A política contemporânea apresenta um fenômeno que merece atenção: lideranças que conquistaram enorme popularidade no passado podem, com o passar do tempo, transformar-se em obstáculos à renovação de seus próprios partidos. Quando a força eleitoral de um projeto político fica excessivamente dependente de uma única personalidade, a ausência de sucessores preparados pode comprometer sua continuidade e favorecer adversários que se apresentam como representantes de uma ruptura. Os casos dos Estados Unidos e do Brasil oferecem elementos importantes para compreender esse processo.
Nos Estados Unidos, o presidente Joe Biden decidiu disputar a reeleição em 2024, apesar das preocupações públicas com sua idade, da queda de sua popularidade e das dúvidas sobre sua capacidade de conduzir uma nova campanha presidencial. Sua desistência ocorreu somente em julho daquele ano, após um desempenho desastroso no debate contra Donald Trump. Embora tenha apoiado a vice-presidente Kamala Harris como candidata democrata, a substituição aconteceu a poucos meses da eleição, reduzindo o tempo disponível para uma transição política mais ampla e para a consolidação de uma candidatura independente da imagem do governo.
A derrota de Harris para Trump, em novembro de 2024, evidenciou os limites dessa estratégia. A candidata herdou os desafios enfrentados pela administração Biden, especialmente o descontentamento de parte do eleitorado com o custo de vida e a imigração. Além disso, teve pouco tempo para construir uma identidade política própria e convencer os eleitores de que representava uma alternativa capaz de responder às suas insatisfações. Analistas apontaram a decisão tardia de Biden de abandonar a disputa como um dos fatores que prejudicaram os democratas, embora a derrota também tenha resultado de questões econômicas, sociais e eleitorais mais amplas. (The Associated Press)
O episódio revelou uma fragilidade na organização do Partido Democrata: a dificuldade de promover uma sucessão presidencial planejada, com tempo suficiente para debater propostas, testar lideranças e estabelecer uma conexão renovada com a sociedade. Biden não deixou de apoiar uma sucessora; o problema foi que a transição ocorreu tarde demais para que ela pudesse desenvolver plenamente uma candidatura própria.
Donald Trump, por sua vez, beneficiou-se do descontentamento com o governo democrata e da capacidade de se apresentar como alternativa ao sistema político tradicional. Seu discurso populista, nacionalista e fortemente polarizador encontrou receptividade entre eleitores insatisfeitos com a economia, a imigração e os rumos culturais do país. Assim, a vitória republicana não pode ser explicada apenas pelos erros de Biden, mas a dificuldade democrata de administrar a sucessão contribuiu para o contexto em que Trump retornou à Casa Branca.
O Brasil diante de um dilema semelhante
No Brasil, a trajetória política de Luiz Inácio Lula da Silva apresenta algumas semelhanças com o caso americano, embora existam diferenças importantes entre os dois países. Lula construiu uma liderança histórica, associada à defesa dos trabalhadores, à redução da pobreza e à ampliação das políticas sociais. Sua capacidade de mobilização eleitoral continua sendo um dos principais ativos do campo progressista. Entretanto, essa centralidade também levanta uma questão: até que ponto a esquerda brasileira conseguiu preparar novas lideranças capazes de preservar sua base social e disputar a Presidência sem depender diretamente de Lula?
Aos 80 anos, Lula concorre à reeleição em 2026. Sua candidatura ocorre em um cenário de polarização persistente e de fortalecimento da extrema direita. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Lula e Flávio Bolsonaro foram os dois candidatos mais votados e avançaram para o segundo turno, marcado para 25 de outubro. O resultado demonstra que a disputa brasileira continua aberta e que a direita ligada ao bolsonarismo conserva uma capacidade expressiva de mobilização eleitoral. (Justiça Eleitoral)
A comparação com os Estados Unidos não significa que Lula e Biden tenham trajetórias, governos ou posições políticas equivalentes. Ambos, contudo, enfrentam uma questão comum às democracias contemporâneas: o risco de que a permanência de lideranças históricas dificulte a renovação partidária.
No caso brasileiro, Lula permanece como a principal referência eleitoral da esquerda e do centro-esquerda. Essa condição ajuda a manter diferentes setores unidos em torno de uma candidatura comum, mas também pode adiar a formação de uma liderança com força própria. A ausência de um sucessor amplamente reconhecido cria incertezas sobre o futuro do Partido dos Trabalhadores e sobre a capacidade de preservar a unidade de uma coalizão progressista.
Uma análise publicada pela Reuters em julho de 2026 destacou justamente essa contradição: Lula conseguiu reunir importantes forças de centro-esquerda em torno de sua candidatura, mas a união também evidencia a dificuldade de encontrar uma figura capaz de sucedê-lo. Nomes como Fernando Haddad e Camilo Santana aparecem nas discussões sobre o futuro do campo progressista, embora nenhum tenha alcançado a mesma projeção nacional de Lula. (UOL Notícias)
O problema, portanto, não está simplesmente na idade de um presidente. A experiência política pode representar uma vantagem, e a idade, isoladamente, não determina a capacidade de governar. A questão central é a falta de uma estratégia de renovação que permita a um partido preparar alternativas competitivas sem depender exclusivamente de seu principal líder.
O avanço da extrema direita e o desgaste das forças tradicionais
Brasil e Estados Unidos também compartilham outro elemento: o crescimento de movimentos políticos que exploram a insatisfação com as instituições, a insegurança econômica, a polarização cultural e a desconfiança em relação às elites dirigentes.
Trump e o bolsonarismo possuem diferenças próprias, mas apresentam pontos de aproximação. Ambos se apoiam em discursos de forte apelo nacionalista, na oposição ao que identificam como uma elite política e cultural dominante e na mobilização de eleitores que se sentem pouco representados pelos partidos tradicionais. As redes sociais desempenham papel relevante nesse processo, permitindo a circulação de mensagens diretas, a construção de comunidades políticas e a amplificação de conflitos.
Esse avanço não pode ser atribuído exclusivamente à falta de renovação da esquerda ou dos democratas. Há fatores econômicos, religiosos, culturais e regionais que ajudam a explicar a expansão da extrema direita. Nos Estados Unidos, a inflação percebida pelas famílias e a imigração foram temas importantes na eleição de 2024. No Brasil, a disputa envolve também valores religiosos, segurança pública, avaliação dos governos e diferentes interpretações sobre o papel do Estado na economia e na sociedade. A extrema direita reúne grupos heterogêneos, e nem todos os seus eleitores compartilham as mesmas motivações.
Ainda assim, quando os partidos governistas não conseguem renovar seus quadros, comunicar resultados e oferecer respostas convincentes às preocupações cotidianas, abrem espaço para adversários que prometem mudanças profundas. Em momentos de insatisfação, a experiência acumulada de um líder pode deixar de ser percebida como uma virtude e passar a ser associada à continuidade de problemas que o eleitor deseja superar.
A eleição americana de 2024 ilustra como uma transição tardia pode limitar as alternativas de um partido. A disputa brasileira de 2026, por sua vez, coloca em evidência a necessidade de pensar a sucessão política para além de uma eleição específica. Em ambos os casos, a renovação não deveria ser improvisada às vésperas do voto, mas construída ao longo dos anos, com formação de quadros, debates programáticos e participação de novas gerações.
O futuro depende da capacidade de renovação
A principal lição desses dois cenários é que a força de um partido não pode depender indefinidamente da popularidade ou do prestígio de uma única pessoa. Lideranças históricas podem ser fundamentais para construir movimentos políticos, mas a continuidade de seus projetos exige instituições partidárias capazes de preparar sucessores, renovar ideias e dialogar com as transformações da sociedade.
Para a centro esquerda brasileira, o desafio é construir uma alternativa que preserve conquistas sociais sem se limitar à defesa do legado de Lula. Isso significa formar novas lideranças, apresentar propostas para problemas contemporâneos e compreender as razões pelas quais parcelas do eleitorado se aproximam da extrema direita. Para os democratas americanos, a experiência de 2024 também demonstrou a importância de uma sucessão planejada e da capacidade de distinguir a identidade do partido da imagem de seu presidente.
Não se pode afirmar que a insistência de um líder na reeleição conduza necessariamente à vitória de seu adversário. Tampouco é possível reduzir o crescimento da direita a um único erro estratégico. As eleições são influenciadas por múltiplos fatores, e o eleitorado não é um bloco uniforme. Entretanto, a falta de renovação pode aumentar a vulnerabilidade de partidos que, mesmo contando com realizações relevantes, perdem a capacidade de representar as expectativas de parcelas da população.
O risco para a democracia não está apenas na derrota de um partido, algo normal em qualquer sistema eleitoral competitivo. Está também na incapacidade das organizações políticas de se renovar, acolher novas demandas e oferecer alternativas consistentes à sociedade. Quando a sucessão é adiada repetidamente, o debate público tende a ficar preso à disputa entre personalidades, em detrimento da discussão sobre projetos nacionais.
Brasil e Estados Unidos vivem realidades diferentes, mas suas experiências recentes apontam para uma reflexão comum: nenhuma liderança, por mais importante que tenha sido, pode substituir indefinidamente a construção de um futuro político coletivo. A renovação não é apenas uma questão de idade. É uma questão de estratégia, representatividade e responsabilidade institucional.
A história demonstra que partidos que não preparam o amanhã podem acabar surpreendidos pelo presente. E, quando a renovação deixa de ser conduzida de maneira planejada, seus adversários podem ocupar o espaço aberto pela falta de alternativas. Mais do que insistir na permanência de seus líderes históricos, as forças políticas precisam demonstrar que são capazes de produzir novas ideias, novas lideranças e novas respostas para uma sociedade em transformação. A extrema direita populista ameaça a própria democracia, podendo produzir uma convulsão social , com a possibilidade da implantação ao totalitarismo.
*Osvaldo Campos Magalhães é engenheiro e mestre em Administração
**ChatGPT é criação da empresa OpenAI, fundada em dezembro de 2015 por Sam Altman




