domingo, 31 de janeiro de 2010

Todo ano é Haiti

As cidades, berço da civilização, tornaram-se no Brasil o cenário da tragédia das periferias
Rubens Ricúpero*
A passividade com que nos resignamos a tragédias anunciadas e evitáveis tem a mesma regularidade e previsibilidade das chuvas de verão. Uma de minhas mais antigas lembranças é da nossa casa do Brás arruinada pelo Tamanduateí nas enchentes que já devastavam a zona 70 anos atrás.
As cidades, berço da civilização (a palavra vem de "civitas", cidade), tornaram-se no Brasil o cenário da tragédia das periferias. Nossa urbanização (acima de 80%) supera a de vários países europeus. Temos 115 cidades de mais de 100 mil habitantes e 18 acima de 1 milhão. No entanto, o tema urbano está ausente do repetitivo debate sobre o país.
Nas três últimas décadas do século passado, 90 milhões de novos citadinos explodiram o sistema urbano brasileiro. Essa expansão não foi antecipada pelos governos com medidas que se adiantassem aos problemas. George Martine, um dos melhores estudiosos do fenômeno, observa que jamais houve prioridade para a oferta pública de terrenos e moradias aos mais pobres.
Abandonados e sem alternativa, esses são obrigados a morar nas áreas de risco: no município de São Paulo, quase 30% dos 2,8 milhões de baixa renda vivem em várzeas inundáveis ou encostas ameaçadas de deslizamentos, ante apenas 9% dos de alta renda. Metade das favelas paulistas se situa em várzeas sujeitas a inundações crônicas. O problema tende a se agravar porque, enquanto os bairros ricos apresentam crescimento negativo, as únicas regiões que crescem nas metrópoles são as pobres (3,6%) e, dentro delas, as de risco (4,8%).
Comenta Martine que, apesar de sua constante expansão, as invasões e as ocupações ilegais têm sido tratadas como situações transitórias que se espera venham milagrosamente a desaparecer graças ao desenvolvimento. A ninguém ocorre que "é muito mais barato e efetivo preparar-se para o crescimento inevitável do que tentar corrigir o fato consumado". Cita exemplo de estudo sobre Curitiba, onde a remoção de 11 mil casas irregulares, menos de 3% do total, custaria o dobro da renda do imposto imobiliário do município.
Ao contrário do que se crê, os pobres não moram de graça. Em termos relativos, pagam mais pelos terrenos do que os abastados. Longe de serem espontâneas, as ocupações e os loteamentos clandestinos são objeto de lucrativa atividade de loteadores piratas.
A solução passa por duas medidas: 1ª) regulamentar e fiscalizar o mercado de terrenos das periferias a fim de proteger os pobres da espoliação; 2ª) mediante recursos de taxas sobre a valorização de imóveis, adquirir e dotar de infraestrutura glebas para vivendas populares ao longo de eixos de transporte rápido, como se fez no passado em Curitiba.
Não só faltam propostas de solução mas existe pouca consciência do problema. Nas eleições, nem se discutem os Planos Diretores das cidades e, de cada dez desses planos elaborados nos anos 70, sete foram engavetados. As tragédias que se repetem em São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, um pouco por toda a parte, deveriam nos obrigar a cobrar neste ano dos candidatos a presidente e governador ideias claras sobre como tencionam enfrentar os problemas oriundos de uma urbanização selvagem e distorcida. Mais que a herança do passado rural, o desafio e a promessa do Brasil futuro se encontram nas cidades.
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*RUBENS RICUPERO, 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento)

sábado, 30 de janeiro de 2010

É hora de rebatucar o Carnaval Baiano

Elitização do carnaval de Salvador. E os Baianos onde ficam?
zedejesusbarreto*
Nem tinha terminado a folia de 2007 e o governo petista recém-empossado prometia um amplo debate sobre os rumos e dimensionamentos do Carnaval de Salvador, tido como a maior festa de rua do planeta. Afinal, são seis dias de fuzarca, com o total fechamento do umbigo da cidade, desde o Centro Histórico até Ondina, na orla atlântica.
- Ufa, enfim entra um governo com coragem e cacife popular para intervir um pouco nessa loucura desenfreada que se tornou o carnaval baiano, tão desigual, tão excludente.
Sonhamos.
O Carnaval 2010 está nas bocas e nada, absolutamente nada há de novo. Nenhum debate, nem uma proposta nova, nada!
A indústria dos grandes trios/blocos/estrelas manda na folia, faz o que é do seu interesse. Os camarotes são cada ano mais numerosos e chiques, para alguns. O povão corre atrás para conseguir liberar uma guia, pagando caro, e trabalhar no sufoco, no apertucho, fugindo da cana, dos ladrões, dos fiscais e dos ‘malucos’ na tentativa de ganhar o pão dormindo na rua. As agremiações populares vivem esmolando ‘apoios’ pra sair na avenida … Ué, ‘tudo como dantes no quartel de Abrantes’, como diz o outro.
A velha Salvador já está emparedada.
Não existe mais decoração de carnaval nas ruas da cidade. Também não é mais possível ver as belezuras de sua história, mesmo com os hotéis cheios de turistas: o casario do Pelô, algumas igrejas com suas torres majestosas, praças, monumentos, praias, Farol da Barra, Cristo… nada! Tudo tapumado.
Montagem de camarotes em frente ao Clube Espanhol
As chamadas estruturas do carnaval já ocuparam os espaços, tapam a visão, pois o importante é proteger o verde com placas de compensados imundos, os mesmos do ano que passou, fincar ferros, plantar palcos, camarotes, postos de saúde e segurança ao longo do percurso, espaço para a mídia, os chiques… e corredores da morte para o povão espremido nas calçadas esburacadas, obstruídas… até os meados de março, abril… quando acontece a desmontagem. Vale a pena isso?
Cria-se uma estrutura portátil urbana horrorosa, agressiva, estúpida, dentro da cidade.
Fecham-se ruas, bairros inteiros. E os moradores que se lenhem, se piquem, caso não suportem o sufoco, o confinamento, a barulheira, a invasão de hordas de bárbaros, ou foliões, depende do ponto de vista.
É justo? Justificável… para que meia dúzia encham as burras de dinheiro?
E não me venham com esse papo de ‘herança maldita’.
Não foi o ‘carlismo’ que inventou o axé, o pagode, a indústria dos grandes blocos, os camarotes, a segregação, os ‘cordeiros’, o fogareiro de queijo coalho, o isopor na cabeça, a catação de latinhas, o abadá de mil reais, o venha cá, os privilégios …
Bem como também não foi o tal ‘carlismo’ que inventou o Trio Elétrico (60 anos de Trio), os caretas, as mortalhas, os blocos Afro, a Mudança do Garcia, a diversidade, a tecnologia do som e das transmissões ao vivo para o mundo…
Tudo isso é parte da evolução, da dialética cultural e histórica do povo, das novas descobertas, da expansão do turismo, das leis do mercado, da ação dos ‘negociantes’, da omissão ou adesão dos poderosos de plantão… As mudanças sociais são mais complexas do que imaginam as mentes dos militantes da política eleitoreira.
"A Bahia vai bem’? ‘E a Bahia de Todos nós’? Quem está no andor?
O modelito do carnaval baiano explodiu, saturou-se. Fazemos o carnaval hoje como se fossem os anos 70, 80.
Só que os trios de hoje são monstros que não cabem mais nos corredores da avenida Sete. Imensos, não conseguem mais subir a Praça Castro Alves, não têm como fazer as manobras em esquinas do século XVIII e XIX.
O casario antigo, bem como estruturas como as do Farol da Barra e alguns prédios, lá e cá, já não suportam os cento e tantos decibéis de barulho; tremem, racham. Nossos surrados ouvidos e caixa de ressonância cerebral também.
O carnaval de Salvador dos anos dois mil são vários carnavais.
O circuito mais antigo, do Pelô, continua familiar. Apesar dos tambores que parecem querer derrubar os casarões coloniais, os palanques ocultando suas belas fachadas.
Um absurdo.
É necessário controle, fiscalização, ordenamento, proibições para que o espaço continue das crianças, dos mais velhos, dos que gostam de máscaras, fantasias, bom papo, encontros, menos agonia, mais contemplação. O Centro Histórico exige isso.
O circuito Campo Grande-Praça Castro Alves-Carlos Gomes devia ser apenas para os foliões-pipoca, os blocos afro, os afoxés, as batucadas de rua, a Mudança do Garcia, a brincadeira, a molecagem sadia, os caretas, as fantasias, as bandas alternativas, o samba-de-roda, as manifestações folclóricas, os grupos do Interior, a capoeira, os protestos, a liberdade de brincar, de criar, sem horários, sem tempo, o tempo todo, o espaço livre do povo…
Carros de som, só os pequenos, minitrios, fobicas, corsos, batuqueiros…
A avenida do povão. Que tal?
O circuito Barra-Ondina, espaço ganho na tora pelos grandes trios, é o circuito dos grandes blocos e entidades, dos camarotes… dos mais abastados que chegam até de helicóptero e bebem champã, comem caviar, pagam por boates privadas com som tecno-pop, se esbaldam e se exibem distante do bodum da massa…
É outro mundo!
Lá embaixo o povão se esmigalha para ver o artista global. E, nos supertrios, as estrelas cantam e dançam para as câmaras de tevê e para os sites e blogs dos sete cantos do planeta, vendendo o peixe caro, um luxo só. Beautiful!
É isso que querem, tudo bem.
Mas, pergunto: Logo nos bairros que são morada de milhares de famílias, muitas delas avessas à folia, incomodadas, sitiadas, expulsas de suas casas e apartamentos? Por quê?
Já passou da hora de se criar um espaço próprio para o desfile dos grandes trios e blocos e os correspondentes camarotes dos endinheirados.
Uma carnavalódromo, já! Não falta espaço, né, João?
Vamos conversar? Mas cadê a coragem, diante das urnas, de olho nos votos?
Cobro, insisto na discussão do tema. O interesse público (da maioria) acima dos olhos gananciosos de sempre.
Não se trata de travar a evolução das coisas, mas de apontar saídas, antes que tudo exploda, acabe, por falta de espaço, imaginação, por saturação, mesmice, atraso.
Recife, Olinda, o próprio Rio de Janeiro estão buscando alternativas, renovando, reabrindo espaços para as manifestações populares espontâneas e livres.
Cito, com a licença e toda reverência ao autor, o mestre da Confraria dos Saberes Waltinho Queiroz Jr., em recente artigo num jornal local:
“…reponha a grama do Farol! Não é justo que, em nome da festa, palanques, camarotes, edificações da qualquer natureza danifiquem os espaços públicos!”
E , mais adiante: “…É imperioso incentivar as bandas e orquestras com seus sonoros metais em Salvador, no justo momento em que renascem vigorosas no Carnaval carioca e continuam brilhando em Recife”.
Nunca é demais lembrar que foi uma banda dos Vassourinhas de Pernambuco, nas ruas de Salvador antes do carnaval de 1950, que motivou os fantásticos músicos e criadores Dodô e Osmar a inventar o Trio Elétrico.
Termino ainda com uma sugesta da melhor, do grande Waltinho Queiroz, para ser adotada já, quem sabe neste carnaval 2010 que se aproxima. O povo acata e realiza:
“…Pleiteio há quatro anos um poético espaço alternativo (para o carnaval). Um oásis acústico no Rio Vermelho, bairro de notória vocação boêmia, para manter acesa a chama dos eternos carnavais, e o Para o Ano Sai Milhó viria conosco! Espaço inovador e de alto astral, onde foliões de todas as idades possam brincar em paz!’…
Enfim, o Rio Vermelho seria um ponto de encontro, de relax, de reposição de energias, de escape, de namoro. Sem trios, sem som às alturas, num outro ritmo, um lugar para se dar as mãos, olhar o mar, comer um acarajé… Dar um tempo pro bem querer.
*zedejesusbarreto, jornalista e escrevinhador baiano. Artigo originalmente publicado no Blob Jeito Baiano(26jan/2010)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Bell, agressão e Carnaval

Newton Sobral*
A agressão gratuita do publicitário Nizan Guanaes ao “crooner” Bell Marques, da banda Chiclete com Banana, reativou a discussão em torno dos rumos tomado pelo nosso Carnaval.
O publicitário é obvio, quis transformar o cantor em símbolo de tudo de errado que desfila por nossas ruas e avenidas nos cinco dias da festa: “Esta indústria do axé, personificada em Bell do Chiclete, só destrói a Bahia. Ele não é um artista. É “crooner” careca. Tudo nele é mentira”.
É evidente que Bell não é a síntese das distorções que atualmente deformam a folia, que vão do empobrecimento do axé ao elitismo dos blocos, à violência, às ruas apertadas e ao excesso de interesses políticos e comerciais. O Carnaval de Salvador cumpre o destino imposto pelo trio elétrico, assim como o do Rio de Janeiro foi moldado pelas Escolas de Samba e o de Pernambuco pelo frevo. Cada um de acordo com sua herança cultural.
O Carnaval de Pernambuco, pautado pelo respeito às tradições e raízes populares, vai muito bem. Não consta que esteja à procura de novos caminhos. O do Rio segue em frente, dentro da sua fórmula Hollywoodiana de grandes e monumentais desfiles, preenchendo a um só tempo as expectativas carnavalescas do carioca e dos turistas. Quanto ao nosso, entrou em crise de identidade e está à procura de uma nova rota. Como não encontra, sai à caça de responsáveis por suas distorções. Daí acredito, a inusitada agressão de Nizan a Bell (o publicitário, logo em seguida se retratou).
O Carnaval gestado pelo trio elétrico é naturalmente, o responsável pela hipertrofia dos chamados blocos de trio e suas conseqüências nefastas, das quais a principal é a elitização da festa, com os altos preços cobrados pelos abadas e camarotes.
A solução seria a elaboração de um novo projeto que o traga à realidade. Há 60 anos, Osmar Macedo e Dodô, com seu trio, deram uma nova feição à festa, feição esta que, em decadência, perdura até hoje. Está faltando, tudo indica, criatividade e empenho para levar à avenida uma nova revolução
*Newton Sobral é jornalista
Artigo publicado originalmente no jornal A Tarde. p3- 28/01/2010

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O Homem que Engarrafava Nuvens

Quando as pessoas pensam em música brasileira, pensam em samba e bossa nova. Entre esses dois ritmos há uma década esquecida. Um período em que um ritmo nordestino foi levado ao sul, tomou o país como um furacão, e logo se espalhou pelo mundo. É o mais excitante e autêntico de todos os sons brasileiros. BAIÃO.
“O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS” é sobre o seu criador, Humberto Teixeira. Dirigido por Lírio Ferreira, o premiado diretor de “Árido Movie”, “Cartola” e “Baile Perfumado”, esse documentário – musical conta a história de Humberto Teixeira, o “Doutor do Baião”, o compositor por trás de clássicos como Asa Branca, uma das canções mais populares do Brasil.
O filme é não só uma celebração de genialidade poética e musical de Teixeira, mas também uma jornada de descoberta, do sertão, do baião, da cultura e da história do Brasil.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A maldição Branca

Eduardo Galeano
No dia 1º de janeiro de 2004, a liberdade cumpriu dois séculos de vida no mundo. Ninguém reparou, ou quase ninguém. Poucos dias depois, o país do aniversário, o Haiti, passou a ocupar algum espaço nos meios de comunicação; não pelo aniversário da liberdade universal, mas sim porque ali se desencadeou um banho de sangue que acabou despachando o presidente Aristide. O Haití foi o primeiro país a abolir a escravatura. No entanto as enciclopédias mais difundidas e quase todos os textos escolares atribuem à Inglaterra essa honra histórica.É verdade que um belo dia o império que havia sido campeão mundial do tráfico negreiro mudou de opinião; mas a abolição britânica ocurreu em 1807, três anos depois da revolução haitiana, e foi tão pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve que voltar a proibir a escravatura.Nada de novo no aviltamento do Haití. Há séculos que é desprezado e castigado. Thomas Jefferson, prócer da liberdade e proprietário de escravos, advertia que do Haití vinha um mau exemplo; e dizia que era preciso "confinar a peste a essa ilha". O país ouviu-o. Os Estados Unidos demoraram sessenta anos a outorgar reconhecimento diplomático à mais livre das nações.Entretanto, no Brasil, chamava-se haitianismo à desordem e à violência. Os donos dos braços negros salvaram-se do haitianismo até 1888. Nesse ano, o Brasil aboliu a escravatura. Foi o último país do mundo. O Haití voltou a ser um país invisível, até à próxima carnificina. Enquanto esteve nas pantalhas e nas páginas, no princípio deste ano, os media transmitiram confusão e violência e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem. Desde a revolução para cá, o Haití apenas foi capaz de oferecer tragédias. Era uma colónia próspera e feliz e agora é a nação mais pobre do hemisfério ocidental.As revoluções, concluíram alguns especialistas, conduzem ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tendência haitiana ao fratricídio provém da herança selvagem que vem de África. O mandato ancestral. A maldição negra, que empurra para o crime e o caos. Da maldição branca não se falou.A revolução francesa aboliu a escravidão, mas Napoleão ressuscitou-a:- Qual foi o regime mais próspero para as colónias?- O anterior- Pois então restabeleça-se.
E, para reimplantar a escravidão no Haití, enviou mais de cinquenta navios cheios de soldados. Os negros amotinados venceram a França e conquistaram a independência nacional e a libertação dos escravos.Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras plantações de cana de açucar e um país queimado pela guerra feroz. E herdaram "a dívida francesa". A França cobrou caro a humilhação infligida a Napoleão Bonaparte. Acabado de nascer, o Haití teve que comprometer-se a pagar uma indemnização gigantesca, pelo mal que fez ao libertar-se.Essa expiação do pecado da liberdade custou-lhe 150 milhões de francos ouro. O novo país nasceu estrangulado por essa corda atada ao pescoço: uma fortuna que actualmente equivaleria a 21.700 milhões de dólares ou a 44 orçamentos totais do Haití dos nossos dias.Muito mais de um século levou a pagar a dívida, que os juros da usura iam multiplicando.Em 1938 chegou, finalmente, a redenção final. Nessa altura já o Haití pertencia aos bancos dos Estados Unidos. Em troca dessa maquia a França reconheceu oficialmente a nova nação. Nenhum outro país a reconheceu. O Haití nascera condenado à solidão. Nem sequer Simón Bolivar a reconheceu, ainda que tudo lhe devesse. Barcos, armas e soldados foram-lhe oferecidos pelo Haití em 1816, quando Bolívar chegou à ilha, derrotado, e pediu apoio e ajuda. O Haití deu-lhe tudo, com a única condição de que libertasse os escravos, uma ideia que até então não lhe tinha ocorrido. Depois, o senhor triunfou na sua guerra de independência e expressou a sua gratidão enviando a Port-au-Price uma espada de presente. De reconhecimento, nem falar. Na realidade as colónias espanholas que tinham passado a ser países independentes continuavam a ter escravos mesmo que algumas tivessem, aliás, leis que o proibiam. Bolivar ditou a sua em 1821, mas a realidade não se deu por satisfeita,Trinta anos depois, em 1851, a Colômbia aboliu a escravatura; e a Venezuela em 1854. Em 1915, os marines desembarcaram no Haití. Ficaram dezanove anos. A primeira coisa que fizeram foi ocupar a alfândega e a repartição de cobrança de impostos. O exército de ocupação reteve o salário do presidente haitiano até este se resignar a assinar a liquidação do Banco da Nação, que se converteu em sucursal do City Bank de Nova Iorque... O presidente e todos os outros negros estavam proibidos de entrar nos hotéis, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes não se atreveram a restabelecer a escravatura, mas impuseram o trabalho forçado nas obras públicas. E mataram muito. Não foi fácil apagar os focos de resistência. O chefe guerrilheiro, Charlemagne Péralte, cruxificado contra uma porta, foi exibido, como aviso, na praça pública. A missão civilizadora terminou em 1934. Os ocupantes retiraram-se deixando em seu lugar uma Guarda Nacional, fabricada por eles, para exterminar qualquer possível assomo de democracia. Fizeram o mesmo na Nicarágua e na Repúlica Dominicana. Algum tempo depois Duvalier foi haitiano de Somoza e Trujillo. E assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traição, foram-se somando as desventuras e os anos. Aristide, o padre rebelde, chegou à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrubá-lo, levou-o, submeteu-o a tratamento e uma vez reciclado devolveu-o, nos braços dos marines, à presidência. E de novo ajudou a derrubá-lo, neste ano de 2004, e de novo houve mortandade. E de novo voltaram os marines, que regressam sempre, como a gripe. Porém os peritos internacionais são muito mais devastadores que as tropas invasoras. País sumbetido às ordens do Banco Mundial e do Fundo Monetário, o Haití obedecia às suas ordens sem tugir. Pagaram-lhe negando-lhe o pão e o sal. Congelaram-lhe os créditos, apesar de ter desmantelado o Estado e ter liquidado todas as taxas aduaneiras e subsídios que protegiam a indústria nacional. Os agricultores de arroz, que eram a maioria converteram-se em mendigos ou balseros. Muitos foram e continuam a ir parar ao fundo do mar das Caraíbas, porém esses náufragos não são cubanos e raras vezes aparecem nos diários. Agora o Haití importa todo o arroz dos Estados Unidos, de onde os peritos internacionais, que são gente bastante distraída, se esqueceram de proibir as taxas aduaneiras e os subsídios que protegem a produção nacional. Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa o Haití, há um grande cartaz que avisa: O mau passo. Do outro lado está o inferno negro. Sangue e fome, miséria, peste. Nesse inferno tão temido, todos são escultores. Os haitianos têm o costume de recolher latas e ferros velhos e com antiga mestria, recortando e martelando, as suas mãos criam as maravilhas que se oferecem nos mercados populares. O Haití é um país atirado ao vasadouro, por eterno castigo da sua dignidade. Ali jaz como se fosse sucata. À espera das mãos da sua gente.
Eduardo Galeano

domingo, 24 de janeiro de 2010

Metrô: MPF/BA propõe ação de improbidade contra construtoras e gestores da prefeitura de Salvador

Assessoria de Comunicação do MPF/Bahia
Irregularidades no processo licitatório e na execução das obras resultaram em um prejuízo de R$ 100 milhões a uma das mais importantes obras do sistema viário da capital baiana
O Ministério Público Federal na Bahia (MPF/BA) propôs, no início deste ano, ação por improbidade administrativa contra as construtoras Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Norberto Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão e Constran e mais 11 pessoas por diversas irregularidades no processo licitatório e na execução das obras do metrô de Salvador, que resultaram em um prejuízo de R$ 100 milhões, em valores atuais, a uma das mais importantes obras do sistema viário da capital baiana.
Entre os réus estão ex-gestores da Secretaria Municipal de Transportes Urbanos (SMTU), da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) e da Companhia de Transportes de Salvador (CTS), empresa responsável pela gestão das obras iniciadas há dez anos e até hoje não concluídas.
De acordo com a ação, as irregularidades - que vão da deficiência do projeto básico do metrô, ausência de audiência pública para discutí-lo, pagamento de serviços sem previsão contratual a consórcio oculto – deram margem ao superfaturamento da obra e beneficiamento do consórcio Metrosal.
Três acórdãos do Tribunal de Contas da União (TCU) fundamentam a ação do MPF, que aponta diversas irregularidades nas fases licitatória e contratual das obras civis e dos sistemas de energia para implantação do metrô de Salvador, objeto do edital de licitação internacional SA-01, aberto em 1999. O procedimento foi deflagrado com base em um projeto básico deficiente, cuja ausência dos estudos necessários e determinados pela Lei de Licitação (8.666/93) propiciou uma série de irregularidades como superfaturamento da obra.
“A análise empreendida pelo TCU comprovou que na prática não houve projeto básico, pois nem mesmo os dados mínimos constavam. Várias irregularidades detectadas derivaram disso”, afirma o procurador da República Israel Gonçalves, autor da ação. Uma delas é a construção do elevado Bonocô, que acarretou acréscimo de R$ 36 milhões por meio de um aditivo. Segundo apurado, boa parte do custo poderia ter sido evitado se o projeto básico tivesse previsto que a implantação do metrô em via de superfície na Avenida Mário Leal Ferreira obstruiria o único retorno nela existente. E mais: a CTS não fez como também não exigiu das empresas que participaram do certame o orçamento detalhado dos custos dos serviços do metrô. De acordo com a lei, a licitação deve ser antecedida de orçamento prévio detalhado com as previsões de custos fundamentadas em pesquisa de mercado e as propostas das licitantes, apresentar custos unitários e composições de preços. “A ausência do orçamento, que deve anteceder à licitação e à contratação, propiciou superfaturamento e dificuldade de apurá-lo”, afirma o procurador.
Os acórdãos do TCU que embasam a ação apontam também que houve acréscimos de pagamento de serviços sem previsão contratual, que oneraram em mais R$ 24,9 milhões o custo do empreendimento em gastos com o reposicionamento da Estação da Lapa (R$ 6,4 milhões); acréscimo do túnel da Lapa (R$ 4,2 milhões), substituição do solo mole no Juá (R$ 2,6 milhões), dentre outros aditivos que ocorreram sem a devida licitação. Outros R$ 31,6 milhões não previstos no contrato original foram pagos ao consórcio por mudanças no objeto do contrato relativas à configuração das estações Acesso Norte, Bonocô, Brotas, Retiro, Juá e Pirajá.
Outro problema é que a contratação das obras civis juntamente com os sistemas de energia, que equivalem a 44% do valor total do contrato do metrô, representou prejuízo aos cofres públicos, já que não havia qualquer razão que impedisse o fracionamento do processo. Por meio da avaliação das propostas das empresas participantes do certame, o TCU chegou à conclusão que o Consórcio Metrosal, formado pelas construtoras Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez e a companhia alemã Siemens, venceu a licitação apresentando proposta, para os sistemas de energia, com valor superior em até R$ 65 milhões às dos demais licitantes. Ainda segundo o órgão, a proposta do consórcio Transbahia tinha o valor de R$ 43.990.876,60, enquanto o consórcio Metrosal venceu com uma proposta para implantação dos sistema de energia orçado em R$ 109.662.241,33, ou seja R$ 65,6 milhões menos onerosa do que a do Metrosal. “Os responsáveis poderiam ter desmembrado o processo licitatório de forma a possibilitar a contratação do sistema de energia por preço mais módico do que o apresentado pelo Consórcio Metrosal”, disse o procurador.
Ainda no bojo das irregularidades, comprovou-se a falta de um parecer do órgão jurídico da CTS sobre os termos e atos do contrato de licitação, além da ausência de audiência pública, que poderiam ter apontado, entre outras coisas, a deficiência do projeto básico. De acordo com Gonçalves, a inexistência de tais critérios possibilitaram a formalização do contrato SA-01 com sobrepreço que, segundo o TCU, alcança a cifra de R$ 100 milhões. A análise jurídica também poderia ter detectado a irregular elaboração do projeto básico, o que evitaria a assiantura dos diversos aditivos havidos entre o Metrosal e a CTS, cujos valores alcançam R$ 74 milhões. Acrescente-se, ainda, que, em razão do deficiente projeto básico, o valor dos aditivos alcançou o limite permitido em lei (25% do valor original), razão pela qual a conclusão do Tramo 2 (rótula do abacaxi-Pirajá) deverá ser submetido a nova licitação.
Por fim, o MPF aponta na ação que o ex-secretário de Transporte e presidente da CTS Ivan Barbosa participou de reuniões do Consórcio Metrosal nos quais se tratou tanto do consórcio oculto, que já é objeto de uma denúncia do MPF/BA que tramita na 17ª Vara da Justiça Federal. “Ele teve conhecimento do consórcio oculto e não tomou qualquer providência para fazer cessar tal irregularidade”, afirma o procurador. O consórcio oculto foi uma estratégia ilegal das construtoras Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez que se uniram às empresas Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão e Constram, concorrentes no processo de seleção do metrô de Salvador. Conforme documentos apreendidos na Operação Castelo de Areia, as empresas citadas constituíram um consórcio oculto para executarem as obras do metrô de Salvador, cabendo a todas poder de voto nas deliberações do grupo e participação nos custos e na remuneração advinda da execução das obras. Os documentos ainda demonstram o faturamento mensal de cada empresa, sendo que cada uma delas é identificada por um código, a saber: Camargo Corrêa (código E1), Andrade Gutierrez (E2), Norberto Odebrecht (E3), OAS (E4), Queiroz Galvão (E5) e Constran (E6).
Confira a relação das empresas que respondem a ação:
Empresas:
Construtoras Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa Construções e Comércio, Norberto Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão, Constran.
Número da ação para consulta processual:2010.33.00.000364-1
Assessoria de Comunicação Procuradoria da República na Bahia
Tel.: (71) 3338 8003 / 3338 8000

sábado, 23 de janeiro de 2010

João Ubaldo , em Itaparica, comemora 69 anos

Neste sábado (23), a partir das 19h, será comemorado, na Biblioteca Juracy Magalhães Jr., em Itaparica, os 69 anos do escritor, jornalista e ocupante da 34ª cadeira da Academia Brasileira de Letras, João Ubaldo Ribeiro. A celebração contará com apresentação musical, teatral e de dança.
Foi nesta biblioteca que o escritor traduziu para o inglês o sucesso Viva o Povo Brasileiro, além de escrever a obra O Sorriso do Lagarto. Na Juracy Magalhães Jr. constam todos os livros escritos por João Ubaldo, incluindo o mais recente, O Albatroz Azul, lançado em 2009.
O evento integra a programação do Café com Leitura, projeto que movimenta o verão da biblioteca, e contará com apresentação musical do Coral Odonto-Bahia, sob a regência do maestro Alcides Lisboa e do Grupo Vocalize com a cantora lírica Cyrene Paparotti, além de apresentação de dança flamenca, com o Grupo Aires, e dança árabe, com o Grupo Cultural Eixo Afro-Árabe.
Em 2008, João Ubaldo foi agraciado com o Prêmio Camões, considerado o maior da língua portuguesa. Sua obra literária ainda passa por publicações de contos, crônicas e ensaios, além dos livros Sargento Getúlio, Viva o povo brasileiro, O sorriso do lagarto, A Casa dos Budas Ditosos, entre outros.
Origens
Itaparicano, Ubaldo já foi repórter no Jornal da Bahia, em 1957, e foi transferido para A Tribuna da Bahia, onde chegaria a exercer o posto de editor-chefe. Na Biblioteca Juracy Magalhães Jr., em Itaparica, por muitos anos, utilizou uma das salas para produzir artigos e livros. João Ubaldo também lançou o primeiro livro virtual brasileiro - Miséria e grandeza do amor de Benedita.
O Rei da Noite, de 2008, é uma coletânea de 34 crônicas que relatam a tentativa de transformação do estilo de vida do escritor e ainda histórias divertidas do boêmio em bares cariocas.
Além de oferecer um acervo com mais de 23 mil livros catalogados, a Biblioteca Juracy Magalhães Jr. (Itaparica) reúne, com o projeto Café com Leitura, a comunidade itaparicana para diversas atividades culturais durante todo o mês de janeiro. Exposições, lançamentos de livros, oficinas, feiras artesanais, recitais, e apresentações musicais e de dança fazem a programação de verão da Biblioteca, aberta ao público.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Adeus Itaparica

Ilustração de BRUNO AZIZ (Mamon)
João Ubaldo Ribeiro*
Como todos os anos, vim a Itaparica, para passar meu aniversário em minha terra, na casa onde nascí. Casa de meu avô, coronel Ubaldo Osório, que fez pouco mais na vida que amar e defender a ilha e seu povo. De lá para cá, muito se tem perpretado para destruí-los física ou culturalmente e há nova tentativa em curso. Trata-se da anunciada construção de uma ponte de Salvador para cá. Isso é qualificado, por seus idealizadores, de progresso.
Conheço este progresso. É o progresso que acabou com o comércio local; que extinguiu os saveiros que faziam cabotagem no Recôncavo; que ao fim dos saveiros juntou o desaparecimento dos marinheiros, dos carpinas, dos fabricantes de velas e toda a economia em torno deles; que vem transformando as cidades brasileiras, inclusive e marcadamente Salvador, em agregados modernosos de condomínios e shoppings acuados pela violência criminosa que alastra por onde quer que estejam enfurnados, ilhas das quais só se vai de automóvel, entre avenidas áridas e desertas de gente.
Também conheço argumentos farisaicos dos proponentes da ponte, ávidos sacerdotes de Mamon, autoungidos como empresários socialmente irresponsáveis. Na verdade, sabem os menos ingênuos, eles se baseiam em premissas inaceitáveis, tais como uma visão imediatista, materialista e comprometida irrestritamente não só com o capital especulativo, que já está pondo as mangas de fora no Recôncavo, como aqueles que investem aquí usando os mesmos padrões aplicados em Pago-Pago ou na Jamaica. A cultura e a especificidade locais são violentadas e prostituídas e o progresso chega através do abastardamento de toda verdadeira riqueza das populações assim atingidas. As estatísticas são outro instrumento desses filibusteiros do progresso que em nosso meio abundam, entre concorrências públicas fajutas, superfaturamentos, jogadas imobiliárias e desvios de verbas. Mas essas estatísticas, mesmo quando fiéis aos dados coligidos, também padecem de pressupostos questionáveis. Trazem à mente o que alguém já disse sobre a estatística, definindo-a como a arte de torturar números até que eles confessem qualquer coisa. E confessarão, é claro, pois Mamon é forte e sempre esteve na crista da onda. Mas não mostrarão que esse progresso é na verdade uma face de nosso atraso. Atraso que transmutará Itaparica num ponto de autopista, entre resorts, campos de golfe e condomínios de veranistas, uma patética Miami de pobre. E que, em lugar de valorizar o nosso turismo, padroniza-o e esteriliza-o, matando ao mesmo tempo, por economicamente inviável, toda riqueza de nossa cultura e nossa História. Quem não é atrasado sabe disso. Para não cometer esse tipo de atentado é que, em Paris, por exemplo, não se permite a abertura de shooppings onde isso possa ferir o comércio de rua tradicional. Tampouco, em Veneza, as gôndolas foram susbstituídas por modernas lanchas. Num país não submetido a esse estupro socioeconômico e cultural, os saveiros seriam substituídos, as antigas profissões, o artesanato e o pequeno comércio também. Exercendo a vocação turística de toda região, teríamos razão em nos mostrar com tanto orgulho quanto um europeu se mostra a nós. Mas nosso destino parece ser acentuar infinitamente a visão que enxerga em nós um país de drinques imitando jardins, danças primitivas, pouca roupa e nativas fáceis.
Adeus Itaparica do meu coração, adeus raízes que restarão somente num muro despencado ou outro, no gorgeio aflito de um sabiá sobrevivente, no adro de alguma igrejinha venerável por milagre preservada, na fala, daquí a pouco perdida, de meus conterrâneos da contracosta. Sei em que conta me terão os que querem a ponte e não tem como dizer que só estão mesmo é a fim de grana, venha ela de onde vier e como vier. Conheço os polissílabos altissonantes que empregam, sei da sintaxe americanalhada em que suas exposições são redigidas e provavelmente pensadas, como convém a bons colonizados, já ouví todos os verbos terminados em "izar" com que julgam dar autoridade a seu discurso. É bem possível que a ponte seja mesmo construída, mas , pelo menos, não traio meu velho avô.
* João Ubaldo é membro da Academia Brasileira de Letras
Artigo publicado originalmente no jornal A Tarde, sexta-feira, 22 de janeiro de 2010, p.2
Em 1982 João Ubaldo inicia o romance "Viva o povo brasileiro", que se passa na Ilha de Itaparica e percorre quatro séculos da história do país. Originalmente o livro se chamava "Alto lá, meu general". Segundo João, o livro nasceu de um desafio de seus editores e da lembrança de uma afirmativa de seu pai, que dizia: "Livro que não fica em pé sozinho, não presta." Como seus livros sempre tiveram poucas páginas, diante da provocação, fez um com mais de 700.
Em 2008, o autor foi agraciado com o Prêmio Camões, considerado o maior galardão da língua portuguesa.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Poesia de Mário Quintana

...'A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo: Não deixe de fazer algo que gosta, devido à falta de tempo, pois a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais.'
Mário Quintana

Estaleiro Enseada do Paraguaçú promoverá desenvolvimento sustentável no Recôncavo

A Audiência Pública promovida pelo Ibama no município de Maragogipe na segunda-feira, 18, com o objetivo de apresentar e discutir com a sociedade o Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto ao Meio Ambiente (EIA/RIMA) do Empreendimento Estaleiro Enseada do Paraguassú, reuniu cerca de 1.500 pessoas entre ambientalistas, professores universitários, moradores dos inúmeros municípios da região, pescadores, marisqueiras, agentes governamentais, representantes do judiciário, quilombolas, enfim, todos os setores interessados na implantação do empreendimento na região do recôncavo baiano.
O evento, que teve início às 18:30 h do dia 18 e se encerrou na madrugada (03:00 h) da terça-feira, 19, foi presidido pelo coordenador de mineração e obras civis, Jorge Luiz Reis, da Diretoria de Licenciamento do Ibama Brasília, e contou com a participação de analistas ambientais da área de licenciamento do Ibama Bahia e da Procuradoria Federal Especializada (PFE).
De acordo com a coordenadora da área de licenciamento do Ibama na Bahia, Cíntia Levita, durante todo o período de realização do evento houve aproximadamente 200 questionamentos escritos por parte dos participantes e mais um número expressivo de manifestações orais. Cíntia afirma que todos esses questionamentos - cujo teor basicamente pautavam a contratação de mão-de-obra local e os benefícios advindos com a implantação do empreendimento na região, além dos aspectos relacionados à proteção ambiental da área -, foram respondidos.
A discussão em torno do EIA/RIMA do Empreendimento Estaleiro Enseada do Paraguassú, segundo Cíntia Levita, foi muito importante “porque oportunizou que a comunidade levantasse questionamentos, aspectos sobre a implantação do empreendimento, que provavelmente irão influenciar, subsidiar, durante a elaboração do Parecer Técnico”.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Bahia lança campanha SOS Haiti

A Bahia, manifestando solidariedade às vítimas do terremoto ocorrido no Haiti no dia 12 deste mês, lançou a campanha Bahia SOS Haiti, para arrecadar contribuições para a reconstrução daquele país, que tem um saldo próximo a 200 mil mortos e quase 1 milhão de desabrigados. As doações podem ser feitas por qualquer pessoa, física ou jurídica, no Banco do Brasil, agência 3429-0, conta corrente 40.000-9.
A primeira-dama do Estado e presidente das Voluntárias Sociais da Bahia, Fátima Mendonça, o secretário da Indústria Comércio e Mineração (Sicm), James Correia, o vice-presidente da Federação das Indústrias da Bahia (Fieb), Sérgio Pedreira, representando o presidente Victor Ventim, e o prefeito de Salvador, João Henrique, fizeram o lançamento da campanha no auditório da Sicm, nesta segunda-feira (18).
As entidades patrocinadoras querem sensibilizar a sociedade baiana e, especialmente, as empresas industriais, no sentido de obter doações em dinheiro a serem destinadas às vítimas do terremoto.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Realizada a Audiência Pública do Estaleiro Enseada do Paraguaçu



A redução dos riscos ambientais e os benefícios sociais e econômicos provocados pela instalação do Estaleiro Enseada do Paraguaçu foram apresentados durante a audiência pública realizada nesta segunda-feira (18), na Associação Atlética de Maragojipe. As obras devem ser iniciadas no segundo semestre deste ano, representando um investimento de aproximadamente R$ 2,5 bilhões, e devem ser concluídas em 2012.
O estaleiro terá capacidade para construir plataformas de petróleo e navios e vai criar cerca de 7,9 mil empregos diretos e indiretos, sendo que 70 % será de mão-de-obra local. Na fase inicial, serão contratados 3,9 mil trabalhadores e quatro mil na fase de operação. Para garantir o pleno funcionamento do estaleiro, o Governo do Estado deve realizar obras de infraestrutura, como construção e manutenção de rodovias, abastecimento de água e energia elétrica.
A dona de casa Marinalva Almeida dos Santos, 52 anos, moradora de Cachoeira, está confiante de que o empreendimento irá desenvolver a economia do recôncavo. Marinalva tem quatro filhos, todos desempregados, sobrevivendo da pesca artesanal, e espera que eles possam trabalhar no estaleiro, melhorando a renda de sua família. “Aqui temos dois caminhos, a pesca ou trabalhar em órgãos públicos, mas nem todo mundo passa em concurso público. Agora, vamos realizar nosso sonho de ter um emprego decente”, afirmou.
Segundo o secretário extraordinário da Indústria Naval e Portuária, Roberto Benjamin, o empreendimento vai beneficiar não só a família de Marinalva, mas toda a população do recôncavo baiano com geração de emprego e renda. "Haverá também benefícios sociais, como construção de centros de formação profissional, apoio a atividades culturais e à pesca artesanal e revitalização dos monumentos históricos das cidades no entorno do empreendimento".
Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Pesada e Montagem Industrial da Bahia, Adalberto Galvão, o Recôncavo precisava de um empreendimento desse porte. Ele explica que o estaleiro vai desenvolver o setor da construção civil e industrial na região.
De acordo com o secretário de Indústria, Comércio e Mineração, James Correa, o estaleiro vai atrair outras indústrias para o recôncavo, desenvolvendo ainda mais a economia local. Além da atração de empresas, serão adotadas políticas habitacionais por meio de construção de Vilas Habitacionais no entorno do estaleiro. Atualmente, o canteiro de obras da Petrobras tem cerca de dois mil funcionários, entre soldadores, operadores de máquinas, instrumentistas, técnicos e engenheiros.
Meio Ambiente - Durante o evento, foram apresentados à população os resultados do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e do Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) para a execução do projeto. O processo para licenciamento ambiental foi iniciado em novembro de 2008. O estudo de impacto ambiental desenvolvido pelo Consórcio Enseada Paraguaçu, que reúne as empresas OAS, Odebrecht e UTC, foi entregue ao IBAMA em dezembro de 2009.
Segundo o diretor do consórcio, Bruno Dauster, o projeto visa minimizar os riscos ambientais por meio de ações de sustentabilidade. Ele afirma que as atividades industriais desenvolvidas no estaleiro não ofereceram riscos de contaminação química para os funcionários, para a população ou para o meio ambiente.
Serão apoiados projetos de defesa das nascentes e manguezais e as atividades pesqueiras artesanais. Varias medidas serão implantadas pelo empreendimento, a fim de reduzir os impactos industriais, entre elas a construção de estação de tratamento e drenagem para evitar contaminação dos rios, a prevenção de acidentes ambientais, monitoramento de riscos e auditorias ambientais e recuperação das nascentes e dos manguezais.
Segundo o secretário estadual de Meio Ambiente, Juliano Matos, para o resgate da fauna será criada uma reserva de preservação que terá o dobro da área do empreendimento. De acordo com ele, a empresa responsável pela construção do estaleiro é responsável pelo desenvolvimento de todas as ações de redução dos impactos ambientais, cabendo ao Estado fiscalizar.
O Estudo de Impacto Ambientais abrangeu os municípios de Maragojipe, Salinas das Margaridas e Saubara como Área de Influência Direta (AID) do empreendimento, pela proximidade física, interação sócio-cultural e econômica. Cachoeira, São Félix e Itaparica são áreas de Influência Indireta (AII). As comunidades locais foram mobilizadas desde outubro de 2008 e informadas a respeito dos impactos na região, através da participação ativa de reuniões com os técnicos responsáveis.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Lavagem do Bomfim - Passado e Futuro

Foto de LUCIANO DA MATTA Agência A Tarde 14.1.2010
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História
A origem da festa, de acordo com os estudiosos, remonta aos tempos da escravidão. A devoção ao Senhor Bom Jesus do Bom Fim veio de Portugal com o capitão de mar e guerra Theodózio Rodriques de Farias, em 1754.
Salvo de uma tempestade em alto mar e agradecido pelo “milagre”, ele trouxe uma imagem de madeira do Bom Jesus do Bonfim semelhante a da Igreja de Setúbal (Portugal) e, na colina mais alta de Itapagipe, de frente pro mar, criou a irmandade e mandou construir o templo.
Naquela época, eram poucas as casas de veraneio localizadas naqueles sítios distantes do centro urbano de Salvador.
O capitão morreu em 1757 e o corpo está enterrado na própria Igreja do Senhor do Bonfim. Outro incremento às comemorações foi a decisão do Papa Pio VII de determinar a celebração da festa em ato público da Igreja Católica, em 1804. A partir de então romarias de devotos chegavam de diversas partes do estado para homenagear o Senhor da Colina.
Para a festa anual da igreja católica em devoção ao “milagroso padroeiro”, celebrada no terceiro domingo de janeiro, fazia-se necessário lavar o interior do templo, sacudir e arrumar os altares. Os senhores da irmandade organizavam a faxina, a lavagem literal do templo, na quinta-feira antes da festa dominical, trabalho geralmente feito por escravos e voluntários, que apanhavam água em fontes, bicas e ribeiras distantes e subiam a colina com potes e vasilhas d’água na cabeça, para a limpeza geral. Esse cortejo então se fazia com cantos festivos, às vezes em ioruba ou banto, e a festança foi cada ano atraindo mais e mais devotos que armavam suas barracas e festejavam o santo milagroso da Bahia com muita comilança, samba-de-roda e brincadeiras. Os mais abastados, em suas casas de veraneio próximas, recebiam os convidados em dias de celebrações, orações, danças, cantorias e muita comilança.
Com o passar do tempo e a popularização (profanação) da festa católica, as autoridades da Igreja trataram de fechar as portas do templo aos “exaltados festeiros”, mas a tradição e a alegria da “lavagem” foram mantidos e certas manifestações de devoção e fé preservadas.
A despeito das mudanças naturais dos tempos e das circunstâncias históricas, a Lavagem do Bonfim continua sendo uma bela e concorridíssima manifestação popular. É tida como a segunda maior festa do verão da Bahia, pela quantidade de gente, logo atrás do Carnaval. Na segunda-feira seguinte a folia continua na Ribeira, a poucos quilômetros, na beira mar. Era chamada de segunda-feira gorda, uma prévia do carnaval, muvuca de bebida, comida e muita roda de samba na metade do século passado. A festa da Ribeira emagreceu, mas alguma folia popular resiste, apesar da violência nas ruas do bairro.

domingo, 17 de janeiro de 2010

25 anos da Nova República

RUBENS RICÚPERO*
Neste um quarto de século, o país obteve conquistas sem nenhuma ruptura da legalidade constitucional
A ELEIÇÃO de Tancredo Neves pelo Congresso Nacional deu início à mais longa experiência na história do Brasil de uma democracia de massas autêntica que, ao mesmo tempo, demonstrou a competência para superar o passado de instabilidade, golpes militares, inflação e desigualdade extrema. A frustração das Diretas explica, sem justificar, o erro histórico de julgamento dos radicais que se recusaram a participar da escolha feita pelo Colégio Eleitoral. O tempo se encarregou de dar razão ao punhado de corajosos deputados do PT que votaram por Tancredo a fim de evitar o risco do prolongamento da ditadura num colégio em que o resultado final era incerto. Engrandeceria o PT, ironicamente um dos maiores beneficiários da decisão, relembrar a data praticando o que João Paulo 2º chamava de "purificação da memória". Esse processo implica o reconhecimento público do erro e a reparação aos que foram expulsos e tiveram a carreira política destruída, como Airton Soares. Por que não ampliar a autocrítica que, de uma forma ou de outra, o partido ou o presidente Lula já fizeram em relação a dois outros de seus equívocos históricos: a recusa de assinar a Constituição de 1988 e a oposição ao Plano Real? Ajudaria a retirar da data o estigma de efeméride envergonhada. Afinal, o povo não se enganou sobre o sentido do momento, eternizando a imagem da multidão que cantava o hino nacional diante do Congresso, abrigando-se da chuva sob gigantesca bandeira auriverde. A Nova República completa um quarto de século, seis anos mais que a redemocratização de 1945. É suficiente para um julgamento: consolidou a democracia; aprovou Constituição de grandes avanços sociais; liquidou a inflação crônica agravada pelo governo Kubitschek; redescobriu o caminho do crescimento econômico comprometido desde o fim do governo militar e, mais recentemente, com contribuição decisiva do governo Lula, vem atenuando de modo significativo a pobreza e a desigualdade herdadas do passado. É um balanço impressionante por qualquer critério e provavelmente não tenha paralelo em nenhum outro período comparável da história nacional. São conquistas que merecem valorização porque alcançadas sem nenhuma ruptura da legalidade constitucional, em contraste com o regime de exceção, que não resolveu nenhum problema fundamental do Brasil e criou alguns novos. A democracia provou sua força ao superar provas difíceis como a inacreditável fatalidade da doença e morte de Tancredo e do processo de afastamento de Collor. Seu fracasso mais inquietante tem sido a incapacidade de reformar as instituições de governo e de extirpar a corrupção sistêmica. A influência externa que mais a beneficiou foi o fim da Guerra Fria, que ajudou a deixar para trás a polarização e a radicalização da vida política, fator-chave do golpe militar e comum hoje em países vizinhos. Obra coletiva, o sucesso da democracia revela o dedo de muita gente, mas é justo realçar que Fernando Henrique e Lula devem bastante a Sarney e a Itamar, obrigados a governar em tempos bicudos. Tancredo foi o maior presidente que o país nunca teve. Não pelo governo que podia ter sido e que não foi, mas porque, apesar da morte prematura, deixou impressa no Brasil de hoje a marca do seu espírito: equilíbrio, moderação, compromisso, tolerância e bom humor.
RUBENS RICUPERO, 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco).

sábado, 16 de janeiro de 2010

Zilda Arns - Últimas Palavras

ZILDA ARNS*
Sou a 12ª de 13 irmãos, cinco deles são religiosos. Três irmãs religiosas e dois sacerdotes franciscanos. Um deles é D. Paulo Evaristo, o Cardel Arns, Arcebispo emérito de São Paulo, conhecido por sua luta em favor dos direitos humanos, principalmente durante os vinte anos da ditadura militar do Brasil.
Em maio de 1982, ao voltar de uma reunião da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, D. Paulo me chamou pelo telefone a noite. Naquela reunião, James Grant, então diretor executivo da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), falou com insistência sobre o soro oral. Considerado como o maior avanço da medicina no século passado, esse soro era capaz de salvar da morte milhões de crianças que poderiam morrer por desidratação devido a diarreia, uma das principais causas da mortalidade infantil no Brasil e no mundo. James Grant conseguiu convencer a D. Paulo para que motivasse a Igreja Católica a ensinar as mães a preparar e administrar o soro oral. Isto podia salvar milhares de vidas.
Viúva fazia cinco anos, eu estava, naquela noite história, reunida com os cinco filhos, entre os nove e dezenove anos, quando recebi a chamada telefônica do meu irmão D. Paulo. Ele me contou o que havia passado e me pediu para refletir sobre ele. Como tornar realidade a proposta da Igreja de ajudar a reduzir a morte das crianças? Eu me senti feliz diante deste novo desafio. Era o que mais desejava: educar as mães e famílias para que soubessem cuidar melhor de seus filhos! Creio que Deus, de certo modo, havia me preparado para esta missão. Baseada na minha experiência como médica pediatra e especialista em saúde pública e nos muitos anos de direção dos serviços públicos de saúde materna-infantil, compreendi que, além de melhorar a qualidade dos serviços públicos e facilitar às mães e crianças o acesso a eles, o que mais falta fazia às mães pobres era o conhecimento e a solidariedade fraterna, para que pudessem colocar em prática algumas medidas básicas simples e capazes de salvar seus filhos da desnutrição e da morte, como por exemplo a educação alimentar e nutricional para as grávidas e seus filhos, a amamentação materna, as vacinas, o soro caseiro, o controle nutricional, além dos conhecimentos sobre sinais e sintomas de algumas doenças respiratórias e como as prevenir.
Me vem a mente então a metodologia que utilizou Jesus para saciar a fome de 5.000 homens, sem contar as mulheres e as crianças. Era noite e tinham fome. Os discípulos disseram a Jesus que o melhor era que deixassem suas casa, mas Jesus ordenou: "Dai-lhes vós de comer". O apóstolo Felipe disse a Jesus que não tinham dinheiro para comprar comida para tanta gente. André, irmão de Simão, sinalou a uma criança que tinha dois peixes e cinco pães. E Jesus mandou que se sentassem em grupos de cinquenta a cem pessoas (em pequenas comunidades). Então pensei: Por que morrem milhões de crianças por motivos que podem facilmente ser prevenidos? O que faz com que eles se tornem criminosos e violentos na adolescência?
Recordei o inicio da minha carreira, quando me desafiei a querer diminuir a mortalidade infantil e a desnutrição. Vieram a minha mente milhares de mães que trocaram o leite materno pela mamadeira diluída em água suja. Outras mães que não vacinam seus filhos, quando não havia ainda cesta básica no Centro de Saúde. Outras mães que limpavam o nariz de todos os seus filhos com o mesmo pano, ou pegavam seus filhos e os humilhavam quando faziam xixi na cama. E ainda mais triste, quando o pai chegava em casa bêbado. Ao ouvir o grito de fome e carinho de seus filhos, os venciam mesmo quando eram muito pequenos. Sabe-se, segundo resultados de pesquisas da OMS (Organização Mundial da Saúde), cuja publicação acompanhei em 1994, que as crianças maltratadas antes de um ano de idade têm uma tendência significativa para violência, e com frequência fazem crimes antes dos 25 anos.
A PASTORAL DA CRIANÇA

Desde a sua fundação, a Pastoral da Criança investe na formação dos voluntários e no acompanhamento de crianças e mulheres grávidas, na família e na comunidade.
Atualmente, existem 1.985.347 crianças, 108.342 mulheres grávidas de 1.553.717 famílias. Sua metodologia comunitária e seus resultados, assim como sua participação na promoção de políticas públicas com a presença em Conselhos de Saúde, Direitos da Criança e do Adolescente e em outros conselhos levaram a mudanças profundas no país, melhorando os indicadores sociais e econômicos. Os resultados do trabalho voluntário, com a mística do amor a Deus e ao próximo, em linha com nossa mãe terra, que a todos deve alimentar, nossos irmãos, os frutos e as flores, nossos rios, lagos, mares, florestas e animais. Tudo isso nos mostra como a sociedade organizada pode ser protagonista de sua transformação. Neste espírito, ao fortalecer os laços que ligam a comunidade, podemos encontrar as soluções para os graves problemas sociais que afetam as famílias pobres.
Como os pássaros, que cuidam de seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe de predadores, ameaças e perigos, e mais perto de Deus, deveríamos cuidar de nossos filhos como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-los.

Muito Obrigada!
Que Deus esteja convosco!
Dra. Zilda Arns Neumann
Médica pediatra e especialista em Saúde Pública
Fundadora e Coordenadora da Pastoral da Criança Internacional

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Zilda Arns - Exemplo e inspiração

Marina Silva*
É muito chocante e triste a perda, mas ao mesmo tempo é um sinal de esperança na humanidade o fato de Zilda Arns, aos 75 anos e com um trabalho reconhecido mundialmente, não ter se deixado levar pelo prestígio e unânime admiração, pela tentação legítima da aposentadoria merecida junto aos filhos e netos, e ter terminado sua missão no Haiti, um país com 80% da população em situação de miséria. E fazendo uma palestra para, mais uma vez, exortar à solidariedade com os mais frágeis, à compaixão, ao afeto e ao compartilhamento de conhecimentos como ferramentas para recuperar e salvar pessoas, mesmo em realidades aparentemente irrecuperáveis.
Morreu junto dos mais pobres entre os pobres. Tentando fazer algo por um país que muitos consideram inviável.
Zilda Arns sempre foi uma presença discreta, mas decisiva - com a imponência e a confiança daquele sorriso tranquilo e indestrutível - em favor dos que têm tão pouco que chegam a pensar que não têm nada. A doutora Zilda demonstrava que era possível reagir sempre e recuperar a dignidade, tão emblematicamente estampada na infância que rebrota vigorosa em crianças que pareciam condenadas, desde cedo, a perder o viço e a vontade de viver.
O que está acontecendo no Haiti é dramático demais, atinge todos os limites da dor. E o Brasil está profundamente ligado a tudo isso. Antes, pelo trabalho de coordenação da força de paz da ONU no país. Agora, pelos militares e civis brasileiros mortos. E por Zilda Arns, amada em tantos países para onde levou o trabalho da Pastoral da Criança - fundada por ela em 1983 - e sua receita de compromisso e persistência na luta contra a desnutrição e a morte prematura, baseada principalmente na afirmação do papel fundamental da família, no fortalecimento da comunidade, no cuidado amoroso com as pessoas e em soluções simples, como o soro caseiro e a multimistura.
Como bem disse o senador Pedro Simon, ela também "morreu em combate". Lutava por um mundo mais justo, mais humano, mais solidário e mais bonito, com gente mais feliz.
Zilda Arns leria um discurso num encontro de religiosos no Haiti, no qual relataria que a Pastoral da Criança nasceu inspirada na passagem bíblica que narra a multiplicação dos pães e dos peixes por Jesus.
Com a certeza de que temos todos que tentar ser um pouco Zilda Arns, tomo a liberdade de dar a ela a palavra para encerrar este artigo, com trechos do seu discurso. São seus últimos ensinamentos. Que saibamos aprendê-los e praticá-los:
"A solução para a maioria dos problemas sociais está relacionada à urgente redução das desigualdades, com a eliminação da corrupção, com a promoção da justiça social, com o acesso à saúde e à educação de qualidade, a ajuda financeira e técnica mútua entre as nações, para a preservação e recuperação do meio ambiente (...) O mundo está despertando para os sinais da calamidade ambiental, que se manifestam nos desastres naturais mais intensos e frequentes".
"A grande crise econômica demonstrou a interrelação entre os países. Para não sucumbir, exige-se solidariedade entre as nações. Essa solidariedade e fraternidndade é o que o mundo mais necessita para sobreviver e encontrar o caminho da paz".
"Toda a experiência nos mostra como a sociedade organizada pode ser protagonista de sua transformação. Neste espírito, ao fortalecer os laços com a comunidade, podemos encontrar as soluções para os graves problemas sociais que afetam as famílias pobres".

*Marina Silva, senadora (PV-AC) é pré-candidata à Presidência do Brasil

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Estaleiro poderá gerar 7 mil empregos na região de Maragojipe

Com a proximidade da Audiência Pública do Estaleiro Enseada do Paraguaçu, no dia 18, em Maragojipe, a Secretaria Extraordinária de Indústria Naval e Portuária (Seinp), juntamente com a Superintendência de Desenvolvimento Industrial e Comercial (Sudic), realizou, nesta sexta-feira (8), encontro com prefeitos, secretários e vereadores dos municípios de São Félix, Maragojipe, Saubara, Salinas das Margaridas, Cachoeira, Itaparica e Nazaré, além de representantes do Consórcio UTC, Queiroz Galvão e Odebrecht para debater diretrizes para a audiência, que será realizada às 18h30, na Associação Atlética Maragojipana.
Durante o encontro, o secretário Roberto Benjamin, da Seinp, apresentou a nova secretaria e o empreendimento que vai gerar cerca de 7 mil empregos na região do Recôncavo Baiano, dinamizando a economia local. O Estaleiro Enseada do Paraguaçu, empreendimento com cerca de R$ 2 bilhões em investimentos, é uma unidade industrial de construção de embarcações, a exemplo de plataformas e navios, e sua construção está baseada no desenvolvimento sustentável. De acordo com o secretário, a audiência é uma das etapas mais importantes do licenciamento ambiental e o debate com as autoridades é indispensável para a concretização e execução do projeto.
A participação efetiva das comunidades locais também foi destacada. O projeto de Interação Social, desenvolvido pela Seinp, vem construindo, desde outubro de 2008, canais de diálogo, debates, informação e comunicação bilateral com as lideranças atuantes neste território, como instituições universitárias, religiosas, Conselho da Reserva Extrativista Baía do Iguape, ONGs, comunidades tradicionais e quilombolas, ouvindo as sugestões e críticas da população. Os resultados do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e do Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) também foram apresentados no encontro.
O planejamento do estaleiro contempla ainda políticas públicas para infraestrutura de transporte, energia, telecomunicações, saneamento, educação básica e profissionalizante, saúde e segurança. O prefeito de Maragojipe, Sílvio José Santana Santos, destacou a importância do estaleiro para a região. “Este é um momento diferenciado para o Recôncavo. As perspectivas econômicas e sociais são excelentes”. O empreendimento está sendo planejado para conviver e atuar de forma sustentável com a pesca, o comércio, serviços, turismo, agricultura e todas as outras atividades econômicas locais, tanto formais quanto informais.
Fonte: Agecom

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A Economia política da Tragédia

Luiz Gonzaga Belluzo*
Os deslizamentos de terra assassinos ocorridos entre o Natal e o Réveillon, ao que tudo indica, estão incorporados à rotina do verão brasileiro. Entra ano, sai ano, as festas de muitas famílias brasileiras terminam em luto, em desespero e em saudade. É cômodo atribuir os desastres às vindicações da natureza e suas perversidades. Mas os homens de boa vontade, ambientalistas ou não, compreendem que o fenômeno tem uma dimensão histórica e, portanto, humana, enquanto expressão da ação coletiva de transformação da natureza e da sociedade. No Brasil, o "desenvolvimentismo" e o processo de urbanização engendrado por ele juntaram o crescimento rápido à especulação imobiliária, ao aumento da desigualdade e à marginalização crescente dos contingentes "expulsos" de seus pagos.O professor da Unicamp Wilson Cano, ainda nos anos 70, avaliou de forma profética os efeitos da expulsão de migrantes para as urbes do Sudeste. As cidades não cresciam, inchavam. Inchaço produzido pela incapacidade das políticas de Estado em lidar, na origem, com os desequilíbrios regionais -sobretudo com a questão agrária- e, no destino, de enfrentar a selvageria dos interesses cobiçosos. A urbanização caótica é a face moderna de uma estrutura agrária arcaica, fenômeno já apontado por Inácio Rangel e Francisco de Oliveira. Essa dualidade contraditória resistiu bravamente às experiências dos países ocidentais no pós-Guerra, que cuidaram de promover a democratização da propriedade urbana e rural. Por isso, em todas as etapas, inclusive agora, as políticas de ocupação do solo, zoneamento e proteção de mananciais são sistematicamente violadas, seja pelo ímpeto dos empreendedores imobiliários, seja pelo desespero dos migrantes despossuídos. As criaturas dessa urbanização patológica projetam seus espectros no cotidiano vivido pelos brasileiros nos dias atuais. A desregrada ocupação do solo, a favelização, a desconstituição familiar, a marginalidade social, a desorganização dos sistemas de transporte público e a decadência do sistema educacional, particularmente do ensino básico, são frutos da mesma árvore. Esse arranjo, típico de uma sociedade de massas periférica, combina ainda, perigosamente, a rápida "internacionalização" dos modos de consumo dos ricos e remediados com a persistência da desigualdade, a despeito dos esforços das políticas sociais dos últimos 15 anos. Daí a deterioração dos padrões de convivência (ou, se quiserem, de urbanidade) nas grandes cidades, culminando nas formas conhecidas de violência urbana (organizadas e desorganizadas), aí incluídas as rotineiras tragédias de verão, um modo de violência preparada em silêncio ao longo dos anos nas encostas ou nos sopés dos morros. A persistência dessas mazelas não desenha o futuro que muitos antecipam ao projetar um desempenho brilhante da economia. Esse futuro é, sim, possível, mas a nossa experiência histórica comprova que o sucesso econômico está longe de assegurar padrões de convivência civilizados, dignos da cidadania.
LUIZ GONZAGA BELLUZZO , 67, é professor titular de Economia da Unicamp. Foi chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda.

Márcia Castro no projeto Samba da Igreja

A antiga igreja da Barroquinha, hoje transformada no Espaço Cultural da Barroquinha, agora, toda segunda-feira é o palco do projeto Samba na Igreja.
A cantora baiana Márcia Castro teve participação especial no show desta segunda-feira, 11 de janeiro. Cantando muito Samba e músicas do último album "Pecadinho" , Márcia mostrou muita energia num breve show que foi um aquecimento para a temporada de verão da cantora em Salvador, que terá apresentações dias 21 de janeiro no Sesc/Senac do pelourinho e também 22 de janeiro no Festival de Verão.
O projeto Samba da Igreja, traz como anfitriões os cantores Sandra Simões e Mazzo Guimarães, que comandam a festa, com a direção musical de Luciano Salvador Bahia e a produção de Flávia Motta. O Samba da Igreja propõe uma verdadeira roda de samba, onde desfilarão grandes clássicos do samba brasileiro, o melhor do samba baiano e também composições novas, autorais e de compositores da nova geração. Ao longo do verão o Samba da Igreja trará também muitos convidados, tudo isso em um lugar muito especial. A antiga igreja da Barroquinha, outrora, ligada às tradições das nações negras, era freqüentada por mulheres “nagô-iorubás” da nação Ketu, pela população pobre e de trabalhadores das imediações. Hoje, acolhe com nobreza, a raiz da música brasileira: O SAMBA.
O show recria o clima de festa de largo, com o palco armado no adro, tendo como cenário a própria igreja. Teremos também, toda segunda-feira a performance da VJ Bárbara Tércia.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Terceiro salto reposiciona o turismo da Bahia no cenário nacional.

Celsinho Cotrin*
Graças à visão da secretaria de turismo do estado da Bahia e da Bahiatursa sobre a relevância econômica do turismo , estabeleceu-se, desde o início da gestão Wagner, o diálogo com os diversos setores da sociedade, discutindo em Fórum Estadual permanente o que é melhor para o turismo no estado da Bahia.O governo se apresenta como instrumento aglutinador dos secretários municipais e gestores de turismo, donos de hotéis, pousadas, agentes e operadores de viagens, entidades civis organizadas, como a ABAV, o Convention Bureau, a ABIH, os sindicatos e associações de trabalhadores, a EMBRATUR, o Ministério do Turismo e as companhias aéreas que participam e definem os rumos deste novo processo.
O resultado dessa estratégia se revela em dados expressivos. São 247 milhões de reais captados para investimentos no setor privado, incluindo aí, 20 milhões só para fortalecer o Litoral Norte, o que representa um crescimento de 159% nos últimos três anos. A retomada de vôos da Air Europa para Madri com uma taxa de ocupação de 98%. Além disso, conquistamos mais dois vôos regulares para a Argentina e um dos melhores aproveitamentos no vôo da American Air Lines, Salvador/Miami.
Novos produtos e segmentos que o diferenciam dos demais destinos, como o primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento do Turismo Náutico, o Eno Turismo, o Turismo Étnico-Afro, o turismo religioso, as aldeias indígenas e o roteiro integrado entre a Bahia, o Rio de Janeiro e Amazonas, reconhecidos como iniciativas de sucesso no Congresso da ABAV, posicionam, de forma inequívoca, o turismo da Bahia no cenário nacional e internacional.
Em parceria com o governo Lula, está investindo na infra-estrutura, captando recursos para a requalificação das orlas de Salvador-trecho Amaralina/Pituba, do município de Imbassaí e da Feira de São Joaquim. Com recursos internacionais, inaugura a nova estrada que liga Itacaré a Camamú. É autorizado a realizar operações noturnas no aeroporto de Ilhéus e dá início a reforma dos centros de convenções de Salvador, Porto Seguro e Ilhéus.
Através do Ministério do Turismo, passa de 500 para 5 milhões de reais por ano para a qualificação profissional e empresarial, devendo, inclusive, ganhar um centro de qualificação para área náutica e vai capacitar 1,4 mil profissionais para o turismo étnico-afro.
Investe maciçamente na promoção regional, nacional e internacional, promovendo o Vale do São Francisco com o eno-turismo, a exposição Bahia Mostra Bahia, atraindo e apoiando eventos como a Maratona de Canoagem nas águas do Velho Chico, a corrida Running da Aventura em Itaparica, o III Festival Gastronômico da Chapada e também, festivais internacionais, o Festival de Inverno de Lençóis, workshops no Rio de Janeiro e Belo Horizonte, divulgando o turismo étnico afro em Boston, Washington, Chicago e Philadelphia.
Apóia artista plástico que vai homenagear a Bahia na Europa, patrocina a regata francesa Charente-Marentine que completou o percurso na Baía de Todos os Santos. A Bahia foi a atração no XII salão imobiliário de Portugal e também, vira destaque em site americano. Tem excelentes resultados com a crescente ocupação hoteleira. Só a CVC já vendeu 300 mil pacotes para a Bahia este ano.
O nosso estado tornou-se a referência nordestina para saída e chegada de cruzeiros marítimos. Juntamente com a Secretaria de Meio Ambiente vai estimular os turistas a criarem raízes na Bahia, plantando uma árvore no Parque Metropolitano de Pituaçú, visando atrair turistas durante a Primavera.
Apresenta serviços inovadores, como o Disque Bahia Turismo, os guias e monitores do Carnaval e do São João e aperfeiçoa os serviços de atendimento ao turista e de receptivo, a fim de que estejamos estruturados para melhor atender aos visitantes e turistas. É premiada permanentemente pelo Trade Turístico, a exemplo dos troféus Catavento de Prata e também ganhou prêmio por melhor anúncio impresso do Nordeste.
Por sua belezas naturais, pelo sorriso do nosso povo, pelo Carnaval, pelo Espicha Verão, pelo São João e pelo desenvolvimento do turismo é que a Bahia se consolida como destino preferido entre os brasileiros.
Celso Zallio Coelho, é diretor da Bahiatursa.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Rumo à salvação da cidade

Ilustração de BRUNO AZIZ
LOURENÇO MUELLER*
Diz um ditado espanhol que mais sábio é o diabo por ser velho do que propriamente por ser diabo: o arquiteto Paulo Ormindo de Azevedo publicou recentemente um artigo que mexeu com os leitores atentos e pelo menos um se mobilizou no sentido da sugestão de que o jornal A TARDE assuma discutir as questões da cidade. O arquiteto não é velho nem diabo mas foi sábio; brilhante também foi o artista gráfico Cau Gomez, ilustrador do artigo, que o fez fiel à ideia: a igual disputa do mesmo" guarda chuva" pelo pobre e pelo rico.
Por dever de ofício e de leitor devo destacar que Paulo Ormindo não tem sido o único a denunciar o abandono e o equívoco de percepção urbanística a que os governos das três esferas relegaram a nossa cidade/região.
.. O trânsito insano: " ...Não precisamos continuar vivendo atropelos, assaltos, engarrafamentos(...) só porque nossas cidades não se adaptam às novas tecnologias e permitem que este reizinho do consumo, o automóvel, tome o lugar de quase tudo" ( 19/05/2009, " Ouçam os Urbanistas" ).
Dificuldade de compreensão pelos "novos gestores" do regional versus local: ..." Salvador não tem muitas opções de crescimento. O principal problema é que não há um planejamento regional. Hoje, nenhum organismo pensa de forma conjunta a RMS, integrando o Estado, os municípios e o governo federal. O Estado tem sido muito eficiente em captar estes investimentos, em "vender" a região, mas não em planejá-la". ( 19/12/2009 - Sylvio Bandeira Revista Mais. ...
A Tarde se me afigura o fórum apropriado para essas discussões e um campo mais ou menos neutralizador de ideologias que vicejam facilmente no seio das estruturas institucionais como governo, empresa, terceiro setor e até universidade.
Como organizar eixos temáticos para objetivar os discursos e as discussões, selecionar palestranes para se pronunciarem sobre os assuntos referidos acima já será uma tarefa assumida pelo jornal.
Poderámos avançar em em três eixos, que deverão ser tratados ao nível das políticas públicas, sempre integradas com a própria urbanização regional e construção de um novo modelo de cidade.
Infraestrutura: - Abastecimento de água e esgotamento sanitário pensado em conjunto com a macrodrenagem e a contenção de encostas. Sistema viário revisto em função de uma nova matriz de mobilidade, que privilegie o transporte público de massa, o pedestre e o ciclista, dê espaço para portadores de deficiência e minimize, sobretudo nos centros da cidade, o papel do automóvel.
Habitação Popular:- A definição, a partir de um plano diretor metropolitano, das novas áreas de crescimento da cidade, da região e do uso e ocupação do solo indicativos da expansão da cidade-sede regional e suas limitações.
Cultura - A revisão de conceito no que concerne às atividades artísticas ocorrentes e a preparação das mesmas para o casamento da arte com o urbanismo.
*Lourenço Mueller, arquiteto e urbanista, trabalha no Departamento de Planejamento Urbano e Ambiental /Companhia de Desenvolvimento Urbano da Bahia – CONDER

sábado, 9 de janeiro de 2010

A Teoria de Gaia e o futuro da Humanidade

As origens da moderna Teoria de Gaia (nome da antiga deusa grega pré-helênica que simbolizava a Terra viva) se encontram nos primeiros dias do programa espacial da NASA (Capra, 1997, p. 90). Os vôos espaciais que começaram na década de 60 permitiram aos homens modernos perceberem o nosso planeta, visto do espaço exterior, como um todo integrado, um Holos extremamente belo.... Daí as primeiras palavras dos astronautas serem de deslumbramento e emoção, muito longe do linear e frio linguajar técnico-científico presente nas operações de pesquisa e de lançamento dos veículos espaciais. Todos nós lembramos das poéticas palavras de Yuri Gagarin: "A Terra é azul"... Pois bem, esta percepção da Terra em toda a sua poética beleza, foi uma profunda experiência espiritual, como muitos dos primeiros astronautas não se cansaram de dizer, mudando profundamente as suas concepções e seu modo de relacionamento com a Terra. De certa forma, este deslumbre foi o passo inicial do resgate da idéia muito antiga da Terra como um organismo vivo, presente em todos as culturas e em todos os tempos (Capra, obra cit., p. 90; Campbell, 1990; Eliade, 1997).
Posteriormente, a NASA convidaria James Lovelock (foto)
para ajudá-la a projetar instrumentos para a análise da atmosfera e, conseqüentemente, para a detecção de vida em Marte, para onde seria enviada uma sonda Viking.
A pergunta capital para Lovelock, dentro deste contexto, era: "Como podemos estar certos de que o tipo de vida marciano, qualquer que seja ele, se revelará aos testes de vida baseados no tipo de vida terrestre, que é o nosso referencial?". Este questionamento o levou a pensar sobre a natureza da vida e como ela poderia ser reconhecida nas suas várias possibilidades.
A conclusão mais óbvia que Lovelock poderia chegar era a de que todos os seres vivos têm de extrair matéria e energia de seu meio e descartar produtos residuais em troca. Assim, pensando no meio terrestre, Lovelock supôs que a vida em qualquer planeta utilizaria a atmosfera ou, no caso de os haver, os oceanos como o meio fluido para a movimentação de matérias-primas e produtos residuais. Portanto, poder-se-ia ser capaz de, em linhas gerais, detectar-se a possibilidade da existência de vida analisando-se a composição química da atmosfera de um planeta. Assim, se houvesse realmente vida em Marte (por menor que fosse sua chance) a atmosfera marciana teria de revelar algumas combinações de gases características e propícias à vida que poderiam ser detectadas, em princípio, a partir da Terra. Ou, em outras palavras, qualquer planeta, para possibilitar a vida, necessita de um veículo fluido - líquido ou gasoso - para o transporte ou movimentação de componentes orgânicos e inorgânicos necessários à troca de materiais e resíduos resultantes da vida, pelo menos no nível e na dimensão do que se reconhece por vida dentro de nosso atual grau de conhecimento. Este meio fluido deve, portanto, apresentar uma somatória de características básicas.
Estas hipóteses foram confirmadas quando Lovelock e Dian Hitchcock começaram a realizar uma série de análises da atmosfera marciana, utilizando-se de observações feitas na Terra, comparando os resultados com estudos semelhantes feitos na nossa atmosfera. Eles descobriram algumas semelhanças e uma série de diferenças capitais entre as duas atmosferas: Há muito pouco oxigênio em Marte, uma boa parcela é constituída de Dióxido de Carbono e praticamente não há metano na atmosfera do planeta vermelho, ao contrário do que ocorre aqui. Lovelock postulou que a razão para tal retrato da atmosfera de Marte é que, em um planeta sem vida, todas as reações químicas possíveis já ocorreram há muito tempo, seguindo a segunda lei da termodinâmica - a da entropia que já foi exposta acima - e que estabelece que todos os sistemas físico-químicos fechados tendem ao equilíbrio termo-químico, ou de parada total de reações. Ou seja, ao contrário do que ocorre na Terra, há um total equilíbrio químico na atmosfera marciana, não ocorrendo reações químicas consideráveis hoje em dia.
Já na Terra, a situação é totalmente oposta. A atmosfera terrestre contém gases com uma tendência muito forte de reagirem uns com os outros, como o oxigênio e o metano, mas que, mesmo assim, existem em altas proporções, num amálgama de gases afastados do equilíbrio químico. Ou seja, a pesar da contínua reação entre os gases, seus componentes continuam presentes em proporções constantes em nossa atmosfera.Tal estado de coisas deve ser causado pela presença de vida na Terra, já que as plantas (terrestres e aquáticas) produzem constantemente oxigênio, e os outros organismos formam os outros gases, de modo a sempre se repor os gases que sofrem reações químicas. Em outras palavras, Lovelock provou que a atmosfera da Terra é um sistema aberto, afastado do equilíbrio químico, caracterizado por um fluxo constante de matéria e energia, influenciando e sendo influenciada pela vida, em perfeito biofeedback!
Eis as palavras de Lovelock do exato momento de sua descoberta:
"Para mim, a revelação pessoal de Gaia veio subitamente - como um flash ou lampejo de iluminação. Eu estava numa pequena sala do pavimento superior do edifício do Jet Propulsion Laboratory, em Pasadena, na Califórnia. Era outono de 1965, e estava conversando com Dian Hitchcock sobre um artigo que estávamos preparando... Foi nesse momento que, num lampejo, vislumbrei Gaia. Um pensamento assustador veio a mim. A atmosfera da Terra era uma mistura extraordinária e instável de gases, e, não obstante, eu sabia que sua composição se mantinha constante ao longo de períodos de tempo muito longos. Será que a Terra não somente criou a atmosfera, mas também a regula mantendo-a com uma composição constante, num nível que é favorável aos organismos vivos?"
Artigo originalmente publicado no site:http://www.healing-tao.com.br/