quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Theodoro Sampaio. Um aprendiz, um mestre e muitas lições

A trajetória única de um engenheiro negro que mostrou o sertão do Brasil aos brasileiros e deixou seu nome em importantes ruas de São Paulo e Salvador
Theodoro Sampaio (foto) é um personagem que habita o imaginário urbano e rural por causa da divulgação involuntária do seu nome. Sua popularidade vem da importância dos lugares e das ruas que ostentam o seu nome, principalmente a paulistana, localizada no bairro de Pinheiros, zona oeste da capital. Seu nome batiza ainda uma rua em Salvador, em que atuou por 18 anos.
Nome e sobrenome foram separados e assim se autodenominou uma dupla sertaneja do Paraná, “Teodoro & Sampaio”, levando adiante o nome das ruas aos programas de auditório da televisão e às paradas de sucesso, ganhando os rincões pelas antenas parabólicas e ondas do rádio Brasil afora.
Mas afinal, quem foi Theodoro Sampaio? O que fez esse engenheiro para que seja lembrado em São Paulo, justo ali, no Pontal do Paranapanema, lugar do qual só se fala quando os conflitos pela terra viram caso de polícia? Ou então, por que seu nome denomina logradouros em Salvador ou escolas como a de Santo Amaro, aquela cidade do Recôncavo Baiano que só vemos ou ouvimos falar nos dias de carnaval, por causa da associação com celebridades baianas e roteiros turísticos?

A admiração e o interesse pelo personagem são ressaltados quando se chega ao ponto mais intrigante da sua história de vida: ele era negro, filho de uma escrava, sem pai declarado, e se formou como engenheiro civil pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro 12 anos antes da abolição da escravatura.

E ficamos mais interessados ainda quando sabemos que o jovem engenheiro negro, por dominar as línguas estrangeiras, logo no primeiro emprego integrou uma comissão de alto nível, formada por experientes engenheiros americanos para avaliar os principais portos marítimos e percorrer o rio São Francisco em toda sua extensão navegável, projetando as melhorias necessárias para implantar a navegação fluvial de longo alcance.

O espanto e a admiração ampliam-se quando sabemos que, além de engenheiro civil, experiente em obras para a navegação fluvial, engenharia ferroviária, cartografia e infraestrutura urbana (água e esgoto), Sampaio foi urbanista e também autor de trabalhos fundamentais para a geografia, a geologia, a etnologia, a arqueologia, a linguística, a ecologia e a história do Brasil, especialmente as de São Paulo e da Bahia.
No entanto, mesmo diante de tamanha capacidade e versatilidade, vem à tona a decepção quando se sabe que, “apesar” de negro, filho de uma escrava e que comprou a alforria dos irmãos, Theodoro Sampaio nutria respeito e admiração pela monarquia, assim como pelo dono do engenho no qual nascera.
Fica-se ainda mais perplexo quando se sabe que Theodoro Sampaio poucas vezes relatou ter sofrido preconceito de cor e prejuízos advindos de sua condição mestiça. Afinal, estamos tão acostumados a associar os negros à condição de subalternos, de injustiçados e desprezados, que imediatamente os associamos à resistência cultural e à militância política e, tratando-se da virada do século 19, ao advento da República e às aguerridas discussões daquela época. Jamais imaginamos que um negro, sofrendo o que deve ter sofrido numa sociedade escravocrata para trabalhar e estudar, pudesse ainda defender a Monarquia. Ao contrário de seus contemporâneos abolicionistas, como José Patrocínio, no Rio de Janeiro, Manoel Querino, em Salvador, Astolfo Marques, em São Luís, Luis Gama, em São Paulo, todos de ascendência negra e encarniçados militantes republicanos, Theodoro Sampaio era monarquista.
O interesse pela trajetória desse intrigante personagem da engenharia, da geografia e da historiografia brasileira aponta para um caso muito particular entre os intelectuais e profissionais que atuaram na virada do século 19. 
Um negro na Escola Politécnica
Theodoro Sampaio nasceu em 7 de janeiro de 1855, no Engenho Canabrava, antigo bairro Bom Jardim, atualmente cidade de Teodoro Sampaio, no Recôncavo Baiano. Na época, o lugar pertencia a Santo Amaro da Purificação. Há dúvidas sobre sua paternidade: pode ter sido o Visconde de Aramaré, Antônio da Costa Pinto, dono do Engenho Canabrava, seu irmão Francisco Costa Pinto, ou o padre do engenho, capelão Manoel Fernandes Sampaio, que deu a ele o seu sobrenome. Com 4 anos de idade, ele foi tirado da mãe, uma escrava doméstica do visconde, e levado à cidade de Santo Amaro.
Com 10 anos, Sampaio foi para o Rio de Janeiro com o padre Manoel e foi interno no Colégio São Salvador, um dos melhores de sua época. Em 1872, foi admitido na Escola Central, transformada em Escola Politécnica em 1874. Formou-se em engenharia civil em 1876, mas iniciou sua vida profissional como professor e, depois, como desenhista no Museu Nacional, quando ainda era estudante, em 1875. Cabia a ele desenhar as peças do acervo para serem publicadas na Revista do Museu Nacional, cujo editor era o diretor do museu, Ladislau Neto. Na ocasião, conheceu o americano Orville Derby, considerado, atualmente, o “pai da geologia no Brasil”, que participava da equipe do museu como responsável pela organização do acervo gerado pelas expedições em que acompanhara seu mestre, Charles Frederick Hartt, chefe da extinta Comissão Geológica do Império.
As cadernetas de campo
A trajetória de Theodoro Sampaio pode ser dividida em três etapas, coincidindo com momentos decisivos para a consolidação política, social e econômica do Brasil contemporâneo. Atuando profissionalmente por, aproximadamente, 60 anos, de 1877 a 1937, o engenheiro vivenciou os últimos 13 anos do Império e toda a Primeira República. Assistiu à subida de Getúlio Vargas ao poder, em 1930, e morreu um ano antes da instituição do Estado Novo. 
Cada uma das etapas de sua carreira coincide com uma cidade ou estado (na época ainda chamado de província) em que atuou. A primeira etapa compreende oito anos (1878 a 1886), marcada pelo trabalho no sertão baiano, como integrante de comissões técnicas para construir ferrovias e estabelecer a navegação no rio São Francisco. Ele era engenheiro do Ministério dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e nessa condição integrou, de 1878 a 1880, a Comissão Hidráulica do Império. Foi como membro dessa comissão que publicou as primeiras cartografias e artigos técnicos sobre navegação e geologia.
O que se destaca desse período é o revelador conjunto de cadernetas de campo que produziu. Seus desenhos e anotações possibilitaram a publicação do livro O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina, que se tornaria uma das suas obras mais conhecidas, publicada parcialmente desde 1902 na Revista Santa Cruz, reunida em livro em 1905 e reeditada, posteriormente, em 1938, 1998 e 2002. Theodoro Sampaio aproveitou as anotações de seus diários, suprimindo as informações excessivamente técnicas. Dessa forma, além de descrever a paisagem e os aspectos socioculturais de uma vasta região isolada, os sertões, da zona central do país, Sampaio conta a aventura de um jovem engenheiro de 25 anos, que, em seu primeiro trabalho, busca compreender a realidade que pretende transformar por meio de projetos e obras.
As cadernetas de campo utilizadas para documentar a viagem de mais de seis meses revelam o exímio desenhista de observação e permitem entrever o repertório erudito que orientou sua formacão. A Comissão Hidráulica percorreu cerca de 2 mil quilômetros navegáveis do rio Sao Francisco, e Sampaio ainda atravessou a cavalo, de um extremo ao outro, a província da Bahia, percorrendo a Chapada Diamantina e reencontrando o restante da comissão em Salvador.
O trabalho de campo
Em decorrência da vivência anterior no ambiente acadêmico e museológico do Museu Nacional e do contato com Orville Derby, Sampaio incorporou o olhar que denominamos “antropológico”, ampliando o arco de disciplinas que já integravam a sua formação e suas atividades profissionais. Ele também agregaria o desenho de observação e o diário de viagem de um modo muito particular ao trabalho de engenheiro, documentando a vegetação e os elementos de interesses geomorfológicos, geológicos, arqueológicos e, especialmente, os aspectos sociais que observava. É notável sua sensibilidade para observar de um modo crítico e abrangente o que atualmente denominamos como fatores antrópicos, contemplando os impactos, mas, também, a sabedoria centenária que resulta do embate do sertanejo com as asperezas do meio, expressa no saber fazer da população ribeirinha.
Um encontro entre engenheiros ilustres
De 1882 a 1883, Theodoro Sampaio atuou na construção do prolongamento da Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco, que ligaria Juazeiro, na margem baiana do rio São Francisco, a Salvador. Publicou, na ocasião, o segundo artigo, seguido de um mapa, sobre a geologia da região servida pela ferrovia em construção.
Ele jamais poderia imaginar, à época, que, mais de uma década depois, esse trabalho o aproximaria de um jovem engenheiro da Escola Militar, bigodudo, magro e inquieto, que o procurara logo que soube de seu trabalho pioneiro de mapeamento do sertão baiano. Foi a possibilidade de fazer a cobertura jornalística da Guerra de Canudos para o jornal O Estado de São Paulo que fez com que Euclides da Cunha procurasse o engenheiro, em função das informações que este possuía sobre a região do conflito, atravessada pela ferrovia que ajudara a construir.
O mapeamento foi passado para o futuro autor de Os Sertões e seria utilizado pelo próprio Exército, que não dispunha de informações tão detalhadas sobre o palco da guerra. Sampaio relatou o fato numa homenagem que fez ao escritor Euclides da Cunha. Contou, na ocasião, que o recebia aos domingos para ouvir a leitura das primeiras versões da obra. Há, inclusive, relatos de contemporâneos de ambos, afirmando que até o nome da obra, Os Sertões, teve a participacão de Theodoro Sampaio, que o aconselhara pela economia e capacidade de síntese ali contido – e foi o título que permaneceu.
De 1883 a 1886, Theodoro Sampaio integraria a Comissão de Melhoramentos do Rio São Fancisco, que realizou as obras determinadas pela Comissão Hidráulica do Império. Com exceção de um projeto para o porto de Santos, sua atuação nessa fase esteve concentrada nos sertões da Bahia, onde se casou e teve os quatros primeiros filhos, de um total de 11.
Essa experiência nos sertões, envolvendo levantamento de campo, cartografia e engenharia para navegacão fluvial, o credenciou para uma experiência ainda mais exigente. A convite de Orville Derby, o geólogo que conhecera no Museu Nacional no Rio de Janeiro, mudou-se para São Paulo a fim de auxiliá-lo na estruturação dos trabalhos da Comissão Geográfica e Geólogica, a CGG.
A vida antes de virar nome de rua
A segunda etapa de sua trajetória, de 1886 a 1904, corresponde à fase paulista e compreenderia 18 anos de sua vida. Um primeiro momento foi marcado pela consolidação do trabalho da CGG, de 1886 a 1892, envolvendo a concepção de um serviço regular de geografia, cartografia e geologia paulista. A partir de 1890, o saneamento e o planejamento da cidade e do Estado de São Paulo passaram a dominar sua atividade no governo estadual.
Em 1892, Sampaio demitiu-se da Comissão Geográfica e, Geológica e até 1904, atuou nas repartições responsáveis pelo planejamento territorial e urbano, pelo serviço sanitário, responsável pela concepção e aplicacão de uma legislacão específica, além do saneamento, do abastecimento de água e do serviço de coleta de esgoto e vigilância sanitária, da capital e de várias cidades do interior paulista. Sua primeira missão em São Paulo foi descer o rio Parnapanema e iniciar por ali o levantamento cartográfico e geológico do estado inteiro, além de projetar as obras necessárias para ligar o porto de Santos ao Mato Grosso, à bacia do rio Paraná e à bacia do rio da Prata. Ao lado da exploração e levantamento dos rios da então província paulista, sobressai-se dessa primeira etapa da fase paulista o uso pioneiro no Brasil da geodésia (método para o cálculo e representação cartográfica da forma esférica da superfície da Terra), sistema que garantia a exatidão dos mapas topográficos realizados pelo engenheiro.
O primeiro livro publicado de Theodoro Sampaio, O Tupi na Geografia Nacional (1901), foi produzido a partir dos estudos eruditos e do contato no Vale do Paranapanema com os últimos remanescentes dos povos que habitavam originalmente a região. O engenheiro mostra nesse livro sua face de etnógrafo, linguista e geógrafo. Essa obra apresenta uma ótica muito particular para se compreender a importância e o legado da cultura indígena, como a toponímia (palavras aportuguesadas que vieram do tupi). Sampaio, já chefe do Serviço de Água e Esgoto de São Paulo e engenheiro sanitário do estado, participou da construção de vários institutos e laboratórios que deram origem ao complexo hospitalar atualmente conhecido como Hospital das Clínicas, instalado no bairro de Pinheiros, no qual, não por acaso, está localizada a famosa rua Teodoro Sampaio.
De volta à Bahia
A terceira etapa da vida do engenheiro, de 1904 a 1937, corresponderia à fase baiana. Theodoro Sampaio dedicou à Bahia e a Salvador os últimos 33 anos de sua vida. Nesse período aprofundou sua relação com o meio intelectual baiano, mantendo intensa correspondência com estudiosos estrangeiros e brasileiros de vários estados. 
Paralelamente à atuação de caráter cultural e científico, Sampaio foi contratado pela prefeitura de Salvador para projetar e implantar o serviço de abastecimento de água e a coleta do esgoto. Estabeleceu a firma Theodoro Sampaio & Paes Leme, cujo escritório técnico seria, depois, dirigido por seu filho, Fructuoso Theodoro Sampaio (1883-1919), engenheiro formado pela Politécnica de São Paulo em 1910.
Apresentou propostas urbanísticas elaboradas para a modernização e saneamento da capital baiana e, em 1919, projetou a “Cidade da Luz”, atualmente conhecida como Pituba. Tratava-se de um bairro situado na costa oceânica, uma área distante do perímetro urbano da cidade de Salvador, que só foi incorporada à área urbana a partir da década de 1950. No entanto, seu trabalho definiu os padrões urbanísticos que orientaram a expansão urbana para aquela região.
Urbanismo demolidor em Salvador
O projeto de Theodoro Sampaio tem sido reconhecido por sua contemporaneidade e pelas inovações da Cidade da Luz. Encontramos nesse projeto elementos que posteriormente foram integrados ao ideário modernista, como a própria referência à importância da luz, apontando para a questão da salubridade, chave do pensamento sanitarista contemplada pelo urbanismo moderno, principalmente nas propostas do mestre franco-suíço Le Corbusier.
Sampaio adotou um traçado regular pensando na continuidade das vias longitudinais à orla marítima e na fluidez da circulação de automóveis juntamente com as preocupacões estéticas e obras de uso comunitário. Destacam-se no projeto da Cidade da Luz as vias largas com áreas ajardinadas e uma avenida central, com rotatória dotada de um obelisco, articulando o acesso às demais vias. A proposta incluía drenagem, água e esgoto, incineração de lixo, cemitério, capela, um escola, arborização das ruas e um balneário.
Além de projetar e executar a reforma e ampliação do sistema de abastecimento de água e coleta de esgotos de Salvador, de 1905 a 1910, à frente do IGHB, Sampaio participaria dos debates que envolveram o período no qual a cidade foi objeto da ostensiva modernização promovida pelo governador José Joaquim Seabra, nos períodos 1912 a 1916 e 1920 a 1924. Integraram o chamado “urbanismo demolidor“ de Seabra o projeto de modernização do porto (1906-1921), a ampliação do centro comercial na Cidade Baixa e a abertura da avenida Sete de Setembro. 
Eleito deputado federal para a legislatura de 1926 a 1928, integrando a seleta bancada baiana, formada por escritores e intelectuais, Theodoro Sampaio destacou-se nesse período por sua participação na quase demolição da Igreja da Sé, considerado por estudiosos como uma das primeiras mobilizações da sociedade civil pela preservação de um patrimônio cultural.
Otimista diante do desenvolvimento econômico em curso num país de riquezas e dimensões gigantescas, grande parte delas ainda por se conhecer na sua época, Theodoro Sampaio empenhou-se na busca por soluções que viabilizariam o Brasil como nação, tanto no período monarquista como no republicano. E, apesar da declarada preferência pelo Império, participou de forma entusiamada de ambos regimes; porém sempre realista e crítico. E para quem passou sua vida projetando e traçando caminhos, no campo ou na cidade, nada mais natural do que passar à posteridade como nome de rua.
*Doutor em Urbanismo pela USP

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Cidades para pessoas são feitas de "homens lentos"

Adriana Sansão* 

Quando a cidade de Copenhagen, ainda nos anos 60, transformou a área de Strøget (foto) na primeira zona exclusiva para pedestres no mundo, muita gente deve ter se perguntado: mas por onde vão passar todos os carros? E os estacionamentos, onde ficam? Passados mais de 40 anos, essa pergunta, embora para nós ainda pareça tão natural, para eles já é um tema superado. Após notável revolução em seu sistema de mobilidade, Copenhagen prepara-se para concorrer ao título da melhor cidade para ciclistas no mundo. Pois o pioneiro nessas ideias, o arquiteto dinamarquês Jan Gehl, esteve no Rio +20 e falou sobre essa experiência para os cariocas. Gehl é Professor Emérito de Projeto Urbano da Escola de Arquitetura de Copenhagen, e realizou uma conferência no Instituto de Arquitetos do Brasil, dentro das atividades do evento “Cidade Sustentável - expressão do século XXI”. O tema central de seus estudos e projetos é a relação entre o ambiente construído e a qualidade de vida das pessoas que vivem nas cidades.  Preocupado em transformar o meio urbano hostil, dominado pelos automóveis, em lugar para pedestres e ciclistas, ele defende o projeto da “cidade para pessoas”. 

Para um auditório lotado e ansioso, começou sua apresentação afirmando que edifícios sustentáveis - prática arquitetônica emergente tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento – por si só não significam uma cidade sustentável. Para ele, o planejamento urbano deve ter um olhar abrangente, com foco principal na atuação sobre os espaços públicos. Segundo ele, a cidade para pessoas tem como características fundamentais ser animada, atraente, segura, sustentável e saudável. A cidade animada é a que permite o encontro de pessoas no espaço público, sejam elas conhecidas ou não, o que está diretamente ligado à qualidade das calçadas e praças, e aos usos e atividades dos edifícios ligados a elas. Relacionada a esta, a cidade atraente é aquela dotada de uma escala humana, com menos stress, barulho e poluição, onde podemos olhar para outras pessoas, ver e sermos vistos, e onde os carros têm uma fração do espaço dedicado aos pedestres. A cidade para pessoas também deve ser segura, no sentido literal da palavra, onde os pedestres não estejam sujeitos a riscos no uso dos espaços públicos, e também sustentável, onde o desenvolvimento das atividades humanas não cause impactos negativos na sobrevivência do domínio público ao longo do tempo. E, finalmente, a cidade para pessoas é saudável, onde os espaços públicos são convidativos para caminhar e pedalar, e as pessoas são fisicamente ativas. O ser humano pratica na cidade tanto as atividades obrigatórias, que incluem morar, trabalhar, comer; quanto as opcionais, como por exemplo, praticar esportes, passear; e as sociais, como os encontros e festas. Para permitir o pleno desenvolvimento dessas atividades, todas as ações devem ser feitas para convidar as pessoas a caminharem, pedalarem e a serem menos sedentárias, e isso envolve ampliar e qualificar esses percursos “lentos”, e, em ação inversa, reduzir cada vez mais o espaço dos automóveis. Essas ideias, em si, já não são inovadoras. Mas ainda são balizadoras e inspiradoras na busca de melhorias nas nossas cidades. Para que se concretizem, precisam tanto dos técnicos, que vão pensar e executar as melhorias, como da população, mudando de comportamento, reduzindo o uso do automóvel em troca de formas não motorizadas de deslocamento ou de uso do transporte público. A vitória dos “homens lentos” seria também a das cidades para pessoas, em um mundo contemporâneo que ainda coloca a velocidade em um pedestal. 

 *Arquiteta e Urbanista.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Angelina Bulcão Nascimento

angelina_nascimentoAngelina Bulcão Nascimento (falecida esta semana no Rio de Janeiro), foi professora do Curso de Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, entre os anos de 1975 e 2003, fez mestrado e doutorado na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Escreveu cinco livros, dentre eles, três publicados pela EDUFBA (Quem tem medo da Geração Shopping: uma abordagem psicossocial; Trajetória da juventude brasileira: dos anos 50 ao final do século; Comida: prazeres, gozos e transgressões). Uma referência acadêmica e de vida, mas também, uma pessoa muito querida e generosa.
Por Vagner Campos
EDUFBA – Fale sobre sua vida: infância, adolescência, família…
ANGELINA – Nasci em Salvador, em 1943, plena guerra. Quando eu tinha um ano e meio, meus pais se mudaram para o Rio de Janeiro em busca de médicos que pudessem diagnosticar problemas de artrite reumatóide de minha mãe, à época uma doença praticamente ignorada. Depois de ouvirem as maiores sumidades, uma delas cometeu a barbeiragem de mandar engessar suas duas pernas, durante quase um ano, de modo que ela ficou paralítica, hoje se diz ‘paraplégica’… Com 28 anos.
Apesar de continuar levando vida normal, cuidando da casa, e da única filha, e formando com meu pai, um casal sempre apaixonado, durante os 49 anos que viveram, eu sofri os respingos. Fui muito controlada, tive uma educação rigorosa, estudava em semi–internato (colégio de freiras), o Colégio Sion. Lá estudei 12 anos, de 1950 a 1961, fiz muita bagunça e quase fui expulsa.
Em contrapartida, fiz amizades que conservo até hoje, e os livros me salvaram no meu cotidiano enjaulada. Ficava amiga dos personagens que povoavam meu quarto… Conversava e brincava com eles.
Uma vez, sentada num banco de numa pracinha, com meu pai, comecei a conversar com um velhinho que me escutava com muita atenção. Claro que não lembro o que eu lhe contei, mas não posso esquecer o que ele disse ao meu pai: esta menina vai ser escritora!
Desde criança, fui apresentada a livros, não só por meus pais, que sempre os valorizaram muito, como por uma madrinha possuidora de vasta biblioteca, um padrinho poeta, e o próprio colégio. Uma das minhas professoras de português, um dia, me disse ao elogiar minha redação: menina, você vai ser escritora! Ela, assim, confirmava a profecia do velhinho da praça. Aos nove anos, escrevi e ilustrei meu primeiro livro ‘catando milho’ na máquina de escrever de meu pai. Foi intitulado ‘Férias atrapalhadas com um fim feliz’. Edição de um só exemplar…
Minha adolescência foi típica dos anos dourados. Cinemas em Copacabana, festas todos os sábados, praia no Arpoador, lanches nos primeiros Bob’s, grupos de amigos interessantes. Vi nascer a Bossa Nova, não no apartamento da Nara Leão, mas na casa de uma colega, Anna Maria Portella, que tinha música no sangue. Lá conheci Baden, ainda desconhecido, e outros já famosos ou não, como o maestro Antônio Carlos Jobim que despertava ‘frissons’ com sua beleza madura. Estive na inesquecível ‘Noite do Amor do Sorriso e da Flor’, na Faculdade de Arquitetura, e organizei show no colégio, a exemplo de outros, pois colégios e faculdades foram os primeiros palcos.
As freiras haviam evoluído, João XXIII revolucionava a Igreja, e começamos a participar dos movimentos de Ação Católica: Jec (Juventude estudantil católica) Juc (Juventude universitária católica), e havia também a Juventude operária (JOC) a independente (JIC) e a agrária (JAC). Esses movimentos estimulavam a ação de cristãos se engajarem no momento histórico que era promover as mudanças sociais.
Nossa geração era atenta aos problemas políticos, desde a infância e adolescência.
Ficamos chocadas com o suicídio de Getúlio, acompanhamos cada lance, rádio ligado madrugada adentro, durante o processo de renúncia que culminou tão tragicamente. Participamos, de perto, da famosa greve dos bondes, que parou a cidade, quando os estudantes ainda eram respeitados e os soldados paravam ao vê–los abrir a bandeira nacional. Vivenciei a inauguração de Brasília, dancei valsa com JK, na festa de 15 anos de minha prima, bati papo com Oscar Niemeyer, frequentador dos saraus dominicais da minha tia. E coisas do arco da velha…
Conto tudo isso, e mais teria a contar, porque acho que minha geração ganhou oportunidades ricas. Temos a impressão de que vivemos a História do Brasil por dentro, e não apenas como espectadores.
EDUFBA – Como se deu sua trajetória acadêmica? Quais são os momentos de destaque desta trajetória?
ANGELINA – Em 1962 fiz vestibular para o curso de Jornalismo na PUC do Rio, e para o Instituto de Belas–Artes. Mas no segundo semestre do ano seguinte, meu pai resolveu se mudar para Salvador, com o pretexto de que o Rio estava se tornando um “antro de perdição”. Tinha medo exagerado da propalada liberdade sexual, medo do comunismo, e da filha ter escolhido ser jornalista, profissão que ele considerava perigosa para uma mulher. Acreditava que a Bahia era ainda uma província pacata, namoro em portão, onde as moçoilas bordavam enxovais e faziam footing no Farol da Barra. Mal imaginava que chegamos justamente em época de mudanças radicais na Universidade, cujas alunas, em proporção crescente, nada tinham a ver com as donzelas do imaginário de meu pai.
Aqui eu me transferi para a escola de Belas–Artes como aluna especial, e para a antiga Faculdade de Filosofia no bairro de Nazaré, onde militei, estagiei, me formei e trabalhei e/ou colaborei em todos os jornais baianos.
Eram tempos de pré-reforma universitária. Os estudantes experienciavam as mesmas turmas do princípio ao fim do curso, e todos os cursos se misturavam nas Assembléias quase permanentes, especialmente no Restaurante Universitário, onde até Juscelino foi dialogar. Todos se conheciam pelo nome, e se encontravam nas festas mensais da Residência do Universitário, bailes nas faculdades e até mesmo na missa das 18 horas, em São Bento, onde D. Timóteo e D. Jerônimo pontificavam.
Em 1970, fiz vestibular para o curso de Psicologia, recentemente inaugurado na UFBA. Nesse mesmo ano ganhei uma página no suplemento dominical do falecido Jornal da Bahia. Assinei, durante quase dez anos esta página intitulada ‘Comportamento’, onde, exceto pela censura rigorosa à Imprensa, que se instalou após o golpe de 64, e enrijeceu após o AI–5, eu tinha total liberdade.
Eram tempos que, ninguém melhor do que Chico Buarque descreve em sua composição ‘Rosa dos Ventos’: “na gente deu o hábito de murmurar entre as pregas, de tirar leite das pedras…”
A Reforma Universitária começava a funcionar, as turmas começaram a se esfacelar, e ainda havia um medo enorme. Muitas vezes não sabíamos onde estavam colegas, alguns presos, sumidos, torturados ou mortos.
Em 1974, já formada em bacharel em Psicologia, fui aprovada no concurso do Mestrado da Faculdade de Educação da UFBA.
Tive uma vida paralela ao do meu marido. Ele, apesar de psiquiatra, prestou concurso para professor da Faculdade de Filosofia, vindo a ser meu professor, e anos depois, foi diretor da Escola. Após ter feito comigo a formação em Psicodrama, filiou-se à Escola Brasileira de Psicanálise-Seção da Bahia, assumindo o papel de psicanalista, e assim passamos a seguir caminhos profissionais diferentes.
Após receber o diploma de Psicóloga em 1975, comecei a ensinar no curso de onde acabara de sair, primeiro como professora colaboradora, depois por concurso como professora Auxiliar de Ensino.
Trabalhei um ano na Extensão no J.U., Jornal da Universidade. Gestão de Macedo Costa, sendo Pró-reitor Fernando Perez. Os parceiros eram a jornalista Nadja Miranda, Loreta Valadares, recém chegada do exílio, e Naomar Almeida Filho. Outro trabalho importante foi o Projeto Cansanção, uma mobilização que realizava um trabalho comunitário em pleno sertão baiano, coordenado pela profª. Edileusa Gaudenzi e pelo prof. Antonio Dias.
Fiz formação em Psicodrama da Sociedade Brasileira de Psicodrama e na UFBA trabalhei alguns anos no Instituo de Química, convidada pelo Departamento de Química Orgânica, para coordenar uma experiência em Sociodrama também realizado na Escola de Nutrição. Estudei alguns anos psicanálise, mas não fui totalmente convertida para abrir consultório. Das poucas experiências relacionadas, houve a clinica ‘Comportamento’, da qual fui sócia com meu marido e algumas colegas.  Encerramos as atividades porque descobrimos que era impossível conciliar idealismo com ganha-pão em clínicas psicológicas.
Em 2000 iniciei o doutorado na Escola de Comunicação da UFBA, que culminou em tese defendida em 2004.
Saindo um pouco do contexto da academia, em 1966 casei com Mário Nascimento, estudante de Medicina (psiquiatria) que também militara no M.E., fazendo parte da chapa da UEB sob presidência de Sérgio Gaudenzi.
Passamos um ano no Rio, o ano que dizem que nunca acabou, 1968, onde tive nosso primeiro filho, Octavio, enquanto o pai fazia Mestrado de Saúde Mental na FENSP, situada em Manguinhos, título que o levaria mais tarde a assumir a direção da Divisão de Saúde Mental do Estado. Voltamos em 1969.
Em 1971 tive meu segundo filho, Marcos, que se intitula ‘filósofo andarilho’, enquanto o mais velho optou pela advocacia. Ambos estudaram na UFBA, embora o segundo tenha feito posteriormente graduação e doutorado em Filosofia na USP, e o primeiro, fez Mestrado na PUC-SP, onde atualmente termina o doutorado.
EDUFBA – Quem são as suas referências de vida?
ANGELINA – Não posso deixar de citar meus pais, apesar de não ter sido filha muito obediente nem a mulher prendada que eles gostariam que eu fosse. Mas me deram muito incentivo para a leitura, e o que me negavam em roupas novas e discos de rock, contribuíram para formar minha biblioteca. Tive a grande sorte de conviver com todo o tipo de pessoas, e grande parte delas foi referência.
No Rio, Regina e Francisco Pereira Pinto, minha avó pintora e meio anárquica, meu padrinho poeta casado com ela; minha madrinha Leonor Moniz de Aragão que serviu de personagem para uma das minhas histórias publicadas, por sua cultura e amor aos livros.
Na Bahia, meus tios postiços Filinto Borja e Pedro Seixas, ambos médicos, ainda lembrados; meu tio João Garcês Fróes, um sábio; João Lopes Cunha e Anísio Felix, jornalistas tarimbados que tiveram a carreira prejudicada com o fechamento do Jba; Florisvaldo Mattos, que, felizmente, continua batalhando no Jornalismo (e na Poesia também); Jomar Castro, um visionário criador da Bazarte, de onde saíram pintores e gravadores excepcionais como Tripoli Gaudenzi; Augusto Rodrigues, pintor e gravurista que virou uma lenda; O saudoso cineasta baiano Fernando Coni Campos; Oliveiros Guanais, que foi presidente da UNE em 1960; Mercedes Chaves de Carvalho, professora marcante que influenciou meu rumo; Eduardo Saback Dias de Moraes, psiquiatra, professor e diretor da Faculdade de Filosofia da UFBA, e amigo incondicional; Loreta Valadares, militante e mulher de inteligêcia e coragem ímpares. Falar dela, implica falar também do seu marido Carlos Valadares, que continua lutando pelo nosso país; D. Timóteo não precisa de apresentações nem adjetivos. Vinícius de Moraes, que tive o privilégio de conviver em sua estadia na Bahia nos anos 70. Joviniano Neto, que considero o “Dom Quixote contemporâneo”… Além de ter se dedicado sempre a causas perdidas, foi um dos maiores articuladores da Anistia e depois se dedicou a questão dos direitos humanos, tendo sido presidente da Apub várias vezes querendo sempre trabalhar sem ganhar.
E como a sorte não me abandona, sempre conheço mais gente interessante, que admiro e sou grata, como Flávia Garcia Rosa, diretora da EDUFBA. Não digo mais sobre ela, para não parecer puxa-saco.
A lista é muito maior, inclui amigos fiéis, professores marcantes, parentes solidários.
EDUFBA – Você acredita que a juventude desse fim de década difere muito da geração de 90? Quais aspectos são mais importantes para sua análise?
ANGELINA – Acho difícil responder com segurança. Ao me aposentar em 2003, perdi contato com estudantes universitários, meus filhos cresceram, assim como as galeras com as quais eles conviviam.  Mas creio que posso repetir o que escrevi em meu livro sobre a geração shopping: que não podemos generalizar ao falar em juventude!
Vemos todos os tipos de tribos. Dos consumistas, cabeças ocas, aos situados, engajados, idealistas. Dos que ‘ficam’ e descartam as meninas, aos que se apaixonam loucamente. Dos que vivem na praia e nos barezinhos da vida, (com o devido respeito a estes lugares) mas desatentos ao que acontece em sua volta. Lamento viverem numa época de violência, de correrem riscos na própria rua ou transporte, de estarem expostos à tentação da tecnologia, das drogas e da corpolatria.
Eles precisam lidar com isso, são cobrados para ter um diploma que não lhes basta para conseguir emprego, e principalmente, lamento pelos que generalizam considerando todos os políticos corruptos e de mau-caráter e desacreditam em mudanças para melhor… Podem contribuir para isso com mais ação.
EDUFBA – Qual sua visão sobre a atual situação do mercado de livros na Bahia e no Brasil?
ANGELINA – Para quem, como eu, mora em Salvador, mas viaja muito, acho lamentável ver livrarias fechando a cada momento, pouca ou nenhuma leitura de grande parte de crianças e jovens, sem falar dos adultos…
Também considero lamentável o alto percentual que as editoras precisam pagar às lojas que vendem livros, dificultando o pagamento digno de seus funcionários, autores e qualidade da produção. E vejo cada vez mais difícil a questão da destribuição de editoras não famosas como as do “sul-maravilha”, como dizia nosso inesquecível Henfil…
EDUFBA – Sobre a UFBA e a atual estrutura da universidade, em todas as instâncias, o que você tem a dizer?
ANGELINA – Infelizmente não posso julgar a UFBA, pois estou completamente afastada dela desde 2003.  Sei, por experiência própria, que a juventude não costuma apoiar quem está no poder, geralmente tem razão para isso, mas falar é fácil, difícil é encontrar soluções e agir.  Procuro valorizar mais os fatos do que as interpretações, embora haja um autor famoso que diga o contrário. Mas uma das coisas que o estudo de psicologia me deu foi a idéia de ‘percepção seletiva’ e contaminação por identificação grupal. (a publicidade é um exemplo).  A predisposição positiva, ou negativa, contribui demais para enxergar vilões, bandidos e mocinhos, mesmo sem fatos comprováveis.
EDUFBA – Você se sente uma pessoa realizada? Por quê?
ANGELINA – Sua pergunta me faz lembrar a frase de um psicanalista carioca, Quinet. Quando lhe perguntam como ele vai, ele responde: cada vez mais insatisfeito graças a Deus! Acho difícil existir uma pessoa ‘realizada’ de verdade. Dizem que uma pessoa se realiza quando planta uma árvore, se casa, tem um filho e escreve um livro. Já fiz tudo isso, e nem assim me sinto realizada. E QUERO ficar cada dia mais insatisfeita! Para poder realizar mais!!!
EDUFBA – Projetos literários pro futuro. São quatro, estou certo?
ANGELINA – Nossa! Você está dedurando minhas crises de megalomania, necessárias para eu não desistir de escrever, devido às condições acima citadas!
Depois de publicar cinco livros, dentre eles, dois para crianças, dois sobre adolescência e um sobre minha tese, não pretendo parar. Na verdade, comecei um livro para crianças que fala sobre costumes, hábitos, mudanças de comportamentos na História do Brasil no século 20. Um livro divertido, não daqueles com datas e nomes para decorar. Estava me divertindo também, quando a tese de doutorado interrompeu e eu o deixei de lado temporariamente. É preciso muita pesquisa!
O outro tem a ver com uma demanda de adolescentes ouvidos quando eu ensinava a disciplina no curso de Psicologia. Ignoravam muita coisa (talvez quem sabe por lerem pouco?) até sobre sexualidade, por incrível que pareça. Mas é preciso checar se esta demanda ainda existe.
Também estou empenhada em coletar reminiscências de pessoas interessantes, vivências que não devem ser enterradas com estas pessoas, mudanças, uma miscelânea ainda não bem definida sobre a Bahia das décadas passadas…
E finalmente, algo que provavelmente vai virar blog: dicas e roteiros de viagens, incluindo locais que os guias não costumam dizer ou saber… seria algo “para quem gosta de viajar e detesta guias e pacotes e lugares comuns (em ambos os sentidos da palavra)”…
EDUFBA – Gostaria de deixar um recado para as pessoas?
ANGELINA – LEIAM!!! LEIAM!!! LEIAM!!!
* Uma homenagem à amiga e primeira colaboradora deste blog. Entrevista publicada originalmente no site da EDUFBA

domingo, 30 de dezembro de 2012

Os anos JH


Osvaldo Campos Magalhães*
A avaliação dos oito anos do governo João Henrique, prova mais uma vez, na Bahia, que nem sempre uma brilhante carreira parlamentar é garantia para um bom desempenho no executivo.
Tendo iniciado sua carreira política em 1989, quando se elegeu vereador em Salvador, o filho do ex-governador João Durval Carneiro, logo se destacou na Câmara Municipal de Salvador, com uma atuação voltada principalmente para a defesa dos direitos dos contribuintes. Foi premiado como o “melhor vereador do ano” , em 1990, 1991, 1992, e 1993. Eleito deputado estadual em 1994, foi reeleito nos anos de 1998 e 2002, tendo sido agraciado pela imprensa especializada em 1998 como o “Destaque Parlamentar do Ano”.
Filiado ao PDT, partido fundado quando do retorno do exílio pelo carismático líder gaúcho Leonel Brizola, João Henrique, consegue se eleger em 2004, prefeito do município do Salvador.
Concorrendo no primeiro turno em aliança com o PSDB, João Henrique enfrentaria no segundo turno o candidato do PFL, Cezar Borges, ex-governador da Bahia, indicado candidato pelo Senador Antônio Carlos Magalhães. Apesar das excelentes avaliações populares dos seus mandatos, o então prefeito Antônio Imbassahy não havia preparado um sucessor dentro do seu partido.
Eleito para o cargo de Prefeito, JH, adotou o sugestivo slogan “Prefeitura de Participação Popular”, e, contemplou com secretarias e cargos, representantes de seu eclético arco de alianças formado no segundo turno, que incluía entre outros partidos o PDT, PSDB, PT, PSB, PTB, PV, PMDB, PSC etc.
Com a criação da Secretaria da Economia do Emprego e Renda, e da Secretaria das Relações Internacionais, JH dava clara indicação de sua estratégia de governo. Estruturar o município de Salvador para enfrentar sua principal deficiência, a baixa arrecadação fiscal e a incapacidade econômica de gerar empregos formais para sua população e, atrair investimentos internacionais para Salvador. A indicação do urbanista Itamar Batista para a Secretaria de Planejamento, também indicava seu desejo de retomar a questão do planejamento urbano, relegado a segundo plano em Salvador, desde a época do OCEPLAN, sob a liderança de Sérgio Gaudenzi,Auxiliadora Batista e Alberto Valença, ainda na década de 70.
Infelizmente, a realidade se mostrou cruel com o premiado parlamentar. Durante seus oito anos de governo, a secretaria de planejamento foi dirigida por seis diferentes secretários. O arco de aliança formado inicialmente, composto por partidos com linhas programáticas e ideológicas contrárias, acabou por comprometer a capacidade de gestão do jovem prefeito. Em busca de suporte financeiro para seu governo, JH, pragmaticamente, sai em busca de alianças mais robustas, inicialmente com o PMDB, então compondo o governo JW e Lula, e logo depois com o PP, que dirigia o forte Ministério das Cidades, já no governo Dilma.
Durante os anos JH, a economia da cidade cresceu, liderada pelo setor da construção civil e pela expansão da atividade comercial, com destaque para a construção de quatro grandes shoppings centers e inúmeros “bairros” verticais. Por outro lado, o planejamento estratégico foi esquecido e o capital imobiliário acabou conduzindo a cidade ao caos urbano e à imobilidade no setor de transportes, agravada com a subserviência aos interesses do SETPS e a desastrosa gestão das obras do metrô. A violência assumiu proporções inimagináveis, prejudicando uma das principais atividades econômicas de Salvador, o turismo.
Contudo, o pior legado dos anos JH talvez tenha sido no âmbito da Cultura. A cidade, outrora conhecida por sua vasta produção e diversidade cultural está hoje relegada a uma baixa produção artística e também dominada pelos fortes interesses econômicos. A Terra do Encanto e da Magia deu lugar a Terra do Axé Music e do carnaval elitizado.
Que o jovem prefeito eleito saiba identificar os erros e acertos de seu antecessor e reconduza Salvador a uma nova era, como fez nos anos 60, ACM.
Que Salvador volte a ser a Terra da Felicidade, da Magia e do Encanto, cantada e contada por Caymmi, Jorge, Ubaldo, Bethânia , Gal e muitos outros.
Que não mais prevaleça a Iniquidade.
*Engenheiro Civil e Mestre e Administração com foco em Tecnologia Competitividade e Estratégia - UFBA- Coordenou o PELTBAHIA e foi candidato a vereador em 2008 pelo PSB.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

REI MORTO. . .


Almir Santos*
2005/2013. O que mudou nesta cidade?
A economia cresceu. Quatro grandes shoppings foram construídos. Grandes reformas e ampliação em outros dois. Mais empregos, mais renda, mais negócios. Centenas de prédios comerciais e residenciais foram erguidos.
Em compensação, pouco ou nada de fez pela mobilidade urbana? Um metrô que não saiu dos trilhos.
Janeiro de 2005. Uma cidade com 491 mil veículos. Janeiro de 2013, 800 mil veículos. Um aumento da frota em torno de 63%
Uma cidade travada, em todos os bairros em qualquer hora do dia.
Duas grandes intervenções no sistema viário, ambas delegadas pela união, executadas pelo estado.
Nenhuma grande obra viária executada pelo município.
Duas obras que viraram cartão postal. Bem urbanizadas, com área de lazer, equipamentos e um bom tratamento paisagístico: Centenário e Imbuí
Por outro lado uma obra polêmica. A Vasco da Gama. Feia inacabada e mal acabada, que mais valorizou o ônibus do que o homem.
E o mais? Uma orla degradada, má conservação dos logradouros, aumento da violência, aumento de moradores de rua, deficiente limpeza e coleta de lixo.
A Estação da Lapa fede, Seus pilares viraram painéis de propaganda clandestina. Suas escadas rolantes não funcionam e é o paraíso dos camelôs. Uma constante em toda a cidade.
Sanitários de bares e restaurantes imundos.
 A frota de ônibus foi renovada, mas os maus serviços continuam os mesmos. Simples placas de paradas de ônibus, algumas dezenas, não são recolocadas quando avariadas. Um péssimo serviço de informação ao usuário de transportes.
 Uma TRASALVADOR inexistente.
Muito trabalho para o REI POSTO
*Engenheiro Civil , especialista em transportes públicos

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Sustentabilidade e Mobilidade Urbana

Osvaldo Campos Magalhães*
O fenômeno das mudanças climáticas, que tem entre suas causas o aumento das emissões e da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, impõe um enorme desafio a toda sociedade nesta década.
A viabilização em Cancun, México, durante a 16ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP-16, de um Fundo para apoiar as atividades de mitigação e adaptação climática nos países em desenvolvimento, abre uma excelente oportunidade para a discussão e priorização de ações voltadas para a proteção ao meio ambiente e mudanças de paradigmas.
Conforme dados divulgados durante a COP 16 em Cancun, a maior participação nas emissões de CO² no mundo está relacionada aos setores de geração de energia e transportes, sendo que o maior crescimento ocorre no setor de transportes, que já responde por 23% das emissões no planeta.
No Brasil uma das principais fontes de emissão de gases de efeito estufa está relacionada à energia fóssil, consumida no transporte de carga e no transporte urbano.
Infelizmente, o Brasil continua, neste novo milênio, preso ao passado, sem um real projeto de desenvolvimento nacional, e ainda extremamente dependente dos investimentos no parque industrial automobilístico e na exploração e industrialização do petróleo.
No momento em que a “mobilidade urbana” e a questão ambiental passam a integrar, ao lado da segurança pública, da saúde e da educação, questões estratégicas dos debates políticos nas grandes cidades brasileiras, é no mínimo estranha a decisão do governo federal em prorrogar a redução no Imposto sobre Produtos Industrializados, referente à venda de automóveis.
A perplexidade em relação ao fato provocou reações contrárias até mesmo de lideranças governistas no Congresso Nacional: “Ao invés de investir em uma política de inovação tecnológica e em atividades de baixo carbono, o governo estimula o consumo de automóveis, o que torna nossas cidades menos sustentáveis, agravando ainda mais os problemas do trânsito e da mobilidade urbana.” Estas palavras foram proferidas em plenário pelo senador Rodrigo Rollemberg do Partido Socialista Brasileiro.
Talvez o fato do Partido dos Trabalhadores ter suas origens no ABC paulista, berço da indústria automobilística nacional, explique a questão. Ou quem sabe, a necessidade de adoção de medidas que estimulem o crescimento econômico, num momento em que os reflexos da grave crise econômica dos países centrais vêm ameaçando as promessas presidenciais de crescimento econômico em índices próximos aos dos demais países do BRICS.
Os incentivos à indústria automobilística e os subsídios ao preço dos combustíveis, beneficiam o transporte individual, em automóveis, que provocam imensos congestionamentos, poluem nossas grandes cidades e provocam imensos prejuízos econômicos.  Somente na cidade de São Paulo, os prejuízos provocados pelos gigantescos engarrafamentos foram estimados em R$ 36 bilhões ao ano. No Rio de Janeiro, cerca de R$ 12 bilhões (fonte: Isto É Dinheiro, abril/2011).
Com a melhor distribuição da renda ocorrida nos últimos 10 anos e a utilização do controle dos preços dos combustíveis como estratégia de redução dos índices inflacionários, o Brasil, que no passado era exemplo mundial em energia sustentável vem apresentando declínio na produção de Etanol, crescimento nas importações de gasolina e aumento considerável do consumo de combustíveis fósseis.
Com isto, a qualidade de vida nas grandes cidades tem se deteriorado imensamente. Os congestionamentos e a poluição, provocados pelos automóveis, aumentam a sensação de desconforto da população e causam prejuízos aos setores produtivos, como a indústria, o comércio e o turismo.   Estes são alguns dos principais reflexos desta política equivocada de incentivo aos automóveis.
Enquanto as modernas cidades do mundo promovem a derrubada de viadutos, o retorno dos bondes e a revitalização do meio ambiente na área urbana, Salvador continua construindo viadutos e aterrando seus rios. Neste novo milênio, a palavra de ordem deveria ser “Cidades para as pessoas, não para os automóveis.”
Afinal, qual a cidade que queremos deixar para filhos e netos? Uma cidade com praças e jardins ou uma cidade com viadutos e rios aterrados? 
O exemplo recente da construção do corredor de ônibus na avenida Vasco da Gama é eloquente. Ao invés de reproduzir o modelo da avenida Centenário (foto), que privilegiou a construção de uma grande área de convívio humano e lazer optou-se pela completa desfiguração do belo vale, o aterro do seu rio e o corte de suas árvores centenárias.
Ao invés de copiar este anacrônico modelo norte americano de incentivo ao transporte relacionado à energia fóssil, da construção de viadutos, que promove esta invasão no trânsito de automóveis e ciclomotores, deveria o Brasil e suas grandes cidades criarem ou adaptarem soluções inteligentes e criativas como as implementadas em Berlin, Copenhague, Seoul e até mesmo Portland, nos Estados Unidos, que resgataram o transporte público sobre trilhos em bondes modernos, na expansão de um eficiente sistema de metrô e trens urbanos e na implantação de infraestrutura e no incentivo à utilização de bicicletas.
*Osvaldo Campos Magalhães é membro do Conselho de Infraestrura da FIEB e do Movimento Nossa Salvador. Coordenou o PELTBAHIA - Programa Estadual de Logística de Transportes.
 É Engenheiro Civil formado pela Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, especialista em Portos , Mobilidade e Logística de Transportes. Mestre em Administração,  Escola de Administração da UFBa, com foco em Tecnologia, Competitividade e Estratégia. 

sábado, 22 de dezembro de 2012

Para revitalizar é necessário cuidar


 Cláudio Marques*

Em 2012, a Praça Castro Alves já foi fechada completamente em 32 oportunidades. Para shows, comícios, eventos religiosos (católicos e evangélicos) e datas comemorativas de rádios. Nos dias 2, 3 e 4 de novembro, a Globo interditou completamente a Praça Castro Alves para gravar a série O Canto da Sereia, o que voltou a ocorrer nos dias 10, 11 e 15. Com as vias fechadas, o comércio local fica estrangulado. Farmácias, bares, brechós, teatros e o cinema. Os empresários e agentes culturais que se interessam pela região, talvez a mais bela e importante em termos históricos da cidade, se constrangem por ver que não há um estímulo real pela instalação de novos empreendimentos. Desejam revitalizar a praça, de uma forma definitiva, mas entendem que não há a mínima regulamentação e ordenação do solo por parte da prefeitura.
Vale lembrar que todos esses eventos são autorizados previamente pela Sesp (Secretaria de Serviços Públicos e Prevenção à Violência), órgão da prefeitura, e também pelo Iphan, uma vez que se trata de sítio histórico tombado. Já estive na Sesp diversas vezes nos últimos anos na tentativa de sensibilizar diferentes gestores quanto à valorização dos empreendedores locais e não de shows eventuais. A resposta sempre dada é que não há como negar pedidos, pois o desgaste político precisa ser evitado.
O superintendente do Iphan, Carlos Amorim, me deu resposta semelhante na vez em que estive em seu gabinete. Tentei sensibilizá-lo, ainda, pela degradação que passa a Praça Castro Alves toda vez que um palco gigante é montado. As pedras portuguesas ficam soltas, viram arma nas mãos de pessoas encharcadas de cerveja. Carlos Amorim me confiou que entendia todas as minhas colocações, mas que o Iphan já tinha brigas demais pela cidade.
O que me deixa desnorteado é que temos um conjunto arquitetônico e equipamentos incríveis localizados nesse sítio histórico. O Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha é um caso raro de qualidade e prosperidade no Centro Histórico. Leva milhares de pessoas, mensalmente, para ver filmes brasileiros e blockbusters, numa estratégia de programação reconhecida nacionalmente. Sedia festivais diversos e abre espaços para as produções locais. Os dois mais importantes festivais de cinema da cidade acontecem nesse cinema: o Panorama Internacional Coisa de Cinema e o Cinefuturo, com mais de 100 brasileiros e estrangeiros convidados, além de dezenas de películas raras projetadas.
O Centro Cultural da Barroquinha foi belamente restaurado pela Petrobras, mas ainda aguarda uma programação regular. O Teatro Gregório de Mattos, tão importante para a cultura da nossa cidade, continua fechado, infelizmente. Somados a esses equipamentos, temos ainda o Museu Afro-Brasileiro, na Rua do Tesouro, liderado por Capinan e que em breve estará funcionando. E o Museu de Arte Sacra, já próximo do Dois de Julho, que possui uma coleção permanente que impressiona.
Qual cidade do mundo conta com equipamentos culturais tão interessantes e potentes tão próximos uns dos outros? Com certeza, poucas. Temos um verdadeiro cinturão cultural montado e ainda não percebemos. Vamos sentir falta quando todos esses equipamentos não estiverem mais por lá, pois não há cuidado para que haja a permanência. Talvez uma proposta coerente seja destruir as casas e prédios, colocar tudo abaixo, e transformar o Centro Histórico em um imenso descampado, que abrigue shows sem maiores constrangimentos. Mas o desejo da nossa população é ver os milhares de casarões e salas vazias do Centro Histórico ocupados por moradores, agentes culturais e comerciantes.
É ter uma vida abundante, sofisticada e criativa em um dos lugares-símbolo da nossa história. Precisamos de uma agenda, com eventos importantes pré-marcados (Carnaval, Primeiro de Maio e Dois de Julho) e dar um basta nessas ações predatórias à vida cotidiana do Centro Histórico. Não é possível que, na encruzilhada que abriga Glauber Rocha, Gregório de Mattos e Castro Alves, a cultura não seja privilegiada. Que o novo prefeito esteja atento a esse apelo!
*Cineasta

VASCO DA GAMA X CENTENÁRIO.


Almir Santos*
Não se trata de uma partida de futebol, mas duas obras realizadas em Salvador em padrões diferentes. Frustrante. O que se esperava da Avenida Vasco da Gama era um projeto semelhante ao da Avenida Centenário, com áreas de lazer, pista do Cooper e um eficiente tratamento paisagístico, como falou de cátedra o Arquiteto e Professor Paulo Ormindo de Azevedo no seu artigo publicado no jornal A TARDE( edição do 09/12/2012).  Uma pequena observação: As frondosas árvores referidas no artigo, não são nativas, pois foram plantadas ao longo da nova pista, sentido centro que datam dos anos 70.
No final da gestão de João Henrique, o que se fez foi a execução de um projeto pobre que mais valorizou um dúbio BRT, do que o homem.
Por muitos anos a Vasco conservou sua paisagem bucólica, rasgada pela linha 15 dos bondes da Companhia Circular, bem como a 29-Vila América. Do folclore, dos seus terreiros, do Nelson Malvadeza, que cortava os passageiros que viajavam nos estribos dos bondes com sua afiada navalha.
A Vasco da Gama recebeu a seu primeiro asfalto, numa pista de sete metros ao lado da linha do bonde nos anos 50, quando foi implantada uma linha de ônibus Volvo a diesel. Uma novidade para a época.
Só nos anos 70 ganhou a configuração atual com duas pistas de três faixas, no trecho, ora “requalificado” entre o Dique e a Rua Conselheiro Pedro Luiz.
Avenida Vasco da Gama, Antiga Estrada Dois de Julho.
Dois de Julho. Um nome predestinado a não ficar na história. Primeiro foi a estrada, depois o Campo Grande que por muito tempo foi camada de Praça Dois de Julho, depois o Aeroporto e agora, na contra mão da história fala-se em mudar o tradicional Largo Dois de Julho, para Praça Santa Tereza.
Falta do que fazer.
* Almir Santos é Engenheiro Civil, especialista em Transportes Públicos e Logística de Transportes. Participou da elaboração do PELTBAHIA, Programa Estadual de Logística de Transportes.