sábado, 13 de maio de 2017

Lançado edital do VLT Salvador

Adilson Fonseca*
O aviso de licitação para implantação e operação do Veículo Leve sobre Trens (VLT) em Salvador foi publicado na edição desta quarta-feira no Diário Oficial. Os dois processos serão realizados por meio de Parceria Público Privada (PPP). As propostas serão recebidas e abertas no dia 30 de junho de 2017, na sede da BM&FBOVESPA, em São Paulo.
O Edital de Concessão nº 01/2017 está disponível desde quinta-feira no site da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedur) ou na sede da pasta. 
O VLT, que vai substituir o atual Trem do Subúrbio, terá 18,5 quilômetros de extensão e 21 estações. Estão previstas intervenções em duas fases: a primeira, entre o Comércio e Plataforma, com 9,4 quilômetros; a segunda, entre Plataforma e São Luiz, tem nove quilômetros, e uma terceira, com 1,5 quilômetros, entre Paripe e a localidade de São Luís.
Conforme o projeto, os usuários do VLT estarão integrado às linhas 1 e 2 do metrô e aos roteiros do BRT (Transporte Rápido por Ônibus) metropolitano. A perspectiva é de beneficiar, diretamente, os mais de 600 mil moradores do Subúrbio Ferroviário de Salvador. A capacidade diária do futuro VLT será de 100 mil usuários. Atualmente, a malha ferroviária que liga Paripe à Calçada é de 13,6 quilômetros;
Audiência Pública    

Na audiência pública que resultou na formação do Fórum  de Defesa dos Trens de Salvador, reunindo entidades civis, e especialistas ferrovias do CREA e Sindicato dos Engenheiros,  foram apresentadas propostas de

 revitalização dos trens e a extensão do atual trajeto, entre Calçada e Paripe, para outros municípios da Região Metropolitana de Salvador. A proposta do fórum e tentar um diálogo mais consistente com o Governo do Estado.
No caso do VLT de Salvador a alteração da bitola métrica existente,  o engenheiro Carlos Alberto Martins da Matta , presidente da Associação dos Engenheiros Ferroviários da Bahia e Sergipe , diz que as mudanças  serão complexas e exigirão grandes ajustes na ampliação da largura da plataforma da via, na substituição total dos dormentes, na alteração  e nos aterros e cortes, o que implicará no aumento substancial dos custos das obras, diz o documento assinado pelo engenheiro.
Revitalização 

Há 30 anos, desde quando foram desativados o transporte ferroviário de passageiros para os municípios da Região Metropolitana de Salvador, e transferidos da União apara o Município e atualmente para o estado, a operacionalização dos trens em Salvador, que o Movimento Trem de ferro luta pela revitalização dos trens de passageiros. “Há 30 anos lutamos pelo resgate desses trens, pois sua revitalização é inerente à sobrevivência de famílias que vivem nas adjacências da ferrovia”, declarou.

Numa petição encaminhada no ano passado à Procuradoria Geral da República, o Movimento Trem de Ferro denunciou que existem apenas dois trens que circulam entre 06h às 20h, de segunda a sábado, com intervalos de 40minutos. Os trens ainda sofrem constantes avarias diariamente, situação esta que já perdura por 11(onze) anos, sendo 08(oito) anos na  gestão Municipal e os últimos 03 (três) anos na gestão Estadual. 
O documento relata ainda que de 2005 até 2013 foram gastos aproximadamente R$ 200 milhões, com garantias da CBTU – Companhia Brasileira de Trens Urbanos, gestora do Sistema na época, antes de transferir a gestão do sistema para a Prefeitura. Nas obras foram feitas a troca de mais de  nove mil metros de trilhos novos importados de outros países, troca de mais de oito mil dormentes de concreto monobloco, reforma de oito estações, substituição das subestações de energia elétrica e reforma da ponte  São João, na Enseada do Cabrito .
Além do mais o documento aponta que foram feitas as reformas de duas locomotivas diesel/elétricas, realizadas no Rio de Janeiro, e aquisição de três trens reformados com capacidade de transportar 600 passageiros, cada, em São Paulo entre 2007 e 2009, e outros três que vieram de Minas Gerais, pela empresa  GK Engenharia, num custo total de R$ 8.731.800,00, di]os quais foram pagos R$ 7.967.106,00 
Conforme explicou o coordenador do Projeto Trem de Ferro excluir o trem significa excluir parte da identidade da região do Subúrbio Ferroviário de Salvador, além de inviabilizar uma expansão dos trens para a Região Metropolitana. “Nas outras capitais o sistema usa as mesmas bitolas dos trens, aproveitando-se as estruturas de trilhos e estações existentes”, diz. 
*Tribuna da Bahia

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Zélia Duncan celebra os 50 anos da Tropicália

Sérgio Roveri*
A primeira benção à escolha de Zélia Duncan como protagonista de "Alegria Alegria" foi dada antes mesmo da estreia deste musical sobre a Tropicália marcada para amanhã no Teatro Santander, em São Paulo. "Quando soube que Zélia seria a estrela do projeto, Caetano Veloso se mostrou feliz e tranquilo quanto ao resultado", disse o diretor Moacyr Góes, ele próprio o maior entusiasta do trabalho da cantora. "Zélia Duncan sempre foi o norte deste projeto. Escrevi o musical tendo sempre em mente que ela estaria à frente do elenco."
O aval de Caetano, que não costuma ser desprezível qualquer que seja o assunto em pauta, ganha importância especial neste caso, já que é de sua autoria a maioria das 24 canções executadas ao vivo durante as quase duas horas de espetáculo - há ainda, em número consideravelmente menor, composições de Gilberto Gil, Tom Jobim, Luiz Gonzaga e Roberto Carlos.
Zélia Duncan não está apenas à frente do elenco: quando as cortinas se abrem para o número inicial, a cantora de 52 anos é vista sobre um platô a cerca de quatro metros acima do chão, à direita do palco. É desta posição estratégica que a Zélia, trajando bata feita com centenas de fitinhas do Senhor do Bonfim, usa as mãos para conduzir, num misto de narradora e comandante, a cena que se desenrola sob seus pés.
"Estou aprendendo um pouco a cada dia", diz a cantora num intervalo dos ensaios. "O que faço aqui é um exercício de entrega. O diretor orienta esse trabalho com tanta doçura, que não me dou conta do risco que estou correndo ao assumir este papel."
Não se pode dizer que "Alegria Alegria" seja a estreia de Zélia Duncan no teatro. Entre 2011 e 2012 ela correu o país com o espetáculo "Tô Tatiando", espécie de concerto músico-teatral baseado na obra do compositor Luiz Tatit, no qual o texto tinha uma relevância maior que as canções. Sob a direção da atriz Regina Braga, Zélia tinha, em "Tô Tatiando", uma quantidade de texto ainda maior do que se viu obrigada a decorar agora em "Alegria Alegria".
"Aquele espetáculo foi um divisor de águas na minha carreira. Depois de 'Tô Tatiando', nunca mais vi o palco da mesma maneira", afirma. "Mais que isso, até: nunca mais vi a minha carreira da mesma maneira. O que não quer dizer que esteja abrindo definitivamente novo rumo na profissão. Sou uma cantora que, no momento, está trabalhando em um espetáculo teatral, já que teatro sempre foi uma das minhas paixões. Mas não sei como serão as coisas daqui a seis meses."
Apesar da importância que "Tô Tatiando" teve em sua carreira, a cantora afirma não ter sido esse o único trabalho que ajudou a pavimentar o caminho que a conduziria ao musical "Alegria Alegria". "Antes do 'Tatiando' veio minha parceria com os Mutantes, entre 2006 e 2007. Tocar com eles, que também tiveram importância no tropicalismo, foi como tomar um ácido cujo efeito se prolonga até hoje. É uma viagem que ainda não terminou", diz. "Agora sei que o risco aqui é outro, mas conheço o Moacyr Góes há tanto tempo e confio tanto nele que, caso eu venha a cair, sei que vou cair gostoso."
Em "Alegria Alegria", que chega aos palcos quando a Tropicália comemora 50 anos, Zélia não responde por um personagem fixo. Ela transita por entre os 13 atores do espetáculo fazendo uma costura cênica, uma anfitriã incumbida de conduzir uma narrativa que se apropria da música para esboçar retrato social, econômico e, acima de tudo, cultural do Brasil. Não apenas do Brasil do fim dos anos 60, quando o movimento aflorou, mas do país onde vivemos hoje. "Foi trabalhoso, mas fácil ao mesmo tempo, transportar a Tropicália para o Brasil do século XXI", diz Góes, que além da direção responde pelo roteiro.
"Digo que foi fácil porque os clássicos preservam a juventude, e as 24 canções escolhidas são clássicos indiscutíveis. São músicas que tratam de determinados valores que não morrem. Os tropicalistas não produziram apenas aventura musical, produziram a contracultura e nos apresentaram a ela."
Nessa primeira experiência com musicais, Góes, que já dirigiu duas novelas na Rede Globo, dez filmes e perto de 50 peças, afirma ter se afastado do didatismo e de uma cronologia que presenteasse a trama com começo, meio e fim. "Isso nem seria condizente com a Tropicália, movimento que nunca foi obediente às normas", afirma. Vindo de uma família de intelectuais de esquerda - seu pai foi o educador e escritor Moacyr de Góes - Moacyr Góes era obrigado, na infância, a se esconder no quarto da empregada para ouvir as canções da Tropicália, já que na casa o movimento, por ser considerado americano demais, havia sido sumariamente banido.
"Escrevi 'Alegria Alegria' para dar voz à paixão que sinto pela cultura e pela diversidade", afirma. "Estamos vivendo um momento muito difícil, por isso acredito que o espetáculo sinaliza que é possível um renascimento. Eu quis trazer um pouco de esperança, justamente por meio da diversidade. Estas canções são uma ode ao que temos de melhor."
*Valor Econômico - Cultura & Estilo

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Morre Nelson Xavier, o magistral "Mágico" de Fernando Coni

Um mágico, Don Velásquez (Nelson Xavier) e sua partner Paloma (Tania Alves) chegam a uma pequena cidade do interior do Bahia para apresentar um espetáculo de variedades, com números de mágicas e de canto e dança. A estréia da dupla é frustrada pela prepotência do delegado local. O dia seguinte é o dia de feira da cidadezinha. 
Comovida pela pobreza da feira, Paloma sugere ao mágico uma grande mágica que traga a fartura onde existe a miséria, o que é feito. No entanto, a mágica dura pouco e logo a cidade volta à sua pobreza habitual. Há uma grande revolta e o delegado prende o mágico. Na cadeia, ele é colocado numa cela comum onde já estão quatro outros presos. A presença do mágico quebra a rotina da vida carcerária e uma série de coisas esparitosas e maravilhosas começam a acontecer. Na tentativa de restabelecer o ordem, o delegado retira o mágico da cela comum e o coloca numa solitária. Tal recurso não adianta, segundo depoimento do carcereiro, que vê o mágico promover banquetes chega aos outros presos que exigem comida igual a que dizem que o mágico come, e então entram em greve de fome. Uma galinha ao molho pardo é preparada para acabar com a greve de fome. Pouco depois, o mágico, algo maravilhoso acontece justificando a afirmativa do Padre Antonio Vieira: ‘cada um sonha como vive’.
Inspirado numa anedota contada pelo gaúcho Josué Guimarães no terceiro capítulo de “Depois do Último Trem”, “O Mágico e o Delegado” foi roteirizado por Coni Campos e Mário Carneiro com muita emoção. Diz o próprio Coni que a idéia foi buscar em sua infância, numa pequena cidade da Bahia, “os seus loucos, seus bêbados, as suas tristes mulheres”, os personagens capazes de dar vida e emoção nesta estória de elementos fantásticos. Entretanto, não deixa de ser um filme extremamente simples e comunicativo, pois uma das preocupações de Coni foi esta. Explica: Sempre busquei um cinema popular, isto é, um cinema que nasce do povo ou nele se inspira e a ele retorna, fechando um círculo (talvez a palavra circo seja mais adequada) e não um cinema de massa que reflete o gosto da classe dominante e tenta impor essa estética ao povo massificado.E porque é através da poesia que o povo, formalmente se expressa, a linguagem poética foi escolhida para narrar uma espécie de parábola que em vez de implodir numa lição de moral, explode num amplo leque de leituras, ao sabor dos sonhos, fantasias e vivências do espectador.

Coni Campos, foi feliz na linguagem que empregou: procurou a mesma informalidade, a brincadeira, a invenção, os truques e os malabarismos usados pelos artistas de feira, de circos e mambembes em toda América Latina “que é a maneira que o povo tem encontrado para sobreviver”.

393 anos da Invasão holandesa a Salvador

holandeses brasilAlbenísio Fonseca*
Salvador, 9 de maio de 1624. A cidade amanhece sob o domínio e os efeitos do bombardeio de uma esquadra holandesa composta por 26 navios, sob o comando de Jacob Willekens. Na véspera, mesmo sob fogo cruzado do Forte de Santo Antônio, eles conseguem alvejar os canhões da Ponta do Padrão e desembarcam no Porto da Barra. Grupamentos de vanguarda seguem pela Ladeira da Barra e despenhadeiros até alcançarem a Porta de São Bento. Passam a madrugada no Mosteiro “ao sabor de vinhos e confeitos” que encontram no local. Ali, esperam o dia amanhecer e tomam o centro da cidade.
Pintura de Hassel Gerritsz sobre a invasão a Salvador em 1624
Conforme Ricardo Behrens, no livro ‘Salvador e a invasão holandesa de 1624-1625’, “relatos portugueses e holandeses contam que o confronto teve início no dia anterior quando os da cidade receberam com disparos um batel com bandeira de paz enviado pela frota, antes mesmo de ouvirem a embaixada. Em resposta, os invasores descarregaram seus canhões no costado da cidade, nos fortes e nos navios que estavam no porto”. A visão da armada, por si só, provoca pânico e correria na maioria dos habitantes. Por mais que soubessem da probabilidade dos ataques, a cidade não dispunha de nenhuma estratégia especial. D’El Rey não estabelecera nenhum recurso para armamentos.
Já os holandeses – cuja armada partiu do porto de Texel em dezembro e a viagem durara, portanto, quase seis meses – estavam imbuídos do propósito de invadir a capital do Reino do Brasil e com bastante munição. Os arrasadores disparos de canhões e, depois, o vandalismo dos invasores, acarretam inúmeros prejuízos à cidade, inclusive ao prédio da Câmara onde estava instalado o Arquivo Histórico, cujos documentos são completamente destruídos pelo fogo.
De acordo com o historiador Affonso Rui, no livro ‘História política e administrativa da cidade de Salvador’ “os oficiais encarregados da documentação, como boa parte da população, fogem para Abrantes”, relata. Os 3.400 homens, entre aventureiros e mercenários que compunham a esquadra invasora, não encontram maiores resistências para render o governador-geral da colônia, D. Diogo Mendonça Furtado, e aprisioná-lo na chamada Casa dos Governadores (no que viria a ser o Palácio Rio Branco, na atual Praça Tomé de Souza), em pleno coração da urbe, uma das mais importantes cidades da América, então capital do Brasil.
O governante português já houvera se mostrado preocupado com o despreparo bélico do Brasil e chegou a entrar em choque com a Igreja, que não via necessidade de preocupações militares. Assim, os holandeses não tiveram muitos problemas para tomar a cidade e Mendonça Furtado assina sua rendição um dia depois. É levado prisioneiro para Amsterdam, com outras 12 pessoas, entre auxiliares e jesuítas, de onde somente são libertados em 1626. Segundo Behrens em sua dissertação de Mestrado já convertida em livro, “há uma série de conferências publicadas na Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, nº 66, de 1940. Trata-se de uma publicação em comemoração à derrota de Maurício de Nassau ao tentar invadir a Bahia em 1638. Além das conferências, foram publicadas as sugestões feitas pelos membros do Instituto para comemorar a data, dentre as quais se destaca a ideia de confecção de uma série de placas comemorativas, a exemplo da que existe ainda na entrada do Mosteiro de São Bento”.
A permanência dos holandeses em terras baianas duraria praticamente um ano. Cabe ao bispo Dom Marcos Teixeira, posteriormente denominado Bispo Guerreiro, promover a resistência. Através da tática de emboscadas impede os invasores de sair da cidade. Em 27 de março de 1625, a esquadra de reforço portuguesa-espanhola, comandada pelo espanhol D. Fradique de Toledo Osório, chega a terras baianas. Foram mais de 40 dias de batalha e, em 1º de maio, obtém a primeira rendição.

Colônia era controlada pelos espanhóis durante a União Ibérica
A colônia era controlada, então, por espanhóis, durante a denominada União Ibérica (1580-1640) que junta as duas coroas após o desaparecimento de Dom Sebastião de Avis, na Batalha de Alcácer Quibir, no Marrocos, na guerra contra os mouros, em 1578, quando ambicionava a vitória sobre os muçulmanos para a glória do cristianismo. Vale entender mais: A “morte” de Dom Sebastião provoca uma crise sucessória em Portugal, tendo em vista que o rei não deixara herdeiros. Seu desaparecimento gera o “sebastianismo”, espécie de crença messiânica que estipulava seu retorno ao reino e que se estenderia por três séculos como símbolo do nacionalismo português.
A solução encontrada para o trono é seu tio-avô, o cardeal D. Henrique (Henrique I, de Portugal), que, já bastante idoso, falece em 1580, marcando o fim da dinastia de Avis. Com isso, o trono português passa a ser disputado por outras dinastias europeias, que reivindicavam ligação de parentesco com Dom Sebastião. O então rei da Espanha, Felipe II, um dos mais poderosos monarcas da época, era neto de Dom Manuel, O Venturoso, que, por sua vez, era tio de Dom Sebastião. Essa ligação parental é reivindicada por Felipe II e usada como legitimação para a invasão de Portugal pelos espanhóis em 1580, instaurando a monarquia dualista: duas coroas sob um mesmo monarca. Portugal só readquire a independência 60 anos depois quando tem início o reinado de D. João IV, fundador da dinastia de Bragança.
É no período da União Ibérica que ocorrem também as invasões francesas. Holanda e França, que antes mantinham relação amistosa com Portugal, confrontam-se diretamente com a Espanha. A supremacia ibérica passa a ser questionada por aquelas nações europeias que desejavam também lucrar com o processo de colonização. E isso envolvia tanto razões de caráter econômico, no que pese o controle do comércio de açúcar e da extração de metais, quanto de ordem religiosa, na medida em que a Espanha era católica enquanto a Holanda e parte dos franceses haviam aderido ao protestantismo. O período conhecido como “Brasil Holandês”, em que vigorou uma sofisticada administração holandesa em parte da costa nordeste brasileira, ocorre exatamente nesse contexto. Não há registros de legados holandeses na Bahia, ao contrário dos verificados em Pernambuco, como os franceses no Rio de Janeiro e no Maranhão.
holandeses brasil
Desenho de Hassel Gerritsz sobre a Baía de Todos os Santos durante a invasão holandesa

Primeira tentativa de invasão acontece em 1599
Outras tentativas de invasão dos holandeses já haviam sido registradas na Bahia, mas não foram bem sucedidas. Na impossibilidade de dominar a capital do Brasil, eles conseguiram se estabelecer em Pernambuco e estenderam seus domínios por grande parte do Nordeste até serem expulsos, definitivamente, da Colônia, em 1654. A primeira tentativa holandesa de conquistar Salvador ocorre em dezembro de 1599, quando o almirante van Leynssen envia sete navios ao Brasil, comandados pelos capitães Hartman e Broer. Os ataques na Baía de Todos os Santos duraram quase dois meses. Os holandeses afundam várias embarcações portuguesas e pilham engenhos no Recôncavo. Mas fracassam no objetivo de conquistar a cidade.
Nos anos seguintes, piratas holandeses continuam atacando navios espanhóis e portugueses nos oceanos Atlântico e Índico. Em 1604, tentam novamente conquistar Salvador, dessa vez com uma esquadra de seis navios comandada por Paulus van Caerden. O ataque, similar ao primeiro, tem como resultado o mesmo fracasso. Nos anos seguintes, dezenas de navios com cargas do Brasil são atacados pelos holandeses. Em 1621, eles fundam a Companhia das Índias Ocidentais, empresa patrocinada pelo governo holandês com participação de investidores privados e que visava, principalmente, a exploração comercial da América. No século 16, Portugal mantinha boas relações comerciais com os holandeses, mas esse quadro muda com o advento da União Ibérica em 1580.
Um ano antes, em 1579, as províncias do norte dos Países Baixos haviam formado a União de Utrecht, documento assinado por diversos estados dos Países Baixos que se debatiam para obter a independência da Espanha. Em 1581, declaram formalmente sua independência. A Espanha, entretanto, só a reconheceria em 1648, 24 anos depois de a Companhia das Índias Ocidentais decidir pela invasão de Salvador sob a alegação de sentir-se prejudicada em seus negócios no Atlântico pelo domínio espanhol sobre Portugal.

A expulsão dos invasores no contexto internacional
Fevereiro de 1630. Navios e canhões holandeses entram de novo em águas brasileiras. Dessa vez invadem Pernambuco, maior produtor mundial de açúcar na época. Desembarcam no litoral pernambucano e conquistam Olinda e Recife com relativa facilidade. O então governador Matias de Albuquerque retira-se para o interior com homens e armas e funda o Arraial do Bom Jesus, uma fortificação de onde partiam os ataques aos invasores.
Como na invasão da Bahia, os lusos-brasileiros adotam a guerra de emboscadas na tentativa de impedir os holandeses de penetrar nas terras onde estava a maioria dos engenhos. A resistência, no entanto, não contém o avanço holandês, que chega a receber apoio de moradores da região, como é o caso de Antônio Fernandes Calabar. A colaboração, muito mais que traição, visava livrar-se do domínio português. Derrotado, Matias Albuquerque manda incendiar os canaviais à sua volta e retira-se para Alagoas. Antes, porém, consegue prender Calabar e manda executá-lo.
Sete anos depois, em 1637, a Companhia das Índias Ocidentais decide reconstruir os engenhos com o objetivo de voltar a obter lucro com o açúcar brasileiro. Para liderar esse projeto, envia ao Brasil o conde João Maurício de Nassau-Siegen, com o título de governador-geral. A acumulação de riquezas da Companhia das Índias Ocidentais reflete-se na administração e na reconstrução de Recife, a capital do Brasil holandês. Nassau teve a habilidade de convidar alguns senhores de engenho para participar da administração. Não lhes oferece cargos importantes, mas não ignora suas reivindicações. Mantém uma tolerância religiosa, sem obrigar os colonos luso-brasileiros a converterem-se ao protestantismo dos holandeses.
No afã compreender melhor o Brasil, Maurício de Nassau manda vir da Holanda 46 estudiosos, pintores e cientistas para estudar e registrar as características da terra, dada a curiosidade despertada pela rica fauna e pelas belezas naturais da região. Os holandeses foram pioneiros nesse tipo de estudo sobre o Brasil. Os pintores Frans Post e Albert Eckhout deixam belíssimas pinturas da colônia holandesa nordestina. Os cientistas estudaram doenças tropicais e sua possível cura. O primeiro observatório astronômico das Américas foi construído em Recife. Maurício de Nassau tentou ainda dar maior autonomia econômica à colônia para não depender em demasia do mercado externo.
Em 1640, Portugal consegue independência da Espanha. Em agosto de 1645, os colonos luso-brasileiros conseguem importante vitória no Monte das Tabocas. O governo da Bahia envia auxílio e Recife é sitiada. A vitória, todavia, não conseguiu desalojar os holandeses, muito bem guarnecidos por mar. As lutas prosseguem por três anos. No final de 1648, os holandeses sofrem grande derrota na Batalha dos Guararapes. Ainda assim, Recife continua em poder da Companhia das Índias Ocidentais.
A situação internacional, contudo, ajuda a acabar com o impasse no conflito entre holandeses e colonos no Brasil. A Inglaterra declara guerra à Holanda, na disputa pela hegemonia dos mares. Os ingleses chegam a auxiliar os rebeldes anti-holandeses no Brasil. Os governantes portugueses aproveitam o enfraquecimento dos invasores e enviam um grande reforço para os colonos no Brasil, em fins de 1653. Finalmente, em janeiro de 1654, os holandeses se rendem. Terminava ali o período de domínio holandês no Brasil. Mas somente em 1661 o governo holandês reconhece que não tinha mais direitos sobre o Brasil.
 Publicado originalmente no Blog do Albenísio
*Jornalista com trajetória marcante nos principais jornais baianos como repórter e editor nas áreas de Cultura, Política, Economia e Internacional. Como assessor de Comunicação atuou nas duas primeiras campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República, na Bahia, entre outros políticos e junto à iniciativa privada, em shopping centers e indústrias do Pólo Petroquímico. Como empresário, lançou diversos títulos e ganhou o prêmio Colunistas Brasil, em 1992, pelo ineditismo da “Revista do Carnaval”. Atualmente é repórter de Cidade, na Tribuna da Bahia e sócio-editor do jornal “Itapuã na Frente”.
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domingo, 7 de maio de 2017

Portos: Salvador e Barcelona

Osvaldo Campos Magalhaes*
Cidades que surgiram e se desenvolveram em função de seus portos, Barcelona e Salvador, possuem enormes potenciais para o crescimento em segmentos econômicos parecidos.
Se nos dias atuais, Barcelona e Salvador, se distinguem pelo forte apelo turístico e cultural, atraindo milhões de pessoas de todo o mundo para os grandes eventos que realizam, divergem, e muito, na atenção aos investimentos em tecnologia, infraestrutura de transportes, turismo e comércio.
Com a realização das Olimpíadas em 1992, Barcelona realizou investimentos na requalificação da decadente área portuária, na construção de hotéis, moderno terminal aeroportuário e, no seu sistema de mobilidade urbana.
Os investimentos na requalificação urbana não implicaram no desprezo ao enorme potencial portuário da cidade, um dos maiores do Mediterrâneo e dos mais importantes da Europa, mesmo estando encravado no centro da cidade e movimentando navios com cargas químicas, siderúrgicas e minerais.
Em Salvador, apesar da decadência de seu aeroporto e do desprezo da comunidade e das autoridades locais em relação ao porto, existem boas perspectivas de superação destes entraves. A privatização do seu aeroporto e o grande potencial de crescimento nas operações de navios de turismo e navios porta contêineres abrem boas perspectivas para a economia da cidade.
Privatizado em 1999, o Terminal de Contêineres do porto de Salvador é administrado pela maior empresa operadora portuária do Brasil, a Wilson Sons, que vem investindo e modernizando o TECON, hoje um dos mais eficientes do Brasil e com enorme potencial para se tornar no hub-terminal do Nordeste. Com a ampliação do canal do Panamá, que passa a operar com navios de até 14.000 TEU´s, Salvador, ampliando seu molhe e seu berço de atracação de navios conteneiros, poderá captar esses gigantescos navios que exigem eficiência e capacidade operacional do porto.
Já o terminal de Cruzeiros, apesar do equivocado e deficiente projeto, está concessionado à maior operadora de terminais de passageiros do Brasil, a SOCICAM, e possui enorme potencial de desenvolvimento e de atração de turistas para a cidade, e, com ações e investimentos, poderá transformar Salvador em porto emissor de Cruzeiros Marítimos.
Uma boa estratégia para revitalizar a economia de Salvador, seria a municipalização da gestão do porto, como ocorre com sucesso nas principais cidades portuárias da Europa.
Salvador abriga uma das maiores comunidades espanholas do Brasil, o que justificaria uma aproximação do nosso prefeito com os alcaides de Barcelona e Valencia.
Essas cidades vêm obtendo êxito nas suas estratégias competitivas, baseadas no fortalecimento de seus portos, do turismo e da economia criativa.
*Membro do Conselho de Administração da CODEBA    



A morte e as mortes do centro histórico

Paulo Ormindo de Azevedo*
Não é só o centro histórico que está enfermo. O Comercio, antigo centro financeiro do estado, está enfermo também. Conheço inúmeros edifícios relativamente novos que têm um só elevador funcionando e são abastecidos por carros pipas, porque têm dívidas enormes com a Embasa e a Coelba. Os proprietários de suas salas buscam quem se comprometa apenas a pagar o condomínio e o IPTU. Não é muito diferente a situação da Av, 7 de Setembro e Rua Chile, a main street de Salvador até os anos 60. 

Será que podemos criminalizar os proprietários desses imóveis por omissão, ou será que o problema é mais profundo, resultante de políticas públicas comprometidas? O nosso centro tradicional foi condenado com a transferência de suas funções centrais, na década de 1970, para um novo centro periférico, na maior transação imobiliária que esta cidade já viu, quando se transformaram glebas rurais de patacas em lotes dourados comerciais com o investimento público. O poder político e a administração estadual foram transferidos para o CAB e o econômico e comercial para o Iguatemi. Como se não bastasse, em 1992 se expulsou a população e se excluiu o Centro Antigo e o Comercio do projeto do metrô. O drama da área é resultado do conchavo imobiliário. 

Quando o Iguatemi e a Paralela se transforma em um dos locais mais congestionados, e inóspitos da cidade, a Orla do Atlântico, sem um parque costeiro capaz de amenizar a maresia, vira uma zona de motéis e shoppings decadentes e o estoque de terrenos do Corredor da Vitória se esgota, o capital imobiliário se propõe, candidamente, a revitalizar o Centro Antigo. Uma senhora compra 150 imóveis em Santo Antônio Além do Carmo, outro cavalheiro adquire igual número de imóveis na Rua Chile e projetos imobiliários para o Largo Dois de Julho e o Sodré são apresentados. Se pensam que vão verticalizar o Centro Antigo, se enganam.

Acho muito positivo que a Prefeitura se interesse pelo Centro Antigo, mas não creio que vá se resolver o problema pela justialização e mercado imobiliário. Para reconstruir 1500 ruínas e recuperar uma área tão extensa não bastam isenções fiscais. Quem são esses proprietários virtuais? Tirando uma franja com vista para a baia, que pode interessar à pequena hotelaria, não creio que a nossa burguesia possa querer morar em apartamentos sem garagem, playground e transporte na porta. Creio sim num plano urbanístico que envolva União, estado e município com investimentos pesados em mobilidade e recuperação de ruínas e pardieiros para uma clientela de “Minha casa, minha vida”, que inclua as 3.000 famílias carentes que foram o sal da área e outros setores sociais, como funcionários públicos, comerciários e estudantes. Sem essa decisão política, vai se continuar morrendo e liquidando o Centro Antigo.

SSA: A Tarde, 07/05/17

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Ramma, 30 anos saudáveis

Ramma


Ramma surgiu de um sonho e vem se tornando uma referência em alimentação saudável e saborosa.
O restaurante faz parte das boas opções de comida natural em Salvador, desde 1987. Ao longo desses 30 anos, devido ao aumento da procura por comidas saudáveis, houve a necessidade de ampliação.Várias reformas no aspecto visual e estrutural foram feitas, tornando o ambiente mais bonito e mais confortável.
A sua proprietária sempre teve um sonho de ter um restaurante. Após conhecer um pouco sobre naturismo, e estando o Ramma à venda, resolveu arriscar nesse negócio, pois seria uma forma de aumentar a sua renda, fazendo algo que, lhe daria muito prazer, pois apesar de ser formada em engenharia civil, gostava de cozinhar e estava muito envolvida com a medicina natural. Nunca tinha trabalhado em outro restaurante, mas sabia como administrar uma casa e achava que não seria muito diferente com um restaurante. Após 23 anos, a mesma acha que está valendo à pena. Este é um negócio que para ela é como se estivesse cada dia fazendo festa para seus amigos.

Marina Santos Neves, proprietária,vem pesquisando sobre saúde desde 1982, quando sentia fortes dores de cabeça e após consulta com o médico naturalista Áureo Augusto, foi aos poucos mudando a sua forma de se alimentar, retirando aos poucos carnes e introduzindo mais saladas cruas, vegetais, frutas e cereais integrais, hoje acredita que este processo de se conhecer, conhecer qual o tipo de alimentação adequado a cada um é uma viagem muito interessante para quem quer investir em sua saúde.
A comida do Restaurante Ramma inaugurou em Salvador um novo conceito de alimentação. Saudável, feita com os melhores ingredientes do mercado e, por isso, apresentando a melhor qualidade, tem sido escolhida para grandes eventos como alternativa de bom gosto e consciência sobre como a boa alimentação pode influenciar os demais setores da vida.
Marina acredita na medicina Ayurvédica. Sempre que pode, gosta de ler sobre este assunto, e já fez duas viagens à Índia para conhecer mais.
O Ramma existe para satisfazer as pessoas que já praticam uma alimentação vegetariana, mas também tem o propósito de atender as pessoas que ainda não são e que querem fazer uma alimentação mais saudável.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Vida, vento, vela, leva-me daqui

Caetano Veloso*
A última vez que vi Belchior foi em São Paulo, pouco antes do seu famoso desaparecimento. Ele me procurou e conversamos bastante. Me trouxe de presente dois retratos de Drummond desenhados por ele, muito sugestivos e profundamente sentidos. Achei significativos a visita e os presentes.
Nunca me esqueço de sua entrada no palco do teatro João Caetano, quando o vi pela primeira vez. Ele veio da coxia quase correndo e gritando, antes da introdução da banda: "Quando me lembrei já estava em cima da hora!" Era a frase que Gil diz na abertura de minha Irene, ao perceber que tem que recomeçar (Gil toca violão em todas as faixas do disco que gravei em Salvador depois da prisão, durante o confinamento, antes de irmos para fora do país). A tirada de Belchior era mais uma das referências irônicas que ele fazia ao tropicalismo. Tinha uma beleza poética imensa, como muitos dos versos de suas canções.
A chegada à cena do "pessoal do Ceará" teve como uma de suas marcas a intenção de exibir confronto com os tropicalistas. Sugeriam que nós, os baianos, já representávamos o estabelecido, o velho, enquanto eles seriam o novo e a verdadeira rebeldia. Me parecia uma interessante reação ao habitual "tudo amiguinho, tudo certo". No estilo de Belchior, soava justo. O tropicalismo se opôs à bossa nova louvando João, Jobim e Lyra. A bossa nova se opôs à bossa velha louvando Caymmi, Ary e Bide&Marçal. O pessoal do Ceará queria opor-se mesmo. Não chegava a isso e a recusa à louvação teria ficado vazia não fosse o talento e a personalidade de Belchior. O belo "Pavão" (Pavão Misterioso) de Ednardo era psicodélico e nordestinista. Ou seja: nada que o tropicalismo já não tivesse sido. Fagner era, quanto a todas essas questões, indefinido. Belchior esboçava um estilo anti-sixties, sugeria uma volta aos fifties como prefiguração os eighties. Eu amava (e amo) Mucuripe. A frase musical que sustenta o verso "Vida, vento, vela leva-me daqui" é tão bela e adequada que dois dos maiores cantores do Brasil não conseguiram chegar à sua altura. Mas Mucuripe era uma canção "clássica", atemporal. Ela trouxera os cearenses ao reconhecimento público, mas não representava ruptura. As músicas que Belchior assinou sozinho fizeram isso. Todas as citações a canções nossas que estavam em trechos de canções de Belchior me agradavam por estarem dentro de um timbre criativo sempre rico e instigante.
Muitas entrevistas de Fagner desmereciam a força estética que era evidente em Mucuripe e em Belchior. Como Nossos Pais é uma das melhores interpretações de Elis. Também Velha Roupa Colorida é algo coeso e forte. Mas tudo isso ficava mais interessante ainda quando na voz do autor. É que a escrita em si, o material que ele apresentava, era de boa qualidade. E o som da sua voz, reiterado por sua figura, dizia o que ele queria dizer. Seria gozado ouvir, em Apenas um Rapaz latino-Americano, um "nada é divino, nada é maravilhoso", como se a frase do "antigo compositor baiano" lembrada por quem canta já não fosse amargamente auto-irônica quando foi inserida no retrato cubista de uma passeata de protesto contra a ditadura militar - e não precedesse o refrão "É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte" - mas as dubiedades de Belchior são deliberadamente desorientadoras e estão ali mais para marcar a passagem do tempo e anunciar novos ventos de estilo.
Quando as músicas fizeram sucesso e os discos venderam, Belchior aparecia nas festas ao lado de André Midani usando ternos finos, fumando charutos caros e falando na cultura da "Rive Gauche". Depois, as Paralelas enchiam o ar das cidades. Eu próprio (que já chorara com Como Nossos Pais num teatro em São Paulo, vendo Elis) chorava no carro. O confronto que lhe pareceu necessário vinha eivado de amor. E não apenas amor transmutado em ressentimento. Não é por acaso que Belchior é lembrado e louvado por gerações sucessivas. Suas canções não são das que morrem. Ele prefigurou os anos 80 em termos globais e se instalou na memória profunda da história da criação de música popular no Brasil. As pessoas que enchiam os teatros a cada reaparição do bardo cearense entendem o sentido dessa história.

[Caetano Veloso]
*Musico e poeta. Assim como Belchior, Caetano cursou Filosofia

sábado, 29 de abril de 2017

Sobre o quase demolido Centro de Convenções

Márcio C. Campos*
Em janeiro de 1977 era inaugurado em Paris o Centro Georges Pompidou, o edifício que, visto a partir da perspectiva histórica de hoje, é provavelmente o mais importante no mundo dentre os construídos na segunda metade do século XX. Selecionado a partir de um dos concursos internacionais mais debatidos à sua época, o Projeto de Renzo Piano e Richard Rogers articulou, exatamente na década que iria experimentar o auge das tendências pós-modernas historicizantes em ambos lados do Atlântico, os mais importantes impulsos de improvável renovação da arquitetura moderna, com os elementos do debate espacial e tecnológico levantados nos anos 60 (palavra-chave: Archigram) e a discussão da manutenção da vitalidade dos centros históricos europeus, à beira de um processo de expansão geográfica através de subúrbios e de uma progressiva destinação de uso ao turismo de massas, em uma arquitetura unicamente otimista, radical e renovadora, algo reservado a obras excepcionais. Um professor que tive na Universidade Técnica de Viena afirmava, em uma frase de efeito e em uma comparação destemida, que o Centro Georges Pompidou deveria ser estudado por arquitetos como uma sinfonia de Beethoven é estudada por músicos.Maior exemplo da arquitetura que é reconhecida como high-tech, com a sua rigorosa separação entre os espaços de exposição no centro do volume arquitetônico e os espaços de apoio (equipamentos de circulação como elevadores e escadas rolantes, instalações, etc) situados dos dois lados maiores, na periferia do edifício, por assim dizer expostos nas fachada, o edifício com sua clara e simples definição volumétrica e sua estrutura com forte impacto de imagem recebeu críticas que o descreviam como “uma refinaria de petróleo” no centro da capital francesa. Ainda que a esta radicalidade estética, correspondente inclusive ao fato de o edifício não possuir uma fachada no sentido tradicional do termo, pois hipoteticamente módulos poderiam ser adicionados ao seu lado menor em uma extensão sem limites nas duas direções, é parte de uma resposta aos desafios de um programa que exige espaços amplos e flexíveis em vários andares, graças à compacidade de seu volume foi possível criar a grande praça que lhe serve de esplanada de acesso e organiza em harmonia tanto o espaço público como a inserção do edifício no seu entorno, atingindo um equilíbrio que é fruto de uma decisão de projeto extremamente refinada.Em 1979, dois anos após a inauguração do Centro Georges Pompidou, foi entregue à população da Bahia o Centro de Convenções do Estado, construído a partir de concurso de projeto de arquitetura realizado em 1976 e vencido pelo importante escritório carioca MMM Roberto, responsáveis por alguns dos edifícios mais importantes do movimento moderno no Brasil. Neste momento, caracterizado pela bibliografia especializada como o quarto período do escritório, a administração do escritório estava a cargo de Maurício Roberto, o mais jovem dos irmãos que compuseram originalmente o escritório, e contava com a participação de Márcio, seu filho.Dentro de todas as evidentes diferenças e distâncias que há entre duas cidades como Paris e Salvador, é impressionante como o escritório carioca elaborou uma proposta que deu origem a um edifício para o Centro de Convenções capaz de estabelecer uma série de elementos radicalmente novos para a cidade e extremamente atualizados em relação à discussão internacional de arquitetura. Em destaque evidente está a articulação das partes, claramente vinculada à arquitetura high tech, entre as torres de concreto armado que abrigam na periferia do volume escadas de emergência, elevadores e sanitários e a grande treliça metálica que compõe o “edifício-ponte” com o espaço livre e flexível destinado ao uso de feiras e convenções, com seus auditórios nas extremidades.O edifício, além disso, explora sua dimensão para determinar urbanisticamente um marco espacial de caráter direcional para a ocupação da orla atlântica da cidade: situado na cumeada da linha de elevações mais ou menos paralelas à orla – que segue com alguma regularidade até Itapoã – ele estabelecia claramente um limite para a faixa que não deveria ser verticalizada – entre a praia e o Centro de Convenções – uma função que é claramente reconhecida se somos capazes de imaginar uma expansão da linha imaginária determinada pelo eixo longitudinal do edifício em direção ao norte, através da inserção de uma série de edifícios com semelhante relação paisagística, uma continuidade que pode ser vislumbrada até mesmo com uma própria expansão do edifício-ponte (que, no limite de tal expansão fictícia, poderia se transformar em uma megaestrutura e chegar até o litoral do Rio Grande do Norte). Desta maneira, a linearidade da orla, reforçada no traçado da Avenida Paralela, era reafirmada como arquitetura e, assim, poderia finalmente ter conferido consistência de desenho urbano à paisagem da cidade.Apesar de escalas bem distintas de articulação com o espaço da cidade (decorrente da extrema diferença de urbanização e densidade entre as duas situações dos dois edifícios), é impressionante como a articulação entre a escala do acesso do usuário e a do edifício-monumento apresentam soluções que, ainda que não semelhantes, correspondentes em seu acerto: no Centro de Convenções, o uso da via de acesso no centro do vale entre as extremidades do edifício, ao passo que estabelece uma orientação inequívoca, oferece uma escala francamente convidativa assim que o usuário encontra-se sob o edifício (algo que depois foi perdido com a ampliação realizada anos mais tarde, estabelecendo outras possibilidades de entrada).Uma vez alcançado o interior do edifício, o usuário está diante da grande diferença entre o Centro de Convenções e o Centro Georges Pompidou: se a sequência de escadas rolantes no edifício em Paris constitue uma experiência de desfrute da vista para o exterior, no Centro de Convenções, por estarem situadas no interior do edifício, a sequência de escadas oferece uma contemplação do espaço interior do monumental hall verticalizado de acesso aos pisos superiores, de onde então, através da fachada envidraçada, o usuário pode apreciar a vista para a paisagem, do alto, posição adequada para a vista para o mar.Ainda que construído à época de outros importantes edifícios para a cidade que também introduziam a industrialização no processo construtivo – a exemplo das secretarias do CAB, projetadas por Lelé, em concreto armado – e que não se possa pensar outro edifício icônico da cidade como o é a Casa do Comércio sem a sua existência prévia (embora no edifício à Avenida Tancredo Neves note-se um certo formalismo tanto na simetria como nos balanços), é no fato de que provavelmente nenhum outro edifício em Salvador, nem antes e muito menos depois, ter sido capaz de materializar importantes questões do contemporâneo debate arquitetônico internacional que reside a singularidade do edifício entre o STIEP e a Boca do Rio.Sua importância para a cultura arquitetônica da cidade, mesmo tendo sofrido incialmente o mesmo tipo de estranhamento de “parecer uma refinaria”, é inconteste. O desenvolvimento da ocupação do solo urbano nestes últimos 40 anos, tanto no seu entorno imediato como na cidade como um todo, efetivamente aconteceu de maneira radicalmente distante de diretrizes ali apontadas (ah, o debate sobre a verticalização da orla…) e se ele hoje pode parecer um tanto “fora do lugar”, este não é um problema do edifício, e sim da cidade. Afinal, Salvador não é mesmo Paris.
 *Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitética da UFBA

quarta-feira, 26 de abril de 2017

BRT não é solução, é problema

Entidades urbanísticas de Salvador criticaram o projeto do BRT de Salvador, cujo edital foi apresentado pelo prefeito ACM Neto na última terça-feira (14).
Conselheiro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia (CAU-BA), Paulo Ormindo disse que os elevados – estruturas como viadutos, pelos quais transitarão os ônibus do modal – trazem impactos “muito grandes, não só visual como circulatório”. 
Ainda na avaliação de Ormindo, o projeto pensado para a capital baiana é "caro” e, até certo ponto, megalomaníaco em relação a cidades de países desenvolvidos.
 “Ele [BRT] também vai ser colocado em cima do canteiro central da Juracy Magalhães Jr., o que significa uma destruição grande de verde. 
O sistema de pagamento também evoluiu muito. Um dos motivos de você criar aquelas estações era a questão do pagamento. Quando o passageiro entrava, ao invés de parar na borboleta para pagar, você entrava na estação já tinha que pagar. Hoje, há basicamente um sistema de cartão magnético. 
Na verdade, hoje não há nenhuma cidade de país desenvolvido que tenha esse tipo de BRT. Em Nova York, os ônibus correm entre os carros. Não precisa colocar ele em elevados e alambrados”, criticou o conselheiro em entrevista ao Bahia Notícias. 
O conselheiro também apontou que o BRT de Salvador deve funcionar como um concorrente do metrô, e não uma forma de transporte auxiliar. “Isso não tem muita razão. Ainda por cima, o viaduto deprecia os imóveis que estão do lado. Deprecia a rua, cria um sombreamento aos imóveis, vira um local em que a população acaba jogando lixo. 
Não entendo a cidade com esses viadutos todos. É uma bobagem”, atacou. Para Carl Von Hauenschild, conselho do Instituto dos Arquitetos da Bahia (IAB), o BRT acaba beneficiando mais o transporte individual que o coletivo. “Neste caso desta primeira etapa do BRT Lapa ligando Pituba/Itaigara ao Iguatemi fica claro que não podemos esperar uma redução deste tráfego individual entre a Pituba e o centro da Tancredo Neves, porque por um lado facilita o tráfego individual na Av. ACM e o transporte coletivo BRT só chega até a estação do metrô do Shopping Bahia/Rodoviária, e não ao destino da maioria, que é ao centro da Tancredo Neves”, defendeu.
Os arquitetos defendem a utilização de Véiculos Leve sobre Trilho - VLT (foto), ao nivel do solo, conciliando parques, passeios para pedestres e trilhos sobre grama.
Esse sistema foi implantado com êxito na cidade do Rio de Janeiro, com 22 km de extensão e articulando o metrô com o sistema de ônibus convencional.

domingo, 23 de abril de 2017

No urbanismo, menos é mais

Paulo Ormindo de Azevedo*
Onde quer que esteja o velho ACM deve estar se contorcendo ao ver desnaturarem duas das suas obras mais caras, a Av. Paralela e o Centro Iguatemi. A Paralela, concebida como um boulevard, foi transformada em uma ferrovia, que divide a cidade ao meio, a pobre da rica. De uma pista já não se vê a outra, com aterros e estações monstruosas.
O centro de negócios do Iguatemi, que pretendia substituir o tradicional, nunca teve um projeto e ficou sem uma praça ou uma rotula de distribuição de trafego. Se alguém que vier pela Bonocô errar a entrada para a Pituba terá que ir até o viaduto da Madeireira Brotas retornar até a engarrafada rótula do Abacaxi e rodar 7 km para finalmente entrar na Av, ACM.
No Iguatemi se fizeram investimentos bilionários, públicos e privados, sob a forma de infraestrutura, shopping centers, edifícios de escritórios e lojas. Hoje é um dos pontos mais engarrafados e inóspitos da cidade, com estações ferroviárias penduradas, filtragem de lixo flutuante, passarelas labirínticas e muito concreto. Sem os planos estratégico Salvador 500 e setorial de mobilidade, a situação ficará ainda pior se a Prefeitura insistir em licitar mais uma ”via expressa” com 12 viadutos quilométricos de três níveis e estações de BRT aéreas cortando arvores e recobrindo os rios para trazer todo o trafego da Vasco da Gama, Garibaldi e Pituba para o Iguatemi ao invés de articulá-lo com a Tancredo Neves e a orla. O centro chique Iguatemi virará um nó rodoferroviário cego suburbano.
Tudo poderia ser feito no chão, com ônibus expressos com assoalhos a 20 cm do rua em vias exclusivas, como se está fazendo no 1º Mundo. Plataformas elevadas e curral de pré-pagos, quando hoje os cartões são vendidos em quiosques, são coisas da década de 60. A articulação das avenidas ACM e Juracy Magalhães Jr. poderia ser feita com uma grande rótula ao invés de uma macarronada de viadutos. Os tecnocratas automotivos municipais esqueceram a lição de Mies van der Rohe de que em arquitetura e urbanismo “less is more”. Menos concreto e mais espaços de sociabilidade!
*Arquiteto e Professor Titular da Ufba
SSA, A Tarde de 23/04/17

sábado, 22 de abril de 2017

Salvador, sua linda


Malu Fontes*
Salvador, meu solo adotado, minha cápsula no mundo, me perdoe por todos os anos lhe dar o mesmo presente: um pedido. 
E desde quando pedido é presente? 
Ora, quando é um pedido bom, é um presente, sim. 
Quando me perguntam: de que CIDADE você é? Sempre, automaticamente, penso, num átimo de tempo: minto ou minto? 
Não há outra opção. A primeira mentira, aos ouvidos de quem pergunta, mas que é mais que uma verdade para mim: "de cidade nenhuma, de lugar nenhum". 
Sim, não sou de cidade nenhuma, embora todos os lugares estejam, burocraticamente, ligados a uma cidade, à sede de um município. 
Eu nasci nos confins da Bahia e nunca pertenci à cidade burocrática à qual o pedaço de fim de mundo de onde venho se liga nos documentos oficiais. 
A segunda mentira: "sou de Salvador". É mentira, mas é a minha verdade. Eu sou cria e criatura de Salvador. Salvador me fez, me bateu, me acolheu, me fez adulta, lambeu minhas feridas, me coloriu, me lustrou e ilustrou, me deu verbo e alguma verba, me deu amores, dores, desamores e muito humor para fazer com tudo isso um jeito meu de reagir ao mundo. 
Ela é a cidade, nesse caso de VERDADE, dos meus filhos; me ofereceu todos os saberes atrás dos quais eu fui, me apresentou os melhores amigos que fiz após a infância e que são hoje as minhas âncoras; ancorou, depois de mim, uma multidão de gente da minha família. 
E é por tudo isso que, embora adore uma dúzia de cidades deslumbrantes por onde passei no Brasil e fora dele, meu útero urbano é Salvador, com todos os seus defeitos, qualidades, belezas e feiuras. 
De perto ou de longe, eu a amo. E por amá-la, há um bom tempo, todos os anos quando me perguntam o que eu diria no seu aniversário, o que eu lhe daria de presente, eu tiro das minhas entranhas afetivas o meu pedido, já gasto, mas com validade enquanto eu viver, pois ainda não o vi atendido desde que moro aqui, desde 1985. 
Meu pedido nasceu meio metido a besta, ou talvez tenha nascido com um certo mofo provinciano, ou paroquial, sei lá. Nasceu na primeira vez que vi Lisboa. Foi olhar para Lisboa, pisar naquelas pedras, olhar aquelas ruas, as paredes limpas daqueles casarios e um mantra se instalar como um grilo falante em meu imaginário. "Essa cidade é Salvador tomada banho". 
E esse é o meu presente. Um pedido, um apelo. Às autoridades todas, de hoje e do fruto, e a todo mundo que vive em Salvador ou a experimenta. 
Por favor, a façamos limpa, cuidada, como se tivesse parentes atentos; não a tratemos como a uma anciã esquecida de quem não se cuida dos cheiros, dos dentes, de quem não se troca as roupas de baixo, a quem não perfumamos nem tocamos com cuidado, a quem não vestimos com a melhor roupa e servimos a comida melhor que podemos. 
É isso que eu queria dar a Salvador: um banho de água de cheiros, afagos nos cabelos, roupas limpas, unhas cortadas; para o sol e a brisa marinha tão escandalosamente intensos que a envolvem evidenciassem os traços da beleza e da força dessa quatrocentona já quase quinhentando-se. Eu sou de Salvador. Essa é a mentira mais verdadeira sobre mim.

Malu"
*Malu Fontes é jornalista e professora. Doutora em Comunicação e Cultura pela UFBa

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Salvador realiza workshop - Rede de Cidades Resilientes

Salvador recebeu nesta quinta-feira o 1° Workshop Salvador Cidade Resiliente, que reuniu líderes e especialistas focados na construção de resiliência na rede 100 Cidades Resilientes (100 RC) – uma organização lançada pela Fundação Rockefeller. O prefeito ACM Neto participou da abertura do evento, realizado na Casa do Comércio.
O workshop contou ainda com as presenças do presidente da Fecomércio, Carlos Andrade, do presidente da Associação Comercial Luiz Fernando Studart e da vice-presidente sênior da 100 Resilient Cities, Byrna Lipper.  O encontro reuniu representantes do setor público e privado, universidades e comunidade local que foram introduzidos ao conceito de resiliência urbana. 
“Essa é uma oportunidade para fazer a cidade pensar de forma diferente, reavaliar seus desafios e suas prioridades. Os esforços de resiliência não só contribuem para Salvador sobreviver aos desastres ambientais, mas também para enfrentar outros problemas, como desigualdade social e desemprego. Quando acidade incorpora o planejamento de resiliência em seu trabalho diário, ela se torna um lugar melhor para todos”. Afirma Bryna Lipper.(foto)
Presentes também, os secretários municipais Luiz Carreira, Claudio Tinoco, Almir Mello e André Fraga, além do diretor de resiliência da capital equatoriana, Quito, Arquiteto David Jácome Polit, (na foto com Osvaldo Magalhães, editor deste blog), o economista Waldeck Ornelas e Vladson Menezes diretor geral da FIEB.
Salvador foi a única cidade brasileira entre as 37 novas cidades-membros a ingressar na rede 100RC este ano. A capital baiana é o terceiro membro brasileiro, juntando-se a Porto Alegre e Rio de Janeiro, que foram escolhidas nas rodadas anteriores. Na qualidade de membro da Rede 100RC, a cidade recebe verbas para contratar um Diretor de Resiliência (CRO), um cargo inovador dentro de governos municipais que envolve um trabalho direto com líderes municipais para o desenvolvimento de uma Estratégia de Resiliência para a cidade.
O valor da verba disponibilizada pela 100RC para a cidade, principalmente por meio dos parceiros de plataforma, deverá U$1 milhão. Salvador receberá verbas para quatro áreas de apoio principais. Uma delas é a orientação financeira e logística para a criação de um cargo novo na administração da cidade: o Diretor de Resiliência (CRO), que liderará as iniciativas de resiliência da cidade. A segunda estratégia é o apoio técnico para o desenvolvimento de uma Estratégia de Resiliência robusta. A terceira diz respeito a acesso a soluções, provedores de serviços e parceiros dos setores privado, público e acadêmico e ONG’s para assistência no desenvolvimento e implantação das suas estratégias de resiliência. Por fim, a quarta estratégia é a afiliação a uma rede global de cidades-membro que poderão se ajudar mutuamente. “O programa permite que Salvador se conecte a outras 99 cidades com perfis diversos, e que vai nos possibilitar a busca por soluções inovadoras para resolver questões históricas da cidade”, pontuou o Secretario da Cidade Sustentável e Inovação, André Fraga.
“Resiliência é a capacidade que indivíduos, comunidades, instituições e sistemas dentro de uma cidade tem de sobreviver, se adaptar e crescer, independente dos choques e estresses crônicos aos quais são submetidos.” Afirmou Helena Monteiro, coordenadora para Salvador do projeto da 100RC.
Choques geralmente são desastres pontuais, como incêndios, terremotos e enchentes, enquanto que estresses são eventos que exercem pressão diária ou recorrente numa cidade, tais como sistemas de transporte sobrecarregados, altas taxas de desemprego, violência endêmica e escassez crônica de alimentos e água, afirmou Helena Monteiro.
Segundo a diretora do 100RC, o primeiro passo para criar resiliência será entender os desafios que afetam a cidade, priorizar os mais importantes dentre eles e, com base nisso, desenvolver formas de intervenção capazes de solucionar vários problemas ao mesmo tempo. Resiliência não é o estágio final e sim, o processo de fortalecimento interno de uma cidade com o objetivo de prepara-la para desafios previsíveis e imprevisíveis.
Para o secretário André Fraga, fazer parte da rede mundial das 100 Cidades Resilientes, como também da rede C40, fortalece Salvador como uma cidade de vanguarda que adota iniciativas inovadoras.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

"Vamos criar um ambiente de negócios em Salvador", diz Bellintani

Um dos nomes de maior importância nos primeiros quatro anos da gestão de ACM Neto na prefeitura de Salvador, Guilherme Bellintani , secretário de Desenvolvimento e Urbanismo do segundo mandato do democrata, terá a missão de desenvolver projetos para a capital baiana após passar por pastas como Cultura e Turismo e Educação. Em entrevista exclusive à Tribuna, Bellintani falou sobre o seu novo posto, projetos para alavancar o desenvolvimento da cidade e a possibilidade de se lançar a uma vaga na Câmara Federal em 2018. Confira:
Tribuna da Bahia - Em que consiste o projeto de antiburocracia que foi anunciado pelo prefeito ACM Neto?
Guilherme Bellintani - Primeiro é preciso contextualizar que a geração de investimentos, de emprego e renda para Salvador não acontece com uma medida específica. Ela virá com o tempo, com o prazo e formulação de várias medidas que de forma complementar vão construir um novo ambiente de negócio e desenvolvimento para a cidade. O que a gente considera como prioritário e vai ser a primeira medida é um programa bem ousado voltado para enfrentar a burocracia histórica do Estado brasileiro, no nosso caso da prefeitura de Salvador. É um programa  que a gente deve lançar nos próximos 30 dias e vai reunir as principais ações da prefeitura para mudar a forma de relação com o cidadão e os empresários com o objetivo de preservar direitos. O direito de abrir uma empresa mais rápido, a ter um empreendimento aprovado com maior velocidade e com capacidade analítica e jurídica maior, o direito, no que se refere ao cidadão mais especificamente, de ter um processo na Transalvador melhor, ou na Secretaria da Fazenda, por exemplo. Então, é o primeiro programa, que, no bojo de outras ações, visa criar em Salvador um ambiente de negócios. 
Tribuna - Como vão desburocratizar a máquina e incentivar novos empreendimentos em Salvador?
BellintaniBasicamente nós temos três pilares. O primeiro pilar é o pilar de normas, que estamos reunindo todas as legislações, portarias e decretos que historicamente são referenciados para a abertura de empreendimentos, mas que precisam ser revisados. Por exemplo, a gente trabalha com um código de obras da década de 80 e que está desatualizado. Era bom para a época, mas hoje está desatualizado. A revisão de normas é o primeiro pilar do Simplifica. O segundo pilar é a remodelagem de processos. Muitas vezes um processo de aprovação de empreendimento passa por quatro, cinco pessoas dentro do órgão, tem um fluxo muito complexo, muito longo e que às vezes a gente pode uma remodelagem simples, menos pessoas tratem de mais assuntos e seja mais fácil aplicar responsabilidade em um processo mais longo. A terceira coisa e a tecnologia. Com uma lei e ordenamento com melhor processo, quando a gente joga a tecnologia em cima disso a tendência é de fato de uma redução e simplificação muito grande. Por exemplo, muitas coisas que o cidadão poderia fazer da própria casa através da internet a prefeitura ainda não dispõe disso. Então, eu diria que com base em simplificação de normas, melhorias de processos e implantação de processos de tecnologia, a gente vai conseguir ser bem ousados nem projeto Simplifica. 
Tribuna - Falou que vai mexer em leis e normas. Vai exigir um amplo diálogo com a Câmara de Vereadores?
BellintaniUma parte interna, sobretudo na parte de portarias e decretos, como por exemplo, o decreto de publicidade, que é um decreto muito antigo aqui no município, complexo. Hoje para o empresário saber o tamanho da placa com a marca dele que ele pode colocar na porta, uma farmácia, por exemplo, que quer expor o nome dela, o decreto é muito complexo, o empresário não tem facilidade em saber que tamanho é aquilo, como ele pode fazer. Em geral ele descumpre, mas não porque não quer cumprir, mas por dificuldade de compreensão. Como vamos mudar o decreto vai ficar mais simples, já temos todos os nossos técnicos estudando essas questões. Já o código de obras é uma legislação que vai precisar passar pela Câmara, mas a Câmara não tem faltado ao Executivo, ao município de Salvador como um todo, e sendo um projeto lógico, de bom senso, discutido com os vereadores, não teremos dificuldade de aprovação. A dificuldade acontece quando alguém quer empurrar um projeto goela abaixo e isso não cabe ao tamanho de Salvador. 
Tribuna - Falou que pretende identificar os maiores pagadores de ISS da cidade. Qual o objetivo?
Bellintani - Isso é muito importante porque a gente tem uma capacidade instalada de produção de riqueza na cidade de Salvador que em geral a gente fala em atrair empresas, mas esquece a capacidade instalada que já está ali. Em geral o investidor que quer vir para Salvador, ele é muito mais cobiçado do que o que já está aqui, e isso não é certo, não é justo. Aquele cara que está historicamente enfrentando as dificuldades de Salvador e querendo ampliar seu negócio, ele é visto com mais normalidade, ou até invisível para o gestor público. O que a gente quer é deixar claro que tão importante quanto atrair novas empresas e tratar bem aqueles que já estão instaladas em Salvador. 
Tribuna - Salvador é uma cidade historicamente de serviços. Como pretende mudar essa realidade?
Bellintani - Mais do que mudar a realidade de serviços, eu não acho que isso é o mais relevante. Primeiro temos que aproveitar a multiplicidade da economia de Salvador, as várias vertentes de economia da cidade. Mais importante do que ampliar segmentos A ou B, é ampliar os segmentos que sejam capazes de trazer dinheiro novo para a cidade. O que a gente diz sempre e que grande parte da economia de Salvador é gerada e consumida dentro da própria cidade. Salvador não tem uma capacidade de exportação de seus serviços e produtos, como por exemplo, uma cidade lá do Rio Grande do Sul que é focada na indústria do calçado e manda calçado para o Brasil e o mundo inteiro. O calçado que ele vende para a China ou para o Ceará, entra nessa cidade como dinheiro novo e fomenta a economia da cidade, transfere o dinheiro do Ceará ou da China para essa cidade no Rio Grande do Sul. O Paraná, por exemplo, que tem uma indústria moveleira muito forte. Quando você compra uma cozinha aqui em Salvador, uma cozinha que é planejada no Paraná, você está transferindo o dinheiro de Salvador e jogando no Paraná. Há pouco de Salvador no sentido inverso, que traz dinheiro de fora para Salvador, a gente exporta muito pouco. O único elemento mais claro é o turismo. De fato, quando o turista vem de fora, traz o dinheiro de outro lugar para comprar em Salvador.
Tribuna - E quais são essas cadeias produtivas e essas áreas que podem ser olhadas de forma diferenciada?
BellintaniA primeira é muito óbvia, eu já citei, é o turismo, uma coisa que já está na natureza da cidade. Quanto mais turista vem para Salvador, mais dinheiro de fora ele traz e, consequentemente,  é um recurso novo que faz investimentos na cidade. A segunda, temos um desafio claro de abrir novas vertentes e potencializar novas vertentes. No plano mais imediato, trazer investidores e negócios que iam investir em outras cidades e possam investir em Salvador. Redes de supermercado, empresas de call center, que poderiam investir em outras cidades e venham se instalar em Salvador. Nós estamos disputando com outras cidades negócios que estão na lógica econômica da cidade. Eu falei de turismo, outras áreas que já fazem parte da nossa realidade, mas que não tenham uma capacidade de atração na cidade. E o terceiro pilar são vertentes que ainda são pouco exploradas, ou nada exploradas, que precisam ser iniciadas, como o núcleo de tecnologia. Eu cito, por exemplo, uma empresa baiana, que é a JusBrasil, criada por jovens baianos na cidade de Salvador que o poder público nunca conversou, eles tem hoje uma penetração mundial, estão entre as maiores empresas de tecnologia, tem aporte financeiro do capital estrangeiro, e o poder público nunca conversou, não tem nenhum contato, invisíveis ao olho do poder público. Eles cresceram sem e existem sem nenhuma participação ou interferência positiva do poder público. O que nós vamos buscar nessa área de tecnologia. Essa empresa que eu estou citando, ou outras dessa área que estão invisíveis hoje, podem começar a ser âncoras de atração de outras empresas na área de tecnologia. Dizer assim: Salvador pode sim, por exemplo, na área de tecnologia, criar novas vertentes, seja na isenção fiscal, seja com infraestrutura, seja disponibilizando espaços  físicos para startups, coisas que possam daqui a dez ou vinte anos, e não antes do que isso, trazer uma repercussão econômica significativa para a cidade. 
Tribuna - O título de supersecretário incomoda ou aumenta o seu desafio?
Bellintani - Nem incomoda, nem aumenta. Ele é um título que não é verdadeiro. Não existe uma lógica de uma super secretaria, o que existe é uma lógica de uma super prefeitura. O que o prefeito ACM Neto conseguiu construir nos últimos quatro anos foi uma estrutura pública que era magrinha, tímida, desrespeitada e, por vez, quase ridicularizada no que se refere a políticas públicas. Conseguiu em quatro anos construir uma estrutura pública que se respeita, aqui e no Brasil como um todo, que tem uma força, que consegue atuar em áreas diferentes da que atuava e que consegue fazer melhor aquilo que já fazia anteriormente. Uma secretaria com o perfil como a nossa, que reuniu programas de várias secretarias diferentes, foi o resultado de fusões de várias secretarias, naturalmente tem a tendência de ser encarada como uma supersecretaria, mas na prática isso não acontece. A secretária é uma secretária que tem um escopo muito grande ao trabalho, uma responsabilidade grande, mas uma secretaria como outra qualquer dentro da estrutura do governo. 
Tribuna - Como pretende atuar, qual o orçamento em caixa e se a pasta de Desenvolvimento Urbano será de execução ou de intermediação?
Bellintani - Em alguns aspectos de intermediação, já que tem a necessidade de trabalhar com outras secretarias, outros programas finalísticos, mas também é uma secretária de execução, por exemplo, na área de planejamento e desenvolvimento urbano e uma secretaria que vai planejar obras, fazer intervenções e liberar projetos dentro da prefeitura. O orçamento não é o mais relevante, quem conhece a lógica do prefeito ACM Neto sabe que não há orçamento, não estou falando de orçamento formal, mas não há orçamento de verdade para uma secretaria que não produz e não é capaz de abrir os seus espaços. Como funciona a lógica do prefeito ACM Neto: elabore projetos, faça programas, torne-os viáveis e consequentemente haverá orçamento para isso. Essa é a fórmula do prefeito e eu não estou nem um pouco preocupado com isso. O que estamos preocupados e com formular programas, e acho que isso vai ser o suficiente para fazer uma secretaria pujante que vai alcançar seus objetivos.     
Tribuna - Quando vai ser possível perceber esse movimento de arrumação que pretende implantar na secretaria?
Bellintani - Já no primeiro semestre a gente está vendo a data adequada, com o lançamento do programa Simplifica, e a explicação disso para a sociedade, a gente começa a dar um passo importante. Se você for ver tanto na secretaria de Cultura e Turismo quando Educação, eu demorei de seis a sete meses para fazer o lançamento do programa, que na Educação foi o programa Combinado e no turismo a realização do Festival da Primavera. Eu diria que se a gente conseguir nessa nova secretária de Desenvolvimento e Urbanismo lançar o programa em até abril, a gente antecipou muito a historia que eu tive nas outras duas secretarias. 
Tribuna - Um dos principais problemas da população é a falta de emprego e renda. Haverá sobreposição de sua pasta com a do Trabalho?
BellintaniNa reforma administrativa a gente entendeu que a secretaria de Desenvolvimento e Urbanismo tem um papel muito estratégico na formulação de políticas econômicas, mas não conseguiria abraçar, por exemplo, o dia a dia da intermediação de mão de obra, na prefeitura através o SIMM. Não faz sentido uma secretaria que é mais de formulação de estratégia ficar gerenciando uma coisa que é muito relevante, mas que tem um viés muito próprio, que a intermediação de mão de obra. A secretaria de Lazer, Esporte e Trabalho tem um perfil importante e vai precisar trabalhar em consonância com o que a gente está fazendo. E facilita muito porque Geraldo (Júnior) é um quadro novo na prefeitura, mas já tem histórico para contar na política, meu amigo, uma pessoa pela qual eu tenho o maior carinho e trabalhar com ele vai ser o maior prazer. 
Tribuna - Como viabilizar parcerias público-privadas no atual momento de crise?
Bellintani - Eu sempre fui do perfil de que no momento de crise a gente deve apertar o acelerador. O prefeito está mostrando isso. Aumentou o investimento no réveillon, continua investindo e mostrando isso para o Brasil e que quer neste momento, claro, sendo racional em alguns aspectos, mas por outro lado apertar o acelerador. A secretaria vem para isso e é no momento de crise que a gente tem que aprofundar. O empresário tem dinheiro. O que ele está agora é mais cauteloso, cuidadoso, de onde investir. Se a gente conseguir apresentar projetos que rentabilize o empresário, que sejam bons para o gestor público, mas que rentabilize o empresário e que tenha segurança jurídica, uma formação jurídica adequada, o dinheiro existe.
Tribuna - Quais PPPs serão colocadas como prioritárias?
Bellintani - Independente da PPP no sentido jurídico, terminologia jurídica Parceria Público- Privada, o que a gente está concebendo é uma nova forma de relacionamento com o setor privado. Seja por meio da PPP, de concessões, contratos, eu fui muito feliz no início da gestão quando a gente conseguiu conceber uma nova forma de financiamento do Carnaval e o Réveillon de Salvador. A gente mudou a lógica de relação com o setor privado e viu ali que a cidade tinha ativos que poderia ceder para o setor privado sem abrir mão da sua essência de planejamento, interesse coletivo, mas que por meio desses ativos a gente conseguia viabilizar o investimento do setor privado em políticas públicas. Acho que são eventos como esse que vão formular a realidade da secretaria, sejam intervenções urbanísticas, gestão de espaços públicos, repensar a lógica dos parques públicos. Por que não colocar ali um comércio de alimentos e bebidas e em contrapartida ele assumir a manutenção do entorno? Por que não a gente fazer um programa, seja na secretaria de Educação, seja na secretaria de Saúde, de melhoria de gestão por meio de concessão do setor privado de determinado tipo de serviço? Há uma série de elementos para dizer que essa agenda é uma agenda pública, mas na prática os interesses privados que a gente vai buscar convergir com os públicos e que vão mostrar qual vai andar primeiro. A gente não está preocupado com isso neste momento. 
Tribuna - O que será alvo de concessões e operações consorciadas na cidade?
BellintaniO que podemos dizer é que temos uma lista de 25 projetos que a gente imagina que podem vir a se viabilizar a partir do investimento privado, com pouco ou nenhum investimento público, mantendo a lógica do interesse público como primordial, mas ainda não dá para dizer o que vem primeiro. Eu diria, por exemplo, que a gente tem uma necessidade mais pontual de modernizar a gestão da zona azul. Isso e, mantendo uma lógica de que isso é uma taxa pública, mas por que não um aplicativo e nova gestão da zona azul para que a prefeitura consiga arrecadar um pouco mais, mas não esse como o objetivo, mas fazer uma gestão das vagas públicas? Esse é um elemento. Por que não fazer uma nova estrutura dos mercados municipais que sejam capazes de ser potencializados como gestões mais organizadas, mais audaciosas do ponto de vista da gestão pública? São parcerias, por exemplo, que estão no nosso foco, como no caso dos parques municipais. Eu não consigo adiantar o que vem primeiro, pois depende muito de ter o parceiro adequado que se interesse em investir. Eu não posso responder pelo setor privado. Eu posso mostrar quais são os interesses públicos nestes aspectos e o setor privado que tiver interesse em estudar e aportar recurso ali vai se candidatar em processo aberto e transparente para executar esses programas.