26 de maio de 2009

Satélite europeu flagra rotas da poluição de navios

Mapa mostra que caminho de cargueiros corresponde a pontos críticos de poluição.

Um mapa criado com imagens de satélite obtidas ao longo de sete anos flagrou um dos maiores poluidores ocultos do planeta: os milhares de navios que cruzam os oceanos, invisíveis da maioria das pessoas. Dois pesquisadores da empresa francesa CLS usaram imagens de radar feitas pelo satélite europeu de monitoramento do ambiente Envisat e produziram uma imagem da densidade das rotas de navios em torno da Europa. A concentração de navios correspondeu perfeitamente aos pontos críticos de poluição sobre o continente por óxidos de nitrogênio, em geral também associados a áreas de intensa industrialização (veja quadro nesta página). Esses compostos lançados no ar, quando combinados com água, podem produzir chuva ácida. É a primeira vez que dados de detecção por satélite de navios por um período extenso são usados para criar uma visão global dos padrões de tráfego marítimo. O mapa foi feito por Vincent Kerbaol e Guillaume Hajduch. CLS é a sigla para Coleta Localização Satélites, nome da companhia subsidiária da agência espacial francesa CNES e do instituto de pesquisa oceanográfica Ifremer.Eles usaram imagens feitas pelo instrumento conhecido como Asar, o radar de abertura sintética do satélite. Esse tipo de radar usa o movimento da sua plataforma -no caso, um satélite- para criar uma longa "antena" virtual e produzir imagens detalhadas. O Envisat é o maior satélite de sensoriamento remoto ambiental já lançado até agora.
Portos
A densidade do tráfego e a poluição foram particularmente elevadas em torno dos portos de maior atividade no norte do continente europeu, como Calais (França), Antuérpia (Bélgica), Roterdã (Holanda), Bremen e Hamburgo (Alemanha). Ironicamente, os navios são o meio de transporte mais eficiente em termos de uso de energia e capacidade de carga. Mas, para serem ainda mais econômicos, costumam usar combustíveis de pior qualidade que são grandes emissores de poluentes, como óxidos de enxofre e nitrogênio. O combustível de um navio cargueiro pode ter até 2.000 vezes mais enxofre do que o óleo diesel usado em automóveis na Europa. A poluição não afeta apenas peixes, pois a maior parte da emissão é feita perto da terra. Graças a isso, várias cidades portuárias sofrem mais com a poluição marítima do que com as emissões de seus próprios carros e indústrias. Um relatório recentemente divulgado pela agência americana Noaa (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) mostrou que os milhares de navios navegando em torno dos portos do sul da Flórida, muitos deles de cruzeiros, criam uma "preocupação de saúde significativa para as comunidades costeiras". Segundo Daniel Lack, pesquisador da Noaa e da Universidade do Colorado, os cerca de 51 mil navios mercantes hoje navegando emitem um volume de poluentes particulados equivalente a 300 milhões de automóveis (metade da frota de veículos de todo o planeta). Estatísticas sobre navios em operação são pouco precisas; contando embarcações menores, o número atingiria 90 mil. Esses particulados são levíssimos, por isso podem permanecer por dias na atmosfera e serem levadas a dezenas de quilômetros de onde foram emitidas. E elas podem causar desde uma irritação nos olhos e no nariz até agravar problemas respiratórios, como asma.
RICARDO BONALUME NETO - Folha de São Paulo

sábado, 23 de maio de 2009

Indicação do Blog: BUDAPESTE

Diretor cria filme realista para narrar trama fantástica
INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA

É um estranho filme, "Budapeste". Tudo nele sugere o fantástico, o onírico, exceto a sua mise-en-scène. Tudo gira em torno de José Costa, escritor anônimo, ghost-writer no dialeto editorial, que escreve livros para outros assinarem. A mulher de Costa é uma tola, que idolatra a fama -em particular a dos escritores. Vive em companhia de um escritor sem saber o que ele faz. A situação existe, aparentemente, no vazio: nada obriga Costa a ser ghost-writer, muito menos a esconder o fato da mulher. A ideia de que faz isso porque é apaixonado não se sustenta.Mas não são as explicações realistas que sustentam a trama. Costa vai para a Hungria, onde conhece uma garota e toma contato com a estátua do escritor desconhecido, autor de uma saga nacional que fez questão de permanecer anônimo. O fundamento do filme começa a se mostrar: Costa entende que as palavras não pertencem a ninguém, são patrimônio da língua, que existe algo de vergonhoso em quem se apossa delas para uso pessoal.Desde então sabemos o que significa Budapeste na construção do filme: não uma outra cidade, mas a própria alteridade, a diferença entre a existência real e seu duplo imaginário.Porque a vida real quer, praticamente exige, que ao lado do RG apresentemos um currículo, a lista de feitos capazes de distinguir alguém. Nesse outro mundo, sonhado, Budapeste, a existência é de certo modo incorpórea: lugar perfeito para perder a identidade. As palavras entram na vida como meros significantes, de maneira que Costa quase se envolve numa briga pela pronúncia da palavra andorinha. Esse aspecto fantástico se acentua em momentos como o improvável congresso de ghost-writers.Ora, o interessante de tudo é que a mise-en-scène de Walter Carvalho evita tratar o fantástico como tal. Budapeste não é apenas um som, é de fato a capital da Hungria, e bem concreta é Kriska (Gabriella Hámori), a bela garota que se dispõe a lhe ensinar o idioma "que até o diabo respeita". Os ecos de alegoria desaparecem sob esse tratamento, para, no entanto, retornarem de forma insidiosa, em momentos específicos. Exemplo: quando vemos a capa de um livro que Costa escreveu para outro assinar, ela é idêntica à de "Budapeste". Ou quando Chico Buarque em pessoa (autor do livro adaptado e, queira ou não, uma celebridade) surge pedindo autógrafo.Entrada duplamente significativa: primeiro, porque ele é o sujeito oculto da narrativa (quase como o poeta anônimo de Budapeste), segundo porque ali ele permite que essa dupla natureza se revele, como o mágico que expõe sua magia. Algo que, me parece, funciona bem (e salva o frágil happy end) graças ao fato de Carvalho optar pelo registro realista, de tal modo que a postulação do homem como ser quase infinito, cuja existência se desdobra em livros, palavras etc., acaba se encontrando perfeitamente com a imagem furtiva de alguém famoso (Chico Buarque), mas de quem podemos adivinhar ali as muitas vidas desconhecidas.
Avaliação: bom

Eu ví esta cidade crescer

Almir Santos
Na minha primeira Geografia Atlas da Editora FTD Salvador tinha pouco mais de 300 mil habitantes. Sou do tempo dos bondes que se arrastavam lentamente pelas poucas linhas que existiam. Menos de 40. Pavimentação geralmente a paralelepípedos ou pedras irregulares, também chamadas cabeça de nego, era privilégio de poucos bairros, como Barra, Barra Avenida, Graça, Canela, Campo Grande, Tororó, Nazaré, Barris. Santo Antônio, Barbalho, Soledade, Lapinha e Campo Santo. Nesses bairros a linha férrea dos bondes era implantada em ruas pavimentadas ou calçadas, como se dizia antigamente. Asfalto era uma coisa rara. Nas demais, as linhas em leito natural, eram muito irregulares e causavam muitos acidentes. As linhas que utilizava para ir à escola para o lazer 14-Rio Vermelho, 16-Amaralina e 36-Segundo Arco, todas com terminal no centro, só tinham pavimento até a Avenida Leovigildo Filgueiras, Garcia. O resto era quase tudo sobre a terra. Daí, só um pequeno segmento no Rio Vermelho tinha pavimentação. Algumas, entretanto tinham pequenos trechos sem pavimentação como 18-Ribeira via Luiz Tarquínio, 19-Ribeira via Dendezeiros e Brotas. Era um transporte folclórico. Os passageiros, condutores e motorneiros se conheciam pelo nome. Os pontos de parada eram próximos. Basta dizer que no centro da cidade havia pontos no Terreiro de Jesus, Circular (hoje Coelba), Belvedere, Praça Municipal, Rua Chile, Largo do Teatro (Praça Castro Alves) São Bento etc. Vi bondes circulando pelas estreitas ruas do centro, Rua do Liceu, do Saldanha, do Tijolo, da Barroquinha. Automóvel só para quem tinha muito dinheiro. Sabiam-se a placas dos carros e os respectivos proprietários. Por exemplo, n.º 1 pertencia a Navarro Lucas, 5 Raul Farias, 11 Antônio Balbino, 12 José Silveira, 13 Fileto Sobrinho, 22 Arnaldo Silveira, 44 Álvaro Silveira, 50 Luiz Eugênio, 70 Miguel Vita, 99 e 100 Companhia Linha Circular. Poucos eram os taxis, os chamados carros de praça. Seu Candinho, o nosso preferido tinha a placa 1448. Ao todo era menos de mil veículos a frota de Salvador. Vi esta cidade crescer. Imponentes eram os prédios do Palace Hotel, Secretaria de Agricultura, Jornal A Tarde na Cidade Alta e do Instituto de Cacau na Cidade Baixa. Vi serem erguidos o edifício SULACAP no centro e o Oceania na Barra. Mais tarde sugiram na Barra Avenida o Eldorado e na Graça o Catarina Paraguaçu, monumentais para a época. Timidamente surgiu o Edifício Cruz na Rua Portugal, onde funcionou a sede da Construtora Odebrecht, e o Edifício Martins na Rua da Espanha. Em nome do progresso, mas sem ser observada uma ocupação racional, a Cidade Baixa foi se transformando aos poucos e perdendo a sua paisagem colonial. Surgiram os Edifícios Paraguaçu, Belo Horizonte, Nelson Farias, Comendador Pedreira, Cidade de Aracaju, Larbrás, Suerdick e Cidade do Salvador. Vi serem arrasados dois quarteirões do Bairro da Sé para se construída a atual praça. Restaurantes, bares, botecos e pastelarias eram pouquíssimos. O Colon na Praça Riachuelo, O Conquistador na Barra, com a Galinha de Ouro do Manuel, são os de lembrança mais remota. Café da manhã, almoço, jantar eram rituais bonitos quando a família se reunia diariamente. Por isso pouco se usavam restaurantes. Tomei gasosa de limão ou de morango na Pastelaria Centro Popular na Sé. Havia também O Perez, O Triunfo e O Centro Universal. Comi cocada branca e preta de uma baiana que ficava em frente à Farmácia Minerva também na Sé Lembro-me dos botecos Danúbio Azul na Rua d´Ajuda, famoso pela sua bebida Príncipe Maluco. Do Nacional da Rua do Bispo e do Center-Forward na Rua Cezar Zama. Ambos muito simples. Bebia-se em pé. Certamente todos os bares e restaurantes, pastelarias e botecos da cidade juntos caberiam no Largo da Mariquita no Rio Vermelho. Vi esta cidade crescer. Vi a chegada de novos bondes, 25 com bancos estufados forrados em couro verde. Vi a extinção gradativa dos transportes por bondes e o crescimento dos ônibus, carinhosamente chamados de marinetes pelos baianos, pelo fato do lançamento do primeiro ônibus em Salvador coincidir com a passagem por aqui de um poeta futurista italiano chamado Marinetti. O transporte por ônibus não conseguia sobreviver por muito tempo. Era um dono de um único ônibus que obtinha uma licença para operar em uma determinada linha, mas não tinha bom resultado, até que foi se firmando aos poucos inicialmente na cidade baixa. Vi esta cidade crescer. Vi o Quarto Centenário de Salvador. A encenação do Auto de Graça e Glória da Bahia em para comemorar o grande acontecimento. A Construção a Estrada Amaralina – Aeroporto, pavimentação da Avenida Amaralina, o prolongamento da Rua Osvaldo Cruz, do primeiro trecho da Avenida Centenário em pista simples. Vi a inauguração do Fórum Rui Barbosa. Vi o Campo da Graça e a inauguração do Estádio da Fonte Nova. Vi a criação do SMTC-Serviço Municipal de Transportes Coletivos, inicialmente operando com uma frota ônibus Volvo a diesel na Avenida Vasco da Gama, que recebera uma total pavimentação numa faixa de 7 metros Vi a extinção em massa de todas as linhas de bondes da Cidade Baixa para a implantação dos ônibus elétricos do SMTC. Eram 50 ônibus FIAT - Alfa Romeu, mas a subestação só tinha a capacidade de operar 25, por isso quando um quebrava entrava um novo em operação e assim a frota foi sendo sucateada. Um absurdo! Vi a encampação da Companhia Linha Circular, que operava os bondes, e estes serem incorporados ao SMTC. Vi crepúsculo dos bondes. Vi esta cidade crescer. Vi o carnaval sentado tranquilamente em cadeiras colocadas na Avenida Sete, por onde desfilavam os carros alegóricos dos grandes clubes, os blocos, os caretas e os carros com foliões Vi o transporte por ônibus ser definitivamente implantado. Vi o asfalto chegar definitivamente e atender a todas as linhas operadas por ônibus. Vi a construção de seu pé do Centro Administrativo da Bahia – CAB desde a primeira secretaria implantada a SEPLANTEC em 1973. Depois foi a Secretaria dos Transportes no mesmo ano. Vi surgir o primeiro grande shopping com 150 lojas, hoje ampliado para 600. Vi a proliferação de shoppings e o crescimento vertical da cidade. Vi a primeira boate, a primeira sauna e o primeiro Supermercado. Vi o primeiro hipermercado. Vi crescer uma rede de farmácias hoje com mais de 100 lojas. Aos poucos fui perdendo a conta de quantos novos edifícios iam sendo construídos. Os sobrados coloniais da Cidade Baixa dando lugar a prédios de 10 andares. Os palacetes do Corredor da Vitória e da Graça dando lugar a prédios de 20, 30 andares. A Ondina, a Valdemar Falcão perdendo o verde e sendo ali implantados, prédios de até 40 andares. Vi surgir o Caminho das Árvores, Itaigara, o Imbuí, o Costa Azul o Costa Verde, Patamares, Cajazeiras, Mussurungas, Castelo Branco, Pedras do Sal, Stela Maris, Praias do Flamengo e tantos outros novos bairros. Vi as invasões dos Alagados e Corta Braço, hoje Pero Vaz Vi o rasgar de grandes avenidas. Vale de Nazaré, Bonocô, Contorno, Vale do Canela, Garibaldi, Lucaia, Chapada, Vale do Camurugipe. Paralela. Vi túneis furarem elevações e encurtarem distâncias. Vi a população aumentar aproximadamente 10 vezes e a frota de veículos aumentar 600 vezes. Até onde vamos? Vi esta cidade crescer e continuo vendo.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Humor nos Transportes

Almir Santos
Linha 426 – Santa Mônica/Pituba, oito horas da manhã.
Gordo, simpático, careca de cabelo comprido a lá Erasmo Carlos.
- Cobra, você quebrou a mulher do mingau. Gritou irritado o motorista para o cobrador. - Isso não se faz. Agora ela não vende mais fiado pra motorista nem pra cobrador. Isso não se faz, repetiu.
Ainda se fosse um barão ou numa loja... Eu, por exemplo, tenho tudo do bom e do melhor em casa: geladeira duplex, freezer, máquina de lavar roupas, ar condicionado, processador, lava-louças, computador top de linha, micro-ondas, DVD, TV plasma 42 polegadas. Pago as primeiras prestações, depois deixo de pagar.
- E o SPC?
- Não tem problema. Já sou conhecido lá. Sempre resolvo tudo. Quem tem orgulho de não ter o nome no SPC não tem nada e vai viver sempre vida de pobre.
- Aluguel, pago uns meses, depois deixo de pagar.
- E o despejo?
- Não tem problema. Já sou conhecido no Fórum. Da última vez que recebi a visita do oficial de justiça, pensei: vou ser despejado mesmo, desta vez não tem jeito... Fui falar com proprietário, decidido, com firmeza: chefe, vim resolver nosso problema.
- Ótimo, disse ele animadíssimo.
- Vou ser despejado e quero que o senhor me arrume o dinheiro do carreto. A viagem foi rápida e divertida. De certo, o simpático motô (motorista) não é nada disso.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Mês de Maria : Apenas uma recordação

Angelina Bulcão Nascimento
Maio: mês de Maria. Esta equação foi desmanchada pelo tempo. Indiferente, a cidade nem ouve o repicar dos poucos sinos convidando para festejar Nossa Senhora. Mês de Maria passou para o baú de lembranças. Décadas atrás, que diferença! Igrejas cheias, desfiles de vestidos novos. Flertes disfarçados e mexericos cochichados. Um acontecimento social. As novenas do mês de maio reuniam a população baiana nas igrejas. Curiosamente, nove eram os dias seguidos do castigo de açoites, infligido aos escravos.
Hildegardes Vianna, folclorista famosa de nossa terra, contava que maio podia ser considerado o mês mais festeiro. Além das novenas e ladainhas, nos lares católicos, armava–se um altar na sala de visitas ornamentado com angélicas e rosas brancas. Canções eram entoadas antes dos convidados se fartarem de arroz-doce, com canela e bolos. Depois das orações, havia serenata debaixo de uma mangueira. Segundo H. Vianna, a devoção foi introduzida na Bahia na segunda metade do século XIX, tornando–se pretexto para festas e comemorações profanas. Desde abril, providências eram tomadas para a ornamentação do altar, que exigia metros de papel crepom, papel fino e material para a confecção de flores e laços, ou para os comes e bebes, escolha e ensaio do coral. As costureiras enlouqueciam para dar conta das encomendas dos vestidos... E as famílias tradicionais disputavam, entre si, a honra de enfeitar o altar da paróquia. Cada dia, uma era escolhida. E cada qual se empenhava em fazer da sua ornamentação a mais rica em flores, e a mais colorida. Os ricos faziam festa dançante, serviam licores e doces finos. Em suas casas, não entravam “penetras”, e sua ausência, segundo Vianna, roubavam parte da graça. Pois eram sempre as mesmas pessoas, o mesmo cerimonial. O fato de o dono da casa assumir todas as despesas, preferindo a etiqueta à espontaneidade, tirava parte do encanto das noites marianas nos salões faustosos, ou mais ou menos pretensiosos. Os 'tachos', nome dado aos pianos eram alugados quando, na residência, não houvesse o instrumento. Às 18 horas, os sinos das igrejas tocavam alegremente chamando os fiéis para a ladainha. Os jardins da Piedade eram os mais concorridos. Pouco antes da cerimônia, as moçoilas casadoiras desfilavam, exibindo suas toaletes e procurando atrair a atenção dos ‘gabirus’. Estudantes de Medicina e Direito, especialmente os formandos, eram os mais cotados. Entre troca de olhares e troca de bilhetes, poderia nascer um compromisso para todo o sempre. Na igreja, transformada em um só buquê, intenso era o cheiro de incenso. Luzes em profusão. E o arrastar cadenciados dos 'ora pro nobis'. Se a Piedade foi das mais concorridas, Nazaré não ficava atrás. Remanescentes saudosos contam que os sermões do Padre Santana arrancavam risadas dos presentes, principalmente quando imitava as modas femininas e as danças em voga. No último dia do mês, havia a tradicional procissão, que percorria alguns bairros da cidade. Antes, porém, a imagem de Nossa Senhora, entronizada nos píncaros do altar-mor, era coroada por crianças vestidas de anjinhos. Encarapitadas nas proximidades da santa, provocavam ohs e ahs de admiração dos fiéis, ou de susto quando pareciam se desequilibrar, e indisfarçável orgulho dos pais. Sobre este costume, ainda em voga em cidades do interior, conta-se muitas histórias, algumas deprimentes, outras engraçadas.Em algumas paróquias, dirigidas por padres racistas, as menininhas de cor eram proibidas de serem anjinhos, pois onde já se viu anjo escurinho no céu?!. Os anjos eram louros, de preferência de olhos azuis e com rosto bonito. Mas aconteceu também o inesquecível episódio da garota que, de tanto medo de despencar lá de cima, fez xixi. O líquido escorreu pelo rosto da imagem da Virgem, até que foi visto por uma das beatas que anunciou histericamente Milagre, milagre, Nossa Senhora está chorando!. O caos instalou-se na igreja e, antes que o caso fosse levado ao Vaticano, alguém examinou as lágrimas e desfez a ilusão. Contava Vianna que " Nem todos gostavam de declamações." "Alguns poemas eram trágicos, ou terríficos, tais como ‘O Baile das Múmias’, ‘a Louca de Albano’". As gerações atuais arregalam os olhos, quando ouvem os antigos falar com saudades de tanta animação. Não podem compreender que graça tem namorar dentro da igreja... Mudou o cenário do namoro e as diversões também se transformaram e se multiplicaram. Hoje, apenas as fiéis devotas da Virgem, que continuam frequentando as igrejas, protestam. “Prefiro o mês de maio do meu tempo! Missa tem quando se quer. Mês de Maria, só em maio” –– opina uma assídua frequentadora da Paróquia da Vitória. Outras solidariamente concordam, lamentando, entre suspiros nostálgicos, o mês de maio não ser mais como antigamente...

terça-feira, 19 de maio de 2009

O Brilhante Nailton Santos.

Oliveiros Guanais
Nailton Santos, irmão do famoso geógrafo Milton Santos, foi meu companheiro de política estudantil. A vida nos separou e depois nos encontramos apenas duas vezes, e conversamos, conversamos. Nailton era um negro inteligente, desaforado, irônico, sarcástico, brilhante e bote adjetivo nisso. Metia medo nas assembléias estudantis de que participava, nos idos de 1956 a 1960 . Os oradores que falavam depois dele tinham quase um refrão: ”como bem disse o colega Nailton, da Bahia”...ou “eu concordo plenamente com o colega Nailton”, coisas assim. Era um passaporte que usavam para ganhar a tolerância dele.
Depois do golpe, Nailton percorreu o mundo, sempre a trabalho. ONU, UNICEF, Europa, África. Voltando ao Brasil, foi Secretário de Miguel Arraes, em Pernambuco. Casado com uma holandesa, continuou sua vida de peregrino a serviço das boas causas.
A morte de Nailton ficou sabida em Salvador por notícia de A TARDE. Ele já não era lembrado por essas bandas; quando vinha aqui, ficava quase despercebido, hospedado no Praia Mar Hotel. Seu palco havia mudado, seus contracenantes já não eram vistos mais. Nailton era amigo de Edivaldo Boaventura e este, fiel à condição de católico praticante, mandou celebrar missa por ele, na Igreja da Vitória. Lá estávamos os amigos, amigos de diversas épocas. Edivaldo falou, elogiou o morto, disse que morreu de repente olhando para as nuvens, para o céu , e que estava ao lado da esposa.
Terminada a sua fala, franqueou o microfone para algum amigo que quisesse fazer uso da palavra, dando depoimento do Nailton que conhecera. Ninguém se movimentou. Logo, o espaço era meu. Levantei, dirigi-me para o altar, e perguntei a Edivaldo no caminho : - posso falar? –Claro,- disse ele. E eu falei. Ou melhor, tentei falar. Que coisa difícil é falar sobre a morte de um amigo, principalmente no altar de uma igreja! Mas dei conta do recado, dentro de minhas possibilidades emocionais.
Não falei o que gostaria de ter dito, mas referi-me às travessuras de Nailton, às ricas travessuras de Nailton, à sua genialidade, às suas gargalhadas provocativas. Gostaram. A mulher de um dos amigos presentes disse para mim:- gostei do que você falou. Você, quem é?- Vejam, os amigos mais recentes de Nailton e de convivência mais longa com ele estavam lá, conheciam-no bem, eram cultos, mas nenhum teve a coragem que eu tive. Ouvi, na hora, uma pequena discussão entre eles, um cobrando a fala que não houve por parte do outro.
É. É difícil falar numa igreja, mesmo sendo agnóstico. Mas eu falei.

Salvador, 21 de janeiro de 2006

domingo, 17 de maio de 2009

Minha querida rua Treze (final)

Almir Santos
Os bondes eram o único meio de transporte da rua. Passavam pela Rua Garibaldi as linhas 14 – Rio Vermelho, 16 – Amaralina e 36 – Segundo Arco. Quando precisávamos de um transporte especial meu pai recorria aos serviços dos carros de praça. Lembro-me bem de Inocêncio, João Costa Santos, Humberto, Manuel de Lucila. Mas o preferido mesmo, o pioneiro, era Seu Candinho, que morava próximo, na rua dos Protestantes. Seu carro era um Chevrolet 37, placa 1448. Sempre que íamos ao Bonfim usávamos seus serviços.
Meu pai, Álvaro, era muito querido. Uma figura carismática. Tinha um grande espírito público. Sem ser político, mas com um bom relacionamento com as autoridades, ia conseguido as melhorias para a rua: alargamento, pavimentação, iluminação, água encanada etc
Basta dizer que a Rua Treze sendo uma transversal, foi pavimentada antes da rua principal.
Outra conquista foi a primeira linha de ônibus: Segundo Arco-Praça da Sé. Os primeiros ônibus que operaram nessa linha foram os de números dois e três. Euclides, que dirigia o número dois, era o mais efetivo e mais simpático dos motoristas que se revezava com Borracheiro, Base Aérea, Djalma e Hildebrando.
Entre os cobradores, os mais efetivos eram Lindo Olhar, Ailton, Macaco, Pileque e Mário Bocão.
Era um transporte folclórico. Não havia horário. Como os motoristas ganhavam por comissão, ficavam esperando o bonde para saírem na frente e angariarem mais passageiros.
Os ônibus eram marca Ford a gasolina, 28 assentos. Mas a linha chegou a contar com ônibus, Mercedes, zero quilômetro com 36 lugares.
Mas o meu pai não se limitava a conseguir melhorias para a nossa rua.
Era muito alegre e adorava organizar festas de queima de Judas e festas de São João. Sempre com o apoio de minha mãe.
Há até a história de um balão de 16 metros que parecia um zepelim com três bocas, construído por ele. Foi um sucesso, muito comentado. Quando o balão passou nas proximidades do campo da Graça, o locutor Ubaldo Câncio de Carvalho, que transmitia um jogo, deu um especial destaque ao acontecimento.
Mas a grande alegria da família aconteceu em 1958.
Meus pais completaram bodas de prata. Minha irmã Noélia terminou o curso de contabilidade, Nely completou 15 anos e, juntamente com meu irmão Ayrton, concluí o curso de engenharia civil.
Realmente um ano de muitas alegrias. Ano de bodas, festa de 15 anos e formaturas.
Foram 40 anos bem vividos.
Estas são as histórias de MINHA QUERIDA RUA TREZE, cujas páginas do tempo não podem mais voltar.

sábado, 16 de maio de 2009

Quem fica parado é poste!

Angelina Bulcão Nascimento
Sobre as recentes manifestações de revolta em vários bairros de Salvador, como ocorreu em São Cristóvão, não temos análises nem pesquisas de estudiosos, que apontem para uma mudança de comportamento da população acusada de conformismo. Serão fatos isolados? Se a mudança é ocasional, o futuro dirá. Pois a fama do baiano sempre foi de acomodado, preferindo engolir o sapo a reivindicar. Não conheço estudos a respeito da dificuldade das pessoas não reclamarem seus direitos, dos mais simples aos mais graves. Descrédito? Descaso? Preguiça? Vergonha? Cansaço? Hábito entranhado? Tolerância mil? Medo de ser chato ou antipático? Ninguém ainda reclamou! É réplica comum às raras queixas provocadas por algum produto com defeito, ou algum prato de restaurante mal–feito. Em geral, o baiano não reclama. Mas também não volta. Antes mesmo da propalada crise, não foram poucos os restaurantes, lanchonetes, lojas fechados, aumentando o nível de desemprego. Há quem diga que, em nossa terra, os locais entram na moda e rapidamente saem. No início, todos cheios, fazendo furor, filas de espera. E depois, o esvaziamento, especialmente se o serviço e o que for oferecido não for muito especial. Este tipo de comportamento conformista é mais difícil de entender, quando se trata de exigências relativas à conservação da própria vida. Todo ano, quando chove, encostas caem, casas desabam, carros ficam submersos, arrastões acontecem em engarrafamentos quilométricos, pessoas morrem e dão graças aos céus quando enfrentam ‘apenas’ a perda dos seus lares. Assistimos, ao vivo e a cores, cenas filmadas das tragédias, lamúrias, resignação, e nenhuma iniciativa para resolver o problema crônico, ou reivindicações sérias e organizadas, para que os órgãos responsáveis tomem providências. Mais fácil afirmar que foi a vontade de Deus. Espectadores se comovem, muitos enviam alimentos e roupas, e logo esquecem, pois o permanente verão baiano reaparece. Rapidamente voltamos à idéia de somos um país tropical, abençoado por Deus. Não temos neve, furacões, ciclones, maremotos. Ainda! Mas temos árvores ocas caindo, ameaçando pedestres e carros, graças à gula dos cupins. Temos violência urbana, falhas de atendimento médico, salas de aulas precárias, que não dependem da natureza, e também continuam sem solução. O tema do conformismo aparece na imprensa, em artigo assinado por João Carlos Teixeira Gomes, ‘nosso’ Joca, em ‘A Tarde’ do dia 14 p. p. intitulado Vem quem quer . Escreve o autor: " Claro, protestar para quê? Temos de aceitar os fatos como são. (...) é assim, a grosso modo, o brasileiro. Passivo. Envergonhado de gritar de público diante das injustiças ou dos prejuízos que lhe causam. (...) No coletivo, é um ser resignado ". O artigo nos mostra que o conformismo não se limita aos baianos, como tantos apostam. Apelar pelos direitos, parece ter se transformado em uma forma de agressão. Joca conta que pagou mico, no Rio, ao cobrar bom atendimento, em ocasiões em que idosos estavam sendo indevidamente tratados. E qual não foi sua surpresa ao escutar de uma velhinha: Meu senhor, vem quem quer, não é verdade? Conta também que, de outra vez, ao alertar para o perigo de um elevador por demais cheio, ouviu de outra velhinha: “Para de falar, chega, chega, o senhor está aqui espalhando terrorismo!” Difícil explicar este fenômeno que deve escandalizar estrangeiros, pois estes, segundo dizem, estão sempre prontos a exigirem bom funcionamento, bom atendimento. Eu mesma tive oportunidade de, na Inglaterra, vivenciar um exemplo: havia colocado uma moeda numa máquina de refrigerantes de hotel, e a máquina não funcionou. Uma velhinha, que estava ao lado, ficou espantada de eu desistir, e não pedir de volta a moeda. Eu repliquei que eram apenas centavos. Ela, então, abriu a bolsa, achando que eu não havia compreendido, e sacudiu as moedas exclamando enfaticamente: money! certamente criticando alguém que parecia não valorizá–lo.Tive que prometer que iria reclamar, só para tranquilizar uma velha senhora agoniadíssima. Desconfiando de que eu não pretendia fazer nada, ela arrancou uma página de um bloquinho que carregava na sacola, e escreveu em letras grandes: out of order pendurando o pequeno cartaz na máquina grevista. E saiu muito empertigada, com ar de quem cumprira um dever cívico. Motivada por uma simples moedinha... A impressão é de que, além do receio de ser chato ou rabugento, está havendo uma aversão generalizada a cobranças, queixas, reclamações, sejam lá do tipo que forem. Mesmo que dirigidas a quem os está prejudicando. Em contrapartida, os silenciosos prejudicados queixam–se entre si ou aos seus analistas. Poucos aguentam tomar diariamente conhecimento de crimes, violência urbana, corrupção, cinismo. Em contrapartida, vivem assustados, ou transformam as críticas em humor, que espalham pela Internet. Volto ao artigo citado: “Vem que quer! Quando ouço ainda hoje estas palavras, que ressoam como uma maldição em meus ouvidos inconformados, lembro–me sempre da bela e poderosa frase, segundo a qual um povo que não luta pelos seus direitos verdadeiramente não merece tê–los. Assino em baixo”. Assinando, também, em baixo do texto de Joca, lanço a pergunta neste blog intitulado SALVADOR DO FUTURO. O que fazer para que, no futuro, o povo de Salvador saia da apatia, descubra fórmulas sem violência para ter assegurados seus direitos de cidadão? Admitimos que reclamar é necessário, mas não basta. Pode ser, no entanto, um indício de insatisfação, que dê pistas aos responsáveis interessados no bem comum. Por isso, mesmo não tendo fácil acesso às camadas menos favorecidas economicamente, este blog vem sendo um espaço para a expressão de idéias relativas aos problemas de nossa cidade. Sugiro, pois, que seja cada vez mais ampliado o número de pessoas que apresentem sugestões não utópicas, viáveis, para os problemas que nos atingem, e possíveis de serem realizadas, pelos que não desejam virar postes. Lembrando que até estes podem cair, com uma ventania mais forte...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Definição no porto

Levi Vasconcelos
O ministro Pedro Brito (foto) da Secretaria Especial dos Portos, ligou para Jaques Wagner e bateu o martelo: vai viajar com Lula hoje e, assim que voltar, nomeia José Moniz Rebouças, o indicado de Otto Alencar, para a direção da Companhia das Docas da Bahia (Codeba).
A notícia exatamente no dia em que instituições como a ACB (Associação Comercial da Bahia), ABTP (Associação Brasileira dos Terminais Portuários) e Sindopsa (Sindicato dos Operadores Portuários de Salvador) defenderam a permanência na Codeba do atual presidente em exercício, Newton Dias, que lá está desde que Marco Antônio Rocha, indicado de Lídice da Mata, pediu demissão por não concordar com a forma como o governo quer conduzir a ampliação do Porto (é a favor de nova licitação e não o aditamento do contrato que beneficia o Tecon, atual operador). Dizem os representantes dessas entidades que Dias foi quem mais tempo ficou no cargo, que os portos baianos vivem um momento crítico (o volume de cargas caiu 28,3% no trimestre) e o tratamento da questão deve ser técnico e não político.
Santa ingenuidade. O governo baiano iria abdicar de nomear o novo diretor? Pois sim...
Publicado no Jornal A Tarde - Tempo Presente

MP entra na briga

O Ministério Público Federal entrou na briga do Porto de Salvador, travada entre o Tecon e a maioria das outras operadoras. Instaurou inquérito para apurar a suposta violação do princípio da livre concorrência, pela Codeba. A razão da polêmica está na forma como o governo federal vai tocar o projeto de ampliação do Porto. Uma opção é fazer licitação, e a outra é aditar o contrato do Tecon, que já controla a parte ativa hoje. O governo inclina-se pelo aditamento, os outros operadores reagem. Eis a questão.
Notícias publicadas, no jornal A Tarde.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Mar, Navios e Portos

Oliveiros Guanais
O mar sempre foi estratégico para os homens e nações situados à sua beira. E foram justamente as nações marítimas, mesmo pequenas e frágeis, que avançaram à conquista de territórios distantes, descobrindo terras e matando ou escravizando seus antigos moradores.
Percebendo, antes mesmo de Pompeu ter avisado que navegar é preciso (navigare necesse...), os homens já tinham se aventurado ao mar em busca de mercadorias para o seu sustento.
E, claro, antes dos navegantes, surgiram as embarcações. E as embarcações pediram lugares de chegada e de partida, e para esse ir e vir foi preciso que se construíssem os portos, estações mais antigas inventadas pelo homem.
O mundo desenvolveu-se e coisas novas chegaram, para andar por terra ou voar pelos céus, mas as embarcações não cederam seu espaço, apenas aperfeiçoaram-se para a competição.
Tornaram-se grandes para grandes cargas. Luxuosos para as grandes exigências dos viajantes ricos. E numerosos para atender à demanda do mundo crescido, que faz dos navios o meio indispensável para cruzar os mares e chegar a outros continentes, levando o que se produz num lugar e carregando o de que se precisa noutro.
O comércio marítimo acompanhou a história das civilizações, e hoje está com exigências maiores do que antes, bastando dizer que 95% do comércio brasileiro além fronteiras se faz por via marítima.
Temos visto na imprensa - e este blog do Osvaldo tem dado atenção especial ao tema - que os portos precisam de evolução e eficiência para que as numerosas necessidades de atracação de cargueiros de grande calado não encontrem impedimento em estruturas portuárias inadequadas.
Podem as cidades desejar a chegada de grandes aeronaves se os seus aeroportos não oferecerem pistas de tamanhos apropriados para aterrissagens e decolagens? Todos sabem que não, porque uma pista curta pode resultar em catástrofes que atingem vidas humanas, e isso justifica não só a comoção que geram como o martelamento persistente da mídia sobre o assunto.
Mas o problema dos portos é silencioso. Se navios não podem atracar no porto de Salvador ou de Aratu, ou o fazem com atraso e custos operacionais elevados, isso é um problema de natureza comercial e econômica, e a população fica de fora como se não lhe dissesse respeito.
Se os cargos de direção da Codeba, a começar pelo de presidente, não são preenchidos com a celeridade necessária, isso é problema restrito e só conhecido por notícias ligeiras em jornais, e fica de lado a magnitude do problema que isso representa.
A população deve esperar, dos técnicos e especialistas em portos, as soluções para os problemas estruturais e físicos que precisam de respostas. Dos gestores encarregados de administrar o funcionamento das organizações portuárias, a competência e dedicação a serviço do bem público. Dos políticos, o necessário interesse por esse problema de importância magna para a nação, que não pode ficar, com mais de oito mil quilômetros de costa marítima, com esse sistema de transporte bloqueado por limitações que precisam desaparecer, mesmo que à custa de muito esforço e dispêndio.Mas o problema é que os portos não falam, como falam as rodoviárias e os aeroportos, lugares em que as pessoas se concentram e fazem sua grita, quando são desatendidos.
Vale aqui o comentário de Victor Hugo em um dos seus mais belos romances: “ai dos que são mudos”.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Minha querida rua Treze (2ª parte)

Almir Santos
Engenheiro Civil
Cultiva o mar, a lua, a musíca e
as histórias da cidade do Salvador

.....temos muitas histórias pra contar, muitas recordações e muitas alegrias. Era uma rua pequena. Grandes eram os seus moradores que formavam praticamente uma família.....

Algumas mudanças viriam depois. Seu Arnaldo construiu uma casa num terreno da esquina e mudou-se. Dava a frente para a Garibaldi, a de número 71. Era despachante aduaneiro, tinha uma boa condição financeira. Chegou a ter sete casas alugadas além de uma para veraneio em Itapagipe.
Foi o primeiro da rua a ter um carro particular. Um Ford Anglia, de fabricação inglesa, cuja placa era 230. Nessa época o Botafogo do Rio de Janeiro costumava entrar em campo com um mascote. Um cachorrinho branco e preto chamado Biriba. Por isso o carro de seu Arnaldo foi apelidado de Biriba.
Foi o primeiro também a fazer uma grande viagem, saiu de Salvador de trem até Juazeiro, pegou um navio gaiola, subiu o São Francisco até Pirapora, depois foi ao Rio de janeiro, retornado a Salvador de navio pela Costeira.
O segundo carro da rua foi o de Arivaldo, genro de Seu Fausto, que já tinha mudado para a casa n.° 13. Um Chevrolet 40, placa 1547. O nosso foi o terceiro. Um Austin modelo A 40, placa 620.
Mais ambicioso, seu Arnaldo foi à Europa numa excursão em 1950, o Ano Santo.
A Rua Treze era uma transversal da rua Garibaldi. Por isso aqueles moradores próximos à rua Treze faziam parte da comunidade.
Além de Seu Arnaldo, já morando no 71 na Garibaldi, moravam Seu Romualdo, Seu Eugênio Tranquilli, Seu José Bahia, Jaime Carneiro.
Não se podem esquecer aquelas vizinhas bonitas: Dona Carmosina, Dona Hilda, a alemã, e Dona Valdete.Era uma família, onde todos se conheciam e todos se respeitavam.
Ayrton, meu irmão mais próximo em idade, era meu parceiro. Muitos descendentes daquelas pessoas viriam a ser os nossos primeiros amigos. Entre eles, Milton Chagas, Dega, Valter, Valdemar, Francisquinho, Dedeco, Lulu, Abilinho, Raimundo Barreto...
Milton nos ensinou a jogar botão e nos incentivou a gostar de futebol. Comprava semanalmente as revistas O Globo Esportivo e o Esporte Ilustrado. Lia, depois passava para nós. Era torcedor do América, depois mudou para o Vasco. Na Bahia torcia pelo Ypiranga.
Entusiasta pelo jornalismo, Milton Chagas editava um jornal manuscrito dedicado ao esporte que informava sobre um campeonato de botões de uma liga dos Barris e um futebol de várzea do mesmo bairro. Sua vocação se concretizou com o ingresso na Rádio Sociedade onde tinha um programa diário às 11:00h, denominado Cadeira de Engraxate.
Dega, seu irmão era muito bom de bola, mas não tentou se profissionalizar.
Valter e Valdemar eram netos de Seu Fausto. Tocavam violão e violino. Fizemos com eles muitas serenatas.
Os moradores iam se renovando. Uma das mudanças foi o jovem Fred Meting que veio morar na casa onde morou Seu Epifânio. Descendente de alemães, Fred se destacava por contar suas aventuras. Falava muito de cinema, montarias, brigas, namoradas e suas primeiras inserções no mangue. Neste ponto, Dega também era craque.
No decorrer dos anos, outros tantos nomes viriam fazer parte da comunidade como Jorge Caveirinha, os irmãos Fortes que foram chegando, os Gavazas, Nilton Tranquilli. Zezinho de Dona Mimi, Heralda, Osman, Maria Bahia, Lia, Ciro, Julimar, Naná, Neínha e tantos outros...
Nossos primeiros contatos com a bola de meia foram na rua com os gols marcados com duas pedras.
Nessa época outros meninos começaram a fazer parte dos babas de rua. Ivan Lima, Fifia, Manoel Berro Grosso, Herádio, Evandro Caranguejo, Cadu, Zé Cutia...
Outro bem sucedido foi Ivan Lima. Nas férias minha mãe permitia a realização do campeonato de botões. Organizávamos um campeonato com os sete clubes que disputavam o campeonato baiano. O meu time era o Botafogo. Ayrton Vitória, Dega Ypiranga, Ivan Galícia, Fifia Guarani, Chico Fortes Bahia e Almir Fernandes, (único convidado, pois não era da rua) São Cristóvão. O primeiro campeão foi o Botafogo.
Ivan tinha um vozeirão e narrava o jogo de botão como se fosse uma partida de futebol. Quando se entusiasmava, minha mãe, que sempre tinha pelo menos uma criança dormindo, dizia: Ivan, baixe o rádio.
Muito esforçado. Filho de Dona Coló, uma baiana de acarajé, enteado de Adalberto Engraxate, procurou estudar. Ingressou garoto na Western Telegraf como estafeta.
Mas sua vocação se concretizou. Foi contratado pelo serviço de alto falantes A Voz da Avenida, logo passou para a Rádio Excelsior da Bahia. Nunca transmitiu um jogo na Bahia, mas fez sucesso como locutor esportivo na Rádio Poti da Natal e finalmente na Rádio Clube de Pernambuco, onde chegou a dirigir o Departamento de Esportes. Conheceu o mundo acompanhado a Seleção Brasileira e dirigiu o Geraldão (Ginásio de esportes Geraldo Magalhães) em Recife. Grande trajetória ! ! ! ( continua)

terça-feira, 12 de maio de 2009

Federação das Indústrias quer definição de nome para Codeba

Mais uma entidade torna pública sua preocupação com a instabilidade que ronda a Companhia Docas do Estado da Bahia (Codeba) nos últimos anos. Em entrevista exclusiva ao blog, o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Reinaldo Sampaio, classificou como “não conveniente” o impasse que cerca a nomeação do novo presidente da estatal responsável pelos portos de Aratu, Ilhéus e Salvador. O presidente interino Newton Dias completou cinco meses de mandato tampão, comprovando que a preocupação da Fieb tem fundamento.
“Considerando que a economia baiana responde por cerca de 50% do comércio internacional do Nordeste, a atenção e os investimentos por parte da União não só podem como devem ocorrer nos portos da Bahia. Até por isso, entendemos não ser conveniente o prolongamento da interinidade dentre outros aspectos, porque inibe ações de maior envergadura. Outro aspecto também indesejável é a chamada descontinuidade administrativa. E, sem dúvida e sem medo de errar, os portos da Bahia hoje apresentam insuficiências infra e superestruturais”.
Outro ponto polêmico que o vice-presidente da Fieb não se furtou a responder foi o interminável processo de discussão acerca da expansão do Porto de Salvador, em especial do que será feito com a exploração dos contêineres no maior porto do Estado. Empresários reclamam do monopólio da Wilson Sons, arrendatária do Tecon Salvador, e pedem que uma nova área seja licitada para que haja concorrência nas operações. Já o concessionário mostra-se interessado em ampliar o terminal , hoje sub dimensionado para receber os navios conteneiros em operação no Brasil (foto), restabelecendo o equilíbrio econômico financeiro do contrato. Neste caso, argumentam não ser exigível a abertura de concorrência pública.
“Esta é uma questão delicada e que ganhou dimensão maior que a sua importância. Mais importante que o modelo da estratégia da expansão é a visão de longo prazo e esta está abrigada no Plano Diretor Portuário da Bahia, que não tem sido objeto das reflexões necessárias. O Plano Diretor contempla a estratégia portuária da Bahia para os próximos 25 anos e nela está abrigada não só a expansão da Ponta Norte (novo terminal), mas a orientação para garantir a hinterlândia portuária para depois da expansão . A Bahia é o sexto estado mais rico do Brasil mas nem isso garante os investimento necessários em infraestrutura".
“A acessibilidade é condição precípua de atratividade e garantia da competitividade. E os portos baianos apresentam insuficiências nos modais ferroviário e rodoviário. Questões que estão em vias de solução através de investimentos previstos no PAC. Até por isso queremos para a Codeba um líder com visão empresarial. A Codeba não deve e não pode ser uma empresa deficitária. Teremos em poucos anos o Porto Sul em nosso Estado, um complexo aeroportuário que acelerará o desenvolvimento da Bahia e exigirá portos públicos cada vez mais eficientes”, diz Reinaldo Sampaio.
Artigo publicado hoje no Blog Porto Gente

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Caymmi e o trabalho

Oliveiros Guanais
Trabalhar é criar, destruir ou transformar alguma coisa, pela inteligência, pela inspiração, pelo conhecimento ou pela força. Acho que esta definição é razoável. É indecência justificar a exagerada riqueza de uns dizendo que trabalham muito, como se o operário em construção não trabalhasse nada. A riqueza nada tem a ver com trabalho, mas com esperteza. Também é parvoíce ou má-fé considerar preguiçoso um homem de gênio e talento, como Dorival Caymmi, que produziu uma das mais belas obras musicais e poéticas do Brasil, tendo por alvo e beneficiária, quase sempre, a Bahia, a Bahia em que viveu a mocidade e guardou no coração. Caymmi, em sua fase ativa, cantou as baianas, Itapoã, a Lagoa do Abaeté, os coqueiros, o mar e os pescadores, colocando esta terra como fonte permanente de beleza e inspiração. Caymmi não foi vencedor quantitativo de criação, mas, de qualidade, sim. Foi o expoente da obra-síntese, pouca mas perfeita. Que Caymmi virou o símbolo nacional do charme e do dengo, vá lá, porque, afinal, ele era um artista. Mas que era o símbolo da preguiça é transferir para ele o que os paulistas dizem de todos os baianos, e isso parece coisa de meninos que procuram eximir-se de culpas transferindo para outros os defeitos ou erros que lhes são atribuídos. (Argumento da delação). Caymmi compôs pouco porque não trabalhou por encomenda, nem para atender aos pedidos do momento, nem pensou em ganhar dinheiro fazendo música. Para ele, “a gente faz [apenas] o que o coração dita”. Caymmi há de ser lembrado sempre, enquanto houver memória e sensibilidade para apreciação da beleza.(E, de sobra, deixou também para os seus filhos o dom divino da música)

Indicação do Blog : Projeto IAB Bahia - "Depoimentos de Arquitetos Baianos"

Dando seguimento às memoráveis palestras dos arquitetos João Filgueiras Lima, o “Lelé”, e David Bastos, o “Projeto Depoimentos de Arquitetos Baianos” promoverá, no próximo dia 12 de maio, às 18:30h, no Auditório I da Faculdade de Arquitetura da UFBA, encontro com a arquiteta baiana Naia Alban.
Naia Alban Suarez se graduou em arquitetura pela Universidade Federal da Bahia em 1985, e a partir de 1987 se transferiu para Madri, onde desenvolveu sua tese de doutorado sobre a morfologia urbana de Salvador. Após a defesa da tese e o retorno para Salvador, em 1994, têm atuado como pesquisadora e professora da FAUFBA, onde atualmente ensina Ateliê de Projeto no quarto ano e coordena o Trabalho Final de Graduação. Paralelamente às atividades acadêmicas, lidera com Moacyr Gramacho o escritório Sete43 Arquitetura, tendo desenvolvido dezenas de projetos arquitetônicos e urbanísticos em diversas áreas, bem como projetos de cenografia e de arquitetura de eventos. Participou de diversos concursos e premiações nacionais e internacionais, destacando-se o 1º lugar na categoria Arquitetura de Espaços Urbanos na VI Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Urbanismo de Lisboa em 2008 pelo projeto da Praça Turca de Juazeiro e a seleção dos projetos da Casa Curva (2002) e da Casa Muro (1998) para participar da Exposição Comemorativa de Arquitetura do Ano do Brasil na França em 2005.
O Projeto “Depoimentos de Arquitetos Baianos” é uma iniciativa do Departamento da Bahia do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-BA) e da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (FAUFBA), marcando os cinqüenta e cinco anos de fundação do IAB-BA e os cinqüenta anos de criação da FAUFBA. Entre março e dezembro, em uma terça-feira a cada mês, o IAB-BA e a FAUFBA promoverão uma palestra com um arquiteto sediado em Salvador, tendo como tema a sua trajetória profissional. Para os jovens estudantes, uma oportunidade de travar contato pela primeira vez com a obra de experientes profissionais; para os arquitetos, a possibilidade de escutar, de um colega, um relato das suas experiências.

Fonte: IAB - Bahia

domingo, 10 de maio de 2009

Minha querida rua treze (1ª parte)

Almir Ferreira Santos
Engenheiro Civil
Cultiva o mar, a lua, música e as histórias da Cidade do Salvador


A origem do topônimo nunca me foi explicada convincentemente. Alguns dizem que todo o dia 13 de maio, Seu Fausto, um misto de músico, mestre de obra e marceneiro, reunia os músicos da família, que eram muitos, e amigos para uma apresentação. Há outras tantas histórias, mas de fato, quando me entendi já havia a placa Rua Souza Uzel colocada justamente na minha casa, n.° 6, a primeira da rua.
Confesso que não sei quem foi o homenageado que deu nome à rua, mas há registro na história de Salvador de uma escritora Carmosina de Souza Uzel, filha de Francisco Carlos de Souza Uzel.
Seu Fausto era o decano da rua. Morava na casa n.° 20. Lembro-me bem do seu aniversário. 10 de dezembro, sempre comemorado festivamente.
Os meus pais foram morar lá em 1933, numa casa construída para se casarem. Lá nasceram e cresceram seus 13 filhos. Norma, Almir, Ayrton, Norma Maria, Noélia, Antônio, Nely, Ari, Adi, Nildes, Ademir, Alvinho e Nubinha. Só nos mudamos em 1973.
Por isso temos muitas histórias pra contar, muitas recordações e muitas alegrias. Era uma rua pequena. Grandes eram os seus moradores que formavam praticamente uma família.
Lembro bem dos nossos primeiros vizinhos: Seu Arnaldo e Dona Alice. As nossas casas eram separadas por um muro baixo que dava para minha mãe, Núbia, e Dona Alice baterem um papo diário, atualizando os acontecimentos.
Conta minha mãe uma história que o primeiro nome que falei, para orgulho de Dona Alice e ciúme dela, foi Lice.
A filha Marina era muito ativa. Gostava muito de cantar, pular corda, correr, brincar de roda, andar em alta velocidade no velocípede.
Organizava trezenas de Santo Antônio, cujas velas de tostão eram colocadas em castiçais improvisados. Tampas de cerveja.
Depois vinha a casa de Seu Epifânio, (um empregado da Companhia Linha Circular), Seu Barreto, Seu Anísio (também empregado da Circular), Seu Pacífico, Seu Fausto, Seu Anfilófio (Seu Tatá)...
Uma coisa que me marcou nessa época foi Doralice, filha de seu Epifânio, cantando A VIDA É UMA ROLETA e pedindo-me para cantar O VAGABUNDO de Vicente Celestino. Barbaridade ! ! !
Do outro lado da rua moravam seu Manuel, cuja casa foi desapropriada para alargamento da rua. Com isso a primeira casa desse lado ficou sendo a de dona Damiana, embora sua fachada desse para a Rua Garibaldi.
Em seguida havia a casa de Dona Flora, mãe de Mocinha. Era uma casa de taipa coberta com pedaços de telha e zinco, muito pequena situada numa baixada. Depois, o n.° 13, de propriedade de Seu Fausto que alugava. Sempre estava mudando de inquilino.
O 15 era o armazém e residência de Seu Abílio, um português, casado com Dona Alice, que viria ser madrinha de um dos meus irmãos.
No n.° 17, morava Dona Menininha, mãe de Joaninha que mais tarde casaria com meu tio Edmundo.
No 19, Seu Joaquim, um sertanejo muito engraçado, em cuja casa tomei o primeiro pileque de minha vida numa festa de São Pedro. Falava demais, por isso foi até preso político.
Mais adiante moravam Seu Jorge, Seu Miguel, Seu Francisco Bocão, Argemiro Sapateiro, Tenente Artur Chagas, Seu Cristóvão, dono de uma pequena venda, Seu Mota, Dona Dudu, Seu Macedo e Chico Português, estes, donos de hortas. Paulo Lima a quem meu pai costumava visitar aos domingos para tomar um copo de cerveja era o mais distante morador.
Transversal à Rua Treze era a subida para o Alto do Candomblé, hoje chamado Alto do Gantois.
Lá moravam Seu Santinho, (que disputava com meu pai as pegadas de arraia), Seu Lili (o pintor), Zeca das Gueixas, (um carnavalesco que organizava o cordão As Gueixas em Folia) Zeca Maria, Honório, Dona Catarina.
Nezinho era filho de dona Catarina. Ele entrou na Marinha e foi à segunda guerra mundial. Sempre aplicado e com o tempo de guerra contado em dobro conseguiu, muito novo, entrar para a reserva como tenente. Um vencedor. Um exemplo de pessoa. Por sinal tomou-me para padrinho do seu filho Sidnei.
Honório trabalhava na marinha mercante. Muito simpático, destacava-se pelo fato de falar inglês e gostar de praticar atividades físicas. Grande figura.
Esse era o desenho mais remoto que tenho dos moradores da rua quando comecei a me entender. (continua...)

sábado, 9 de maio de 2009

Salvador, a cidade das chuvas

Antônio Risério
Vamos direto ao assunto. Chega desse papo furado de que a Cidade da Bahia é sinônimo de sol. O que mais temos aqui são chuvas. Logo qualquer prefeito medianamente inteligente tem de ser obrigado a pensar no seguinte. Esta não é uma cidade que precisa se fantasiar para o sol. Mas sim, se preparar para as chuvas.
Salvador é uma cidade com uma espantosa capacidade de produzir discursos ilusórios sobre si mesma. Discursos míticos e mistificadores. Nestas direções agem conjuntamente (embora não necessariamente de forma coordenada ou pelas vias da cooptação) o aparelho estatal, os intelectuais e muitos artistas. Assim foram criados muitos mitos baianos. E que conseguiram se nacionalizar pelo simples e eficaz fato de que conseguiram fazer com que os próprios baianos acreditassem nesses mitos.
A Bahia emitiu para o Brasil a mensagem de que aqui vive um povo ensolarado, preguiçoso, impontual, relaxado, sensual e feliz. Este foi um discurso elaborado simultaneamente, por políticos, gestores públicos, empresários, escritores e músicos populares. Mas resiste o mito à menor análise dos fatos? Claro que não.
Caymmi virou o símbolo nacional do charme, do dengo e da preguiça da Bahia. Mas quem disse que baiano é impontual e preguiçoso? Se de fato fosse, o Pólo Petroquímico de Camaçari simplesmente não funcionaria. Baiano trabalha – e muito. Caymmi nunca foi a regra. Mas, sempre a exceção. Os baianos que acreditaram nessa história estão a ver navios. Gostamos também de acreditar que fazemos sexo como ninguém. É outro mito. Fazemos sexo como o fazem muitos outros povos. Se baianos fosse assim tão gostosos, muitas das mulheres aqui nascidas não estariam vivendo hoje em outros países – da Europa ao Canadá – e alegres e felizes da vida com os maridos que escolheram ter.
Os mitos da preguiça e da sensualidade, todavia, não são diretamente prejudiciais à nossa vida cotidiana na cidade. Já o mito do sol sim. A gente se comporta como com se em Salvador, o sol reinasse o ano inteiro. E não é o que acontece. O sol, aqui, é um ilustre passageiro visitante. Um visitante que nunca se dignou a se demorar no céu da cidade.
Mas gostamos de pensar o contrário. Achamos que vivemos sob o signo do sol. É uma tremenda mentira. Salvador é uma das cidades com os mais altos índices pluviométricos do País. Chove aqui o ano inteiro. O sol, entre nós, tem um breve reinado. Vai, no máximo, de novembro a fevereiro. Ainda assim, em meio às chamadas chuvas de verão. Durante o resto do ano, é chuva e chuva e mais chuva.
Esta é uma cidade de céu predominantemente cinzento. De ruas e becos alagados. De enxurradas descendo dos morros. De riachos transbordando. De casas se movendo perigosamente nas encostas. De águas arrastando barrancos e barracos. De dezenas e dezenas de deslizamentos de terra. De crianças encharcadas, tossindo, chorando, pela noite fechada, cheia de lama.
E, no entanto, continuamos a acreditar que Salvador é a cidade do sol. É impressionante a facilidade com que mentimos para nós mesmos. Foi por isso mesmo que fiz a minha novela A Banda do Companheiro Mágico se passar sob um aguaceiro. Onde entre outras coisas, escrevi:
“Chove no Brasil, Atlântico Central. Chove mais ainda no recôncavo baiano. Chove ainda mais na capital baiana. Chove sem cessar na falha geológica de Salvador. Chove, chove, chove. Cidade de chuvas densas. Cidade das águas bruscas.”
Todo ano, entretanto, as pessoas me dizem: “Está chovendo demais”. Não, não está chovendo demais, está chovendo como sempre. Como sempre chove todo ano. O problema é outro. É que todo mundo embarcou na canoa furada ideológica da cidade ensolarada. Mas onde é mesmo que fica esta Salvador, cidade do sol? Aos mais de 50 anos de idade, tendo nascido aqui, ainda não tive o prazer de conhecê-la. Cidade do sol, meus amigos, é Fortaleza. Salvador, não. Nunca.
É estranho que os moradores locais, abrindo guarda-chuvas e metendo o pé na lama, não vejam isso. Mas muito mais estranho ainda é que administradores públicos caiam também, e com gosto, neste conto do vigário do sol. Eles deveriam ter um mínimo de sensatez e realismo. E, em vez de executar frescuras de veraneio, fazer coisas mais sérias para as chuvas.

Artigo publicado originalmente no jornal A Tarde

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Dois extremos das encostas: Pelourinho e comércio

Gey Espinheira
O Centro Histórico de Salvador se apresenta nas duas extremidades da encosta, tanto no bairros do Pelourinho na Cidade Alta, como no bairro do Comércio na Cidade Baixa, sendo a ligação entre os dois níveis da cidade feita através de ladeiras, elevadores e planos inclinados. O bairro do Comércio, na parte baixa da cidade, tem como sua principal característica a função portuária. Sucessivos aterros afastaram o mar de trapiches, ancoradouros e armazéns, modificando a dinâmica do bairro. Cenário de um incrível contraste entre construções de diferentes épocas, organizadas a partir da sua cronologia, quanto mais próximas da encosta, mais antigas e de arquitetura mais rebuscada. Espaço de becos, praças e mercados que abrigam ritmos antigos, e personagens que se estabelecem na rua para diversas atividades: engraxates, amoladores de objetos, e vendedores ambulantes.
O Pelourinho, na parte alta da cidade, é um lugar de marcante identidade afro-brasileira e sofisticado complexo arquitetônico colonial, antigo centro da capital da colônia. Sendo um dos primeiros núcleos centrais das cidades Latino-Americanas a ser objeto de processos de requalificação urbana, para a preservação de valores e patrimônios culturais. A expansão urbana da cidade desloca suas funções centrais para outras regiões, esvaziando o centro antigo, e alterando suas funções econômicas e características sociais. O primeiro momento, no século XIX, com a implantação do sistema de transportes, que proporcionou um modelo de ocupação da parte alta e sul da cidade por camadas de maior poder aquisitivo, para bairros próximos de praias, construídos por pescadores e veranistas.
O segundo momento, no século XX, com a transferência das funções administrativas do Governo do Estado para o Centro Administrativo da Bahia na Avenida Paralela, e o deslocamento do centro de comércios e serviços para a região do Iguatemi e Avenida Tancredo Neves. Em um curto período de tempo mais de vinte mil funcionários governamentais são transferidos de seus locais de trabalho desta zona da cidade.
A consequência é a substituição da população do centro antigo por uma de menor renda, ocasionando o aumento da densidade e a deterioração dos casarões históricos, sendo a função habitacional destinada apenas a uma população de desafortunados
[1].[1] “Em que diferem os estabelecidos dos desafortunados? Os primeiros são resistentes e emergentes, os segundos são produtos de uma condição de impossibilidades de realização”.
ESPINHEIRA, Carlos Geraldo D’Andrea. Identidade de Salvador: signos e vida cotidiana da Cidade Baixa – o turismo, a cultura e a vida social dos estabelecidos e dos desafortunados II. UFBA / PIBIC: 2005.

Podas mal feitas na cidade

Reinhard Lackinger
O que de cara chamou a minha atenção na Bahia, há 40 anos, foi o fato de tarefas subalternas e secundárias como tomar conta de crianças pequenas e preparar a comida em nossa casa, sendo executadas por gente com quase nenhum preparo. Foi um choque perceber as diferenças sociais da terra e também as diferentes importâncias que se davam aos serviços mais simples...
Ouço falar de trabalhadores erguendo edifícios e casas, nas quais jamais poderão morar... escolas, nas quais os filhos dos pobres jamais poderão estudar...Um discurso que em época de política faria qualquer palanque estremecer.
O problema é que as mãos dessa gente não manuseia apenas tijolos e sacos de cimento... devidamente supervisionado por engenheiros e mestres de obra... Há quem ande armado de motoserra e de facões. Ferramental usado por aqui para podar árvores e arbustos.
Imagino, que na rua em que moram os que podam as árvores em nossos bairros de IPTU caro, tenha muitos poucas árvores para serem podadas, quiçá nenhuma. O meu preconceito e o meu prejulgamento politicamente incorreto me fazem achar, que essa gente que poda as árvores em nossas ruas, pouco está se lixando e não está nem aí para o estrago medonho que apronta no verde de nosso meio ambiente. É o nosso bairro residencial... não é deles... não é dos que executam a poda.
Os que podam nossas árvores não tem nenhuma relação com a Barra por exemplo... minto... Eles podem até fazer parte do exército que invade nosso bairro em dias e noites de eventos que o poder público costuma promover no Farol da Barra e na Praia do Porto da Barra... às nossas custas...
Pois bem, toda vez que ouço os uivos de uma motoserra, eu me arrepio e vou logo ver onde o crime ambiental está ocorrendo... impotente diante dos estragos, montes de galhos no chão, em cima de caminhões e e caras de gente estúpida.
Pois é... além do preparo da comida em nossas casas e dos cuidados com crianças pequenas por gente sem preparo, a gente vê trabalhadores podando as árvores de nosso bairro sem nenhuma técnica... e se me desculparem a minha paranoia... fazendo o serviço com extrema má vontade.

PS. Sou morador da Barra. Seria bom se o pessoal de Parques e Jardins desse uma olhada nas mudinhas miudinhas plantadas ano passado ao longo do novo passeio da orla da Barra. Há muito capim, muito mato para pouca árvore... e há mudinhas que não tem cara de quererem vingar

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Políticos adoecem?

Oliveiros Guanais
Ninguém gosta de adoecer, mas para algumas pessoas a idéia de doença causa pânico. Por categoria, pode-se incluir quase todos os políticos. Julgam eles que suas carreiras, sua imagem perante o público não pode ser arranhada por algo que passe de um resfriado comum. Doenças com maior potencial de gravidade, não. Essas têm de ser ocultadas. Isto vem a propósito do internamento do prefeito de Salvador, ontem ( 06/5/09), no Hospital Aliança, fato cuja divulgação não foi sonegada ao povo. Ainda bem. João Henrique (foto), parece ser de natureza frágil e sensível, e não suporta grandes desafios. As enchentes de Salvador transbordaram as débeis paredes de sua resistência. Mas ele foi sensato, procurou um Hospital e deixou que o assunto fosse do conhecimento de todos. Isso pode parecer elementar, mas não é, porque políticos que estão no picadeiro escondem doenças, mesmo que elas sejam evidentes e que venham a matá-los em pouco tempo. Alguns exemplos? Petrônio Portela tinha grandes possibilidades de chegar à Presidência da República e negou o infarto que o acometeu numa viagem ao interior do Mato Grosso e que foi diagnosticado clinicamente pelos médicos. Petrônio tomou o avião e desfilou com elegância em sua chegada no aeroporto de Brasília, cumprimentando com pose imperial os que foram recebê-lo. Morreu logo depois, desse infarto. O senador Antônio Carlos fez tudo para esconder o seu, e mais tarde o de seu filho, chegando a chamar os médicos de charlatões. Tancredo Neves não podia adoecer, porque no dia seguinte ia assumir a Presidência da República. Deu no que deu. E os exemplos poderiam ir muito longe, mas fiquemos apenas nesses, acrescentando um caso antigo, que tem analogia com o de Tancredo, só que um cirurgião de coragem impôs a sua orientação. 1902. A coroação do rei Eduardo VII estava marcada para dois dias depois. Festa organizada, realezas e nobres de diferentes países já se encontravam em Londres para a festa quando os males que o futuro rei apresentava permitiram o diagnóstico de apendicite. O rei recusou-se a operar, dizendo que uma coroação não podia ser adiada como uma reunião de tiro ao alvo. Frederiks Treves, o cirurgião, respondeu-lhe: ‘”Então, sire, o senhor irá `a abadia como um cadáver”. O rei foi operado logo e a coroação deu-se dois meses depois.
Se o Dr. Tancredo tivesse a sorte de encontrar um cirurgião como Treves...

Mais uma " vítima" (?) das chuvas em Salvador.

Osvaldo Campos: bahianews
Prefeito João Henrique é internado no Hospital Aliança

A direção do Hospital Aliança ainda não divulgou boletim médico sobre o estado de saúde do prefeito de Salvador, João Henrique, que foi internado às pressas ontem (6) à tarde, depois que se sentiu mal após entrevista coletiva com o Ministro Geddel, na sede da Secretaria de Infraestrutura. A sede da prefeitura, o Palácio Thomé de Souza, foi interdidato pela DESAL, após o temporal de terça-feira.
Após voltar a acusar o governo estadual de "excesso de burocracia " para homologação da situação de emergência na cidade, o prefeito comentou: " Num momento em que você tem um governador e um prefeito que não são de um mesmo grupo político (?), a população acaba pagando por isso, por esta negligência histórica, crônica, emendou". Logo após o prefeito passou mal e foi conduzido ao hospital.
O prefeito deu entrada na emergência com forte dores no peito e pressão alta. O primeiro boletim médico, de acordo com o Aliança, só será divulgado a partir das 9 horas. O prefeito passou por uma bateria de exames e foi recomendado pelo cardiologista Maurício Nunes a permanecer no hospital. Segundo fontes próximas ao prefeito, ele está "sob forte stresse" e "comovido com com os estragos da chuva na cidade", " êle sofre muito com isso". Segundo o Secretário de Comunicação da prefeitura, o prefeito vem enfrentando uma dura rotina nos últimos dias em razão dos estragos causados pelas chuvas. Segundo a mesma fonte o mal estar do prefeito foi causado pela angústia de ver que o temporal causou mortes e fez desabrigados.
Foi cancelada a participação do prefeito no sobrevoo que faria hoje de helicóptero sobre Salvador e cidades da região metropolitana em situação de emergência, em companhia do Ministro da Integraçao Nacional.

Salvador: até quando vai perdurar a indiferença dos poderes públicos e da sociedade civil em relação ao meio ambiente?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Bondes, acidentes e ocorrências emocionantes

Almir Santos
Salvador. O bonde deixou saudades e recordações que nos marcaram.
Ganhou um vocabulário próprio, como paraquedista, saltar de frente, de costas, pongar, despongar, andar na cozinha, galinheiro, sossega leão, fazer terra e outras tantas expressões se incorporaram ao seu folclore.
Quantos namoros se iniciaram nos apertados corredores dos bondes.
O outro lado eram as ocorrências.
Um crime violento aconteceu na Ladeira da Barra. Um fiscal do bonde 701 obrigou um soldado de polícia, que tentava entrar pala porta traseira, descer e entrar pela dianteira, que era a forma correta de embarcar. O soldado irritado foi ao quartel, pegou um fuzil, esperou o retorno do bonde e atirou contra o fiscal. O fiscal se esquivou habilmente e Isaías, conhecido como Seu Nandinho, que não tinha nada a ver com o caso, que morava próximo nós foi atingido pela bala perdida e morreu.
Por causa de antigas divergências no trabalho o fiscal da Companhia Linha Circular conhecido como Bode Africano abateu a tiros o condutor em pleno 1.º Arco.
Acidentes ocorriam freqüentemente nas Ladeiras da Soledade, Praça, Cabula, Rua do Tijolo etc. Na Ladeira dos Bandeirantes o bonde n.º 220, linha 11-Brotas não atendeu o sinal num trecho de linha simples e bateu de frente no bonde que ia subindo. No choque um dos bancos girou e imprensou uma passageira que teve fratura de costelas.
Na Praça Municipal o bonde n.º 261, linha 5-Barris, descarrilou subindo a calçada da Sorveteria Cubana e por pouco não caiu na Ladeira da Montanha. Não houve vítimas.
Nas Sete Portas, próximo á Ladeira do Funil o bonde 289 que puxava um reboque bateu num caminhão, causando grandes estragos materiais.
O mais emocionante foi o que aconteceu na Rua Garibaldi. O bonde 173, linha 16-Amaralina fazia a última viagem por volta da meia-noite quando descarrilou e caiu totalmente numa ribanceira do lado da Rua da Lama (Padre Domingos de Brito). O bonde tombou de lado e uma senhora ficou presa numa das colunas. O primeiro trabalho, feito por um carpinteiro que morava próximo, foi serrar a coluna para resgatá-la.
Durante todo o dia seguinte tentou-se o resgate com o equipamento disponível da Companhia Circular, empresa concessionária, sem sucesso. Era tempo da segunda guerra e foi acionado um guindaste dos americanos que estavam instalados na Base Baker. Foi uma festa. O tráfego de bondes ficou interditado, pessoas se aglomeravam para apreciar com entusiasmo o espetáculo da operação.
Vendedores de sorvetes, pipocas, roletes de cana, baleiros, aproveitavam a oportunidade para aumentar as vendas dos seus produtos.De repente partiram-se os cabos do guindaste que tentava içar o bonde e a lança bateu da rede elétrica que se partiu. Foi um verdadeiro alvoroço. Gente se jogando do outro lado da ribanceira que parecia papel.
Da janela de minha casa na Rua Treze apreciava estarrecido o espetáculo. Seu Valdemar, o guarda civil 59, também espectador, tomou um chapuletada de um fio de alta tensão que se partiu e inexplicavelmente se salvou. Dois dias depois o bonde foi retirado, parcialmente desmontado. Na renumeração, completamente restaurado, o bonde sinistrado passou a ter o número 217