quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Respeitem Mãe Stella de Oxossi

Tasso Franco*
O povo de santo da cidade do Salvador está passando por uma situação de sofrimento nunca presenciada em sua história desde quando o candomblé surgiu oficialmente, na Barroquinha, na primeira quadra do século XIX, com a anunciada renúncia da mãe Stella de Oxóssi, yalorixá do terceiro mais importante terreiro de candomblé da cidade, por uma questão sentimental, amorosa, em detrimentos dos preceitos religiosos sagrados. 

 Com a declaração dada ao jornal A Tarde taxativa de que "prá lá (Axé Opô Afojá) não retorno mais", a mãe Stella de Oxóssi criou uma situação 'sui-generis' nesse terreiro de candomblé ela que vinha comandando a Casa desde 1976 por escolha do jogo dos búzios, uma vez que, neste axé a sucessão não se dá na linha familiar. Já na escolha de Stella houve uma grande dissidência porque, como é notório, o filho de Mãe Senhora (Maria Bibiana do Espirito Santos), Deoscoredes Maximiliano dos Santos, o Didi, queria ser o novo babalorixá da Casa, mas, não conseguiu.

 Na época, a yakekerê, a mãe pequena e segunda personalidade do terreiro seria a substituta de Senhora. Porém, intelectuais orgânicos da Casa, entre eles, diz-se Jorge Amado e Carybé, com o jogo de búzios do babalaô Agenor Miranda, escolheram Stella, uma filha de santo, com formação em enfermagem.

 Daí que Didi afastou-se do axé e criou sua própria Casa, o que gerou um mal estar enorme, na época, essa dissidência. Agora, Stella, por razões do coração, ao que tudo indica, uma vez que é companheira da psicóloga Graziella Domini, com que divide o mesmo teto em Nazaré das Farinhas, cria um novo problema na sucessão do terreiro uma vez que, por preceitos da Casa, essa sucessão só acontece por falecimento da yalorixá e a mãe Stella está viva aos 92 anos de idade, ainda que esteve recentemente internada no Hospital da Bahia
    
 É uma situação bastante peculiar e uma decisão até inédita - uma mãe de santo se queixando do seu axé, do comportamento de algumas pessoas e da falta de paz espiritual, de acordo com declarações que deu em A Tarde -daí que a yakekerê, mãe Dicinha de Yemanjá, segunda pessoa mais importante na casa, e as ebomis - pessoas mais velhas - vão decidir o que fazer. 

 Aguardar a morte de Stella? Substituí-la desde já confirmadas suas declarações de que não retorna ao axé (certamente por escrito e firmada em cartório) ? Promover uma reunião mais ampla entre os sacerdotes do candomblé?

 Ao que o Bahia Já pode apurar até agora, a presença de Graziella junto a Stella e questões de dissidências internadas no Opô Afonjá veem acontecendo há 1 ano e, agora, aflorou de vez que a ida de Stella para morar em Nazaré das Farinhas e o seu desejo de não mais retornar a Salvador. Também, é provável, que não haja mais manifestações de intelectuais orgãnicos como no passado e quem vai ditar a suscessão de Stella são os orixás.

"Respeitem quem pode chegar aonde cheguei" Mãe Stella de Oxossi


Se considerarem esse título muito prepotente, peço, humildemente, respeitem os meus cabelos brancos que correspondem a 92 anos de existência e pelo menos 84 servindo à humanidade. Estou viva e muito viva! A baixíssima visão e, é claro, os 92 anos, me impedem de realizar algumas tarefas, inclusive a de manejar o conhecido Jogo de Búzios.

Estou viva, muito viva e lúcida! Claro, com as complicações dos 92 anos de idade e quatro internações hospitalares decorrentes de problemas cerebrais, sempre complicados pela pressão que venho sofrendo por parte de membros do Terreiro e de alguns familiares, que nada sabem sobre mim. Ainda estou lúcida, o que faz com que eu tenha consciência da diminuição da lucidez com o avançar da idade, o que é natural, pois sou HUMANA. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

Luiz Carlos Maciel, filósofo da contracultura

Luiz Carlos Maciel, 79 anos, morreu na manhã do sábado (9), no Rio de Janeiro.
Casado há 30 anos com a atriz Maria Claudia Maciel eleita uma das mulheres mais lindas do Brasil no ano de 1978, e uma das mulheres mais fotografadas durante a década de 1970 e começo da década de 1980.
Desde o dia 26 de novembro, ele estava internado no hospital Copa D'Or, em Copacabana, com um quadro de infecção. Segundo o jornal Folha de São Paulo, Maciel estava lutando nos últimos meses contra o agravamento da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), e o boletim médico apontou falência múltipla dos órgãos.
Natural de Porto Alegre (RS), Maciel estudou Filosofia e ficou conhecido por ser um dos principais pensadores da contracultura no Brasil, realizando trabalhos com pesquisadores nacionais e internacionais sobre o tema. Colaborador do semanário "O Pasquim" e diretor de redação da versão nacional da revista "Rolling Stone", é autor de 12 livros, como "Geração em transe, memórias do tempo do tropicalismo" (1996), em que aborda diferentes momentos e obras da contracultura brasileira.
Em 1959, depois de ganhar uma bolsa da Universidade da Bahia, conheceu Glauber Rocha, de quem se tornaria amigo, e atuou no primeiro curta-metragem do diretor, "A cruz na praça". Graças a uma bolsa da Fundação Rockefeller no ano seguinte, estudou direção teatral no Carnegie Institute of Technology, em Pittsburgh, Estados Unidos.
Ele voltou para o Brasil anos depois e desenvolveu outros trabalhos, ficando conhecido como o "guru da contracultura". Ele deixou esposa, dois filhos e netos. Ainda não há informações sobre o velório do jornalista.
Desempregado e sem recursos para cuidar  da saúde lançou um manifesto em 2015.
“Um tanto constrangido, é verdade, mas sem outro jeito, aproveito esse meio de comunicação, típico da era contemporânea e de suas maravilhas, para levar ao conhecimento público o fato desagradável de que estou sem trabalho e, por conseguinte, sem dinheiro. É triste, mas é verdade. Estou desempregado há quase um ano. Preciso urgentemente de um trabalho que me dê uma grana capaz de aliviar este verdadeiro sufoco. Sei ler e escrever, sei dar aulas, já fiz direções de teatro e de cinema, já escrevi para o teatro, o cinema e a televisão. Publiquei vários livros, inclusive sobre técnicas de roteiro, faço supervisão nessas áreas de minha experiência, dou consultoria, tenho – permitam-me que o confesse – muitas competências. Na mídia impressa, já escrevi artigos, crônicas, reportagens… O que vier, eu traço. Até represento, só não danço nem canto. Será que não há um jeito honesto de ganhar a vida com o suor de meu rosto? Luiz Carlos Maciel. lcfmaciel@gmail.com

Logo após a publicação do manifesto foi contratado pela Rede Globo, onde vinha trabalhando como consultor  na série “ Os dias eram assim”.
Considerado o "guru" da contracultura brasileira nos anos 70, época em que escrevia para o tablóide carioca "O Pasquim", promove agora uma volta intensiva ao cenário cultural nacional dos anos 60.
Lança, no final de julho, o livro "Geração em Transe - Memórias do Tempo do Tropicalismo". Em agosto, promove estréia no Rio da peça que está dirigindo, "Jango", único texto teatral deixado por Glauber Rocha.
Leia a seguir trechos da entrevista que Maciel concedeu à Folha, por telefone, do Rio de Janeiro.
*
Folha - Além do livro, o que mais você tem feito?
Luiz Carlos Maciel - Estou dirigindo "Jango", o único texto para teatro do Glauber Rocha, para estrear dia 8 de agosto no Rio. Haverá 30 pessoas em cena, música, dança, uma superprodução.
Folha - Qual a intenção de "Geração em Transe"? É um livro de memórias, impressões, análise?
Maciel - Fundamentalmente é de memórias, mas tive a intenção, não nego, de não só narrar fatos de que me lembrava, mas de ter uma compreensão sobre o momento que eu vivia.
Folha - Qual foi sua preocupação em conceituar os movimentos da época, como o cinema novo, o tropicalismo, o teatro Oficina?
Maciel - Foi a de fornecer conceitos impressionistas, sem rigor científico ou acadêmico.
Folha - Por que você considera, em seu livro, José Celso o mais fiel à contracultura dos três personagens que você elegeu?
Maciel - Foi uma coisa em que ele se engajou mais profundamente. E que interessou muito Glauber e Caetano na medida em que aquilo era um fenômeno da época que viviam. O engajamento de Zé Celso está demonstrado até hoje, no novo espetáculo dele, "Bacantes". No episódio no Rio, em que Caetano ficou pelado, Zé Celso o obrigou a voltar um pouco aos seus momentos contraculturais.
Folha - Você foi rotulado de "guru da contracultura". Quem é mais contracultural: Zé Celso ou você?
Maciel - Ele. Apesar de eu ter ganho esse epíteto, minha aproximação com a contracultura foi jornalística, superficial.
Folha - Por que seu livro mostra a geração do desbunde sem tocar em temas caros a ela, como a libertação pelas drogas e pelo sexo?
Maciel - Porque guardei para um próximo livro. Glauber, Zé Celso e até Caetano são pré-desbunde. O verdadeiro só aconteceu no Brasil em 1969, quando Caetano estava indo para o exílio.
Folha - Caetano concordou com a publicação das cartas que ele lhe enviava do exílio?
Maciel - Sim, mandei cópias para ele e ele curtiu demais. Disse que era divertidíssimo ler uma coisa escrita há tanto tempo.
Folha - Você foi crítico -até transcreve uma discussão com Jorge Mautner e Caetano em torno da crítica, que teve um papel importante na época. Que fim levou a crítica no Brasil?
Maciel - A crítica era interessante na nossa época, à medida que era aliada à revolução cultural que os artistas estavam liderando. Era uma força auxiliar dessa revolução cultural. Hoje não há revolução cultural. E a crítica se limita a um exercício de poder mesquinho.
Folha - Por que você diz no livro que não se considera um homem de teatro completo, que sempre namorou com ele mas ele nunca quis se casar com você?
Maciel - Falei no caso do teatro, mas não me considero completo em coisa nenhuma, como jornalista, escritor, homem de TV.
Folha - Sua narração mostra que você esteve por trás de momentos cruciais da gênese de Glauber, Zé Celso, mesmo de Caetano. Você é um homem de bastidor ou é seu ego se manifestando?
Maciel - Se não falar de mim no meu livro, vou falar onde? Isso foi uma coisa que aconteceu, eu apenas mostro. Acho que não é ego, é para dar informações úteis.
Folha - É um livro saudosista?
Maciel - Não tenho saudade nenhuma. Se acharem que é saudosismo eu dar importância a esses fatos, paciência. 

domingo, 3 de dezembro de 2017

No sol de dezembro

Aninha Franco*

Hoje é domingo, terceiro dia do mês de dezembro que, neste ano, terá cinco sextas-feiras, cinco sábados e cinco domingos. Dizem que esse fenômeno só acontece uma vez em cada 823 anos, portanto está acontecendo para nós, em 2017, e aconteceu para os que estavam vivos em 1194, ano do nascimento de Santa Clara e do ocaso da civilização Inca. Os chineses chamam  isso de Bolso Cheio de Dinheiro, o que os baianos precisarão muito nos próximos meses para festejar Oyá no dia 4, Oxum no dia 8, Santa Luzia no dia 13, Natal e Réveillon, Lavagem do Bonfim, Yemanjá no 2 de Fevereiro e viajar no Carnaval. Há muito tempo que os baianos fogem do Carnaval para sarar do tranco do Verão.
Na próxima segunda-feira, Yansã pintará a Cidade Velha de vermelho. Roupas, cabelos, almas, espíritos saudarão a Senhora das Nuvens de Chumbo, Oyá, o raio que corta os céus e ocupou a imagem de Santa Bárbara no sincretismo afro-católico. Dia 8, menos baianos festejarão Nossa Senhora da Conceição da Praia, Oxum, outra Ayabá de grande poder, porque a festa está sem força. Mas Oxum é de ir e voltar. Dia 13, Santa Luzia, protetora dos necessitados de boa visão, das profissionais do sexo e dos caminhoneiros, ainda leva muita gente à Igreja do Pilar para lavar os olhos e pedir visão e previsão neste Brasil cego.
Depois é festa de Ano-Novo, do Senhor dos Navegantes, de barcos no mar. E na segunda quinta-feira de janeiro, Lavagem do Bonfim. A Segunda-Feira da Ribeira desapareceu há muito tempo, como as dezenas de Lavagens que, a depender dos organizadores, explodiam em pequenos carnavais. Mas no dois de fevereiro, Yemanjá subirá para rir e dançar com os pescadores da Mariquita. O Carnaval que vem depois ninguém nunca sabe o que será. Os últimos foram muito fraquinhos, porque perderam a baianidade e se transformaram em festas sem fulejo. Mas em todos os dias, em todos eles, mesmo antes de 21 de dezembro, chegada oficial do Verão, o sol nascerá com tanta intensidade que explodirá em festas, inclusive no Carnaval.
Não sei se os dias de Verão ainda são mais longos que as noites, como aprendi na escola, e se os ataques à camada de ozônio alteraram as variações climáticas que a natureza demonstra. Autora das mais sutis delicadezas do planeta e de suas violências mais espetaculares, a natureza não deve se incomodar com os humanos, espécie predatória, mas de alcance limitado.
Apesar do Outono ser minha estação predileta, há 40 anos eu esperava o Verão como os prisioneiros esperam a soltura, marcando os dias na folhinha. E quando ele chegava com seu figurino brilhante e calorento, e a cidade se enchia de gente, os preços do coco e do acarajé disparavam, as festas de largo se sucediam, as Lavagens se multiplicavam, e a festa orgamatizava na maior festa popular do planeta – sim, nós já tivemos isso, sem ufanismo –, eu não vivia apenas uma mudança de estação, eu mudava para uma outra Cidade, para uma Baía que nenhuma outra estação consegue representar com tanta franqueza. Já não há mais tanta Baía, como há 40 anos, mas ainda há Verão que possa trazê-la de volta.

O tamanho da nossa desatenção

Paulo Ormindo de Azevedo*
Uma velha anedota dizia que o arcanjo Miguel reclamou do Criador, durante a Gênese, por ele ter dado ao Brasil todas aquelas maravilhas que canta o nosso hino nacional e muito pouco aos demais países. O Criador disse: “em compensação vou colocar agora os brasileiros”. É um determinismo, e não temos como sair dele. Mas a corrupção e a insegurança no Brasil serão causas ou efeitos?

O retrato de nossas desigualdades são os morros e periferias urbanas, onde faltam empregos, escolas, postos médicos, habitação e transporte. E isto porque estas não são prioridades para os nossos governantes e porque não há professores, médicos e juízes suficientes. Este abandono levou ao aparecimento de um estado paralelo, que não só trafica drogas, como coopta seus moradores financiando creches, times de futebol, salões de festas e enterros. Esse estado domina hoje metade do território de nossas cidades, impondo o toque de recolher e incendiando ônibus, explodindo caixas eletrônicas e matando policiais, no território dos “brancos”, quando um de seus membros é transferido de presídio.

Em vésperas de eleições, a plataforma comum dos nossos 35 partidos de aluguel é a diminuição do estado, que dá a dimensão do setor público no país. Tudo mais já foi ou está sendo privatizado. Pois bem, segundo o IBGE em 2012 os funcionários civis eram 10,7% dos trabalhadores de carteira assinada. Taxa menor que a média dos países latino-americanos. Se considerarmos os informais das periferias essa taxa baixa para 5%. Relacionado com a população total do país eles não passam de 1,6%. A maioria dos países desenvolvidos tem o dobro de funcionários, 21%, segundo a OCDE.

Nos EUA, um dos países mais privatistas, os funcionários civis são 15% dos ocupados. O estado oferece educação primaria e secundaria universal de qualidade, banca 120,000 bibliotecas, tem os maiores parques naturais do mundo num total de 211. 000 km² e possui 800 bases militares espalhadas pelo mundo. Suas forças armadas têm 1,26 milhões de militares na ativa. E eles não pensam em diminuir o estado. Depois do 11 de setembro eles aumentaram aquele efetivo em 20%.  Na Dinamarca, o país de menor corrupção do mundo, está taxa sobe para 39,2 %, quatro vezes a taxa formal do Brasil. É isto que permite a esses países terem educação, saúde e segurança de qualidade. A PEC que congelou por 20 anos os gastos com educação e saúde num país já carente e que está crescendo, só irá aumentar as desigualdades e a insegurança no país. Não é com medidas burras como essa que se constrói uma nação. Os conservadores se enganam pensando que segurança se consegue com mais repressão. Não queremos um leviatã, senão um estado democrático, que cumpra com eficiência sua função de executar o bem comum e não que aumente os desníveis sociais.
*Arquiteto e Professor Catedrático
SSA, A Tarde, 3.12.17

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Sistema de compartilhamento de carros em Fortaleza

Um sistema de compartilhamento de carros elétricos completa quatorze meses de funcionamento em Fortaleza. O Veículos Alternativos para Mobilidade, conhecido pela sigla VAMO, é fruto de uma parceria entre a prefeitura da cidade, o Hapvida Saúde e a Serttel. Contudo, algo que já é cultura em metrópoles de países do primeiro mundo, como Paris, Londres e Nova York, sequer é tendência nas grandes cidades brasileiras. A iniciativa na capital cearense é exceção. 
O VAMO possui 20 carros elétricos, distribuídos em 12 estações de compartilhamento na capital cearense. Em funcionamento desde setembro de 2016, o sistema já possui mais de 2 mil pessoas cadastradas. A faixa etária, dos 21 aos 30 anos, é a mais representativa entre os usuários e representa cerca de 39% do total de usuários cadastrados em maio último. O Hapvida Saúde, patrocinador do projeto, investiu mais de R$ 7 milhões.
Para poder retirar o carro das estações, é preciso que o motorista tenha um cadastro no VAMO, que deve ser feito pelo site do programa (vamofortaleza.com.br), preenchendo informações como nome completo, telefone, CPF, endereço e o número da carteira de motorista de habilitação B ou superior.


As informações serão verificadas pela Serttel, empresa de mobilidade, que entrará em contato com o cadastrado para agendar hora, data e estação de desejo do usuário para a assinatura do Termo de Responsabilidade, bem como para realizar test drive acompanhado de técnico.

Para fazer uso do sistema, por meio do site e do aplicativo para smartphone, os usuários poderão reservar carro elétrico disponível em qualquer uma das estações, tendo até 15 minutos para efetivar a retirada do veículo do local. Os carros elétricos poderão ser retirados, todos os dias, das 5h às 23h59, podendo ser devolvidos 24 horas por dia.
A tarifação do VAMO se dará conforme o tempo em que o carro estiver sendo utilizado. Para os primeiros 30 minutos de uso, o valor cobrado do usuário é de R$ 20, sendo este valor indivisível, ou seja, do primeiro minuto ao trigésimo minuto, o valor cobrado será fixo e totalizará R$ 20. Após meia-hora de uso, a cobrança se dará por minuto adicional, variando o custo do minuto conforme o tempo.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

O Pelô no pelourinho

Paulo Ormindo de Azevedo*
Estou na Espanha participando da reunião do Comitê Cientifico da Rede Patrimônio Histórico Ibero-Americano, da Universidade Politécnica de Madri. No ano passado, na Guatemala, propus como tema deste seminário “Habitar o patrimônio” e os colegas ibero-americanos acataram, sem pestanejar, a proposta. A ideia é analisar os problemas que enfrentam os moradores dos Centros Históricos, geralmente pouco considerados por seus administradores. Na Espanha e na maioria dos países latino americanos, os CH são levados a sério.
Para mostrar o que ocorreu no nosso CH, nos 58 anos em que está tombado, foi criado no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFBA o subgrupo Observatório do Centro Antigo de Salvador, que reúne professores e pós-graduandos do programa, coordenado por este escriba e pela Profa. Márcia Sant’Anna. Reunimos um grande número de dados dispersos em repartições federais, estaduais e municipais sobre investimentos públicos e privados, propriedade e uso do solo e aplicamos 11 questionários em associações de moradores, além de entrevistas com os principais protagonistas do CH.
Os algarismos são alarmantes. De meados de 1970 até hoje foram investidos no CH – pasmem - cerca de USD$ 255 milhões. Apesar disso, a população local foi reduzida à metade. Em 1991, eram de 11.947 pessoas, e em 2010 baixou para 5.985. A Defesa Civil contabiliza, hoje, 1400 imóveis em estado de risco. A diretoria do IPAC diz que 40 de seus imóveis estão desocupados e 300 inquilinos são inadimplentes, com uma dívida de R$13 milhões (A Tarde, 09/09/17). Outros tantos são devidos de impostos pelos comerciantes. Muitos estudos foram feitos, mas as decisões políticas não se basearam em estudos. Alguns dos erros mais gritantes foram: a retirada das atividades centrais, a exclusão dos moradores, em 1992, a estatização do estoque habitacional e a precarização da infraestrutura de mobilidade e acesso. Um imóvel só é conservado se seu ocupante for o dono. Cerca de 511 sobrados estão na mão do estado (307) e de irmandades religiosas (204). As reivindicações corretas da comunidade são: moradia e requalificação profissional.
A Prefeitura, sempre ausente desse processo, anuncia agora uma série de investimentos. A melhor proposta é a instalação de sua administração em edifícios desocupados do Comercio. O Estado, por seu turno, anuncia a criação de um distrito criativo no CH, como fez Recife há 40 anos. Mas perdura a desarticulação das políticas dos governos federal, estadual e municipal e a não participação da comunidade. Vamos cotejar nossos dados com os de outros de países, como Peru, Colômbia e Equador, que enfrentaram com sucesso esse desafio, e buscar apoio para os movimentos sociais que lutam pela requalificação do CH, nosso maior ativo.
* Professor Titular da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFBa
SSA: A Tarde, 8/10/17

domingo, 27 de agosto de 2017

Vancouver estabelece novo recorde em compartilhamento de carros

Osvaldo Magalhaes*
Recente estudo realizado ao longo de três anos pelo Centro de Pesquisa em Sustentabilidade do Transporte (TSRC), da Universidade de Berkley , na Califórnia, mostrou que o sistema de compartilhamento de carros da Daimler Benz, o Car2Go, oferece benefícios muito reais e substanciais para a cidade de Vancouver . Um carro compartilhado substitui até 11 carros, proporcionando alívio de mobilidade.
Vancouver é a primeira cidade da rede Car2Go a registrar mais de 100.000 usuários. Primeiro serviço de compartilhamento de carros na cidade, lançado em 2011, o serviço opera entre 1.250 a 1.400 carros inteligentes que estão disponíveis para viagens de ida em qualquer lugar dentro dos limites da cidade.
No entanto, isso representa apenas parte da história de compartilhamento de carro em Vancouver. 
A cidade é também o anfitriã do MODO, a organização pioneira de compartilhamento de carros na América do Norte, que começou em 1997. A Modo registra mais de 500 veículos, 16.000 membros individuais e 500 membros empresariais. Dois outros sistemas de compartilhamento de carro ativos em Vancouver são Zipcar com 225 veículos e Evo Car Share com 600 veículos. Um relatório recente do Instituto Sightline determinou que entre as cidades do Noroeste do Pacífico, Vancouver possui metade de todos os veículos compartilhados na região de Cascadia com um total de 2.550 veículos compartilhados na cidade. O sucesso da partilha de automóveis em Vancouver de acordo com Dacyl Armendariz da Car2Go é atribuído à densidade populacional da cidade e ao eficiente sistema de transporte público,
"A população sendo realmente densa (5.249 pessoas por km2), faz com que seja perfeito para um serviço de compartilhamento de carro. Há também uma boa infra-estrutura de transporte público já instalada e o Car2go é um ótimo complemento para um sistema de transporte público existente ". Vários serviços de compartilhamento de carros na cidade fazem parte de uma rede maior que permite que os visitantes que são membros de outras cidades usem os veículos de compartilhamento de automóveis em Vancouver. O compartilhamento de carro está se tornando uma opção para os visitantes que podem exigir o acesso a um veículo no caso de eles precisar fazer uma viagem de um dia na região durante a estadia sem ter que alugar um veículo. De acordo com o planejador Todd Litman do Victoria Transport Policy Institute, "os esquemas de compartilhamento de carro normalmente reduzem o uso médio de veículos em 40-60% entre os motoristas que dependem disso". O compartilhamento de carros está se combinando com um estímulo de desenvolvimento novo , com melhor trânsito, compartilhamento de viagens, infra-estrutura de ciclismo, de caminhadas, compartilhamento de bicicletas que vem transformando para melhor a qualidade de vida nas cidades.
.  *Engenheiro e Mestre em Administração. É especialista em logística e transportes

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Economia Circular 360°

Eduardo Atayde*
O Fórum Econômico Mundial reunido em Washington, promoveu, nos dias 26 e 28 de junho de 2017, a Cúpula da Economia Circular Sustentável, em parceria com o Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD) e a Câmara Americana para o Comércio (Amcham), reunindo centenas de gestores públicos e privados globais.
O tema deste ano, Da Aspiração à Implementação, foca a aceleração da economia circular, identificando soluções para transformar a aspiração econômica em ações práticas, otimizando recursos, reduzindo o desperdício, acelerando a inovação e o desempenho. O Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil, produzido pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, mostra que o número de profissionais criativos cresceu para 851 mil nos últimos dois anos.
Economia circular é um conceito econômico integrante dos princípios da sustentabilidade que contrapõe-se à economia linear baseada em “extrair-produzir-descartar”. Exemplos simples mostram que apenas metade da população brasileira, cerca de 100 milhões de pessoas, usa escova de dente (IBGE) que é trocada, em média, quatro vezes por ano, gerando impacto ambiental porque o plástico descartado dura até 400 anos.
A Intel, fabricante de chips de computador, por exemplo, já estabeleceu o objetivo de reciclar 90% de seus resíduos não perigosos e retirar 100% de seus resíduos perigosos de aterros sanitários até 2020. A Johnson Controls projetou baterias automotivas reutilizáveis, fazendo as taxas de reciclagem de baterias pular para 99% e permitindo a produção de novas baterias contendo mais de 80% de material reciclado, com uma redução de 90% de energia.
A Ambiental Mercantil Expo Bahia, promovida recentemente na Bahia pela Federação das Indústrias (Cimatec), apresentou exemplos de economia circular implantada na Renault do Brasil e o aproveitamento de resíduos de madeira plantada com múltiplos usos. Estudos de casos revelam que a economia circular está sendo traduzida em ações lucrativas e escaláveis, utilizando da eficiência energética, logística reversa, manejo de resíduos e - na era digital - reanálises dos tempos e movimentos nos serviços. 
Programas 360 graus, lançados em cidades do mundo (goo.gl/VqGG2C), estão interconectando-se e “circoalimentando-se”. Enquanto a Honda informa que vai eletrificar 2/3 de seus carros nessa próxima década, o governo português lançou o programa “Gen10s” para capacitar 80% dos alunos com competências digitais até 2030. Segundo relatório da Fundação Ellen MacArthur, a adoção da economia circular pode garantir as empresas europeias faturamento de um trilhão de euros nos próximos dez anos.
Gestores do Programa 360°, lançado em Salvador (goo.gl/Fpbe48), poderão conectar-se com colegas da economia circular global que participam da Cúpula de Washington, aprendendo, além das inovações propostas, a resgatar os recursos descartados como lixo para abastecer o orçamento público da educação. Na economia circular, o lixo deixa de ser resíduo e passa a ser um valoroso insumo, reconhecendo que há valor em tudo.
Pesquisas em temas como esses e a elaboração de cenários para subsidiar programas e investimentos na chamada Sustentabilidade de Resultados fazem parte da missão do WWI-Worldwatch Institute e do World Economic Forum, em diferentes países, difundindo informações atualizadas, com fatos e dados, sobre governanças inovadoras adotadas pela academia e por gestores públicos e privados que estão, com inteligência nova, investindo no desenvolvimento econômico, social e ambiental a níveis local, nacional e global.
* Eduardo Athayde é diretor do WWI-Worldwatch Institute - eduathayde@gmail.com

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Avenida Sete - Corredor cultural de Salvador

Nivaldo Andrade*
Construída na gestão do governador J.J. Seabra (1912-1916) para conectar dois dos espaços mais simbolicamente relevantes de Salvador – o Farol da Barra e a Praça Castro Alves –, a Avenida Sete de Setembro, com 4,5 km de extensão, é o maior símbolo da modernização de Salvador no início do século XX, seu projeto de futuro em ruptura com o passado. No trecho entre a Praça Castro Alves e o Campo Grande, o alargamento das ruas preexistentes para formar a nova avenida se fez através da demolição de quarteirões e de monumentos centenários, como a Igreja de São Pedro Velho e o Convento das Mercês.
Esse trecho da Avenida Sete – como é conhecida entre os baianos – se consolidou, nos anos 1960, como o principal eixo comercial da cidade, em contraposição aos demais trechos do mesmo logradouro, mais ao sul, que possuíam um caráter eminentemente residencial. O seu papel de destaque no comércio local, contudo, foi perdido ao longo das décadas seguintes, com o surgimento de uma nova centralidade urbana na região do Shopping Center Iguatemi e Avenida Tancredo Neves.
Por um lado, este trecho da Avenida Sete se constituiu, desde então, no principal corredor cultural da cidade, marcado, nas suas extremidades, por dois dos mais representativos teatros construídos no Brasil no século XX: o Teatro Castro Alves, inaugurado no Campo Grande em 1967, a partir de projeto de Bina Fonyat, e o Teatro Gregório de Mattos, na Praça Castro Alves, projeto dos anos 1980 da arquiteta Lina Bo Bardi.
Os dois quilômetros que separam estes teatros abrigam alguns dos principais equipamentos culturais da cidade, como o mítico Teatro Vila Velha, as salas do Espaço Itaú de Cinema (antigo cine Glauber Rocha) e o Espaço Cultural da Barroquinha, instalado em uma antiga igreja arruinada.
Para efeito de comparação, trata-se de uma distância menor que os 2,4 quilômetros que separam a JAPAN HOUSE São Paulo e o Instituto Moreira Salles, na Avenida Paulista, em São Paulo, ao longo dos quais podemos encontrar outros espaços culturais, como a Casa das Rosas, o Itaú Cultural, o Museu de Arte de São Paulo e o Centro Cultural FIESP.
É, igualmente, uma distância menor que os 2,5 quilômetros que, no centro do Rio de Janeiro, separam o Museu de Arte Moderna, no Aterro do Flamengo, da Praça Mauá, onde se localizam o Museu de Arte do Rio (MAR) e o Museu do Amanhã, em um percurso que passa ainda pela Biblioteca Nacional, pelo Museu Nacional de Belas Artes, pelo Teatro Municipal e pela CAIXA Cultural. Com curtos desvios, este roteiro poderia incluir ainda os Centros Culturais Banco do Brasil e dos Correios, a Casa França-Brasil e o Paço Imperial.
Voltando a Salvador, desviando poucos metros da Avenida Sete, no trecho entre o Campo Grande e a Praça Castro Alves, é possível encontrar outros equipamentos de igual importância, como o Teatro Gamboa, o Museu do Traje e do Têxtil, o Gabinete Português de Leitura, a Biblioteca Pública do Estado, o Museu de Arte Sacra e a CAIXA Cultural. Se não fosse o desnível de aproximadamente 60 metros, também seria possível, com um rápido desvio, chegar ao Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM), no Solar do Unhão, outro projeto paradigmático realizado por Lina Bo Bardi em Salvador. Se ampliarmos um pouco o percurso de dois quilômetros em direção norte, chegamos ao Centro Histórico de Salvador, Patrimônio Mundial pela Unesco.
Apesar da sua importância comercial e cultural, caminhar pelo trecho Campo Grande-Castro Alves da Avenida Sete é, hoje, um tormento, pois a prioridade é do automóvel. Os passeios esburacados e ocupados por ambulantes, postes e telefones públicos não dão conta do fluxo intenso, e atravessar a avenida é uma tarefa inglória, devido ao disputado estacionamento contínuo ao longo da via, que cria um verdadeiro muro entre a calçada e a leito carroçável com três faixas de tráfego.
A Prefeitura de Salvador, através da Fundação Mario Leal Ferreira, executará um projeto de requalificação nos próximos meses que prevê o alargamento dos passeios do lado esquerdo da via, que passarão a ter 5 metros de largura, mantendo a histórica pavimentação em pedra portuguesa. Esse alargamento será possível graças à redução do estacionamento ao longo da via, o que também facilitará a sua travessia.
Apesar do acerto da proposta da Prefeitura em priorizar o pedestre em detrimento do automóvel, a Câmara de Dirigentes Lojistas de Salvador tem demonstrado preocupação com a redução significativa do número de vagas de estacionamento sem que sejam previstas soluções alternativas, como edifícios-garagem, para abrigar os automóveis que hoje estacionam ao longo da via. A intervenção recentemente realizada pela Prefeitura na Barra, eliminando o estacionamento ao longo da via e transformando-a em via compartilhada, sem que tenham sido buscadas soluções para suprir a demanda de estacionamento, teve grande impacto no comércio local, o que pode vir a se repetir no trecho entre o Campo Grande e a Praça Castro Alves.
O projeto de requalificação da Avenida Sete, no qual serão investidos quase 20 milhões de reais, só poderá produzir os efeitos esperados se vier acompanhada de outras intervenções estruturantes. Além dos edifícios-garagem citados, devem ser destacados a instalação de uma linha de VLT conectando a Praça Castro Alves ao Campo Grande, como proposto em 2015 no Plano de Reabilitação Participativo do Centro Antigo de Salvador do Governo do Estado da Bahia, e a construção de um teleférico ligando o MAM ao Mirante dos Aflitos, a 150 metros da Avenida Sete, como já previsto em diversos planos e projetos. Somente juntando investimentos do Governo Estadual e da Prefeitura, assim como da iniciativa privada, será possível consolidar este trecho da Avenida Sete como principal eixo cultural de Salvador, sem perder seu caráter comercial histórico e tendo o pedestre como protagonista.
*Nivaldo Andrade. Arquiteto e urbanista, mestre e doutor (2012) em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), realizou pós-doutorado na École d’Urbanisme de Paris / Université de Paris-Est. Professor da Faculdade de Arquitetura da UFBA. É um dos curadores do Congresso Mundial de Arquitetos, que ocorrerá no Rio de Janeiro em julho de 2020, organizado pela União Internacional dos Arquitetos e pelo IAB.
**Artigo publicado originalmente em Arq.Futuro - http://arqfuturo.com.br/

quinta-feira, 13 de julho de 2017

TRÍPTICO - tradição da arte em três gerações

Jenner Augusto foi destaque na renovação da arte moderna na Bahia e Sergipe. Com um traço que ressalta, entre muitos pontos, a vivência na terra sertaneja, o artista plástico, pintor, ilustrador, escultor e desenhista está com algumas de suas principais obras homenageadas na exposição Tríptico – A Arte em Três Gerações.

Promovida por seu filho e também artista plástico, Guel Silveira, e pelo neto, fotógrafo e marchand Zeca Fernandes, a mostra reuneo trabalho artístico das três gerações da família. De 11 de julho a 03 de setembro, no Salão de Arte Contemporânea do Palecete das Artes Rodin Bahia o público poderá conferir obras que perpassam por fotografias, desenhos e pinturas em um apanhado geral das suas carreiras.
Tríptico conta com um total de 81 obras dos três artistas. A mostra tem curadoria de Mario Brito e vai propor um diálogo com o universo cultural de Salvador – seus movimentos, cotidiano e formas a partir das pinturas e desenhos de Jenner e Guel e as fotografias e esboços das paisagens urbanas pelo olhar de Zeca Fernandes.
Família e arte
Mais do que mostrar peças que refletem as nuances da capital baiana, a exposição reafirma a tradição artística da família. Nascido em 1924 em Sergipe, Jenner Augusto teve uma carreira marcada pela pintura em estilo modernista. Transitando entre Aracaju, Salvador e Rio de Janeiro, o seu traço foi destacado em diversas mostras no Brasil e no exterior, tendo ilustrado também o livro Tenda dos Milagres, de Jorge Amado.
Guel Silveira aprendeu e herdou do pai a sensibilidade estética. Nome forte na arte contemporânea e abstracionista. Em um recorte abstrato, mostra uma paleta de cores inovadora, com marcas naturalistas e que também transitam entre o obscuro e o luminoso, apresentando nas obras elementos que transmitem movimento, com volume e profundidade.
Em Tríptico, Guel apresenta pinturas e dobras que se destacam justamente pelo gestual, com uma variação de cores, harmonia, uniformização e a presença de grandes formatos. “Trabalhei em muitos ateliês, fiz coisas com figuração, gravura e trabalhei com spray, mas a minha vontade sempre foi desfazer o desenho abstrato, desconfigurar, dar a possibilidade de o espectador criar em cima da obra”, afirma Guel, evidenciando a importância da participação do público para o sentido das suas obras.
Da terceira geração da família, o marchand Zeca, como é conhecido, sempre foi influenciado e estimulado principalmente pelo avô.
Cercado por tintas, pincéis e telas, ele desde cedo desenvolveu o gosto pelo desenho e também descobriu na fotografia uma nova paixão. Acostumado desde pequeno com o universo das artes, Zeca voltou seu olhar para o registro de paisagens urbanas, onde o lirismo e o senso estético nunca se afasta do seu propósito, retratando toda sua sensibilidade e redescobrindo novos horizontes.
Para Murilo Ribeiro, diretor do Palacete das Artes, onde a mostra ficará em cartaz até setembro, a exposição vai elucidar a importância artística e cultural de Salvador.
O Palacete das Artes é um equipamento vinculado ao Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC)/Secretaria de Cultura do Estado (Secult-BA). Funciona de terça a sexta, das 13h às 19h; sábado, domingo e feriado, das 14h às 18h.
Sobre a exposição
Com obras de Jenner Augusto, Guel Silveira e Zeca Fernandes, a mostra apresenta o traço artístico de três gerações da família. Com 81 peças, são pinturas, desenhos e fotografias dos artistas em um diálogo e reflexão sobre o universo cultural e o cotidiano de Salvador.
Serviço
Exposição “Tríptico – A Arte em 3 Gerações” – com obras de Jenner Augusto, Guel Silveira e Zeca Fernandes
Local: Palacete das Artes Rodin Bahia
Rua da Graça, 284, Graça (3117-6987).
Data: de 11 de julho a 03 de setembro.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Ronda junina nos bairros

 Paulo Ormindo Azevedo*
Os bairros tradicionais de Salvador eram garrafões de uma só entrada, o que facilitava a coesão social. Em volta era o mato ou o mar. As festas populares são indicadores do sentimento de pertencimento comunitário em um bairro. Recordo-me do carnaval festejado nos bairros de Salvador, antes dele ser encampado pelo poder público e pelo mercado, fatiado e segregado por cordas e camarotes. O carnaval dos bairros acabou. Para minha surpresa, o São João, pouco comercializado, continua resistindo. Sai na noite de São João rondando a cidade para ver onde ele ainda é festejado. Nos bairros de classe média alta ele já não existe. Mas na Av. Beira Mar em Itapagipe, no Garcia, Tororó, Liberdade, Piripiri e outros bairros populares havia fogueiras, barracas vendendo comida e licores, vizinhos sentados nas calçadas jogando conversa fora.

Por que esta diferença? Não sou sociólogo, mas é sabido que nas classes altas o individualismo é mais forte e as carências menores. Na periferia, a comunidade se une para reivindicar ou amenizar a falta de saneamento, pavimentação e creches. Em suma, há um sentimento tribal de solidariedade. Há algumas décadas atrás, o rapaz que quisesse namorar uma moça de Itapagipe, tinha que ter muito amor e coragem para suportar as provocações da tribo local. Faço parte de alguns movimentos de defesa de Salvador e sabemos que são poucas as associações de bairros de classe média, ao contrário da periferia.  Quando elas existem, como a AmaBarra, é porque seus moradores se sentem molestados por políticas urbanas arrevesadas.

Há um fator urbanístico nessa estória. O antropólogo Roberto Damatta analisou a relação da casa com a rua em um livro esclarecedor. Nos bairros formados por casas as relações de vizinhança são muito mais fortes que em condomínios verticais. Nestes, os poucos condôminos que vão às assembleias é para reclamar do valor do condomínio ou pedir providência contra o cachorro e o som alto do vizinho. Piscinas, academias e saunas são pouco usadas pelos moradores, mas as imobiliárias continuam incluindo esses fetiches em seus lançamentos para vender apartamentos aos incautos.

Meu colega de profissão e jornal, Lourenço Mueller, há um ano teve a ideia de promover um sarau lítero-pictórico e etílico para fazer com que os moradores dos espigões de sua rua, na Graça, se conhecessem. Foi um sucesso, supostos mortos apareceram, separados descobriram que eram vizinhos etc. Espero que pelo menos agora eles se cumprimentem no elevador. Mas para que serve esta socialidade de vizinhança? Para termos uma trégua diária no stress e na competição do trabalho e da escola, para podermos fruir a urbanidade jogando conversa fora e vivendo um pouco mais.
* Paulo Ormindo Azevedo, é Arquiteto e  Professor Titular da Ufba

SSA, A Tarde de 02/07/17

domingo, 9 de julho de 2017

Luz e Sombra

Aninha Franco*
Dinamarca, Noruega e Suécia foram habitadas por vikings até a Idade Média.
A Dinamarca é a nacionalidade de Kurt Westergaard, aquele cartunista que criou um dos doze desenhos sobre Maomé, mais precisamente o que Ele usa um turbante em formato de bomba. 
A Dinamarca é o país de Karen Christence, a baronesa de Blixen-Finecke, conhecida e admirada sob o pseudônimo de Isak Dinesen, autora de A Fazenda Africana (1937), inspiração do filme Entre Dois Amores (1985) e de Anedotas do Destino (1958), com o melhor conto gastronômico que eu já li, A Festa de Babette, filme em 1987, Oscar de filme estrangeiro em 1988, entre outras obras admiráveis que ainda não são filmes. 
O italiano Eugênio Barba que reside no Planeta Terra tem domicilio na Dinamarca. 
O Google dissuade os brasileiros a morarem na Dinamarca por causa do idioma, do clima, das relações sociais, da comida e da xenofobia. E os aconselha a residir lá pela honestidade, confiança, segurança, liberdade sexual, igualdade de gêneros, sistema de bem-estar social, conforto sem luxo, felicidade coletiva, sustentabilidade e hygge, um comportamento raro no Brasil, que é evitar conflitos desnecessários e desgastantes para viver bem. 
O artista Christian Cravo é baiano, filho inquieto do artista Mario Cravo Neto (1947 a 2009) e de mãe dinamarquesa, com quem Christian morou na Dinamarca, criança, foi educado na adolescência e cumpriu serviço militar na juventude. 
Em 1997, estava em Salvador participando da Mostra de Fotografia Contemporânea Baiana - Ano III e em 1998 integrou o Arts Plastiques D’aujourd’hui com outros pintores, escultores e fotógrafos nas galerias J&J Dounguy, Vivendi, Modus, Debret, Magnan e Leonardo em Paris. 
Em 2000, fotografou os profetas que impediram o mundo acabar, que de acordo com as previsões acabaria em chamas em 31 de dezembro. Em 2001, estava fotografando no Haiti, o que resultou na exposição/livro Nos Jardins do Éden (2010), território do vudu e de terremotos de magnitude 7,0 na escala Richter, onde é forçoso ter muito mais fé para sobreviver do que no Brasil contemporâneo. 
Em 2015, fotografou Mariana e fez fotos com o poder de mostrar o que aconteceu lá no dia 5 de novembro de 2015. 
Christian Cravo é meticuloso quando escolhe o que fotografar e espetacular quando fotografa. 
Depois de morar nalgumas metrópoles do planeta, NY nos USA e SP no Brasil, inclusas, instalou-se na Província da Baía de Quirimurê para organizar a obra de seu pai no Instituto Mário Cravo Neto, e ficar perto do avô, o escultor Mário Cravo Filho, nosso Vulcano. 
Na Galeria Paulo Darzé mostrou a exposição Luz e Sombra com fotos de Christian na África, e livro da mostra. Se Isak Dinesen priorizou os humanos em seus livros de cenário africano, Christian fotografou outras espécies em Luz e Sombra, onças que lembram modelos inglesas, namoro de girafas, lindos leões despenteados e pássaros monárquicos. 
Zivé Giudice, que esteve com Christian em Arts Plastiques D’aujourd’hui, e que voltou à direção do MAM-BA por esses dias, estava na Paulo Darzé, ontem, sinalizando que artistas devem respeitar-se e proteger-se porque essa é a regra básica de sociedades evoluídas.
Aninha Franco é escritora, advogada, dramaturga e apaixonada pelas artes. 
Aos 25 anos, a escritora recebeu um dos mais importantes prêmios da época na Academia Brasileira de Letras e hoje reúne notas, recordações e bilhetes em uma estante chamada ‘casa da minha alma’.Com mais de 13.000 livros, 7.000 discos, 1.000 filmes e varios projetos capitaneados, Aninha mantem uma coluna diária no jornal Correio da Bahia, onde este artigo foi originalmente publicada.Entre todas as manifestações artísticas, ela considera a gastronomia como a mais importante, porque, segundo Aninha, além de agradar a visão, o olfato e o paladar, essa arte agrada também o estômago.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Christian Cravo volta à Bahia para dirigir Instituto Mario Cravo Neto

Kátia Borges - A Tarde
Acostumado desde criança ao  trânsito quase  cotidiano entre continentes,  Christian Cravo, 43, pretende  ficar na Bahia pelos próximos dois anos.  Tem pela frente   outras viagens, íntimas, familiares, igualmente continentais. Assim tem sido organizar  o  recém-formalizado Instituto Mario Cravo Neto, que pretende manter em evidência  o nome e a obra de seu pai –  morto em 2009, o fotógrafo baiano é considerado um dos mais representativos do país.  
As ações se darão a partir do  acervo doado  pela família ao  Instituto Moreira Salles em 2015 – cerca de 94 mil peças –, com a edição já prevista de três livros, exposições  e um grande  prêmio de fotografia, ainda em fase de formatação. Mas Christian é, sobretudo, um artista  de talento e assinatura própria. Desde que, aos 17 anos, decidiu-se pela fotografia,  vem construindo uma carreira internacional tão autêntica quanto sólida. Nesta quinta-feira (6), às 19h,  lança na Galeria Paulo Darzé, no Corredor da  Vitória, Luz e Sombra, seu novo livro, e inaugura exposição homônima, no qual a África se apresenta em toda a sua imensidão e selvageria. As imagens, ele diz e poucos sabem, o reconectaram ao  avó, o escultor Mario Cravo Júnior, hoje com 94 anos. É assim que compõe seu trabalho. Não por acaso,  está dedicado agora a um projeto que tem como tema a sua mulher, Adriana, e as três filhas do casal, de 14, 4 e 2 anos.  Nesta entrevista, Christian fala sobre  o legado artístico dos Cravos, memória – em especial, a releitura fotográfica que fez da tragédia em Mariana (MG) – e as ações do instituto que ora  dirige.  
Como está sendo a experiência de  revisitar  toda a obra de seu pai, Mario Cravo Neto, e dar um direcionamento ao instituto criado na Bahia para preservar a memória dele?
Olhe, essa... foi uma história que começou em 2009. Quando meu pai estava prestes a morrer, cogitamos pela primeira vez a ideia de criar  uma instituição para, primeiramente, abrigar a obra dele. Quando digo obra, este é um termo muito vasto, né? Cada pessoa pode pensar e colocar isso de uma forma diferente. Poderia dizer gestão dos direitos autorais dele ou chamar isso aqui de um QG para administrar as exposições, o nome dele de  forma póstuma. É o Mario Cravo Neto representado de forma jurídica numa esfera pós-vida ou numa esfera pós-morte. Mas vai muito além disso.  
Imagino que exista toda uma questão familiar envolvida nesse processo.
Quando se entra numa esfera familiar como essa a que eu pertenço, que já não é uma equação muito normal, entende? São três gerações. Você pode ter três gerações de artesãos, de advogados ou de técnicos. Mas, nas artes plásticas, aí já foge um pouco às regras, é uma equação mais difícil. São três gerações, e cada um teve seu lugar e sua importância – ou está tendo –, cada um teve sua função. Meu avô [o escultor Mario Cravo Júnior, 94 anos] pertenceu à burguesia baiana, é filho de um mundo que nunca sonhou com isso aqui. 
A importância dele foi  o rompimento com esse velho mundo, com o  velho padrão,  para iniciar uma história inteiramente nova. Depois dele, veio o meu pai e ele teve o desafio de ser o  primeiro a fazer um certo questionamento no qual estava embutida a ideia de seguir  uma carreira livre, porque  seguir uma carreira dentro de padrões preestabelecidos é bem mais leve e bem mais fácil. Mas meu pai seguiu  uma carreira livre, mesmo tendo  sobre ele o peso de herdar o  mesmo nome. Imagino como deve ter sido um peso para ele levar o mesmo nome e a  mesma carreira. Depois dele, então, eu vim. E  sou uma outra história completamente diferente da deles.      
E qual a ideia que norteia o instituto?
A minha ideia é que o instituto venha a ser um centro de referência para a memória  familiar. Eu posso dizer tranquilamente para você que nenhum dos três é maior que a trilogia.
Seu avô é um dos maiores artistas plásticos vivos da Bahia e do Brasil. Em sua opinião, qual o espaço que ele ocupa nessa trilogia? 
Meu avô é um grande artista, sem sombra de dúvidas,  um homem com muitos méritos, muitas virtudes e muitos defeitos também. Mas tem uma coisa que se sobrepõe a ele, que foi o fato de ele ter iniciado essa trilogia familiar. E a mesma coisa posso dizer de meu pai e de mim. Então é assim,   é isso que deve ser preservado, pois cada um tem sua história a contar. E penso que a minha família, como uma família de artistas, tem muito a contribuir, entende? Agora, estou falando aqui da expansão de uma vida, de três vidas, na verdade. Está começando de uma forma meio torta, começando pelo do meio, por aquele  que no auge da carreira faleceu. 
O natural seria começar pelo meu avô e então incorporar a obra de meu pai e a minha. Como eu disse, a ideia do instituto  é essa concentração desse elemento único pertencente a essa família. Mas não é tão fácil assim. Isso envolve questões familiares, envolve dinheiro, envolve espaço. Veja que por enquanto estamos aqui [uma sala no 20º andar de  um prédio comercial na Avenida Tancredo Neves], mas isso aqui é só a sala de administração. Temos dois outros, na verdade, três outros espaços. Temos o depósito, onde fica tudo que não usamos no dia a dia, entende, que ainda estamos em fase de organizar – toda a biblioteca de Mario, o estoque de livros, exposições etc. Se tivéssemos uma casa, seria mais fácil explicar.  E temos uma parceria técnica, no Rio de Janeiro, que é a maior de todas, onde está todo o acervo de negativos de Mario Cravo Neto.  
Você se refere ao acervo doado em 2015 ao Instituto Moreira Salles?
É uma parceria que foi  muitíssimo importante pra gente, porque ela permite, em primeiro lugar, um desprendimento. É algo extremamente valioso e que dinheiro nenhum paga. Não adianta colocar aqui e pagar um seguro, porque se pegar fogo ali do lado acabou.  Esse dinheiro não serve para nada aqui, o que serve aqui é a memória. Então foi realmente muito importante essa parceria, que  é apenas técnica. Todos os direitos autorais foram preservados. Pertencem aos herdeiros de Mario e ao nosso instituto. Mas ela permite que os originais estejam guardados da melhor forma possível. E eles já estão sendo digitalizados em sua totalidade. Temos ainda  uma parceria de edição de três livros, ao longo dos  dez anos do contrato, e inúmeras  exposições programadas. Então aqui é apenas um dos três satélites. Ou se pode dizer que lá é o centro e aqui é um satélite. Seja como for, são três espaços  em que trabalhamos para manter isso aqui. 
São quantos itens no total? Fala-se em  um acervo de  mais de 100 mil peças.
Na verdade, são 94 mil itens. Isso compõe  a totalidade do acervo de originais dele. Mas isso, obviamente, depois, trabalhando, já identificamos que existe muito mais. Identificamos, por exemplo, toda a parte de filmes de Mario. São centenas e centenas de horas e estamos finalizando a digitalização. Tirando o período de 60 e 70, que era super 8 e 16 milímetros, dos anos 90 para cá, já era formato de fita e são vários padrões. Todas têm em comum serem fitas magnéticas que tendem a deteriorar com o tempo, são muito frágeis. Uma das primeiras coisas que fizemos, após o acordo com o Moreira Salles, que para mim era prioridade absoluta, foi a digitalização dessas centenas e centenas de horas de filmagem. 
Qual a importância desses filmes dentro do acervo de Mario Cravo Neto?
Quando um artista morre, a obra dele termina. O que eu quero dizer com isso é que tudo que ele deixou, seja um rabisco no papel ou uma peça finalizada, tudo tem o mesmo valor, artisticamente, entende. Não somos um instituto com fins lucrativos, mas uma instituição de preservação de memória. Então esse se tornou um ponto extremamente importante para mim. Essas fitas, após a digitalização, irão também para o Instituto Moreira Salles, virão para cá, irão para a Associação  Videobrasil, em São Paulo. A ideia é diversificar, até mesmo por uma questão de segurança, inclusive os locais de armazenamento. Aproveitar que o vídeo e a fotografia são, por natureza, expressões de múltiplos, que você pode copiar, e espalhar isso, distribuir entre as parcerias.    
O instituto já promoveu alguma grande exposição deste acervo?
Desde outubro de  2009, quando Mario morreu, eu já sabia que haveria um instituto, mas, naquele momento, obviamente, o instituto  era eu, eu era o representante e continuo sendo, embora considere que esta seja uma instituição independente. Hoje, temos CNPJ, sede, conselho, mas o que importa é a cabeça de quem está à frente. Fizemos uma exposição no Instituto Tomie Ohtake, quando ele morreu. E essa mesma exposição veio para Salvador, adaptada, para o Palacete das Artes. Depois, fizemos  a maior de todas as exposições na Pinacoteca de São Paulo. E  uma outra ainda na Espanha, no Jardim Botânico de Madri, um espaço fantástico e com uma visitação recorde, durante o festival PhotoEspaña.  A primeira exibição solo de mario Cravo Neto no Reino Unido aconteceu em 2016 no Rivington Place, (fotos).
Haverá também um prêmio de fotografia que será criado pelo instituto?
Sim, mas ainda está em formatação. Não sabemos, por exemplo, se será nacional ou internacional. Quero chamar a atenção para o instituto, mas é sobretudo, e acima disso, retribuir a ajuda que nós tivemos.  Eu não recebo mais prêmios, sofro um castigo por mérito. Mas já recebi vários. Todo artista precisa de incentivo. Entre as décadas de 50 e 70, meu pai só recebia recusas. Mas ele foi combatendo a ponta de faca. Tamanha a crença que o artista tem em sua obra. Penso que o incentivo é mais que fundamental, é até mesmo obrigatório para quem também o recebeu. Afinal, quem escreve a história do país não é o governo, são as pessoas.
Quais os próximos  projetos? O que vocês estão planejando neste momento?
Agora, que o instituto existe no sentido físico e no sentido da labuta,  é organizar, tomar pé do que tem. Hoje em dia vivemos uma era de smartphones, de WhatsApp, não temos mais  memória. Garanto com a mesma certeza de que amanhã irá amanhecer que, daqui a 40 anos,  as mensagens que troquei no WhatsApp há minutos atrás não irão existir.  Mas as cartas que meu pai e meu avô mandavam e recebiam, sim. Pode rasurar, amassar, cair café em cima, mas elas vão estar lá. E, por meio delas, tenho descoberto um outro Mario Cravo Neto. É como ter a chave daquele quartinho que era só dele. Então você aprende não só outras facetas do artista, mas, como filho, aprendo um outro Mario que  eu, às vezes, desconhecia.
Uma experiência forte.
Uma experiência muito frutífera, muito forte, mas eu acho também que  [silêncio] tem que existir a compreensão de que cada um está no lugar certo e na sua realidade.  Tenho amigos em São Paulo que me disseram assim: “Poxa, cara, você vai gastar dois anos de sua vida cuidando das coisas de seu pai. E a sua carreira?”. E eu acho isso tão bobo, porque isso também faz parte da minha carreira. Minha família faz parte. Eu tenho a vaidade do artista, óbvio, mas não essa  vaidade e ganância de me projetar. Essa aqui é uma história única. Quem fala, quem não entende, não percebe o quanto é mágico fazer parte disso tudo. Agora, como meu pai falou antes de morrer, não posso sacrificar a minha carreira em função dele. E concordo plenamente com ele e me policio em relação a isso. Mas também pode ter sido desespero dele ao falar isso. Nunca saberei ao certo. O que sei é que  cada um se firmou de sua forma nesse métier e que cabe a mim essa tarefa como parte da minha carreira. A arte é a soma do intelecto e da vivência do artista. Esse processo aqui irá somar e, certamente, dará origem a algum trabalho. 
O que te levou para a África?
É curioso  como tudo na vida se sobrepõe. O que me levou à África foi justamente a briga familiar que tivemos em torno do que fazer com as coisas de meu pai. Essa briga me criou certa repulsa e me levou para a África. Decidi deixar a briga aqui e ir em busca de fazer outras coisas, de uma fotografia mais contemplativa, que me permitisse muita espera, para que eu pudesse pensar, refletir. A África nasceu disso, além da necessidade que eu sentia naquele exato momento de me reinventar. Agora, veja, que tomo conta das coisas de meu pai,  meu novo projeto é voltado exclusivamente para  meu núcleo familiar, que é minha mulher e minhas três filhas. São fotos muito parecidas com as da África, mas são exclusivamente de minhas filhas. É um trabalho em que eu busco uma composição estética, poética e intelectual. É isso que estou atualmente fazendo. São questões que não temos como responder imediatamente. 
Como você situa nesse contexto o projeto de Mariana (MG)?
Nasceu por outras razões. O país estava em convulsão, e eu, como cidadão, muito curioso como artista, senti a necessidade de fazer aquele registro. É semelhante a um projeto que tenho hoje com o Filhos de Gandhy. Dá vontade de chorar olhando fotos deles de 50 anos atrás e não sabemos se, daqui a 50 anos, ainda existirá Filhos de Gandhy. Então o projeto de Mariana nasceu disso, dessa necessidade de identificar momentos que precisam de registro. Não nos cabe julgar, mas identificar esses momentos. Eu quis vivenciar, quis registrar aquilo ali, sempre com muito cuidado para que não tivesse uma pegada imediatista. Foi como o terremoto no Haiti. Esperei um mês para que toda a imprensa fosse embora, todo aquele ‘abutrismo’ de criar ibope. Passei poucos dias lá e queria exatamente aquilo que se vê no livro, são registros... do que ficou. Eu havia ido antes a Pompeia, no sul da Itália, e foi o mesmo sentimento. Pompeia foi soterrada por pó vulcânico e Mariana, por lama. E o tempo ficou parado ali, às 16h, quando a barragem rompeu. O livro foi consequência. Se sobrar um, daqui a muitos anos, já terá válido a pena. É uma ponte entre o passado e um futuro que a ninguém pertence.
Sobre o livro Luz e Sombra, sentimos que há uma suavidade muito grande e uma predominância de texturas. Como é o seu processo criativo? 
Cada trabalho que faço é tanto uma consequência de algo em minha vida quanto  da minha vida como cidadão, como indivíduo. A coisa com a vida particular se funde, é costurada em torno da minha existência. No caso desse livro, sendo como sou, o terceiro numa linhagem de artistas, sempre fui autocrítico em relação a não repetir os moldes, os padrões de meus antecessores, meu pai e meu avô. Claro que quando somos crianças... vou te mostrar uma coisa (para e traz uma pequena escultura em bronze de um cavalheiro medieval). Você poderia jurar que foi meu avô que fez nos anos 50. No entanto, foi meu pai aos 12 ou 13 anos. Isso é uma fase, um estalar de dedos, a partir de certa idade é preciso criar, achar seu caminho. Por isso, enveredei pelo fotodocumentarismo.  Meu pai fazia fotos montadas, como a crítica dizia, esculturas em fotos. Quando ele morreu, ficou um vazio. Fiquei numa extremidade e meu avô na outra. E 50 anos nos separando. 
Então é muito natural, até um sentimento humano, de filho, que eu me desse a liberdade de escorregar um pouco no terreno de meu pai, naquele terreno que  eu ferozmente me recusava a entrar. Isso tirou um peso crítico da minha percepção artística. Porque era um questionamento de quando ele estava vivo. Ficou uma lacuna, e isso é energia. Esse trabalho da África foi uma espécie de ode ao trabalho de meu avô, muito mais que ao de meu pai. Quis, obviamente, numa percepção documental, registrar a dualidade da vida, que é totalmente humana, mas que é própria da natureza. Eu queria me aproximar da beleza desse drama. Mas, esteticamente falando, posso mostrar diversas obras de meu avô que são influenciadas por animais. Há uma correlação. Este é um trabalho no qual, apesar de ser muito diferente, eu me permiti a aproximação de uma estética já usada em minha família. Mas, claro, é preciso ter um olhar muito acurado e conhecer profundamente o trabalho dos três – que poucos conhecem – para perceber que ali há uma fusão.