Paloma Amado*
A minha decisão de não fazer absolutamente nada neste fim de semana, apenas curar minha boca da cirurgia de implante, não implicava em não escrever uma crônica. Ela já estava toda pensada, mas não consegui a concentração suficiente. Mesmo com antibiótico e anti-inflamatório, remédio para dor, a cara pulsante, facialmente desarmonizada, me nocauteou. Tinha na cabeça, por ter citado numa entrevista recente, a história de Maria José, já publicada durante a pandemia/governo Bolsonaro. A história em si é cara ao meu coração, falar da corja bolsonarista é pertinente no dia de hoje, sem mudar uma vírgula do que escrevi em 2021. Vamos à Maria José, que a boca está doendo e são 5 horas da manhã.
“Em meados dos anos 50, bateu na porta de nosso apartamento da Rodolfo Dantas, em Copacabana (sim, naqueles idos, as pessoas entravam nos prédios livremente), uma mulher de idade incerta — diria que jovem, porém muito acabada pelas agruras da vida — pedindo emprego. Vinha de Caruaru em Pernambuco, passava fome, precisava trabalhar. Perguntada por referências, entendeu que significava saber se roubava, encheu-se de brios e respondeu:
— Quer saber se eu roubo, não é? Pois digo à senhora, com muito orgulho, que na minha família nunca teve um ladrão. Assassinos muitos, mas ladrão nenhum.
Foi contratada imediatamente, foi a alegria da casa dançando e cantando, enquanto varria. Me ensinou passos de forró, que eu nunca esqueci. Ficou por mais de ano, quando… Bem, deixo o resto para o final.
Tenho lembrado muito de Maria José quando ouço, leio, vejo Bolsonaro, seus asseclas e admiradores empedernidos dizendo que tudo pode, menos a corrupção (roubo, entendamos). Lembro a maneira como o senador Jorginho reagiu, no dia 16 passado, quando lhe disseram:
— O senhor está apoiando um governo que é fascista e que se demonstrou antidemocrático.
— Mas de mãos limpas..,
Nem de mãos limpas são, ficou claro pela CPI, e já era óbvio antes, bastava ver os processos contra os filhos numerados, as raspadinhas, a mansão milionária sendo comprada por quem ganha muito bem, mas não para isso, testemunha fugindo, sendo escondida por advogado, o passado de todos, até da avó da mulher… (Acrescentaria hoje, 2026, o roubo do roubo dos aposentados brasileiros, cento e muitos milhões de reais do Banco Master...) Pensando nos assassinos da família de Maria José, no interior de Pernambuco, vejo os matadores de aluguel, para quem matar é forma de ganhar a vida (não estou de acordo que seja forma lícita), que matam por alguns merréis, mas não tiram dos mandantes a culpa pelos assassinatos. Quem matou Marielle? O Sargento Ronnie Lessa? Sim, foi ele. Sozinho? Quem o mandante? A que nível da milícia que comanda o país estava o verdadeiro assassino? Espero que a verdade um dia venha à tona. Assassinos muitos… Temos vivido um genocídio no Brasil, e seus autores enchem a boca para rebater, com o argumento: Mas não somos corruptos. São sim, são corruptos. Roubam dos pobres, roubam do nosso meio-ambiente, desflorestam o país, roubam as terras dos índios, aproveitam-se de uma pandemia para encher os bolsos, enquanto riem com escárnio de milhões de pessoas, que morreram ou tiveram seus parentes mortos. É roubo graúdo a somar-se aos achaques miúdos do dia a dia. O drama que nós vivemos (não digo tragédia, pois acredito ainda que vá ter um fim o despautério) não passa desapercebido do povo. Leio na mídia posts eloquentes, um diz: “Eu achava que roubar dinheiro da merenda fosse a maior excrescência possível de um agente público. Mas roubar dinheiro de vacina durante uma pandemia criou uma nova categoria de horror.” ( Eu somo a isso roubar milhões de aposentados.) Associar o roubo ao assassinato é prática miliciana, quem não sabe disso? Não há novidade na dobradinha. A magnitude desta escala é que é nova. Roubar matando mais de quinhentas mil pessoas! Que nome daríamos a esta categoria de horror? Nada me ocorre, a não ser desabafar dizendo todos os insultos e nomes feios que conheço: canalhas, escrotos, desgraçados, pulhas, espécie de ectoplasma careca, pedaços de bosta, estrupícios de merda, abomináveis incapazes do Planalto, pústulas, repugnantes, odiosos… Só não direi “filhos da puta”.
Maria José deixou de trabalhar em nossa casa porque escolheu o serviço noturno. Me explico: andava dormindo pelos cantos, já não limpava bem, nem dançava, nem arrumava. Mamãe ficou sabendo, pelo porteiro, que estava fazendo a vida na Avenida Atlântica, o chamado trottoir. Saía todas as noites e voltava ao amanhecer. Meus pais a chamaram, disseram que a dupla jornada estava atrapalhando o serviço, que se ela estava precisando de dinheiro, poderiam aumentar um pouco o salário e até emprestar algum para resolver uma situação imediata. Ela deveria escolher entre os serviços diurno e noturno para não perder sua saúde. Ela preferiu ser puta. Direito dela, o corpo era dela, talvez achasse menos cansativo e até mais divertido.
Não sei se Maria José foi estuprada na infância (estupro é coisa que também passa por esta corja que está aí, machistas cruéis), nem se teve filhos. Se os tivesse, certamente herdariam sua bondade, sua sinceridade e a sabedoria de quem sofreu na vida. Não seriam amorais como estes monstros que governam nosso país. Maria José não merece que os chame de filhos da puta.”
Peço a meu padrinho Carybé que faça por mim o gesto correto para esses candidatos – a todos os cargos, não só à presidência da República – que tentam trazer de volta o fascismo para o nosso governo.
Bom domingo a todos. Vou ali tomar minha dipirona e tentar dormir de novo.




