sábado, 4 de outubro de 2025

Consuelo Pondé - Dos anos 1950 a 1952



Consuelo Pondé*
Concluído o curso ginasial no D. Anfrísia, que não havia ainda instalado o colegial, tive, por imposição paterna, matricular-me nas Mercês, porquanto, meu pai não desejava, nem permitia, que eu fosse estudar no Colégio Central, povoado de irrequietos rapazes.Lúcia, minha irmã, não recebia qualquer tipo de censura. Era, sim, um modelo de discrição, bom comportamento e aplicação aos estudos.

Por esse motivo, lá fui eu para um colégio de madres ursulinas, muitas delas francesas ou de língua francesa. Confesso que não me importei com a troca estratégica da minha família. Sabia que, longe dos rapazes, ficaria ao abrigo de mentiras e más interpretações.

O Colégio Nossa Senhora das Mercês desfrutava, então, de grande prestígio educacional e social.

Frequentado pelas moças da alta sociedade, era um espaço privilegiado de acolhimento da grã-finagem da Barra, Graça, Canela e outros bairros mais chiques, dos hoje denominados vips ou socialites.

Claro que morando do outro lado da cidade, sempre em Nazaré e, naquele momento, na Ladeira do Arco, ficasse um pouco “constrangida” em conviver com essas das moradoras das áreas nobres de Salvador.

Talvez, seja interessante informar que, os chiques, consideram os demais, fora do seu circuito, verdadeiros “índios”, forma de discriminar quem não morava por aquelas bandas. Mas, pouco me importei com esse “bulling”. Era muito disposta, topava discussão e não me importava com o desdém das “deslumbradas”.

Tanto isso é verdadeiro que minha fama de desabrida já me acompanhava desde D. Anfrísia. Lembro-me que algumas meninas das Mercês vinham até a minha sala, de primeiro ano colegial, para saber quem eu era. Parece que estou vendo Maria David de Azevedo chegar à porta da sala em que me encontrava e indagar quem era a “maluquinha” Consuelo Montanha Pondé, cuja fama de traquina corria longe. Tenho absoluta certeza de que fiquei muito orgulhosa por ter sido logo destacada, embora não fosse lá de muito estudo. Preferia criar um monte de coisas e repassá-las para as meninas atônitas diante de tantas informações. Era muito grande o poder da minha imaginação e até hoje “driblo” muita gente, contando coisas inverossímeis. O pior é que muita gente acredita.

Mas entre minhas colegas daquele tempo, 1950 a 52, havia algumas brilhantes. No Clássico, a que eu integrava, estava a “estrela maior”, Zilma Gomes Parente, recém chegada de Niterói. Uma inteligência e um preparo raros, que ela jamais economizou para ajudar as companheiras mais fracas. Até hoje, comove-me a sua simplicidade genuína e seu desapego em repartir o que sabe. Para mim, é um paradigma de mulher completa. Educada, gentil, prestimosa, amiga.

No científico, pontuava Sônia de Coni Campos, que saiu do colégio pouco tempo depois para casar-se, garota ainda, com Fernando Wilson Magalhães, com quem teve seis filhos homens, todos vitoriosos. Cumprida sua missão de mãe de família, voltou aos estudos e hoje é psicanalista de sucesso.

Fiz excelentes amigas nas Mercês. Branca Maciel Hortélio, amiga irmã, também não primava pela aplicação. Era muito revoltada por ser aluna do internato, não fazendo boas referências ao que sofreu das freiras. Aurora Sarno, Maria José Peixoto (Zezé), Mona Harfush, Thereza Perazzo, Florentina Silva Santos, Léa Sarno, Therezinha Magalhães Cordeiro, Nadja Cruz Andrade, Mab Gomes Costa, Thereza Parga, Alzira Moreira, Maria José Freire de Carvalho, Wanda Dias e outras tantas que não me recordo no momento, faziam parte de dois cursos distintos, Clássico e Científico, reunidos apenas em determinadas aulas.

Bem, no momento, é o que posso recompor, só puxando pela memória para lembrar outros nomes. *Falecida em 14 de maio de 2015, Consuelo Pondé de Sena, foi professora, historiadora, socióloga, antropóloga, Consuelo Pondé de Sena graduou-se em Geografia e História pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), se especializando, mais tarde, no estudo da língua Tupi. Presidindo o IGHB por 19 anos, a historiadora sempre expressou sua paixão pela história da Bahia e pelo Dois de Julho.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Adeus Itaparica


João Ubaldo Ribeiro*

Como todos os anos, vim a Itaparica, para passar meu aniversário em minha terr, na casa onde nasci. Casa de meu avô, coronel Ubaldo Osório, que fez pouco mais na vida que amar e defender a ilha e seu povo.

De lá para cá, muito se tem perpetrado para destruí-los física ou culturalmente e há nova tentativa em curso. Trata-se da anunciada construção de uma ponte de Salvador para cá. Isso é qualificado, por seus idealizadores, de progresso.

Conheço esse progresso. É o progresso que acabou com o comércio local; que extinguiu os saveiros que faziam cabotagem no Recôncavo; que ao fim dos saveiros juntou o desaparecimento dos marinheiros, dos carpinas, dos fabricantes de velas e toda a economia em torno deles; que vem transformando as cidades brasileiras, inclusive e marcadamente Salvador, em agregados modernosos de condomínios e shoppings acuados pela violência criminosa que se alastra por onde quer que estejamos enfurnados, ilhas das quais só se sai de automóvel, entre avenidas áridas e desertas de gente.

Também conheço os argumentos farisaicos dos proponentes da ponte, ávidos sacerdotes de Mamon, autoungidos como empresários socialmente responsáveis. Na verdade, sabem os menos ingênuos, eles se baseiam em premissas inaceitáveis, tais como uma visão imediatista, materialista e comprometida irrestritamente não só com o capital especulativo, que já está pondo as mangas de fora no Recôncavo, como aquele que investe aqui usando os mesmos padrões aplicados em PagoPago ou na Jamaica. A cultura e a especificidade locais são violentadas e prostituídas e o progresso chega através do abastardamento de toda a verdadeira riqueza das populações assim atingidas.

As estatísticas são outro instrumento desses filibusteiros do progresso que em nosso meio abundam, entre concorrências públicas fajutas, superfaturamentos, jogadas imobiliárias e desvios de verbas. Mas essas estatísticas, mesmo quando fiéis aos dados coligidos, também padecem de pressupostos questionáveis. Trazem à mente o que alguém já disse sobre a estatística, definindo-a como a arte de torturar números até que eles confessem qualquer coisa. E confessarão, é claro, pois Mamon é forte e sempre esteve na crista da onda.

Mas não mostrarão que esse progresso é na verdade uma face de nosso atraso. Atraso que transmutará Itaparica num ponto de autopista, entre resorts, campos de golfe e condomínios de veranistas, uma patética Miami de pobre. E que, em lugar de valorizar o nosso turismo, padroniza-o e esteriliza-o, matando ao mesmo tempo, por economicamente inviável, toda a riqueza de nossa cultura e nossa História. Quem não é atrasado sabe disso.

Para não cometer esse tipo de atentado é que, em Paris, por exemplo, não se permite a abertura de shoppings onde isso possa ferir o comércio de rua tradicional. Tampouco, em Veneza, as gôndolas foram substituídas por modernas lanchas. Num país não submetido a esse estupro socioeconômico e cultural, os saveiros seriam subsidiados, as antigas profissões, o artesanato e o pequeno comércio também. Exercendo a vocação turística de toda a região, teríamos razão em nos mostrar com tanto orgulho quanto um europeu se mostra a nós. Mas nosso destino parece ser acentuar infinitamente a visão que enxerga em nós um país de drinques imitando jardins, danças primitivas, pouca roupa e nativas fáceis.

Adeus, Itaparica do meu coração, adeus, raízes que restarão somente num muro despencado ou outro, no gorgeio aflito de um sabiá sobrevivente, no adro de alguma igrejinha venerável por milagre preservada, na fala, daqui a pouco perdida, de meus conterrâneos da contracosta. Sei em que conta me terão os que querem a ponte e não têm como dizer que só estão mesmo é a fim de grana, venha ela de onde vier e como vier. Conheço os polissílabos altissonantes que empregam, sei da sintaxe americanalhada em que suas exposições são redigidas e provavelmente pensadas, como convém a bons colonizados, já ouvi todos os verbos terminados em “izar” com que julgam dar autoridade a seu discurso.

É bem possível que a ponte seja mesmo construída, mas, pelo menos, não traio meu velho avô.

* Jornalista, escritor, foi membro da Academia Brasileira de Letras

* Artigo publicado no jornal A Tarde, em 22 de janeiro de 2010 

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Salvador - O ocaso do planejamento urbano

Diógenes Rebouças e Mário Leal Ferreira 

Armando Avena*
Salvador sempre foi pioneira em planejamento urbano. Desde 1943, com a criação do  Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade do Salvador (Epucs), sob a coordenação de Mário Leal Ferreira, a cidade tornou-se exemplo nacional de planejamento urbano. 
Os legados do Epucs estão por toda parte e têm como símbolos as avenidas de vale, a orla atlântica e o sistema de parques, com áreas verdes estratégicas, como o Dique do Tororó e o Parque de Pituaçu. 
Essa tradição no planejamento urbano criou uma geração de arquitetos e urbanistas e transformou Salvador numa cidade ainda mais linda. Refiro-me a Diógenes Rebouças, pai da arquitetura moderna na Bahia, que projetou, entre outros, as avenidas Paralela, Garibaldi e Contorno,  o  CAB – Centro Administrativo da Bahia, o Parque Metropolitano de Pituaçu e o Hotel da Bahia. E poderia citar outros como, por exemplo, o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé. Infelizmente, essa tradição em planejamento urbano foi totalmente abandonada e Salvador tornou-se uma cidade de cimento, invadida por monstros antediluvianos de concreto, que ferem a suave paisagem da península encravada na Baía de Todos os Santos. 
O delicado tecido urbano de Salvador deu lugar a gigantescas estações de metrô, que mais parecem tatus pré-históricos emergindo da terra;  e a  gigantescos viadutos, que mais parecem facões imensos cortando a leveza da cidade e desvalorizando empreendimentos que agora abrem suas janelas para apreciar os minhocões. 
Essas obras, resultantes de intervenções do poder público, são, é verdade, fundamentais para a mobilidade urbana, mas não precisavam ser tão grosseiras como as estações ou tão inadequadas e desnecessárias quanto os viadutos.  
A cidade da Bahia é leve e sinuosa como o mar e essa arquitetura brutalista está quebrando sua leveza. É triste ver que, enquanto no mundo inteiro  os viadutos estão sendo banidos, na Bahia se faz o contrário e ainda dota-se de iluminação cênica os monstros de concreto. 
Na principal via da cidade, por exemplo, em frente ao antigo Iguatemi, será inaugurado em breve um imenso conjunto de viadutos, um passando por cima do outro, compondo um complexo de ferro e concreto mal-ajambrado, que é uma ode à ignorância, ao mau gosto e à falta de planejamento.  E será uma obra inútil, pois, no trânsito, a construção de um viaduto só faz levar para mais adiante o engarrafamento. 
No mundo inteiro, os automóveis deixaram de ser prioridade no centro das cidades, mas em Salvador destruiu-se a Praça Newton Rique  para que os gigantes pudessem passar.  
Na Salvador de hoje não  se faz  planejamento urbano, tudo é feito  no olhômetro e no dedômetro: Vamos colocar um túnel de pedestres aqui!  Vamos colocar um teleférico acolá! E é também sem planejamento que o gabarito de construções está sendo liberado na cidade inteira. Este colunista defende e sempre defendeu a verticalização racional da orla atlântica de Salvador, até porque, sem ela, o que temos em frente ao mar são borracharias, lojas comerciais, cabarés e grandes supermercados, quando deveríamos ter hotéis, restaurantes e prédios residenciais. Mas, numa verticalização planejada, só teriam alvarás os empreendimentos que não sombreassem as praias e fossem acompanhados de infraestrutura urbana, cumprindo todas as normas de um planejamento urbano qualificado. 
Infelizmente,  o urbanismo racional foi banido de Salvador, a ocupação urbana é desordenada e o PDDU – Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano é uma colcha de retalhos. 
Aliás, o atual PDDU está sendo revisto sem qualquer estudo urbanístico sério. E o pior é que, nessa toada, as poucas áreas verdes de Salvador estão sendo leiloadas. 
A cidade da Bahia é a menos arborizada do país e nossos parques públicos, já difíceis de frequentar por conta da insegurança, correm o risco de se transformar em área de expansão da especulação imobiliária. 
É hora de arquitetos e urbanistas se manifestarem e da sociedade exigir a retomada do planejamento urbano.
* Nascido em Salvador, Armando Avena é escritor, jornalista e economista. Membro da Academia de Letras da Bahia, é autor de seis livros.

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Charutos Suerdieck - do Recôncavo para o mundo


Na Bahia reinava o fumo para charutos. Plantado por pequenos lavradores, a fumicultura era uma tradição familiar transmitida de geração a geração em qualquer casa da zona rural. Era a maior fonte da economia de subsistência, garantindo a sobrevivência dos minifúndios. August Wilhelm Suerdieck, nascido na Alemanha, filho e neto de comerciante de fumos, ao ouvir que o fumo da Bahia era o melhor do mundo, aos 28 anos, decidiu vir para cá, aonde já chegou contratado para fiscalizar o enfardamento num dos centros da região fumageira. Em 1892, transcorridos quatro anos de sua chegada ao Brasil, August Suerdieck criou a empresa com o seu próprio nome, a Companhia Suerdieck, em Cruz das Almas. Atuava como exportador e enfardador de fumo, dedicando-se também ao cultivo das matas de São Félix e Cruz das Almas, conseguindo, pela experiência adquirida, obter as melhores e mais finas espécies de fumo até então produzidas. 


Em 1899, chegou à Bahia Ferdinand Suerdieck, irmão de August, que se instala em Maragojipe, cidade em franca expansão. No ano de 1905, a Suerdieck decidiu iniciar a sua produção de charutos, afinal a cidade oferecia boas condições, a tradição da mão- de- obra das charuteiras, a localização favorável no eixo do Rio Paraguaçu e o fácil transporte de mercadorias através dos saveiros que faziam as travessias com Salvador.

Com a consequente implantação da Fábrica de Charutos Suerdick em 1905, completou-se o parque industrial, voltado para fabricação de charutos finos.

Durante uma viagem de férias, Ferdinand adoeceu, vindo a falecer em Luzern, na Suíça, no dia 17 de março de 1923, aos 47 anos, sem deixar descendentes.

O sócio remanescente, August Suerdieck – com 63 anos e residindo em Salvador, administrava a exportação de fumos, sua principal atividade empresarial – foi obrigado a definir o sucessor do irmão que vinha preparando para o comando da organização, onde, além do setor de charutos, já respondia pela lavoura fumageira da companhia. Assumiu o lugar na fábrica seu parente o Gerhard Meyer , na condição de novo sócio minoritário. Com o falecimento do Sr. August Suerdieck em 1930, passa a assumir o controle dos negócios sua esposa, D. Hermine, que veio a falecer no ano seguinte.  Então, a fábrica passa a ser comandada por Gerhard Meyer Suerdieck e sua esposa Tibúrcia Guedes Meyer Suerdieck. Gerhard então incorpora Suerdick ao sobrenome. 

Alguns  anos antes, Gerhard havia tido  dois filhos com uma maragogipana, e em seguida, mais um filho com outra. Por fim, acabou se casando com uma das suas operárias, D. Tibúrcia, com quem teve quatro filhos. Um desses quatros filhos foi o Sr. Geraldo Meyer Suerdieck, que esteve no comando da fábrica durante 27 anos.

A gestão familiar, sem práticas modernas de administração, provavelmente contribuiu de forma significativa para a falência da Suerdieck, somando-se a fatores externos (mercado de charutos em crise, impostos, concorrência internacional, mudanças no consumo, etc.).

No caso da Suerdieck, o apego à estrutura antiga, a incapacidade de buscar novos mercados ou alianças estratégicas, e a dificuldade de lidar com dívidas sugerem que a governança familiar sem profissionalização foi, sim, um fator importante no colapso.



Fonte: SCR RECÔNCAVO - MaragogipeEE

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Elmano Silveira Castro: um grande brasileiro


 Joaci Goes*

Hoje, quando a Tribuna da Bahia completa 52 anos de circulação ininterrupta, a imprensa livre da Boa Terra se rejubila na evocação da singular personalidade do seu fundador, Elmano Silveira Castro, um dos maiores nomes da imprensa baiana de todos os tempos, apesar de sua brevidade existencial. Nascido em Caetité, a 02/5/1926, ele nos deixou a 29/4/1975, três dias antes de completar 49 anos.

Tão grandes quanto a prodigiosa inteligência de Elmano eram o seu desassombro, visão e determinação empreendedora, para quem as dificuldades operavam como estímulo adicional para percorrer trilhas ignotas, como se fora um discípulo intuitivo do vate americano Robert Frost que aconselhava a escolha de caminhos menos batidos por oferecerem, não obstante os riscos, maiores possibilidades de venturas e insuspeitadas descobertas, em seu famoso poema The Road Less Travelled.

Ao perceber o ambiente morno da mídia baiana, contida pelos temores da censura dominante no Regime Militar, então vigente, Elmano anunciou o impensável: a criação simultânea de um canal de TV, a Aratu, e a fundação de um jornal diário, impresso em offset, com a técnica mais avançada e pioneira no País. De fato, vencendo o ceticismo de muitos, a TB veio a lume no dia 21/10/1969, com uma equipe de jovens e brilhantes jornalistas, escolhidos e treinados pelo talentoso Quintino de Carvalho, primeiro redator chefe, que viria nos deixar muito precocemente, vítima de um câncer fulminante, sendo, ao longo dos anos, substituído por gente do padrão de Cid Teixeira, Jairo Simões, João Ubaldo Ribeiro, Raimundo Lima e Sérgio Gomes, o mais jovem redator chefe da imprensa nacional, em todos os tempos.

Para os que supunham que a TB, propriedade de empresários, seria dócil à vontade dos poderosos de plantão, o jornal fascinou desde os primeiros momentos, não apenas por sua moderna roupagem tecnológica e visual, mas, sobretudo, pela serenidade da firmeza com que exercia o seu incomparável papel de retransmissor veraz da voz das ruas, silenciada por sua histórica desvalia. É verdade que a imersão total de Elmano na condução do Jornal, a ponto de ceder sua participação na lucrativa TV para custear sua onerosa implantação, cobrou-lhe pesado tributo, resultante em infarto que se não o matou, num primeiro momento, comprometeu-lhe, irremediavelmente, a saúde.

Terceiro de cinco irmãos, três varões e duas mulheres (Humberto, Elmano, Ernane, Norma e Sulamita), o adolescente Elmano já dava sinais da forte personalidade que comandaria suas ações nas diferentes e desafiadoras iniciativas que empreenderia vida afora, cumprindo o que prometera a sua mãe, precocemente viúva, dedicada ao trabalho de costurar para assegurar a manutenção e exemplar educação de berço e intelectual a uma prole que pelo lado paterno descendia do mesmo tronco – Major José Antônio da Silva Castro, o Periquitão das lutas pela Independência, na Bahia –  que legou à humanidade o maior poeta de todos os tempos, Antônio Frederico de CASTRO ALVES.

Do seu casamento com Maria Berenice Magalhães, Elmano deixou seis filhos: Luciano, Elizabeth, Maria de Fátima, Elmano Júnior, Paulo e Carlos que desapareceu no verdor dos vinte anos.

Pelo andar da carruagem, a Tribuna da Bahia, o segundo mais longevo veículo da imprensa baiana, ora sob a batuta do trio Walter Pinheiro, o decano Paulo Roberto Sampaio e Marcelo Sacramento, exibe musculatura de quem ainda vai longe em sua vigilante caminhada em parceria com seus leitores.

Penso que o nome de Elmano Silveira Castro constitui tema do maior interesse para a agenda da ABI, sob a regência do meu conterrâneo de Ipirá, Ernesto Marques.

Vida longa para a TB!

*Joaci Fonseca de Góes, advogado, jornalista, empresário e ex-deputado federal constituinte.

sábado, 13 de setembro de 2025

Fernando Wilson, 101 anos

Estaria scompletando agora em setembro 101 anos Fernando Wilson Magalhães, nascido em Conceição do Almeida, filho de Almerinda Araújo (Argoim) e Joaquim Magalhaes (Pau Cedro). 

 

Artigo originalmente publicado no jornal Tribuna da Bahia em 30 de julho de 2012 


Ivan Carvalho*

Realizou-se a partir das 16 horas de ontem, no cemitério Jardim da Saudade, a cerimônia de cremação do corpo de Fernando Wilson Magalhães. Estava bem de saúde, mas há poucos dias tomou uma queda e, como é comum acontecer nesses casos com pessoas de sua idade – ele ia fazer 88 anos em setembro – quebrou um osso. Uma costela. Teria superado o tombo se a costela não lhe houvesse perfurado um pulmão. Isto causou a morte, ocorrida no sábado.

Foi uma vida longa e bem vivida, grande parte dela ao lado de sua querida esposa Sônia, que agora deixou. Deu certo como pai de muitos filhos.

Advogado, foi como pecuarista, político e pessoa do bem que atuou na sociedade. Quem o conheceu sabe que, diferente de muitos que operam na área política, era um homem sem ódios, rancores, mágoas ou preconceitos, de coração leve. Mas conceitos os tinha. Gostava de conversar e era muito tranquilo – ou “trankilo”, como insistia em pronunciar, talvez em protesto porque a palavra não tinha o trema que sua pronúncia sugeria. Tenho certeza de que, na Casa do Pai, foi recebido, “trankilamente”, numa boa morada.
Político, prefeito do município de Castro Alves, obteve em seguida vários mandatos parlamentares. De deputado estadual e deputado federal. Exerceu sempre a função pública com honestidade, seriedade e evidente espírito público. Disto posso dar testemunho pessoal, pois trabalhei com ele como “secretário extraordinário” de Informação e Divulgação durante o período (1 de abril de 1977 a 15 de agosto de 1978, portanto, 16 meses e meio) em que foi prefeito de Salvador.

Foi escolhido prefeito segundo o processo da época, por indicação do governador Roberto Santos e aprovação da Assembléia Legislativa, para suceder na prefeitura a Jorge Hage. E deixou o cargo em agosto do ano seguinte (foi sucedido por Edvaldo Brito) para ter condições legais de renovar seu mandato de deputado federal.

Mal acabara de assumir o cargo, chuvas torrenciais como há vários anos não ocorriam quase destruíram a cidade. Ele a reparou. Em alguns lugares, com muito trabalho, como na reconstrução reforçada do cais de Amaralina destruído por ondas poderosas e na substituição da insuficiente macrodrenagem da Avenida Magalhães Neto.

Deixou muitas outras coisas para a cidade. Cito algumas, mas outras certamente estão escondidas em arquivos secretos da gasta memória do jornalista:

1. Substituição da drenagem e urbanização da Baixa dos Sapateiros e Barroquinha, que inundavam a cada chuva forte. Obra demorada, política e materialmente difícil, complexa, exigiu uma forte campanha publicitária, não para propaganda da obra, evitar o colapso do intenso e tradicional comércio local.

2. Construção da Avenida Orlando Gomes, ligando a Paralela à Orla.

3. Criação, por decreto municipal, do Parque Metropolitano de Pituaçu (implantação dos equipamentos pelo governo Roberto Santos, por intermédio da Conder, presidida então pelo economista Osmar Sepúlveda).

4. Criação da Limpurb e consequente extinção do antigo DLP – Departamento de Limpeza Pública, cuja estrutura superada impedia um serviço de limpeza decente.

5. Pavimentação da segunda pista da Av. Juracy Magalhães Jr.
            
           6. Drenagem e urbanização em áreas paupérrimas da periferia da cidade.

           Muito mais haveria a dizer. Sobre obras, ações de governo e pessoas. Por exemplo, que a cidade deve bastante, e especialmente, a Luiz Braga, então secretário de Obras, ex-deputado e engenheiro. À diretora do Oceplan (Órgão Central de Planejamento), Maria Auxiliadora e ao economista e assessor especial Antonio Alberto Valença. E, claro, ao prefeito, sob cujo comando eles e outros serviram.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna desta segunda.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

A Quinta Coluna Bolsonarista

Karoline Leavitt
Ruy Castro*

Sair à rua enrolado na bandeira americana equivale hoje a sair enrolado numa bandeira nazista na 2ª Guerra. Na Segunda Guerra Mundial, vivíamos sob a ameaça dos quintas-colunas. Eram os brasileiros que torciam e trabalhavam clandestinamente para a Alemanha nazista, com quem estávamos em guerra. Suas atividades incluíam propaganda, espionagem, sabotagem e tudo o que prejudicasse os EUA e a Inglaterra, seus inimigos, de quem o Brasil era aliado. A principal era fornecer informações sobre a partida de navios nacionais para aqueles países contendo alimentos e matéria-prima, essenciais para a guerra. Essas informações —dia e hora da partida, trajeto, destino, carga a bordo e se viajavam com escolta— eram passadas aos espiões alemães sediados no Rio, que as enviavam por poderosos radiotransmissores para Hamburgo. De Hamburgo, voltavam para seus submarinos que operavam no Atlântico Sul. Estes emboscavam os navios, torpedeavam-nos e os mandavam para o fundo, com a carga e com quem estivesse dentro. O Brasil teve 34 navios afundados pela Alemanha em 1942-43. Não eram navios de guerra. Eram mercantes indefesos, desarmados, que, além de carga, conduziam passageiros, pessoas inocentes. Mais de mil brasileiros morreram nesses afundamentos. Às vezes, sabendo que havia sobreviventes no mar, agarrados aos destroços, os submarinos vinham à tona e os metralhavam. Outra função dos quinta-colunas era disseminar mentiras —fake news— que abalassem o moral do povo, como a de que nossos soldados na Itália estavam vivendo à tripa forra enquanto, aqui, suas famílias sofriam com os racionamentos. O que os EUA estão praticando hoje contra o Brasil é uma guerra —por enquanto sem armas, mas com pesada balística econômica, provocando abalos na produção, fechamento de fábricas, demissões em massa, desemprego e, em breve, fome. Os bolsonaristas não estão nem aí. Enrolados na bandeira americana, são os modernos quinta-colunas. Equivalem a que, em 1942, se saísse enrolado numa bandeira nazista —o que nem os nossos nazistas se atreviam a fazer.

*Escritor e jornalista, membro da Academia Brasileira de Letras

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Triste Bahia


Osvaldo Campos Magalhães *

Nesse dia 4 de setembro, no ano de 1927, nascia em Salvador Antônio Carlos Magalhães. Seu pai, Francisco Peixoto de Magalhães Neto, em 1933, foi eleito deputado à Assembléia Constituinte da Bahia pelo PSD (Partido Social Democrático), e, no ano seguinte , deputado federal, até que, em novembro de 1937, o advento do Estado Novo suprimiu todos os órgãos legislativos do país e pôs fim a carreira política do antigo comerciante. 

Quando estudante no Colégio Central da Bahia, Antônio Carlos participou da política estudantil. Estudou na primeira escola de medicina do Brasil, no Terreiro de Jesus, onde presidiu o DCE, Diretório Central dos Estudantes. Ao contrário do irmão Zezito Magalhães, nunca exerceu a profissão. Optou pelo jornalismo, trabalhando no Diário de Notícias, liderado pelo poeta e amigo Odorico Tavares. O jornal integrava o grupo Diários e Emissoras Associados, do jornalista e empresário Assis Chateaubriand. 

Aproximou-se do governador Antônio Balbino e do reitor Edgar Santos, introduzindo-se na política partidária. Apoiou o golpe militar de 1964, aproximando-se do chefe da casa civil do governo Castelo Branco, Luiz Viana Filho, que depois o nomearia prefeito da cidade de Salvador. Realizou uma boa gestão, credenciando-se para ser indicado pelos militares golpistas ao cargo de Governador do Estado da Bahia. O resto é história. 

Para uns, era conhecido como Toninho Ternura, e dominou a política baiana por décadas. Para outros, era Toninho Malvadeza, que alimentou uma crescente oposição.

Os equívocos políticos que cometeu, possibilitaram a ascensão do Partido dos Trabalhadores, que já dominam a Bahia por quase duas décadas, com muitos acertos e grandes equívocos. Obras de infraestrutura que nunca saíram da propaganda, os piores índices de Segurança Publica e péssimos indicadores para a Educação Básica,  além de termos a Polícia Militar mais letal do Brasil. As vítimas, “quase todos pobres, quase todos pretos.” 

Até quando essa dicotomia entre opostos tão parecidos?

Gregório de Matos foi premonitório

“ Triste Bahia, oh, quão dessemelhante

a ti tocou-te a máquina mercante”

Tantos negócios e tantos comerciantes”



*Filho e neto de políticos, Engenheiro Civil, Mestre em Administração, foi dirigente da Companhia Docas da Bahia , Superintendente de Infraestrutura de Transportes do governo da Bahia, membro do Conselho de Infraestrutura da FIEB e assessor especial da FIESP.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Haiti e República Dominicana :porque tão desiguais

 Apesar de Haiti e República Dominicana estarem na mesma ilha — Hispaniola —, a história deles seguiu caminhos muito diferentes, e isso explica boa parte das enormes diferenças econômicas e sociais atuais.

O contraste vem de uma combinação de fatores históricos, geográficos, culturais e políticos. Vou organizar de forma clara:




1. História colonial diferente

• Haiti foi colônia da França, que explorou intensamente a economia baseada em monocultura (açúcar, café) com uso massivo de escravizados africanos. Era uma das colônias mais ricas do mundo no século XVIII, mas essa riqueza ficava nas mãos da metrópole.

• República Dominicana foi colônia da Espanha, que deu menos importância econômica à região (muitos recursos iam para México e Peru). A economia era mais diversificada e menos intensiva em mão de obra escravizada.




2. Independência e dívidas

• O Haiti conquistou a independência em 1804, após a única revolta de escravizados bem-sucedida da história moderna. Mas a França exigiu, em 1825, uma indenização bilionária para reconhecer o país — o Haiti levou mais de um século para pagar, drenando recursos que poderiam ir para infraestrutura e desenvolvimento.

• A República Dominicana teve períodos sob domínio espanhol e haitiano até consolidar a independência em 1844, sem dívidas externas gigantes comparáveis.




3. Política e estabilidade

• O Haiti sofreu com instabilidade política crônica, golpes, ditaduras, ocupações estrangeiras (inclusive dos EUA) e ausência de instituições sólidas.

• A República Dominicana também teve ditaduras (como Trujillo), mas desde os anos 1990 manteve maior estabilidade política e crescimento econômico consistente.




4. Economia e integração internacional

• O Haiti depende fortemente de agricultura de subsistência e remessas do exterior; há pouco investimento estrangeiro e baixa industrialização.

• A República Dominicana diversificou a economia: turismo, manufatura, zonas francas, exportações agrícolas e acordos comerciais com os EUA e Europa.




5. Geografia e meio ambiente

• O Haiti sofreu desmatamento extremo (hoje cerca de 2% de cobertura florestal), o que afetou a agricultura, causou erosão e agravou desastres naturais.

• A República Dominicana preservou mais áreas florestais e investiu em recursos hídricos e energia.




6. Cultura e identidade nacional

• O Haiti é de língua francesa/crioula haitiana e tem forte herança africana.

• A República Dominicana fala espanhol e tem uma identidade mais voltada para o mundo latino-caribenho, com maior proximidade cultural e comercial com países vizinhos.




Resumindo em uma frase:


Mesmo dividindo a mesma ilha, as origens coloniais, o peso das dívidas históricas, a estabilidade política, a gestão ambiental e a integração à economia global seguiram rumos muito diferentes, criando o abismo que vemos hoje.


sexta-feira, 1 de agosto de 2025

A ‘INTERNACIONAL GOLPISTA’ DE TRUMP

O Brasil foi atropelado pelos devaneios imperiais de Donald Trump. O presidente americano, como parece óbvio, decidiu interferir diretamente nas eleições brasileiras do ano que vem. O ataque frontal a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), em particular Alexandre de Moraes, tem como objetivo intimidar o Judiciário brasileiro às vésperas da conclusão do julgamento de Jair Bolsonaro, um trumpista de carteirinha, por tentativa de golpe. Não é absurdo especular que a ideia de Trump seja pressionar o Brasil a reabilitar o ex-presidente para que ele dispute a eleição de 2026 e, caso vença, seja seu títere na maior economia sul-americana. Com isso, o presidente americano tiraria o Brasil da órbita chinesa e fortaleceria o que já podemos chamar de “Internacional Golpista”, isto é, o conjunto de países democráticos que, liderados pelos EUA, estão emasculando instituições e atropelando limites morais e legais em nome de projetos autoritários de poder. No grande jogo de Trump, portanto, Bolsonaro não é ninguém senão um idiota útil para seus propósitos imperialistas. O presidente americano, como até as colunas gregas da Casa Branca sabem, não tem amigos, apenas interesses – e é em nome desses interesses que Trump está jogando no lixo dois séculos de relações amistosas com o Brasil. Pior, Trump está querendo converter o Brasil em exemplo do que é capaz de fazer. Não há rigorosamente nada nas leis americanas que autorize Trump a castigar o Brasil com tarifas colossais que, na prática, são sanções econômicas semelhantes às que são impostas a países delinquentes. Nem muito menos há razões para equiparar um ministro do STF a terroristas e ditadores, impondo sobre ele penalidades que resultam em sua “morte financeira” somente porque está relatando os processos contra um seu aliado. O espanto do mundo diante de tanta truculência é exatamente o efeito que Trump está buscando: ao tratar um país democrático do tamanho do Brasil como quem dá um peteleco num mosquito, o presidente americano está querendo deixar claro que pode tudo e que não há limites, no mundo civilizado, que possam pará-lo. O Brasil parece feito sob medida para esse fim. Embora sua economia esteja entre as maiores do mundo, o País tem capacidade política muito reduzida e poucos dentes para reagir a desafios frontais como esse dos EUA. Nos tempos em que as organizações multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) faziam alguma diferença, países como o Brasil tinham chance de reagir a medidas truculentas como as tarifas ilegais de Trump ou a tentativa desavergonhada de interferir no Judiciário e nas eleições. Hoje, porém, tanto a ONU como a OMC são pálidas lembranças do que outrora foram. Está claro que o Brasil está diante de um dos maiores desafios de sua história: manter sua integridade diante do descomunal “bullying” dos EUA, que até pouco tempo atrás eram o porto seguro das democracias, e hoje são seu algoz. Se temos orgulho da nossa democracia, ainda que imperfeita, temos o dever de protegê-la desses liberticidas. E a primeira providência a tomar é banir da vida pública os golpistas brasileiros que ora estão mancomunados com Trump para sabotar o Brasil, razão pela qual os processos em curso no Supremo devem seguir adiante, sem qualquer constrangimento, ao mesmo tempo em que a Câmara deve cassar o mandato do deputado Eduardo Bolsonaro, a vanguarda dos inimigos do Brasil que estão atuando nos EUA para prejudicar o País. Além disso, o Brasil precisa se portar diante dessa provocação com firmeza institucional, serenidade política e clareza estratégica. O momento exige da sociedade brasileira e de seus líderes políticos uma inequívoca defesa dos valores democráticos, da soberania nacional e dos princípios constitucionais que regem as relações exteriores do País. Não se trata de rejeitar o diálogo com os EUA, sempre um parceiro histórico e relevante. Trata-se de afirmar que, para haver diálogo, é preciso antes haver um mínimo de respeito.
 * Editorial do jornal O ESTADO de SÃO PAULO de 01/08/2025