segunda-feira, 11 de maio de 2009

Caymmi e o trabalho

Oliveiros Guanais
Trabalhar é criar, destruir ou transformar alguma coisa, pela inteligência, pela inspiração, pelo conhecimento ou pela força. Acho que esta definição é razoável. É indecência justificar a exagerada riqueza de uns dizendo que trabalham muito, como se o operário em construção não trabalhasse nada. A riqueza nada tem a ver com trabalho, mas com esperteza. Também é parvoíce ou má-fé considerar preguiçoso um homem de gênio e talento, como Dorival Caymmi, que produziu uma das mais belas obras musicais e poéticas do Brasil, tendo por alvo e beneficiária, quase sempre, a Bahia, a Bahia em que viveu a mocidade e guardou no coração. Caymmi, em sua fase ativa, cantou as baianas, Itapoã, a Lagoa do Abaeté, os coqueiros, o mar e os pescadores, colocando esta terra como fonte permanente de beleza e inspiração. Caymmi não foi vencedor quantitativo de criação, mas, de qualidade, sim. Foi o expoente da obra-síntese, pouca mas perfeita. Que Caymmi virou o símbolo nacional do charme e do dengo, vá lá, porque, afinal, ele era um artista. Mas que era o símbolo da preguiça é transferir para ele o que os paulistas dizem de todos os baianos, e isso parece coisa de meninos que procuram eximir-se de culpas transferindo para outros os defeitos ou erros que lhes são atribuídos. (Argumento da delação). Caymmi compôs pouco porque não trabalhou por encomenda, nem para atender aos pedidos do momento, nem pensou em ganhar dinheiro fazendo música. Para ele, “a gente faz [apenas] o que o coração dita”. Caymmi há de ser lembrado sempre, enquanto houver memória e sensibilidade para apreciação da beleza.(E, de sobra, deixou também para os seus filhos o dom divino da música)

Indicação do Blog : Projeto IAB Bahia - "Depoimentos de Arquitetos Baianos"

Dando seguimento às memoráveis palestras dos arquitetos João Filgueiras Lima, o “Lelé”, e David Bastos, o “Projeto Depoimentos de Arquitetos Baianos” promoverá, no próximo dia 12 de maio, às 18:30h, no Auditório I da Faculdade de Arquitetura da UFBA, encontro com a arquiteta baiana Naia Alban.
Naia Alban Suarez se graduou em arquitetura pela Universidade Federal da Bahia em 1985, e a partir de 1987 se transferiu para Madri, onde desenvolveu sua tese de doutorado sobre a morfologia urbana de Salvador. Após a defesa da tese e o retorno para Salvador, em 1994, têm atuado como pesquisadora e professora da FAUFBA, onde atualmente ensina Ateliê de Projeto no quarto ano e coordena o Trabalho Final de Graduação. Paralelamente às atividades acadêmicas, lidera com Moacyr Gramacho o escritório Sete43 Arquitetura, tendo desenvolvido dezenas de projetos arquitetônicos e urbanísticos em diversas áreas, bem como projetos de cenografia e de arquitetura de eventos. Participou de diversos concursos e premiações nacionais e internacionais, destacando-se o 1º lugar na categoria Arquitetura de Espaços Urbanos na VI Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Urbanismo de Lisboa em 2008 pelo projeto da Praça Turca de Juazeiro e a seleção dos projetos da Casa Curva (2002) e da Casa Muro (1998) para participar da Exposição Comemorativa de Arquitetura do Ano do Brasil na França em 2005.
O Projeto “Depoimentos de Arquitetos Baianos” é uma iniciativa do Departamento da Bahia do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-BA) e da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (FAUFBA), marcando os cinqüenta e cinco anos de fundação do IAB-BA e os cinqüenta anos de criação da FAUFBA. Entre março e dezembro, em uma terça-feira a cada mês, o IAB-BA e a FAUFBA promoverão uma palestra com um arquiteto sediado em Salvador, tendo como tema a sua trajetória profissional. Para os jovens estudantes, uma oportunidade de travar contato pela primeira vez com a obra de experientes profissionais; para os arquitetos, a possibilidade de escutar, de um colega, um relato das suas experiências.

Fonte: IAB - Bahia

domingo, 10 de maio de 2009

Minha querida rua treze (1ª parte)

Almir Ferreira Santos
Engenheiro Civil
Cultiva o mar, a lua, música e as histórias da Cidade do Salvador


A origem do topônimo nunca me foi explicada convincentemente. Alguns dizem que todo o dia 13 de maio, Seu Fausto, um misto de músico, mestre de obra e marceneiro, reunia os músicos da família, que eram muitos, e amigos para uma apresentação. Há outras tantas histórias, mas de fato, quando me entendi já havia a placa Rua Souza Uzel colocada justamente na minha casa, n.° 6, a primeira da rua.
Confesso que não sei quem foi o homenageado que deu nome à rua, mas há registro na história de Salvador de uma escritora Carmosina de Souza Uzel, filha de Francisco Carlos de Souza Uzel.
Seu Fausto era o decano da rua. Morava na casa n.° 20. Lembro-me bem do seu aniversário. 10 de dezembro, sempre comemorado festivamente.
Os meus pais foram morar lá em 1933, numa casa construída para se casarem. Lá nasceram e cresceram seus 13 filhos. Norma, Almir, Ayrton, Norma Maria, Noélia, Antônio, Nely, Ari, Adi, Nildes, Ademir, Alvinho e Nubinha. Só nos mudamos em 1973.
Por isso temos muitas histórias pra contar, muitas recordações e muitas alegrias. Era uma rua pequena. Grandes eram os seus moradores que formavam praticamente uma família.
Lembro bem dos nossos primeiros vizinhos: Seu Arnaldo e Dona Alice. As nossas casas eram separadas por um muro baixo que dava para minha mãe, Núbia, e Dona Alice baterem um papo diário, atualizando os acontecimentos.
Conta minha mãe uma história que o primeiro nome que falei, para orgulho de Dona Alice e ciúme dela, foi Lice.
A filha Marina era muito ativa. Gostava muito de cantar, pular corda, correr, brincar de roda, andar em alta velocidade no velocípede.
Organizava trezenas de Santo Antônio, cujas velas de tostão eram colocadas em castiçais improvisados. Tampas de cerveja.
Depois vinha a casa de Seu Epifânio, (um empregado da Companhia Linha Circular), Seu Barreto, Seu Anísio (também empregado da Circular), Seu Pacífico, Seu Fausto, Seu Anfilófio (Seu Tatá)...
Uma coisa que me marcou nessa época foi Doralice, filha de seu Epifânio, cantando A VIDA É UMA ROLETA e pedindo-me para cantar O VAGABUNDO de Vicente Celestino. Barbaridade ! ! !
Do outro lado da rua moravam seu Manuel, cuja casa foi desapropriada para alargamento da rua. Com isso a primeira casa desse lado ficou sendo a de dona Damiana, embora sua fachada desse para a Rua Garibaldi.
Em seguida havia a casa de Dona Flora, mãe de Mocinha. Era uma casa de taipa coberta com pedaços de telha e zinco, muito pequena situada numa baixada. Depois, o n.° 13, de propriedade de Seu Fausto que alugava. Sempre estava mudando de inquilino.
O 15 era o armazém e residência de Seu Abílio, um português, casado com Dona Alice, que viria ser madrinha de um dos meus irmãos.
No n.° 17, morava Dona Menininha, mãe de Joaninha que mais tarde casaria com meu tio Edmundo.
No 19, Seu Joaquim, um sertanejo muito engraçado, em cuja casa tomei o primeiro pileque de minha vida numa festa de São Pedro. Falava demais, por isso foi até preso político.
Mais adiante moravam Seu Jorge, Seu Miguel, Seu Francisco Bocão, Argemiro Sapateiro, Tenente Artur Chagas, Seu Cristóvão, dono de uma pequena venda, Seu Mota, Dona Dudu, Seu Macedo e Chico Português, estes, donos de hortas. Paulo Lima a quem meu pai costumava visitar aos domingos para tomar um copo de cerveja era o mais distante morador.
Transversal à Rua Treze era a subida para o Alto do Candomblé, hoje chamado Alto do Gantois.
Lá moravam Seu Santinho, (que disputava com meu pai as pegadas de arraia), Seu Lili (o pintor), Zeca das Gueixas, (um carnavalesco que organizava o cordão As Gueixas em Folia) Zeca Maria, Honório, Dona Catarina.
Nezinho era filho de dona Catarina. Ele entrou na Marinha e foi à segunda guerra mundial. Sempre aplicado e com o tempo de guerra contado em dobro conseguiu, muito novo, entrar para a reserva como tenente. Um vencedor. Um exemplo de pessoa. Por sinal tomou-me para padrinho do seu filho Sidnei.
Honório trabalhava na marinha mercante. Muito simpático, destacava-se pelo fato de falar inglês e gostar de praticar atividades físicas. Grande figura.
Esse era o desenho mais remoto que tenho dos moradores da rua quando comecei a me entender. (continua...)

sábado, 9 de maio de 2009

Salvador, a cidade das chuvas

Antônio Risério
Vamos direto ao assunto. Chega desse papo furado de que a Cidade da Bahia é sinônimo de sol. O que mais temos aqui são chuvas. Logo qualquer prefeito medianamente inteligente tem de ser obrigado a pensar no seguinte. Esta não é uma cidade que precisa se fantasiar para o sol. Mas sim, se preparar para as chuvas.
Salvador é uma cidade com uma espantosa capacidade de produzir discursos ilusórios sobre si mesma. Discursos míticos e mistificadores. Nestas direções agem conjuntamente (embora não necessariamente de forma coordenada ou pelas vias da cooptação) o aparelho estatal, os intelectuais e muitos artistas. Assim foram criados muitos mitos baianos. E que conseguiram se nacionalizar pelo simples e eficaz fato de que conseguiram fazer com que os próprios baianos acreditassem nesses mitos.
A Bahia emitiu para o Brasil a mensagem de que aqui vive um povo ensolarado, preguiçoso, impontual, relaxado, sensual e feliz. Este foi um discurso elaborado simultaneamente, por políticos, gestores públicos, empresários, escritores e músicos populares. Mas resiste o mito à menor análise dos fatos? Claro que não.
Caymmi virou o símbolo nacional do charme, do dengo e da preguiça da Bahia. Mas quem disse que baiano é impontual e preguiçoso? Se de fato fosse, o Pólo Petroquímico de Camaçari simplesmente não funcionaria. Baiano trabalha – e muito. Caymmi nunca foi a regra. Mas, sempre a exceção. Os baianos que acreditaram nessa história estão a ver navios. Gostamos também de acreditar que fazemos sexo como ninguém. É outro mito. Fazemos sexo como o fazem muitos outros povos. Se baianos fosse assim tão gostosos, muitas das mulheres aqui nascidas não estariam vivendo hoje em outros países – da Europa ao Canadá – e alegres e felizes da vida com os maridos que escolheram ter.
Os mitos da preguiça e da sensualidade, todavia, não são diretamente prejudiciais à nossa vida cotidiana na cidade. Já o mito do sol sim. A gente se comporta como com se em Salvador, o sol reinasse o ano inteiro. E não é o que acontece. O sol, aqui, é um ilustre passageiro visitante. Um visitante que nunca se dignou a se demorar no céu da cidade.
Mas gostamos de pensar o contrário. Achamos que vivemos sob o signo do sol. É uma tremenda mentira. Salvador é uma das cidades com os mais altos índices pluviométricos do País. Chove aqui o ano inteiro. O sol, entre nós, tem um breve reinado. Vai, no máximo, de novembro a fevereiro. Ainda assim, em meio às chamadas chuvas de verão. Durante o resto do ano, é chuva e chuva e mais chuva.
Esta é uma cidade de céu predominantemente cinzento. De ruas e becos alagados. De enxurradas descendo dos morros. De riachos transbordando. De casas se movendo perigosamente nas encostas. De águas arrastando barrancos e barracos. De dezenas e dezenas de deslizamentos de terra. De crianças encharcadas, tossindo, chorando, pela noite fechada, cheia de lama.
E, no entanto, continuamos a acreditar que Salvador é a cidade do sol. É impressionante a facilidade com que mentimos para nós mesmos. Foi por isso mesmo que fiz a minha novela A Banda do Companheiro Mágico se passar sob um aguaceiro. Onde entre outras coisas, escrevi:
“Chove no Brasil, Atlântico Central. Chove mais ainda no recôncavo baiano. Chove ainda mais na capital baiana. Chove sem cessar na falha geológica de Salvador. Chove, chove, chove. Cidade de chuvas densas. Cidade das águas bruscas.”
Todo ano, entretanto, as pessoas me dizem: “Está chovendo demais”. Não, não está chovendo demais, está chovendo como sempre. Como sempre chove todo ano. O problema é outro. É que todo mundo embarcou na canoa furada ideológica da cidade ensolarada. Mas onde é mesmo que fica esta Salvador, cidade do sol? Aos mais de 50 anos de idade, tendo nascido aqui, ainda não tive o prazer de conhecê-la. Cidade do sol, meus amigos, é Fortaleza. Salvador, não. Nunca.
É estranho que os moradores locais, abrindo guarda-chuvas e metendo o pé na lama, não vejam isso. Mas muito mais estranho ainda é que administradores públicos caiam também, e com gosto, neste conto do vigário do sol. Eles deveriam ter um mínimo de sensatez e realismo. E, em vez de executar frescuras de veraneio, fazer coisas mais sérias para as chuvas.

Artigo publicado originalmente no jornal A Tarde

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Dois extremos das encostas: Pelourinho e comércio

Gey Espinheira
O Centro Histórico de Salvador se apresenta nas duas extremidades da encosta, tanto no bairros do Pelourinho na Cidade Alta, como no bairro do Comércio na Cidade Baixa, sendo a ligação entre os dois níveis da cidade feita através de ladeiras, elevadores e planos inclinados. O bairro do Comércio, na parte baixa da cidade, tem como sua principal característica a função portuária. Sucessivos aterros afastaram o mar de trapiches, ancoradouros e armazéns, modificando a dinâmica do bairro. Cenário de um incrível contraste entre construções de diferentes épocas, organizadas a partir da sua cronologia, quanto mais próximas da encosta, mais antigas e de arquitetura mais rebuscada. Espaço de becos, praças e mercados que abrigam ritmos antigos, e personagens que se estabelecem na rua para diversas atividades: engraxates, amoladores de objetos, e vendedores ambulantes.
O Pelourinho, na parte alta da cidade, é um lugar de marcante identidade afro-brasileira e sofisticado complexo arquitetônico colonial, antigo centro da capital da colônia. Sendo um dos primeiros núcleos centrais das cidades Latino-Americanas a ser objeto de processos de requalificação urbana, para a preservação de valores e patrimônios culturais. A expansão urbana da cidade desloca suas funções centrais para outras regiões, esvaziando o centro antigo, e alterando suas funções econômicas e características sociais. O primeiro momento, no século XIX, com a implantação do sistema de transportes, que proporcionou um modelo de ocupação da parte alta e sul da cidade por camadas de maior poder aquisitivo, para bairros próximos de praias, construídos por pescadores e veranistas.
O segundo momento, no século XX, com a transferência das funções administrativas do Governo do Estado para o Centro Administrativo da Bahia na Avenida Paralela, e o deslocamento do centro de comércios e serviços para a região do Iguatemi e Avenida Tancredo Neves. Em um curto período de tempo mais de vinte mil funcionários governamentais são transferidos de seus locais de trabalho desta zona da cidade.
A consequência é a substituição da população do centro antigo por uma de menor renda, ocasionando o aumento da densidade e a deterioração dos casarões históricos, sendo a função habitacional destinada apenas a uma população de desafortunados
[1].[1] “Em que diferem os estabelecidos dos desafortunados? Os primeiros são resistentes e emergentes, os segundos são produtos de uma condição de impossibilidades de realização”.
ESPINHEIRA, Carlos Geraldo D’Andrea. Identidade de Salvador: signos e vida cotidiana da Cidade Baixa – o turismo, a cultura e a vida social dos estabelecidos e dos desafortunados II. UFBA / PIBIC: 2005.

Podas mal feitas na cidade

Reinhard Lackinger
O que de cara chamou a minha atenção na Bahia, há 40 anos, foi o fato de tarefas subalternas e secundárias como tomar conta de crianças pequenas e preparar a comida em nossa casa, sendo executadas por gente com quase nenhum preparo. Foi um choque perceber as diferenças sociais da terra e também as diferentes importâncias que se davam aos serviços mais simples...
Ouço falar de trabalhadores erguendo edifícios e casas, nas quais jamais poderão morar... escolas, nas quais os filhos dos pobres jamais poderão estudar...Um discurso que em época de política faria qualquer palanque estremecer.
O problema é que as mãos dessa gente não manuseia apenas tijolos e sacos de cimento... devidamente supervisionado por engenheiros e mestres de obra... Há quem ande armado de motoserra e de facões. Ferramental usado por aqui para podar árvores e arbustos.
Imagino, que na rua em que moram os que podam as árvores em nossos bairros de IPTU caro, tenha muitos poucas árvores para serem podadas, quiçá nenhuma. O meu preconceito e o meu prejulgamento politicamente incorreto me fazem achar, que essa gente que poda as árvores em nossas ruas, pouco está se lixando e não está nem aí para o estrago medonho que apronta no verde de nosso meio ambiente. É o nosso bairro residencial... não é deles... não é dos que executam a poda.
Os que podam nossas árvores não tem nenhuma relação com a Barra por exemplo... minto... Eles podem até fazer parte do exército que invade nosso bairro em dias e noites de eventos que o poder público costuma promover no Farol da Barra e na Praia do Porto da Barra... às nossas custas...
Pois bem, toda vez que ouço os uivos de uma motoserra, eu me arrepio e vou logo ver onde o crime ambiental está ocorrendo... impotente diante dos estragos, montes de galhos no chão, em cima de caminhões e e caras de gente estúpida.
Pois é... além do preparo da comida em nossas casas e dos cuidados com crianças pequenas por gente sem preparo, a gente vê trabalhadores podando as árvores de nosso bairro sem nenhuma técnica... e se me desculparem a minha paranoia... fazendo o serviço com extrema má vontade.

PS. Sou morador da Barra. Seria bom se o pessoal de Parques e Jardins desse uma olhada nas mudinhas miudinhas plantadas ano passado ao longo do novo passeio da orla da Barra. Há muito capim, muito mato para pouca árvore... e há mudinhas que não tem cara de quererem vingar

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Políticos adoecem?

Oliveiros Guanais
Ninguém gosta de adoecer, mas para algumas pessoas a idéia de doença causa pânico. Por categoria, pode-se incluir quase todos os políticos. Julgam eles que suas carreiras, sua imagem perante o público não pode ser arranhada por algo que passe de um resfriado comum. Doenças com maior potencial de gravidade, não. Essas têm de ser ocultadas. Isto vem a propósito do internamento do prefeito de Salvador, ontem ( 06/5/09), no Hospital Aliança, fato cuja divulgação não foi sonegada ao povo. Ainda bem. João Henrique (foto), parece ser de natureza frágil e sensível, e não suporta grandes desafios. As enchentes de Salvador transbordaram as débeis paredes de sua resistência. Mas ele foi sensato, procurou um Hospital e deixou que o assunto fosse do conhecimento de todos. Isso pode parecer elementar, mas não é, porque políticos que estão no picadeiro escondem doenças, mesmo que elas sejam evidentes e que venham a matá-los em pouco tempo. Alguns exemplos? Petrônio Portela tinha grandes possibilidades de chegar à Presidência da República e negou o infarto que o acometeu numa viagem ao interior do Mato Grosso e que foi diagnosticado clinicamente pelos médicos. Petrônio tomou o avião e desfilou com elegância em sua chegada no aeroporto de Brasília, cumprimentando com pose imperial os que foram recebê-lo. Morreu logo depois, desse infarto. O senador Antônio Carlos fez tudo para esconder o seu, e mais tarde o de seu filho, chegando a chamar os médicos de charlatões. Tancredo Neves não podia adoecer, porque no dia seguinte ia assumir a Presidência da República. Deu no que deu. E os exemplos poderiam ir muito longe, mas fiquemos apenas nesses, acrescentando um caso antigo, que tem analogia com o de Tancredo, só que um cirurgião de coragem impôs a sua orientação. 1902. A coroação do rei Eduardo VII estava marcada para dois dias depois. Festa organizada, realezas e nobres de diferentes países já se encontravam em Londres para a festa quando os males que o futuro rei apresentava permitiram o diagnóstico de apendicite. O rei recusou-se a operar, dizendo que uma coroação não podia ser adiada como uma reunião de tiro ao alvo. Frederiks Treves, o cirurgião, respondeu-lhe: ‘”Então, sire, o senhor irá `a abadia como um cadáver”. O rei foi operado logo e a coroação deu-se dois meses depois.
Se o Dr. Tancredo tivesse a sorte de encontrar um cirurgião como Treves...

Mais uma " vítima" (?) das chuvas em Salvador.

Osvaldo Campos: bahianews
Prefeito João Henrique é internado no Hospital Aliança

A direção do Hospital Aliança ainda não divulgou boletim médico sobre o estado de saúde do prefeito de Salvador, João Henrique, que foi internado às pressas ontem (6) à tarde, depois que se sentiu mal após entrevista coletiva com o Ministro Geddel, na sede da Secretaria de Infraestrutura. A sede da prefeitura, o Palácio Thomé de Souza, foi interdidato pela DESAL, após o temporal de terça-feira.
Após voltar a acusar o governo estadual de "excesso de burocracia " para homologação da situação de emergência na cidade, o prefeito comentou: " Num momento em que você tem um governador e um prefeito que não são de um mesmo grupo político (?), a população acaba pagando por isso, por esta negligência histórica, crônica, emendou". Logo após o prefeito passou mal e foi conduzido ao hospital.
O prefeito deu entrada na emergência com forte dores no peito e pressão alta. O primeiro boletim médico, de acordo com o Aliança, só será divulgado a partir das 9 horas. O prefeito passou por uma bateria de exames e foi recomendado pelo cardiologista Maurício Nunes a permanecer no hospital. Segundo fontes próximas ao prefeito, ele está "sob forte stresse" e "comovido com com os estragos da chuva na cidade", " êle sofre muito com isso". Segundo o Secretário de Comunicação da prefeitura, o prefeito vem enfrentando uma dura rotina nos últimos dias em razão dos estragos causados pelas chuvas. Segundo a mesma fonte o mal estar do prefeito foi causado pela angústia de ver que o temporal causou mortes e fez desabrigados.
Foi cancelada a participação do prefeito no sobrevoo que faria hoje de helicóptero sobre Salvador e cidades da região metropolitana em situação de emergência, em companhia do Ministro da Integraçao Nacional.

Salvador: até quando vai perdurar a indiferença dos poderes públicos e da sociedade civil em relação ao meio ambiente?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Bondes, acidentes e ocorrências emocionantes

Almir Santos
Salvador. O bonde deixou saudades e recordações que nos marcaram.
Ganhou um vocabulário próprio, como paraquedista, saltar de frente, de costas, pongar, despongar, andar na cozinha, galinheiro, sossega leão, fazer terra e outras tantas expressões se incorporaram ao seu folclore.
Quantos namoros se iniciaram nos apertados corredores dos bondes.
O outro lado eram as ocorrências.
Um crime violento aconteceu na Ladeira da Barra. Um fiscal do bonde 701 obrigou um soldado de polícia, que tentava entrar pala porta traseira, descer e entrar pela dianteira, que era a forma correta de embarcar. O soldado irritado foi ao quartel, pegou um fuzil, esperou o retorno do bonde e atirou contra o fiscal. O fiscal se esquivou habilmente e Isaías, conhecido como Seu Nandinho, que não tinha nada a ver com o caso, que morava próximo nós foi atingido pela bala perdida e morreu.
Por causa de antigas divergências no trabalho o fiscal da Companhia Linha Circular conhecido como Bode Africano abateu a tiros o condutor em pleno 1.º Arco.
Acidentes ocorriam freqüentemente nas Ladeiras da Soledade, Praça, Cabula, Rua do Tijolo etc. Na Ladeira dos Bandeirantes o bonde n.º 220, linha 11-Brotas não atendeu o sinal num trecho de linha simples e bateu de frente no bonde que ia subindo. No choque um dos bancos girou e imprensou uma passageira que teve fratura de costelas.
Na Praça Municipal o bonde n.º 261, linha 5-Barris, descarrilou subindo a calçada da Sorveteria Cubana e por pouco não caiu na Ladeira da Montanha. Não houve vítimas.
Nas Sete Portas, próximo á Ladeira do Funil o bonde 289 que puxava um reboque bateu num caminhão, causando grandes estragos materiais.
O mais emocionante foi o que aconteceu na Rua Garibaldi. O bonde 173, linha 16-Amaralina fazia a última viagem por volta da meia-noite quando descarrilou e caiu totalmente numa ribanceira do lado da Rua da Lama (Padre Domingos de Brito). O bonde tombou de lado e uma senhora ficou presa numa das colunas. O primeiro trabalho, feito por um carpinteiro que morava próximo, foi serrar a coluna para resgatá-la.
Durante todo o dia seguinte tentou-se o resgate com o equipamento disponível da Companhia Circular, empresa concessionária, sem sucesso. Era tempo da segunda guerra e foi acionado um guindaste dos americanos que estavam instalados na Base Baker. Foi uma festa. O tráfego de bondes ficou interditado, pessoas se aglomeravam para apreciar com entusiasmo o espetáculo da operação.
Vendedores de sorvetes, pipocas, roletes de cana, baleiros, aproveitavam a oportunidade para aumentar as vendas dos seus produtos.De repente partiram-se os cabos do guindaste que tentava içar o bonde e a lança bateu da rede elétrica que se partiu. Foi um verdadeiro alvoroço. Gente se jogando do outro lado da ribanceira que parecia papel.
Da janela de minha casa na Rua Treze apreciava estarrecido o espetáculo. Seu Valdemar, o guarda civil 59, também espectador, tomou um chapuletada de um fio de alta tensão que se partiu e inexplicavelmente se salvou. Dois dias depois o bonde foi retirado, parcialmente desmontado. Na renumeração, completamente restaurado, o bonde sinistrado passou a ter o número 217

terça-feira, 5 de maio de 2009

Indicação do Blog - Exposição da obra de Carybé no MAM

Desde o dia 23 de abril, no Museu de Arte Moderna da Bahia, a exposição de obras de Hector Bernabó , o Carybé. A mostra reúne pinturas, esculturas, desenhos e gravuras que recontam a história deste argentino que adotou Salvador como morada e inspiração para sua obra. A temática afro-baiana foi uma constante no trabalho de Carybé, assim como, a sensualidade das mulheres baianas. A exposição comemora os 70 anos da primeira vinda do artista à Bahia e integra a programação especial de 50 anos do MAM, projeto que teve a liderança de Lina Bo Bardi, e de figuras de destaque do meio cultural baiano como Mario Cravo e Carybé.
Hector Julio Páride Bernabó, ou Carybé, nasceu em Lanús (Argentina) em 07 de fevereiro de 1911 e faleceu em Salvador, em 02 de outubro de 1997. Destacou-se pela arte figurativa brasileira, sobretudo a baiana, com motivos de mulatas lavadeiras, pescadores, e capoeiristas, por meio de estilo que se aproxima da abstração. Apesar de ter nascido na Argentina e vivido sua infância na Itália, foi no Brasil que teve sua formação artística e morada definitiva. Mudou-se para o Brasil em 1919, e freqüentou a Escola Nacional de Belas Artes entre 1927 e 1929. Seu primeiro contato com a Bahia foi em 1938, quando foi enviado pelo jornal Prégon para fazer uma reportagem sobre o célebre personagem Lampião. Com a falência do periódico, estendeu sua jornada pelo litoral norte do Brasil, que lhe inspirou desenhos para sua primeira exposição coletiva, em Buenos Aires, em 1939. Sua relação com o Brasil se aprofunda na década de 1940, quando verteu Macunaíma, de Mário de Andrade, para o espanhol. Na década de 1950, a convite do Secretário da Educação Anísio Teixeira, Carybé muda-se definitivamente para Bahia, onde auxilia a promover a renovação das artes plásticas. Em 1955 foi eleito o melhor desenhista da III Bienal de São Paulo, e, em 1961 recebeu o mérito de expor em sala exclusiva. Em 1957 naturalizou-se brasileiro, fato que legitimou sua condição de ícone da Bahia. Com efeito, suas obras visam, sobretudo, a retratar a riqueza da cultura popular baiana. Carybé realizou mais de cinco mil trabalhos, entre pinturas, desenhos, esculturas e esboços, incluindo ilustrações para obras de autores consagrados como Jorge Amado, Rubem Braga, Mário de Andrade e Gabriel Garcia Marquez. Possui murais nas cidades de Salvador, Londres e Nova York, em que se nota infl uência de Picasso e Rivera. Entre suas obras impressas, destacam-se a Iconografi a dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia, resultado de 30 anos de pesquisa, As Sete Portas da Bahia, coletânea de desenhos sobre a cultura baiana, e Olha o Boi e Bahia, Boa Terra Bahia, ambos em parceria com Jorge Amado. O escritor baiano, seu grande amigo, em um de seus versos integrantes da Cantiga de capoeira para Carybé, traça bela descrição da relação de Carybé com a cultura baiana: [...] A paisagem, a poesia e o mistério da Bahia, ê, ê camarado, e de quem é? É de Carybé, camarado,Ê camarado, ê...
Fonte: Revista do Ministério das Relações Exteriores

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Impasse nos portos

Porto de Aratu
Osvaldo Campos
Já estamos em maio e desde o final de dezembro a Codeba, permanece sem o seu presidente. O impasse se dá por conta de divergências acerca da ampliação do terminal de contêineres. Brasília desejando realizar um aditivo ao contrato do atual concessionário e os usuários do porto defendendo uma nova licitação e a introdução da concorrência nos serviços de movimentação de contêineres.
Enquanto isto, a crise financeira global, que afetou fortemente o comércio mundial, já mostra seus reflexos nos portos baianos com queda acentuada na receita. E continua a indefinição em relação aos futuros responsáveis pela ampliação do porto de Salvador. Esta demora trará prejuízos futuros para toda economia baiana.
Enquanto isso, os portos concorrentes de Pecém, Suape e Recife, administrados localmente por seus governos estaduais, são tratados pelos mesmos como prioridades estratégicas na atração de novos empreendimentos e na geração de emprego e renda para seus estados.
O que tem levado os baianos ao imobilismo? É chegada a hora do Governo da Bahia tomar uma posição política em defesa da nossa economia e do comércio exterior baiano.
Também em relação ao turismo marítimo, permanece o imobilismo na Codeba.
Apesar de Salvador apresentar um crescimento expressivo no número de escalas de Cruzeiros Marítimos, 103, com mais de 150.000 turistas visitando a cidade na última temporada encerrada em abril, os investimentos previstos para a implantação de um moderno terminal de cruzeiros marítimos desde 1988, ainda na gestão Sylvio Faria na Codeba, permanecem indefinidos.
A
concepção equivocada da administração municpal e de seus novos planejadores, acerca da importância do porto de Salvador para a economia da cidade e do estado, as constantes mudanças na presidência da Codeba, seis nos últimos seis anos, são fatores determinantes para a atual situação de incertezas. Contudo, o pensamento do novo secretário de planejamento do estado é um sinal alentador. Nada impede que Salvador, a exemplo de outras cidades como Barcelona e Amsterdan continue sendo um importante porto cargueiro
(foto: PTA - Terminal marítimo do porto de Amsterdan), especializado em contêineres e, também invista no segmento do turismo marítimo. Em Barcelona, há 15 anos, os números eram semelhantes ao do porto de Salvador, cerca de 100 navios de cruzeiros e movimentação de 350.000 conteineres. Com a liderança do governo regional da Catalunha, o porto investiu na modernização das instalações de turismo e de movimentação de contêineres. Atualmente, com mais de 1.000.000 de turistas marítimos e cerca de 2.300.000 conteineres, é o porto líder no Mediterrâneo nestes dois segmentos. Com a implantação do Porto Sul em Ilhéus, o Governo da Bahia deveria criar uma empresa portuária como fizeram o Ceará, Pernambuco e até o nosso vizinho estado de Sergipe e assumir a gestão dos portos públicos do estado, ( foto: Terminal de conteineres de Salvador)direcionando os mesmos para um novo ciclo de investimentos e modernização.
Engenheiro e Mestre em Administração, foi gerente de operações e diretor da Codeba (1983-1999) e Superintendente de Transportes da Bahia (2001-2006). É autor da tese : Portos e Competitividade - A questão Portuária na Bahia. Atualmente é Conselheiro da Fieb (Infra-estrutura).

domingo, 3 de maio de 2009

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Indicação de Leitura do Blog : Tradição Autocracia e Carisma


A trajetória política de uma das principais personagens da cidade do Salvador no século XX é o tema deste livro do Prof° Paulo Fábio Dantas Neto. Premiada tese de doutorado do IUPERJ agora acessessível a todos que se interessam pela cidade de Salvador suas histórias e personagens.

" Quanto ao conteúdo da obra pode-se afirmar que se concentra na origem e desenvolvimento de todo o arcabouço político e estratégico que consolidou a presença indelével de ACM na política de seu estado. Ademais, pauta-se por um referencial teórico que mescla as concepções de hegemonia e revolução passiva de Antonio Gramsci e as teorias da poliarquia de Robert Dahl. Estes referenciais são complementados por entrevistas com personagens de renome, bem como por uma pesquisa documental nos arquivos da Câmara dos Vereadores de Salvador, na Assembléia Legislativa da Bahia e no Congresso Nacional. Este cabedal de recursos faz do livro um referencial bibliográfico sobre as elites políticas nacionais.
Um ponto a ser destacado na pesquisa do professor Paulo Fábio é a desmistificação que prevalente acerca da atuação Antônio Carlos Magalhães enquanto político. A rigor, para o grande público, esta se resume aos mandatos executivos de prefeito de Salvador e governador da Bahia. O político ACM é acompanhado no livro em uma trajetória que inclui a sua atuação parlamentar na Bahia desde a década de 1950 e sua presença nos governos militares, especialmente no de Ernesto Geisel, pontos-chaves para se compreender a habilidade de sobrevivência, adaptação e influencia de ACM por mais de cinqüenta anos na linha de frente da elite brasileira.
Além disso, aborda o processo conhecido na Ciência Política como "circulação das elites". Assim, personagens como Juracy Magalhães, Antonio Balbino e Hélio Machado, representantes das velhas elites baianas, são inseridos na obra como atores protagonistas de um modelo político, econômico e social que se desmontava no Brasil e que, por sua vez, ecoava na Bahia. Este contexto histórico ilustra brilhantemente a capacidade de ACM em entender, antecipar e se adaptar às circunstancias.
O título do livro Tradição, Autocracia e Carisma, revela o périplo por onde, teoricamente e empiricamente, Paulo Fábio buscou traçar os elementos formadores de um corpus político, o "carlismo" que, mesmo em declínio, ainda se faz presente no cenário político estadual, regional e nacional. Tradição por se coadunar com as práticas e atitudes mentais de um povo que, compreendido pelo seu futuro líder, estava atrelado a determinadas atitudes de tutela política típicas ao provincianismo ainda perene nas relações sociais. Autocracia por se tratar de uma prática política levada a cabo por ACM de forma centralizadora e modernizadora. O chefe político ACM, ao contrário do que se pensa, não é um coronel típico da República Velha, mas um planejador político hábil que soube aliar as velhas tradições políticas de seu estado e de seu país com as inovações macroeconômicas da quais foi contemporâneo.
Por fim, o carisma. Este conceito tão vulgarmente alardeado pelo senso comum está associado ao seu motor na sociologia de Max Weber. O carisma, no caso, pode ser compreendido enquanto relação de dominação e qualidade da ação social de ACM enquanto ator político . A oratória, aliada à liderança, ao exemplo e à determinação eminentemente política são qualidades que os governados exigem de seus governantes. ACM, como poucos, soube identificá-las e as aplicou em benefício próprio, de seu grupo e de seu estado, não necessariamente nesta ordem, pois que variava de acordo com o instante e às necessidades. Enfim, o livro demonstra que ACM, como muitos de seus pares na política regional, foi uma liderança coerente com seu tempo, sua gente e seu país. Nada mais, nada menos.
Portanto, mesmo com todas as normas peculiares a uma produção de caráter científico, Tradição, Autocracia e Carisma é uma obra de leitura prazerosa. Não foi por acaso premiado com o título de "Melhor Tese do Ano" pelo IUPERJ, centro de excelência da Ciência Política Brasileira. É uma obra que vai marcar aquele que se dispuser a lê-lo sem juízos de valor apressados quanto ao seu personagem principal. Numa palavra: imperdível."
Resenha publicada no Blog do Helder Teixeira- 10/09/2007

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Cidade Baixa - Metamorfose do Comércio*

Gey Espinheira * (in memoriam)
Uma aparência de anacronismos: os tempos não se harmonizam na paisagem diversa da Cidade Baixa, do Comércio. Uma decadência ali se estabeleceu como uma gangrena em um corpo senil, como se a própria senilidade já não fosse, ela própria, uma promessa de aniquilamento. Prédios, igrejas, lugares abandonados, sujos, arruinados, testemunhados pela vitalidade da cidade inquieta, da gente que trabalha de mil modos para prover suas necessidades, produzindo coisas, cores, sons e odores, para tudo converter em dinheiro, única e grande razão de todos os esforços.
Anônimos, que não se querem esquecidos, picham e grafitam, ou melhor, picham, sujam, muros e paredes, fachadas de prédios, uma escrita, quase sempre feia, desesperada, identitária de pessoas e grupos, que macula a cidade, risca nas faces dos prédios e dos muros sujeiras
como uma linguagem tosca, maquiagem malfeita ou que se desfaz e logo lambuza mais que desenha ou enfeita; feições de decadência a dominar as expressões. São tristes essas assinaturas que gritam por presença, que trazem afogados à tona. São tristes porque são desesperadas e sem esperanças, são presenças feias, deselegantes como intromissões, anti-heroísmo dos deserdados que se recusam à exclusão. Mas, assim é a cidade dos silenciados, os deserdados que se querem fazer ver e ouvir, mesmo em seus gritos roucos e em sua linguagem desconexa, em suas imagens grotescas. Há homens e mulheres grotescos na cidade, que também se torna grotesca na forma de contê-los. De fazê-los grotescos em seus espaços como seus conteúdos. Nessa diversidade, a cidade se expressa, evoca situações e condições de vida de seus habitantes, nem todos bem inseridos no cotidiano de vida que, para muitos, é uma luta nas incertezas das situações imediatas em que vivem(...) Há um ar de decadência rondando toda essa área da cidade, em que pese o fato de que houve uma intervenção urbana há poucos anos por ali, que deu à Praça Deodoro a aparência e as funções atuais. Antes, um grande estacionamento de caminhões de carga à espera de contratos de transporte e na encosta prédios em condição de arruinamento, e por lá uma gente pobre, desafortunada, alojada em cubículos, ou entre paredes entreabertas de prédios semi tombados, mas também o famoso prostíbulo proletário, o Julião, cuja hierarquia sempre fora mais baixa do que aquele outro, mais ao alto, no emaranhado das ruas do centro histórico, nas vizinhanças do Pelourinho, o Maciel, o maior de todos, com centenas de mulheres e travestis, (Espinheira, 1971, 1984), tudo isso no prolongamento do processo de esclerose e gangrena urbanas, que contaminam certas partes da cidade (...)
Carlos Geraldo D'Andrea Espinheira, falecido em 17 de março de 2009, era Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Líderava o Grupo de Pesquisa: “Cultura, cidade e democracia: sociabilidade, representações e movimentos sociais”.
Artigo publicado originalmente no Blog : Estabelecidos e Desafortunados do Centro Histórico em 21/08/07. Fotos de Antonio Mateus, Isabela Duplat e Raul Bairrio

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Pelo Porto e a Via Expressa

Walter Pinheiro
O debate sobre o porto de Salvador tem sido prejudicado por duas teses equivocadas. A primeira atrela a reabilitação socioeconômica do Comércio e, por extensão, de toda a Cidade Baixa, ao fim das operações portuárias de carga em nossa capital. A segunda ignora o dinamismo emergente da economia baiana para sugerir que a desativação do Porto de Salvador pode ser contrabalançada pela expansão do complexo portuário de Aratu. Em termos sócio-econômicos, o bairro do Comércio pode ser dividido em três faixas paralelas aos armazéns do porto. A primeira, situada entre as avenidas da França e Miguel Calmon, abriga, além da atividade portuária, agências bancárias, escritórios de advocacia e outros serviços. Esta área mantém dinamismo evidente. A segunda, o miolo formado por ruas como Portugal e Santos Dumont, conhece o abandono, apesar de alguns investimentos privados recentes, inclusive em faculdades. As muitas lojas fechadas testemunham o declínio ainda não revertido deste espaço que já foi um centro varejista importante. Mas é sobretudo na terceira faixa, a da encosta que vai da Montanha ao Taboão e, daí ao Pilar, em direção à Calçada, onde se encontra a verdadeira ruína. Uma pergunta não quer calar: porque os novos planejadores da cidade insistem em associar a reabilitação do Comércio à destruição da principal atividade que nele prospera? O Porto de Salvador vai bem. Cresceu em movimentação de carga 21,2% em 2008. É um negócio rentável e pode ter um desempenho ainda melhor com novos atracadouros, o aumento do calado e a construção da Via Expressa para o tráfego de caminhões pesados. Nada disso, lembremos impediria o uso de parte de sua área como terminal turístico de passageiros associado a algum equipamento de lazer. Por que nossos neourbanistas não enfrentam a tarefa prioritária de recuperar os trechos arruinados das encostas do Centro Histórico ao invés de sugerir a transformação do porto num grande shopping em distrito boêmio? Por que não se mobilizam para usar os recursos do novo programa de habitação do governo federal para construir moradias no Centro Antigo? Por que não seguem o exemplo de empreendedores como Carlinhos Brown (Museu do Ritmo) ou Bernard Attal (Trapiche Barnabé)? O segundo equívoco é acreditar que a Bahia do século XXI demandará apenas um porto – Salvador ou Aratu. A lógica binária parece exigir uma aposta na estagnação. O governo Wagner trabalha por uma economia dinâmica, mais diversificada e melhor distribuída espacialmente. Eis porque não apenas analisa a expansão portuária em Aratu e apóia os novos investimentos em Salvador, como também inicia a construção de um terminal para a nova Ferrovia Leste-oeste, o Porto Sul, em Ilhéus.
Artigo publicado no Jornal A Tarde, 30/09/2009.p.3 - Opinião.

Walter Pinheiro, Secretário de Planejamento do Governo da Bahia. Natural de Salvador, tem 49 anos. Foi eleito deputado federal em 2006 com o maior número de votos do PT no Brasil - 200.894 votos em 414 do total de 417 municípios baianos. Foi presidente da Comissão de Ciências e Tecnologia da Câmara , líder da bancada do PT e coordenador da bancada de oposição durante o Governo Fernando Henrique.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Desvario Cultural

Foto do Espaço de cinema quando ainda era permitido o estacionamento.
Fernando da Rocha Peres
Foram necessários oito anos e meio, muito trabalho e desgastes burocráticos para a construção do Espaço Unibanco de Cinema/ Glauber Rocha, na Praça Castro Alves, em Salvador, aberto ao público em 19 de dezembro de 2008. Recordando a história do cinema na Bahia, a terra do “já teve” ou do “impossível acontece”, está ocorrendo um fato, pouco conhecido dos eleitores soteropolitanos, que é a possível e premeditada inviabilidade do recém-inaugurado espaço de entretenimento e lazer. Xibança igual só na Bahia. Ali, na Praça do Poeta, em 1919, existiu uma casa de espetáculos e cinema denominada Kursaal Bahiano (do alemão: sala para apresentações sociais), que o Jornal da Manhã, em 1920, por consulta e votação popular, fez mudar o nome para Cine Teatro Guarany. Vejam que exemplo democrático. Até 1949, os espectadores afluíam com frequência para ver os grandes astros e o noticiário da cinematografia mundial. Durante seis anos, o Guarany esteve fechado e só reabre, festivamente, com a exibição de O Manto Sagrado, em 1955.Após um longo período de vigência e lugar de referência, o Guarani, agora sem o “y”, entra em nova decadência, é fechado em 1998, arruinado fica por muitos anos, mas renasce da sujeira e do lodo com a nova proposta de quatro salas para exibição,uma livraria (Galeria do Livro), uma lanchonete, uma bombonière e, em breve, um restaurante. Nesta sua nova fase, de três meses e meio, como Espaço Unibanco de Cinema/ Glauber Rocha, já começaram as dificuldades com o poder municipal, que está impedindo o estacionamento ao lado e em frente do empreendimento, que só tem a acrescentar no entorno de uma área, no ex-centro dito “histórico” e carunchoso de Salvador. Nas três últimas semanas, março/abril, a queda diária de frequentadores é de 70 por cento, tendo chegado a mil e quinhentas pessoas só aos domingos, o que não mais ocorre após a proibição de estacionar automóveis. Diante desta evidência, o grupo Unibanco já cogita fechar o Espaço Glauber Rocha. Se isto acontecer, vai ser um despautério dos diabos, com repercussão nacional, pois não há ilegalidade no estacionamento, mas só capricho de quem não faz nada. Aliás, é preciso dizer que os contatos dos que gerenciam o empreendimento com o poder municipal, com as dificuldades de sempre, têm sido bastante propositivos, como relatado: 1) adotar a área do antigo Cacique, restaurante que funcionava ao lado do cinema, como uma praça de convivência; 2) criar no calçadão em frente ao Espaço Unibanco um estacionamento para 35 carros, agenciado como era na década de 1940, tudo por conta da iniciativa privada. Sabe-se, com certeza, que o impasse e a proibição não partiram do alto escalão da Prefeitura Municipal do Salvador, como um todo, onde penso que existe gente sensível aos interesses da população, e que sabe da importância de uma “revitalização” do centro da cidade. Todos sabem que sonhar é preciso, e o próprio cinema tem utilizado bastante o sonho como tema: aos curiosos e sonhadores basta indicar a obra-prima de Akira Kurosawa intitulada Sonhos. Acontece que também é necessário navegar, andar, chegar. Isto foi realizado com o Espaço Unibanco para a alegria dos cinéfilos assistirem a películas clássicas, antigas e contemporâneas, e conhecerem o trabalho de jovens cineastas baianos. Numa cidade onde as opções de lazer, fora da praia ou do axé, são poucas, é frustrante admitir que o poder público aja sem atentar para os interesses da coletividade.Enquanto isso, eu pergunto: qual o motivo ou intenção daqueles que administram a cultura municipal desejarem o imobilismo do já existente e falarem em projetos mirabolantes, arábicos e irrealizáveis, quando é sabido que não há dinheiro para a saúde, o saneamento, a educação e a segurança? É preciso, além de sonhar, pensar bem antes de desvariar ou fazer besteiras. De minha parte, como articulista, peço o alerta e a mobilização dos eitores para o assunto.
Artigo publicado originalmente no Jornal A Tarde

terça-feira, 28 de abril de 2009

Salvador e a elegância nos transportes

Almir Santos
Bom-dia, por favor, obrigado. São gestos elegantes que cabem em todos os lugares, em todas as oportunidades. Nas repartições públicas, nos bancos, nos estabelecimentos comerciais, nos estabelecimentos de prestação de serviços, nos elevadores, nos táxis, nos ônibus etc. Como é elegante as pessoas se cumprimentarem. Como é elegante o agradecimento por ter sido servido. Nos ônibus há uma peculiaridade. Cerca de 80% dos usuários do transporte coletivo os utilizam para o trabalho e para a escola. Fazem repetidamente os mesmos trajetos nos mesmos horários. Geralmente, as pessoas são servidas diariamente pelos mesmos motoristas e pelos mesmos cobradores. Acostumam-se a eles. Por isso esses profissionais passam a fazer parte de suas vidas como fazem os seus colegas de trabalho ou de escola. Cria-se entre essas pessoas uma interdependência. Passam a ser parceiras. Entretanto, os gestos agradecer ou cumprimentar nem sempre são bem entendidos ou bem recebidos. Há quem não responda até ao gesto de se desejar um Feliz Natal ou um Feliz Ano Novo. Isso não é uma regra geral, felizmente. Há profissionais superatenciosos, superelegantes e educados. Mas há os que só respondem um cumprimento quando se trata de uma garota bonita. Já o portador de passe livre está incluído entre as pessoas que muitas vezes não tem uma resposta dos seus gestos elegantes. Há até a quem vira o rosto quando o portador de passe entra no ônibus. Por que isso? Por que não somos, todos nós parceiros, elegantes nos transportes? Sejamos pois elegantes ! ! ! Elegantes ao entrar e sair dos transportes. Elegantes ao facilitar o acesso aos portadores de deficiência, idosos e gestantes. Ceder os lugares para eles, mesmo que não estejamos nas poltronas preferencias. Elegantes ao parar o ônibus corretamente para embarque e desembarque de passageiros. Tenhamos em mente que a honra é mais para quem dá, do que pra quem recebe. Esta mensagem é dirigida para todos os parceiros do sistema de transporte coletivo.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O Senador Eterno da Bahia

Oliveiros Guanais de Aguiar
Em 50 anos de militância política, iniciando por cargos eletivos aqui e logo depois no cenário nacional, foi lá, no senado federal, que o seu talento pôde afirmar-se e fazê-lo reconhecido como uma das maiores cerebrações nacionais. E olha que no seu tempo o senado reunia as maiores expressões da inteligência e da cultura do Brasil, não era esse galinheiro de hoje. Para ser o melhor naquela época, era preciso ser alguém de genialidade excepcional. Pois o nosso senador o era. Chamava-se Rui Barbosa. Não vou falar de todos os campos em que o seu gênio brilhou. Ficarão também de lado as controvérsias que aconteceram em torno de suas ações e de sua maneira de ser, com os que não gostavam dele, por inferioridade ou por inveja, apontando traços negativos em suas obras e em seu estilo: acusações que lhe foram feitas, em vida, deram-lhe oportunidade de contestá-las todas, com um ímpeto que causava medo e silêncio nos seus detratores. Verboso, de palavreado longo, alheio às realidades nacionais, voltado para a cultura de outros povos e de outros tempos, advogado de interesses estrangeiros, tudo isso e muito mais disseram dele... Há um pouco de razão em algumas dessas críticas, mas, afinal, ninguém é perfeito. E quem o atacava? Micos, gente pequena, porque todos ficavam pequenos comparados a ele. E, de qualquer forma, as suas maiores virtudes relacionam-se ao enfrentamento dos poderosos, ao combate ao militarismo, à contribuição jurídica doutrinária e ao ativismo de uma advocacia desassombrada, criando dificuldades imensas para Floriano Peixoto e envergonhando ( já naquele tempo) o Supremo Tribunal Federal no julgamento do primeiro “Habeas Corpus” que lá chegou, apresentado por Rui em defesa de oficiais revoltosos da marinha.
Por seu enfrentamento ao “Marechal de Ferro”, foi obrigado a pedir asilo na embaixada chilena e a seguir depois em exílio para Argentina e de lá para a Inglaterra. E vale destacar ainda a “sua coragem pessoal, [que foi] até maior do que o seu talento -se isso for possível”- como afirmou o seu mais respeitável opositor no senado, o grande representante do Rio Grande do Sul, Pinheiro Machado. É da relação entre os dois que vamos falar um pouco. Foram amigos e correligionários políticos, depois ficaram em campos opostos, mas um admirava e respeitava o outro. Pinheiro, como líder do Partido Republicano Conservador, se batia muito com Ruy, líder liberal. E uma vez, no curso dos debates, disse assim – “ Deus sabe o sacrifício que me custa enfrentar V.Ex. nesta tribuna”. E, em outra ocasião, afirmou: “ –Quando Rui fala, eu fico mais inteligente. Ele diz o que eu quisera dizer”. Pinheiro, sexagenário, andava em conquistas femininas, o que levou Ruy a dizer num discurso, dirigindo-se ao seu opositor: “V. Ex., touro osco do Sul”... [ Osco, no Rio Grande, é o tom acinzentado do pelo do gado vacum]. Ao que Pinheiro redargüiu : -“ E V. Ex., brilhante sagüi dos canaviais do Nordeste”...
Certa vez, o deputado Germano Hasslocher, freqüentador do mansão do Morro da Graça ( residência do senador gaúcho), furioso com um ataque que Rui desferiu contra Pinheiro Machado, esbravejou: -“ Amanhã vou reduzir Rui a farelo”. Pinheiro interveio: -“Não. Tu não vais fazer nada disso. Primeiro, porque reduzir Rui a farelo não é tarefa ao alcance do poder humano. Segundo , porque, dado que o conseguisses, que sobraria depois neste país?”
Quando Pinheiro Machado foi apunhalado pelas costas no Hotel dos Estrangeiros, Rui recusou, irado, a proteção de uma patrulha mandada para protegê-lo na eventualidade de uma manifestação da ira popular.
Dias depois, o nosso senador preparava-se para comparecer à missa de sétimo dia por alma de Pinheiro, quando lhe chega um amigo para uma consulta de ordem jurídica. Rui sobe numa escada em busca de um livro da última prateleira e cai. Ao tentar levantar-se, não consegue. Tinha quebrado a perna. O médico que o atendeu decretou: setenta dias de repouso. Ruy então comentou, com bonomia: “Foi a última rasteira que o Pinheiro me passou. Não quis que eu fosse à sua missa.”
Rui não deve ser lembrado como a “Águia de Haia”, nem como o homem que “falava todas as línguas”, ou se propunha a “ensinar inglês aos ingleses”, tudo isso fruto da reverente imaginação popular. Rui deve ser lembrado como defensor das liberdades, da justiça, da igualdade entre as nações em face do Direito. Deve ser lembrado pela coragem que teve de enfrentar sábios e poderosos, armados ou não.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Nem só turistas vivem em Salvador

Angelina Bulcão*
A poluição sonora, já considerada típica de Salvador, se amplia assustadoramente apesar da Lei do Silêncio existente.
Inevitáveis são as construções que tornaram a cidade num canteiro de obras.
Mas as festas pré e pós carnavalescas se emendam o ano inteiro. As tradicionais comemorações juninas já têm características de pagodes. E recentemente, até uma imagem de Cristo desfilou em trio elétrico no circuito Barra-Ondina, numa manifestação promovida por uma igreja alternativa.
Ninguém discorda que o carnaval traz, para a cidade, empregos, milhares de dólares, etc. Mas é impossível ignorar que, em Salvador, também se trabalha, apesar da fama que o baiano ganhou de preguiçoso... fama, por sinal, já desmentida em tese de doutoradoda prof. Elisete Zanlorenzi, PUC Campinas
Inegavelmente, tais eventos causam transtornos para alguns bairros, dificultando a entrada e saída dos moradores de suas ruas, dos estudantes irem/voltarem do colégio, e impedem aqueles que trabalham, se concentrarem ou dormirem por causa do barulho que já se torna crônico.
Uma pequena venda de rua começa oferendo cigarros, balas, cerveja. Logo depois, surge uma mesa, quatro cadeiras. E não demora, várias mesas, várias cadeiras que se espalham pela calçada. Eis que a barraca dá origem a uma festa de largo...
Festas-de-largo, lavagens, passeatas não dão direito a feriados àqueles cujas obrigações impedem de dançar ou ensaiar durante o verão inteiro...
É possível constatar também que o barulho não ocorre apenas em locais situados longe de residências. Praticamente todos os bairros têm um clube, e/ou um hotel, e/ou uma igreja, com possantes autofalantes.
Automóveis com portas abertas deixam escapar um som que arromba os tímpanos. A disputa entre a potência foi proibida, mas basta o policial se afastar, para tudo recomeçar. E os protestos já provocaram tragédias recentemente, segundo os noticiários locais.
As queixas de pessoas que residem longe de certas casas de shows só fazem comprovar que os aparelhos de som destas casas ultrapassam os decibéis para poderem ser ouvidos à distância! Festas de alguns hotéis são escutadas por vários km, uma vez que o vento é capaz de espalhar o som, quando este ultrapassa o volume permitido.
Só quem quer fazer ouvidos moucos ignora os efeitos nocivos da poluição sonora na saúde física e mental. Distúrbios do sono e da saúde em geral no cidadão urbano foram revistos na literatura científica dos últimos 20 anos. Em vígilia, o ruído de até 50 decibéis (dB) pode perturbar, mas é adaptável. A partir de 55 dB provoca estresse leve, excitante, causando dependência e levando a durável desconforto. O estresse degradativo do organismo começa a cerca de 65 dB com desequilíbrio bioquímico, aumentando o risco de infarte, derrame cerebral, infecções, osteoporose etc. Provavelmente a 80 dB já libera morfinas biológicas no corpo, provocando prazer e completando o quadro de dependência. Em torno de 100 dB pode haver perda imediata da audição. Por outro lado, o sono, a partir de 35 dB, vai ficando superficial, à 75 dB atinge uma perda de 70 % dos estágios profundos, restauradores orgânícos e cerebrais.
A surdez causada por ruídos é um problema que preocupa os médicos. "Mesmo parcial, esse tipo de dano é irreversível", declarou o otorrinolaringologista Antônio Celso Nassif, presidente da Associação Médica Brasileira a uma revista informativa. O ideal é evitar, se possível, expor-se a ruídos muito intensos.
Adolescentes parecem ignorar os riscos de ouvir música em alto volume. As crianças pequenas também correm risco pois os brinquedos estão cada vez mais barulhentos".
Os repórteres Sergio Berezovsky/Carlos Fenerich, em uma matéria publicada na referida revista, anunciaram um levantamento realizado no final do ano passado pela Sociedade Brasileira de Otologia. A associação dos médicos especialistas em ouvidos, mediu a audição de mais de 60000 pessoas em todo o país. Entre os consultados que disseram não ter nenhuma deficiência (cerca de 10% do total), 40% não escutavam direito. Nas cidades maiores e mais barulhentas, é maior a seriedade do problema: mais da metade dos que julgavam ouvir perfeitamente já não conseguiram captar alguns sons agudos (o primeiro indício de danos auditivos provocados por exposição aos ruídos). "Essas pessoas poderão ter problemas mais graves depois que passarem dos 60 anos", afirmou Ricardo Ferreira Bento, presidente da Sociedade Brasileira de Otologia e professor da Universidade de São Paulo. "A partir dessa idade, a capacidade auditiva começa a diminuir naturalmente." Esse é um caso de difícil prevenção. Ninguém se expõe por escolha própria ao barulho de um congestionamento nem ouve uma britadeira porque quer. E quem reclama contra as festas e manifestações é acusado de intolerante e inimigo do paraíso tropical.
Assim somos obrigados a suportar este tormento, disfarçado em chavões tais como, "o verdadeiro espirito da alegria de um povo", "manifestações populares e autênticas de uma cultura genuína", "querem calar a Bahia", etc.
Nem todo mundo aprecia e está disposto a ouvir este tipo de "manifestação artística", este é um direito inalienável do cidadão, salvo nos regimes de força. A psicanalista Eugênia Carvalho, em protesto enviado ao jornal 'A Tarde' pergunta: Será que vivemos sob a ditadura e o estigma do trio elétrico, com seus decibéis ensurdecedores e sua zoeira dissonante? Esta não seria então também uma forma de fascismo?
Tudo em nome da divulgação da "boa terra", cujo mote deveria ser "aqui pode tudo", onde não há limites entre o espaço privado e o espaço público, semblante de paraíso perdido tropical, "esquema" sustentado por uma política neo-liberal para incrementar a industria turística a qualquer preço.

* Escritora e psicóloga

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Uma Polêmica de Volta

Pedras Portuguesas sendo retiradas do Porto da Barra
Almir Santos
Com segurança, o insucesso do uso das pedras portuguesas no caso de Salvador deve-se mais à má execução das obras e conservação. O que foi feito na Barra é um pavimento pobre, longe do que foi feito na Pituba no Campo Grande, na Praça da Sé, na Praça da Inglaterra e na Piedade. Agora se fala em fazer o mesmo no Comércio. Por falar em Piedade, uma obra executada há aproximadamente 10 anos, toda executada em material nobre, está pessimamente conservada. Há pedras quebradas, faltando e soltas. Há árvores que morreram e não foram replantadas. Problema de execução, fiscalização e conservação. Enquanto isso há pisos de centenárias igrejas de Salvador em perfeito estado. Na Avenida Marquês de Caravelas em frente a um hipermercado há um contraste gritante: a calçada executada pelo particular é bem feita e a executada pela prefeitura é mal feita. No Largo da Vitória há uma calçada em pedras portuguesas feita por um condomínio particular há aproximadamente 30 anos que está em perfeito estado. Se a Prefeitura exigir das empreiteiras um serviço bem feito, seguir as práticas recomendadas, pode dar um show de pedras portuguesas e embelezar a cidade. Pode realizar um concurso para novos desenhos e sempre adotar meio-fios de granito. Nunca um pavimento nobre com meio-fio de material pobre e pouco resistente. O material poderá ser totalmente aproveitado e a parte das pedras polidas pelo uso deverá sempre estar voltada para cima para dar um bom visual. Deve haver uma norma eficaz para a recomposição da calçada quando for necessária uma eventual escavação para instalação de duto ou caixas de visita. O mesmo para rebaixamento de meio-fios nas entradas de garagens e estacionamentos. Principalmente a observação de Lei Municipal n.º 5303/99 que define a responsabilidade da manutenção e conservação das calçadas. Fazer bem feito deve ser uma questão de brio ! ! ! Espera-se que o assunto PEDRAS PORTUGUESAS NO COMERCIO seja repensado.