terça-feira, 12 de novembro de 2019

CONGRESSO INÉDITO MARCA PROJETOS PARA A BAÍA DE TODOS OS SANTOS

Ontem,  na Academia Baiana de Letras, a Baia de Todos os Santos foi o tema principal do COMARK: Congresso de Kirimurê, BTS e capital da Amazônia Azul. O evento inédito foi uma iniciativa do Grupo Kirimurê, que reúne personalidades, políticos, intelectuais e representantes dos mais diversos segmentos ligados ao mar da Bahia.
O congresso teve como patrocinadores a  Fundação Aleixo Belov e a Fundação Baia Viva.
O objetivo foi discutir projetos de desenvolvimento sustentável para a Baia de Todos os Santos, sendo apresentada ainda uma Carta de Intenções.
Dentre os destaques da programação palestras do navegador Aleixo Belov, dos professores Paulo Ormindo e Lourenço Müller, Eduardo Ataíde, Waldeck Ornelas, Roberto Malaca, dos secretários André Fraga e Fausto Franco, além de membros de universidades.
Entre as diversas propostas apresentadas, o saneamento urbano das cidades do entorno da baía, a ênfase na denominação de capital da Amazônia Azul e a revitalização dos saveiros , tanto para o transporte como para turismo foram apoiadas por unanimidade dos presentes.
Foram constituídos diversos grupos para aprofundarem as discussões e apresentarem propostas a serem trabalhadas pelo grupo KIRIMURE.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Hidroporto da Ribeira , o primeiro da Bahia


Nelson Cadena*
Em 10 de dezembro de 1935, amerissou, no aeroporto de Itapagipe, o gigantesco hidroavião Trininad Clipper, com oito tripulantes, sob a chefia do comandante Charles Lorber, trazendo, entre os passageiros, o ex-governador Antônio Muniz Sodré de Aragão. Entre os que embarcariam em direção ao Rio de Janeiro, estavam os políticos Lauro de Freitas, João Pacheco de Oliveira e o jornalista Altamirando Requião. O amerrissar na Ribeira de Itapagipe se constituía um verdadeiro espetáculo para centenas de baianos que até lá se dirigiam, para ver os hidroaviões descer e flutuar. O píer de atracação, inicialmente de madeira, tinha sido construído em 1922, como auxiliar para uma escala dos pilotos portugueses Sacadura Cabral e Gago Coutinho, que realizaram em um hidroavião, partindo de Lisboa, a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, no âmbito das comemorações do Primeiro Centenário da Independência do Brasil. Provavelmente, teria também servido de apoio ao piloto espanhol Antenor Navarro no seu histórico voo pelo centro de Salvador, em 1923, observado por autoridades e convidados, reunidos na cúpula do Hotel Meridional. Foi no hidroporto da Ribeira de Itapagipe que o presidente Getúlio Vargas desembarcou, em 1939, para as comemorações da descoberta de petróleo em Lobato. Durante a II Guerra Mundial, o hidroporto serviu de base de apoio aos hidroaviões americanos que faziam o patrulhamento da costa brasileira. Depois de operar com regularidade durante toda a década de 1940, utilizado pela empresa de aviação Nyrba do Brasil, denominada, a seguir, Panair do Brasil, foi, aos poucos, sendo relegado a um segundo plano, em função de as companhias aéreas passarem a optar pelos aviões de pouso em terra, de maior porte e mais seguros.
* Jornalista e escritor
Texto do livro de minha autoria “A Cidade da Bahia”). Editora P55. Realização ALBA, TCE, TCM. Salvador, 2017. Fotos do acervo da Fundação Gregório de Mattos-FGM)

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Entrevista com Antônio Risério

Guilherme Evelin - O Estado de S.Paulo
 Entre os antropólogos brasileiros, o baiano Antonio Risério pertence a uma linhagem rara. Enquanto boa parte de seus colegas, como ele destaca, se dedicou a escrever sobre “pretos e índios” em leituras etnográficas do Brasil, Risério resolveu enveredar seus estudos para a vida nas cidades brasileiras. Nos últimos anos, publicou a trilogia de livros composta por A Cidade no Brasil, Mulher, Casa e Cidade e A Casa do Brasil – este último recém-lançado pela editora Topbooks – com o objetivo de entender “a maior crise urbana da história do país. O olhar antropológico sobre a casa e seu lugar nas cidades brasileiras, diz Risério, pode ajudar a entender como “nossas desigualdades sociais se manifestam em cada centímetro do chão” e a encontrar saídas para a atual encruzilhada em que os dramas urbanos são amplificados pela questão ambiental. À visão do antropólogo, se somam também a do romancista, ensaísta e ex-marqueteiro de campanhas políticas. Ao mesmo tempo que detona programas como o Minha Casa, Minha Vida, concebido pelos governos do PT, Risério prega que a vida nas cidades precisa de um “conjunto de regras que incorpore rotineiramente o acaso”. “Se só houver regras, é o totalitarismo. Se não houver regras, é a anomia”, diz ele, em entrevista ao Aliás.
1. Por que você - antropólogo, ensaísta, romancista - resolveu se dedicar ao estudo do urbanismo no Brasil?
R: Existe uma tradição brasileira de vínculos e trabalhos conjuntos entre antropólogos, engenheiros e arquitetos-urbanistas, que pode ser retraçada a Euclydes da Cunha, o engenheiro-antropólogo saindo da Escola Politécnica para mergulhar em leituras etnográficas do Brasil. E isso vem atravessando os tempos, como vemos com o arquiteto-urbanista João Filgueiras Lima fazendo dupla com o antropólogo Darcy Ribeiro. Me orgulho de ser  um subproduto dessa tradição. No meu caso, além do fascínio existencial e intelectual pelas cidades, houve o engajamento em administrações municipais, quando me envolvi até à medula com questões urbanas. Existia, também, certa escassez de estudos de antropologia urbana no Brasil. Nossos antropólogos escreviam sobre índios e pretos, nossos sociólogos sobre classe operária e populismo – poucos pensavam o urbano como tal. Mas, como determinação maior, está o fato de que atravessamos hoje a maior crise urbana de toda a história do país. E o olhar socioantropológico sobre as cidades não só nos ajuda a nos entender histórica e culturalmente, como revela nossas desigualdades sociais se manifestando em cada centímetro do chão das cidades.
2. Que relação você estabelece entre o seu mais novo livro - A Casa no Brasil - e o livro anterior - A Cidade no Brasil?
R: São livros que dialogam entre si. Na verdade, compus um “triálogo”. Entre “A Cidade no Brasil” e “A Casa no Brasil”, publiquei “Mulher, Casa e Cidade”, analisando lugares e desempenhos femininos no espaço doméstico e urbano em geral. “A Cidade no Brasil” é uma releitura das visões sobre o processo urbano em nossos trópicos, inclusive para contestar o mestre Sérgio Buarque de “Raízes do Brasil”, que considero equivocado e sem fundamentação histórica. “A Casa no Brasil” contextualiza a casa na desorganização espacial de nossas cidades, em percurso diacrônico que vem das senzalas aos flats. Para finalizar, examino a encruzilhada em que nos encontramos, sob desigualdades sociais e crimes ambientais.
3. Você escreve que a "sociedade brasileira, do século XVI aos dias de hoje, flats à parte, só conheceu, na verdade, um tipo de moradia: a casa escravista". Não é uma afirmação demasiadamente forte? Você entende que as relações sociais pouco mudaram no Brasil desde os tempos da Colônia? O que a "casa brasileira" mostra sobre a "sociedade brasileira"?
R: As relações sociais mudaram muito. Mas a gente não pode esquecer o passado escravista. E nem sequer que o Brasil foi um país onde a primeira coisa que um ex-escravo fazia era comprar um escravo para lhe servir. Machado de Assis retrata isso no “Brás Cubas”, na cena em que mostra o ex-escravo Prudêncio açoitando um escravo que acabara de comprar. Compare um apartamento europeu de classe média e um brasileiro também de classe média. Embora os europeus tivessem situação material superior à nossa, vivíamos como se fôssemos mais ricos que eles. Inexistiam dependências para empregados domésticos no apartamento europeu. No Brasil, tinham quartos de empregada que são sucedâneos das senzalas. Eles nem sequer atendiam a exigências mínimas de códigos de obras e por isso apareciam oficialmente, nas plantas, como despensas. As coisas só começaram a mudar recentemente. Moças pobres hoje preferem ser exploradas num ponto comercial qualquer do que serem servas pessoais de outros. E ficou caro ter empregadas domésticas, hoje implicando deveres trabalhistas. A tendência é chegar a uma situação mais europeia. Na Europa, só apartamentos de luxo possuem dependências para serviçais. Caminhamos para isso.

4. Você faz uma crítica feroz ao programa Minha Casa, Minha Vida, que descreve como "edificações fundamentalmente vagabundas" que constroem as "favelas de amanhã". Qual é o cerne do problema desse programa, que você afirma que tem "nome ridículo de programa de auditório de televisão"?


5. Em outro ponto do livro, você escreve que nenhum governo social-democrata no Brasil - nem os de Fernando Henrique Cardoso, nem as gestões petistas - se preocuparam em fazer um programa de habitação popular eficiente e com casas modernas do ponto de vista arquitetônico. O último governante com sensibilidade para a questão teria sido  Getúlio Vargas. Por que isso ocorre? Moradia popular não dá voto?

R: Vargas foi o primeiro – e, até aqui, o único – a pensar a habitação popular em termos de qualidade. É interessante observar uma coisa, na mesma década de 1930. Nessa época, a socialdemocracia nórdica partiu para fazer casas de qualidade para trabalhadores. Na Suécia, o sociólogo Gunnar Myrdal se aproximou de Corbusier e do ideário da vanguarda arquitetônica internacional. E o mesmo aconteceu no Brasil com Vargas, embora os suecos vivessem numa democracia e aqui a gente se movesse na ditadura estadonovista. Mas é que o populismo getulista voltou as costas para a democracia política, ao tempo em que se abriu para a democracia social. Vargas apostou no primeiro time da arquitetura brasileira para produzir moradias populares de alta qualidade, como no conjunto do Pedregulho, no Rio, elogiado por Corbusier e Max Bill. Mas esta sua lição foi desprezada. Fernando Henrique não se preocupou com moradia popular. E os governos petistas, em vez de retomar o legado de Vargas, preferiram ir na linha medíocre do BNH da ditadura militar. Moradia popular dá voto, sim – não tanto quanto os neocurrais eleitorais do Bolsa Família, mas dá. O problema é que o povo, na sua carência, acha que qualquer bolacha quebrada é um palacete. E os governantes, mesmo que façam pose “de esquerda”, se aproveitam disso.

6. O que acha de movimentos como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), liderado por Guilherme Boulos? Vê nesse tipo de movimento algum caminho para tornar nossas cidades menos desiguais e ecologicamente mais equilibradas, como defende em seu livro?

R: Não conheço quem discorde do princípio de que todos devem ter direito a um abrigo onde morar. Se a burguesia da construção civil, o empresariado em geral e os governantes quisessem, eles já teriam acabado com o déficit habitacional. Eles têm poder e recursos para fazer cumprir o que reza a Constituição de 1988, com sua ênfase na função social da cidade e da propriedade. Mas não fazem. A suruba de empreiteiros e governantes no Brasil nunca teve sentido social. Logo, a desgraça habitacional popular prossegue. Não se faz uma ofensiva para acabar com isso. Então, é a sociedade que tem de se mover. De partir para o combate. Daí, a necessidade de coisas como o MTST, que é crítico duro e lúcido do Minha Casa, Minha Vida. Agora, quanto a Boulos, especificamente, não me entusiasma. É um “replay” de Lula, mas caricatural. Trazendo Marx para o plano do indivíduo: Boulus repete Lula como farsa.

7. Você escreve como passou a depender de uma bengala depois de ter tido um AVC em 2012 e como sentiu na pele como as cidades brasileiras são um inferno para os pedestres. A discussão sobre a questão da mobilidade urbana no Brasil, como você observa no livro, não leva em conta os interesses do pedestre, ao contrário do que acontece em países mais desenvolvidos como os da Europa. Por que involuímos nessa questão?

R: Falei antes da concordância geral em torno do princípio de que todos têm direito a um lugar onde morar. Não é só nesse tópico que a sociedade brasileira chega à unanimidade. Pensamos o mesmo sobre educação e saúde, assim como sobre a necessidade de respeitar o pedestre. Então, costumo dizer que, no Brasil, existe um elenco razoável de coisas e princípios que classifico como “consensos subversivos”. Porque todo mundo concorda que é preciso fazer – logo, consenso. E subversivo porque, no dia em que essas coisas forem feitas, teremos realizado uma nova revolução social no país. Mas vamos esquecer governantes e empresários. O mercado não é um deus que mereça confiança. E nossos políticos profissionais degradaram o Ministério das Cidades ao plano de peça de troca no balcão das barganhas nacionais. A sociedade tem de tocar o barco. O problema é que estamos muito pulverizados. E, para transformar a vida urbana brasileira, precisamos de uma heresia comum, compartilhável.

8. Você frisa que andar a pé é um dos principais meios de desfrutar uma das riquezas de morar em cidades: trombar com o acaso. E que as cidades devem se equilibrar entre o acaso e a necessidade - ou seja, estabelecer regras, sem as quais a vida urbana se torna um caos, mas ao mesmo tempo dar a chance para o imprevísivel. Que cidades já conseguiram achar esse equilíbrio?

R: Parti de um jogo verbal de Platão, na “República”, entre “polis” (cidade) e “polis” (um gamão grego), para falar que a cidade precisa de um conjunto de regras que incorpore rotineiramente o acaso. Se só houver regras, é o totalitarismo. Se não houver regras, é a anomia. No primeiro caso, de regras asfixiantes, tínhamos cidades no leste europeu. Hoje, no mundo islâmico. Mesmo em Teerã, onde é permitida a existência de sinagoga, quase tudo corre por debaixo do pano. No avesso, a Cidade do México e as grandes cidades brasileiras beiram a anomia. Equilíbrio? Regra geral, em cidades das democracias ricas do Atlântico Norte. Mas isso tudo vai mudando no tempo. Paris, por exemplo, caminha para empalmar um novo título. Será a maior cidade muçulmana do mundo.

9. O que acha do panorama geral das cidades brasileiras hoje em relação às principais cidades do mundo? As cidades brasileiras, em geral, nunca aparecem nos rankings de melhores cidades para morar do mundo? Gosta de alguma delas?

R: Estamos na contramão do movimento urbano planetário. Brasileiros dificilmente hesitam antes de cometer barbaridades ecológicas, violar princípios básicos de convivência e urbanidade, privilegiar automóveis e viadutos, em detrimento das pessoas. E aqui até me lembro da pergunta de Shakespeare: “o que é a cidade, a não ser as pessoas?”. Mas, apesar de tudo, gosto sim de algumas cidades brasileiras. Adoro São Paulo. Me sinto à vontade. Gosto, inclusive, de andar a pé à noite. De comer e beber no Copan, flanar na Paulista, ir ao Ibirapuera. E isso em nada diminui minhas críticas à cidade. Não tenho admiração por Haddad como político, mas ele teve um bom desempenho na prefeitura. Era o prefeito brasileiro que tinha uma visão da cidade como fenômeno socioespacial. E isso se perdeu. Gosto também do Recife, do Rio hoje tão humilhado, de São Luís, de Belo Horizonte, com a delícia daquele mercado municipal, etc. Enfim, embora não pare de reclamar, gosto de muita coisa.

10. O que acha de Brasília, razão de eternas polêmicas? Embora elogie a beleza da cidade, você admite já ter sido mais fã da capital e reconhece que algumas críticas à monumentalidade e à pouca densidade das relações sociais tem sua razão de ser.

R: Há muito o quê falar de Brasília, que é uma joia da arquitetura e do urbanismo brasileiros. E curto mais a cidade do que a critico. Mas algumas coisas não me parecem confortáveis. Brasília é uma cidade definida pela especialização de funções, com seus setores bem demarcados. Eu não aplaudo esta morfologia espacial. Penso que as mesclas funcionais e sociais concorrem para o bem-estar urbano. Outra coisa é que não vingou a nova sociabilidade vistosa que se esperava nascer do próprio plano da cidade. Como digo no livro, o que vemos é a falta de volume, frequência e intensidade na teia dos relacionamentos interpessoais. No desenho morfológico setorializante, a existência também se atomizou, aprofundando ainda mais o isolamento social candango.

11. Viver em condomínios fechados, como Alphaville, em São Paulo, parece já ter gozado de maior apreço junto às classes sociais brasileiras mais abastadas. Vê alguma mudança na relação das elites brasileiras com a vida na cidade? Vê algum razão para otimismo em relação à perspectiva de uma reforma urbana no Brasil que leve a cidades mais equilibradas tanto do ponto de vista social como ambiental?

R: A conduta das elites brasileiras, com relação às cidades, me parece mais um caso de polícia do que qualquer outra coisa. Invadem e privatizam o espaço público. Chegam a privatizar até a praia, que tem de estar sempre aberta a todos. Ao mesmo tempo, penso que a época de preferir isto ou aquilo está passando. O espectro das escolhas se estreita à medida que temos de pensar uma cidade que não consuma tão descontroladamente os recursos naturais. Seremos obrigados a mudar, se não quisermos perecer. É neste sentido que digo que hoje a cidade ideal está se transformando em cidade necessária. No livro, lembro que Goethe/Fausto, na tradução do “Evangelho Segundo João”, contraria a Bíblia e escreve: “no princípio, era a ação”. Mas, ainda no âmbito do próprio romantismo alemão, Heinrich Heine respondeu: “no princípio, era o rouxinol”. Goethe celebra a energia, a práxis. Heine celebra as canções da natureza. E o que eu digo é que temos de partir desse diálogo, caminhando idealmente para alguma síntese entre a ação de Goethe e o rouxinol de Heine.

sábado, 27 de julho de 2019

Neojibá de roupa nova

Paulo Ormindo de Azevedo*
No último dia nove foi inaugurado a nova sede do Neojibá, no Parque do Queimado, situado entre a Lapinha e a Caixa d’Água. Trata-se de um projeto de inclusão social de jovens e crianças através da música, idealizado pelo maestro Ricardo Castro, em 2007, e que por sua teimosia se estende hoje por 29 municípios baianos e beneficia 6,5 mil jovens e crianças. O projeto se inspira na experiencia do maestro José Antônio Abreu, que fundou em 1975 o Sistema Nacional de Orquestras e Coros Juvenis da Venezuela, que compreende 180 orquestras, e foi reproduzido em muitos países latino-americanos e nos EUA. Ricardo Castro é pianista premiado na Europa e professor de um grupo de jovens pianistas profissionais na Haute École de Musique de Friburgo, Suíça, mas preocupado com a fragilidade social dos jovens e crianças de sua terra natal.
O Parque do Queimado tem uma longa história. Sua fonte é conhecida desde o século XVII e foi remodelada em 1838 em estilo neoclássico. No mesmo ano foi iniciada a construção da Fábrica de Tecidos Santo Antônio do Queimado, movida a força hidráulica e depois a vapor, que produzia 1000 varas de pano dia. Foi uma das duas primeiras fabricas de tecidos da Bahia, conjuntamente com a de Valença dos Lacerdas. Em 1852, o Barão de Cotegipe conseguiu a concessão do abastecimento d’água de Salvador e funda a Cia. de Abastecimento de Água do Queimado, que começou a funcionar em 1856 e chegou a ter 22 chafarizes e fontes na cidade. Como a primeira do gênero no Brasil foi visitada pela família Imperial em 1º/11/1859. A preservação do parque, pertencente a Embasa, muito se deve ao escultor Astor Lima que criou em 1991 o Centro Memória da Água e o acervo Arte/Natureza, com obras doadas pelos mais importantes artistas baianos. O tombamento da fonte e do parque pelo IPHAN, em 1997, se deve a sua persistência.
O projeto de adaptação dos pavilhões da antiga fábrica e Cia. do Queimado à sede do Neojibá é do Studio Butikofer, Oliveira e Vernay, da Suíça, com assessoria do Nagata Acustics, do Japão, responsável pela nova Filarmônica de Paris e o Disney Hall. Custou R$12 milhões, sendo oito do BNDES e quatro do Estado. Melhor que enterrar bilhões em concreto armado. O conjunto compreende um auditório de 140 lugares e cinco salas de ensaios. A boa execução do projeto se deve ao monitoramento do arquiteto baiano Sergio Ekerman. Ainda não foi possível realizar o paisagismo do parque, que deverá diminuir sua área pavimentada em favor de sombras verdes.
Como arquiteto sinto falta de cor e integração com outras artes, com esculturas e o Acervo Arte/Natureza. A nova sede do Nejibá será uma usina musical, com sua chaminé nos despertando todas as manhãs, para cantarmos com Noel: “Quando o apito da fábrica de tecidos/ vem ferir os meus ouvidos/ eu me lembro de você”.
*Professor Catedrático da UFBA
SSA: A Tarde de 28/07/19

quarta-feira, 10 de julho de 2019

A cidade porto


Osvaldo Campos Magalhães*
Quando os portugueses localizaram no dia primeiro de novembro de 1501 a enorme ‘Kirimurê’, ou grande mar, na língua tupinambá, com águas profundas e abrigadas e 233 quilômetros de litoral, logo escolheram o local como porto natural e local adequado para a construção da primeira grande metrópole lusitana no novo continente.
O porto cresceu e antes do surgimento dos navios a vapor e da construção do Canal de Suez chegou a ser o mais movimentado do Hemisfério Sul. A cidade do Salvador, acompanhando o crescimento do seu porto, também cresceu e se desenvolveu como grande centro logístico, comercial e político, tornando-se a primeira capital do Brasil.
O porto natural se constituiu em porto organizado e, através de concessão pública datada do final do século XIX, foi ampliado com o aterro de extensa área que ampliou o bairro do Comércio e possibilitou a construção de armazéns e retro áreas para armazenagem de cargas.
A modernização das embarcações, a transferência da capital para o Rio de Janeiro e as construções dos canais do Suez e Panamá contribuíram para a perda de importância econômica e comercial do porto e da cidade, que passa a crescer em direção ao litoral norte e, literalmente, dá as costas para seu porto.
Apesar de representar uma das principais atividades econômicas e geradoras de emprego numa cidade sem atividades industriais relevantes, o porto nunca recebeu a importância que merece por parte das administrações municipais e estaduais que se sucederam nos últimos 50 anos, chegando-se ao absurdo de se propor a desativação do porto para a movimentação de cargas, proposta seguidamente apresentada por Secretários da Prefeitura de Salvador. Ainda em 18 de junho, as obras de ampliação do Terminal de Conteineres do porto de Salvador foram novamente embargadas pela Prefeitura de Salvador.
A desativação do Porto de Salvador, não leva em conta a enorme importância econômica do porto para a cidade e todo o estado da Bahia e que é perfeitamente conciliável a manutenção da atividade operacional no porto, com ênfase nas operações de contêineres, equipamentos, trigo e navios de cruzeiros marítimos. Desconhece que o porto de Salvador possui os melhores acessos terrestre e marítimo entre todos os portos brasileiros e também a existência de um contrato de concessão recentemente prorrogado, entre o porto e a empresa Tecon, responsável pela operação de contêineres, que tem longo prazo de vigência, com vultosos investimentos em execução e enorme relevância econômica.
Quem conhece algumas cidades portuárias e turísticas como Barcelona, Buenos Aires e Hamburgo sabe que a atividade portuária é vital para a economia dessas cidades e que é perfeitamente conciliável com a atividade turística em áreas do porto, que foram revitalizadas e expandidas. 
Lembremos que a atual legislação portuária brasileira permite ao município assumir a gestão do porto, como se verifica nos principais portos europeus e que já ocorre com sucesso no Brasil, mais especificamente em Itajaí, Santa Catarina.
Um dos principais entraves ao crescimento do Porto de Salvador está justamente no desconhecimento por parte do governo da Bahia e da prefeitura de Salvador do enorme potencial econômico representado pela atividade portuária. 
Enquanto a administração dos  portos públicos baianos está ainda vinculada à administração federal e subordinada ao loteamento político dos cargos de direção da Codeba, os estados de Pernambuco e Ceará colocaram a atividade portuária como estratégica para o desenvolvimento, constituíram enxutas e eficientes empresas estatais que construíram os complexos portuários de Suape e Pecém, fatores de atração de novos empreendimentos industriais para aqueles estados e importantes vetores do crescimento da economia nordestina.
Em vez  de propor a desativação do porto, a prefeitura de Salvador deveria reivindicar e assumir a concessão do mesmo, colocando a atividade portuária como estratégica para o desenvolvimento econômico da cidade.
* Osvaldo Campos Magalhães  é engenheiro e Mestre em Administração. Membro do Conselho de Infraestrutura da Fieb e do Conselho de Administração da Codeba, escreveu a Tese "Portos & Competitividade", NPGA/Ufba, 1994.

 ** Artigo também publicado no jornal Correio da Bahia


Museu da Cultura Brasileira*

Osvaldo Campos Magalhães*
O Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, com projeto formulado pelo antropólogo baiano Antônio Risério, introduziu um novo conceito museográfico, que aliou tecnologia e educação, com uma narrativa audiovisual e ambientes imersivos. Apesar de atualmente fechado, em decorrência de um incêndio ocorrido em 2015, deverá ser reaberto em 2020, totalmente restaurado e atualizado. Vencedor de vários prêmios internacionais, o museu, durante dez anos de funcionamento recebeu mais de quatro milhões de visitantes. O conceito introduzido pelo Museu da Língua Portuguesa é hoje referência internacional e deve balizar novos projetos ainda em fase de planejamento e conceptualização. Em Lisboa, há mais de duas décadas, se discute a implantação de um museu dedicado à saga dos descobrimentos portugueses. Recentemente, numerosas controvérsias foram lançadas dizendo respeito principalmente ao nome e ao enfoque temático do museu. Se no passado a palavra “descobrimento" era aceita pacificamente, hoje em dia já não encontra respaldo entre estudiosos e especialistas no tema. Nos últimos anos numerosos museus em diferentes lugares do mundo, têm sido espaços que divulgam novas formas de compreender a história, seja através de instalações permanentes, seja através de exposições temporárias. Os exemplos são variados e podemos destacar o National Museum of American History and Culture, em Washington, o International Slavery Museum em Liverpool e o museu Bartolomeu Dias na África do Sul. Também em Salvador, primeira cidade e capital do Brasil, já se discute a oportunidade e viabilidade de se implantar um “Museu do Descobrimento”. Se a Saga Portuguesa teve origem em Lisboa, foi no litoral baiano que esta se configurou com maior impacto histórico. Salvador hoje detém o maior conjunto arquitetônico da época colonial e abriga, melhor que qualquer outra cidade do Brasil, um magnífico acervo cultural representativo das principais culturas que vieram a constituir nossa Nação. Assim como ocorre em Lisboa, o termo Museu do Descobrimento se mostra inadequado e superado. Melhor seria a implantação de um museu voltado para a compreensão da formação da cultura brasileira, com o encontro dos exploradores portugueses com os ameríndios e posteriormente com populações de africanos trazidos para o Brasil, sendo então concebido dentro dessa visão de integração de culturas. Poderia se pensar para Salvador num Museu da Formação da Cultura Brasileira, inspirado no Museu da Língua Portuguesa, explorando inicialmente, as vertentes das culturas ameríndia, portuguesa e africana. O grande desenvolvimento da tecnologia de navegação portuguesa, com ênfase nas grandes embarcações e instrumentos que possibilitaram a navegação transoceânica, as novas rotas de navegação e o comércio de especiarias. A cultura dos ameríndios que habitavam o Brasil na época da chegada dos conquistadores portugueses, com ênfase nos povos que habitavam na região que hoje constitui o estado da Bahia, principalmente as regiões de Porto Seguro e Salvador. A cultura dos povos indígenas atuais do Brasil, com destaque para a utilização de meios audiovisuais e interativos. A riqueza cultural dos povos africanos, sua culinária, adereços, dança, música e tradições religiosas. O Candomblé, a Capoeira, e o Samba. Instrumentos musicais como o berimbau, cuíca, afoxé, atabaque, tambores e caxixi. Exposições temporárias poderiam expor o vasto acervo dos povos ameríndios existentes em outros museus de países latino americanos, com destaque para mostras do Peru, México e Bolívia. O mesmo poderia ser feito em relação a museus africanos e de países onde a Saga dos Descobrimentos portugueses também ocorreu, com destaque para o Museu Bartolomeu Dias na África do Sul, o Museu de Jakarta na Indonésia e o Museu da América em Madrid. 
A implantação do Museu seria importante fator para uma melhor compreensão da formação da cultura brasileira e para o desenvolvimento do turismo em Salvador. 
*Engenheiro Civil e Mestre em Administração. Membro do Conselho de Infraestrutura da FIEB;
** Artigo também publicado no jornal Correio da Bahia

terça-feira, 18 de junho de 2019

Cidades Criativas - O Case de Salvador

 Roberta Orrico
Com a crescente influencia de novas tecnologias e do mundo digital, conectadas à multipolarização internacional, as assimetrias entre as economias globais foram tomando maiores proporções. Como consequência, a ideia clássica de trabalho se tornou obsoleta e o desemprego, uma realidade. A desigualdade social ainda é crescente em face às diversas crises econômicas internacionais e a necessidade de se reinventar é necessária.

A era digital vem alterando significativamente não somente as relações pessoais, mas também a forma como produzimos e trocamos bens, serviços e até mesmo cultura. O surgimento e o fortalecimento, a partir do Século XX, de uma indústria global de consumo cultural, tecnológico, inovador e criativo é o contexto propício para a discussão de um novo e importante ramo da economia e as indústrias que dela derivam, as criativas.

Existe, portanto, um entendimento da “economia criativa” como uma porção significativa e exponencial da economia global. Governos, sociedade civil organizada dos setores criativos ou não, a população em geral, todos estão tomando consciência da importância do seu papel como fonte de empregos, de riqueza e de compromisso com a promoção e difusão cultural.

A criatividade utilizada como ativo econômico tanto é capaz de movimentar a economia, reduzir desigualdades e fortalecer a produtividade da sociedade quanto como pode construir barreiras que dividem o mundo entre aqueles que possuem acesso ao mundo digital e dinâmico e aqueles que continuam no modelo pré-industrial de força de trabalho pautada no labor.

Em todo o globo, países estão se movimentando para desenvolver e proteger sua produção criativa, estimulando seu crescimento através de políticas públicas e de cooperação a partir da inserção em redes internacionais com foco em indústrias criativas e promovendo a exportação de seus ativos criativos.

Informações publicadas nos sites da Organização Mundial do Comércio (OMC) e da Organização das Nações Unidas (ONU) informam que o faturamento das indústrias criativas no mercado internacional duplicou no início dos anos 2000 sendo responsável por 7% das riquezas produzidas no mundo.

Neste contexto, a fim de demonstrar a potencialidade das indústrias criativas, podemos analisar o caso de Salvador, que ao utilizar a música como instrumento de internacionalização e vetor do desenvolvimento local, evidenciou sua a música como ativo econômico local. Para tanto, a cidade construiu um plano de ação para identificar resultados obtidos pelas iniciativas desenvolvidas a partir de sua entrada na Rede de Cidades Criativas da UNESCO, em 2015, no âmbito da Música.

O intuito das ações planejadas, âmbito da indústria criativa da música, é servir de propulsor para muitas outras ações, dentro ou não da Rede, para atingir os objetivos propostos na candidatura do título de Cidade Criativa, com foco principal em projetos e iniciativas que promoveram a troca de experiências e de recursos com outras cidades.

A música tem o poder de gerar crescimento econômico, incrementar a arrecadação de impostos, criar empregos, fomentar turismo, atrair grandes talentos e contribuir para o desenvolvimento sustentável cultural e social da cidade. Em termos econômicos, demonstrados por dados da UNESCO em 2015, as indústrias criativas capitalizaram US$2,250 trilhões e geraram aproximadamente 30 milhões de empregos, ambos em escala global. Fazendo um recorte para a indústria criativa da música, a UNESCO destaca que, no total global supracitado, a música contribuiu com a receita de US$65 bilhões e, aproximadamente, 4 milhões de empregos.

Desta forma, é de extrema importância e valia que cidades estimem, mapeiem e criem estratégias para identificar seu ecossistema criativo, seja no âmbito da música ou não, maximizando o valor de sua criatividade.
*Associada Executiva no CEERI - Centro de Estudos e Estratégias em Relações Internacionais

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Salvador é a cidade eleita para sediar Encontro das Cidades Criativas da Unesco

A capital baiana ganhou a disputa e vai sediar a terceira edição do Ecriativa, o Encontro das Cidades Criativas da Unesco. A vitória foi anunciada durante o evento que, este ano, aconteceu em Florianópolis e reuniu os representantes das oito cidades brasileiras com o selo de cidades criativas, concedido pela organização. O evento tem o objetivo de promover a conexão entre as cidades que têm a criatividade como estratégia para o desenvolvimento.
“Salvador é uma cidade reconhecida internacionalmente pelo seu potencial criativo e temos trabalhado muito para fomentar o desenvolvimento de novos projetos e a estruturação da economia criativa na cidade. Essa conquista revela todo o trabalho que vem sendo desenvolvido pela Prefeitura, através do eixo Cidade Criativa, do programa Salvador 360”, celebra o secretário municipal de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur), Sérgio Guanabara.
Durante o encontro, as oito cidades participantes, Salvador (música), Florianópolis, Belém e Paraty (gastronômico), Brasília e Curitiba (design), João Pessoa (artesanato) e Santos (Cinema), tiveram a oportunidade de discutir estratégias e políticas públicas para o setor. Além disso, puderam trocar experiências e apresentar instrumentos de fomentação da economia criativa.
O diretor de Parceria Público-Privada da Sedur, Gustavo Menezes, apresentou o projeto que visa tornar a capital baiana o polo de criatividade brasileira. “A criatividade do soteropolitano é pulsante e precisa de um espaço que possa estruturar e fomentar isso. Pensando nisso, Salvador vai ganhar um novo Hub, mas dessa vez com foco na economia criativa que vai contemplar ações voltadas para música, fotografia, design, gastronomia”, explica. “A estrutura, que vai funcionar no Comércio será entregue em 2020”, completa Menezes.
Atualmente, 180 cidades de 72 países fazem parte da Rede Mundial de Cidades Criativas da UNESCO. Durante o evento, os representantes das oito cidades criaram a Rede Brasileira e Salvador foi eleita também a coordenadora geral do grupo. “Essa conquista permite que Salvador assuma um protagonismo na economia criativa e desenvolva um papel importante de intermediação dos interesses das cidades e os principais agentes seja na esfera municipal, estadual ou internacional”, ressalta Guanabara”.
REDE DE CIDADES CRIATIVAS
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) criou em 2004 sua Rede de Cidades Criativas para promover a cooperação com e entre as cidades que identificaram a criatividade como um fator estratégico para o desenvolvimento urbano sustentável. A rede também está comprometida com o desenvolvimento da Agenda para o Desenvolvimento Sustentável 2030 e seus objetivos são:
  • Fortalecer a criação, produção, distribuição e divulgação de atividades, bens e serviços culturais;
  • Estimular e reforçar as iniciativas lideradas pelas cidades-membros para tornar a criatividade um componente essencial do desenvolvimento urbano por meio de parcerias entre os setores público e privado e a sociedade civil;
  • Desenvolver polos de criatividade e inovação e ampliar as oportunidades para criadores e profissionais do setor cultural;
  • Melhorar o acesso e a participação na vida cultural, bem como o aproveitamento dos bens e serviços culturais, nomeadamente para os grupos e indivíduos marginalizados ou vulneráveis;
  • Integrar plenamente a cultura e a criatividade no desenvolvimento de planos e estratégias locais.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Othon Bastos homenageado em Salvador

O ator baiano Othon Bastos recebeu hoje à noite o título de Cidadão de Salvador, no Plenário Cosme de Farias, na Câmara Municipal de Salvador (CMS).
O título foi proposto pelo vereador Marcos Mendes (Psol), que preside a sessão solene de outorga.
Othon Bastos nasceu em Tucano, no interior do estado, integrou a primeira turma de alunos da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (Ufba) 
O ator comemora 86 anos de uma vida quase inteiramente dedicada às artes. São mais de seis décadas interpretando personagens marcantes no teatro, no cinema e na televisão. Uma média de 70 filmes – entre curtas e longas- metragens –, 90 papéis em novelas e seriados, e 20 espetáculos teatrais. 
Othon José de Almeida Bastos nasceu dia 23 de maio de 1933 em Tucano, município no Nordeste da Bahia. Na infância, pensou em ser piloto da Aeronáutica ou dentista; a vocação para as artes só veio bem mais tarde, quase que por acaso. Aos 17 anos, montou um espetáculo de brincadeira no colégio. Nele, Othon servia de "ponto" aos colegas. A peça era uma paródia de “Otelo”, escrita por Ronald Chevalier. Antes de entrar em cena, o ator que interpretaria Iago – ninguém menos que o futuro produtor de TV Walter Clark – desistiu de entrar em cena.
– Roniquito então me pediu para substituí-lo, pois era o único que sabia todas as falas. Eu disse: “Mas não sou ator!”, e ele nem ligou. Acabei fazendo o papel. Na plateia, tinha um rapaz cujo irmão estudava na escola do autor Paschoal Carlos Magno. Ele gostou do meu trabalho e me apresentou ao Paschoal. Entrei na escola como ouvinte e nunca mais deixei de fazer teatro – lembra Othon.
O jovem ator então fixou residência no Rio de Janeiro, onde integrou o grupo Teatro Duse. Seu primeiro espetáculo foi “Terra Queimada” (1951), de Aristóteles Soares. Alguns anos mais tarde, foi estudar teatro em Londres. Quando voltou ao Brasil, em 1956, foi dirigir a recém-fundada Escola de Teatro da Universidade da Bahia. Lá, faz “As Três Irmãs” (1958), de Anton Tchekov; "Um Bonde Chamado Desejo" (1959), de Tennessee Williams; e "Auto da Compadecida" (1959), de Ariano Suassuna.
Em 1960, Othon sai da Escola para fundar – associado ao crítico teatral João Augusto de Azevedo – a Companhia Teatro dos Novos. Integrada por sete artistas, inicialmente se chamaria de Teatro dos Sete, mas o nome foi dado antes ao grupo do diretor Gianni Ratto, formado por nomes como Fernanda Montenegro, Sérgio Britto, Ítalo Rossi e Fernando Torres. A partir daí, o novo grupo baiano empenhou-se durante um longo tempo na construção do Teatro Vila Velha. Nessa época, Bastos conheceu a atriz Martha Overbeck, com quem se casaria.
– Éramos todos novos. Novos de idade, de ideologia de pensamento. Daí o nome do grupo. O Teatro Vila Velha levou quase quatro anos para ser construído. Fazíamos bingos, leilões de quadros de artistas plásticos baianos. O governador da época, Juracy Magalhães, apesar de ser de direita, ajudou muito na construção, oferecendo a estrutura metálica e o telhado. Também tínhamos um prefeito de esquerda, Virgildásio de Senna, que forneceu as cadeiras de um cinema velho que seria demolido. Com o nosso dinheiro, compramos aos poucos luz e cenário. Até que conseguimos construir um teatro de 700 lugares. Naquela época, ninguém ganhava nada. Era mais a dedicação à arte mesmo – destaca o ator, que precisou trabalhar durante três anos no Departamento de Turismo da Prefeitura para se sustentar.
Durante esse processo, o inquieto ator decidiu se aventurar na carreira cinematográfica. Em 1960, atuou como um caminhoneiro em “Sol sobre a Lama”, filme do cineasta e teórico de cinema Alex Viany. No mesmo ano, viveu um jornalista em “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte. A consagração, porém, vem com o cangaceiro Corisco, em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. O clássico de Glauber Rocha se transformou no símbolo do Cinema Novo e foi um divisor de águas na carreira de Othon Bastos.
– A migração para o cinema foi uma coisa automática. A grande escola é o teatro, que te dá base para fazer cinema, televisão, circo. Não tenho a menor dúvida que o teatro é minha plataforma preferida. Para mim, a vida é teatro. É ele que te permite fazer tudo. O ator precisa ter todas essas experiências de interpretação, não pode se limitar somente a uma coisa – acredita Othon, que diz aceitar apenas os trabalhos que realmente lhe interessam. – Não faço questão de aumentar meu currículo com números. Faço apenas o que gosto de fazer. Por exemplo, depois de “Deus e o Diabo”, passei mais de três anos sem fazer cinema. Por causa do Corisco, só me chamavam para fazer cangaceiros, assassinos, bandidos, estupradores (risos)... Já tinha feito um e era suficiente para toda a minha vida!
Depois que o Teatro Vila Velha ficou pronto, Othon Bastos trabalhou nele durante dois anos. Em 1967, decidiu voltar para o Sudeste, dessa vez para São Paulo, a convite do Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa. Encena os espetáculos “Galileu Galilei” (1968) e “Na Selva das Cidades”, ambos de Bertold Brecht. No cinema, faz o papel de Bentinho, em “Capitu” (1968); é o Professor, em “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969); é o Homem, em “Os Deuses e os Mortos” (1970); e Paulo Honório, em “São Bernardo” (1972) – considerado pelo ator o longa metragem mais importante de sua vida.
Ao lado de sua mulher, Martha, funda a Othon Bastos Produções Artísticas em 1972. Ao longo da década de 70, o grupo se empenha na defesa da liberdade de expressão, criando um repertório de resistência. A estreia acontece com “Castro Alves Pede Passagem”, com direção de Gianfrancesco Guarnieri. Depois, Othon encena “Um Grito Parado no Ar” (1973), com a qual é premiado como melhor ator pelo Molière e Associação Brasileira de Críticos Teatrais (ABCT). Em seguida, mais um texto de Guarnieri: “Ponto de Partida” (1976). Além do dramaturgo ítalo-brasileiro, outros grandes nomes se juntam ao grupo, como Renato Borghi, Augusto Boal e Paulo José.
Sua trajetória na televisão também é bastante rica, tendo início na década de 50, quando participou do Grande Teatro Tupi (1956). Depois de diversos papéis na primeira emissora brasileira, entrou na Rede Globo em 1979, quando fez um especial “Vestido de Noiva”, inspirado na obra de Nelson Rodrigues. É bastante lembrado pelo papel de Ronaldo César, de “Roque Santeiro” (1985). Desde 2000, fez quase uma novela ou seriado por ano, sendo a última “Amor Eterno Amor”, em 2012.
– Cada filme ou peça que você faz, há uma entrega grande para os personagens. Todos eles deixam saudade. É uma coleção de lembranças. Vou relembrando como se fosse um álbum. Mas não posso viver dos trabalhos que já fiz. O passado é passado, já ficou. Vivo do que faço hoje e aiOthon Bastos participou de dois longas nacionais que concorreram ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: “O que é Isso, Companheiro” (1997), de Bruno Barreto; e “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles, no qual vivia outro caminhoneiro e contracenou com Fernanda Montenegro. Com uma trajetória tão rica, marcada por tantos tipos diferentes, não há um personagem específico que o ator ainda queira interpretar.
– Todo mundo da minha época já teve vontade de fazer “Hamlet”. Mas sempre pensei muito nos autores e personagens brasileiros. Nunca precisei de personagens fantásticos de outras civilizações. Eu me interesso em fazer tipos brasileiros, representar minha vida e o lugar onde moro. Ao mesmo tempo, este ano fui chamado para fazer duas peças que são muito interessantes. Uma é “Disque M para Matar”, que já virou até filme pelas mãos de Hitchcock, com uma tradução belíssima do Domingos de Oliveira. Outra tem um título fantástico, “O Defunto Comunista”, que traz uma reflexão incrível para os dias de hoje. Na verdade, para me conquistar, o texto tem que ser rico, chamar minha atenção.
Aos 86 anos, o ator não pensa em parar. Integrando o elenco da série "Os Carcereiros", na Rede Globo, já no segundo ano, Othon tem planos para o futuro, um novo filme quem sabe,
– É preciso sempre caminhar em frente. Nestes 86 anos, conheci pessoas maravilhosas, fiz amigos e tive ótimos colegas de profissão. Também cruzei com pessoas insuportáveis. Mas é como dizem: “As amargas, não”. Para que pensar nas coisas ruins? O importante é seguir e esquecer o que te afeta. Quem olha para trás é estátua de sal (risos). O que pensam de você, não é você. Às vezes, nem mesmo o que você pensa é. Você é o agora. Amanhã já será completamente diferente. E o ontem... bem, este já passou.



quinta-feira, 6 de junho de 2019

A verdade sobre o Museu da Língua Portuguesa

Antônio Risério*
Depois que virou grande sucesso, o Museu da Língua Portuguesa passou a ter vários "pais" - entre eles, até mesmo um assistente técnico do arquiteto Ralph Appelbaum. Aqui e ali, me perguntam sobre minha participação no projeto. Deixo aqui registradas, por isso mesmo, respostas que dei ao editor Sergio Cohn (da Azougue), num depoimento.
Sergio Cohn: O Museu da Língua Portuguesa hoje é um dos mais visitados do Brasil. Você participou da sua elaboração. Como foi o processo? 
Antonio Risério: Veja o que o Jotabê Medeiros escreveu, depois de sua primeira visita ao Museu da Língua Portuguesa: "Curioso notar que a placa de inauguração do museu glorifica o ex-governador Geraldo Alckmin; o então prefeito de São Paulo, José Serra (que, todos sabem, não foi prefeito coisa nenhuma e não ajudou num só rebite daquele prédio); a Fundação Roberto Marinho (que de fato tocou o projeto). E só. O Ministério da Cultura, que financiou maciçamente a obra por meio da Lei Rouanet (cerca de R$ 37 milhões), não é sequer mencionado... Muito menos se deram ao trabalho de agradecer ao autor do projeto original desse museu que é elogiado nos quatro cantos do mundo: o poeta baiano Antonio Risério, varrido tanto da memória do Ministério da Cultura (onde foi destacado colaborador) quanto da dos esclarecidos ¿donos¿ do museu, o tucanato paulista". Mas não estou aqui para me queixar de nada, que queixas não são do meu temperamento. Vamos à história. A ideia de fazer um museu de nossa língua - um museu original, tomando a palavra como objeto - é do antropólogo Roberto Pinho e foi sugerida, ainda que sem qualquer aprofundamento ou desenvolvimento, para Porto Seguro, como parte da comemoração dos 500 anos do Brasil. Ela aparece publicada em 1994, no livro "Museu Aberto do Descobrimento: o Brasil Renasce Onde Nasce", nos seguintes termos: "Museu da Língua Portuguesa - Um grande museu de recursos audiovisuais, didático, alegre, repleto de situações envolventes, que levará o leigo ao conhecimento da história da nossa língua. Como e onde nasceu, como evoluiu, os caminhos que percorreu, as influências que sofreu e as que provocou, as contribuições que recebeu das línguas indígenas e africanas". Pinho passou a bola para a Fundação Roberto Marinho (FRM). Com o velho prédio da Estação da Luz na mão, a FRM comprou a ideia, graças ao Hugo Barreto, seu vice-presidente. Quando Lula foi eleito, eu, João Santana e Roberto Pinho manobramos para fazer o ministro da Cultura. Convencemos o Gilberto Gil a assumir o cargo, inclusive. E então eu e Roberto assumimos nossos postos no Ministério, escolhidos de modo a não nos deixar envolvidos com o inferno da burocracia. Roberto, como secretário de projetos especiais; eu, de assessor especial. Marcamos então uma reunião com a FRM e comunicamos que, como o Ministério era o grande financiador da obra, assumiríamos a frente do museu. Eu ficaria, como de fato fiquei, responsável pela formulação do projeto.
Sergio Cohn: Mas como as coisas se desenrolaram?
Antonio Risério: Não fui apenas "um dos diversos pesquisadores cujos trabalhos serviram de base para a concepção do museu", como cheguei a ler na imprensa. A concepção do museu é minha. Como bem sabem, aliás, Roberto Pinho, Hugo Barreto, Jarbas Mantovanini, Isa Grinspum Ferraz, o arquiteto Ralph Appelbaum e seus colaboradores. Quando assumi o trabalho, a Fundação Roberto Marinho ainda não tinha uma direção a seguir. Vinha há algum tempo promovendo encontros com intelectuais em São Paulo para discutir o assunto e gravando estas sessões, na tentativa de encontrar um caminho. Peguei e li todo o material dessas gravações. Vi que eram encontros muito interessantes, mas não levariam a lugar algum. Não desembocariam num projeto. As pessoas ficavam teorizando sobre linguagem, filosofando com inteligência e mesmo erudição, mas nunca chegavam a pensar objetivamente na configuração efetiva de um equipamento público específico: o museu da língua portuguesa. Então, o trabalho de recuperação do prédio da Estação da Luz, feito por Paulo e Pedro Mendes da Rocha, ia às mil maravilhas, mas não se tinha ideia do que seria colocado lá dentro. Me concentrei, portanto, na resolução dessa questão. Como ponto de partida, o museu não deveria ser intelectualista, nem populista - e tinha de fascinar. A história linguística e cultural de cada hábito e de cada palavra é capaz de prender a atenção das pessoas mais variadas. Contaríamos, ainda, com as línguas indígenas e africanas, com as línguas das "migrações secundárias", como o japonês, o italiano, etc. Mas não se tratava de criar um centro dessas línguas e sim um espaço, criativo e luminoso, do português do Brasil, o mais importante país da chamada "comunidade lusófona". A língua portuguesa nasceu nos largos e generosos campos do discurso vulgar, da fala plebeia, da prática oral da língua, e não do texto escrito, douto. E começou a se transfigurar na língua mestiça brasileira a partir do seu encontro com outros sistemas lingüísticos altamente complexos e estruturados, de origem ameríndia ou africana. O museu não poderia perder isso de vista. Além disso, deveria acionar as mais avançadas tecnologias da inteligência e buscar o máximo de processos interativos. Tinha de ser uma vitrine, um "show room" da palavra, onde mesmo etimologias fossem trabalhadas plasticamente. Etc. Expus essas coisas a Roberto Pinho e ao pessoal da Fundação Roberto Marinho. Eles se animaram. Começaram as reuniões com o Ralph Appelbaum, o arquiteto que projetou, entre outras coisas, o planetário de Nova York. Um sujeito que gosta de saber das coisas com toda a clareza e que faz mil perguntas. Nessa época, eu morava em Brasília, no hotel Melià. Ao fim de uma reunião lá no hotel, o Ralph me perguntou: "O senhor quer uma Real Academia da Língua Portuguesa?". Respondi: "Não, isso já existe. O que eu quero é um parque de diversões da linguagem". Falei do planetário novaiorquino. Ele sorriu e disse: "Sei, você quer um ¿linguatarium¿ do português brasileiro". Fiquei, então, de aprofundar e desenvolver as ideias. E escrevi um texto relativamente longo, de umas 40 páginas, intitulado "Estação da Luz da Nossa Língua". Foi a partir desse texto que Appelbaum e seus colaboradores começaram a viajar. Chegamos então ao nome da socióloga e cineasta Isa Grinspum Ferraz para coordenar o trabalho. E definimos nomes de especialistas para colaborar no projeto. A essa altura, indignado com uma conduta absurda de Gilberto Gil, rompi com o ministro e me afastei do Ministério. Mas não abandonei o projeto. Apenas, passei para a clandestinidade. A Fundação Roberto Marinho temia que, se eu continuasse abertamente, viessem retaliações por parte do Ministério. E elas vinham vindo. Então, passei a atuar sob a capa de uma empresa paulista da Isa Ferraz, a "Texto e Imagem". E prossegui. Escrevi textos para a montagem da "grande galeria", sugeri que a mesa tecnológica fosse usada para jogos etimológicos, criei o argumento para o audiovisual do auditório, etc. Pintou até a parceria com Arnaldo Antunes, que soa na entrada do museu. E é uma coisa bem simples, palavras de diversos idiomas que entraram no português do Brasil ou de línguas existentes no país, como o ianomâmi. Em resumo, esta é a história.
* Antônio Risério, nascido em Salvador, é antropólogo, ensaista e historiador

sábado, 25 de maio de 2019

Meu pai, minha herança

Almir Santos*
Que saudade do tempo que era levado por suas mãos. Das tardes no Campo Grande, das manhãs na praia da Paciência. Que sensação quando o bonde chegava à Vila Matos e sentia o cheiro de praia. Era sinal que o azul do mar estava perto.
De trocar a roupa na casa de Manuel de Lucila. Não se andava nos bondes em trajes de banho.
Tomar leite de vaca de madrugada na cocheira de Joventino no bairro do Binóculo, comprar manga na roça de René na Rua Garibaldi ou manga, laranja, uva e caju na roça de Simões na Federação.
Do veraneio em Amaralina. De olhar o gado beber água na lagoa.
Das manhãs de domingo, das visitas à minha avó Isaura ou meu tio Edmundo. De subir a ladeira de dona Celina.
De andar pelas ruas do bairro da Sé e depois tomar uma gasosa na Pastelaria Centro Popular.
Das cocadas branca e preta, compradas de uma baiana que ficava à porta da Farmácia Minerva.
De vê-lo retornar do trabalho à tardinha e descer do bonde  ainda em movimento.
Dos  primeiros filmes: O Mágico de OZ, Branca de Neve e os Sete Anões e Idílio nas Selvas.
De sua voz forte gritando “Almir e Ayrton” à frente do colégio da Prof.ª Iazinha.
Do meu primeiro jogo de futebol: 15 de agosto de 1943, Botafogo 2x Galícia 1 no campo da Graça.
Bahia “doente”. Sempre achava que o seu time não merecia ter perdido, o juiz não marcou dois pênaltis a seu favor ou validou um gol em impedimento do adversário.
Não tinha essa de torcer para time de fora. Vitória, Botafogo, Galícia, Ypiranga, Guarani jogando contra time de fora, tinha de torcer pelos times baianos. “Tem de torcer pela Bahia.” O mesmo para times brasileiros jogando contra times estrangeiros. “Tem de torcer para o Brasil.”
O bairrismo sempre foi uma  de suas inúmeras qualidades. Isso não era válido somente para o futebol. E nós aprendemos.
Do nosso primeiro dia do Colégio Antônio Vieira: 3 de novembro de 1946.
Dos bailes de carnaval do clube Cruz Vermelha. Da Queima de Judas e das festas de S.João. Dos foguetes e balões. Da história do balão de 16 metros , feito por ele, que foi notícia de jornal. De sua alegria e suas brincadeiras. Do seu vigoroso aperto de mão.
Adorava fazer surpresas.
Das arraias sem linha temperada.
Das latas de goiabadas ganhas no jogo de dominó e das caixas de fósforo ganhas no jogo de agache.
De sua letra. A caligrafia mais bonita do mundo!
Do dia 3 de julho de 1951, quando me apresentou ao Dr. Mário Gomes, meu primeiro diretor.
De 1954. Dia que nos acordou com os olhos brilhantes de alegria com um jornal na mão: “vocês dois passaram no vestibular !!! ”
Da sua capacidade de ser querido pelas pessoas.
Do seu espírito comunitário. Do seu bom relacionamento com as autoridades que lhe permitia, sem ser político, conseguir melhorias e serviços para o nosso bairro.
Lembro-me do dia que, conseguida por ele, a água encanada chegou à rua onde morávamos.
Do seu caráter, da sua honestidade.
Do orgulho e zelo pela sua profissão. Do ouro que por suas mãos ficava mais brilhante. Das joias que sabia fazer e das pedras preciosas, para ele as mais belas que lapidou ao lado de sua Núbia, que foram os seus filhos. De ouvir chamá-la carinhosamente de minha filha. De vê-lo andar grudado com ela na base do “só vou se você for.”
Carinhoso e delicado com todos, mas austero quando necessário.
Das festas das suas Bodas de Prata e das suas Bodas Ouro. Dos seus oitenta anos. Dos seus noventa anos. Dos seus noventa e três anos.
* Almir Santos é engenheiro civil e escritor. Filho de Álvaro Desidério dos Santos

quinta-feira, 23 de maio de 2019

A obra de Jorge Amado que retrata Salvador

Conhecer Salvador através dos olhos de Jorge Amado. O autor de clássicos da literatura brasileira como Gabriela, Cravo e Canela, Jubiabá e Capitães da Areia viveu em Salvador por muitos anos e a cultura da cidade foi fonte inspiradora de varias de suas obras. Um dos responsáveis por projetar costumes, belezas e mistérios do povo baiano, o escritor, que nasceu em Itabuna, sul do estado, reúne no livro Bahia de Todos os Santos o convite ideal para se apaixonar pela cidade da Bahia, como chamava Salvador.
Autor
Jorge Amado nasceu em 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, distrito de Ferradas, em Itabuna, sul da Bahia. O pai, fazendeiro de cacau, João Amado de Faria, e a mãe, Eulália Leal Amado, levaram o escritor com um ano de idade para viver na cidade de Ilhéus, também no sul do estado, onde passou a infância e depois mudou para Salvador.
Se dedica à escrita ainda jovem, quando começa a trabalhar em jornais e participa da vida literária. Em 1931 lança o primeiro romance, O País do Carnaval, aos 18 anos, e no mesmo ano entra para a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, onde passa a morar. Jorge Amado nunca exerceu a profissão de advogado.
Com atuação política marcante, traduzida em obras como Seara Vermelha (1946), Jorge Amado foi eleito deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), como representante de São Paulo, em 1945. O escritor foi casado duas vezes, a primeira com Matilde Garcia Rosa, em 1933, com quem viveu durante 11 anos e teve uma filha, Eulália Dalila Amado, que morreu em 1949. Viveu exilado na Argentina e Uruguai, entre 1941 e 1942, e separa de Matilde ao retornar, em 1944.
Em frente à Fundação Casa de Jorge Amado, no Largo do Pelourinho, em Salvador, os eternos companheiros Jorge Amado e Zélia Gattai (Foto: Acervo Zélia Gattai/Fundação Jorge Amado)Em frente à Fundação Casa de Jorge Amado,
os eternos companheiros Jorge Amado e Zélia
Gattai (Foto: Acervo Zélia Gattai/
Fundação Jorge Amado)
Após a separação, já em 1945, Jorge Amado casa com Zélia Gattai, companheira até os últimos dias de vida e com quem teve João Jorge e Paloma.
A partir de 1955 se afasta da política e passa a se dedicar exclusivamente à literatura. Assume a cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras em 1961. Ateu, graças a Deus, Jorge Amado era obá do Ilê Axé Opó Afonjá, terreiro de candomblé que fica no bairro do Cabula, em Salvador.
Jorge Amado morreu em Salvador, dia 6 de agosto de 2011, aos 89 anos. A casa de número 33, na Rua Alagoinhas, do tradicional bairro do Rio Vermelho,  em Salvador, foi transformada em museu e abriga as cinzas e memórias do escritor que apresentou a Bahia ao mundo, em especial Salvador, no livro Bahia de Todos os Santos, com todas as qualidades e defeitos. Com mais de quarenta títulos, a obra de Jorge Amado já foi traduzida para 49 idiomas e teve adaptações para a televisão, cinema e teatro.
Capa da 1ª edição do livro Bahia de Todos os Santos, de 1945 (Foto: Acervo Zélia Gattai/Fundação Jorge Amado)Capa da 1ª edição do livro Bahia de Todos os
Santos, de 1945 (Foto: Acervo Zélia Gattai/
Fundação Jorge Amado)
Bahia de Todos os Santos
“A Bahia te espera para sua festa mais quotidiana. Teus olhos se encharcarão de pitoresco, mas se entristecerão também ante a miséria que sobra nestas ruas coloniais onde começam a subir, magros e feios, os arranha-céus modernos”.
O trecho acima do livro Bahia de Todos os Santos - Guia das Ruas e dos Mistérios da Cidade do Salvador, que teve a primeira edição em 1945, convida o leitor a conhecer a capital baiana e compreender belezas e contrastes do ano de 1944.
A publicação perpassa por ruas, costumes, segredos, personalidades, gastronomia, religião, festas, praias, entre outros aspectos e locais pertencentes à cidade e ao povo. Com requinte e simplicidade do autor, Bahia de Todos os Santos é um roteiro da cidade da Bahia, a Salvador.
O guia foi atualizado para a 19ª edição em 1970, devido ao crescimento da cidade. Apesar de mudanças sofridas com o tempo e em franca expansão, Jorge Amado retrata no livro o espírito do baiano que ainda é percebido nos dias atuais. No início e fim da publicação, o autor dirige o convite a conhecer prazeres e dores da cidade a uma leitora imaginária. Em Bahia de Todos os Santos, Jorge ainda destaca a música do amigo, também baiano, Dorival Caymmi: “Você já foi à Bahia, nêga? Não! Então vá...”. A escrita do autor é o retrato fiel da Bahia...de Jorge e de todos os santos.