terça-feira, 18 de junho de 2019

Cidades Criativas - O Case de Salvador

 Roberta Orrico
Com a crescente influencia de novas tecnologias e do mundo digital, conectadas à multipolarização internacional, as assimetrias entre as economias globais foram tomando maiores proporções. Como consequência, a ideia clássica de trabalho se tornou obsoleta e o desemprego, uma realidade. A desigualdade social ainda é crescente em face às diversas crises econômicas internacionais e a necessidade de se reinventar é necessária.

A era digital vem alterando significativamente não somente as relações pessoais, mas também a forma como produzimos e trocamos bens, serviços e até mesmo cultura. O surgimento e o fortalecimento, a partir do Século XX, de uma indústria global de consumo cultural, tecnológico, inovador e criativo é o contexto propício para a discussão de um novo e importante ramo da economia e as indústrias que dela derivam, as criativas.

Existe, portanto, um entendimento da “economia criativa” como uma porção significativa e exponencial da economia global. Governos, sociedade civil organizada dos setores criativos ou não, a população em geral, todos estão tomando consciência da importância do seu papel como fonte de empregos, de riqueza e de compromisso com a promoção e difusão cultural.

A criatividade utilizada como ativo econômico tanto é capaz de movimentar a economia, reduzir desigualdades e fortalecer a produtividade da sociedade quanto como pode construir barreiras que dividem o mundo entre aqueles que possuem acesso ao mundo digital e dinâmico e aqueles que continuam no modelo pré-industrial de força de trabalho pautada no labor.

Em todo o globo, países estão se movimentando para desenvolver e proteger sua produção criativa, estimulando seu crescimento através de políticas públicas e de cooperação a partir da inserção em redes internacionais com foco em indústrias criativas e promovendo a exportação de seus ativos criativos.

Informações publicadas nos sites da Organização Mundial do Comércio (OMC) e da Organização das Nações Unidas (ONU) informam que o faturamento das indústrias criativas no mercado internacional duplicou no início dos anos 2000 sendo responsável por 7% das riquezas produzidas no mundo.

Neste contexto, a fim de demonstrar a potencialidade das indústrias criativas, podemos analisar o caso de Salvador, que ao utilizar a música como instrumento de internacionalização e vetor do desenvolvimento local, evidenciou sua a música como ativo econômico local. Para tanto, a cidade construiu um plano de ação para identificar resultados obtidos pelas iniciativas desenvolvidas a partir de sua entrada na Rede de Cidades Criativas da UNESCO, em 2015, no âmbito da Música.

O intuito das ações planejadas, âmbito da indústria criativa da música, é servir de propulsor para muitas outras ações, dentro ou não da Rede, para atingir os objetivos propostos na candidatura do título de Cidade Criativa, com foco principal em projetos e iniciativas que promoveram a troca de experiências e de recursos com outras cidades.

A música tem o poder de gerar crescimento econômico, incrementar a arrecadação de impostos, criar empregos, fomentar turismo, atrair grandes talentos e contribuir para o desenvolvimento sustentável cultural e social da cidade. Em termos econômicos, demonstrados por dados da UNESCO em 2015, as indústrias criativas capitalizaram US$2,250 trilhões e geraram aproximadamente 30 milhões de empregos, ambos em escala global. Fazendo um recorte para a indústria criativa da música, a UNESCO destaca que, no total global supracitado, a música contribuiu com a receita de US$65 bilhões e, aproximadamente, 4 milhões de empregos.

Desta forma, é de extrema importância e valia que cidades estimem, mapeiem e criem estratégias para identificar seu ecossistema criativo, seja no âmbito da música ou não, maximizando o valor de sua criatividade.
*Associada Executiva no CEERI - Centro de Estudos e Estratégias em Relações Internacionais

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Salvador é a cidade eleita para sediar Encontro das Cidades Criativas da Unesco

A capital baiana ganhou a disputa e vai sediar a terceira edição do Ecriativa, o Encontro das Cidades Criativas da Unesco. A vitória foi anunciada durante o evento que, este ano, aconteceu em Florianópolis e reuniu os representantes das oito cidades brasileiras com o selo de cidades criativas, concedido pela organização. O evento tem o objetivo de promover a conexão entre as cidades que têm a criatividade como estratégia para o desenvolvimento.
“Salvador é uma cidade reconhecida internacionalmente pelo seu potencial criativo e temos trabalhado muito para fomentar o desenvolvimento de novos projetos e a estruturação da economia criativa na cidade. Essa conquista revela todo o trabalho que vem sendo desenvolvido pela Prefeitura, através do eixo Cidade Criativa, do programa Salvador 360”, celebra o secretário municipal de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur), Sérgio Guanabara.
Durante o encontro, as oito cidades participantes, Salvador (música), Florianópolis, Belém e Paraty (gastronômico), Brasília e Curitiba (design), João Pessoa (artesanato) e Santos (Cinema), tiveram a oportunidade de discutir estratégias e políticas públicas para o setor. Além disso, puderam trocar experiências e apresentar instrumentos de fomentação da economia criativa.
O diretor de Parceria Público-Privada da Sedur, Gustavo Menezes, apresentou o projeto que visa tornar a capital baiana o polo de criatividade brasileira. “A criatividade do soteropolitano é pulsante e precisa de um espaço que possa estruturar e fomentar isso. Pensando nisso, Salvador vai ganhar um novo Hub, mas dessa vez com foco na economia criativa que vai contemplar ações voltadas para música, fotografia, design, gastronomia”, explica. “A estrutura, que vai funcionar no Comércio será entregue em 2020”, completa Menezes.
Atualmente, 180 cidades de 72 países fazem parte da Rede Mundial de Cidades Criativas da UNESCO. Durante o evento, os representantes das oito cidades criaram a Rede Brasileira e Salvador foi eleita também a coordenadora geral do grupo. “Essa conquista permite que Salvador assuma um protagonismo na economia criativa e desenvolva um papel importante de intermediação dos interesses das cidades e os principais agentes seja na esfera municipal, estadual ou internacional”, ressalta Guanabara”.
REDE DE CIDADES CRIATIVAS
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) criou em 2004 sua Rede de Cidades Criativas para promover a cooperação com e entre as cidades que identificaram a criatividade como um fator estratégico para o desenvolvimento urbano sustentável. A rede também está comprometida com o desenvolvimento da Agenda para o Desenvolvimento Sustentável 2030 e seus objetivos são:
  • Fortalecer a criação, produção, distribuição e divulgação de atividades, bens e serviços culturais;
  • Estimular e reforçar as iniciativas lideradas pelas cidades-membros para tornar a criatividade um componente essencial do desenvolvimento urbano por meio de parcerias entre os setores público e privado e a sociedade civil;
  • Desenvolver polos de criatividade e inovação e ampliar as oportunidades para criadores e profissionais do setor cultural;
  • Melhorar o acesso e a participação na vida cultural, bem como o aproveitamento dos bens e serviços culturais, nomeadamente para os grupos e indivíduos marginalizados ou vulneráveis;
  • Integrar plenamente a cultura e a criatividade no desenvolvimento de planos e estratégias locais.

terça-feira, 11 de junho de 2019

A controvérsia sobre um museu que ainda não existe

Cristina Margato*
A ideia de construir um 'Museu das Descobertas' na cidade de Lisboa, incluída no programa eleitoral de Fernando Medina de 2017, não é nova, e tem sido objecto, nas últimas semanas, de algumas reflexões no espaço público. Num momento em que a capital está a viver um surto de turismo e interesse internacional nunca visto, criar um museu sobre este período histórico pode parecer tentador. 
Se existem vantagens na criação de um espaço museológico deste tipo, porque é que ele não deve intitular-se 'Museu das Descobertas'?
Desde logo, porque essa designação cristaliza uma incorrecção histórica, razão pela qual, como historiadores e cientistas sociais, não podemos estar de acordo com ela. Apesar do vocábulo 'descobrimento', no singular e no plural, ter sido utilizado nos séculos XV e XVI para descrever o facto de se terem encontrado terras e mares desconhecidos na Europa, a verdade é que, na quase totalidade dos casos, ele apenas se refere à percepção da realidade do ponto de vista dos povos europeus. É inquestionável que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia, para quem, naquela altura, vivia na Europa Ocidental. Precisamente porque um dos aspectos que resultou deste e de outros episódios de 'expansão' foi o contacto entre povos de culturas muito diversas, é que é tão importante considerar o ponto de vista e a percepção de todos os envolvidos. Para os não europeus, a ideia de que foram 'descobertos' é problemática. 
Ter-se-ão os povos africanos, asiáticos e americanos, de histórias milenares, sentido 'descobertos' pelos portugueses? E como se sentirão hoje as populações oriundas desses territórios ao visitarem um espaço museológico que priva os seus antepassados de iniciativa histórica, reduzindo-os ao papel de objecto da acção descobridora, muitas vezes violenta, dos portugueses? Sabe-se hoje que, ainda antes da viagem de Vasco da Gama, os chineses ensaiaram programas de navegação que poderiam ter tido como resultado o descobrimento do caminho marítimo para a Europa. Se assim tivesse sucedido, os europeus da época ter-se-iam sentido 'descobertos' pelos chineses? E os europeus de hoje, incluindo os portugueses, sentir-se-iam bem com a existência, na China, de um museu que evocasse o modo como os chineses tinham posto os europeus na história do mundo?
Ou seja, parece evidente que um museu que visa promover, como se propõe no programa eleitoral de Fernando Medina, 'a reflexão sobre aquele período histórico nas suas múltiplas abordagens, de natureza económica, científica, cultural, nos seus aspectos mais e menos positivos, incluindo um núcleo dedicado à temática da escravatura' não deve chamar-se 'Museu das Descobertas'. Isso seria uma outra forma de reduzir a riqueza e complexidade dos factos históricos a um só ponto de vista – o português. Ou de privilegiar este ponto de vista, impondo-o a outros que dele não partilham. Seria, ainda, recorrer a uma expressão frequentemente utilizada durante o Estado Novo para celebrar o passado histórico, e que convoca, por isso mesmo, um conjunto de sentidos que não são compatíveis com o Portugal democrático. Seria, por fim, optar por uma via que se distancia de experiências museológicas contemporâneas que abordam processos históricos complexos e carregados de sentidos contraditórios e conflituosos.
Na última década, muitos museus, em vários lugares do mundo, têm sido espaços determinantes nas novas formas de pensar a história, quer através das suas instalações permanentes, quer através de exposições temporárias. Atribuir o nome de 'Descobertas' a um novo espaço museológico em Lisboa, ainda que nele se incluam múltiplas perspectivas, seria ignorar a riqueza dos debates e da investigação internacional e nacional que tem sido feita sobre o período histórico em questão e os vocabulários que lhe estão associados. E aquilo que tem sido feito são exercícios de reflexão crítica que conduziram à construção de histórias que não são 'nacionais', porque incluem pessoas e experiências de vários espaços geográficos. E que exigiram um grande rigor no momento de escolher as melhores palavras para designar e caracterizar essas histórias. 
Os exemplos são inúmeros, e destacamos aqui apenas alguns. Em Washington inaugurou-se, em 2016, o National Museum of African American History & Culture; há mais de uma década abriu, no Brasil, o Museu Afro Brasil; e, em Liverpool, o International Slavery Museum pensa as histórias contrapostas da escravatura. Em muitos países têm-se multiplicado as exposições onde 'as palavras e as coisas' são o resultado de uma reflexão crítica. Porquê insistir, então, num nome que, em vez de valorizar, tanto quanto for possível, as experiências de todos os povos que estiveram envolvidos neste processo, valoriza somente um deles? Mesmo que a diversidade, a multiplicidade e 'os aspectos positivos e negativos' venham a ser exemplarmente narrados num futuro museu, não serão comprometidos pela opção de um nome que persiste numa imprecisão histórica?
Os argumentos enunciados contra a designação 'Museu das Descobertas' aplicam-se, igualmente, à designação 'Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa', já que a esta também subjaz uma narrativa sobre o passado português que peca por uma boa dose de mitificação. Os portugueses dos séculos XV a XVIII – bem como os dos séculos XIX e XX - nem sempre foram paladinos do diálogo intercultural. Muito frequentemente foram o contrário disto. Como se pode ver, a questão não é apenas a do nome, mas aquilo que o nome representa enquanto projecto ideológico.
Num momento em que se intensificam, em Portugal, os debates sobre a história colonial portuguesa, em que surgem grupos de afrodescendentes que querem uma história plural, em que a academia, jornalismo e sociedade civil começam a falar de forma mais crítica e mais aberta, é importante que um novo museu seja também o reflexo dessa riqueza problematizante.
Encontrar um outro nome que se possa tomar como ponto de partida para reflectir e para expor criticamente estes processos históricos, poderá exigir algum esforço. Mas não deixará de produzir resultados melhores do que o uso de uma expressão obsoleta, incorrecta, e carregada de sentidos equívocos."
*Jornalista do EXPRESSO, Portugal

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Othon Bastos homenageado em Salvador

O ator baiano Othon Bastos recebeu hoje à noite o título de Cidadão de Salvador, no Plenário Cosme de Farias, na Câmara Municipal de Salvador (CMS).
O título foi proposto pelo vereador Marcos Mendes (Psol), que preside a sessão solene de outorga.
Othon Bastos nasceu em Tucano, no interior do estado, integrou a primeira turma de alunos da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (Ufba) 
O ator comemora 86 anos de uma vida quase inteiramente dedicada às artes. São mais de seis décadas interpretando personagens marcantes no teatro, no cinema e na televisão. Uma média de 70 filmes – entre curtas e longas- metragens –, 90 papéis em novelas e seriados, e 20 espetáculos teatrais. 
Othon José de Almeida Bastos nasceu dia 23 de maio de 1933 em Tucano, município no Nordeste da Bahia. Na infância, pensou em ser piloto da Aeronáutica ou dentista; a vocação para as artes só veio bem mais tarde, quase que por acaso. Aos 17 anos, montou um espetáculo de brincadeira no colégio. Nele, Othon servia de "ponto" aos colegas. A peça era uma paródia de “Otelo”, escrita por Ronald Chevalier. Antes de entrar em cena, o ator que interpretaria Iago – ninguém menos que o futuro produtor de TV Walter Clark – desistiu de entrar em cena.
– Roniquito então me pediu para substituí-lo, pois era o único que sabia todas as falas. Eu disse: “Mas não sou ator!”, e ele nem ligou. Acabei fazendo o papel. Na plateia, tinha um rapaz cujo irmão estudava na escola do autor Paschoal Carlos Magno. Ele gostou do meu trabalho e me apresentou ao Paschoal. Entrei na escola como ouvinte e nunca mais deixei de fazer teatro – lembra Othon.
O jovem ator então fixou residência no Rio de Janeiro, onde integrou o grupo Teatro Duse. Seu primeiro espetáculo foi “Terra Queimada” (1951), de Aristóteles Soares. Alguns anos mais tarde, foi estudar teatro em Londres. Quando voltou ao Brasil, em 1956, foi dirigir a recém-fundada Escola de Teatro da Universidade da Bahia. Lá, faz “As Três Irmãs” (1958), de Anton Tchekov; "Um Bonde Chamado Desejo" (1959), de Tennessee Williams; e "Auto da Compadecida" (1959), de Ariano Suassuna.
Em 1960, Othon sai da Escola para fundar – associado ao crítico teatral João Augusto de Azevedo – a Companhia Teatro dos Novos. Integrada por sete artistas, inicialmente se chamaria de Teatro dos Sete, mas o nome foi dado antes ao grupo do diretor Gianni Ratto, formado por nomes como Fernanda Montenegro, Sérgio Britto, Ítalo Rossi e Fernando Torres. A partir daí, o novo grupo baiano empenhou-se durante um longo tempo na construção do Teatro Vila Velha. Nessa época, Bastos conheceu a atriz Martha Overbeck, com quem se casaria.
– Éramos todos novos. Novos de idade, de ideologia de pensamento. Daí o nome do grupo. O Teatro Vila Velha levou quase quatro anos para ser construído. Fazíamos bingos, leilões de quadros de artistas plásticos baianos. O governador da época, Juracy Magalhães, apesar de ser de direita, ajudou muito na construção, oferecendo a estrutura metálica e o telhado. Também tínhamos um prefeito de esquerda, Virgildásio de Senna, que forneceu as cadeiras de um cinema velho que seria demolido. Com o nosso dinheiro, compramos aos poucos luz e cenário. Até que conseguimos construir um teatro de 700 lugares. Naquela época, ninguém ganhava nada. Era mais a dedicação à arte mesmo – destaca o ator, que precisou trabalhar durante três anos no Departamento de Turismo da Prefeitura para se sustentar.
Durante esse processo, o inquieto ator decidiu se aventurar na carreira cinematográfica. Em 1960, atuou como um caminhoneiro em “Sol sobre a Lama”, filme do cineasta e teórico de cinema Alex Viany. No mesmo ano, viveu um jornalista em “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte. A consagração, porém, vem com o cangaceiro Corisco, em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. O clássico de Glauber Rocha se transformou no símbolo do Cinema Novo e foi um divisor de águas na carreira de Othon Bastos.
– A migração para o cinema foi uma coisa automática. A grande escola é o teatro, que te dá base para fazer cinema, televisão, circo. Não tenho a menor dúvida que o teatro é minha plataforma preferida. Para mim, a vida é teatro. É ele que te permite fazer tudo. O ator precisa ter todas essas experiências de interpretação, não pode se limitar somente a uma coisa – acredita Othon, que diz aceitar apenas os trabalhos que realmente lhe interessam. – Não faço questão de aumentar meu currículo com números. Faço apenas o que gosto de fazer. Por exemplo, depois de “Deus e o Diabo”, passei mais de três anos sem fazer cinema. Por causa do Corisco, só me chamavam para fazer cangaceiros, assassinos, bandidos, estupradores (risos)... Já tinha feito um e era suficiente para toda a minha vida!
Depois que o Teatro Vila Velha ficou pronto, Othon Bastos trabalhou nele durante dois anos. Em 1967, decidiu voltar para o Sudeste, dessa vez para São Paulo, a convite do Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa. Encena os espetáculos “Galileu Galilei” (1968) e “Na Selva das Cidades”, ambos de Bertold Brecht. No cinema, faz o papel de Bentinho, em “Capitu” (1968); é o Professor, em “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969); é o Homem, em “Os Deuses e os Mortos” (1970); e Paulo Honório, em “São Bernardo” (1972) – considerado pelo ator o longa metragem mais importante de sua vida.
Ao lado de sua mulher, Martha, funda a Othon Bastos Produções Artísticas em 1972. Ao longo da década de 70, o grupo se empenha na defesa da liberdade de expressão, criando um repertório de resistência. A estreia acontece com “Castro Alves Pede Passagem”, com direção de Gianfrancesco Guarnieri. Depois, Othon encena “Um Grito Parado no Ar” (1973), com a qual é premiado como melhor ator pelo Molière e Associação Brasileira de Críticos Teatrais (ABCT). Em seguida, mais um texto de Guarnieri: “Ponto de Partida” (1976). Além do dramaturgo ítalo-brasileiro, outros grandes nomes se juntam ao grupo, como Renato Borghi, Augusto Boal e Paulo José.
Sua trajetória na televisão também é bastante rica, tendo início na década de 50, quando participou do Grande Teatro Tupi (1956). Depois de diversos papéis na primeira emissora brasileira, entrou na Rede Globo em 1979, quando fez um especial “Vestido de Noiva”, inspirado na obra de Nelson Rodrigues. É bastante lembrado pelo papel de Ronaldo César, de “Roque Santeiro” (1985). Desde 2000, fez quase uma novela ou seriado por ano, sendo a última “Amor Eterno Amor”, em 2012.
– Cada filme ou peça que você faz, há uma entrega grande para os personagens. Todos eles deixam saudade. É uma coleção de lembranças. Vou relembrando como se fosse um álbum. Mas não posso viver dos trabalhos que já fiz. O passado é passado, já ficou. Vivo do que faço hoje e aiOthon Bastos participou de dois longas nacionais que concorreram ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: “O que é Isso, Companheiro” (1997), de Bruno Barreto; e “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles, no qual vivia outro caminhoneiro e contracenou com Fernanda Montenegro. Com uma trajetória tão rica, marcada por tantos tipos diferentes, não há um personagem específico que o ator ainda queira interpretar.
– Todo mundo da minha época já teve vontade de fazer “Hamlet”. Mas sempre pensei muito nos autores e personagens brasileiros. Nunca precisei de personagens fantásticos de outras civilizações. Eu me interesso em fazer tipos brasileiros, representar minha vida e o lugar onde moro. Ao mesmo tempo, este ano fui chamado para fazer duas peças que são muito interessantes. Uma é “Disque M para Matar”, que já virou até filme pelas mãos de Hitchcock, com uma tradução belíssima do Domingos de Oliveira. Outra tem um título fantástico, “O Defunto Comunista”, que traz uma reflexão incrível para os dias de hoje. Na verdade, para me conquistar, o texto tem que ser rico, chamar minha atenção.
Aos 86 anos, o ator não pensa em parar. Integrando o elenco da série "Os Carcereiros", na Rede Globo, já no segundo ano, Othon tem planos para o futuro, um novo filme quem sabe,
– É preciso sempre caminhar em frente. Nestes 86 anos, conheci pessoas maravilhosas, fiz amigos e tive ótimos colegas de profissão. Também cruzei com pessoas insuportáveis. Mas é como dizem: “As amargas, não”. Para que pensar nas coisas ruins? O importante é seguir e esquecer o que te afeta. Quem olha para trás é estátua de sal (risos). O que pensam de você, não é você. Às vezes, nem mesmo o que você pensa é. Você é o agora. Amanhã já será completamente diferente. E o ontem... bem, este já passou.



quinta-feira, 6 de junho de 2019

A verdade sobre o Museu da Língua Portuguesa

Antônio Risério*
Depois que virou grande sucesso, o Museu da Língua Portuguesa passou a ter vários "pais" - entre eles, até mesmo um assistente técnico do arquiteto Ralph Appelbaum. Aqui e ali, me perguntam sobre minha participação no projeto. Deixo aqui registradas, por isso mesmo, respostas que dei ao editor Sergio Cohn (da Azougue), num depoimento.
Sergio Cohn: O Museu da Língua Portuguesa hoje é um dos mais visitados do Brasil. Você participou da sua elaboração. Como foi o processo? 
Antonio Risério: Veja o que o Jotabê Medeiros escreveu, depois de sua primeira visita ao Museu da Língua Portuguesa: "Curioso notar que a placa de inauguração do museu glorifica o ex-governador Geraldo Alckmin; o então prefeito de São Paulo, José Serra (que, todos sabem, não foi prefeito coisa nenhuma e não ajudou num só rebite daquele prédio); a Fundação Roberto Marinho (que de fato tocou o projeto). E só. O Ministério da Cultura, que financiou maciçamente a obra por meio da Lei Rouanet (cerca de R$ 37 milhões), não é sequer mencionado... Muito menos se deram ao trabalho de agradecer ao autor do projeto original desse museu que é elogiado nos quatro cantos do mundo: o poeta baiano Antonio Risério, varrido tanto da memória do Ministério da Cultura (onde foi destacado colaborador) quanto da dos esclarecidos ¿donos¿ do museu, o tucanato paulista". Mas não estou aqui para me queixar de nada, que queixas não são do meu temperamento. Vamos à história. A ideia de fazer um museu de nossa língua - um museu original, tomando a palavra como objeto - é do antropólogo Roberto Pinho e foi sugerida, ainda que sem qualquer aprofundamento ou desenvolvimento, para Porto Seguro, como parte da comemoração dos 500 anos do Brasil. Ela aparece publicada em 1994, no livro "Museu Aberto do Descobrimento: o Brasil Renasce Onde Nasce", nos seguintes termos: "Museu da Língua Portuguesa - Um grande museu de recursos audiovisuais, didático, alegre, repleto de situações envolventes, que levará o leigo ao conhecimento da história da nossa língua. Como e onde nasceu, como evoluiu, os caminhos que percorreu, as influências que sofreu e as que provocou, as contribuições que recebeu das línguas indígenas e africanas". Pinho passou a bola para a Fundação Roberto Marinho (FRM). Com o velho prédio da Estação da Luz na mão, a FRM comprou a ideia, graças ao Hugo Barreto, seu vice-presidente. Quando Lula foi eleito, eu, João Santana e Roberto Pinho manobramos para fazer o ministro da Cultura. Convencemos o Gilberto Gil a assumir o cargo, inclusive. E então eu e Roberto assumimos nossos postos no Ministério, escolhidos de modo a não nos deixar envolvidos com o inferno da burocracia. Roberto, como secretário de projetos especiais; eu, de assessor especial. Marcamos então uma reunião com a FRM e comunicamos que, como o Ministério era o grande financiador da obra, assumiríamos a frente do museu. Eu ficaria, como de fato fiquei, responsável pela formulação do projeto.
Sergio Cohn: Mas como as coisas se desenrolaram?
Antonio Risério: Não fui apenas "um dos diversos pesquisadores cujos trabalhos serviram de base para a concepção do museu", como cheguei a ler na imprensa. A concepção do museu é minha. Como bem sabem, aliás, Roberto Pinho, Hugo Barreto, Jarbas Mantovanini, Isa Grinspum Ferraz, o arquiteto Ralph Appelbaum e seus colaboradores. Quando assumi o trabalho, a Fundação Roberto Marinho ainda não tinha uma direção a seguir. Vinha há algum tempo promovendo encontros com intelectuais em São Paulo para discutir o assunto e gravando estas sessões, na tentativa de encontrar um caminho. Peguei e li todo o material dessas gravações. Vi que eram encontros muito interessantes, mas não levariam a lugar algum. Não desembocariam num projeto. As pessoas ficavam teorizando sobre linguagem, filosofando com inteligência e mesmo erudição, mas nunca chegavam a pensar objetivamente na configuração efetiva de um equipamento público específico: o museu da língua portuguesa. Então, o trabalho de recuperação do prédio da Estação da Luz, feito por Paulo e Pedro Mendes da Rocha, ia às mil maravilhas, mas não se tinha ideia do que seria colocado lá dentro. Me concentrei, portanto, na resolução dessa questão. Como ponto de partida, o museu não deveria ser intelectualista, nem populista - e tinha de fascinar. A história linguística e cultural de cada hábito e de cada palavra é capaz de prender a atenção das pessoas mais variadas. Contaríamos, ainda, com as línguas indígenas e africanas, com as línguas das "migrações secundárias", como o japonês, o italiano, etc. Mas não se tratava de criar um centro dessas línguas e sim um espaço, criativo e luminoso, do português do Brasil, o mais importante país da chamada "comunidade lusófona". A língua portuguesa nasceu nos largos e generosos campos do discurso vulgar, da fala plebeia, da prática oral da língua, e não do texto escrito, douto. E começou a se transfigurar na língua mestiça brasileira a partir do seu encontro com outros sistemas lingüísticos altamente complexos e estruturados, de origem ameríndia ou africana. O museu não poderia perder isso de vista. Além disso, deveria acionar as mais avançadas tecnologias da inteligência e buscar o máximo de processos interativos. Tinha de ser uma vitrine, um "show room" da palavra, onde mesmo etimologias fossem trabalhadas plasticamente. Etc. Expus essas coisas a Roberto Pinho e ao pessoal da Fundação Roberto Marinho. Eles se animaram. Começaram as reuniões com o Ralph Appelbaum, o arquiteto que projetou, entre outras coisas, o planetário de Nova York. Um sujeito que gosta de saber das coisas com toda a clareza e que faz mil perguntas. Nessa época, eu morava em Brasília, no hotel Melià. Ao fim de uma reunião lá no hotel, o Ralph me perguntou: "O senhor quer uma Real Academia da Língua Portuguesa?". Respondi: "Não, isso já existe. O que eu quero é um parque de diversões da linguagem". Falei do planetário novaiorquino. Ele sorriu e disse: "Sei, você quer um ¿linguatarium¿ do português brasileiro". Fiquei, então, de aprofundar e desenvolver as ideias. E escrevi um texto relativamente longo, de umas 40 páginas, intitulado "Estação da Luz da Nossa Língua". Foi a partir desse texto que Appelbaum e seus colaboradores começaram a viajar. Chegamos então ao nome da socióloga e cineasta Isa Grinspum Ferraz para coordenar o trabalho. E definimos nomes de especialistas para colaborar no projeto. A essa altura, indignado com uma conduta absurda de Gilberto Gil, rompi com o ministro e me afastei do Ministério. Mas não abandonei o projeto. Apenas, passei para a clandestinidade. A Fundação Roberto Marinho temia que, se eu continuasse abertamente, viessem retaliações por parte do Ministério. E elas vinham vindo. Então, passei a atuar sob a capa de uma empresa paulista da Isa Ferraz, a "Texto e Imagem". E prossegui. Escrevi textos para a montagem da "grande galeria", sugeri que a mesa tecnológica fosse usada para jogos etimológicos, criei o argumento para o audiovisual do auditório, etc. Pintou até a parceria com Arnaldo Antunes, que soa na entrada do museu. E é uma coisa bem simples, palavras de diversos idiomas que entraram no português do Brasil ou de línguas existentes no país, como o ianomâmi. Em resumo, esta é a história.
* Antônio Risério, nascido em Salvador, é antropólogo, ensaista e historiador

sábado, 25 de maio de 2019

Meu pai, minha herança

Almir Santos*
Que saudade do tempo que era levado por suas mãos. Das tardes no Campo Grande, das manhãs na praia da Paciência. Que sensação quando o bonde chegava à Vila Matos e sentia o cheiro de praia. Era sinal que o azul do mar estava perto.
De trocar a roupa na casa de Manuel de Lucila. Não se andava nos bondes em trajes de banho.
Tomar leite de vaca de madrugada na cocheira de Joventino no bairro do Binóculo, comprar manga na roça de René na Rua Garibaldi ou manga, laranja, uva e caju na roça de Simões na Federação.
Do veraneio em Amaralina. De olhar o gado beber água na lagoa.
Das manhãs de domingo, das visitas à minha avó Isaura ou meu tio Edmundo. De subir a ladeira de dona Celina.
De andar pelas ruas do bairro da Sé e depois tomar uma gasosa na Pastelaria Centro Popular.
Das cocadas branca e preta, compradas de uma baiana que ficava à porta da Farmácia Minerva.
De vê-lo retornar do trabalho à tardinha e descer do bonde  ainda em movimento.
Dos  primeiros filmes: O Mágico de OZ, Branca de Neve e os Sete Anões e Idílio nas Selvas.
De sua voz forte gritando “Almir e Ayrton” à frente do colégio da Prof.ª Iazinha.
Do meu primeiro jogo de futebol: 15 de agosto de 1943, Botafogo 2x Galícia 1 no campo da Graça.
Bahia “doente”. Sempre achava que o seu time não merecia ter perdido, o juiz não marcou dois pênaltis a seu favor ou validou um gol em impedimento do adversário.
Não tinha essa de torcer para time de fora. Vitória, Botafogo, Galícia, Ypiranga, Guarani jogando contra time de fora, tinha de torcer pelos times baianos. “Tem de torcer pela Bahia.” O mesmo para times brasileiros jogando contra times estrangeiros. “Tem de torcer para o Brasil.”
O bairrismo sempre foi uma  de suas inúmeras qualidades. Isso não era válido somente para o futebol. E nós aprendemos.
Do nosso primeiro dia do Colégio Antônio Vieira: 3 de novembro de 1946.
Dos bailes de carnaval do clube Cruz Vermelha. Da Queima de Judas e das festas de S.João. Dos foguetes e balões. Da história do balão de 16 metros , feito por ele, que foi notícia de jornal. De sua alegria e suas brincadeiras. Do seu vigoroso aperto de mão.
Adorava fazer surpresas.
Das arraias sem linha temperada.
Das latas de goiabadas ganhas no jogo de dominó e das caixas de fósforo ganhas no jogo de agache.
De sua letra. A caligrafia mais bonita do mundo!
Do dia 3 de julho de 1951, quando me apresentou ao Dr. Mário Gomes, meu primeiro diretor.
De 1954. Dia que nos acordou com os olhos brilhantes de alegria com um jornal na mão: “vocês dois passaram no vestibular !!! ”
Da sua capacidade de ser querido pelas pessoas.
Do seu espírito comunitário. Do seu bom relacionamento com as autoridades que lhe permitia, sem ser político, conseguir melhorias e serviços para o nosso bairro.
Lembro-me do dia que, conseguida por ele, a água encanada chegou à rua onde morávamos.
Do seu caráter, da sua honestidade.
Do orgulho e zelo pela sua profissão. Do ouro que por suas mãos ficava mais brilhante. Das joias que sabia fazer e das pedras preciosas, para ele as mais belas que lapidou ao lado de sua Núbia, que foram os seus filhos. De ouvir chamá-la carinhosamente de minha filha. De vê-lo andar grudado com ela na base do “só vou se você for.”
Carinhoso e delicado com todos, mas austero quando necessário.
Das festas das suas Bodas de Prata e das suas Bodas Ouro. Dos seus oitenta anos. Dos seus noventa anos. Dos seus noventa e três anos.
* Almir Santos é engenheiro civil e escritor. Filho de Álvaro Desidério dos Santos

quinta-feira, 23 de maio de 2019

A obra de Jorge Amado que retrata Salvador

Conhecer Salvador através dos olhos de Jorge Amado. O autor de clássicos da literatura brasileira como Gabriela, Cravo e Canela, Jubiabá e Capitães da Areia viveu em Salvador por muitos anos e a cultura da cidade foi fonte inspiradora de varias de suas obras. Um dos responsáveis por projetar costumes, belezas e mistérios do povo baiano, o escritor, que nasceu em Itabuna, sul do estado, reúne no livro Bahia de Todos os Santos o convite ideal para se apaixonar pela cidade da Bahia, como chamava Salvador.
Autor
Jorge Amado nasceu em 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, distrito de Ferradas, em Itabuna, sul da Bahia. O pai, fazendeiro de cacau, João Amado de Faria, e a mãe, Eulália Leal Amado, levaram o escritor com um ano de idade para viver na cidade de Ilhéus, também no sul do estado, onde passou a infância e depois mudou para Salvador.
Se dedica à escrita ainda jovem, quando começa a trabalhar em jornais e participa da vida literária. Em 1931 lança o primeiro romance, O País do Carnaval, aos 18 anos, e no mesmo ano entra para a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, onde passa a morar. Jorge Amado nunca exerceu a profissão de advogado.
Com atuação política marcante, traduzida em obras como Seara Vermelha (1946), Jorge Amado foi eleito deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), como representante de São Paulo, em 1945. O escritor foi casado duas vezes, a primeira com Matilde Garcia Rosa, em 1933, com quem viveu durante 11 anos e teve uma filha, Eulália Dalila Amado, que morreu em 1949. Viveu exilado na Argentina e Uruguai, entre 1941 e 1942, e separa de Matilde ao retornar, em 1944.
Em frente à Fundação Casa de Jorge Amado, no Largo do Pelourinho, em Salvador, os eternos companheiros Jorge Amado e Zélia Gattai (Foto: Acervo Zélia Gattai/Fundação Jorge Amado)Em frente à Fundação Casa de Jorge Amado,
os eternos companheiros Jorge Amado e Zélia
Gattai (Foto: Acervo Zélia Gattai/
Fundação Jorge Amado)
Após a separação, já em 1945, Jorge Amado casa com Zélia Gattai, companheira até os últimos dias de vida e com quem teve João Jorge e Paloma.
A partir de 1955 se afasta da política e passa a se dedicar exclusivamente à literatura. Assume a cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras em 1961. Ateu, graças a Deus, Jorge Amado era obá do Ilê Axé Opó Afonjá, terreiro de candomblé que fica no bairro do Cabula, em Salvador.
Jorge Amado morreu em Salvador, dia 6 de agosto de 2011, aos 89 anos. A casa de número 33, na Rua Alagoinhas, do tradicional bairro do Rio Vermelho,  em Salvador, foi transformada em museu e abriga as cinzas e memórias do escritor que apresentou a Bahia ao mundo, em especial Salvador, no livro Bahia de Todos os Santos, com todas as qualidades e defeitos. Com mais de quarenta títulos, a obra de Jorge Amado já foi traduzida para 49 idiomas e teve adaptações para a televisão, cinema e teatro.
Capa da 1ª edição do livro Bahia de Todos os Santos, de 1945 (Foto: Acervo Zélia Gattai/Fundação Jorge Amado)Capa da 1ª edição do livro Bahia de Todos os
Santos, de 1945 (Foto: Acervo Zélia Gattai/
Fundação Jorge Amado)
Bahia de Todos os Santos
“A Bahia te espera para sua festa mais quotidiana. Teus olhos se encharcarão de pitoresco, mas se entristecerão também ante a miséria que sobra nestas ruas coloniais onde começam a subir, magros e feios, os arranha-céus modernos”.
O trecho acima do livro Bahia de Todos os Santos - Guia das Ruas e dos Mistérios da Cidade do Salvador, que teve a primeira edição em 1945, convida o leitor a conhecer a capital baiana e compreender belezas e contrastes do ano de 1944.
A publicação perpassa por ruas, costumes, segredos, personalidades, gastronomia, religião, festas, praias, entre outros aspectos e locais pertencentes à cidade e ao povo. Com requinte e simplicidade do autor, Bahia de Todos os Santos é um roteiro da cidade da Bahia, a Salvador.
O guia foi atualizado para a 19ª edição em 1970, devido ao crescimento da cidade. Apesar de mudanças sofridas com o tempo e em franca expansão, Jorge Amado retrata no livro o espírito do baiano que ainda é percebido nos dias atuais. No início e fim da publicação, o autor dirige o convite a conhecer prazeres e dores da cidade a uma leitora imaginária. Em Bahia de Todos os Santos, Jorge ainda destaca a música do amigo, também baiano, Dorival Caymmi: “Você já foi à Bahia, nêga? Não! Então vá...”. A escrita do autor é o retrato fiel da Bahia...de Jorge e de todos os santos.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Salvador, cidade do futuro

Paulo Câmara*
Comecei a fazer este artigo para falar do meu encantamento pela formação singular de Salvador. A ideia era passar uma vista sobre alguns momentos da história, desde a Kirymure dos tupinambás, passando pela aldeia já mestiça e religiosa de Caramuru, até chegar a Salvador como cidade. Lembrar que a coroa portuguesa ergueu aqui uma capital do novo mundo, planejada e construída como tal, muito antes que Brasília. Mostrar que a primeira capital do Brasil, desde o início, é uma cidade voltada para o futuro.
Mas esta cidade miscigenada que se insinua e seduz pelo relevo em dois andares - cidade alta e cidade baixa - tem uma força de atração que merece ser melhor sentida, e assim melhor compreendida e cuidada, como uma mãe que pede atenção permanente dos seus filhos. E nesse ponto resolvi mudar a direção do que escrevia. Salvador aniversaria em março, mês da mulher, certamente por uma coincidência afirmativa do seu resplendor, do seu brilho, dessa luz e desse mar únicos, e o quanto isso nos obriga a um firme compromisso com essa senhora, que faz 466 anos, e merece muito mais respeito e consideração.
De certo que temos resgatado o entusiasmo e a responsabilidade com a cidade. Nos mobilizamos para que a política possa ser mais transparente e participativa. Mostramos que não aceitamos passivamente o que estão fazendo com o nosso país, como não aceitamos o que antes fizeram com nossa cidade. E isso me dá uma enorme esperança.
Salvador merece que façamos tudo por ela. Apenas começamos a dar um jeito nas coisas, e, em nome das melhores tradições, vamos nos mobilizar e unir mais ainda, somar apoios. A hora é de aglutinar protestos e vozes pontuais em torno desse projeto que resgata a capital. É hora de Salvador insistir no que é lindo e mostrar seu talento e criatividade ao mundo - como já fizemos em outros momentos. Vamos bater no peito com orgulho e voltar a ser modelo para a Bahia e para o Brasil, como farol apontado para o futuro desde 1549.
*Deputado, foi presidente da Câmara Municipal de Salvador

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Salvador e o futuro

Antônio Carlos Magalhães Neto*
 Em transformação, cidade constrói seu futuro sem esquecer seu passado; investimentos em turismo e inovação são destaques.
O presente projeta o futuro. A colheita de amanhã depende da semeadura de hoje. Mas os frutos já brotam nesta terra chamada de Kirimurê pelos seus primeiros habitantes, os índios tupinambás.
Fundada por Tomé de Souza em 1549 para ser a primeira capital do Brasil, a Cidade de São Salvador da Baía de Todos-os-Santos chega aos 470 anos ingressando num novo círculo virtuoso com um destino promissor.
O futuro é auspicioso para uma cidade que organizou suas finanças. Com as contas arrumadas, tornou-se possível investir na transformação de Salvador, melhorando a sua infraestrutura e as condições de vida de seu povo.
Quando hoje todo o Brasil se vê diante da urgência de buscar o equilíbrio fiscal, a nossa capital se antecipou e dá exemplo de responsabilidade, com gastos sob controle, recursos em caixa e capacidade de investimento.
Com planejamento e priorizando aqueles que mais precisam, Salvador vai superando índices negativos e descartando rótulos como o de “capital do desemprego”. A maior recessão econômica da história do Brasil não freou o progresso da Cidade da Bahia nesses últimos anos.
O desafio de vencer essa adversidade impôs a necessidade de estratégias que evitassem o aprofundamento de nossas desigualdades sociais.
O programa Salvador 360 é a bússola que nos guia para o futuro. Abordando a cidade sob todos os ângulos, essa iniciativa da prefeitura traça metas e ações que já transformam a realidade de nossa urbe e delineiam um alvissareiro porvir para a nossa população.
Estamos recuperando a nossa vocação turística. As nossas joias estão sendo restauradas. O Centro Histórico e o território de identidade da Cidade Antiga, que abrange o Comércio e a Avenida Sete, estão sendo revitalizados. Salvador constrói o seu futuro sem esquecer o seu passado.
Um novo Centro de Convenções começa a surgir para dinamizar a atratividade turística, integrado a nossa nova orla que vem se transformando na mais bela do país: de São Tomé de Paripe a Stella Maris, com intervenções que destacam o esplendor da beleza da Ribeira, da Barra, do Rio Vermelho e de Itapuã.
Os novos tempos apontam para novos meios de produção. Inovação, empreendedorismo e conexão são palavras-chave dessa nova era que já fazem parte do vocabulário soteropolitano. O Hub Salvador é o ambiente criado pela prefeitura para a gestação das startups made in Bahia.
Salvador está em sintonia com o futuro e abraçada com sua gente. Afinal, como canta Caetano Veloso, “gente é pra brilhar!”. Numa terra abençoada por Nossa Senhora da Conceição e o Senhor do Bonfim, não cabem mais abissais desigualdades.
No presente, a prefeitura investe mais de 76% de seus recursos nas áreas mais carentes para aplacar os problemas sociais de nossa cidade. São verbas alocadas nos setores de educação, saúde, habitação, infraestrutura e assistência social.
O objetivo é um futuro onde não haja crianças fora da escola, ninguém morra em filas para obter um atendimento médico, sejam dignas as condições de moradia e os cidadãos de Salvador possam viver em paz e  tranquilos.
*Antonio Carlos Magalhães Neto é prefeito de Salvador e presidente dos Democratas

quinta-feira, 11 de abril de 2019

RIO/BAHIA

Antonio Risério*
O Rio de Janeiro e Salvador são cidades férteis em mitos - e que cultivam mitos fáceis. Um deles, central, é o de que ambas são cidades ensolaradas. Cariocas e baianos vendem essa imagem para o país - e o pior é que acreditam no que dizem. Mas esse papo de que o Rio é cidade do sol (há alguns meses, na tv, vi um surfista dizendo que no Rio faz sol 365 dias por ano!) e de que Salvador é cidade do sol é um papo furadíssimo, que não resiste ao menor exame dos fatos. A fantasia da cidade solar, tanto num caso como no outro, foi tecida por escritores, artistas em geral, empresários, governantes, políticos em geral. E as massas embarcaram na conversa. Basta recuar um pouco no tempo para ver que o discurso já foi outro. O Rio de Machado de Assis, por exemplo, é mais chuvoso que solar. Mas, com o avançar do século 20 e o assentamento de bairros atlânticos, tudo mudou. Salvador e o Rio, no entanto, são cidades de altos índices pluviométricos. Recebem chuvas quase o ano inteiro - o sol é um visitante intenso, mas breve, de pouquíssimos meses. No mais, é chuva atrás de chuva; Mas, como baianos e cariocas acreditam no mito que criaram, é o que vemos: duas cidades que se enfeitam para as frescuras do verão, mas nunca se preparam para os desastres dos demais meses, que tomam a maior parte do ano. É isso.
* Escritor e antropólogo

1997 na cidade da Bahia

Aninha Franco*
Quase suserano do Estado depois da eleição de 1996, o carlismo acelerou o processo de amalgamento de “cultura e negócio, tradição e inovação, trabalho e prazer [com atenções redobradas sobre o] carnaval, seu circuito econômico, [e a movimentação da] soma fantástica [de seus] recursos financeiros, [consagrando] a percepção de que a cultura e a informação são as grandes fontes de negócio da cidade do Salvador” (Elizabete Loiola, 1997) Em 1997, portanto, institucionalizou-se a privatização da mais interessante manifestação popular da cultura baiana, iniciada na gestão Fernando José e continuada na gestão Lídice da Matta. A apropriação evoluirá, sem controle, separando o povo de sua criação.
Em ano de prejuízos, a Cidade perdeu um dos mais brilhantes e profícuos criadores da baianidade do século XX, o artista Carybé, que passou mal e morreu numa reunião do Ilê Axé Opô Afonjá, na primeira quarta-feira do mês, dia de devoção aos orixás Xangô e Iansã, e foi enterrado no Jardim da Saudade ao som do uticu, cantado pelos integrantes da Sociedade Cruz Santa do Ilê Axé Opô Afonjá, para recomendar o novo Egun através do Axexê.
Stella de Oxossi ressaltou que "o filho de Oxossi estava sendo sepultado no dia de homenagens ao seu orixá, quinta-feira" (José Bonfim, 1997) e os jornais delinearam o perfil do “artista de traço admirável, cuja característica maior era a síntese, porque se uma linha fosse suficiente, não fazia duas” (Elaine Hazin, 1997), um erê, um capeta que pouco antes de morrer vestiu-se de médico e foi ao Hospital Aliança visitar Jorge Amado internado e com visitas proibidas. Carybé, Jorge Amado, Mirabeau Sampaio, geração plena de criatividade, amor à cultura popular e a transgressão, estava se descorporizando. 
Também em 1997 morreu Osmar Macedo, o Osmar de Dodô que trieletrizou a Baía nos anos 1950, e que nos 1990 não dispunha de dinheiro para comprar sua invenção, e o sambista Oscar da Penha, renomeado Batatinha pelo compositor Antônio Maria, antes que Diplomacia, seu primeiro CD, ficasse pronto. Batatinha foi o inventor do samba-receita com a música Feijoada Baiana (quando), e introdutor do toque de capoeira na música popular.
Morreu Agnaldo Siri , autor do curta-metragem Capeta Carybé partindo num mesmo ano, criador e criatura. Morreram, também, para empobrecimento do conhecimento brasileiro, Paulo Francis e Antônio Callado, Callado, autor do Quarup, um conforto para as gerações vitimadas pelos anos de chumbo da ditadura. Morreu Chico Science, Francisco de Assis França, aos 30 anos, num acidente de carro a caminho do carnaval de Olinda, cavando uma cratera na criatividade da música nordestina que alimenta as renovações musicais do Brasil há séculos, deixando os patrimônios Da Lama ao Caos (1994) e Afrociberdelia (1996). Sua morte de homemcaranguejo, de dono do satélite de baixa tecnologia, mas de longo alcance, reduziu o reino das invenções musicais do Nordeste a um solitário Carlinhos Brown.
*Dramaturga e escritora