sexta-feira, 3 de abril de 2026

Dom Pedro II no Morro de São Paulo


 

Por Dom PedroII*

4-5-6 de outubro de 1859

O livro Viagem pelo Brasil, que traz o Diário de D. Pedro II no 2º. Reinado, quando ele estava no auge de sua popularidade e jovialidade, 40 anos antes do golpe chamado de Proclamação da República ( ), revela a sua passagem pela Bahia, Sergipe e Alagoas.

Após uma viagem de barco a vapor desde o Rio de Janeiro, quando zarpou no dia 1 de outubro, o vapor chegou á noite no porto ao lado da fortaleza, no dia 4 de outubro. A viagem consumiu portanto 4 dias, algo muito rápido para a época. Novos tempos, marcados por vapores, ferrovias, navios metálicos, expansão do comércio mundial e grandes transformações em todo o mundo, ao longo século dezenove. Vamos ler o que o rei descreveu sobre o Morro de São Paulo, naquela passagem rápida mas profundamente marcante, pela qualidade e intensidade de suas observações:

A chegada de noite – Desci ontem por volta de 21 horas e 15 minutos, porque estive a ler. De noite jogou muito, porém às 7 horas da manhã, fundeamos por detrás do morro do farol de São Paulo. O Feijó (primeiro oficial da secretaria do império) viu o farol ontem de  noite antes do gajeiro. 

Nesta enseada esteve a esquadra brasileira por ocasião da Independência desde depois do combate de quatro de maio até dois de julho de 1823. Um forte, que se vê agora completamente desmantelado, tinha, quando chegou a esquadra brasileira na época da Independência, apenas 27 balas e quatro peças, que se desmantelaram ao salvar a esquadra.  Os carpinteiros desta, desembarcando, consertaram os reparos das quatro peças e o forte ficou fornecido com quatrocentos tiros de balas. Viram, do alto do navio, onde está hoje o farol, a evacuação da Bahia pela esquadra lusitana no dia 2 de julho, e a corveta Niteroi atravessou o baixio para ir á Bahia, escoltada de ambos os lados vinha na desmantelada cortina. 

O farol foi construído na presidência de Gonçalves Martins 016; é de 1a classe bastando apenas uma lanterna, segundo diz o Marques, e sendo mais necessário na Ponta de Itapoã e nos Abrolhos (Ilha de Sta. Bárbara).

8 e 35 – Já ouvi missa e vesti-me para almoçar e daqui ir ver a ilha de Tinharé. O comandante do forte desmantelado, o major reformado Manuel do Carmo Correia Palmeira, baixo e grosso, chegou antes da missa. Soube por ele que a ilha tem cerca de 300 habitantes, que é capela curada, mas sem capelão, e que só pôde obter 6 inválidos para o forte, sendo o não-mutilado sujeito a ataques de ficar horas sem fala e respiração.

Há uma escola de meninos e as meninas aprendem particularmente. Julguei que a bandeira fosse nova; mas o Sr. Palmeira desenganou-me, fazendo-me reparar que a haste dela é uma vara; mais uma sinecura que é preciso acabar. Antes de ir vestir-me para almoçar vi uma embarcação de 3 mastros carregada de piaçaba que vinha de Valença para a Bahia, tinha a proa à semelhança da das gôndolas.

Acabado o almoço fui ver a ilha do morro de S. Paulo, que parecia não conhecerem aqui (pois que o ignora Palmeira) por ilha de Tinharé, como vejo nos mapas. Receberam-me com muito regozijo e cordialidade e os foguetes do costume, principalmente na Bahia. Subi por um caminho ruim até a Igreja, que é sofrível, para a localidade, com a invocação de N. S. da Luz, havendo irmandade desta Senhora, que também o é do Sacramento, acompanhando-me alguns irmãos de opa encarnada e tochas na mão. Orei por um pouco na Igreja 017, em cuja sacristia há um ex-voto de navegantes e fui depois visitar o farol.

A torre deste tem 74 pés de altura e sobe-se por 74 degraus de pedra e 4 de madeira e depois por dois lanços com 33 degraus de madeira e 1 de pedra até a varanda que rodeia a lanterna de onde se goza de excelente vista, chegando a descobrir-se, segundo dizem, o farol de Sto. Antônio na Bahia, a 10 léguas de distância. Há 9 degraus de ferro dentro da lanterna para chegar ao aparelho do farol, que é do sistema Fresnel, e do fabricante Henry Lepante, Paris. É muito bem-feito, sendo para sentir que alguns dos prismas tenham fendas, ainda que grande parte dessas na direção normal. É intermitente e a revolução de 12 minutos. Consome 124 camadas de azeite por três meses sendo doce, de mamona purificada, ou de coco; serve-se agora de doce, que dá luz pouco clara segundo disseram. Há perto uma casa, que ainda não serve para depósito de azeite e outros pertences do farol; os tanques para o azeite terão, cada um, a capacidade de 216 br3.

O farol foi construído pelo engenheiro Carson, o da fábrica de Valença. Há 5 pessoas no serviço do farol, tendo o  administrador 1.000 réis por dia, outro 800 réis e os mais 3.600 cada um. Queixaram-se de que era pouco pois que fazem todos as conduções da ilha e para ilha do que é preciso para o farol, e a limpeza deste à sua custa.

O subdelegado, que o é desde 1842, homem de 65 anos, mas que não parece, e que diz ter militado a bem da Independência, representou-me contra a falta de pedra na ilha, pois a freguesia é a de Cairu a 9 léguas de distância do mar.

O quartel das praças inválidas, que são 7, e entre as quais há um Manuel Pinheiro, de 84 anos e 60 de praça, está em mísero estado, e ao pé existe o calabouço onde se tem guardado o azeite para o farol e outras coisas, é uma miséria!

Depois fui ver a fortaleza que foi mandada construir pelo vice-rei Vasco César Fernandes de Meneses, como se vê da seguinte inscrição sobre o portão:  

Vasco Fernandes Cézar de Meneses, conde Sabugosa, do conselho de S.S. A.A. de Portugal, alcaide mor do reino, comendador da Ordem de Cristo, fundou esta fortaleza em 1730.

Há peças que ainda se podem aproveitar, e aí achei um fornilho para balas ardentes e instrumentos para seu emprego. O mar já deitou boa porção da muralha abaixo, e minou outra, passando-a de um lado para outro. Na ilha há 300 e tantas famílias, como me disse, da segunda vez, o comandante da fortaleza, que também inspeciona o farol, e mais de 2 mil pessoas segundo o subdelegado.

A escola pública é de meninos e meninas e tem por todos 30 e tantos, segundo me disse o professor. A ilha tem 14 léguas de extensão, conforme aventurou o comandante, não mostrando o mapa de Roussin senão 31, mas nenhuma cultura a não serem poucos pés de laranjeira e bananeira e muitos coqueiros, abundando em formigas e cupim, e jararacas e jararacuçus, segundo me disse o comandante do Amazonas; mas não foi confirmado pelo comandante Palmeira.

O inválido Paulo Pedro Rodrigues da Costa pediu-me para ser transferido para a companhia de inválidos da corte. Consta ter sido um dos melhores cornetas do exército na época da Independência. 

Há na ilha boa tabatinga para caiar, e outra mais dura que chamam solho e serve para o chão. Há de diversas cores tanto de uma como de outra qualidade. Nas praias, na baixa-mar, apanha-se pedra calcária, de que colhi amostra e fazem cal na ilha. Há uma fonte pública de 3 bicas com a seguinte inscrição: 

“O Ilmo. e Exmo. Sr. André de Mello e Castro, Conde das Galveias, vice-rei – cap-gal. de mar-e-terra do gno do Brasil, mandou fazer esta fonte em 1743”. 

A água que me deram para beber era pouco clara mas dizem que é boa, e não me pareceu má no gosto; é verdade que tinha bastante sede e a localidade passa por sadia ainda que a gente não o pareça pela fisionomia.

Fui depois ver o Curral, que é uma parte da enseada cuja entrada se encobre como uma ponta de areia cheia de mato, princípio de um baixio que já formou adiante uma ilha de areia, já coberta de vegetação, e que não existia ainda em 1823. É lugar muito abrigado e com fundo pouco raso, pouco afastado do baixio, e foi aí que estiveram em 1823 os navios da esquadra brasileira, com exceção na nau Pedro I e corveta Maria da Glória, que cruzavam por serem veleiros.

Indo para o curral passamos pela povoação de Gamboa, onde está erigindo uma capela o capitão Sousa Macieira, sendo esse o lugar onde se abrigam os navios costeiros. Aí encontramos um vindo de Valença (cuja matriz se avista ao longe, descobrindo-se grande parte da povoação do alto do morro do farol) com dois mastros, muito perto um do outro, e para o lado da proa, sendo o posterior inclinado para trás e tendo cada um uma vela, visando-se unicamente a do mastro posterior. A proa é semelhante à das gôndolas e mete bastante de popa, dizendo o Marques Lisboa que estes barcos têm belas linhas d’água, agüentando muito bem o vento. Colhi na ilha umas campainhas azul-acinzentado que já estão murchas do bolso, mas levarei assim mesmo. Logo ao chegar à ilha vi um chapéu da moda e depois mais três; até aqui!

9 ¾ – De tarde vieram diversos com requerimentos e, numa representação, pedem que se crie freguesia esta povoação de mais de mil almas, para cumprimento do “Crescite et multiplicamini”.

O farol acendeu-se às 6 horas e disseram-me que sua intermitência é de 5 segundos e mais brilhante em certa distância que perto. Não se vendo a torre, parece, quando menos brilhante, uma segunda lua no céu.

A povoação formou duas linhas de luminárias, com pessoas trazendo fachos. Vieram 3 repolhos monstruosos de presente.

Às 9 ½ chegou o comandante do Itajaí e o ajudante do capitão do porto da Bahia, com programa do desembarque publicado pelo Pena - souberam de nossa chegada ao morro de S. Paulo às 2 da tarde por uma lancha saída de manhã daqui. Os dois oficiais vieram num vapor mercante, parece que por não poder trazê-los o Itajaí e já se retiraram para a Bahia, onde se sabe que o Pirajá chegou 5a. f. Vou agora recolher-me para acordar amanhã antes de suspender o ferro.

No dia seguinte, Dom Pedro descreve no diário:

Dormi muito tranquilo desde perto de meia noite, porque estive lendo outra vez o programa e vendo a planta da cidade da Bahia até antes de 17:15 h. Suspendeu-se ferro ás 6:15 h, e escrevo deitado na baiúca porque joga muito e receio ficar enjoado. O dia está belíssimo e há três dias que venta S.O. sem que tenham vindo em resposta os pirajás. Acabo de regular o meu relógio pela hora da Bahia, são 8 horas e 7 minutos.

9 e 43’ – Avistam-se a Bahia e quatro vapores vindos de lá. Distinguem-se cinco vapores. .

* Pedro II, cognominado "o Magnânimo", foi o segundo e último monarca do Império do Brasil, reinando por 58 anos. Filho mais novo do imperador Pedro I 

segunda-feira, 30 de março de 2026

A grande reforma de Salvador

Paulo Ormindo de Azevedo*

Quando J. J. Seabra assumiu o governo da Bahia, no período de 1912 a 1916, já tinha na verdade equacionado com o apoio da iniciativa privada e grupos financeiros internacionais a transformação da cidade de modo a adequá-la a seu novo papel de exportadora de matérias-primas. Na medida em que as obras do porto e a ampliação da Cidade Baixa entravam em compasso de espera, em consequência da I Grande Guerra, Seabra punha em marcha a parte final de seu plano, aquela não bancado pela iniciativa privada, ou seja, a criação de vias urbanas adequadas aos novos meios de transportes e para facilitar o acesso ao Comércio, renovado e ampliado.

É preciso entender que o traumático, mas necessário, alargamento da Av. Sete, quando foram demolidos alguns monumentos religiosos e harmoniosos conjuntos de casas e sobrados de uma cidade até então intocada, não foi apenas motivado pelo desejo de embelezá-la, senão parte de uma reforma muito mais ampla de infra estruturação territorial e urbana da Bahia que incluía a integração dos sistemas ferroviários e marítimo e a incorporação de 800.000 m² de terrenos ganhos ao mar, no bairro mais dinâmico e acanhado da cidade, a Praia.

Este processo foi deflagrado em 1905, muito antes de Seabra ser governador da Bahia, ainda quando ele era ministro da Justiça e seria desenvolvido mais tarde como ministro da Viação e Obras Públicas (1910-1912). A reforma urbana de Salvador, como as do Rio de Janeiro (1906) e do Recife (1913), visava a inserção do Brasil no mercado internacional, tendo como um dos seus principais protagonistas, Seabra, nos três casos. Embora os trabalhos de melhoramento do porto só tivessem sido concluídos na década de 30, já em 1913 eram inaugurados 360 m de cais e três armazéns para onde passou todo o serviço de carga e descarga de mercadorias.  

O alargamento da Av. Sete foi um projeto do engenheiro e empreiteiro Jerônimo de Alencar Lima, sócio de Simões Filho no jornal A Tarde, aprovado pelo prefeito Júlio Viveiros Brandão em 1912. Seu projeto incluía também a abertura da Av, 2 de Julho, atual Carlos Gomes, que só seria executada mais tarde e a demolição da igreja da Sé. Seabra dispensou os serviços de Alencar e optou por executar a Av, Sete com os Guinle pelo fato deles intermediarem o empréstimo com os bancos europeus. Mas parte do empréstimo foi retida pelos bancos como ressarcimento de débitos de administrações anteriores e os Guinle foram substituídos pela firma Lafayete & Cia no alargamento da Av. Sete, como afirma o jornalista Nelson Varón Cadena.

O projeto de Alencar Lima seria retomado na década de 1930, na administração do prefeito José Americano da Costa, com a abertura da Av. Carlos Gomes e demolição da igreja da Sé. Crime grosseiramente atribuído a Arlindo Fragoso, braço direito de Seabra, que já havia falecido sete anos antes. 

PS – Meus livros ”Histórias urbanas & outros contos” e “Navegação errante” podem ser adquiridos em: www.editoramondrongo.com.br

*Professor Titular da Ufba. Arquiteto e Urbanista

domingo, 9 de novembro de 2025

Entendendo a guerra morna urbana


Paulo Ormindo de Azevedo*

Entendendo a guerra morna urbana A violência urbana, que constitui a principal preocupação da população brasileira, é estrutural, e não pode ser resolvida apenas pela polícia. Ela é basicamente resultante de um modelo de urbanização excludente, que permite ao crime organizado dominar extensas áreas periféricas de nossas cidades. Nossas urbes são espaços divididos, como dizia Milton Santos. Ele mostrou que nos países subdesenvolvidos há dois circuitos econômicos urbanos.

“Simplificando, pode-se afirmar que o fluxo do sistema superior está composto de negócios bancários, comércio de exportação e indústria de exportação, indústria urbana moderna, comércio moderno, serviços modernos, comércio atacadista e transporte. O sistema inferior está essencialmente constituído por formas de fabricação de ‘capital não intensivo’, por serviços não modernos, geralmente abastecidos pelo nível de venda a varejo e pelo comércio em pequena escala e não-moderno” (Santos, 1977, p. 38-39).

Estes dois circuitos econômicos se refletem na segregação socioespacial da periferia na cidade formal. Nas grandes cidades, o poder público abandonou as favelas e elas foram apropriadas por gangues de drogas e milícias, que passaram a explorar segurança, serviços públicos e redes de informações.

Para fidelizar sua clientela elas mantêm creches, financiam enterros e administram uma justiça cruel. Como o negócio é altamente rentável, passa a haver disputas territoriais entre elas. Com a globalização e a internet essas disputas ultrapassaram a cidade, o estado, o país e esses grupos já se infiltraram no circuito superior da economia: no sistema financeiro, na distribuição da gasolina e na política. 

A insegurança das nossas cidades se deve à falência do planejamento socioeconômico e urbano do país. Incursões intempestivas, como a de 29/10 no Rio, com 120 mortes, inclusive de policiais, são uma tristeza e desgastaram a imagem da polícia, do governo local e do próprio país. Não se mata um polvo cortando só uma perna.

As experiências de maior sucesso nesse campo foram o projeto Favela-Bairro do prefeito do Rio, Arq. Paulo Conde, do final da década de 1990, colocando equipamentos sociais e polícia pacificadora nas favelas e um programa semelhante em Medellín, na Colômbia, que integrou as favelas com teleféricos, escadas rolantes, bibliotecas e teatros no seu topo, reduzindo a um décimo o índice de homicídios.

Não vai haver solução da segurança pública, sem a mudança do modelo de urbanização excludente, sem o rastreamento de todas grandes movimentações bancárias, a integração das inteligências financeira e policial e o bloqueio dos celulares nas prisões. Já é tempo dos poderes executivo, legislativo, judiciário e da sociedade civil entenderem que a segurança pública é um problema socioeconômico, de integração urbana e não apenas policial.

Que falta faz Milton Santos neste momento!

SSA: A Tarde, 09/11/2025

Paulo Ormindo David é arquiteto, professor e escritor. Membro da Academia de Letras da Bahia. Professor Titular da Escola de Arquitetura da UFBA. Doutor em conservação e restauração de bens culturais , Università Di Roma. 

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Como a impunidade no Brasil alimenta a corrupção

Osvaldo Campos Magalhaes*

A Operação Castelo de Areia, deflagrada em 2009, revelou o conluio entre grandes empreiteiras, como Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Odebrecht, e políticos ligados a obras de metrôs e trens urbanos. Entre as obras citadas nos relatórios da Polícia Federal estava o Metrô de Salvador, executado por consórcios dessas empresas, que apresentava indícios de superfaturamento, repasses irregulares e formação de cartel. Documentos e planilhas apontavam também pagamentos a campanhas políticas, incluindo aliados do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora nenhuma denúncia formal tenha avançado.

O advogado Márcio Thomas Bastos, ex Ministro da Justiça, atuou na defesa de executivos e empreiteiras, envolvidas na formação do cartel, contestando provas obtidas através de denúncias anônimas, que foram posteriormente anuladas pelo STJ em 2011, criando um vácuo de impunidade.

Com a nulidade, as práticas ilícitas se consolidaram e se expandiram para setores estratégicos, como a Petrobras, onde gerentes e diretores recebiam propinas e favoreciam contratos superfaturados de empreiteiras. A ausência de punição permitiu que o modelo de cartelização se ampliasse, mantendo esquemas que financiavam políticos e perpetuavam o desvio de recursos públicos. Essa engrenagem só começou a ser desarticulada com a Operação Lava Jato, que prendeu executivos como Marcelo Odebrecht e diversos funcionários da estatal, enquanto Lula foi condenado em processos posteriormente anulados pelo Supremo Tribunal Federal.

Mesmo com a anulação de condenações, a Lava Jato trouxe benefícios concretos ao Brasil. A operação recuperou bilhões de reais desviados, por meio de acordos de leniência e delações premiadas, forçando empresas como Odebrecht e Camargo Corrêa a ressarcirem os cofres públicos. Além disso, impulsionou reformas institucionais e culturais: empresas criaram departamentos de compliance, contratos públicos passaram a ter maior rastreabilidade e transparência, e órgãos de controle do governo ganharam mais força para fiscalizar obras e licitações. A operação também estabeleceu um novo paradigma de responsabilização, mostrando que corrupção sistêmica pode ser investigada e punida, ainda que judicialmente haja limitações e recursos.

A trajetória entre Castelo de Areia e Lava Jato evidencia que a impunidade inicial fortaleceu a corrupção sistêmica, permitindo que cartéis, superfaturamento e repasses ilícitos prosperassem. Ao mesmo tempo, a Lava Jato, apesar de falhas processuais e anulações, deixou um legado claro: mudou a percepção social sobre a impunidade, recuperou recursos públicos e criou um padrão mais rigoroso de fiscalização e integridade. O Brasil aprendeu que, mesmo quando o sistema falha, a atuação firme de instituições de controle pode gerar efeitos estruturais duradouros.

*Engenheiro, Mestre em Administração, foi Superintendente de Transportes do Governo da Bahia e membro do Conselho de Infraestrutura da FIEB (2002 a 2013),

sábado, 25 de outubro de 2025

O Barato que saiu muito Caro


Osvaldo Campos Magalhaes*

Retornando de Lençóis nessa sexta feira constatei o deplorável estado de conservação da BR 324. O principal acesso terrestre a Salvador se encontra em estado lastimável.

A via que liga Feira de Santana a Salvador, se não registrava engarrafamentos, apresentava inúmeros buracos e crateras, incrementados certamente pelo expressivo volume de chuvas dos últimos dias.

Enquanto isso, na pista que liga Salvador a Feira de Santana, registrei quatro imensos engarrafamentos, alguns provocados por acidentes nas pistas e outros pelo excessivo volume de tráfego na rodovia. A condição do pavimento certamente pouco se diferenciava da pista que tinha como destino Salvador.

Quando foram concessionados em 2009, os trechos rodoviários das BR 324, entre Salvador e Feira de Santana, e da BR 116, entre Feira e Cândido Sales, a expectativa entre os setores produtivos e usuários era muito grande, face ao grande volume de tráfego e pela importância do corredor rodoviário para a Bahia e todo Nordeste.

Contudo, uma modelagem mal feita do Edital, e, a interferência indevida da então Ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, priorizou a menor tarifa de pedágio a ser cobrada em detrimento da capacidade técnica das empresas e dos investimentos a serem realizados.

Essa decisão, afastou todas as grandes empresas nacionais do setor rodoviário e possibilitou que uma empresa espanhola, a Isolux, vencesse o leilão de privatização, mesmo sem ter qualquer experiência no setor rodoviário brasileiro.

O resultado dessa sucessão de erros vem prejudicando a economia da Bahia, que já sofria com a desativação da hidrovia do rio São Francisco e da quase completa paralisação do sistema ferroviário de cargas.

O maior absurdo é constatarmos que projetos mal elaborados como do Porto Sul, da FIOL, que deveria ter como ponto final a Baía de Todos os Santos, e, finalmente, o  equivocado projeto da ponte Salvador - Itaparica, colocado como prioritário, sem uma discussão mais ampla com a sociedade, e, antes que sejam equacionados os gargalos já mencionados. Certamente, na forma que está sendo direcionado o projeto da ponte, estará criando graves problemas para o trânsito de Salvador e imensuráveis questões urbanas e sociais em Itaparica.

Ao contrário da concessão das BRs 324 e BR 116, os valores a serem investidos na construção da ponte serão exorbitantes e as consequências nefastas do projeto serão incomensuráveis. 

*Engenheiro, Mestre em Administração, foi Superintendente de Transportes do Governo da Bahia e Assessor Especial da FIESP.

sábado, 4 de outubro de 2025

Consuelo Pondé, uma vida dedicada à Bahia


Jaime Nascimento*

A presidente perpétua do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, no dizer do professor Edivaldo Boaventura, seu dileto e fiel amigo por mais de 50 anos, faleceu nesta Cidade do Salvador, ou da Bahia para muitos, na manhã de 14 de maio de 2015. Diria que esperou que se completassem os 121 anos de ininterruptos serviços prestados à Bahia pelo IGHB, para finalmente partir para o outro lado da vida.


Nasceu nesta mesma cidade, a que tanto amou e defendeu, a 19 de janeiro de 1934, terceira dos nove filhos do casal Maria Carolina Montanha Pondé e Edístio Pondé. Graduou-se em Geografia e História pela Universidade da Bahia, tornando-se depois mestre em Ciências Sociais e especialista no estudo da língua Tupi. Foi discípula e sucessora do professor Frederico Edelweiss, a quem substituiu no ensino da língua primeira na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia.

Alternou a carreira de professora e pesquisadora com a de gestora pública em diversos órgãos e entidades, como o Departamento de Antropologia e Etnologia e o Centro de Estudos Baianos da UFBA, onde lutou bravamente pela preservação do seu rico acervo. Diretora da Associação Baiana de Imprensa – ABI; Membro do Conselho Permanente da Mulher Executiva e do Conselho Geral da Associação Comercial da Bahia; Diretora da Casa de Ruy Barbosa da Bahia e Diretora do Arquivo Público da Bahia.

Mas sem a menor sombra de dúvida foi na presidência do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia – IGHB, a mais antiga instituição cultural do estado da Bahia, com 121 anos de funcionamento ininterrupto, desde a sua fundação em 13 de maio de 1894, que a professora Consuelo Pondé de Sena exerceu em total esplendor a sua capacidade de liderança e realização. Foi na Casa da Bahia [IGHB], instituição que frequentou desde a infância, pois para lá era levada por seu pai, que ela pode se dedicar a duas de suas grandes paixões: a História da Bahia, de sua capital, das mulheres e homens que se notabilizaram através dos séculos. E também aos fatos e eventos do processo de Independência do Brasil na Bahia, e suas comemorações no dia Dois de Julho.

Não foi sem muito sofrimento, aborrecimentos e desgaste da própria saúde que a professora Consuelo Pondé se manteve a frente da Casa da Bahia por 19 ininterruptos anos, sendo repetidamente reeleita por cinco mandatos.

Contudo, a sua longa gestão foi a mais frutífera e luzidia de tantas que o IGHB tem vivenciado. Existe um momento anterior e outro posterior à passagem de Consuelo Pondé de Sena a frente dos destinos da Casa da Bahia. Como que a Fênix mitológica, a mais antiga instituição cultural da Bahia renasceu sob o signo da professora Consuelo. Ampliou-se largamente a sua participação na vida cultural baiana e soteropolitana. Congressos, simpósios, seminários, mesas-redondas, palestras, cursos, exposições, publicações, lançamentos de livros. Um sem número de atividades que se tornaram frequentes, e para as quais acorriam o público mais variado, desde os jovens estudantes universitários, a pesquisadores renomados e pessoas interessadas na história.

A cooperação, o diálogo e o estreitamento de relações com instituições afins, se deram em plano local, estadual, regional, nacional e internacional. Assim o comprovam os trabalhos realizados em parceria com o Gabinete Português de Leitura da Bahia e com o próprio Consulado Geral de Portugal na Bahia.  Com o Museu AfroBrasil de São Paulo; com a Casa da Áustria na Bahia; com diversos Institutos Históricos de todo o país – notadamente o Instituto Histórico Brasileiro e o Instituto Histórico de Sergipe. De igual maneira foi ampliado de forma consistente e qualificada o quadro de sócios brasileiros e estrangeiros.

O patrimônio material mereceu especial atenção, o verdadeiro Palácio em que se constitui a sede do IGHB foi paulatinamente modernizado. Rampas e corrimões de acesso foram instalados na entrada; elevadores; sanitários no andar superior; copa; alojamento e sanitário para os funcionários; sistema de monitoramento eletrônico; instalação de sistema de informática; contratação de sistema de segurança e vigilância remoto; modernização do sistema de iluminação e de som do auditório Bernardino de Souza. Foi criado o Setor de Geografia, a cargo do professor Guarani Valença de Araripe; o acervo cartográfico e fotográfico foi digitalizado e cadastrado. Bem como o conjunto das “Cadernetas de Campo” do engenheiro Teodoro Sampaio, que teve as suas cinzas transladadas e hoje se encontram em urna funerária no Patheon Pedro Calmon. Todo o acervo mobiliário, juntamente com a pinacoteca, foi identificado, descrito e catalogado. O rico acervo bibliográfico da Biblioteca Ruy Barbosa foi sistematicamente tratado, restaurado e conservado. Os seus mais de 30 mil títulos, foram incluídos em moderno sistema de catalogação digital e disponibilizados na página eletrônica do IGHB na internet. Sendo possível com isso consultá-lo de qualquer parte do mundo. Ao lado disso, publicou-se o Catálogo de Obras Raras, instrumento de grande importância para a preservação das mesmas.

Dona de uma personalidade invulgar, naturalmente marcante. Alternava momentos da mais contagiante alegria, simpatia e desprendimento com outros de absoluta explosão. Baiana sincrética se dizia filha de Yansã Bále, a senhora dos raios, ventos e tempestades, também chamada de Oyá, Bamburucema, Kaiango, Matamba. Se tal afirmação provinha de revelação feita pelo Jogo do Ifá, ou apenas da percepção da evidente semelhança que existia entre as suas características pessoais com as da divindade da religião afro-brasileira, não sei dizer. Contudo, foi por essa razão que a professora criou uma das tradições do seu governo à frente do IGHB – o Caruru de Santa Bárbara, servido todo dia 4 de dezembro no horário do almoço. Ocasião em que ela invariavelmente se trajava de vermelho, cores atribuídas à Santa Católica e também ao Orixá.

Não descuidou de nenhuma das dimensões do legado e do ímpar e riquíssimo acervo do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia – IGHB. Razão pela qual se bateu incansavelmente, através de seus artigos nos jornais e pessoalmente, com políticos e empresários, que esquecidos de suas obrigações para com a sociedade da qual fazem parte, negaram – e negam – o devido e merecido apoio ao IGHB. De alguns desses embates eu fui testemunha e partícipe. Em uma dessas ocasiões, servi como mensageiro de um “cartão de agradecimento”, que ela escrevera de próprio punho, para uma certa vereadora de Salvador, que se dizia defensora das questões ligadas aos afrodescendentes. Mas que de forma grosseira e mal educada não se dignou a responder aos reiterados pedidos de ajuda para a realização de um seminário em memória do primeiro homem negro a se eleger vereador em Salvador, o ilustre filho de Santo Amaro da Purificação Manuel Raimundo Querino, nobre e valoroso por seus próprios méritos.

Foi em sua gestão, e em decorrência da sua paixão pela história da Independência do Brasil na Bahia, que os símbolos maiores do Dois de Julho, o casal de caboclos e seus carros emblemáticos, passaram por minucioso processo de restauro. Conduzido pelo professor José Dirson Argolo da Escola de Belas Artes da UFBA. Também em sua gestão, pela primeira vez, tais emblemas do amor cívico dos baianos deixaram seu local de descanso no Panteon da Lapinha, no ano de 2004, para tomar lugar na exposição Brasileiro, Brasileiros do Museu AfroBrasil, no Pavilhão Manuel da Nóbrega no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Foi ainda por sua permanente luta que a data maior dos brasileiros baianos foi reconhecida como data nacional através de projeto de autoria da deputada Alice Portugal. Contudo um dos seus sonhos, projeto acalentado por muitos anos, ficou sem ser concretizado. A construção do Memorial ao Dois de Julho, a ser edificado em substituição ao Pateon da Lapinha.

*Jaime Nascimento, historiador e sócio do IGHBa 

Consuelo Pondé - Dos anos 1950 a 1952



Consuelo Pondé*
Concluído o curso ginasial no D. Anfrísia, que não havia ainda instalado o colegial, tive, por imposição paterna, matricular-me nas Mercês, porquanto, meu pai não desejava, nem permitia, que eu fosse estudar no Colégio Central, povoado de irrequietos rapazes.Lúcia, minha irmã, não recebia qualquer tipo de censura. Era, sim, um modelo de discrição, bom comportamento e aplicação aos estudos.

Por esse motivo, lá fui eu para um colégio de madres ursulinas, muitas delas francesas ou de língua francesa. Confesso que não me importei com a troca estratégica da minha família. Sabia que, longe dos rapazes, ficaria ao abrigo de mentiras e más interpretações.

O Colégio Nossa Senhora das Mercês desfrutava, então, de grande prestígio educacional e social.

Frequentado pelas moças da alta sociedade, era um espaço privilegiado de acolhimento da grã-finagem da Barra, Graça, Canela e outros bairros mais chiques, dos hoje denominados vips ou socialites.

Claro que morando do outro lado da cidade, sempre em Nazaré e, naquele momento, na Ladeira do Arco, ficasse um pouco “constrangida” em conviver com essas das moradoras das áreas nobres de Salvador.

Talvez, seja interessante informar que, os chiques, consideram os demais, fora do seu circuito, verdadeiros “índios”, forma de discriminar quem não morava por aquelas bandas. Mas, pouco me importei com esse “bulling”. Era muito disposta, topava discussão e não me importava com o desdém das “deslumbradas”.

Tanto isso é verdadeiro que minha fama de desabrida já me acompanhava desde D. Anfrísia. Lembro-me que algumas meninas das Mercês vinham até a minha sala, de primeiro ano colegial, para saber quem eu era. Parece que estou vendo Maria David de Azevedo chegar à porta da sala em que me encontrava e indagar quem era a “maluquinha” Consuelo Montanha Pondé, cuja fama de traquina corria longe. Tenho absoluta certeza de que fiquei muito orgulhosa por ter sido logo destacada, embora não fosse lá de muito estudo. Preferia criar um monte de coisas e repassá-las para as meninas atônitas diante de tantas informações. Era muito grande o poder da minha imaginação e até hoje “driblo” muita gente, contando coisas inverossímeis. O pior é que muita gente acredita.

Mas entre minhas colegas daquele tempo, 1950 a 52, havia algumas brilhantes. No Clássico, a que eu integrava, estava a “estrela maior”, Zilma Gomes Parente, recém chegada de Niterói. Uma inteligência e um preparo raros, que ela jamais economizou para ajudar as companheiras mais fracas. Até hoje, comove-me a sua simplicidade genuína e seu desapego em repartir o que sabe. Para mim, é um paradigma de mulher completa. Educada, gentil, prestimosa, amiga.

No científico, pontuava Sônia de Coni Campos, que saiu do colégio pouco tempo depois para casar-se, garota ainda, com Fernando Wilson Magalhães, com quem teve seis filhos homens, todos vitoriosos. Cumprida sua missão de mãe de família, voltou aos estudos e hoje é psicanalista de sucesso.

Fiz excelentes amigas nas Mercês. Branca Maciel Hortélio, amiga irmã, também não primava pela aplicação. Era muito revoltada por ser aluna do internato, não fazendo boas referências ao que sofreu das freiras. Aurora Sarno, Maria José Peixoto (Zezé), Mona Harfush, Thereza Perazzo, Florentina Silva Santos, Léa Sarno, Therezinha Magalhães Cordeiro, Nadja Cruz Andrade, Mab Gomes Costa, Thereza Parga, Alzira Moreira, Maria José Freire de Carvalho, Wanda Dias e outras tantas que não me recordo no momento, faziam parte de dois cursos distintos, Clássico e Científico, reunidos apenas em determinadas aulas.

Bem, no momento, é o que posso recompor, só puxando pela memória para lembrar outros nomes. *Falecida em 14 de maio de 2015, Consuelo Pondé de Sena, foi professora, historiadora, socióloga, antropóloga, Consuelo Pondé de Sena graduou-se em Geografia e História pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), se especializando, mais tarde, no estudo da língua Tupi. Presidindo o IGHB por 19 anos, a historiadora sempre expressou sua paixão pela história da Bahia e pelo Dois de Julho.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Adeus Itaparica


João Ubaldo Ribeiro*

Como todos os anos, vim a Itaparica, para passar meu aniversário em minha terr, na casa onde nasci. Casa de meu avô, coronel Ubaldo Osório, que fez pouco mais na vida que amar e defender a ilha e seu povo.

De lá para cá, muito se tem perpetrado para destruí-los física ou culturalmente e há nova tentativa em curso. Trata-se da anunciada construção de uma ponte de Salvador para cá. Isso é qualificado, por seus idealizadores, de progresso.

Conheço esse progresso. É o progresso que acabou com o comércio local; que extinguiu os saveiros que faziam cabotagem no Recôncavo; que ao fim dos saveiros juntou o desaparecimento dos marinheiros, dos carpinas, dos fabricantes de velas e toda a economia em torno deles; que vem transformando as cidades brasileiras, inclusive e marcadamente Salvador, em agregados modernosos de condomínios e shoppings acuados pela violência criminosa que se alastra por onde quer que estejamos enfurnados, ilhas das quais só se sai de automóvel, entre avenidas áridas e desertas de gente.

Também conheço os argumentos farisaicos dos proponentes da ponte, ávidos sacerdotes de Mamon, autoungidos como empresários socialmente responsáveis. Na verdade, sabem os menos ingênuos, eles se baseiam em premissas inaceitáveis, tais como uma visão imediatista, materialista e comprometida irrestritamente não só com o capital especulativo, que já está pondo as mangas de fora no Recôncavo, como aquele que investe aqui usando os mesmos padrões aplicados em PagoPago ou na Jamaica. A cultura e a especificidade locais são violentadas e prostituídas e o progresso chega através do abastardamento de toda a verdadeira riqueza das populações assim atingidas.

As estatísticas são outro instrumento desses filibusteiros do progresso que em nosso meio abundam, entre concorrências públicas fajutas, superfaturamentos, jogadas imobiliárias e desvios de verbas. Mas essas estatísticas, mesmo quando fiéis aos dados coligidos, também padecem de pressupostos questionáveis. Trazem à mente o que alguém já disse sobre a estatística, definindo-a como a arte de torturar números até que eles confessem qualquer coisa. E confessarão, é claro, pois Mamon é forte e sempre esteve na crista da onda.

Mas não mostrarão que esse progresso é na verdade uma face de nosso atraso. Atraso que transmutará Itaparica num ponto de autopista, entre resorts, campos de golfe e condomínios de veranistas, uma patética Miami de pobre. E que, em lugar de valorizar o nosso turismo, padroniza-o e esteriliza-o, matando ao mesmo tempo, por economicamente inviável, toda a riqueza de nossa cultura e nossa História. Quem não é atrasado sabe disso.

Para não cometer esse tipo de atentado é que, em Paris, por exemplo, não se permite a abertura de shoppings onde isso possa ferir o comércio de rua tradicional. Tampouco, em Veneza, as gôndolas foram substituídas por modernas lanchas. Num país não submetido a esse estupro socioeconômico e cultural, os saveiros seriam subsidiados, as antigas profissões, o artesanato e o pequeno comércio também. Exercendo a vocação turística de toda a região, teríamos razão em nos mostrar com tanto orgulho quanto um europeu se mostra a nós. Mas nosso destino parece ser acentuar infinitamente a visão que enxerga em nós um país de drinques imitando jardins, danças primitivas, pouca roupa e nativas fáceis.

Adeus, Itaparica do meu coração, adeus, raízes que restarão somente num muro despencado ou outro, no gorgeio aflito de um sabiá sobrevivente, no adro de alguma igrejinha venerável por milagre preservada, na fala, daqui a pouco perdida, de meus conterrâneos da contracosta. Sei em que conta me terão os que querem a ponte e não têm como dizer que só estão mesmo é a fim de grana, venha ela de onde vier e como vier. Conheço os polissílabos altissonantes que empregam, sei da sintaxe americanalhada em que suas exposições são redigidas e provavelmente pensadas, como convém a bons colonizados, já ouvi todos os verbos terminados em “izar” com que julgam dar autoridade a seu discurso.

É bem possível que a ponte seja mesmo construída, mas, pelo menos, não traio meu velho avô.

* Jornalista, escritor, foi membro da Academia Brasileira de Letras

* Artigo publicado no jornal A Tarde, em 22 de janeiro de 2010