segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A crise do Carnaval passa pela concentração da riqueza nas mãos de grandes grupos

A entrada do poder público municipal e até mesmo do estadual na disputa por patrocínios, reduziu as possibilidades dos blocos na atração de patrocinadores. Mas a crise maior no Carnaval da Bahia deve-se à concentração da riqueza gerada pela festa nas mãos dos grandes grupos que atuam no mercado do carnaval . E que já estão deixando para trás o negócio-bloco na direção do negócio-camarote.

Esta é a opinião do Doutor em Comunicação e Culturas Contemporâneas, professor e vice-Reitor da UFBa, Paulo Miguez. Não gosta da ideia de circuitos temáticos pois considera que a história do carnaval da Bahia sempre foi tudo meio que junto e misturado.  Diz ainda que a festa é um fenômeno e pede o olhar cuidadoso das mais diversas áreas do conhecimento da vida acadêmica.


Você se tornou um “Doutor em Carnaval”. Como é – na condição de vice-Reitor da UFBa – conciliar a Academia com o espírito de folião?

Sou um apaixonado folião desde sempre. Com certeza, as minhas responsabilidades como vice-Reitor da UFBa não me permitem o acompanhamento mais sistemático dos múltiplos processos que envolvem o carnaval, algo que realizava com regularidade na condição de pesquisador dos festejos. Todavia, se já não tenho como acompanhar o carnaval na qualidade de pesquisador, não me sinto impedido, em qualquer hipótese, de continuar desfrutando, como folião, do prazer da folia carnavalesca.

De que modo o Carnaval – mais que objeto de estudo – é um evento que exige o envolvimento das universidades?

O carnaval é um elemento central da cultura baiana, o que, por si só, é mais do que suficiente para justificar – mais correto mesmo é dizer exigir – o envolvimento de uma instituição como a Universidade. Carregado de história, plural, complexo, o carnaval é, assim, um fenômeno que solicita, permanentemente, o olhar cuidadoso das mais diversas áreas do conhecimento que compõem a vida acadêmica.

O Carnaval ganhou alterações radicais desde o início dos anos 50 até os dias atuais. Por que mudou tanto, desde quando o “coração da festa” era a Rua Chile?

A primeira coisa que mudou, e muito, diga-se de passagem, foi a cidade do Salvador. Mudou a cidade, mudou também, por óbvio, sua festa maior, o carnaval. Na direção da configuração contemporânea dos festejos carnavalescos em Salvador, a primeira e mais importante mudança foi, certamente, a genial criação/invenção do trio elétrico, na exata metade do século passado. Com o trio elétrico, muda tudo: a música, a dança, a configuração sócio-espacial da festa; a participação popular passa a ser a marca do carnaval de Salvador. Nova e profunda mudança só vai acontecer na metade dos anos 1970, com a emergência dos blocos afros. Estas novas organizações da juventude negra da cidade, pela via da afirmação étnico-estético-política, promovem intensa renovação não apenas do carnaval mas também, e muito profundamente, da cena cultural baiana no seu conjunto. Nos anos 1980, nova inflexão de peso. A axé music, com suas muitas estrelas, entra em cena; o trio elétrico é capturado pelas cordas dos blocos, então transformados em empresas; estabelece-se uma potente economia da festa. Agora, de seis ou sete anos para cá, novas mudanças vêm se anunciando, especialmente por conta da fadiga do modelo que hegemonizou os festejos dos anos 1980 para cá e que teve no negócio-bloco seu carro-chefe.

O que deixou de dar certo na festa sob o aspecto econômico? Há uma crise no modelo de concentração dos recursos de anunciantes junto ao Governo do Estado e Prefeitura, em detrimento das entidades, para a organização do Carnaval?
Vejo como positivo para a vocação pós-industrial da cidade de Salvador a consolidação de uma economia do carnaval. O problema, portanto, não é a existência de práticas mercantis na festa. O problema é a ausência de regulação deste mercado, o que aconteceu ao longo das últimas décadas com o carnaval, sempre em desfavor da sua dimensão simbólica, ou seja, da condição do carnaval como bem cultural, sempre, também, na direção da concentração da apropriação da riqueza gerada pela festa nas mãos dos grandes grupos que atuam no mercado do carnaval. As atuais mudanças a que me referi mais atrás sugerem fortemente que este modelo está em crise. Uma das razões desta crise é, ao que parece, a entrada do poder público municipal na disputa por patrocínios, reduzindo, assim, as possibilidades dos blocos na atração de patrocinadores. Mas a crise deve-se, em particular, à reorientação do mercado carnavalesco que está deixando para trás o negócio-bloco na direção do negócio-camarote.

O Carnaval foi reduzido a um festival de cervejas, inclusive com o loteamento da cidade para as cervejarias?

A festa, pelo tamanho que tem, exige do poder público, tanto da Prefeitura quanto do Governo do Estado, que têm a responsabilidade de garantir a logística e a infraestrutura indispensáveis para que o carnaval aconteça – segurança, saúde, gestão de trânsito, limpeza pública, iluminação, apoios às entidades carnavalescas, etc. – uma grande mobilização de recursos financeiros para sua realização. Daí, a necessidade de atrair patrocinadores junto a grandes empresas de vários setores, como o caso das cervejarias.

O que é necessário para manter o espírito livre do Carnaval frente às grandes entidades que passaram a controlar a festa? A tendência dos blocos e trios sem cordas voltou para ficar?

Aqui é inescapável o papel do poder público, especialmente da Prefeitura da cidade, responsável mais direto pela festa. Seja na regulação das práticas mercantis, para impedir que estas subordinem a dimensão simbólica da festa aos seus interesses; seja na implementação de políticas de cultura, indispensáveis para garantir a diversidade de manifestações carnavalescas e a proteção do carnaval como bem cultural. Quanto ao lugar dos blocos e dos trios independentes na configuração dos festejos que resultará desta crise do modelo de negócios da festa – com as cordas perdendo importância em favor dos camarotes – creio que ainda é cedo para qualquer afirmação.

Você acredita ser necessária a criação de novos circuitos seja no Rio Vermelho, no Comércio. Há outras opções ?

Não gosto da ideia de circuitos temáticos. Creio que isto está em total desacordo com a história do nosso carnaval. No carnaval da Bahia, o bom é que sempre foi tudo meio que junto e misturado. O que não significa dizer que para acomodar seu crescimento o carnaval não venha a necessitar da ampliação dos seus espaços na cidade.

No Rio de Janeiro e São Paulo vem ocorrendo o resgate dos blocos de bairros. Como entender a decadência e o fim ou redução no número dessas entidades, a exemplo dos “blocos de índios”, em Salvador?

Particularmente, do ponto de vista da organização territorial, os carnavais do Rio de Janeiro e São Paulo são bastante distintos do carnaval de Salvador, o que nos sugere os devidos cuidados com qualquer exercício de comparação. O que me parece absolutamente semelhante, tanto lá, nos carnavais carioca e paulistano, quanto cá, no carnaval de Salvador, é a rebeldia com que Momo se insurgiu contra seu aprisionamento num modelo único de festejos: lá, rompendo com a exclusividade do desfile espetacularizado das escolas de samba; aqui, capturando mais dias para a folia e fazendo água no negócio de cordas & abadás. A questão da diminuição do tamanho e da importância dos blocos de índios parece que tem a ver com mudanças mais antigas, isto é, com o fato de que boa parte dos jovens que compunham estes blocos migraram, já nos anos 1970, para os blocos afro.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Minha primeira caminhada

*
Roberto Gazzi*
As nuvens ajudaram ontem os que têm fé. Pois se à Lavagem do Bonfim “quem tem fé vai a pé”, elas ajudaram até os menos fiéis como eu a vencer os 8 quilômetros entre a Igreja da Conceição da Praia e a Colina Sagrada do Bonfim. Até umas gotas de chuva ajudaram a aliviar o calor em alguns trechos. O mormaço, esse não teve como contornar. Mas a caminhada não é nada difícil. Ao menos fora da procissão oficial. Como bom paulista, cheguei cedo à Praça Cayru, que começava a receber os muitos grupos que se reúnem ali para a caminhada. E lá vem descendo povo à Cidade Baixa, seja pela Avenida  Contorno ou pelo Elevador Lacerda. Parece um Réveillon diurno, quase todos de branco.Quando estoura a primeira queima de fogos, às 8h08, caem umas gotas de chuva. Que é fraca e para logo. Às 8h48, o segundo foguetório anuncia o início da caminhada do prefeito. E não é que caem umas gotas de novo? Quem para um pouco na calçada pode ver o movimento do cortejo. A maioria é de grupos vestidos com camisetas iguais. Aqui e ali aparece um que chama mais a atenção, como os de mamelucos, ou o Pierrô de Plataforma, de nove integrantes, que mantém uma tradição carnavalesca que vem da mortalha, de muitas décadas atrás. No meio do circuito, de repente se misturam o cheiro do perfume das jarras de flores das baianas, o cheiro da comida feita nas centenas de barraquinhas e o fedor de mijo, que em Salvador, infelizmente, parece onipresente.A massa vai seguindo até chegar ao início da colina. A coluna com a multidão de branco já pertinho da igreja impressiona. Como impressiona descobrir que, de repente, você está ao lado da igreja, algo que parecia impossível visto lá de baixo. E começa a missa. Fiéis rezam e saúdam o santo. Muitos choram. E numa ruazinha na lateral da igreja, a 10 metros do Bonfim, um bar liga um som altíssimo com músicas de pagode. Uma pequena multidão se forma em minutos, muitos deles sambando no meio da rua. Missa e samba se misturam. A Bahia, religiosa e profana, como sempre imaginei lendo Jorge Amado e vendo aquelas fotos em preto e branco. Oito quilômetros depois pude conferir isso, agora ao vivo e em algumas poucas cores além do branco.
* Roberto Gazzi é jornalista e diretor-executivo do CORREIO DA BAHIA

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Bahia, terra da felicidade?

Osvaldo Campos  Magalhães* 
Segundo dados divulgados no 11º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Estado da Bahia registrou7,1 mil mortes violentas em 2016 e liderou o ranking nacional em números absolutos, superando os estados do Rio de Janeiro e São PauloA violência na Bahia atingiu principalmente os jovens negros do sexo masculino, com idade entre 15 e 21 anos. O Anuário também aponta que cresceu a diferença na expectativa de vida entre homens e mulheres, sendo que a Bahia apresenta umdas maiores amplitudes, com as mulheres vivendo mais de nove anos que os homens, com uma expectativa de vida chegando 79 anos. A diferença nas expectativas de vida entre homens e mulheres reflete os altos níveis de mortalidade, principalmente de jovens, por causas violentas, que incidem diretamente na esperança de vida ao nascer da população masculina. Para se ter uma real dimensão da violência no Brasil, vale destacar que os 61,5 mil assassinatos cometidos em 2016 equivalem, em números, às mortes provocadas pela explosão da bomba nuclear que dizimou a cidade de Nagasaki, no Japão, em 1945, durante a Segunda Guerra Mundial. No que diz respeito às Unidades da Federação, é possível notar uma grande disparidade: enquanto em São Paulo houve uma redução de 49,4%, nos últimos 10 anos, na Bahia o aumento da taxa de homicídios de jovens superou os 200% no mesmo período. Já a letalidade das polícias nos estados brasileiros aumentou 25,8% em relação a 2015: 4.224 pessoas foram mortas em decorrência de intervenções de policiais civis e militares. Quase a totalidade das vítimas é homem (99,3%), jovem (81,8%), tem entre 12 e 29 anos e é negra (76,2%). O número de policiais mortos também aumentou 17,5% em relação a 2015: 437 policiais civis e militares foram vítimas de homicídio em 2016. O acentuado crescimento da violência e dos assassinatos de jovens baianos assim como a liderança da Bahia, desmente a enganosa propaganda do Governo do Estado e comprovam a falência do nosso sistema educacional público e a deficiência dos programas de inclusão social e de geração de empregos. O governo baiano nos últimos dez anos equivocadamente priorizou investimentos em mega projetos que não conseguiram se materializar, como o Porto Sul, FIOL, Estaleiro Enseda e a ponte Salvador - Itaparica, que, tendo recebido recursos públicos superiores a R$6.5 bilhões, beneficiariam principalmente as grandes empreiteiras. O governo do Estado da Bahia também relegou a segundo plano a população do semiárido baiano, que não foi beneficiado pela transposição das águas do São Francisco nem pela construção de novos açudes. A migração dos jovens das áreas rurais para as regiões metropolitanas agravaram a questão do desemprego, das drogas e da violência e explicam a liderança da Bahia no 11º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
*Engenheiro Civil e Mestre em Administração pela UFBA

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Sobre o quase demolido Centro de Convenções de Salvador

Márcio Correa Campos*
Em janeiro de 1977 era inaugurado em Paris o Centro Georges Pompidou, o edifício que, visto a partir da perspectiva histórica de hoje, é provavelmente o mais importante no mundo dentre os construídos na segunda metade do século XX. Selecionado a partir de um dos concursos internacionais mais debatidos à sua época, o Projeto de Renzo Piano e Richard Rogers articulou, exatamente na década que iria experimentar o auge das tendências pós-modernas historicizantes em ambos lados do Atlântico, os mais importantes impulsos de improvável renovação da arquitetura moderna, com os elementos do debate espacial e tecnológico levantados nos anos 60 (palavra-chave: Archigram) e a discussão da manutenção da vitalidade dos centros históricos europeus, à beira de um processo de expansão geográfica através de subúrbios e de uma progressiva destinação de uso ao turismo de massas, em uma arquitetura unicamente otimista, radical e renovadora, algo reservado a obras excepcionais. Um professor que tive na Universidade Técnica de Viena afirmava, em uma frase de efeito e em uma comparação destemida, que o Centro Georges Pompidou deveria ser estudado por arquitetos como uma sinfonia de Beethoven é estudada por músicos. 
Maior exemplo da arquitetura que é reconhecida como high-tech, com a sua rigorosa separação entre os espaços de exposição no centro do volume arquitetônico e os espaços de apoio (equipamentos de circulação como elevadores e escadas rolantes, instalações, etc) situados dos dois lados maiores, na periferia do edifício, por assim dizer expostos nas fachada, o edifício com sua clara e simples definição volumétrica e sua estrutura com forte impacto de imagem recebeu críticas que o descreviam como “uma refinaria de petróleo” no centro da capital francesa. Ainda que a esta radicalidade estética, correspondente inclusive ao fato de o edifício não possuir uma fachada no sentido tradicional do termo, pois hipoteticamente módulos poderiam ser adicionados ao seu lado menor em uma extensão sem limites nas duas direções, é parte de uma resposta aos desafios de um programa que exige espaços amplos e flexíveis em vários andares, graças à compacidade de seu volume foi possível criar a grande praça que lhe serve de esplanada de acesso e organiza em harmonia tanto o espaço público como a inserção do edifício no seu entorno, atingindo um equilíbrio que é fruto de uma decisão de projeto extremamente refinada.
Em 1979, dois anos após a inauguração do Centro Georges Pompidou, foi entregue à população da Bahia o Centro de Convenções do Estado, construído a partir de concurso de projeto de arquitetura realizado em 1976 e vencido pelo importante escritório carioca MMM Roberto, responsáveis por alguns dos edifícios mais importantes do movimento moderno no Brasil. Neste momento, caracterizado pela bibliografia especializada como o quarto período do escritório, a administração do escritório estava a cargo de Maurício Roberto, o mais jovem dos irmãos que compuseram originalmente o escritório, e contava com a participação de Márcio, seu filho.
Dentro de todas as evidentes diferenças e distâncias que há entre duas cidades como Paris e Salvador, é impressionante como o escritório carioca elaborou uma proposta que deu origem a um edifício para o Centro de Convenções capaz de estabelecer uma série de elementos radicalmente novos para a cidade e extremamente atualizados em relação à discussão internacional de arquitetura. Em destaque evidente está a articulação das partes, claramente vinculada à arquitetura high tech, entre as torres de concreto armado que abrigam na periferia do volume escadas de emergência, elevadores e sanitários e a grande treliça metálica que compõe o “edifício-ponte” com o espaço livre e flexível destinado ao uso de feiras e convenções, com seus auditórios nas extremidades.
O edifício, além disso, explora sua dimensão para determinar urbanisticamente um marco espacial de caráter direcional para a ocupação da orla atlântica da cidade: situado na cumeada da linha de elevações mais ou menos paralelas à orla – que segue com alguma regularidade até Itapoã – ele estabelecia claramente um limite para a faixa que não deveria ser verticalizada – entre a praia e o Centro de Convenções – uma função que é claramente reconhecida se somos capazes de imaginar uma expansão da linha imaginária determinada pelo eixo longitudinal do edifício em direção ao norte, através da inserção de uma série de edifícios com semelhante relação paisagística, uma continuidade que pode ser vislumbrada até mesmo com uma própria expansão do edifício-ponte (que, no limite de tal expansão fictícia, poderia se transformar em uma megaestrutura e chegar até o litoral do Rio Grande do Norte).  Desta maneira, a linearidade da orla, reforçada no traçado da Avenida Paralela, era reafirmada como arquitetura e, assim, poderia finalmente ter conferido consistência de desenho urbano à paisagem da cidade.
Apesar de escalas bem distintas de articulação com o espaço da cidade (decorrente da extrema diferença de urbanização e densidade entre as duas situações dos dois edifícios), é impressionante como a articulação entre a escala do acesso do usuário e a do edifício-monumento apresentam soluções que, ainda que não semelhantes, correspondentes em seu acerto: no Centro de Convenções, o uso da via de acesso no centro do vale entre as extremidades do edifício, ao passo que estabelece uma orientação inequívoca, oferece uma escala francamente convidativa assim que o usuário encontra-se sob o edifício (algo que depois foi perdido com a ampliação realizada anos mais tarde, estabelecendo outras possibilidades de entrada).
Uma vez alcançado o interior do edifício, o usuário está diante da grande diferença entre o Centro de Convenções e o Centro Georges Pompidou: se a sequência de escadas rolantes no edifício em Paris constitue uma experiência de desfrute da vista para o exterior, no Centro de Convenções, por estarem situadas no interior do edifício, a sequência de escadas oferece uma contemplação do espaço interior do monumental hall verticalizado de acesso aos pisos superiores, de onde então, através da fachada envidraçada, o usuário pode apreciar a vista para a paisagem, do alto, posição adequada para a vista para o mar.
Ainda que construído à época de outros importantes edifícios para a cidade que também introduziam a industrialização no processo construtivo – a exemplo das secretarias do CAB, projetadas por Lelé, em concreto armado – e que não se possa pensar outro edifício icônico da cidade como o é a Casa do Comércio sem a sua existência prévia (embora no edifício à Avenida Tancredo Neves note-se um certo formalismo tanto na simetria como nos balanços), é no fato de que provavelmente nenhum outro edifício em Salvador, nem antes e muito menos depois, ter sido capaz de materializar importantes questões do contemporâneo debate arquitetônico internacional que reside a singularidade do edifício entre o STIEP e a Boca do Rio.
Sua importância para a cultura arquitetônica da cidade, mesmo tendo sofrido incialmente o mesmo tipo de estranhamento de “parecer uma refinaria”, é inconteste. O desenvolvimento da ocupação do solo urbano nestes últimos 40 anos, tanto no seu entorno imediato como na cidade como um todo, efetivamente aconteceu de maneira radicalmente distante de diretrizes ali apontadas (ah, o debate sobre a verticalização da orla…) e se ele hoje pode parecer um tanto “fora do lugar”, este não é um problema do edifício, e sim da cidade. Afinal, Salvador não é mesmo Paris.

*Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Silvio Robatto - Sentido Figurado


SENTIDO FIGURADO
Exposição “Sentido Figurado” que conta com os registros fotográficos produzidos pelo arquiteto e fotografo Silvio Robatto. A abertura da exposição aconteceu a pouco e ficará aberta ao publico até março de 2018 no Palacetes das Artes, na Graça.
Na mostra, está  sendo apresentado o trabalho realizado pelo artista Silvio Robatto por mais de 50 anos através das suas lentes; em aspectos do cotidiano, festas populares e o patrimônio histórico da Bahia. Mais de 400 obras estarão à disposição do público, entre quadros e fotografias, que integram parte do acervo privado de Robatto, doado ao CMB.
O acervo de Silvio Robatto passou pelo processo de higienização, restauração, organização e digitalização para ser disponibilizado ao público em suporte digital que será disponibilizada na Biblioteca Virtual Consuelo Pondé e no site da Fundação Pedro Calmon.
SILVIO PEREIRA ROBATTO nasceu no dia 24 de outubro de 1935 em Salvador (BA), filho de Stella Pereira e de Alexandre Robatto Filho, ingressou em 1954 no curso de Arquitetura da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Adolescente já é assistente do pai em vários de seus filmes como Entre o Mar e o Tendal (1952/53), Uma Igreja Bahiana (1953), Pesca do Xaréu (1954), Vadiação (1954), etc. Forma-se em 1960 em arquitetura na Escola de Arquitetura da UFBA, exercendo a profissão elaborando vários projetos na capital baiana, entre eles o Centro de Cultura de sete cidades baianas, realizados durante a administração de Olívia Barradas na Fundação Cultural do Estado, entre 1983 e 1987. Sílvio também exerce a carreira acadêmica na própria UFBA, como professor das faculdades de Belas Artes e Arquitetura. Paralelamente, foi pioneiro da fotografia artística da Bahia e também cineasta e Diretor de Fotografia. Participou de diversas exposições individuais no Brasil e no exterior.
Seu horizonte temático se alicerçou na cultura popular da Bahia, entre festas populares como a Lavagem do Bonfim, o Presente de Yemanja no 2 de Fevereiro, a Festa de Santa Bárbara, no universo simbólico do Carnaval; ou nos festejos do 2 de Julho. O foco de sua lente firmava-se em figuras que representavam a construção de uma identidade baiana como as baianas, os saveiros e pescadores da Baía de Todos os Santos, onde costumava velejar desde a adolescência. Faleceu em abril de 2008, aos 72 anos,


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Respeitem Mãe Stella de Oxossi

Tasso Franco*
O povo de santo da cidade do Salvador está passando por uma situação de sofrimento nunca presenciada em sua história desde quando o candomblé surgiu oficialmente, na Barroquinha, na primeira quadra do século XIX, com a anunciada renúncia da mãe Stella de Oxóssi, yalorixá do terceiro mais importante terreiro de candomblé da cidade, por uma questão sentimental, amorosa, em detrimentos dos preceitos religiosos sagrados. 

 Com a declaração dada ao jornal A Tarde taxativa de que "prá lá (Axé Opô Afojá) não retorno mais", a mãe Stella de Oxóssi criou uma situação 'sui-generis' nesse terreiro de candomblé ela que vinha comandando a Casa desde 1976 por escolha do jogo dos búzios, uma vez que, neste axé a sucessão não se dá na linha familiar. Já na escolha de Stella houve uma grande dissidência porque, como é notório, o filho de Mãe Senhora (Maria Bibiana do Espirito Santos), Deoscoredes Maximiliano dos Santos, o Didi, queria ser o novo babalorixá da Casa, mas, não conseguiu.

 Na época, a yakekerê, a mãe pequena e segunda personalidade do terreiro seria a substituta de Senhora. Porém, intelectuais orgânicos da Casa, entre eles, diz-se Jorge Amado e Carybé, com o jogo de búzios do babalaô Agenor Miranda, escolheram Stella, uma filha de santo, com formação em enfermagem.

 Daí que Didi afastou-se do axé e criou sua própria Casa, o que gerou um mal estar enorme, na época, essa dissidência. Agora, Stella, por razões do coração, ao que tudo indica, uma vez que é companheira da psicóloga Graziella Domini, com que divide o mesmo teto em Nazaré das Farinhas, cria um novo problema na sucessão do terreiro uma vez que, por preceitos da Casa, essa sucessão só acontece por falecimento da yalorixá e a mãe Stella está viva aos 92 anos de idade, ainda que esteve recentemente internada no Hospital da Bahia
    
 É uma situação bastante peculiar e uma decisão até inédita - uma mãe de santo se queixando do seu axé, do comportamento de algumas pessoas e da falta de paz espiritual, de acordo com declarações que deu em A Tarde -daí que a yakekerê, mãe Dicinha de Yemanjá, segunda pessoa mais importante na casa, e as ebomis - pessoas mais velhas - vão decidir o que fazer. 

 Aguardar a morte de Stella? Substituí-la desde já confirmadas suas declarações de que não retorna ao axé (certamente por escrito e firmada em cartório) ? Promover uma reunião mais ampla entre os sacerdotes do candomblé?

 Ao que o Bahia Já pode apurar até agora, a presença de Graziella junto a Stella e questões de dissidências internadas no Opô Afonjá veem acontecendo há 1 ano e, agora, aflorou de vez que a ida de Stella para morar em Nazaré das Farinhas e o seu desejo de não mais retornar a Salvador. Também, é provável, que não haja mais manifestações de intelectuais orgãnicos como no passado e quem vai ditar a suscessão de Stella são os orixás.

"Respeitem quem pode chegar aonde cheguei" Mãe Stella de Oxossi


Se considerarem esse título muito prepotente, peço, humildemente, respeitem os meus cabelos brancos que correspondem a 92 anos de existência e pelo menos 84 servindo à humanidade. Estou viva e muito viva! A baixíssima visão e, é claro, os 92 anos, me impedem de realizar algumas tarefas, inclusive a de manejar o conhecido Jogo de Búzios.

Estou viva, muito viva e lúcida! Claro, com as complicações dos 92 anos de idade e quatro internações hospitalares decorrentes de problemas cerebrais, sempre complicados pela pressão que venho sofrendo por parte de membros do Terreiro e de alguns familiares, que nada sabem sobre mim. Ainda estou lúcida, o que faz com que eu tenha consciência da diminuição da lucidez com o avançar da idade, o que é natural, pois sou HUMANA. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

Luiz Carlos Maciel, filósofo da contracultura

Luiz Carlos Maciel, 79 anos, morreu na manhã do sábado (9), no Rio de Janeiro.
Casado há 30 anos com a atriz Maria Claudia Maciel eleita uma das mulheres mais lindas do Brasil no ano de 1978, e uma das mulheres mais fotografadas durante a década de 1970 e começo da década de 1980.
Desde o dia 26 de novembro, ele estava internado no hospital Copa D'Or, em Copacabana, com um quadro de infecção. Segundo o jornal Folha de São Paulo, Maciel estava lutando nos últimos meses contra o agravamento da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), e o boletim médico apontou falência múltipla dos órgãos.
Natural de Porto Alegre (RS), Maciel estudou Filosofia e ficou conhecido por ser um dos principais pensadores da contracultura no Brasil, realizando trabalhos com pesquisadores nacionais e internacionais sobre o tema. Colaborador do semanário "O Pasquim" e diretor de redação da versão nacional da revista "Rolling Stone", é autor de 12 livros, como "Geração em transe, memórias do tempo do tropicalismo" (1996), em que aborda diferentes momentos e obras da contracultura brasileira.
Em 1959, depois de ganhar uma bolsa da Universidade da Bahia, conheceu Glauber Rocha, de quem se tornaria amigo, e atuou no primeiro curta-metragem do diretor, "A cruz na praça". Graças a uma bolsa da Fundação Rockefeller no ano seguinte, estudou direção teatral no Carnegie Institute of Technology, em Pittsburgh, Estados Unidos.
Ele voltou para o Brasil anos depois e desenvolveu outros trabalhos, ficando conhecido como o "guru da contracultura". Ele deixou esposa, dois filhos e netos. Ainda não há informações sobre o velório do jornalista.
Desempregado e sem recursos para cuidar  da saúde lançou um manifesto em 2015.
“Um tanto constrangido, é verdade, mas sem outro jeito, aproveito esse meio de comunicação, típico da era contemporânea e de suas maravilhas, para levar ao conhecimento público o fato desagradável de que estou sem trabalho e, por conseguinte, sem dinheiro. É triste, mas é verdade. Estou desempregado há quase um ano. Preciso urgentemente de um trabalho que me dê uma grana capaz de aliviar este verdadeiro sufoco. Sei ler e escrever, sei dar aulas, já fiz direções de teatro e de cinema, já escrevi para o teatro, o cinema e a televisão. Publiquei vários livros, inclusive sobre técnicas de roteiro, faço supervisão nessas áreas de minha experiência, dou consultoria, tenho – permitam-me que o confesse – muitas competências. Na mídia impressa, já escrevi artigos, crônicas, reportagens… O que vier, eu traço. Até represento, só não danço nem canto. Será que não há um jeito honesto de ganhar a vida com o suor de meu rosto? Luiz Carlos Maciel. lcfmaciel@gmail.com

Logo após a publicação do manifesto foi contratado pela Rede Globo, onde vinha trabalhando como consultor  na série “ Os dias eram assim”.
Considerado o "guru" da contracultura brasileira nos anos 70, época em que escrevia para o tablóide carioca "O Pasquim", promove agora uma volta intensiva ao cenário cultural nacional dos anos 60.
Lança, no final de julho, o livro "Geração em Transe - Memórias do Tempo do Tropicalismo". Em agosto, promove estréia no Rio da peça que está dirigindo, "Jango", único texto teatral deixado por Glauber Rocha.
Leia a seguir trechos da entrevista que Maciel concedeu à Folha, por telefone, do Rio de Janeiro.
*
Folha - Além do livro, o que mais você tem feito?
Luiz Carlos Maciel - Estou dirigindo "Jango", o único texto para teatro do Glauber Rocha, para estrear dia 8 de agosto no Rio. Haverá 30 pessoas em cena, música, dança, uma superprodução.
Folha - Qual a intenção de "Geração em Transe"? É um livro de memórias, impressões, análise?
Maciel - Fundamentalmente é de memórias, mas tive a intenção, não nego, de não só narrar fatos de que me lembrava, mas de ter uma compreensão sobre o momento que eu vivia.
Folha - Qual foi sua preocupação em conceituar os movimentos da época, como o cinema novo, o tropicalismo, o teatro Oficina?
Maciel - Foi a de fornecer conceitos impressionistas, sem rigor científico ou acadêmico.
Folha - Por que você considera, em seu livro, José Celso o mais fiel à contracultura dos três personagens que você elegeu?
Maciel - Foi uma coisa em que ele se engajou mais profundamente. E que interessou muito Glauber e Caetano na medida em que aquilo era um fenômeno da época que viviam. O engajamento de Zé Celso está demonstrado até hoje, no novo espetáculo dele, "Bacantes". No episódio no Rio, em que Caetano ficou pelado, Zé Celso o obrigou a voltar um pouco aos seus momentos contraculturais.
Folha - Você foi rotulado de "guru da contracultura". Quem é mais contracultural: Zé Celso ou você?
Maciel - Ele. Apesar de eu ter ganho esse epíteto, minha aproximação com a contracultura foi jornalística, superficial.
Folha - Por que seu livro mostra a geração do desbunde sem tocar em temas caros a ela, como a libertação pelas drogas e pelo sexo?
Maciel - Porque guardei para um próximo livro. Glauber, Zé Celso e até Caetano são pré-desbunde. O verdadeiro só aconteceu no Brasil em 1969, quando Caetano estava indo para o exílio.
Folha - Caetano concordou com a publicação das cartas que ele lhe enviava do exílio?
Maciel - Sim, mandei cópias para ele e ele curtiu demais. Disse que era divertidíssimo ler uma coisa escrita há tanto tempo.
Folha - Você foi crítico -até transcreve uma discussão com Jorge Mautner e Caetano em torno da crítica, que teve um papel importante na época. Que fim levou a crítica no Brasil?
Maciel - A crítica era interessante na nossa época, à medida que era aliada à revolução cultural que os artistas estavam liderando. Era uma força auxiliar dessa revolução cultural. Hoje não há revolução cultural. E a crítica se limita a um exercício de poder mesquinho.
Folha - Por que você diz no livro que não se considera um homem de teatro completo, que sempre namorou com ele mas ele nunca quis se casar com você?
Maciel - Falei no caso do teatro, mas não me considero completo em coisa nenhuma, como jornalista, escritor, homem de TV.
Folha - Sua narração mostra que você esteve por trás de momentos cruciais da gênese de Glauber, Zé Celso, mesmo de Caetano. Você é um homem de bastidor ou é seu ego se manifestando?
Maciel - Se não falar de mim no meu livro, vou falar onde? Isso foi uma coisa que aconteceu, eu apenas mostro. Acho que não é ego, é para dar informações úteis.
Folha - É um livro saudosista?
Maciel - Não tenho saudade nenhuma. Se acharem que é saudosismo eu dar importância a esses fatos, paciência. 

domingo, 3 de dezembro de 2017

No sol de dezembro

Aninha Franco*

Hoje é domingo, terceiro dia do mês de dezembro que, neste ano, terá cinco sextas-feiras, cinco sábados e cinco domingos. Dizem que esse fenômeno só acontece uma vez em cada 823 anos, portanto está acontecendo para nós, em 2017, e aconteceu para os que estavam vivos em 1194, ano do nascimento de Santa Clara e do ocaso da civilização Inca. Os chineses chamam  isso de Bolso Cheio de Dinheiro, o que os baianos precisarão muito nos próximos meses para festejar Oyá no dia 4, Oxum no dia 8, Santa Luzia no dia 13, Natal e Réveillon, Lavagem do Bonfim, Yemanjá no 2 de Fevereiro e viajar no Carnaval. Há muito tempo que os baianos fogem do Carnaval para sarar do tranco do Verão.
Na próxima segunda-feira, Yansã pintará a Cidade Velha de vermelho. Roupas, cabelos, almas, espíritos saudarão a Senhora das Nuvens de Chumbo, Oyá, o raio que corta os céus e ocupou a imagem de Santa Bárbara no sincretismo afro-católico. Dia 8, menos baianos festejarão Nossa Senhora da Conceição da Praia, Oxum, outra Ayabá de grande poder, porque a festa está sem força. Mas Oxum é de ir e voltar. Dia 13, Santa Luzia, protetora dos necessitados de boa visão, das profissionais do sexo e dos caminhoneiros, ainda leva muita gente à Igreja do Pilar para lavar os olhos e pedir visão e previsão neste Brasil cego.
Depois é festa de Ano-Novo, do Senhor dos Navegantes, de barcos no mar. E na segunda quinta-feira de janeiro, Lavagem do Bonfim. A Segunda-Feira da Ribeira desapareceu há muito tempo, como as dezenas de Lavagens que, a depender dos organizadores, explodiam em pequenos carnavais. Mas no dois de fevereiro, Yemanjá subirá para rir e dançar com os pescadores da Mariquita. O Carnaval que vem depois ninguém nunca sabe o que será. Os últimos foram muito fraquinhos, porque perderam a baianidade e se transformaram em festas sem fulejo. Mas em todos os dias, em todos eles, mesmo antes de 21 de dezembro, chegada oficial do Verão, o sol nascerá com tanta intensidade que explodirá em festas, inclusive no Carnaval.
Não sei se os dias de Verão ainda são mais longos que as noites, como aprendi na escola, e se os ataques à camada de ozônio alteraram as variações climáticas que a natureza demonstra. Autora das mais sutis delicadezas do planeta e de suas violências mais espetaculares, a natureza não deve se incomodar com os humanos, espécie predatória, mas de alcance limitado.
Apesar do Outono ser minha estação predileta, há 40 anos eu esperava o Verão como os prisioneiros esperam a soltura, marcando os dias na folhinha. E quando ele chegava com seu figurino brilhante e calorento, e a cidade se enchia de gente, os preços do coco e do acarajé disparavam, as festas de largo se sucediam, as Lavagens se multiplicavam, e a festa orgamatizava na maior festa popular do planeta – sim, nós já tivemos isso, sem ufanismo –, eu não vivia apenas uma mudança de estação, eu mudava para uma outra Cidade, para uma Baía que nenhuma outra estação consegue representar com tanta franqueza. Já não há mais tanta Baía, como há 40 anos, mas ainda há Verão que possa trazê-la de volta.

O tamanho da nossa desatenção

Paulo Ormindo de Azevedo*
Uma velha anedota dizia que o arcanjo Miguel reclamou do Criador, durante a Gênese, por ele ter dado ao Brasil todas aquelas maravilhas que canta o nosso hino nacional e muito pouco aos demais países. O Criador disse: “em compensação vou colocar agora os brasileiros”. É um determinismo, e não temos como sair dele. Mas a corrupção e a insegurança no Brasil serão causas ou efeitos?

O retrato de nossas desigualdades são os morros e periferias urbanas, onde faltam empregos, escolas, postos médicos, habitação e transporte. E isto porque estas não são prioridades para os nossos governantes e porque não há professores, médicos e juízes suficientes. Este abandono levou ao aparecimento de um estado paralelo, que não só trafica drogas, como coopta seus moradores financiando creches, times de futebol, salões de festas e enterros. Esse estado domina hoje metade do território de nossas cidades, impondo o toque de recolher e incendiando ônibus, explodindo caixas eletrônicas e matando policiais, no território dos “brancos”, quando um de seus membros é transferido de presídio.

Em vésperas de eleições, a plataforma comum dos nossos 35 partidos de aluguel é a diminuição do estado, que dá a dimensão do setor público no país. Tudo mais já foi ou está sendo privatizado. Pois bem, segundo o IBGE em 2012 os funcionários civis eram 10,7% dos trabalhadores de carteira assinada. Taxa menor que a média dos países latino-americanos. Se considerarmos os informais das periferias essa taxa baixa para 5%. Relacionado com a população total do país eles não passam de 1,6%. A maioria dos países desenvolvidos tem o dobro de funcionários, 21%, segundo a OCDE.

Nos EUA, um dos países mais privatistas, os funcionários civis são 15% dos ocupados. O estado oferece educação primaria e secundaria universal de qualidade, banca 120,000 bibliotecas, tem os maiores parques naturais do mundo num total de 211. 000 km² e possui 800 bases militares espalhadas pelo mundo. Suas forças armadas têm 1,26 milhões de militares na ativa. E eles não pensam em diminuir o estado. Depois do 11 de setembro eles aumentaram aquele efetivo em 20%.  Na Dinamarca, o país de menor corrupção do mundo, está taxa sobe para 39,2 %, quatro vezes a taxa formal do Brasil. É isto que permite a esses países terem educação, saúde e segurança de qualidade. A PEC que congelou por 20 anos os gastos com educação e saúde num país já carente e que está crescendo, só irá aumentar as desigualdades e a insegurança no país. Não é com medidas burras como essa que se constrói uma nação. Os conservadores se enganam pensando que segurança se consegue com mais repressão. Não queremos um leviatã, senão um estado democrático, que cumpra com eficiência sua função de executar o bem comum e não que aumente os desníveis sociais.
*Arquiteto e Professor Catedrático
SSA, A Tarde, 3.12.17

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Sistema de compartilhamento de carros em Fortaleza

Um sistema de compartilhamento de carros elétricos completa quatorze meses de funcionamento em Fortaleza. O Veículos Alternativos para Mobilidade, conhecido pela sigla VAMO, é fruto de uma parceria entre a prefeitura da cidade, o Hapvida Saúde e a Serttel. Contudo, algo que já é cultura em metrópoles de países do primeiro mundo, como Paris, Londres e Nova York, sequer é tendência nas grandes cidades brasileiras. A iniciativa na capital cearense é exceção. 
O VAMO possui 20 carros elétricos, distribuídos em 12 estações de compartilhamento na capital cearense. Em funcionamento desde setembro de 2016, o sistema já possui mais de 2 mil pessoas cadastradas. A faixa etária, dos 21 aos 30 anos, é a mais representativa entre os usuários e representa cerca de 39% do total de usuários cadastrados em maio último. O Hapvida Saúde, patrocinador do projeto, investiu mais de R$ 7 milhões.
Para poder retirar o carro das estações, é preciso que o motorista tenha um cadastro no VAMO, que deve ser feito pelo site do programa (vamofortaleza.com.br), preenchendo informações como nome completo, telefone, CPF, endereço e o número da carteira de motorista de habilitação B ou superior.


As informações serão verificadas pela Serttel, empresa de mobilidade, que entrará em contato com o cadastrado para agendar hora, data e estação de desejo do usuário para a assinatura do Termo de Responsabilidade, bem como para realizar test drive acompanhado de técnico.

Para fazer uso do sistema, por meio do site e do aplicativo para smartphone, os usuários poderão reservar carro elétrico disponível em qualquer uma das estações, tendo até 15 minutos para efetivar a retirada do veículo do local. Os carros elétricos poderão ser retirados, todos os dias, das 5h às 23h59, podendo ser devolvidos 24 horas por dia.
A tarifação do VAMO se dará conforme o tempo em que o carro estiver sendo utilizado. Para os primeiros 30 minutos de uso, o valor cobrado do usuário é de R$ 20, sendo este valor indivisível, ou seja, do primeiro minuto ao trigésimo minuto, o valor cobrado será fixo e totalizará R$ 20. Após meia-hora de uso, a cobrança se dará por minuto adicional, variando o custo do minuto conforme o tempo.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

O Pelô no pelourinho

Paulo Ormindo de Azevedo*
Estou na Espanha participando da reunião do Comitê Cientifico da Rede Patrimônio Histórico Ibero-Americano, da Universidade Politécnica de Madri. No ano passado, na Guatemala, propus como tema deste seminário “Habitar o patrimônio” e os colegas ibero-americanos acataram, sem pestanejar, a proposta. A ideia é analisar os problemas que enfrentam os moradores dos Centros Históricos, geralmente pouco considerados por seus administradores. Na Espanha e na maioria dos países latino americanos, os CH são levados a sério.
Para mostrar o que ocorreu no nosso CH, nos 58 anos em que está tombado, foi criado no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFBA o subgrupo Observatório do Centro Antigo de Salvador, que reúne professores e pós-graduandos do programa, coordenado por este escriba e pela Profa. Márcia Sant’Anna. Reunimos um grande número de dados dispersos em repartições federais, estaduais e municipais sobre investimentos públicos e privados, propriedade e uso do solo e aplicamos 11 questionários em associações de moradores, além de entrevistas com os principais protagonistas do CH.
Os algarismos são alarmantes. De meados de 1970 até hoje foram investidos no CH – pasmem - cerca de USD$ 255 milhões. Apesar disso, a população local foi reduzida à metade. Em 1991, eram de 11.947 pessoas, e em 2010 baixou para 5.985. A Defesa Civil contabiliza, hoje, 1400 imóveis em estado de risco. A diretoria do IPAC diz que 40 de seus imóveis estão desocupados e 300 inquilinos são inadimplentes, com uma dívida de R$13 milhões (A Tarde, 09/09/17). Outros tantos são devidos de impostos pelos comerciantes. Muitos estudos foram feitos, mas as decisões políticas não se basearam em estudos. Alguns dos erros mais gritantes foram: a retirada das atividades centrais, a exclusão dos moradores, em 1992, a estatização do estoque habitacional e a precarização da infraestrutura de mobilidade e acesso. Um imóvel só é conservado se seu ocupante for o dono. Cerca de 511 sobrados estão na mão do estado (307) e de irmandades religiosas (204). As reivindicações corretas da comunidade são: moradia e requalificação profissional.
A Prefeitura, sempre ausente desse processo, anuncia agora uma série de investimentos. A melhor proposta é a instalação de sua administração em edifícios desocupados do Comercio. O Estado, por seu turno, anuncia a criação de um distrito criativo no CH, como fez Recife há 40 anos. Mas perdura a desarticulação das políticas dos governos federal, estadual e municipal e a não participação da comunidade. Vamos cotejar nossos dados com os de outros de países, como Peru, Colômbia e Equador, que enfrentaram com sucesso esse desafio, e buscar apoio para os movimentos sociais que lutam pela requalificação do CH, nosso maior ativo.
* Professor Titular da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFBa
SSA: A Tarde, 8/10/17