segunda-feira, 30 de março de 2026

A grande reforma de Salvador

Paulo Ormindo de Azevedo*

Quando J. J. Seabra assumiu o governo da Bahia, no período de 1912 a 1916, já tinha na verdade equacionado com o apoio da iniciativa privada e grupos financeiros internacionais a transformação da cidade de modo a adequá-la a seu novo papel de exportadora de matérias-primas. Na medida em que as obras do porto e a ampliação da Cidade Baixa entravam em compasso de espera, em consequência da I Grande Guerra, Seabra punha em marcha a parte final de seu plano, aquela não bancado pela iniciativa privada, ou seja, a criação de vias urbanas adequadas aos novos meios de transportes e para facilitar o acesso ao Comércio, renovado e ampliado.

É preciso entender que o traumático, mas necessário, alargamento da Av. Sete, quando foram demolidos alguns monumentos religiosos e harmoniosos conjuntos de casas e sobrados de uma cidade até então intocada, não foi apenas motivado pelo desejo de embelezá-la, senão parte de uma reforma muito mais ampla de infra estruturação territorial e urbana da Bahia que incluía a integração dos sistemas ferroviários e marítimo e a incorporação de 800.000 m² de terrenos ganhos ao mar, no bairro mais dinâmico e acanhado da cidade, a Praia.

Este processo foi deflagrado em 1905, muito antes de Seabra ser governador da Bahia, ainda quando ele era ministro da Justiça e seria desenvolvido mais tarde como ministro da Viação e Obras Públicas (1910-1912). A reforma urbana de Salvador, como as do Rio de Janeiro (1906) e do Recife (1913), visava a inserção do Brasil no mercado internacional, tendo como um dos seus principais protagonistas, Seabra, nos três casos. Embora os trabalhos de melhoramento do porto só tivessem sido concluídos na década de 30, já em 1913 eram inaugurados 360 m de cais e três armazéns para onde passou todo o serviço de carga e descarga de mercadorias.  

O alargamento da Av. Sete foi um projeto do engenheiro e empreiteiro Jerônimo de Alencar Lima, sócio de Simões Filho no jornal A Tarde, aprovado pelo prefeito Júlio Viveiros Brandão em 1912. Seu projeto incluía também a abertura da Av, 2 de Julho, atual Carlos Gomes, que só seria executada mais tarde e a demolição da igreja da Sé. Seabra dispensou os serviços de Alencar e optou por executar a Av, Sete com os Guinle pelo fato deles intermediarem o empréstimo com os bancos europeus. Mas parte do empréstimo foi retida pelos bancos como ressarcimento de débitos de administrações anteriores e os Guinle foram substituídos pela firma Lafayete & Cia no alargamento da Av. Sete, como afirma o jornalista Nelson Varón Cadena.

O projeto de Alencar Lima seria retomado na década de 1930, na administração do prefeito José Americano da Costa, com a abertura da Av. Carlos Gomes e demolição da igreja da Sé. Crime grosseiramente atribuído a Arlindo Fragoso, braço direito de Seabra, que já havia falecido sete anos antes. 

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*Professor Titular da Ufba. Arquiteto e Urbanista