segunda-feira, 31 de março de 2025

A ponte que “balança, mas não cai”.


Paulo Ormindo de Azevedo*

Os mais velhos devem se lembrar do programa humorístico “Balança mais não cai”, do rádio e da TV brasileira, que durou 30 anos. O enredo é de um primo rico, Paulo Gracindo, e um primo pobre, Brandão Filho, se espetando. Pois o programa voltou, e já dura 20 anos. A versão atual é estrelada pelos chineses, primos ricos, e a Bahia, prima pobre. Qualquer semelhança não é mera coincidência!

Essa ponte é uma piada que vai marginalizar a banda leste da BTS, de enorme potencial turístico e náutico inexplorado e das principais atividade econômicas do Estado, com o CIA, o porto de Aratu, a Refinaria e o Temadre, a Estação de Regaseificação e o Estaleiro da Enseada, que poderiam ser beneficiados por uma rodo-ferrovia envolvente da BTS e se estendendo até Feira de Santana entrando em Itaparica pela contra costa. 

Tragicomédia criando em Vera Cruz um terminal de bitrens e um favelão, como São Gonçalo no Rio, acabando com a ilha e desidratando a banda oeste da BTS - Nazaré, S. Antônio de Jesus, Valença – sugada pelo buraco negro de Salvador. Salvador vai ter sua demanda de habitação, de saúde, educação e lazer, já precária, inflacionada com a duplicação da sua área metropolitana pobre. Até Feira de Santana vai ser penalizada.

Anedota de mal gosto, que vai inviabilizar a construção de plataformas de petróleo em S. Roque, o hub-porto em Salinas da Margarida, exigir a dragagem permanente do porto de Salvador e acabar com a área de fundeamento dos navios em condições meteorológicas adversas. Farsa que diz permitir uma expansão de Salvador, quando Niterói não cresceu com a Rio-Niterói.

Copia estúpida do ferry boat falido, saindo do centro de Salvador e chegando ao Mau Despacho, como se fosse uma ponte urbana, como as de Paris e Roma, quando é ligação rodoviário do Sudeste com o Nordeste entupindo a Via Expressa, a Av. Paralela e a Estrada do Coco, com um fluxo de 140.000 veículos dia, quando do seu funcionamento pleno, como a Rio-Niterói. PPP que além dos 10,5 bilhões iniciais, vai nos obrigar a pagar, durante 30 anos, o pedágio das faixas de rolamento ociosas. Não basta a PPP da Fonte Nova? 

Obra desastrosa, que vai destruir parte de Feira de S. Joaquim, centro de alimentos e objetos do culto afro, inviabilizar o acesso das comunidades quilombolas, de terreiros de candomblé, de pescadores e marisqueiras de chegarem à praia. Ponte torta que vai ter um impacto tremendo ambiental, estrangular e enfear a BTS.

Quando se está rompendo o contrato da ponte e aprovando um novo PDDU de Salvador, é hora de discutir outras alternativas ou trajetória da ponte, como propõe a Academia Baiana de Engenharia, chegando na Enseada do Cabrito e se articulando diretamente com a BR-324 e Via Metropolitana sem engarrafar Salvador. 

Meus amigos e meus inimigos salvemos a Bahia de Todos os Santos!

 * Professor Catedrático de Arquitetura da Ufba.

SSA: A tarde, 30/03/2025

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