quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Orla da Ribeira conserva estilo vintage

Luis Felipe Pondé*
Uma das maiores contradições do mercado de turismo é que quando você fala de uma praia legal e vazia, logo ela estará cheia de gente ouvindo música alta e chata. Trânsito infernal. Enfim, um mundo de gente querendo ser feliz. E isso é uma das maiores pragas do mundo contemporâneo. Felicidade em bando é como um enxame de insetos famintos por sangue.
E me entenda: esse enxame não é necessariamente de gente pobre. Ricos e gente com diplomas também formam enxames de felicidade no mundo. A diferença é que estes não sabem que também formam um enxame de famintos por sangue. Acham-se acima da categoria "enxame".
Se estiver procurando uma praia que pode ser, talvez, à prova de enxames, sejam de ricos ou de pobres, proponho a orla (como se fala na Bahia) da Ribeira e a praia do Monte Serrat –ambas no extremo da cidade baixa, em Salvador. Puro "vintage de verdade", o que é raro num conceito que pressupõe uma certa dose de fake para existir.
A cidade baixa, pra quem conhece Salvador, é uma região esquecida. De lá, muita gente conhece a igreja do Bonfim, quando vai brincar de culto afro-brasileiro ou quando vai experimentar a travessia pela balsa (que na Bahia chamam de "ferryboat") pra ilha de Itaparica –onde fica o Club Med (mais brega impossível).
Outro destino comum, no comecinho da cidade baixa, é o Mercado Modelo, um inferninho de quinquilharias afro e similares. Mas que vale a visita se você estiver a fim de uma experiência antropológica feita na medida certa para o consumo de massa.
"Ser esquecido" é uma das formas mais radicais de se manter a elegância em se tratando de turismo. E a cidade baixa "profunda" é, seguramente, um lugar esquecido do mundo. Ninguém chega lá.
Mauro Akin Nassor/Fotoarena

Praia da Ribeira, em Salvador (BA)
PARAÍSO DE SILÊNCIO
A orla da Ribeira, uma praia absolutamente calma (toda a região ali é parte da baía de Todos os Santos), água brilhante e mansa, é um paraíso de silêncio, sem trogloditas felizes. Poucos carros. "Only locals", gente também esquecida pelo mundo. Casas antigas, sem reformas afetadas, assinadas por arquitetos arrogantes. Dois lugares na orla da Ribeira merecem uma visita, além da praia em si.
O primeiro é a Sorveteria da Ribeira, datada dos anos 1930. O sorvete dá de dez a zero num monte de "sorvetes italianos" por aí. Sabores locais como tapioca (antes de a tapioca virar moda) são imperdíveis.
Outro lugar especial é a oficina de azulejos do artista Prentice, um homem idoso completamente tomado pela sua arte. Seus temas variam de santos católicos a orixás africanos, passando por desenhos tipicamente portugueses. Sua própria oficina e casa onde mora são uma experiência por si só, na medida em que revelam todo o estilo "lisboeta-baiano" da virada dos século 19 para o 20, marca de grande parte da cidade baixa em Salvador.
A praia do Monte Serrat (ou avenida da Boa Viagem), uma pequena baía dentro da baía de Todos os Santos, fica um pouco adiante da igreja do Senhor do Bonfim.
Afora a praia de água tranquila e distante do frenesi comum na Bahia, o forte de Monte Serrat, datado do período colonial, é um pequeno colosso. Vazio de turistas, traz uma das panorâmicas mais lindas de Salvador.
A cidade baixa, lugar esquecido da capital, pode ser uma experiência mais atraente do que as praias badaladas de Trancoso e sua superlotação chique para paulistas entediados com a riqueza.ode ser, talvez, à prova de enxames, sejam de ricos ou de pobres, proponho a orla (como se fala na Bahia) da Ribeira e a praia do Monte Serrat –ambas no extremo da cidade baixa, em Salvador. Puro "vintage de verdade", o que é raro num conceito que pressupõe uma certa dose de fake para existir.

* Filósofo e professor, residiu em Salvador na juventude

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A vida é dádiva

Mateus Araújo
Para comemorar os 50 anos de música, a cantora Maria Bethânia fez, em 1º de fevereiro, show gratuito na praça de Santo Amaro da Purificação, sua cidade natal, na Bahia. Com bom humor, ela topou dar entrevista, por telefone, ao repórter Mateus Araújo (que também assistiu à apresentação). De Santo Amaro, Bethânia conversou com o JC: contou da emoção de voltar à sua cidade, lembrou, com saudade, de sua mãe, Dona Canô, falou de fé e de seu dia a dia. Confira trechos:
JORNAL DO COMMERCIO – Quando se assiste a um show seu, a impressão que se fica e os comentários que se ouvem é de uma sensação de êxtase. O que acontece, Bethânia, quando você olha para a sua plateia e quando você canta para ela?
MARIA BETHÂNIA – A minha entrega é absoluta, a minha vontade de atingir de tocar as pessoas. O contrário eu não sei bem. Mas, certamente, eles ficam entusiasmados. Você usou “êxtase” que é uma palavra bonita e religiosa. Eu tenho muita confiança nas coisas. Vim para o mundo traduzir isso, lembrar as pessoas sentimentos, posições, valores. E isso vai fundo. Graças a Deus!
JC – A Maria Bethânia que está no palco são várias ou uma só?
BETHÂNIA – É uma só. Mas o Brasil é muita variado, rico, deslumbrante, comovente em muitas situações; em outras, terrível. Minha vida é cantar isso. Desde que comecei a cantar e descobri que queria me expressar. Aquela frase de Ferreira Gullar que diz “a arte vive porque a vida não basta” foi meu impulso na vida. A minha sensibilidade foi dada por Deus, que aprendi com minha família, meus pais, meus colegas, fica à disposição disso.


JC – Naquela estreia, em Opinião, em 1965, você assumia um papel diretamente político. Era o primeiro espetáculo contra a ditadura militar. Mas você nunca gostou de se dizer uma artista política.
BETHÂNIA – Não é gostar. Em arte cabe tudo, ela permite permear o que quiser. O que nunca gostei são limites. “Bethânia é uma cantora de protesto.” É mentira! Sou de protesto, de romantismo, chique, brega. Não gosto de limites. Quando canto político arrebento, mas gosto de arrebentar dizendo eu te amo. É mais duro dizer “eu te amo”, principalmente nos tempos de hoje, quando há gente queimada viva mostrada na televisão, gente degolada. Fora o que acontece de ruim mais de perto da gente.
JC – Havia uma frase de Millôr Fernandes, no cartaz de anúncio da sua estreia de Opinião, que dizia “seis meses e um diretor farão dela a grande cantora brasileira”.
BETHÂNIA – Millôr? Ele nunca gostou dos baianos. Você veja como é vida. E meu pé pega um pouco na Bahia. Não sou baiana radicada, vivo no Rio desde os 17 anos, mas tenho casa na Bahia por causa da minha família. Os meninos (Caetano Veloso e Gilberto Gil) que são baianééésimos apanharam, coitados.


JC – A aproveitando que você disse ser uma voz do Brasil: O que é o Brasil para você?
BETHÂNIA – Minha terra, um lugar mágico, lindo. Que está sendo destroçado. Mas a natureza está dizendo: “cansei, estão tirando a água, querem que eu tire o ar?”. Mas o Brasil é um Pais mágico. Somos maiores do que a burrice.
JC – E sua fé, Bethânia? Ela que lhe fortalece?
BETHÂNIA – Eu vivo na mão dos deuses, santos, santas, orixás, elementos da natureza. Sou mantida por eles.
JC – Então é a eles que você agradece por essa trajetória?
BETHÂNIA – É lógico. Fazer 50 anos de carreira... Só tenho a agradecer e a abraçar. E não me arrependo de nada!
JC – Qual o maior aprendizado deixado por sua mãe, Canô?
BETHÂNIA – Minha mãe é uma mulher tão especial. O espírito dela se mantém com a aquela luminosidade. Viveu 105 anos com lucidez, educando, ensinando e aprendendo. Tudo isso é uma marca, graças a Deus, que nunca pode ser apagada de nenhum de nós – dos filhos e das pessoas que tiveram a possibilidade de viver com ela. Particularmente, se eu respirar junto vem a saudade que eu tenho dela. A falta. Mas aprendi com ela que a vida é dádiva e que não se pode tratar com menosprezo seus amores, alegrias. Há um elo muito maior que tem que ser antes de tudo vivido. Aceitei em fazer o show em Santo Amaro mesmo ela não estando fisicamente ali. Mas ela estava no meu desejo de que ela me ouvisse, estava dentro de mim. Eu saí do seu ventre e hoje ela habita dentro de mim.

JC – Você já disse que quando não está no palco está ansiosa para estar nele. Nesses ínterins, o que você costuma fazer?
BETHÂNIA – Eu sou dona de casa. Dona da minha casa. Sou minha cozinheira, adoro mexer com minhas coisas, preparar a casa para receber meus amigos. Estou agora em Santo Amaro, mas em breve vou embora pro Rio. Ficarei lá no Carnaval, que na minha casa parece que não existe Carnaval. É uma paz. E quando estou em casa, cuido do meu jardim. Sou interiorana. Adoro meus amigos, dar risada. Agora, estou lendo muito Clarice Lispector, pois ganhei dos filhos dela muitos livros. 

Natal resiste a toda tristeza


Caetano Veloso:
"Passei o dia e a noite pensando em minha mãe. O dia de Natal passou a ser também o dia em que ela morreu. Nunca imaginei que fosse achar tão difícil aceitar que ela tenha morrido. Era uma grande alegria tê-la viva. Claro que alegra também saber que ela viveu bonito por tanto tempo e morreu bonito num 25 de dezembro. Mas o mundo tem me parecido, desde então, muito pior. Infelizmente não sei rezar como ela chegou a saber. Talvez tenha aprendido (principalmente com ela) que reconhecer a beleza da vida é uma maneira de rezar. Hoje, no dia de Natal, sinto como é difícil reencontrar a beleza. Não temos, no entanto - e muito menos eu que sou filho dela - o direito de abandonar a festa. A festa de tudo o que há, que é o que significa o jeito como ela habitou este mundo. Ela pôde dizer que a ideia de um Natal feliz resiste a toda tristeza. O mais justo com sua memória é acertar a ser feliz".

Linha 2: Uma agressão urbana

Waldeck Ornelas*
Já é possível à população de Salvador ter uma ideia clara de como ficará o futuro metrô ao longo da Avenida Luís Viana. Primeiro apareceram as megaestruturas em que se transformaram as estações, ocupando todo o largo canteiro central, algumas até avançando no espaço aéreo por sobre as pistas; mais recentemente, por entre os tapumes,  pode-se visualizar a infraestrutura do metrô, acompanhada por uma contínua grade lateral. O que era uma via expressa, mas que não impedia a permeabilidade urbana, passa a ser agora um obstáculo físico intransponível, delimitando e demarcando espaços desprovidos de fluidez e inibindo a inter-relação entre áreas de uma mesma cidade, como se vivêssemos em ambientes segregados.



Concebida no final dos anos 1960, simultaneamente à implantação do sistema de avenidas de vale do Epucs, a “Paralela” – assim chamada por seu traçado em relação à Avenida Octávio Mangabeira, então congestionado acesso ao aeroporto – teve a sua primeira pista implantada por ACM, quando prefeito, e a segunda por seu sucessor, Clériston Andrade. Por muito tempo, a Paralela reinou como uma das mais belas vias urbanas de todo o país, marcada por um paisagismo de alta qualidade, tão bem cuidado, ao longo de tantos anos, pelo Cel. Cabral, que dirigia a Sucab, a Superintendência do Centro Administrativo da Bahia. Um orgulho para os baianos, uma agradável surpresa para os visitantes. Agora, com o metrô, é o fim da avenida mais bonita do Brasil! Tínhamos um parque linear e passaremos a ter um “muro da vergonha”, como tantos outros que marcam áreas conflagradas ao redor do mundo – o que não somos. Um grave retrocesso. 
Alguma inteligência privilegiada entendeu que as cidades-sede da Copa do Mundo de Futebol de 2014 deveriam ter sistemas de transporte de alta capacidade interligando os aeroportos aos estádios, porque dezenas de milhares de torcedores fanáticos por suas seleções cruzariam os céus de nosso país e, chegando aos aeroportos, se dirigiriam imediatamente aos estádios, retornando em seguida, após os jogos. Para as cidades-sede, esse seria o legado da Copa. Foi esse raciocínio que determinou a prioridade para a Linha 2 do metrô de Salvador... que, aliás, não se encontra com o terminal de passageiros do aeroporto. 
Todos sabem que o Trecho 2 do metrô é inviável economicamente, devendo por muito tempo receber subsídios extraordinários do governo do estado, onerando os combalidos cofres públicos estaduais e sugando recursos que deveriam atender a outras prioridades e urgências.
Se na escala da cidade o metrô da Paralela é uma agressão urbana, verdadeiro estupro, do ponto de vista do projeto de transporte ainda não está claro como se dará a integração com as linhas de BRT que precisarão ser implantadas ao longo dos eixos transversais – as avenidas Gal Costa e 29 de Março – seja a integração das estações, seja pela própria infraestrutura implantada, que segue um agressivo modelo rodoviarista. Assim, o que se vê é a invasão da cidade por projetos de uma engenharia viária que não têm mais cabimento nos ambientes urbanos. Tudo isto culminando com hostilidade e indiferença em relação ao pedestre – e passageiro – cujo acesso às estações deixa muito a desejar, como se não fosse esse a própria razão de ser do transporte de massa. Falta preocupação com a microacessibilidade e a integração com as áreas lindeiras. Dessa forma, o carregamento do metrô, à falta do passageiro próprio, fica na dependência da chamada integração.Pela forma como foi implantado e a partir do próprio traçado, agravado pela má qualidade do projeto, a cidade está condenada a conviver por anos a fio com um longo e sistemático trabalho de absorver o metrô, para integrá-lo ao seu cotidiano e à sua funcionalidade. O que deveria ser uma alavanca do desenvolvimento urbano incorpora-se à vida soteropolitana como um estorvo a ser corrigido.
* Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional e ex-secretário do Planejamento, Ciência e Tecnologia da Bahia. Foi Senador da República.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

ACM Neto anuncia nomes dos Secretários para novo mandato com algumas surpresas

O prefeito de Salvador anunciou a pouco os nomes do secretariado para a nova gestão que se inicia.
Surpresa maior foi a saída dos atuais secretários Paulo Fontana, Infraestrutura e Rosemma Maluf, órdem pública.
O esperado anuncio do vereador Paulo Câmara para compor a equipe não se concretizou.
A prefeitura terá nova composição de secretarias, após reforma administrativa já aprovada na Câmara de Vereadores.
Confira abaixo os perfis dos secretários:
Secretaria de Desenvolvimento e Urbanismo: Guilherme Bellintani (Foto: Divulgação)

Secretaria de Desenvolvimento e Urbanismo: Guilherme Bellintani

Foi secretário de Educação de Salvador e também da extinta pasta de Desenvolvimento, Turismo e Cultura durante a primeira gestão de ACM Neto. Assume a Secretaria de Desenvolvimento e Urbanismo pela primeira vez. É graduado em Direito e doutor em Desenvolvimento Regional e Urbano. É sócio da Faculdade Baiana de Direito e um dos fundadores do JusPODIVM, editora de livros jurídicos com atuação no norte e no nordeste.


Secretaria de Infraestrutura, Obras Públicas e Habitação:  Almir Melo (Foto: Divulgação)

Secretaria de Infraestrutura, Obras Públicas e Habitação:  Almir Melo

Ocupava a função de chefe da Superintendência de Conservação e Obras Públicas (Sucop) e agora irá comandar a secretaria de Infraestrutura, Obras Públicas e Habitação. É engenheiro civil e pós-graduado em Gerenciamento de Contratos. No setor público, foi diretor de Fiscalização da Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia (Agerba), superintendente da Superintendência de Transporte Público Salvador (STP) e da Secretaria Municipal de Urbanismo. Foi ainda secretário municipal de Transporte e Infraestrutura de Salvador e secretário de Obras e Transporte de Canavieiras.


 Secretaria de Políticas para Mulheres, Infância e Juventude: Taissa Gama (Foto: Divulgação) 

Secretaria de Políticas para Mulheres, Infância e Juventude: Taissa Gama

Assume o cargo pela primeira vez. É formada em Ciências Sociais e pós-graduada em Administração, foi diretora-geral de Turismo na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador (Secult) e coordenadora técnica na Secretaria de Desenvolvimento Urbano da Bahia. Foi também titular do Conselho Municipal da Cidade de Salvador e titular do Conselho Municipal de Turismo de Salvador. Neste último, foi também secretária executiva.


Secretaria de Educação: Paloma Modesto (Foto: Divulgação)

Secretaria de Educação: Paloma Modesto

Irá ocupar o cargo pela primeira vez. É formada em Direito com mestrado em Direito Constitucional. Executiva com carreira de mais de dez anos em instituição de ensino superior. Gestora especializada em processos de Gestão Acadêmica e Administrativa, Expansão e Estratégia Institucional, com expertise no Gerenciamento de Educação Superior, Acreditações Externas, Gestão de Portfólio Educacional e Gestão de Projetos. Foi pró-reitora de Educação à Distância da Unijorge e ocupava atualmente o cargo de pró-reitora de Graduação da Universidade Veiga de Lima, no Rio de Janeiro.


Secretaria de Trabalho, Esportes e Lazer: Geraldo Júnior (Foto: Divulgação)

Secretaria de Trabalho, Esportes e Lazer: Geraldo Júnior

O vereador de Salvador, Geraldo Júnior, ocupará o cargo pela primeira vez. Formado em Direito e pós-graduado em Processo Civil, trilhou carreira profissional na advocacia privada. Foi coordenador Jurídico da Companhia Municipal de Abastecimento (Comasa) e subcoordenador das administrações regionais de Salvador. Assumiu o primeiro mandato como vereador em 2011.


Secretaria de Promoção Social e Combate à Pobreza: Tia Eron (Foto: Divulgação)

Secretaria de Promoção Social e Combate à Pobreza: Tia Eron

É deputada federal, eleita para o mandato de 2015 a 2019. Assumirá o cargo na secretaria pela primeira vez. Foi vereadora de Salvador por quatro mandatos.


Secretaria de Gestão: Thiago Dantas (Foto: Divulgação)

Secretaria de Gestão: Thiago Dantas

Procurador do Município de Salvador, atuando como chefe da Representação do órgão na Secretaria Municipal da Fazenda, é formado em Direito. Foi também advogado da União, lotado na Procuradoria da União no Espírito Santo, e atuou na Consultoria Jurídica do Ministério da Defesa, designado para a Consultoria Jurídica do Comando da Marinha. Foi também procurador da Fazenda Nacional e analista processual do Ministério Público da União.


Secretaria de Cultura e Turismo: Cláudio Tinoco (Foto: Divulgação)

Secretaria de Cultura e Turismo: Cláudio Tinoco

Vereador reeleito de Salvador, Cláudio Tinoco é o novo titular da pasta. É formado em Administração Pública, Direito Público Municipal e Gestão e especialista em Políticas Públicas e em Gestão de Cidades. Foi secretário de Infraestrutura da Bahia e presidiu a Empresa Salvador Turismo (Saltur).


 Secretaria de Ordem Pública: Marcos Vinícius Passos (Foto: Divulgação) 

Secretaria de Ordem Pública: Marcos Vinícius Passos

Desde 2013, comanda a diretoria Financeira da Câmara de Vereadores e comandará a secretaria pela primeira vez. É formado em Administração de Empresas e pós-graduado em Gestão Pública e Empresarial. Atuou por 18 anos no sistema bancário.


Secretaria de Comunicação: Paulo Alencar (Foto: Divulgação)

Secretaria de Comunicação: Paulo Alencar

Assumirá a pasta que foi criada na reforma administrativa. É graduado em Jornalismo e em Comunicação e Marketing, com pós-graduação na área de Comunicação. Trabalhou na Gazeta Mercantil, na área de comunicação corporativa da Odebrecht no Rio de Janeiro, Revista Brasil Energia, e foi consultor-executivo da MLink em Angola. Antes de aceitar o convite do prefeito ACM Neto, Paulo Alencar era diretor da Vick Comunicação e Marketing, no Rio de Janeiro.
Confira os perfis dos secretários que permanecem nos cargos:

Casa Civil: Luiz Carreira (Foto: Divulgação)

Casa Civil: Luiz Carreira

Ele continua no cargo de titular da Casa Civil. É formado em Administração com pós-graduação em Administração Pública, Análise Regional e Organização do Espaço e Sociologia para o Desenvolvimento, além de mestrado em Geografia Humana e Organização do Espaço. Foi secretário de Planejamento, Ciência e Tecnologia da Bahia. Em Brasília, atuou como deputado federal.


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Secretaria da Fazenda: Paulo Souto (Foto: Divulgação)

Secretaria da Fazenda: Paulo Souto

Atualmente, já é o secretário municipal da Fazenda. É geólogo de formação, com doutorado. Foi professor da Universidade Federal da Bahia por 16 anos. Ocupou a função de coordenador de Produção Mineral da Secretaria de Minas e Energia da Bahia para depois exercer a chefia da mesma pasta como secretário. Também foi superintendente da Sudene, vice-governador da Bahia e governador em dois mandatos. Ele ainda exerceu a função de senador pela Bahia.


Secretaria de Mobilidade: Fábio Mota (Foto: Divulgação)

Secretaria de Mobilidade: Fábio Mota

Desde janeiro de 2015, quando foi criada a Secretaria Municipal de Mobilidade, Fábio Mota é gestor da pasta. É advogado, historiador e pecuarista, pós-graduado em Processo Civil. Atuou como advogado na Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e na Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (FAEB). No setor público, foi presidente da Limpurb, secretário de Serviços Públicos de Salvador, secretário de Urbanismo e Transporte de Salvador e secretário Nacional de Programas de Desenvolvimento do Turismo do Ministério do Turismo.


Secretaria de Saúde: José Antonio Rodrigues Alves (Foto: Divulgação)

Secretaria de Saúde: José Antonio Rodrigues Alves

Desde janeiro de 2013, José Antonio Rodrigues é o titular da pasta. Graduado em Administração e pós-graduado em Administração Financeira e Auditoria Contábil de Governo, foi secretário da Saúde da Bahia, consultor de Gestão em Saúde junto ao setor privado, prefeito de São Félix e provedor da Santa Casa de Misericórdia da Bahia/Hospital Santa Izabel.


Secretaria de Reparação: Ivete Sacramento (Foto: Divulgação)

Secretaria de Reparação: Ivete Sacramento

Também comanda a pasta desde 2013. É ex-reitora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e mestre em Educação pela Universidade do Quebec, em Montreal. É graduada em Letras Vernáculas com licenciatura em português. É professora titular da Uneb.


Secretaria de Manutenção: Marcílio Bastos (Foto: Divulgação)

Secretaria de Manutenção: Marcílio Bastos

Marcílio Bastos segue no comando da secretaria. Formado em Engenharia de Agrimensura, Engenharia Civil e Engenharia de Segurança do Trabalho, foi presidente da extinta Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador antes de ocupar a função de secretário municipal de Manutenção, cargo que continuará exercendo. É membro e fundador da Red Universitária Ibero Americana de Técnicas Municipais (Ruitem). Tem doutorando em Engenharia Municipal. Ele já atuou na Conder, na Câmara Municipal de Salvador e na Assembleia Legislativa nas áreas de produção e análise de projetos e consultoria técnica.


Secretaria de Cidade Sustentável e Inovação: André Fraga (Foto: Divulgação)

Secretaria de Cidade Sustentável e Inovação: André Fraga


Engenheiro Ambiental e pós-graduado em Gerenciamento de Projetos, é secretário de Cidade Sustentável de Salvador. A pasta que ele já comanda foi reformulada e ganhou novas atribuições com a reforma administrativa.
Procuradoria-Geral do Município – Luciana Rodrigues (cota pessoal).
Formada em Direito, pós-graduada em Direito Processual Civil e em Direito Público, atuou como advogada no Escritório de Advocacia Machado Meyer e na Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transportes e Comunicações da Bahia (Agerba). Foi ainda assessoria jurídica no Tribunal de Contas dos Municípios (TCM). Em 2007, ingressou no quadro da Procuradoria Geral do Município, onde atuou em diversos cargos, sendo, nos últimos quatro anos, procuradora-geral.


O "ligeirinho" envelheceu

Paulo Ormindo*
A primeira administração do arquiteto e urbanista Jaime Lerner como prefeito de Curitiba, entre 1971 e 1975, foi um estouro. Ele transformou uma das ruas mais movimentadas da cidade na primeira via exclusivamente de pedestre do país, a Rua das Flores. Mas a sua grande invenção, que lhe permitiu ser reeleito duas vezes e chegar ao governado do estado, foi a Rede Integrada de Transportes, RIT, com seus ônibus articulados conhecidos como “ligeirinhos”. Na verdade, era a aplicação dos estudos desenvolvidos pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba, IPPUC, fundado em 1965, que ele foi um dos criadores e diretores. Curitiba se transformou em um laboratório de gestão urbana admirada não só no pais como em todo o mundo. O segredo do ”ligeirinho” era criar estações elevadas, no mesmo nível do assoalho dos ônibus e a passagem ser cobrada antes da entrada no veículo, tornado as operações de embarque e desembarque muito rápidas, além dos ônibus rodarem em vias preferenciais. Para implantação do sistema foi preciso desenvolver um ônibus especial, articulado, com capacidade para 160 passageiros e com grandes portas altas, do lado esquerdo, para atracar em estações que ficavam no canteiro central. O projeto foi desenvolvido pelas duas maiores fabricantes de ônibus do país, a Volvo e a Marcopolo. Inspirado na RIT de Curitiba foram criados, nas décadas seguintes, sistemas de ônibus expressos em Quito e em Bogotá, este com o nome de TransMilenio. É em Bogotá que o sistema ganha grandes aperfeiçoamentos na administração do prefeito Enrique Peñalosa. As vias troncos passaram a ser exclusivas e ter duas faixas em cada direção permitindo ultrapassagens e criação de sistemas expresso e local de mobilidade. A construção do sistema começou em 1998 e foi inaugurado no final de 2000. Universalizado com o nome de Bus Rapid Transit, BRT, o sistema foi imitado em muitas cidades subdesenvolvidas, como um pseudo-metrô dos pobres. Enquanto um ônibus articulado transporta 160 passageiros, um metrô transporta 1.000. Passados 15 anos, os moradores de Bogotá protestam contra seu congestionamento, as autoridades declaram que o sistema chegou a seu limite, Peñalosa perdeu a eleição e já se estuda a implantação de um metrô subterrâneo. Nestes 50 anos de existência, o “ligeirinho” envelheceu. Naquela época, como ainda em Salvador, os ônibus eram montados sobre um chassi com seu assolho a 90 centímetros do solo, dificultando o acesso dos passageiros, especialmente crianças, velhos e deficientes. Em 1965, a cobrança da passagem era feira na entrada do ônibus com um curral e uma catraca retardando a parada nos pontos. Foi a remoção dessas barreiras que determinou o sucesso do “ligeirinho” curitibano. Hoje os ônibus têm estrutura monobloco, o que permite ter o assoalho a 20 centímetros do solo, como os usados nos embarques remotos nos aeroportos. Os mais modernos, com suspensão de ar comprimido, se inclinam lateralmente para nivelar ao passeio. A cobrança da passagem é feita com cartões pré-pagos, que são validados à bordo do ônibus, eliminando os currais e catracas. Câmaras de monitoramento permitem ter vias exclusivas sem necessidade de criar barreiras. Nova York e muitas cidades norte-americanas estão criando sistemas de ônibus expressos em vias exclusivas, mas não bloqueadas, com paradas a cada quatro quadras, ao compasso da onda verde dos semáforos. Os europeus investem em VLTs amigáveis e não poluentes. Neste meio século, a tecnologia evoluiu e o planejamento urbano involuiu no país. Arrepio-me quando ouço dizer que vão criar em Salvador um “ligeirinho” cinquentão entre a Lapa e o Iguatemi, competindo com o metrô, capeando rios, eliminando centenas de arvores e criando uma dezena de viadutos, um deles sobre o dique do Tororó, enquanto no Rio e em São Paulo estão eliminando viadutos e instalando VLTs para humanizar a cidade. 
*Paulo Ormindo Azevedo é professor titular da Ufba

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O desafio da maresia


Na elaboração do PDDU, o lobby imobiliário apostou suas fichas na Orla imaginando que ela seria uma nova Barra da Tijuca. Os pontos em comuns desses dois bairros são a praia e a falta de infraestrutura sanitária e viária compatível com a sua densidade. Mas as diferenças são gritantes. A Barra teve um plano urbanístico de Lucio Costa e a nossa Orla não tem nenhum. Na Barra da Tijuca, entre a praia e a área urbanizada existe o Parque Natural e a lagoa de Marapedi. Na Orla, a urbanização começa praticamente na faixa de arrebentação das ondas. Para piorar o grau de salinidade do mar na costa baiana é dos mais elevados do país. 
O plano da Barra foi alterado a partir de 1981 pelos agentes imobiliários, aumentando os gabaritos, reduzindo o verde e o traçado viário. Mas muita coisa restou. Manguezais, restingas e lagoas foram preservadas, embora poluídas. Junto à praia só hotéis. Os edifícios residenciais estão protegidos pelo parque natural e os melhores são baixos em grandes lotes. As torres de apart-hotéis estão espaçadas permitindo a franca ventilação e a vista para o mar. 
No nosso caso, os lotes são diminutos, e as torres deixarão apenas frestas entre si provocando ilhas de calor. O escalonamento dos gabaritos só privilegia as coberturas. O coqueiral e a restinga ciliar foram dizimados. Aquela área nunca foi ocupada porque não há eletrodoméstico ou aparelho eletrônico que resista mais de três anos. As vidraças embaçadas precisam ser mantidas fechadas para os móveis não ficarem pegajentos. 
Se o setor imobiliário fosse mais esperto teria pressionado para a criação de um parque costeiro restaurando a vegetação de restinga e o coqueiral capazes de filtrar a salmoura aspergida pela arrebentação das ondas. Na sua parte anterior a norma deveria favorecer a aglutinação de lotes para formação de glebas maiores cujas construções não impedissem a ventilação e a visão do mar. Com a legislação vigente, só surgirão ali condomínios de quarto-e-sala para casais novos, que logo procurarão localizações menos agressivas para viver e procriar. 
SSA: A Tarde, 4/12/16

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Salvador e seu porto

Osvaldo Campos Magalhães*
Após nove anos de obras e investimentos superiores a U$ 6 bilhões, foi inaugurada a ampliação do Canal do Panamá (foto).
O novo canal, mais profundo e mais largo, permitirá a passagem de gigantescos navios, com até três vezes a capacidade dos maiores que atualmente utilizam a rota. Ainda este ano, mais de uma centena de navios neo-panamax, com capacidade para até 14.000 TEU´s estarão atravessando o Canal, ligando o chamado “Pacific Rin”, que engloba a Califórnia, China, Japão, Coreia, Chile e os chamados “tigres asiáticos”, ao oceano Atlântico.
A mudança na rota destes grandes navios de transporte de contêineres, com destino e oriundos do maior mercado de produção e consumo da atualidade abre uma janela de oportunidade para determinados portos na América do Sul.
Com enorme capacidade de transporte, estes novos navios circulam o planeta e fazem escalas em poucos portos, que devem ter localização estratégica, profundidade adequada, superior a 15 metros e grande eficiência operacional.
No Brasil, poucos locais possuem características naturais adequadas para receberem estes mega navios. Nosso maior porto, o de Santos, está localizado no estuário de um rio, com pouca profundidade e necessidade de constante dragagem de manutenção. No Nordeste dois portos vêm investindo muito para receberem os navios neo-panamax. Os portos de Suape, em Pernambuco e o de Pecem, no Ceará. Ambos concessionados aos estados e explorados pela iniciativa privada.
O porto de Salvador, apesar de estar localizado na segunda maior baía navegável do mundo, com águas abrigadas e profundas, precisa ainda ser ampliado para receber estes novos navios de até 14.000 Teus.
Lembremos que no passado, Salvador já foi o maior porto do hemisfério sul. A cidade era conhecida pela denominação de “cidade porto”, devido às extraordinárias condições geográficas e naturais. Parada obrigatória para os navios que se destinavam á Ásia perdeu este status com a abertura do Canal de Suez .
Com a intervenção militar no porto de Salvador na década de 60, e a centralização das decisões em Brasília, o porto gradativamente foi perdendo relevância econômica.
Estados como Pernambuco, Ceará e Maranhão, colocando a logística portuária como estratégia de desenvolvimento econômico, criaram empresas portuárias e desenvolveram infraestruturas modernas e competitivas, enquanto o Governo da Bahia relegou o porto de Salvador a moeda de troca no tabuleiro político.
Projetos mirabolantes como o da ponte Salvador - Itaparica e do Porto Sul foram equivocadamente priorizados, consumindo recursos financeiros e talentos humanos.
O Porto de Salvador dispõe de características únicas e potencial para se tornar um “hub regional” centralizador dos novos navios que passaram a navegar pelo novo canal do Panamá. Localização estratégica, no centro da costa brasileira, em uma imensa baía, um dos melhores acessos rodoviários entre todos os portos brasileiros e, o seu terminal de contêineres, já está concessionado à maior empresa operadora portuária do Brasil.
Com a falta de conhecimento e visão do governo do Estado para a importância estratégica do porto de Salvador, a solução talvez seja a transferência da gestão do porto, da União, para o município de Salvador.
A legislação brasileira possibilita esta transferência, sem ônus para o município, como já ocorreu de forma exitosa em Itajaí, Santa Catarina. A cidade do Rio de Janeiro também negocia esta transferência. Esse é o modelo europeu, onde o porto representa o maior fator de crescimento econômico de cidades como Hamburgo, Roterdã e Antuérpia.
No momento em que o prefeito eleito de Salvador finaliza seu plano estratégico de governo, priorizando a geração de empregos, e, face às excelentes relações que mantem com o novo governo federal em Brasília, abrem-se duas janelas de oportunidades para Salvador voltar a ocupar lugar de destaque no cenário portuário nacional.
*Engenheiro Civil e Mestre em Administração, é membro do Conselho de Infraestrutura da FIEB
** Artigo originalmente publicado no jornal A Tarde, 15/11/2016

domingo, 6 de novembro de 2016

Roberto Albergaria- uma inteligência criativa e provocativa

Bruno Porciuncula*
"Albergaria era a inteligência mais viva, criativa e provocativa da Bahia", disse Luiz Mott, colega do antropólogo por 30 anos no Departamento de Antropologia e Etnologia da Ufba. Mott, que foi o responsável pela revalidação da tese de doutorado feita por Albergaria na França, lamentou que ele tenha escrito pouco, participando mais de programas de rádio e entrevistas para a televisão. "Irreverente, anarquista, defensor da alegria e da liberdade, Albergaria ficará indelevelmente presente no imaginário e na história da Bahia", afirmou. 
O reitor da Ufba, João Carlos Sales, conviveu com Albergaria na faculdade, e lamentou a perda. "Foi, sem dúvida, um intelectual destacado na nossa sociedade, com posições fortes e polêmicas, mas bem amparadas, que nos levavam a refletir", afirmou.
O professor Carlos Caroso conhecia Albergaria desde os 15 anos, quando foram colegas no Colégio Central, e voltaram a se encontrar nos anos 80, no Departamento de Antropologia e Etnologia da Ufba. "Ele foi uma daquelas pessoas únicas, que nos desafiam a compreender a natureza humana. Acredito que tenha sido um dos intelectuais mais sérios e refinados de nossa geração", disse, ainda abalado com a perda do amigo. Caroso lembrou que, na última conversa que tiveram, por telefone, Albergaria deixou transparecer o desinteresse de continuar a viver. "Mesmo assim, veio como surpresa telefonema esta manhã que informava a gravidade de sua situação e confirmação de seu falecimento. A morte o encontrou em casa, só, como sempre viveu e se escondeu de todos para deixar o personagem livre", completou. Roberto Albergaria de Oliveira foi um dos maiores nomes da história da Universidade Federal da Bahia (Ufba), transcendendo o ambiente acadêmico e conquistando espaço e credibilidade na imprensa baiana por sua capacidade de falar com propriedade dos mais variados assuntos -- não à toa, a expressão bem-humorada "Não tem especialista? Ouve Albergaria" se popularizou nas redações baianas. Ele se formou em história na Ufba em 1974, poucos anos depois de abandonar a faculdade de direito. Depois, conquistou o diploma de estudos aprofundados em Antropologia, Etnologia e Ciências das Religiões pela Universidade de Paris VII, e em Sociedade e História Americanas pela Universidade de Paris I, além do doutorado em Antropologia pela Universidade de Paris VII. Foi também professor associado da Ufba, com trabalhos que discutiam sobretudo mídia, carnaval, simbolismo e baianidade, no Departamento Antropologia e Etnologia da instituição.
*Jornalista / A Tarde


A TRISTE VITÓRIA DOS JEGUICIDAS
 de ROBERTO ALBERGARIA* . 

Desgraceira: os organizadores da tradicionalíssima Mudança do Garcia se comprometeram a eliminar os jumentos da fuzarca no ano que vem. Pediram arrego – face à intimidação dos novos censores que se atribuiram a elevada missão de disciplinar os costumes baianos. Foram pressionados a assinar um trágico TAC jeguicida. Sentença de morte da festa! Caíram na arapuca montada para pegar todos os jegues & jegueiros festivos do momento. Adiante, os dogmáticos de plantão acabarão com a burricada dos casamentos-na-roça, do Dois de Julho e assim por diante – até chegarem, em uma nova investida, à “excomunhão” dos piedosos bichinhos do Bonfim. Triunfo do parcialismo e do juridismo dos disciplinadores-doutrinadores que cabalaram tal medida proibicionista. Em seu radicalismo elitista, acabaram com a brincadeira do povão. Em seu exclusivismo, não levaram em conta a diversidade de opinião dos demais estudiosos da nossa República das Letras. Pensaram como Donos da Verdade, agiram como Donos do Poder. Não encaminharam seus pré-julgamentos para nenhum juiz, ignoraram o princípio do contraditório etc. Absurda justiça sumária! Pois como pode a vontade singular de um promotor açodado (partidário do “abolicionismo animal”) representar a posição oficial do Estado? Não é o Estado Democrático o espaço da universalidade, da pluralidade dos princípios morais? Como pode o capricho das dirigentes de duas estrepitosas ONGs sintetizar o pensamento das variadíssimas tendências do nosso Ambientalismo? Como pode a sub-comissão dos direitos dos animais da OAB falar em nome de todos os advogados de todas as áreas da Ordem? A “questão do jegue” não extrapola largamente o domínio deste algo ainda exótico biodireito? Ora, o pensamento de uma Parte foi tomado, ilusoriamente, como o interesse do Todo. Que se danem a democracia, a cultura e a história baianas! Vitória tortuosa e espetaculosa de ongueiros que passam o ano inteiro amoitados. Nada fazem pelos desvalidos jumentos do interior – tampouco ligam para o abuso dos nossos companheiros orelhudos que penam no transporte pesado durante o ano inteirinho nas periferias soteropolitanas. Equivocados defensores da Natureza que não passam de destruidores da Cultura. Auto-engano da meia-ciência de uma arrogante elitezinha estrangeirada, “política e ecologicamente correta”, que se quer superior intelectual e moralmente ao resto dos baianos. Barbaridade travestida de Civilidade! Novos mandamentos fundamentalistas-xiitas culturalmente desinteligentes e civicamente deseducativos. Pois o cidadão comum só pode interpretar tais despóticas “desmedidas” como mais um exemplo da velha opressão estatal que vem infernizando o Carnaval Popular desde a proibição do Entrudo. A pressão da micro-minoria superorganizada, prepotente e belicosa destes “iluminados” se traduzindo como opressão da maioria desorganizada, pacífica, folgazona – impotente face a tantos seguidos desmandos… Atos descabidos que só aborrecem as pessoas sensatas e sensíveis da terra. Animais racionais de espírito aberto, majoritariamente – capazes de ser motivados por um ideal de convivialidade mais saudável, criativa e amical entre as variadas “criaturas de Deus”. Todos compreendendo que estes nossos parceiros históricos já são quase uma espécie em extinção. Formando um rico patrimônio naturo-cultural que, ao invés de ser ainda mais ameaçado, deveria é ser revitalizado! O que implica combater os maus-tratos dos bichinhos, evidentemente. Mas o espírito deste amplo e ponderado cuidado não cabe na cabeça dura dos jeguicidas-liberticidas da americanizada moda animalista-anti-especiesista de hoje. Antolhados que estão condenando nossos irmãos de quatro pés a uma periclitante ociosidade, como já vem acontecendo no sertão. Perigo de que, nos próximos Carnavais, só restem na cidade uns raros jeguinhos tristinhos nesta prisão infernal que é o Zoológico. Como já acontece com suas priminhas zebrinhas… .
*Roberto Albergaria, falecido em junho de 2015 foi Professor da Universidade Federal da Bahia

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

124 anos de Graciliano Ramos

Silvano Santiago*
MESTRE GRAÇA NÃO É PIEDADE
O pensamento político em Graciliano Ramos é tão tosco, influente e múltiplo quanto as palavras, ferramenta de que se vale o escritor para dialogar consigo e com o leitor. Maneja a linguagem literária com vistas à expressão dos diferentes seres humanos, enigmáticos e complexos, que deseja dramatizar em texto impresso, cuja composição se enquadra num dos quatro gêneros em que se tornou mestre. Refiro-me ao romance, ao conto e às memórias, e também ao ensaio. Como andaime, suas frases lúcidas sustentam e mantêm de pé o trabalho criativo e divulgam o espírito batalhador e crítico.
A política não é decorrente de essência que entusiasma o estar no mundo do escritor cidadão e o supervisiona pelo lado de fora da vida. Não direciona e controla seus passos e sua mente aquém e além da língua portuguesa. A política é produto intrínseco à reflexão da imaginação criadora que deseja a perfeição e busca dar estilo ao produto artístico que fabrica em linguagem mínima e concreta, simples e direta, esclarecedora e convincente.
No encontro da escrita de Graciliano com a fala do brasileiro comum é que melhor se compreende suas opções estilísticas, de que é exemplo a que nos foi relatada pelo genro James Amado. Lembra ele certa ojeriza de Graciliano pelo cacoete modernista (ou oswaldiano) que se traduz pelo uso coloquial de “me dê”. Graciliano não encontrava base na realidade oral brasileira para tal forma e lhe opunha “dê cá”, que lhe parecia real e fluente. Não escreva “algo”, o mestre aconselha ao filho Ricardo Ramos, “é crime confesso de imprecisão”. Reticências? É melhor dizer que deixar em suspense. Exclamações? Ninguém é idiota para viver se espantando à toa.
Em Graciliano, a política é senhora de poucas palavras e mãe de muitos equívocos linguísticos que, lançados na folha de papel, devem ser imediatamente borrados e corrigidos pelo escritor atento e reflexivo. A política não pertence à família dos GPS, que querem direcionar a vida e a obra do cidadão. Ela é infatigável exercício das mãos e da caneta, unidas às evidências da criação literária, em que os defeitos/qualidades da vida cidadã e social, da vida histórica e econômica da nação, são postos à prova na folha de papel em branco.
Em “Memórias do cárcere”, lê-se este trecho revelador do fazer literário: “Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de ideias obliteradas”. Endurecido o coração, apaga-se o que deve ser apagado do passado como se borram os equívocos da expressão linguística. De tal forma e com tal intensidade são obliterados, que passado e expressões infelizes não ficam para falsificar na atualidade a marcha da História.
A utopia e os tempos verbais
O equívoco das pessoas de bom coração é o de acreditar que a preocupação com o som e o peso semântico das palavras no papel falsifica a sinceridade do escritor ou a verdade sobre os fatos. A prosa de Graciliano contradita o lugar-comum. Falsificadoras são as pessoas de bom coração. Repousam seu pensamento crítico numa verdade do passado, que se confunde com o que foi apreendido erroneamente e tantas vezes repetido. Um fato se torna verdadeiro no momento em que encontra um novo, justo e belo discurso ficcional ou poético, inventado a duras penas pelo artista.
“Máquina de comover”, disse Le Corbusier. João Cabral de Melo Neto repetiu a expressão à porta do seu livro “O engenheiro”. Lá a colhemos, juntamente com estes versos: “O lápis, o esquadro, o papel, / o desenho, o projeto, o número. / O engenheiro pensa o mundo justo, / mundo que nenhum véu encobre”.
Solares e óbvias, as ideias políticas que pensam o mundo justo se confundem com a correção da composição literária. Com a correção em todo e qualquer trabalho humano. Bem nomear pela linguagem é, pois, o primeiro passo político dado pelo princípio-esperança em direção à utopia.
Na sua época, Graciliano não poderia ter escrito o que estava na moda e o leitor desejava ler. Ele escreveu o que, em tempos de Jorge Amado, não desejávamos escrever e, em tempos de hip-hop e de blogs, não desejamos escrever. Ele não é brasileiro da gema, se me entendem. Não há possibilidade de ele escrever “tá” em lugar de “está”, “cê” em lugar de “você”. Erros de regência, concordância, nunca. Isso é o pior do atraso civilizacional. A escrita do romance “Vidas secas” — para ser literatura, no sentido em que a entendia Graciliano — teria de evitar todo e qualquer solecismo, todo fatal compromisso com a fala dos brasileiros desprivilegiados tal como representada pela mera reprodução fonética. Mestre Graça não é piedade. Mestre Graça é estilo. Estilo é política.
Dou-lhes um único e notável exemplo, tirado do romance “Angústia”. Luís da Silva lê pichado no muro o slogan “Proletários, uni-vos”, escrito sem a vírgula e sem o traço de união (aclaremos), e comenta: “Não dispenso as vírgulas e os traços. Quereriam fazer uma revolução sem vírgulas e sem traços? Numa revolução de tal ordem não haveria lugar para mim”. Outro autor brasileiro não usaria o futuro do pretérito (quereriam, haveria) para encontrar lugar na revolução; usaria o imperfeito (queriam, havia).
Sem o recurso ao futuro do pretérito não existe a noção esperançosa e concreta de utopia em “Vidas secas”. A utopia é menos um tema filosófico. Ela é tão rara quanto um tempo verbal marginalizado no presente, o futuro do pretérito, indispensável àqueles que querem pensar as asperezas e as alegrias da sua plena realização pelo homem na terra.
Nas profundezas da tragédia de “Vidas secas”, em contraste com a miséria do passado e com a emigração no presente, a utopia se escreve pelo futuro do pretérito: “A caatinga ressuscitaria, a semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta. Os meninos gordos, vermelhos, brincariam no chiqueiro das cabras, sinhá Vitória vestiria saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a caatinga ficaria toda verde”.
Para que os deserdados possam pisar o mundo justo e sem véu do futuro é que se faz política em literatura.
É um equívoco apresentar a figura pública de Graciliano como um todo inalterável. Daí que o filho Ricardo Ramos, em “Retrato fragmentado”, tenha de se entregar a um primeiro trabalho de garimpagem na vastíssima e por vezes admirável bibliografia sobre o autor de “São Bernardo”. Reorganiza-a pela ênfase ou pelos excessos concedidos pela crítica a determinados detalhes problemáticos ou relativamente obscuros da personalidade do pai.
Graciliano — escreveu Ricardo — não é “personagem inteiriça, compacta, quase olímpica, sem a menor sombra de conflito ou dúvida”. Não é “criatura rude, sertanejo primitivo e pitoresco, o autodidata que certo dia simplesmente resolveu escrever”. Não é “um partidário, cego seguidor da regra política”. Não é tampouco o “intelectual cooptado”, que teve de se adaptar às regras ditatoriais do Estado Novo. Aceitar uma das quatro visões excessivas e excludentes como a principal determinante da personalidade de Graciliano “será aceitar o homem precisamente como negação da obra”, conclui o filho e biógrafo. Ao falar de política, não perpetuemos a negação da obra.

Silviano Santiago é escritor e crítico literário, autor do romance “Em liberdade” e de “Uma literatura nos trópicos”: ensaios sobre dependência cultural, entre outros livros. Recebeu esta semana o prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra, concedido pela Academia Brasileira de Letras

domingo, 23 de outubro de 2016

Nobel sem paz, nem literatura


Paulo Ormindo Azevedo*
Tem razão Caetano quando diz que “alguma coisa está fora da ordem mundial”. O anuncio do prêmio Nobel de 2016 não passou de um monumental chabu. Há 50 anos se luta e se negocia a paz na Colômbia. São dezenas de milhares de homens e mulheres que não sabem fazer outra coisa senão guerrear e o governo não tem como dar ocupação ou aposentadoria a eles. As negociações realizadas em Havana, com o beneplácito de Obama, foi mais uma dessas tentativas. Quando a sociedade já tinha dito “não”, o comitê do Nobel disse “sim”. Não fará muita diferença, porque os dois prêmios dados a judeus e árabes, no passado, não conseguiram contribuir para a paz dos povos. Este, inclusive, é assimétrico, pois só contemplou uma das partes da negociação, contrariando a tradição do prêmio: Kissinger-Le Duc (1973), Al Sadan – Menhagen Beguin (1978), Mandela-De Klerk (1993), Arafat-Perez (1994). 
Não sou contra reconhecer a poesia embarcada em canções de protesto ou de amor. Mas com todo respeito a Bob Dylan, sua poesia não chega aos pés dos Beatles com Yesterday e Help ou a de um só de seus membros, Lenon, com sua memorável Imagine. E por que não o relacionar com os brasileiros? Não vou falar de Orestes Barbosa, Cartola e Vinicius, que não fizeram protesto.
Num congresso realizado no Texas, há alguns anos, um rapaz sabendo que eu era baiano me procurou para falar com entusiasmo da festa que era a Bahia nos anos 60 de Edgar Santos. Ele e colegas tinham participado de um intercâmbio estudantil em Salvador acompanhados do professor português Machado da Rosa e acabaram se envolvendo com protestos contra o golpe de 64 e tiveram que voltar para casa antes da hora. Ele considerava a música de protesto brasileira muito mais forte que a americana. Nenhum cantor americano foi censurado ou teve de se exilar por protestar cantando. E dizia que Vandré era muito superior a Bob Dylan.
Não se pode comparar a produção musical, teatral e literária de Chico Buarque de Holanda com as baladas country do norte americano. Chico teve que adotar pseudônimo, Julinho de Adelaide, para lançar no país sua produção no exilio. Escreveu e musicou as peças teatrais Roda viva, Gota d’água, Calabar e Opera do malandro. Compôs a trilha musical de Vida e morte Severina, de João Cabral, e de Os saltimbancos, dos irmãos Grimm. Mas ao par das músicas e peças teatrais de protesto, ele produziu canções de enorme lirismo, especialmente aquelas em que retrata a alma feminina, como: Com açúcar e com afeto, Olhos nos olhos, Teresinha, Atrás da porta e Folhetim. Chico é autor de cinco romances traduzidos para vários idiomas, dois dos quais receberam o maior prêmio literário brasileiro, o Jabuti. 
A indicação ao prêmio Nobel é precedida de uma verdadeira batalha diplomática. A América Hispânica, com população equivalente à do Brasil, tem 17 Prêmios Nobel e nós nenhum, porque o Itamaraty nunca se empenhou pelas candidaturas de cientistas e literatos brasileiros lançadas por intelectuais nacionais. A Argentina tem cinco prêmios Nobel, o México três e a Guatemala dois. Acabo de voltar desse pequeno país onde participei de seminário como membro da Comitê Cientifico da Rede Patrimônio Histórico Ibero-Americano e pude constatar quanto a Cooperação Espanhola investe nesse e em outros países da região para em seguida introduzir seus bancos, empresas de construção, distribuição de energia e agua, recolhimento de lixo e supermercados. No Brasil, a cooperação com países mais pobres é mal vista. 
No artigo “A força discreta do povão brasileiro”, publicado nesta coluna em 28/08 deste ano, eu dizia que quem faz o soft power do Brasil, e sem nenhum apoio oficial, é seu povão com a música popular, com a alegria do carnaval, com o futebol e com a capoeira. Nossos embaixadores parecem apenas interessado em recepções black-tie e opíparos banquetes.

*Professor Catedrático da Ufba
 A Tarde, 23/10/2016