quarta-feira, 23 de março de 2011

Vivaldo Costa Lima e as relações familiares no Candomblé

Marlon Marcos*
A antropologia feita no Brasil ganhou expressão entre nós, e internacionalmente, a partir das etnologias indígenas, com nomes como Eduardo Viveiros de Castro, Roberto Cardoso de Oliveira, da grande Manuela Carneiro da Cunha, e mesmo que muitos reneguem, Darcy Ribeiro. Nossos alicerces teóricos e sustentações metodológicas se avolumaram com as pesquisas de Roberto DaMatta, Marisa Correa, Gilberto Velho, Ruth Cardoso e da excelente Mariza Peirano, para citar alguns dos mais reconhecidos; em âmbito nordestino, Thales de Azevedo, Pedro Agostinho, Ordep Serra, Jeferson Bacelar, Roberto Albergaria, Mirian Rabello, Júlio Braga, Claudio Luiz Pereira, Jocélio Teles dos Santos, Sérgio Ferretti, entre outros.
Nos aspectos etnográficos e na construção da memória das etnias negras em suas reinvenções religiosas no Brasil, os estudos sobre as hoje chamadas religiões de matriz africana foram de suma importância para o desenvolvimento da antropologia como ciência. As pesquisas sobre o candomblé, em especial o baiano, puderam fundamentar leituras sistêmicas sobre o rico arsenal litúrgico dessa religião, decifrando muitas das suas complexidades, classificando e nomeando modelos e tendências de acordo a heranças culturais que aqui chegaram com os grupos étnicos africanos que ajudaram a formar o povo brasileiro.
Do pioneiro Nina Rodrigues, passando pelos estrangeiros Roger Bastide, Donald Pierson , Ruth Landes e Pierre Verger, chegando aos estudos expressivos de Ordep Serra, Julio Braga, Reginaldo Prandi, Rita Amaral; até pousar em estudos preciosos como os do paulistano Vagner Gonçalves da Silva e do maranhense Sérgio Ferretti; e destacando o recente e excelente trabalho do espanhol Luís Nicolau Pares sobre a origem do candomblé na Bahia; para além de tudo isso e por dialogar com tudo isso, a melhor etnografia realizada neste país, e fora dele também, sobre candomblé, é a Família de Santo Nos Candomblés Jeje-Nagôs da Bahia, do já saudoso Vivaldo da Costa Lima.
A figura central deste artigo, que busca perfilar de modo sintético e imperfeito o trajeto da antropologia brasileira à luz de alguns nomes que a fizeram e ainda a fazem, é o mestre Vivaldo da Costa Lima, morto no dia 22 de setembro deste ano, que se foi levando consigo a inestimável inteligência de um erudito que sabia e fazia pesquisa antropológica como poucos. O antropólogo nascido em Feira de Santana, na Bahia, que interpretava a cultura brasileira em acordo com os nossos costumes existenciais, mas sem desprezar conteúdos teóricos erguidos por seus pares nas melhores escolas antropológicas do mundo.
Vivaldo sistematizou o pensamento de Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Roger Bastide, Manoel Quirino, Edson Carneiro, corrigindo os equívocos ou enxugando os preconceitos; fez um estudo clássico que descortina as relações familiares no candomblé e classifica as performances ritualísticas do modelo que se convencionou chamar jeje-nagô e que passou a ser símbolo religioso do que mais se aproximaria do antigo culto de orixás e voduns em algumas regiões da África antiga, por mais que ele combatesse o purismo e condenasse o nagocentrismo.
Um ateu que se tornou ogã e obá pelas mãos de Senhora de Oxum, no ilustre Ilê Axé Opô Afonjá e foi um dos maiores defensores da autonomia religiosa dos terreiros; um compositor de saberes que ele retirava do seio do povo negro da Bahia e traduzia para a antropologia em vários idiomas. O cientista que aprendia com as velhas do candomblé; um gênio dificílimo como todos os outros; o homem irascível como seu orixá Ogum, e ao mesmo tempo generoso e maternal como Iemanjá, a mãe amada deste orixá.
Vivaldo cumpriu uma vida belíssima se marcando como um dos maiores pensadores das Ciências Sociais no mundo do século XX. E como diz o seu discípulo mais representativo, o homem que melhor sabe ensinar antropologia na Bahia, o antropólogo Cláudio Luiz Pereira: "ninguém ainda pode dimensionar a importância de Vivaldo para a compreensão da Bahia, para sua tradução; isso de cultura afro, de entendimento do candomblé, da alimentação entre nós; ele era um gênio e muito do que os baianos dizem sobre si foi Vivaldo quem lhes contou."
Nesse duelo de titãs, eu, assim como Andrômeda, só faço esperar e aprender... Obrigado, professores.
*Marlon Marcos é jornalista, antropólogo e professor.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Reflexões de cinzas

Pedro Tourinho*
Como na mitologia, a criatura voltou-se contra o criador. (Na foto: Ivete Sangalo e seu camarote)
A solução das micaretas enlatadas (festas indoor, trio parado+abadá, criadas pela industria do carnaval para continuar faturando com os carnavais fora-de-época pelo país) estão dominando uma festa essencialmente popular, que é o carnaval de Salvador. A tónica da folia, que sempre foi a mistura, a diversidade, foi pasteurizada. Mesmos abadás, mesmas músicas, mesmas estratégias. O que são os grandes camarotes senão bolhas de micaretas indoor dentro da folia? A industria do carnaval, seja por preguiça, por limitação, ou por falta de solução mesmo, se viciou neste modelo.
Só que este modelo, é ruim. É predador. Mata a inovação. Satura o público. Não é sustentável. Pode durar mais 2 anos, mais 5 anos, mas não vai nos levar a lugar algum. Lembro de um amigo paulista, que sempre vinha passar o carnaval na cidade. No meio do bloco Eva, ainda com Ivete, chegando ali na praça Castro Alves, ele me disse: nas micaretas em São Paulo tem mais mulher, mais bebida e mais segurança, mas não tem Salvador, essa energia daqui é diferente. Pois é. Essa energia, meu amigo, é o povo, a mistura. Mas a micaretização do carnaval, a mi-caretização, está deixando o povo fora da festa, e nossa festa, de fato, mais careta.
Deixamos de ser acarajé para virar McDonald's.
O Carnaval de Salvador tornou-se uma arena bizarra, de uma batalha grotesca das marcas por espaço de merchandising.
Briga-se por cada centimetro de lona impressa. Por cada poste, ou sacada da cidade. Homens segurando balões, vestidos de lata de cerveja, de pernas de pau... Mulheres com os corpos pintados. Brindes, bonés, bandanas, bate-bates, batecas. É uma fábrica de horrores, onde, mais uma vez, o povo, o folião, fica em segundo plano. O importante é ter um bom pós-venda para apresentar na semana seguinte e estar entre os 5 no ranking de exposição de marcas. Isso é insano.
A presença das marcas no Carnaval tem de ser menos merchandising e mais comunicação. Menos relatórios de exposição e mais pesquisa de satisfação.
Como Nizan disse uma vez, não é investir, e sim, retribuir.
As marcas deveriam proporcionar conteúdo e atrações para o carnaval como um todo, baianos e turistas. E não espaço publicitário em blocos. Ouvi dizer que um banco este ano só patrocinou trios elétricos que tocassem sem cordas. Penso que é por aí. Imagine se as grandes atrações, financiadas por grandes marcas, pudessem tocar de graça para o povo?
O povo está espremido entre marcas, placas e cordas. E todo mundo acha isso normal e, até mesmo, positivo. Não faz sentido.
Concluindo, a lógica está invertida, o Carnaval hoje é uma terra sem dono, é um velho oeste tropical onde políticos e empresários fazem o que querem tanto com o povo, quanto com os artistas. E isso tem que mudar.
Pior ainda é o argumento muito utilizado pela industria de que o "carnaval da Bahia é o mais democrático do mundo, porque o rico paga para o pobre." Isso é um jogo de palavras bizarro e manipulador, que institucionaliza a injustiça social e para mim equivale a idéia de que o rico faz bem em jogar lixo no chão para criar o sub-emprego do pobre que tem de limpar.
O carnaval é maior, é do povo e dos artistas, não pode se resumir a uma industria. É preciso uma mudança estrutural na gestão do Carnaval e de quem investe no Carnaval. Não é impossível, mas todos envolvidos, principalmente marcas e artistas, têm de querer comprar essa briga por um carnaval mais sustentável.
* Publicitário e especialista em entretenimento

domingo, 20 de março de 2011

Boca de Brasa - O Barroco na poesia

Miriam de Sales Oliveira da Rocha*
A poesia barroca do soteropolitano Gregório de Matos era contraditórica, lírica, satírica, erótica e até sacra. Foi apelidado de Boca do Inferno, Boca de Brasa. Foi amado e odiado. O poeta Gregório de Matos.

Considerado por Glauber "gênio da raça" , Gregorio de Matos, continua tão enigmático hoje, como há 400 anos atrás, quando nasceu na Bahia nosso mais importante poeta barroco.
Por seus versos virulentos e ferinos, versos que nunca economizaram o lombo dos poderosos e do clero, apesar da Inquisição, era um poeta maldito, execrado pelos moralistas, uma espécie de bruxo-exu-guia das letras nacionais, principalmente as mal comportadas, no dizer de seu biógrafo Higino Barros.
Apesar de nascido em Salvador em 1636 o poeta continua tão atual pois nos tempos de João Henrique e Sarneys, e de especuladores irresponsáveis, sua obra continua a espelhar a sociedade, com tanta propriedade, como se ainda estivéssemos no século em que viveu.
Da sua vida, sabe-se pouco. Nasceu na Bahia em 23 de Dezembro de 1632, embora a data seja contestada por Pedro Calmon, que apostava no dia 20;sua família, de raízes portuguesas fez fortuna no Brasil, depois de deixar a Corte, graças ao seu avô, Pedro Gonçalves de Matos, que desembarcou aqui como mestre de obras, uma espécie de empreiteiro, enriquecendo rapidamente com a construção de quartéis, fontes e ladeiras. Era também,o único dono de um guindaste novo, para transportar mercadorias da cidade baixa para a alta. Some-se a isso, os engenhos da cana com 130 escravos, a fazenda de Inhambupe, atochada de gado e tem-se uma vaga idéia da posição social e econômica da família.
O pai só aumentou os bens da família e, seus filhos foram estudar em Portugal, na Universidade de Coimbra, ninho de todos os brasileiros ricos da época. Gregorio estudou leis e casou-se com D.Michaela de Andrade, já magistrado e com uma boa posição. Ficou viúvo aos 42 anos e voltou para a Bahia como desembargador e, agora, clérigo tonsurado, padre de batina e tonsura.
Parece que a entrada na vida religiosa foi uma jogada de mestre para conseguir o que queria, pois, mal aportando aqui, jogou a batina ás baratas, e, aconselhado por um amigo a viver de acordo com a Igreja, respondeu: "que não podia votar a Deus o que era impossível cumprir dado ao seu temperamento e fragilidade de sua natureza.
Meteu-se em brigas políticas, angariando inimigos e, enquanto seus amigos batiam-se em duelos com espadas, ele achincalhava os adversários com sua pena virulenta e temerária. O que é pior? Matar um homem ou reduzi-lo ao ridículo? Decidam vocês! Teve mesmo que fugir para o Recôncavo, mas, voltou com a pá virada, transformado no cronista picaresco da cidade.
Casou-se com uma viúva pobre, porém, a mais linda moça do lugar, D.Maria dos Povos, por quem era apaixonado.Teve um filho chamado Gonçalo, como vingança por uma desavença domestica para provar que "em casa em que não manda a galinha é porque manda o galo. Mas, o casamento não o domou. Apesar de racista, meteu-se com negras e mulatas, lundus, modas de viola (andava prá todo lado com uma viola de cabaça que ele mesmo fez, para ganhar os bons favores das negras e mulatas jeitosinhas dessa terra.
Um milagre a Inquisição nunca tê-lo pegado, pois, seus alvos favoritos eram as freiras, os padres e o Papa e chegou a rimar Jesús com cús.
Tantas aprontou que, para não ser morto, seu amigo, o governador D.João Lencastre o despacha para Angola num exílio forçado. Lá meteu-se em confusão, um motim e teve que ser repatriado, dessa vez para Pernambuco, proibido de fazer versos,onde morreu em1696.
Os poderosos, sossegaram; pois, o "Boca do Inferno, não alisava ninguém, e, dizem, foi o precursor do Tropicalismo, pois, seu escritório de advogado, era adornado com bananas e frutas tropicais, mais tarde considerado como símbolo de identificação cultural brasileiro (modernismo,tropicalismo,Carmem Miranda).
O fato é que foi progressista demais para sua época; um artista livre, consciente de seu dom e do poder dos seus versos.
Foi contemporâneo do Pe. Antônio Vieira. Amado e odiado, é conhecido por muitos como "Boca do Inferno", em função de suas poesias satíricas, muitas vezes trabalhando o chulo em violentos ataques pessoais.
Finalmente, o que muitos não devem saber é que Gregório também é considerado antecedente do nosso cancioneiro, pois fazia "versos à lira", apoiando-se em violas de arame para compor solfas e lundus. O lundu, criado nas ruas, tinha ritmo agitado e sincopado, e melodia simples com resquícios modais, sendo basicamente negro. Do lundu vieram o chorinho, o samba, o baião, as marchinhas e os gêneros de caráter ritmado e irreverente.
* Professora e escritora

terça-feira, 15 de março de 2011

Museu a céu aberto, Salvador retrata arte barroca

Ana Lúcia Araújo*
Escola artística dos séculos 17 e 18, o barroco ainda está vivo em Salvador. Concebida segundo o espírito do movimento, que é contemporâneo da Contrarreforma, a cidade é um museu a céu aberto. A melhor maneira para travar contato com esse clima e identificar as características de composição dos espaços urbanos e o volume da arquitetura barroca é caminhar pela capital baiana.
Segundo a arquiteta e historiadora Socorro Targino Martinez, Salvador foi planejada, a partir do século 18, "como um anfiteatro barroco". Antes de entrar nas igrejas e conhecer os museus, "o importante é se perder e descobrir a essência da cidade", recomenda Martinez.
O visitante pode começar pelo forte de Santo Antonio da Barra, rumo ao norte, até chegar ao Pelourinho - tombado pelo Patrimônio Histórico da Humanidade -, onde há mais de 800 casarões dos séculos 17 e 18. Durante o passeio, pode-se perceber como as casas são propositalmente (foto: Igreja da Ordem 3ª em Salvador) iguais, com a igreja no final da rua, como ponto de fuga da paisagem. E as casas são sempre baixas, justamente para permitir ao morador contemplar as igrejas.
Essa posição estratégica da igreja fazia parte do projeto de colonização e conversão de negros e índios ao catolicismo. As procissões, a localização das igrejas e os elementos barrocos buscavam fortalecer o domínio católico na colônia. "Não há como fugir da presença de Deus", afirma a arquiteta.
Foram as ordens religiosas - jesuítas, beneditinos, carmelitas e franciscanos - que trouxeram o barroco para o Brasil. Na Bahia, imperou o barroco das igrejas douradas, como se fossem cavernas de puro ouro. "Ele é conhecido como monumental", afirma Maria Izabel Branco Ribeiro, diretora do Museu de Arte Brasileira da Faap. Mas essa riqueza não foi vista com bons olhos por gerações posteriores. "Até o século 19, o barroco foi considerado um estilo de mau gosto."
Mau gosto ou não, o melhor exemplo do movimento está na Igreja e Convento de São Francisco, que tem seu interior completamente forrado com folhas do metal precioso e carrega a marca de ser uma das igrejas mais ricas do país.
Quem pretende entender a ordem cronológica e as variações do barroco tem de visitar a catedral Basílica, do século 17. Nela, pode-se encontrar dois altares do movimento antecessor, o maneirismo, alguns exemplos de um barroco "acanhado" e ainda sua última fase, com interferências do rococó.
Uma sugestão do arquiteto Francisco Senna é a igreja da Ordem Terceira de São Francisco, que guarda a maior coleção de azulejos fora de Portugal. Segundo o arquiteto, a coletânea "retrata detalhes da vida em Lisboa que foram completamente destruídos com o terremoto de 1755". O conjunto foi restaurado e reaberto para visitação.
Senna explica que essa edificação tem ainda outra raridade: "É o único exemplo de fachada em pedra lavada do barroco espanhol no Brasil". Realizada pelo mestre Gabriel Ribeiro, levou de 1708 a 1748 para ser construída.
* Jornalista

segunda-feira, 14 de março de 2011

Castro Alves, poeta e humanista

Ana Guimarães*
O que diriam os psicólogos modernos sobre um adolescente que perdeu a mãe aos 12 anos, contraiu doença incurável antes dos 16 e aos 17 recebeu a notícia do suicídio do irmão? O sofrimento de Antônio Frederico de Castro Alves virou poesia, que emociona leitores de todas as idades.
Não se sabe se por gosto, identificação ou ambos, Castro Alves tomou o partido dos escravos. Em seus poemas, os negros deixaram de ser mercadoria. Para aquele que ficou conhecido como poeta dos escravos, os negros eram irmãos. Nenhuma causa, nenhum amor mal-resolvido, nem mesmo a morte dos familiares teve tanto destaque em sua obra quanto a luta contra o regime escravocrata.
Castro Alves também escreveu sobre temas como a loucura e a morte, comuns no período. Mas o que traria verossimilhança à obra do poeta baiano era a certeza da morte que a tuberculose lhe dava e o suicídio de um dos cinco irmãos. “Vulgarmente melodramático na desgraça, simples e gracioso na ventura, o que constituía o genuíno clima poético de Castro Alves era o entusiasmo da mocidade apaixonada pelas grandes causas da liberdade e da justiça — as lutas da Independência na Bahia, a insurreição dos negros de Palmares, o papel civilizador da imprensa e, acima de todas, a campanha contra a escravidão”. Quem descreve é Manuel Bandeira (1886-1968), mas não é preciso ser um grande literato para entender o que o poeta dos escravos dizia. Suas palavras dispensam racionalizações e falam fundo ao coração.
“Era um sonho dantesco... o tombadilho/Que das luzernas avermelha o brilho.

/Em sangue a se banhar./Tinir de ferros... estalar de açoite.../Legiões de homens negros como a noite,
/Horrendos a dançar.../Negras mulheres, suspendendo às tetas/Magras crianças, cujas bocas pretas/Rega o sangue das mães:
/Outras moças, mas nuas e espantadas,/No turbilhão de espectros arrastadas,/Em ânsia e mágoa vãs!/E ri-se a orquestra irônica, estridente...”
O trecho faz parte do poema Navio Negreiro, talvez o mais famoso do poeta baiano, acessível gratuitamente no Portal Domínio Público, (http://www.dominiopublico.gov.br/) que reúne toda a obra de Castro Alves. Biblioteca digital, desenvolvida em software livre, o portal dispõe de arquivos de imagem, som, texto e vídeo.
Castro Alves nasceu na fazenda Cabaceiras, a 42 km da vila de Nossa Senhora da Conceição de "Curralinho", hoje Castro Alves, no estado da Bahia, em 14 de março de 1847, e morreu em Salvador, em 6 de julho de 1871. Era filho do médico Antônio José Alves e de Clélia Brasília da Silva Castro, morta quando o poeta tinha 12 anos. Em 1866, perdeu o pai. Em 1868, durante uma caçada, com um tiro acidental de espingarda, feriu-se no pé esquerdo, que foi amputado no Rio, em 1869.
De volta à Bahia, passou grande parte do ano de 1870 em fazendas de parentes, numa tentativa de recuperar a saúde, comprometida pela tuberculose. Morreu em 1871, aos 24 anos, sem acabar o poema Os Escravos.
*Psicanalista e poeta

domingo, 13 de março de 2011

Carnaval dos animais

Gil Vicente Tavares*
Havia acabado de escrever um texto sobre a “síndrome de Peter Pan” que acomete Salvador, essa vontade de não crescer, e caio no carnaval da cidade.
O carnaval de Salvador é um simulacro, em sete dias, do que é a cidade o resto do ano. Uma soma da inoperância e falta de planejamento dos poderes públicos, um domínio voraz de empresários que fazem o que bem entendem e de forma tosca e a selvageria de um povo que, há muito, parece ter perdido a delicadeza.
Peço, então, que o que se lê aqui sobre o carnaval sirva, guardada suas proporções e alvos, como uma metonímia dos outros 358 dias de civilização e barbárie.
Salvador tem que profissionalizar seu carnaval. E o que seria isso?
Há anos vamos empurrando nossa maior festa sem planejamento, organização e planejamento urbano para o real funcionamento da folia. Como já foi estudado em pesquisas, o carnaval de Salvador é mais pra turista que pra soteropolitanos, visto de mais de 60% deles preferem ficar em casa, outros tantos viajam e a cidade se infesta de estrangeiros, sulistas, mineiros e por aí vai.
Primeiramente, tem-se que ter uma organização pensada, que vá da ordem dos desfiles a cumprimento de horários e tempo de percurso. Passando pela escolha das atrações dos trios independentes e seus artistas, bem como apoios a blocos afros e adjacências.
Não dá pra deixar um bloco da beleza do Ilê Aiyê desfilar na avenida de madrugada, assim como não dá pra se jogar dinheiro fora com afoxés e blocos afro que têm meia dúzia de três ou quatro pessoas que conseguem patrocínios por que “mantêm a tradição das nossas raízes blablablá”. Não dá pra deixar desfilar um trio independente, como eu vi alguns, sem ninguém na pipoca, enquanto o projeto Três na Folia, o Baiana System, artistas da cena local ficam à mercê de convites e xous no Pelourinho; que acho bacana, mas não é carnaval de rua, atrás de um trio, e mesmo assim muitos ficam de fora. Seria preciso repensar a sequência das apresentações para intercalar um bloco com um trio independente, e assim contemplar todos, ou algo do gênero. Pensar o circuito, sua sequência de atrações, um planejamento justo e por mérito.
Segundamente, deveria haver um acordo entre os empresários dos camarotes e os poderes públicos. Tudo bem que o camarote é aquele esquema de “todo mundo na praça e muita gente sem graça no salão”. Ou, como na canção “Carolina”, de Chico, pessoas que ficam vendo o tempo passar na janela. Música eletrônica, animação zero, ou, quando há, algo meio fora do que é o carnaval. Passei por vários, pulando, e vi um monte de gente debruçada com cara de nada, mas deixa pra lá. Os camarotes existem e não dá pra ser bobo de ficar com um discurso “abaixo os camarotes”. 60 demais. O que se precisa é organizar, dialogar, fazer troca de benefícios com a cidade.
Nada contra os camarotes que ocupam casarões, andares de prédios e de bares. Mas as megaconstruções que atrapalham, espremem e enfeiam o circuito mereciam ser limitadas urbanisticamente, e construídas num prazo mínimo, sob pena de multa. A cidade parar um mês antes pra construção de mondrongos que beneficiarão o capital privado é algo louco, absurdo. Se fosse ao menos para obras públicas, que beneficiariam a população com um todo... Enfim, fazer o que? Propor aos camarotes que em seus andares térreos fossem construídos postos de saúde, banheiros, propostas de utilidade pública. Por que não a instalação de câmeras no circuito, que poderiam ficar ali para futuramente ajudar na segurança das ruas? O simples pagamento de imposto não serve, sabemos que é um poço sem fundo e, entre sonegação, fiscal corrupto e políticos que desviam verbas, sabemos que pagar imposto é um benefício que garante, no máximo, o exorbitante salário que os políticos ganham para, em sua maioria, fazer apenas pelo seu bolso e partido, e nada pro povo.
Terceiramente, quero falar das empresas patrocinadoras e os governos estadual e municipal. O grande nó. A tragédia.
O carnaval de Salvador precisa de organização. Pensada. Planejada. Precisa que as transversais dos circuitos, os chamados “becos”, sejam áreas de livre circulação, proibindo isopores, foliões parados para observar a folia. E com banheiros públicos dos dois lados. Banheiros públicos mais viáveis, com canaletas e uma porta única, para complementar com os químicos, para necessidades maiores e para as mulheres. E banheiros do Itaú, da Schin, da Credicard. Ao invés de balões, leques e aqueles porretes chatíssimos infláveis, que os babacas usaram nesse carnaval de forma insistente e desagradável, essas empresas tinham que patrocinar banheiros públicos. As cervejarias deveriam criar espaços para venda de cerveja, e receptáculos para se jogar as latinhas. Por que não imaginar uma festa com pessoas jogando lixo no lixo? Precisa a barbárie de mijar e jogar latinhas no chão?
O lucro é muito grande. Mas só se pensa no lucro, nunca nos benefícios que poderíamos ter. Quando acontece uma copa do mundo, uma olimpíada, a cidade sempre fica com estruturas, construções e resoluções urbanas como herança, há sempre benefícios para a cidade. Com nosso carnaval, que é anual, teríamos que ter o mesmo. Imaginem 10 anos de carnaval com benesses para a cidade como banheiros públicos, estruturas de segurança, planejamento da funcionalidade dos serviços?
Em algumas capitais, para se pegar um táxi comum, tem-se que se dirigir a um guichê, onde o preço por local é tabelado, e de lá a pessoa é encaminhada ao primeiro da fila de táxis. Impossível fazer o mesmo em pontos estratégicos da folia? Não, falta vontade política. Falta se pensar a segurança do carnaval com prevenção, com postos de observação, policiais infiltrados em blocos, atenção a grupos que, claramente, estão à procura de confusão. E não aqueles brucutus empurrando a gente com cassetetes e socando e estapeando as pessoas (algo que às vezes é inevitável, não sejamos politicamente corretos para ter pena de vagabundo excessivamente, também, até a hora que acontece com a gente).
Bem, eu poderia falar do quanto as cordas de bloco, a segregação provoca a violência, visto que saí em trios sem corda e não vi confusão. Poderia esculhambar mais com camarotes. Falar da iniciativa de Saulo que deveria ser obrigação de todos os artistas, sair um dia sem cordas pro povo como contrapartida por usar a via pública para encher as burras de dinheiro. Poderia falar do babaca que, em pleno século XX, ainda vê cor e opção sexual como questões que diferenciam os homens, na cena deplorável com Márcio Vitor. Mas isso muita gente já falou demais; o que acho importante e fundamental.
Eu quis, aqui, apenas sugerir e provocar coisas que fogem ao meu controle, pois sou um ignorante quase completo em termos de organização, produção e urbanismo. Mas que ao menos as asneiras que eu falei possam provocar alguém a repensar nosso carnaval de forma profissional. Mesmo com tudo isso, vi muitos se manifestarem dizendo que esse foi o melhor carnaval de suas vidas. Eu também adorei. Mas é preciso profissionalizar nosso carnaval, vê-lo como um investimento para a cidade, para o turismo, para a cultura. Não deixar ele ser essa bagunça vergonhosa que foi esse ano. Essa porcaria institucionalizada. Essa desorganização que muitos querem que seja nossa forma de ser.
Aliado a tudo isso, ainda há o comportamento cada vez mais bárbaro, bruto, deselegante, maleducado, porco e desleixado que é o espetáculo dado pela nossa população de todos os níveis sociais. Não podemos fazer vista grossa a esse lamentável fato de que não colaboramos em nada com o bem geral. Como disse no texto anterior, queremos sempre culpar governos, empresas, mas macaco não olha o próprio rabo, e precisamos tomar consciência e sermos mais delicados e gentis com os outros. Gentileza gera...
Bem, o carnaval é um investimento. Onde, por enquanto, as empresas investem em si; os governos disfarçam ações; a elite se isola em cordas e campos de concentração; e o folião se mascara de alegre e deixa a banda passar...
E, com licença, que depois da maravilha que foi Moraes Moreira, Armandinho e seus irmãos e mais alguns, vou ali ouvir Saint-Saëns, se é que me entendem...
* Dramaturgo, ator e escritor

sexta-feira, 11 de março de 2011

João Ubaldo, 70

Eric Nepomuceno*
De acordo com o santoral católico da Espanha, 23 de janeiro é o dia de São Ildefonso. Já o santoral brasileiro indica que é dia de São Clemente. Mas na ilha de Itaparica, o santoral do lugar, pagão e festeiro, deve indicar que é dia de São João Ubaldo, glória e arauto-padroeiro, defensor de suas justas maravilhas.
No ano de 1941, o dia 23 de janeiro caiu numa quinta-feira, tempo de lua minguante. Pouco antes das 5 da tarde, na casa de seu avô materno, o coronel Osório Pimentel, nasceu João Ubaldo, primeiro dos três filhos de Maria Felipa Osório Pimentel e Manoel Ribeiro.
Trinta anos depois, o João Ubaldo nascido na lua minguante surgiu com um romance crescente, Sargento Getúlio. Até ali, sua carreira de escritor mostrava a participação em duas antologias de contos e um romance discreto, Setembro Não Faz Sentido. Com Sargento Getúlio ele deu uma reviravolta na literatura de seu tempo. Antes, tinha feito de tudo um pouco: foi office-boy, depois repórter no Jornal da Bahia, editor-chefe de A Tribuna da Bahia, havia feito o curso de Direito na Universidade Federal da Bahia, editado revistas e jornais culturais, ao lado de Glauber Rocha, também na Bahia. E se o nome Bahia aparece cinco vezes nessas quatro linhas, é porque João Ubaldo Ribeiro é um cidadão do mundo que, por mais mundo que conheça, por mais vida que tenha vivido, exala Bahia, Brasil e povo brasileiro enquanto respira.
Seus livros estão publicados em mais de uma dúzia de idiomas, e dos nossos autores é um dos mais conhecidos, estudados e prestigiados mundo afora. Viva o Povo Brasileiro, um catatau de quase 700 páginas, vendeu mais de 120 mil exemplares na Alemanha. Pois tudo isso - e muito mais, pois seria justo mencionar os prêmios todos, as glórias todas, os reconhecimentos, as amizades com pilares das artes e das letras - se oculta dentro da figura de óculos de lentes grossas e silhueta rechonchuda, sempre de bermudas, sandálias e camisa folgada, de mangas curtas, que perambula pelas ruas do Leblon, no Rio de Janeiro. Cumprimenta as velhinhas do bairro, é saudado com afeto e entusiasmo por jornaleiros e garçons, reúne-se em botecos com seus amigos e camaradas do dia a dia (nenhum deles literato, nenhum deles celebridade). Todos sabem que ele é conhecido, cronista lido e influente, que é um escritor de peso. Mas talvez não saibam de sua erudição fenomenal, de sua dedicação de monge ao ofício da palavra escrita, de sua obsessão pelos personagens que cria e recria. Que, muito mais que glória de Itaparica e do Leblon, é glória de todos nós, seus contemporâneos.
Durante anos e anos frequentamos a mesa que reunia aos sábados, num mercado do Leblon, um grupo de amigos (alguns bastante conhecidos, é verdade; mas naquele boteco éramos todos iguais, dispostos a não deixar que se extinguisse em nós a alegria). Jamais esquecerei as disputas entre João Ubaldo e Tom Jobim, leitor ávido, para ver quem sabia mais versos de T. S. Elliot. Ubaldo ganhava sempre. A pronúncia perfeita, o vozeirão empostado, a emoção em cada verso, a memória prodigiosa - tudo nele era formidável. Principalmente a perfeição com que cumpria nosso propósito - o humor: certo sábado, confessou que quase todos os versos que ele recordava e Tom não conhecia tinham sido inventados na hora.
Para quem é obsessivamente disciplinado no ofício solitário da escrita, para quem domina pelo direito e pelo avesso o idioma de Elliot, aquela brincadeira era apenas isso, uma brincadeira. Pois eu confesso que me contentaria, e para sempre, em ser capaz de inventar, no calor de uma disputa de bar, versos de Elliot.
Não precisaria de mais nada para me sentir um craque. Porque criar enredos e personagens como ele, bem, isso eu sei que é impossível. Não, não: eu me contentaria em ser João Ubaldo inventando Elliot. E, aliás, inventando que está fazendo 70 anos. Porque quem tem o humor, quem tem a imaginação prodigiosa desse meu amigo, não faz aniversário: flutua.

* Jornalista, escritor e tradutor
**Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo

quinta-feira, 3 de março de 2011

O Mundo é Gandhy

Gilberto Gil*
A presença do Gandhy na minha vida se mistura com a presença do próprio Carnaval, desde a minha infância. Quando eu tinha sete anos, exatamente, o Gandhy começou a desfilar. Tenho a imagem muito clara na cabeça do bloco saindo com aqueles turbantes maravilhosos, um ritmo muito envolvente que é um pouco samba, mas não é samba, um pouco a marcha, mas não é marcha. Um toque religioso, cerimonial do candomblé, que foi parar no Carnaval. Porque os criadores, os fundadores do bloco e a maior parte dos seus integrantes eram "gente de santo". Todos tinham essa coisa forte de manter a ligação do Gandhy com os terreiros.
Aquela aparição extraordinária do Gandhy em 1949 foi uma comoção muito grande para mim. Os elementos ligados à expressividade negra, os aspectos orientais, fazendo a ponte com a Índia, todas essas coisas que eu vim a saber depois, estavam ali, naquele momento, naquela aparição, naqueles homens com aqueles tamancos, com aquela singela elegância.
Não havia ainda caminhão, era tudo no chão. A bateria, as alas de evolução, de danças, de coreografia. Aqueles pais de santo, os filhos de santo, aquelas pessoas todas ligadas ao mundo negro da Bahia.
É muito bonito de ver como muito pouco mudou no Gandhy desde então. Se você vê aquela foto linda do Pierre Verger com eles no bonde, ali em 1949, 1950, logo no início, e se você vê uma foto de hoje, não percebe diferença. Praticamente mantiveram tudo. Claro que ao longo do tempo foram surgindo as marcas publicitárias e tal, mas permanece a emoção da grande mancha branca na avenida. Quando comecei a sair, em 1974, gravei duas ou três canções ligadas ao Gandhy, passei a cantar nos shows e a falar do Gandhy, dar entrevistas, propagar aquela cultura. E isso foi ajudando o bloco a crescer. O atrativo de ter um artista renomado entre eles atraiu os jovens. E o Gandhy foi crescendo e daqueles 100 de 1973 hoje são 10 mil. É uma beleza, sempre. Os rituais se consolidando, os jovens, o gesto sedutor de "amarrar" com as contas a menina fora da corda!
Uma beleza também como se manteve essa ideia de bloco pacífico, baseado na cordialidade, os associados se esparramando em grupos pela cidade, antes, durante e depois do desfile. É o que se chama de "guarda londrina" do carnaval: garbosos, pacíficos, desarmados, impondo respeito. O Gandhy é aquela marca da presença altiva do folião, uma marca profunda do compromisso com a festa e o seu desenrolar pacífico.
Para isso contribui muito a música.
Você imagine a emoção que é carregar essa imagem da infância, ligada a uma dimensão de elegia, de epifania. E que tenha vivido 60 anos, conseguido estar em todos os carnavais de todos esses anos. Sessenta carnavais, a forte dimensão cultural e religiosa e política da luta negra. A perseverança, a permanência, a duração, a herança, o ethos da tradição, o espírito do candomblé.
Há mais de 35 anos desfilo no Gandhy. E este ano não vai ser diferente, vou pro Pelourinho, beber na fonte. De Oxum.
*Cantor e compositor, foi Ministro da Cultura de 2003 a 2008
** Publicado originalmente na revista Serafina

quarta-feira, 2 de março de 2011

Cidade não é um Problema, é uma Solução

Salvador terá encontro da Rede de Cidades Sustentáveis

Será realizado em Salvador, entre os dias 29 e 31 de março, o segundo Encontro da Rede Latino-Americana de Cidades Justas e Sustentáveis , reunindo cerca de 50 cidades que estão implementando iniciativas relacionadas a qualidade de vida urbana por meio do controle público. O objetivo do evento é a troca de informações, com conhecimentos e experiências entre os integrantes para promover o aprendizado mútuo, o apoio e o fortalecimento das experiências locais em toda a America Latina.
Uma das novidades do encontro será a presença de representantes do Grupo Impulsor do Movimento Nossa Salvador, organização que está atualmente em fase de estruturação e que submeteu a candidatura da capital da Bahia para sediar o evento.
O Movimento Nossa Salvador foi inspirado na experiência bem sucedida do Movimento Bogotá Como Vamos e nas iniciativas mais recentes das cidades brasileiras de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Luiz, Recife, dentre outras. Com esta iniciativa, busca-se incorporar a cidade de Salvador à Rede Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis.
A Rede Latino-Americana
Países como Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Peru integram a Rede Latino-Americana por Cidades Justas e Sustentáveis, criada em 2008. O objetivo geral da iniciativa é buscar a participação social para comprometer os governos e a própria população com cidades mais justas, democráticas e sustentáveis. Geralmente, os movimentos reúnem organizações sociais, empresarios, universidades e cidadãos para compor uma força política local, de caráter apartidário e inter-religioso.
A partir de experiências concretas de sucesso com o uso de indicadores para monitorar as políticas públicas, pesquisas de opinião com moradores e o acompanhamento de metas de gestão dos governos e dos orçamentos locais, as práticas vem se replicando e se fortalecendo à medida que mais cidades se somam à rede. As trocas de experiências são feitas por meio de encontros presenciais e virtuais, além de divulgação em sites, blogs e mídias sociais, como o Ning, por exemplo.
No Brasil, o Movimento Nossa São Paulo (atual Rede Nossa São Paulo) foi o primeiro a atuar e se tornou um dos impulsionadores tanto da Rede Latino-Americana quanto da Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis, juntamente com a Fundação Avina. Na América Latina, a primeira iniciativa foi o Programa Bogotá Como Vamos, criado em 1997, na capital da Colômbia.
Os objetivos gerais das redes e de seus integrantes são buscar a participação social para comprometer os governos e a própria população com cidades mais justas, democráticas e sustentáveis. Geralmente, os movimentos reúnem organizações sociais, empresarios, universidades e cidadãos para compor uma força política local, de caráter apartidário e inter-religioso.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Avant-garde na Bahia - Martim Gonçalves e a escola de teatro

A Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia foi fundada em 1956. Assim como a de dança, foi a primeira escola de teatro em nível universitário no País. Aceitando o convite do reitor Edgar Santos, o médico por formação, artista plástico, cenógrafo e professor-diretor pernambucano Eros Martim Gonçalves influenciou toda uma geração de atores e diretores baianos durante sua permanência no cargo. Seus espetáculos foram marcantes no cenário cultural baiano. O cineasta Glauber Rocha era um dos mais assíduos nas aulas de Martim Gonçalves nesse período. Ele assumiu diversas vezes, ao longo da vida, essa influência em sua obra cinematográfica.
Durante sua estadia na Escola de Teatro (1956-1961), Martim Gonçalves montou diversas peças. Entre elas estavam “Auto da Cananéia”, de Gil Vicente (1955), “Senhorita Julia”, de August Strindberg (1958), “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna (1959), “Uma véspera de reis”, de Artur Azevedo (1960) e “Calígula”, de Albert Camus (1961). Alguns dos seus alunos se tornaram posteriormente grandes atores, como Othon Bastos, Helena Ignez e Geraldo Del Rey.
Mas foi em 1960, com a montagem da “Ópera dos três tostões”, de Bertold Brecht, no recém-incendiado Teatro Castro Alves, que a nova Escola de Teatro da UFBA atingiu seu ponto mais alto. A encenação, dirigida por Martim Gonçalves, contava com os cenários inovadores da arquiteta e designer italiana Lina Bo Bardi, que era, nesse período, a diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia e trabalhava em estreita parceria com os professores e alunos da Universidade. Sua cenografia e o ambiente do teatro davam ao espetáculo do dramaturgo alemão uma força surpreendente para os espectadores.
Martim Gonçalves ainda foi responsável pela introdução dos métodos de Stanislavski entre os atores, criando assim novos parâmetros para o teatro baiano. Incentivando a pesquisa de novos métodos e a expansão da Escola, o reitor Edgar Santos obteve junto à Fundação Rockfeller um convênio em que alunos e professores brasileiros e norte-americanos teriam bolsa de estudo e possibilidades de intercâmbio entre a Universidade Baiana e escolas de teatro norte-americanas. Essa junção de técnicas – Brecht e Stanislavski – foi uma das principais virtudes do diretor, segundo Glauber Rocha. Muitos desses ensinamentos estão presentes na sua direção de atores ao longo de sua filmografia.
Apesar das grandes vantagens do convênio para a Escola de Teatro, o quadro político da época fez com que, após a eleição de Jânio Quadros em 1960, essa e outras ações de Edgar Santos fossem questionadas por movimentos nacionalistas. Após uma série de críticas, Martim Gonçalves deixa a UFBA em 1961 e encerra seu ciclo como diretor da Escola.

Avant-garde na Bahia - Lina Bo Bardi

Ana de Oliveira*
De todos os nomes que fizeram parte da renovação da Universidade Federal da Bahia durante a gestão do reitor Edgard Santos, Lina Bo Bardi foi o mais Marcante.
Italiana de nascimento, a arquiteta e designer chegou à Bahia no final da década de cinqüenta para revolucionar a visão de arquitetura, de espaço, de arte e de cultura em toda região.
Apesar de ter sua trajetória baiana vinculada ao ambiente cultural existente em torno da universidade, Lina foi para Salvador a partir do convite feito pelo então governador Juracy Magalhães. O convite era para a construção e direção do Museu de Arte Moderna da Bahia, tarefa que a arquiteta executou entre 1959 e 1964. Apesar dos percalços, o MAMB foi um espaço até então inédito na vida cultural de Salvador. Suas atividades galvanizavam a vida cultural da cidade e faziam a ponte entre a arte, o Estado e a Universidade.
Enquanto foi diretora-executiva, Lina Bo Bardi implementou parcerias e espaços de reflexão em comum com a gestão de Edgard Santos na UFBA. Citando a própria arquiteta em seu artigo “Cinco anos entre os brancos”, ela afirma que iniciou o trabalho do MAMB “eliminando a ‘cultura estabelecida’ da cidade, procurando o apoio da Universidade e dos estudantes, abrindo o Museu gratuitamente ao povo, procurando desenvolver ao máximo uma atividade didática”.
No dia-a-dia do MAMB, além das exposições, existiam três frentes de atividades: a Escola da Criança, em parceria com o professor de teatro da UFBA Martim Gonçalves; a Escola de Música Infanto-juvenil, com a colaboração do maestro Hans Joachim Koellreuter, também da UFBA; e as atividades do Clube de Cinema de Walter Silveira, famoso crítico e formador de toda uma geração de cinéfilos baianos. Essas atividades, somadas às suas aulas, falas públicas e artigos, fizeram de Lina Bo Bardi uma figura de destaque nesse momento para toda uma geração que, nas palavras de Caetano Veloso, foi “civilizada” pela sua presença em Salvador durante aqueles anos.
É importante ressaltar que essa atmosfera de colaborações fez do MAMB um espaço em que grandes nomes da cultura baiana se articularam em parcerias, troca de idéias e formações intelectuais. Foi durante esse período que Lina Bo conviveu com Glauber Rocha, Calazans Neto, Mario Cravo Junior, Vivaldo da Costa Lima, Jorge Amado, Martim Gonçalves e Rogério Duarte, entre outros.
Lina Bo Bardi foi ainda a responsável pela fundação do Museu de Arte Popular (MAP) e da Escola de Desenho Técnico e Design da UFBA. A Fundação do MAP teve grande importância devido ao seu lugar de instalação: o complexo arquitetônico Solar do Unhão, construído ainda no século XVII. A arquiteta conseguiu financiamento para o restauro e inaugurou o MAP em 1963, com a exposição “Nordeste”.
Assim, Lina Bo Bardi atuava em diferentes frentes de trabalho. Fosse na arte moderna, na arte popular ou no design industrial, sua intenção era justamente pôr em xeque tais definições. O que os seus diferentes trabalhos tinham em comum e deixaram como legado para a cultura baiana e nacional era a vontade de renovação e a quebra de hierarquias estéticas – e sociais.
Lina ainda teve participação decisiva em outras áreas culturais da época, ao atuar como cenógrafa de dois espetáculos montados por Martim Gonçalves e pelos alunos da Escola de Teatro da UFBA. Os Cenários da “Ópera dos três tostões”, de Bertold Brecht (1960), e de “Calígula”, de Albert Camus (1961), são dois marcos da cenografia nacional. As parcerias da avant garde baiana permanecem até hoje influenciando gerações.
* Editora do site Tropicália

Avant-garde na Bahia

Ana Carolina*
No final da década de cinqüenta e início da década de sessenta, a cidade de Salvador passou por uma série de transformações que marcariam definitivamente a sua história cultural e, de forma mais ampla, de todo País. Tais transformações teriam, anos mais tarde, conseqüências diretas em movimentos como o Cinema Novo e o Tropicalismo.
O principal motor dessas transformações foram as experiências revolucionárias ocorridas na Universidade Federal da Bahia (UFBA). A reforma instalada pelo visionário reitor Edgard Santos proporcionou uma renovação profunda na vida cultural da cidade e gerou uma nova leva de intelectuais e criadores, cujas obras permanecem até hoje instigantes e inovadoras. A partir do planejamento e dos esforços de seu reitor, a reforma da UFBA trouxe para os seus estudantes novas perspectivas em áreas como a Música, o Teatro, a Filosofia, a História, as Artes e a Dança.
Com tal proposta de renovação, Edgard Santos conseguiu articular diferentes frentes de pensamento e ação cultural da cidade ao redor da universidade.
Entre os colaboradores e professores da UFBA, destaca-se uma série de artistas e de pensadores internacionais comprometidos com as idéias de vanguarda e experimentação. Seus principais nomes são a arquiteta e designer italiana Lina Bo Bardi (na direção do Museu de Arte Moderna da Bahia, mas trabalhando em sintonia com a Universidade), o diretor de teatro Martim Gonçalves, o músico e artista plástico suíço Walter Smetak, o afamado maestro alemão Hans J. Koellreuter, o historiador português Agostinho da Silva e a polonesa Yanka Rudzka, professora de dança contemporânea.
Além destes, profissionais e amadores como o jornalista João Ubaldo Ribeiro, os jovens Glauber Rocha, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Waly Salomão e Tom Zé, o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, o filósofo Carlos Nelson Coutinho e muitos outros foram ativos freqüentadores do dia-a-dia da universidade. Seus trabalhos posteriores os colocam como representantes de um meio intelectual baiano, cujas atividades saíram da UFBA e dos circuitos boêmios e culturais de Salvador para o resto do mundo.
Espaços como o Museu de Arte Moderna da Bahia trabalharam em constante parceria com seus alunos, por meio da figura de Lina Bo Bardi. Intelectuais que escreviam para jornais, como o Diário de Notícias, publicavam artigos em revistas como Mapa e Ângulos ou participavam dos cineclubes de críticos, como Walter Silveira, passaram a freqüentar o ambiente universitário, suas aulas e seminários. Por fim, artistas que já dialogavam com as tradições africanas na cultura baiana – entre eles Carybé, Mario Cravo Junior e Pierre Verger – encontram novos espaços de reflexão e debate em iniciativas a exemplo do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), dirigido por Agostinho da Silva.
Esse clima de ação coletiva, com reuniões em livrarias, teatros e cinemas da cidade, ajudou na formação do que mais tarde a crítica cultural brasileira chamaria de “grupo baiano”.
Antonio Risério, outro intelectual desse período, batizou de “Avant Garde na Bahia”.
* Editora do site Tropicalia

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Edgar Santos, o Reitor visionário

Jary Cardoso*
Depois de um período de reciclagem, estou de volta ao blog Jeito Baiano, e recomeço saudando a notícia de que Antonio Risério vai escrever a biografia de Edgard Santos, o fundador da Universidade Federal da Bahia (UFBa), em 1946, e seu primeiro reitor. Durante os 15 anos de seu reitorado, ele abriu as portas e caminhos para um renascimento multicultural na Bahia que se expandiu para São Paulo e Rio e gerou o Cinema Novo e a Tropicália.
Quem deu a notícia dessa biografia foi o editor José Enrique Barreiro em entrevista publicada em 30.1.2011 pela revista Muito (suplemento dominical do jornal A Tarde). Barreiro convidou Risério para tal empreitada certamente levando em conta que o escritor baiano é o autor de Avant-garde na Bahia, editado em 1996 pelo Instituto Lina Bo e P.M. Bardi.
Avant-garde na Bahia, originalmente, a tese apresentada por Risério para a obtenção do grau de Mestre em Sociologia pela UFBa, trata daquele período liderado pelo reitor Edgard Santos, que trouxe para a universidade grandes cabeças de fora da Bahia, como o compositor erudito de vanguarda, maestro, flautista e crítico de arte Hans-Joachim Koellreutter, de origem alemã e que dirigiu os Seminários Livres de Música em Salvador; o filósofo, poeta e ensaísta português Agostinho da Silva, que criou o Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao); a polonesa Yanka Rudzka, diretora da Escola de Dança; e o cenógrafo e diretor de teatro Eros Martins Gonçalves, pernambucano, que dirigia a Escola de Teatro.
A UFBa, sob o comando de Edgard Santos, avançava e fazia convergir os movimentos de arte e cultura existentes na Cidade da Bahia que tinham como protagonistas o crítico de cinema Walter da Silveira, o geógrafo Milton Santos, o arquiteto e urbanista Diógenes Rebouças, o artista plástico Mário Cravo, o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, o artista plástico baiano-argentino Carybé, o arquiteto (como fazia questão de ser chamada) Lina Bo Bardi, italiana, que estava à frente do Museu de Arte Moderna da Bahia, o fotógrafo e etnógrafo Pierre Verger, francês, o músico inventor Walter Smetak, suíço, entre outros.
E entre os jovens que despontavam na época, muitos deles alunos da UFBa, figuravam Glauber Rocha, Caetano Veloso, Waly Salomão, João Ubaldo Ribeiro, Rogério Duarte, Roberto Pinho, José Carlos Capinan, Gilberto Gil, Carlos Nelson Coutinho, Duda Machado.
Toda essa gente contribuía para um ambiente de invenção e ousadia cultural, regido pelo visionário Edgard Santos. Sobre ele escreveu Jorge Amado, em Bahia de Todos os Santos – Guia de Ruas e Mistérios (citado por Risério em avant-garde na bahia):
“Mestre Edgard Santos era um fidalgo da Renascença e ao mesmo temo dinâmico cidadão do mundo de hoje… Quando o tiraram de sua Universidade, ou seja do formidável trabalho que estava realizando, já não teve motivos para viver, foi-se embora primeiro para o Rio, depois para sempre. A ele se deve, em grande parte, o atual prestígio cultural da Bahia, o desenvolvimento não apenas dos estudos universitários mas de toda nossa vida intelectual”.
Caetano Veloso dá seu depoimento na apresentação do livro avant-garde na bahia:
“(…) O fato de a Universidade estar tão presente na vida da cidade, com seu programa de formação artística levado a cabo por criadores arrojados chamados à Bahia pelo improvável Reitor Edgard Santos, fazia de minha vida ali um deslumbramento. (…)
O que aconteceu na Bahia do final dos anos cinquentas ao início dos sessentas é ainda um aspecto pouco conhecido – embora determinante – da história recente da cultura brasileira. Este livro vem fazê-lo inteligível. Para mim, Risério revela nele o sentido de minha própria inserção no mundo (…)".
A biografia a ser escrita por Antonio Risério certamente irá contribuir para um melhor conhecimento da “Era Edgard Santos” e nos ajudará a entender e a definir o quanto falta atualmente para haver um novo renascimento civilizatório da Cidade da Bahia.
Entrevista de Barreiro à Muito
José Enrique Barreiro é o criador e CEO (Chief Executive Officer, o mais alto cargo executivo) da Editora Versal, com sede no Rio, mas ele mesmo é gente da Bahia – e de sucesso: começou, aos 16 anos, como jornalista do Jornal da Bahia, comandou a TVE no governo Waldir Pires, coordenou o núcleo de publicações da Odebrecht. Pois as duas respostas finais da entrevista de Barreiro à Muito me interessam em especial como blogger do Jeito Baiano.
Na primeira, José Enrique Barreiro responde à repórter Tatiana Mendonça que entre os futuros lançamentos de suas duas editoras (além da Versal, ele é o novo dono da editora carioca Guarda-Chuva), está prevista a biografia de Edgard Santos.
Na segunda resposta, instigada pela repórter, Barreiro faz coro com os descontentes (todos nós) e reclama de tanta coisa errada na Cidade da Bahia, uma situação que está nas antípodas do tempo em que Edgard Santos, o personagem destacado na pergunta anterior, era o reitor da Universidade Federal da Bahia.
TATIANA – Quais são os próximos lançamentos das suas editoras?
BARREIRO – (…) sobre a Bahia, vamos publicar [pela Versal], dentro do Prêmio Clarival do Prado Valladares, da Odebrecht, um livro de arte sobre o Mosteiro de São Bento. E estou fechando com Antonio Risério uma biografia de Edgard Santos. É uma figura que precisa ser resgatada e conhecida. Se houve Tropicalismo, se houve Cinema Novo, isso deve ser creditado largamente a ele. Foi Edgard Santos quem deu um ambiente cultural a esta cidade, propiciou a circulação de ideias. Porque talento nós temos de sobra. Talvez isso seja até um problema, porque a gente fica acomodado no talento, e aí é pouco rigoroso, pouco estudioso, pouco elaborativo… Porque a Bahia, realmente… Nossa gente é maravilhosa. Estou fazendo 20 anos no Rio. Mas venho sempre a Salvador. Tenho até um apartamento aqui, pago IPTU.
TATIANA – Então tem muito do que reclamar.
BARREIRO – É, a cidade está sem… Tenho visto algumas cidades brasileiras, como o Rio e São Paulo, andando para a frente, tentando resolver seus problemas. E Salvador, se não andou para trás, também não andou para frente. Tem problemas de trânsito, tem a questão da especulação imobiliária fortíssima… Tenho receio de que assim a gente possa vir a perder aquilo que nos é mais especial, nossa hospitalidade, nosso jeito tranquilo de ser, nossa amizade. Tomara que se faça algo nesse sentido, e também no sentido cultural. Alguma coisa precisa acontecer para que a gente dê um salto maior. Nós exportamos o Tropicalismo, foi um feito notável. Mas, depois disso, a gente se concentrou muito no Carnaval. A força desse esquema é tão grande, envolve tanta gente, que acabou tomando conta das nossas possibilidades culturais. Não podemos chegar ao resto do País só com o Rebolation. É muito pouco. Temos capacidade para produzir muito mais.
*Jary Cardoso é editor do Jornal A Tarde e do blog Jeito Baiano
** Artigo publicado originalmente no blog Jeito Baiano

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O metrô de Salvador já custou R$ 1 bilhão e não funciona

Claudio Dantas Sequeira*
O menor e mais caro metrô do mundo está na Bahia. Com apenas 6,5 quilômetros de extensão e custo total de R$ 1 bilhão, ganhou dos baianos indignados o singelo apelido de “autorama”. Só que não funciona.
A construção do metrô de Salvador arrasta-se há uma década, o que também situa a obra entre as mais longas do gênero. É, sem dúvida, a síntese do que há de pior na administração pública brasileira: corrupção, burocracia, incompetência e descaso com o cidadão. O projeto inicial previa 41 quilômetros, só que o investimento foi todo consumido no primeiro trecho, que deveria ser de 12 quilômetros, mas foi reduzido à metade.
Para agravar, um estudo de viabilidade econômica do projeto mostra que, para cobrir os custos de operação, o bilhete do metrô poderá custar entre R$ 10 e R$ 15, seis vezes o preço em São Paulo. Chegou-se à conclusão de que o metrô não se sustenta economicamente, terá de ser subsidiado. É muito curto e ainda por cima foi construído numa área que é bem coberta por outros transportes públicos.
Na primeira gestão do Prefeito João Henrique Carneiro (foto), o projeto do Metrô foi alterado no trecho da Avenida Mário Leal Ferreira. Houve acréscimos de custos, com a construção de um elevado de 3 km. A obra também foi paralizada em decorrência de denúncias do TCU e MPF.
Dirigentes da Companhia de Transporte de Salvador (CTS), que gerencia o andamento das obras, culpam a administração anterior pelo imbróglio. “Tudo começou na licitação feita pelo prefeito Antonio Imbassahy (PSDB)”, diz o diretor da CTS, Hebert Motta.
De fato, foi Imbassahy (1997-2005) quem abriu a concorrência para a construção do metrô em 1999. O exprefeito garantiu à ISTOÉ que todo o processo transcorreu “dentro da lei”. Entretanto, o TCU já determinou a retenção cautelar de R$ 50,5 milhões após encontrar irregularidades na obra e a Corregedoria-Geral da nião finaliza auditoria sobre os preços praticados pelo Consórcio Metrosal. Mais grave: a Justiça Federal da Bahia aceitou denúncia do Ministério Público por suspeita de formação de quadrilha, cartel e fraude na licitação. Foram acusados sete dirigentes das empresas que participaram da concorrência: dois da Camargo Corrêa e dois da Andrade Gutierrez, integrantes do consórcio Metrosal, além de três dirigentes da construtora italiana Impregilo, do consórcio Cigla. Segundo o MPF, as empresas atuaram em conluio. As companhias negam a acusação. Em 2010, os procuradores baianos conseguiram uma ajuda extra do MPF em São Paulo, que confirmaram os indícios de fraude e superfaturamento no metrô baiano. A papelada faz parte do inquérito da Operação Castelo de Areia, que apura o pagamento de propina a políticos e agentes públicos em dezenas de empreendimentos pelo País.
Envolvendo doações a políticos de diversos partidos, o processo foi paralizado no STJ, sob a alegação de que as provas foram obtidas ilegalmente, baseadas em denúncias anônimas.
Pelo visto, o buraco do metrô de Salvador é muito mais profundo.
*Jornalista da Isto É

Governo do Estado vai administrar o metrô de Salvador

Romulo Faro*
O ingresso do prefeito João Henrique no Partido Progressista (PP) abriu as portas para a articulação, no sentido de o governo do Estado assumir a administração do Metrô de Salvador. Conversas de bastidores dão conta de que a demora para tanto era o alcaide integrar um partido da base aliada do governador Jaques Wagner (PT), o que já não é mais problema.
João Henrique deve se filiar oficialmente no PP logo depois do Carnaval, no dia 13 de março. A perspectiva é que o executivo estadual dê largada o quanto antes também às obras do segundo trecho compreendido da Rótula do Abacaxi (Acesso Norte) até Pirajá. Diga-se de passagem, um desejo explícito do governador.
Embora não tenha admitido que exista uma negociação político-partidária, o ministro das Cidades, Mário Negromonte, que também é o presidente do PP na Bahia, confirmou, que o Estado vai, sim, administrar o polêmico metrô de Salvador.
O ministro disse não saber com precisão quando isso acontecerá oficialmente, mas foi enfático ao afirmar que é apenas questão de tempo. “Na época do projeto do metrô de Salvador, por algum motivo, a Prefeitura assumiu a responsabilidade, mas é natural que o governo federal ou o governo estadual administre o sistema. É assim em todo o Brasil. Em lugar nenhum do mundo uma prefeitura administra metrô”, pontuou Negromonte.
As obras do segundo trecho, que completará os 12 quilômetros do percurso, de acordo com Negromonte, pode se iniciar até o final de 2011 e, conforme ele explica, o governo baiano é quem receberá os R$ 480 milhões previstos pela União, através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), voltado para obras de locomoção e infraestrutura de transportes em grandes municípios brasileiros. O montante será repassado também através do Ministério das Cidades.
De acordo com o ministro, até o final do próximo mês de março a primeira etapa do percurso do metrô já deve estar servindo à população. São os seis quilômetros que vão da Estação da Lapa à Estação Rótula do Abacaxi (Acesso Norte). Para tanto, a pasta das Cidades vai repassar ao cofre municipal R$ 80 milhões, que serão gastos com treinamento para os operários dos trens e com revisão das máquinas.
* Jornalista da Tribuna da Bahia

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Google aposta em nova tecnologia de transportes

Batizado de Shweeb, meio de transporte é composto por cápsulas transparentes com pedais e ligado a monotrilho
Imagine pedalar pelas ruas, sem pegar trânsito e, de quebra, ver o céu? Pois um australiano criou uma “bicicleta voadora”. Trata-se de um sistema de transporte que conta com monotrilhos e cápsulas transparentes com pedais.
Batizada de Shweeb (que vem da palavra alemã “schwebe”, que significa pendurado, pairando ou suspenso, em português), a invenção de Geoffrey Barnett pode chegar a até 45 quilômetros por hora.
A aerodinâmica e os mecanismos da cápsula foram criados pensando em eliminar as fontes de atrito para que ao pedalar as pessoas não façam muito esforço. Para quem desejar, há a alternativa de usar eletricidade para movimentar a cápsula.
A ideia surgiu quando Barnett foi morar no Japão para dar aulas de inglês e se deparava com ruas congestionadas. “Eu queria passar por cima de todas as pessoas”. Ao voltar para Austrália, Barnett se debruçou em pesquisas para conseguir colocar a “bicicleta voadora” em prática. Depois de seis anos, o sistema saiu do papel e ganhou uma versão em um parque de aventura na zona turística da Rotorua, na Nova Zelândia. É lá que os usuários da “bicicleta” podem dar sua opinião para aperfeiçoar o sistema.
A invenção despertou o interesse do todo poderoso Google. Em setembro de 2010, o projeto foi escolhido para receber US$ 1 milhão da companhia como parte do Projeto 10100, que convocou usuários do mundo todo a criarem soluções para os desafios globais.
Diante desta promessa futurista, será o adeus ao trânsito? É aguardar e conferir.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Salvador, o Prefeito e o Governador

Armando Avena*
Salvador precisa de socorro, não de soluções políticas extremadas. Precisa da união das diversas esferas de poder em torno um projeto administrativo mínimo. A cidade tem pouco mais de três anos para se preparar para a Copa de 2014 e não faz sentido perder dois anos discutindo querelas políticas, levantando hipóteses de impeachment ou adubando o terreno político com vistas as eleições de 2012.
Por isso, é preciso que o Prefeito de Salvador, o Governador do Estado (foto) e o Ministro das Cidades , indicado pela Bahia, se unam e estabeleçam um programa mínimo de trabalho que garanta as obras de infraestrutura que vão viabilizar a Salvador da Copa de 2014.
Não cabe aqui discutir os problemas da gestão do Prefeito João Henrique, mas em uma questão específica ele está certo: Salvador não pode ser administrada e preparar-se para a copa de 2014 contando somente com as recitas municipais. Salvador apresenta, entre as 26 capitais do país, a segunda menor receita per capita e isso ocorre por não ter indústrias de porte e por conta dos critérios de distribuição de ICMS, assunto que vale um estudo específico.
E assusta saber que a receita corrente líquida da capital do Estado é inferior ao orçamento de investimento de uma única secretaria do governo, a Secretária de Desenvolvimento Urbano. O governador não está alheio a questão e vale destacar os recursos alocados na construção da Arena Fonte Nova – a obra mais adiantada do país entre os estádios da Copa – que vai dotar a cidade de um equipamento multiuso, com desdobramentos positivos na economia, na reforma urbana da cidade e no mercado de emprego.
Ressalte-se também a construção da Via Expressa e os recursos negociados para o projeto de mobilidade urbana. Mas Salvador é a vitrine da Bahia, é a caixa de ressonância que faz vibrar nosso esporte, nossa cultura, nosso povo (por favor, avisem ao novo secretário de Cultura!) e, por isso, é fundamental que o governo do Estado utilize boa parte dos bilhões da Sedur e do seu orçamento para investir na cidade, melhorando a vida de sua população e preparando-a para a Copa de 2014.
* Economista e escritor, foi Secretário do Planejamento da Bahia
** Artigo publicado originalmente no jornal A Tarde
** Na foto o Prefeito João Henrique e o Governador Jacques Wagner

João Henrique troca Gedell por Negromonte

João Paulo Lima*
Depois de estar muito perto de acertar com o Partido Verde o prefeito de Salvador João Henrique Carneiro acabou se juntando os Partido Progressista(PP). A filiação foi acertada em uma reunião hoje, no Palácio Thomé de Souza onde o prefeito João Henrique recebeu o convite formal para ingresso no partido. O inicio dos trabalhos de João Henrique como membro do PP começará dia no dia 12 de março.
Na reunião estiveram presentes o ministro das Cidades, Mário Negromonte, o deputado federal João Leão, os deputados estaduais Mário Júnior e Cacá Leão e o secretário regional do PP, Jabes Ribeiro, que comentou o ingresso do prefeito. “É um quadro muito importante para o partido, o prefeito da terceira maior cidade do país. Somos o terceiro maior partido em votos da base aliada do governo federal e o segundo da base aliada do governo estadual .
Segundo o Ministro das Cidades Mario Negromonte, O governador Jaques Wagner já está sabendo da filiação e segundo informações está muito contente com a chegada do prefeito ao governo. O prefeito João Henrique também comentou sua entrada no novo partido exaltando suas qualidades.
“É muito importante o entrosamento das três esferas governamentais para as obras necessárias para a Copa do Mundo. Além disso, é uma honra me filiar ao PP, que tem experiências exitosas de administrações municipais”, frisou João Henrique.
Na Bahia, o PP conta com 50 prefeitos e em nível nacional com 44 deputados federais e 5 senadores.

*Reporter
**Na foto Gedell, João Henrique e Mário Negromonte

domingo, 20 de fevereiro de 2011

"Soy Loco por ti Poeta Capinan!!!!

Jorge Portugal*
Poetas são criaturas que conhecem, como ninguém, o endereço do nada. E, quando se lhes dá na telha (ou na pele), vão lá e retiram palavras, imagens e metáforas para falar de mundos que a nossa impotência verbal não traduz. E é dos poetas que tomamos as palavras emprestadas quando sentimos que as nossas não conseguem chegar às estrelas.
Pois bem, neste sábado, dia 19 de fevereiro, estará completando inacreditáveis 70 anos um dos maiores e mais importantes poetas da cultura brasileira contemporânea: José Carlos Capinan.
Foi de Capinan que você, leitor(a), tomou as palavras precisas para expressar aquela alegria indizível de se descobrir vivo e feliz. Ali, você cantou:
cores do mar, festa do sol/
vida é fazer todo sonho brilhar, ser feliz/
em seu colo dormir e depois acordar/
sendo o seu colorido brinquedo de papel machê…”
Lembra?
Ou, no caso de você já ter passado dos trinta (rsrsrs!) e ter vivido com ardor juvenil o sonho de alguma revolução igualitária em que os países não tivessem fronteiras, nem divisões sociais, o seu coração “guevariano” certamente deve ter cantado
“Soy loco por ti, América/ Tenga como dolores a espuma blanca de Latinoamerica/ Y el cielo como bandera”.
Ou, ainda no seu caso, caro leitor, ao despir a mulher amada com olhos de poesia e desejo, e não encontrando palavras à altura para o seu plano de sedução, deve, sim, ter pedido ajuda a Capinan e cantado no ouvido da musa: ”Moça bonita, o seu corpo cheira ao botão de laranjeira/ Eu também não sei se é/ Imagina a minha sina é um cheiro de café/ Ou é só cheiro feminino/ É só cheiro de mulher”.
E assim, dessa maneira, Capinan foi tomando conta de nossas vidas, convidando-nos a “penetrar surdamente” no reino de suas palavras e nos entregando a chave de belas e invulgares emoções. Por isso, onde você estiver neste sábado, agradeça ao deus da poesia por ter nos dado esse “caboco do mato” que vem enchendo nossa vida de palavras, sonhos e luz.
*Poeta e Educador
** Publicado originalmente em A Tarde, 15/02/2011 e no Blog Jeito Baiano - http://www.jeitobaiano.atarde.com.br