quinta-feira, 26 de abril de 2012

Uma Cidade Melhor só Depende de Você


Isaac Edington*
O termo “cidade” é geralmente utilizado para designar uma dada entidade político--administrativa urbanizada. Mas o que ela é para você? Cada um de nós tem um desejo do que seria um espaço bom para se viver. O educador colombiano Bernardo Toro cunhou uma expressão quase poética para o que seria uma cidade: “Um imaginário convocante, sedutor, que inclua os sonhos, objetivos e necessidades...”. Para Toro, uma comunidade de fato se estabelece quando qualquer grupo humano se revela capaz de compartilhar um entendimento comum acerca de um determinado aspecto da realidade, de posicionar-se em relação a ele de forma coesa, com pessoas, grupos e instituições unidos por crenças, valores e sentimentos comuns e, finalmente, atuar frente às situações concretas de modo convergente e complementar, mantendo constância de propósito ao longo do tempo.
Bom, não vou falar da realidade da nossa cidade. Todos nós sabemos e sentimos. Mas a realidade é: fazemos muito pouco para mudá-la. Então, como começar a fazer essa mudança? Como, por exemplo, construir uma articulação política, social e econômica capaz de comprometer a sociedade e os sucessivos governos com uma agenda composta por um conjunto de metas destinadas à promoção da qualidade de vida das cidades?
Na busca dessas respostas, comuns à grande maioria das cidades latino-americanas, surge no Brasil o “Movimento por Cidades Justas e Sustentáveis” que se organiza em forma de rede, e já reúne cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, entre outras, que seguem o exemplo bem-sucedido da capital colombiana com o seu “Bogotá Como Vamos”, que há mais de uma década vem transformando e melhorando as condições de vida da população.
Nas cidades brasileiras, a rede é formada por organizações sociais apartidárias e interreligiosas apoiadas por lideranças comunitárias, entidades da sociedade civil, empresários, além de cidadãos interessados em mudar o panorama atual dos centros urbanos. O principal objetivo é comprometer a sociedade e os sucessivos governos com comportamentos éticos, justos e que contribuam para o verdadeiro desenvolvimento sustentável. Cada movimento em suas respectivas cidades promove atividades, articula ações e monitora o poder público para alcançar a eficácia e transparência das políticas públicas. Na capital baiana, surge o mais novo membro da rede, o “Movimento Nossa Salvador”, que conta com três frentes de trabalho:
. Programa de indicadores sociais;. Acompanhamento da gestão pública;. Educação para a cidadania;
A partir dessas frentes, estão sendo formados grupos de trabalho (GTs) com eixos temáticos prioritários: educação, saúde, segurança pública, meio ambiente, mobilidade urbana, juventude, trabalho e renda, entre outros.
Os GTs são constituídos por representantes de entidades e cidadãos e cumprem uma agenda decidida coletivamente. Os grupos têm autonomia para planejar as ações sob a perspectiva de cada área temática e se reúnem periodicamente. O movimento pretende selecionar, sistematizar e divulgar os principais indicadores de qualidade de vida local, permitindo o acompanhamento de toda a sociedade, abrindo espaço para o debate e monitoramento sistemático da gestão pública. Lançou recentemente uma pesquisa com 61 indicadores sociais em áreas, como educação, saúde, segurança e meio ambiente, para apresentar aos soteropolitanos uma fotografia da situação em que se encontra. Dessa maneira, busca encorajar uma atitude construtiva de todos na vida desse centro urbano: governo, empresas, institutos, organizações civis e cidadãos.
O objetivo do movimento é que a atenção colocada sobre os indicadores sociais, uma vez amplamente divulgados, potencialize o interesse de todos para o encontro de soluções, no sentido de tornar nossa capital “um local acolhedor, inclusivo, justo, seguro e sustentável”. Talvez esse seja o imaginário convocante a ser perseguido pelo cidadão soteropolitano. E para que isso possa um dia se tornar realidade, depende de você, que vive em São Salvador.
isaac_edington
* Isaac Edington é diretor presidente do Instituto EcoD, criador e publisher do portal ecodesenvolvimento.org.br

quarta-feira, 18 de abril de 2012

OS BONDES DA MINHA TERRA


Almir Santos*
Andei muito de bonde. Era o meio de transportes de Salvador. Quando me entendi os bondes eram praticamente todos iguais. Amarelos com os números pretos. Bondes verdes restavam pouquíssimos, vistos por mim quando ia à casa de minha avó Isaura, que morava na então Rua Vasco da Gama, 440, próximo à Vila América. Todos abertos com 10 bancos transversais com capacidade de 50 passageiros sentados. a numeração era sempre na série de 100 ou 200.   Depois a concessionária que era a Companhia Linha Circular de Carris da Bahia, adquiriu 10 novas unidades fechadas, com capacidade de 46 passageiros sentados, que foram numeradas de 1 a 10 que o povo os chamava de Sossega Leão. Nunca cheguei a usar esses bondes pois só rodavam na Cidade Baixa, onde raríssimas vezes ia. Quando íamos ao Bonfim meu pai contratava um carro de praça. No fim da década de 40 houve uma renovação maciça nos transportes. 10 novos bondes fechados com capacidade de 48 passageiros sentados foram adquiridos e foram numerados de 501 a 510.  A essa altura foi mudada a pintura  para amarelo e creme com os caracteres e frisos vermelhos. Uma pintura mais alegre. Os Sossega Leões que rodavam na Cidade Baixa foram renumerados depois de 401 a 408 e passaram a operar na cidade alta. Dois foram sucateados. Os abertos foram divididos em duas categorias: os mais potentes, chamados carros de força, foram alocados na Cidade Alta, por causa das ladeiras e numerados na série 200 e os demais na Cidade Baixa numerados na série 100. Havia ainda os reboques numerados  na série 300 e os mistos, vazados no centro para cargas e capacidade de 35 passageiros sentados, pintados de verde com os  caracteres bancos numerados na série  de 30 e 40. Foi aí que aconteceu a grande revolução. Quatro bondes abertos com 14 bancos transversais, capacidade de 70 passageiros sentados com carrocerias totalmente construídas  na Oficinas da Graça entraram em operação.  Tinha dois estribos no lado direito. Esse modelo não deu muito certo porque quando os passageiros se amontoavam nos estribos soltava o arco da catenária. Levaram os números de 601 a 604. Só tinha um controler e o lado esquerdo era semi-fechado com tela. Por isso foram chamados de galinheiro.
Depois nas mesmas oficinas foram construídos mais nove bondes fechados  numerados de 651 a 659 com capacidade de 48 passageiros sentados. Por força contratual a concessionária tinha de colocar mais 25 bondes em operação. Foi um luxo. Bondes com portas automáticas, com bancos estufados em couro verde, potentes. Foram considerados os melhores bondes do Brasil. Rodavam para Barra, Barra Avenida, Graça, Campo Grande, Canela Nazaré e Tororó. Foi um sucesso. Todas essas novidades nos eram antecipadas por Menininho, pois seu pai trabalhava nas oficinas e ele era menor ajudante. Seu Anísio, que era funcionário da Companhia Circular também nos dava as noticias dos bondes.  Quando em 1955 a Companhia Circular foi encampada no governo de Prefeito Hélio Machado e  foi criado e SMTC - Serviço Municipal de Transportes Coletivos, os bondes foram pintados em vermelho com os caracteres brancos. Foi o crepúsculo dos bondes.                           Havia ainda os bondes de serviço, as pranchas, para manutenção da linha férrea, numerados na série 20. O 27 era destinado à linha aérea e o 51 oficinas.
Sabia os números das linhas:
1-
Nazareth
2-
Barra
3-
Canela
4-
Barra Avenida
5-
Barris
6-
Graça
7-
Federação
8-
Liberdade
9-
Santo Antônio
10-
Soledade
11-
Brotas
12-
Calçada
13-
Cabula
14-
Rio Vermelho
15-
Rio Vermelho de Baixo
16-
Amaralina
17-
Tororó
18-
Ribeira via L. Tarquínio
19-
Ribeira via Dendezeiros
20-
Ribeira via C .Areia
21-
Roma
22-
Bonfim
23-
Acupe
24-
Barbalho
25-
Lapinha
26-
Campo Grande
27-
Campo Santo
28-
Fonte Nova
29-
Vila América
30-
Pirangueiras
32-
Madragôa
33-
Quintas
34-
Farol
35-
Retiro
36-
Segundo Arco
44-
Estrada de Ferro
 Conhecia seus itinerários.
Linha 2-Barra, por exemplo, saía da Praça da Sé, Avenida Sete, Palácio da Aclamação, Vitória, Farol, Marques de Leão, Marquês de Caravelas, Alameda Antunes, Princesa Izabel, Princesa Leopoldina,  Rua da Graça, Vitória, Campo Grande, Forte de São Pedro,  Avenida Sete, Praça da Sé.
Linha 4-Barra Avenida era ao contrário: Saía da Praça da Sé, Av.Sete, Forte de São Pedro, Campo Grande, Vitória, Rua da Graça, Princesa Leopoldina, Princesa Izabel, Alameda Antunes, Marquês de Caravelas, Marques de Leão, Ladeira da Barra, Vitória, Palácio da Aclamação Avenida Sete, Sé.
Eram as únicas linhas circulares da Cidade Alta.
Um sábado à tarde tirei para conhecer as duas últimas linhas por onde nunca tinha andado : 5-Barris e 8-Liberdade, esta a famosa linha 8, tida como linha de gente valente.
Bonde, um transporte gostoso de uma cidade pacata e tranqüila.
Agora, só saudade que nos resta.
* Engenheiro e escritor - Fonte: Memória viva

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Amor à Camisa

 Almir Santos*
Com a volta do Campeonato Baiano por pontos corridos, reporto-me ao primeiro campeonato que acompanhei no Campo da Graça. 1943. Tinha oito anos.
Seis clubes disputavam a competição: Galícia, Botafogo, Vitória, Ypiranga, Bahia e Guarany. O Guarany virou até folclore. Foi o lanterna, sem nenhum ponto marcado. Por isso quando um cara queria pegar uma parada fraca dizia-se em tom de gozação: Quer pegar seu Guarany, hein?
Galícia, Botafogo, Vitória terminaram empatados, em seguida vinham Ypiranga, Bahia e Guarany.
Não havia nenhum critério de desempate, então a Federação organizou um supercampeonato entre os três primeiros colocados em dois turnos, mais seis partidas, portanto. Numa dessas partidas o Vitória, que não era campeão desde 1909, aplicou 9x1 no Galícia. Só Siri fez sete gols. Todos acreditavam que o Vitória ia desencantar, pois não vencia um campeonato desde 1909. Mas, para surpresa, esse supercampeonato terminou novamente empatado entre Botafogo (meu time) e Galícia.
Programou-se então uma melhor de três, como se chamava. Prima, segunda e negra. O Galícia venceu a primeira o Botafogo a segunda e finalmente o Galícia (para minha tristeza) a terceira sagrando-se tricampeão.
O Galícia jogou com Nova, Carapicu e Lusitano: Neversinio, Palmer e Nouca; Louro, Curto Pequeno, Novinha e Isaltino.
O Botafogo com Severino, Flávio e Rastelli; Manu, Abelardo e Dunga; Manoelito , Da Hora, Didi, Ignácio e Dino.
Entre os jogadores, não havia a dança de trocas de times como hoje.
Era muito gostoso ! Jogava-se por amor à Camisa.
Almir Santos

sábado, 7 de abril de 2012

O futuro de Salvador

  JC Teixeira Gomes*
Dediquei meus últimos artigos a uma análise da situação de Salvador e pretendia hoje trocar o disco, mas duas entrevistas recentes me fizeram mudar de ideia: a primeira do ex-governador e ex-ministro Waldir Pires e a segunda do prefeito João Henrique.
Com sua larga carreira política, Waldir Pires anunciou algo que não deixa de ser surpreendente: vai candidatar-se a uma vaga na Câmara de Vereadores de Salvador. Na opinião dos rígidos defensores de uma estrita hierarquia na vida pública, uma diminuição de status político, para quem já foi governador e ministro. Para este articulista, e certamente para a grande legião de admiradores e correligionários de Waldir Pires, mais uma experiência positiva em uma rica trajetória, que vai contribuir para dignificar o exercício da vereança em nossa capital.
Waldir Pires é basicamente um parlamentar, um tipo de político raro no Brasil, um articulador, um agenciador da discussão política e da circulação das ideias. Sem dúvida, o seu papel como homem público destoa, em nosso País, da velha tradição da política paroquial e eleitoreira, que tantos males tem causado à sociedade brasileira. Um dos momentos relevantes da sua entrevista à jornalista Patrícia França, de A Tarde, em 23 de março último, está no seguinte trecho, quando perguntado sobre o que achava da atual administração de Salvador. Disse: “Acho que a cidade vive um instante dificílimo. Está uma desarrumação em todos os setores básicos da vida das pessoas”.
Foi certamente a resposta de um gentleman da política, pois, em vez de “desarrumação”, poderia ter usado simplesmente “desagregação”, “devastação”, palavras que bem mais se aplicam ao estado atual da nossa capital. Quando o ex–governador fala das privações de “todos os setores básicos da vida das pessoas”, obviamente o que temos é uma clara referência à substancial perda da qualidade de vida dos baianos ocorrida nos últimos anos, em consequência da “desarrumação” que ele aponta.
“A complexidade da tarefa de administrar uma cidade com as características da capital baiana. Uma joia que merece sempre o mais capacitado do ourives”.
O trecho acima da entrevista de Waldir Pires logo nos remete a este outro, da entrevista do prefeito João Henrique e publicada também em A Tarde, cinco dias após a anterior. Disse o prefeito, ao ser indagado sobre como avaliava sua experiência, após sete anos de gestão: “Quando cheguei na (sic) prefeitura eu não tinha a noção da complexidade da cidade, da complexidade da administração pública, desta parceria com os órgãos do controle externo”.
A sinceridade dessas palavras não suaviza a gravidade do seu conteúdo. Pois posso afirmar convictamente que o “estado de desarrumação” de Salvador, para usarmos o eufemismo de Waldir Pires, decorre, precisamente, da falta de noção do prefeito sobre a complexidade da tarefa de administrar uma cidade com as características topográficas, históricas e urbanas da capital baiana. Uma joia que merece sempre o mais capacitado dos ourives. A propósito não posso deixar de mencionar a extraordinária charge de Simanca, em A Tarde de 31 de março último. Recordem-se: um turista português conversa com um capoeirista baiano numa área da cidade repleta de prédios caindo aos pedaços e sustentados por armações metálicas. O turista português, perplexo, diz: “Este centro histórico parece muito com Lisboa, pá”. E responde o baiano: “Só se for depois do terremoto de 1755”. Se me fosse possível, eu colocaria a charge de Simanca numa moldura e a introduzia na sala de todos os prefeitos de Salvador, o atual e os futuros.
Em suma, talvez se compreenda melhor a minha insistência, nos últimos artigos, para que os eleitores possam avaliar melhor a capacitação cultural dos seus homens públicos, pois a Bahia, pelo conjunto das suas particularidades únicas no País, precisa ser administrada com vocação política e informação cultural. Os candidatos ao cargo já enxameiam no noticiário dos jornais baianos. Que a sociedade saiba usar a arma do voto para pinçar o mais capacitado, a fim de que nenhum prefeito, no futuro, possa repetir que desconhecia a complexidade de Salvador para melhor administrá-la, nem que negligenciou as parcerias indispensáveis para fazê-lo.
*João Carlos Teixeira Gomes é jornalista, membro da Academia de Letras da Bahia. Foi editor do Jornal da Bahia

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O debate municipal é global


Nizan Guanaes*
Este é o século das cidades. Das grandes cidades. E, portanto, a era dos prefeitos. Dos grandes prefeitos.
O prefeito de uma metrópole como o Rio é uma personalidade global. É um estadista.
Já, já veremos nascer uma ONU das cidades. E os G8 e G20 das cidades terão tanto poder quanto os agrupamentos de países.
Alguns políticos brasileiros já perceberam isso. Se entrasse na política hoje, eu olharia a carreira de Eduardo Paes, o primeiro prefeito global do país. O homem que colocou o sarrafo da administração municipal lá em cima. Até porque o sarrafo dele é olímpico.
Vejo isso no dia a dia, pois vivo entre Rio e São Paulo. E o que se discute no Rio é o que se discute em Londres, Nova York e Melbourne. O Rio caminha a passos largos para ser a metrópole do século 21. As metas de sustentabilidade do Rio são ambiciosas, claras e factíveis.
São Paulo, que é a cidade maior do país, não pode e não deve ficar para trás, discutindo na próxima campanha eleitoral aquela lenga-lenga de sempre. É obvio que os problemas são os “de sempre”. Só que as soluções mudaram, e novos problemas surgiram.
Qualidade de vida hoje em São Paulo é morar perto de onde você trabalha. Só que para isso os nossos candidatos a prefeito devem procurar ouvir a Marisa Moreira Salles e o pessoal do Arq.Futuro, e não apenas as pesquisas de opinião, porque o eleitor não pode antecipar necessidades que não sabe que tem.
Porque não dá pra querer comandar São Paulo sem ouvir o Philippe Starck. Que, aliás, trabalha uma semana por mês em nossa cidade.
Está na hora de termos um plano urbano audacioso e à altura de São Paulo. Algo que traduza e produza a energia e a ambição desta cidade. Um Faria Lima 2.
Que tal chamar o Alexandre Hohagen, do Facebook, o Fabio Coelho, do Google, e usar a capacidade da internet para repensar os serviços públicos e a organização urbana?
A maior empresa americana de pensar fora da caixa, a Ideo, trabalha hoje em São Paulo, seu time é de munícipes do futuro prefeito e vive ajudando as maiores empresas brasileiras a serem mundiais, pensarem de outra forma: inspiraria o debate municipal.
Não é bom ouvir a Cisco, a HP, a Microsoft e a Apple sobre como melhorar o trânsito? Porque a tecnologia pode tirar muito mais gente do trânsito do que a velha engenharia de trânsito. Que tal construirmos um tecnoanel em paralelo ao Rodoanel? E se dermos isenção de impostos para as pessoas trabalharem à noite? Por exemplo, não pagam IPTU. É claro que eu já comecei a falar bobagem. Mas falar bobagem é o primeiro passo para chegar a coisas diferentes e revolucionárias.
Um dos grandes passos é mudarmos do marketing político para o marketing público. O marketing político pensa o eleitor, o marketing público vai além e pensa o cidadão. O marketing político faz a campanha, o marketing público ajuda a pensar políticas públicas. Ou seja, o marketing tradicional pensa na venda, o marketing moderno, na experiência de comprar, no problema, na fidelização.
São Paulo é a cidade mais energética do país. O novo ciclo de desenvolvimento do Brasil tem tudo a ver com a cidade. Seu “cluster” financeiro comanda nossa integração crescente e lucrativa com os fluxos de capital globais. Seus serviços de alta qualidade atraem gente do Brasil todo e de muitos países para seus hospitais, seus ativos culturais e muito mais.
Temos que tirar a arte dos museus e colocá-la nas ruas. Revigorar o nosso centro. Revolucionar a educação desta cidade e botá-la pra concorrer com Xangai e Bangalore.
Enfim, tocar fogo no debate municipal. Para que os mais jovens assistam aos programas eleitorais.
No dia 3 de outubro São Paulo vai eleger seu líder global: o prefeito de São Paulo, o homem que vai nos representar no planeta em plena era das cidades. Que vai conversar com Michael Bloomberg e com o prefeito de Londres. Que vai decidir quantas horas da minha vida eu vou passar no trânsito, o síndico deste megaprédio de 11 milhões de pessoas (um Portugal).
Não há nada de municipal neste debate municipal. Ele é global. É bom os eleitores não esquecerem isso. E os candidatos e seus homens de marketing também.
*Nizan Guanaes é publicitário e presidente do Grupo ABC


segunda-feira, 2 de abril de 2012

PREPARADOS PARA A COPA?

  Almirir Santos*


Quando se fala em Copa 2014 paira uma interrogação: Estaremos preparados? Em que pese sucessivas reuniões, comissões, criação de uma Secretaria específica para o fim a única coisa que se vê de concreto em andamento é a construção da Arena Fonte Nova. Quanto à Mobilidade Urbana nem se fala mais em licitação.
A estética da cidade é outro problema de difícil solução, pois a cidade se acostumou ao longo dos anos com obras mal feitas. Fazer bem feito aqui, não é uma questão de brio. Uma cidade feita a facão: calçadas esburacadas, pedras portuguesas consertadas com cimento, fora dos desenhos originais, meio fios desalinhados, desaprumados monumentos mal conservados. Uma pavimentação irregular, feia cuja pista de rolamento em alguns casos é superior às calçadas. São coisas não vistas nos cartões postais, mas comprometem a beleza da cidade. A limpeza também merece uma atenção especial.
E os serviços? Restaurantes às vezes nos lugares mais agradáveis da cidade com um péssimo atendimento. São garçons que demoram de atender, bebem, fumam, sentam-se, ficam de costas para os clientes, falam em celular ou assistindo futebol. Há sanitários de bares, restaurantes e supermercados em péssimas condições onde falta tudo, até água.
O transporte é outro ponto negativo. Uma total falta de informação, motoristas de ônibus agressivos que dão partida com as portas abertas, param de qualquer forma para embarque e desembarque, quando param. São taxistas que costumam negociar a corrida com turistas fora do taxímetro. E a segurança, com seus elevados índices? Por fim os moradores de rua, que antes de contentavam em usar a rua durante a noite, mas hoje se estendam ao longo do dia. Deprimente.
São esses os sete pecados da capital da copa:estádio, mobilidade, estética, serviços, transportes, segurança e moradores de rua.
Será que dá para consertar nesse curto espaço de tempo? Será que dá para mudar essa cultura?
* Engenheiro e escritor. Especialista em Transportes e Mobilidade Urbana

Salvador pede o inédito de presente

 Paulo Fábio Dantas Neto*


O que de melhor podemos nos desejar, ao completarmos 463 anos, é que ocorra em Salvador um encontro feliz entre a cidade e a política que nela se pratica. Sei que não é pouco o sonho, mas não temos escolha: se o perdermos, estaremos perdidos.
Soteropolitanos de boa vontade cultivaram, por bom tempo, a ilusão de que os traços culturais singulares da antiga “Cidade da Bahia” – inscritos de modo exuberante na face do seu povo até mais ou menos a passagem dos 70 aos 80 do século passado – poriam a moderna Cidade do Salvador a salvo do desencanto que acomete cidades submetidas a uma exploração capitalista sem controle de espaços urbanos e à degradação ou mercantilização de serviços públicos essenciais. Afinal, por aqueles traços singulares – que parte de nós ainda tem na memória – terem resistido ao regime autoritário, não se supôs que o mercado bruto e uma elite política tosca operariam, justo ao se conquistar a democracia política, a desconstrução urbana que a ditadura deixara a meio caminho.
Infelizmente é o que tem acontecido. A consciência de cidade que ainda subsiste em nós precisa acordar daquele autoengano e superar o desejo nostálgico pelo retorno da baianidade antiga, que pouco significa para a maioria dos atuais eleitores de Salvador. Maioria que vota sem ser cidade, multidão de criaturas cujas almas padecem de solidão opressiva e desejosa de consumo, apesar da beleza física que remanesce grátis no lugar.
É esse viver aquém da urbanidade do eleitor comum de Salvador que explica a atitude predatória da elite política para com o patrimônio humano e ambiental da cidade. Imediatista em seu pragmatismo ela se acomoda ao senso comum e se precipita num vale tudo eleitoral. Ciosos de distribuir benesses a granel para se manterem competitivos, partidos e políticos entregam-se a quem pode financiá-las. Suicídio a médio prazo, pois assim a elite política esquece o desiderato que pode justificá-la no tempo é o exercício de um poder estável sobre os governados. Esse objetivo não se realiza se a monetarização da política destrói o espaço público em que os governados se constituem em cidadãos reunidos em corpo eleitoral.
A qualidade da vida urbana numa cidade define se ali haverá um corpo eleitoral ou um amontoado de seres capazes apenas de converter seu voto em mercadoria de varejo. O político eleito hoje não pode contar senão por mínima fração de tempo, com a lealdade do eleitor de espírito seco, minado de desconfiança. Por isso busca manter abertas as torneiras de recursos que irrigam esse patrimônio eleitoral politicamente árido. Essa água benta é posse de governos e empresários, que a fornecem também sob critérios de mercado, volúveis, voláteis.
Compreender essa realidade sem ilusões não significa desdenhar do passado de Salvador, ou de valores urbanamente saudáveis que ele nos legou. Ao contrário, nos impele a transmitir – diria até ensinar – com paciência, aos soteropolitanos de hoje, aos jovens em especial, a cultura urbana que eles não conheceram. Mas pelo que se conhece da atualidade e da história política recente de Salvador, o caminho político possível é a busca de uma nova urbanidade. Para isso precisa ter um fim a atual conversa de surdos entre os mundos da política e da cultura, reveladora de ignorâncias recíprocas que tornam urgente articularem percepção estética, conhecimento acumulado e uma estratégia política. Em nome do direito à cidade, luta contemporânea sempre e hoje ainda mais.
Não sabemos se alguma liderança será capaz de estimular o conflito político necessário para trazer à tona essa chance talvez submersa no urbano soteropolitano. Se a política fracassar nessa missão, conflitos podem emergir de todo modo, porém cada vez mais como violência estéril, transbordada de guetos formados pelo vácuo de projetos políticos de cidade. Na política, mais que em qualquer outra seara, é preciso, em Salvador, ser inédito. Na política soteropolitana, ao contrário do que se dá noutros domínios da vida da cidade, há pouco a aprender com a tradição.
*Cientista político, professor e pesquisador. Foi deputado estadual pelo Partido Comunista do Brasil - PCB