segunda-feira, 14 de maio de 2012

Beabá da Bahia e de qualquer metrópole


Lourenço Mueller*
Os homens tem que encontrar formas, ou formatos – até prefiro esta palavra em seu contexto digital – de repensar as grandes cidades, porque se assim não for, elas vão sendo destruídas ou se autodestruirão progressivamente. Há um movimento mundial nas metrópoles, chamado de gentrification, que remete às superável as centralidades originais, seus centros antigos, sua gênese urbana: uma tendência de retorno dos habitantes distanciados espacialmente ao coração de suas cidades.
E na outra ponta do processo há uma inevitável necessidade de crescimento, de alocação de população nessas cidades grandes. Quase não se fala em planejamento: esta disciplina está cheirando a mofo ou virando utopia. Um mínimo de atenção aos seus métodos ou conceitos poderia, pelo menos, salvar as cidades da provável exclusão da memória representada pelos seus ícones arquitetônicos e traçados urbanísticos de época.
Muitas dissertações de mestrado ou teses de doutorado têm sido feitas sobre o rasgamento de Paris de Haussmann e Napoleão III no meio do século 19 que, por razões mais imobiliárias que defensivas reconfigurou a “cidade luz”, hoje tão elogiada capital das grandes avenidas e bulevares. Mas este urbanismo de “cirurgia”, plagiado mundialmente, que destrói logradouros mudando seu desenho de forma irrecuperável, nem sempre com a qualidade de traçado e desenho haussmannianos, é esse um urbanismo inteligente?
O pequeno grande livro que ora comentamos (Valadares, José. Beabá da Bahia. Guia turístico. Salvador: Edufba, 2012) com a coordenação editorial e prefácio de Fernando da Rocha Peres, e ilustrações de Carlos Thiré, lançado no dia 24 pp no Museu de Arte da Bahia, em oportuna cerimônia promovida por sua diretora, Sylvia Athaide, vem mostrar e demonstrar que cidades como Salvador, donas de acervo arquitetônico e traçado que representam o cenário real de épocas passadas e o comportamento distinto de seus habitantes, têm mais a perder do que a ganhar com aquele tipo de intervenção. E mais, que a busca obsessiva pelo turismo de massas pode ferir definitivamente uma cultura insubstituível, macular uma atitude cordial característica e transformar valores autênticos num pastiche televisivo típico da cariocada redeglobalizante.
Esse livrinho prevê, com a antecedência de mais de meio século e uma linguagem simples, baiana da gema, tendências da Salvador contemporânea. Ele começa por resgatar o termo baiano com natural referência à cidade da Bahia, que o pedantismo semântico apelidou de Soterópolis e fez com que herdássemos o codinome abominável de so-te-ro-po-li-ta-no, que rima com pelicano, uma ave bizarra com pro lapso de bico. Prefiro o neologismo poético Salvadolores, e seu derivado crítico-toponímico salvadolorido para seus sofridos e desrespeitados munícipes. Destaco de pronto o roteiro sugerido ao turista, que logo desenha a morfologia do centro histórico mandando-o descer e subir ladeiras e “... sentindo o cheiro de antiguidade que exala de cada saguão. Ninguém o atacará, os cachorros não mordem...” O que morde hoje em dia é o abandono, o descaso dos governos com o coração da cidade, apesar da existência de um programa eficiente montado por dedicados técnicos. E comenta: “É tão dramática a Bahia colonial noturna! Só assim é que se começa a gostar de uma cidade que tem caráter e passado”.
Valladares escreveu, mais do que um guia turístico, uma crônica de costumes, e fala de quase tudo – desde a história simplificada à arquitetura de igrejas e conventos, palácios e solares, omitindo apenas a arquitetura militar, as tão marcantes fortificações da cidade.
Até glosa com a percepção popular das estátuas: “Diz o povo, numa tentativa de interpretar a atitude dos monumentos, que Castro Alves pede uma esmola com o braço estendido, ao que lhe responde o barão do Rio Branco com a mão no bolso que não tem trocado, enquanto o Cristo Redentor da Avenida Oceânica lamenta a falta de caridade...” Que linda ingenuidade de outros tempos, a mão no bolso de todos nós é o que há hoje em dia.
Comprem o livrinho
* Arquiteto, Urbanista e Professor

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