terça-feira, 2 de junho de 2026

Fernando Wilson Magalhães, uma vida na política


Fernando Wilson Araújo Magalhães

Consuelo Pondé*

Fernando Wilson Araújo Magalhães, filho do pecuarista e comerciante Joaquim Sant’Ana Magalhães e da professora Almerinda Araújo Magalhães, nasceu na cidade baiana de Conceição de Almeida a 23 de setembro de 1924. 

Cursou o primário na cidade vizinha de Castro Alves, fez o ginásio e secundário no Colégio Maristas e bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais na Universidade Federal da Bahia – UFBa em 1949, ano em que a formatura da turma de Direito fez parte das solenidades que marcaram a inauguração do Fórum Rui Barbosa no ano do centenário deste. 

O orador da turma foi seu amigo e futuro aliado político Francisco Waldir Pires de Souza. Entre seus colegas, também estavam a artista plástica Jurema Penna e Paulo SPINOLA e os políticos Aloísio Short, Euclides José Teixeira Neto e Clériston Andrade. Casou-se com a psicóloga Sônia Maria Coni Campos Magalhães na cidade de Castro Alves a 17 de janeiro de 1952. Seu sogro era o médico Osvaldo Caldas Campos, também natural de Conceição de Almeida e duas vezes prefeito de Castro Alves.  Tiveram seis filhos: Luiz Fernando, Carlos Geraldo, Osvaldo, Fernando Wilson Filho, Paulo Rogério e Marcelo. 

Foi levado à política pela família, influenciado principalmente pelo pai – “um político do interior” – e pelo sogro. Depois de se formar em Direito no final de 1949 atuou como promotor público por um ano nas comarcas baianas de Morro do Chapéu e Caculé. 

Na primeira metade da década de 50 trabalhou com o pai no comércio de fumo e na fazenda. Ingressou no Partido Social Democrático – PSD e elegeu-se prefeito de Castro Alves (1956-1958). Findo seu mandato, foi eleito deputado estadual em duas legislaturas pelo mesmo partido (1959-1967). Na Assembléia Legislativa da Bahia, integrou as comissões de Agricultura e de Finanças. 

Em 1962, participou da campanha de seu amigo Waldir Pires contra Lomanto Júnior, o candidato da UDN para o governo da Bahia. Apesar de sofrer o veto da Igreja Católica, por não admitir que um dos seus fiéis aceitasse o apoio do Partido Comunista, Waldir perdeu as eleições por apenas 3% dos votos. 

Fernando Wilson tornou-se deputado federal pela primeira vez em 1966, cumprindo quatro mandatos entre 1967 e 1983, os três primeiros pela Aliança Renovadora Nacional – Arena – o partido oficial do regime militar instaurado em 1964 – e no último pelo Partido Democrático Social – PDS (o nome adotado pela Arena em 1979). Integrou as comissões de Agricultura e Política Rural (1975), de Economia (1975), de Finanças (1971 e 1975) e da Bacia do São Francisco (suplente em 1971 e membro em 1975). Foi suplente da comissão de Relações Exteriores (1971, 1975, 1979-1981). Também participou da CPI que investigou as causas de elevadas taxas de juros no Sistema Financeiro Nacional em 1980. Atuou como delegado às reuniões interparlamentares realizadas na República dos Camarões (1972) e na China (1981). 

Na Bahia, era presidente do Diretório Regional da Arena. Renunciou o mandato na legislatura de 1975-1979 em 31 de março de 1977 para assumir a prefeitura de Salvador durante o governo Roberto Santos, sendo o sucessor de Jorge Hage nesse cargo. Joir da Silva Martins Brasileiro (1926-2006) assumiu sua vaga na Câmara dos Deputados entre 1977 e 1979. Na área de infra-estrutura, a principal realização de sua prefeitura foi a conclusão de duas artérias urbanas: a Avenida Juracy Magalhães Júnior e a Avenida Mário Leal Ferreira, mais conhecida como Bonocô. Na esfera cultural, a prefeitura de Fernando Wilson realizou um estudo detalhado do antigo Departamento de Cultura, considerado obsoleto, e criou o Departamento de Assuntos Culturais, dirigido por Maria Rosita Salgado Góes. Parte integrante da reestruturação da Secretaria Municipal de Educação, a estrutura deste departamento foi “apoiado no pensamento da Política Nacional do Ministério da Educação e Cultura”. 

Realizou uma série de atividades desenvolvidas em três áreas principais – Cultura e Arte, Folclore e Patrimônio Artístico –, lançou prêmios e livros, firmou convênios, montou exposições e peças de teatro e valorizou a cultura popular baiana (GÓES). Findo seu mandato na prefeitura, Fernando Wilson voltou à Câmara dos Deputados em 1980.  Foi admitido na Ordem de Ipiranga com o grau de Grande Oficial  pelo Decreto Nº 16.529, de 22 de janeiro de 1981. Deixou a vida política em 1983 e passou a dedicar-se à fazenda herdada do pai. 

Além dos seis filhos deixou 3 netas, 7 netos e duas bisnetas,

Fernando Wilson Araújo Magalhães faleceu aos 87 anos de idade, no dia 28 de julho de 2013

* Consuelo Pondé foi Historiadora, Geógrafa e Antropóloga 

domingo, 24 de maio de 2026

Crônica de domingo, 24 de maio de 2026: Relembrando Maria José mais uma vez

Paloma Amado*

A minha decisão de não fazer absolutamente nada neste fim de semana, apenas curar minha boca da cirurgia de implante, não implicava em não escrever uma crônica. Ela já estava toda pensada, mas não consegui a concentração suficiente. Mesmo com antibiótico e anti-inflamatório, remédio para dor, a cara pulsante, facialmente desarmonizada, me nocauteou. Tinha na cabeça, por ter citado numa entrevista recente, a história de Maria José, já publicada durante a pandemia/governo Bolsonaro. A história em si é cara ao meu coração, falar da corja bolsonarista é pertinente no dia de hoje, sem mudar uma vírgula do que escrevi em 2021. Vamos à Maria José, que a boca está doendo e são 5 horas da manhã.

“Em meados dos anos 50, bateu na porta de nosso apartamento da Rodolfo Dantas, em Copacabana (sim, naqueles idos, as pessoas entravam nos prédios livremente), uma mulher de idade incerta — diria que jovem, porém muito acabada pelas agruras da vida — pedindo emprego. Vinha de Caruaru em Pernambuco, passava fome, precisava trabalhar. Perguntada por referências, entendeu que significava saber se roubava, encheu-se de brios e respondeu:

— Quer saber se eu roubo, não é? Pois digo à senhora, com muito orgulho, que na minha família nunca teve um ladrão. Assassinos muitos, mas ladrão nenhum.

Foi contratada imediatamente, foi a alegria da casa dançando e cantando, enquanto varria. Me ensinou passos de forró, que eu nunca esqueci. Ficou por mais de ano, quando… Bem, deixo o resto para o final.

Tenho lembrado muito de Maria José quando ouço, leio, vejo Bolsonaro, seus asseclas e admiradores empedernidos dizendo que tudo pode, menos a corrupção (roubo, entendamos). Lembro a maneira como o senador Jorginho reagiu, no dia 16 passado, quando lhe disseram:

— O senhor está apoiando um governo que é fascista e que se demonstrou antidemocrático.

— Mas de mãos limpas..,

Nem de mãos limpas são, ficou claro pela CPI, e já era óbvio antes, bastava ver os processos contra os filhos numerados, as raspadinhas, a mansão milionária sendo comprada por quem ganha muito bem, mas não para isso, testemunha fugindo, sendo escondida por advogado, o passado de todos, até da avó da mulher… (Acrescentaria hoje, 2026, o roubo do roubo dos aposentados brasileiros, cento e muitos milhões de reais do Banco Master...) Pensando nos assassinos da família de Maria José, no interior de Pernambuco, vejo os matadores de aluguel, para quem matar é forma de ganhar a vida (não estou de acordo que seja forma lícita), que matam por alguns merréis, mas não tiram dos mandantes a culpa pelos assassinatos. Quem matou Marielle? O Sargento Ronnie Lessa? Sim, foi ele. Sozinho? Quem o mandante? A que nível da milícia que comanda o país estava o verdadeiro assassino? Espero que a verdade um dia venha à tona.  Assassinos muitos… Temos vivido um genocídio no Brasil, e seus autores enchem a boca para rebater, com o argumento: Mas não somos corruptos. São sim, são corruptos. Roubam dos pobres, roubam do nosso meio-ambiente, desflorestam o país, roubam as terras dos índios, aproveitam-se de uma pandemia para encher os bolsos, enquanto riem com escárnio de milhões de pessoas, que morreram ou tiveram seus parentes mortos. É roubo graúdo a somar-se aos achaques miúdos do dia a dia. O drama que nós vivemos (não digo tragédia, pois acredito ainda que vá ter um fim o despautério) não passa desapercebido do povo.  Leio na mídia posts eloquentes, um diz: “Eu achava que roubar dinheiro da merenda fosse a maior excrescência possível de um agente público. Mas roubar dinheiro de vacina durante uma pandemia criou uma nova categoria de horror.” ( Eu somo a isso roubar milhões de aposentados.) Associar o roubo ao assassinato é prática miliciana, quem não sabe disso? Não há novidade na dobradinha. A magnitude desta escala é que é nova. Roubar matando mais de quinhentas mil pessoas! Que nome daríamos a esta categoria de horror? Nada me ocorre, a não ser desabafar dizendo todos os insultos e nomes feios que conheço: canalhas, escrotos, desgraçados, pulhas, espécie de ectoplasma careca, pedaços de bosta, estrupícios de merda, abomináveis incapazes do Planalto, pústulas, repugnantes, odiosos… Só não direi “filhos da puta”.

Maria José deixou de trabalhar em nossa casa porque escolheu o serviço noturno. Me explico: andava dormindo pelos cantos, já não limpava bem, nem dançava, nem arrumava. Mamãe ficou sabendo, pelo porteiro, que estava fazendo a vida na Avenida Atlântica, o chamado trottoir. Saía todas as noites e voltava ao amanhecer. Meus pais a chamaram, disseram que a dupla jornada estava atrapalhando o serviço, que se ela estava precisando de dinheiro, poderiam aumentar um pouco o salário e até emprestar algum para resolver uma situação imediata. Ela deveria escolher entre os serviços diurno e noturno para não perder sua saúde. Ela preferiu ser puta. Direito dela, o corpo era dela, talvez  achasse menos cansativo e até mais divertido. 

Não sei se Maria José foi estuprada na infância (estupro é coisa que também passa por esta corja que está aí, machistas cruéis), nem se teve filhos. Se os tivesse, certamente herdariam sua bondade, sua sinceridade e a sabedoria de quem sofreu na vida. Não seriam amorais como estes monstros que governam nosso país. Maria José não merece que os chame de filhos da puta.”

Peço a meu padrinho Carybé que faça por mim o gesto correto para esses candidatos – a  todos os cargos, não só à presidência da República – que tentam trazer de volta o fascismo para o nosso governo.

Bom domingo a todos. Vou ali tomar minha dipirona e tentar dormir de novo.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Dom Pedro II no Morro de São Paulo


 

Por Dom PedroII*

4-5-6 de outubro de 1859

O livro Viagem pelo Brasil, que traz o Diário de D. Pedro II no 2º. Reinado, quando ele estava no auge de sua popularidade e jovialidade, 40 anos antes do golpe chamado de Proclamação da República ( ), revela a sua passagem pela Bahia, Sergipe e Alagoas.

Após uma viagem de barco a vapor desde o Rio de Janeiro, quando zarpou no dia 1 de outubro, o vapor chegou á noite no porto ao lado da fortaleza, no dia 4 de outubro. A viagem consumiu portanto 4 dias, algo muito rápido para a época. Novos tempos, marcados por vapores, ferrovias, navios metálicos, expansão do comércio mundial e grandes transformações em todo o mundo, ao longo século dezenove. Vamos ler o que o rei descreveu sobre o Morro de São Paulo, naquela passagem rápida mas profundamente marcante, pela qualidade e intensidade de suas observações:

A chegada de noite – Desci ontem por volta de 21 horas e 15 minutos, porque estive a ler. De noite jogou muito, porém às 7 horas da manhã, fundeamos por detrás do morro do farol de São Paulo. O Feijó (primeiro oficial da secretaria do império) viu o farol ontem de  noite antes do gajeiro. 

Nesta enseada esteve a esquadra brasileira por ocasião da Independência desde depois do combate de quatro de maio até dois de julho de 1823. Um forte, que se vê agora completamente desmantelado, tinha, quando chegou a esquadra brasileira na época da Independência, apenas 27 balas e quatro peças, que se desmantelaram ao salvar a esquadra.  Os carpinteiros desta, desembarcando, consertaram os reparos das quatro peças e o forte ficou fornecido com quatrocentos tiros de balas. Viram, do alto do navio, onde está hoje o farol, a evacuação da Bahia pela esquadra lusitana no dia 2 de julho, e a corveta Niteroi atravessou o baixio para ir á Bahia, escoltada de ambos os lados vinha na desmantelada cortina. 

O farol foi construído na presidência de Gonçalves Martins 016; é de 1a classe bastando apenas uma lanterna, segundo diz o Marques, e sendo mais necessário na Ponta de Itapoã e nos Abrolhos (Ilha de Sta. Bárbara).

8 e 35 – Já ouvi missa e vesti-me para almoçar e daqui ir ver a ilha de Tinharé. O comandante do forte desmantelado, o major reformado Manuel do Carmo Correia Palmeira, baixo e grosso, chegou antes da missa. Soube por ele que a ilha tem cerca de 300 habitantes, que é capela curada, mas sem capelão, e que só pôde obter 6 inválidos para o forte, sendo o não-mutilado sujeito a ataques de ficar horas sem fala e respiração.

Há uma escola de meninos e as meninas aprendem particularmente. Julguei que a bandeira fosse nova; mas o Sr. Palmeira desenganou-me, fazendo-me reparar que a haste dela é uma vara; mais uma sinecura que é preciso acabar. Antes de ir vestir-me para almoçar vi uma embarcação de 3 mastros carregada de piaçaba que vinha de Valença para a Bahia, tinha a proa à semelhança da das gôndolas.

Acabado o almoço fui ver a ilha do morro de S. Paulo, que parecia não conhecerem aqui (pois que o ignora Palmeira) por ilha de Tinharé, como vejo nos mapas. Receberam-me com muito regozijo e cordialidade e os foguetes do costume, principalmente na Bahia. Subi por um caminho ruim até a Igreja, que é sofrível, para a localidade, com a invocação de N. S. da Luz, havendo irmandade desta Senhora, que também o é do Sacramento, acompanhando-me alguns irmãos de opa encarnada e tochas na mão. Orei por um pouco na Igreja 017, em cuja sacristia há um ex-voto de navegantes e fui depois visitar o farol.

A torre deste tem 74 pés de altura e sobe-se por 74 degraus de pedra e 4 de madeira e depois por dois lanços com 33 degraus de madeira e 1 de pedra até a varanda que rodeia a lanterna de onde se goza de excelente vista, chegando a descobrir-se, segundo dizem, o farol de Sto. Antônio na Bahia, a 10 léguas de distância. Há 9 degraus de ferro dentro da lanterna para chegar ao aparelho do farol, que é do sistema Fresnel, e do fabricante Henry Lepante, Paris. É muito bem-feito, sendo para sentir que alguns dos prismas tenham fendas, ainda que grande parte dessas na direção normal. É intermitente e a revolução de 12 minutos. Consome 124 camadas de azeite por três meses sendo doce, de mamona purificada, ou de coco; serve-se agora de doce, que dá luz pouco clara segundo disseram. Há perto uma casa, que ainda não serve para depósito de azeite e outros pertences do farol; os tanques para o azeite terão, cada um, a capacidade de 216 br3.

O farol foi construído pelo engenheiro Carson, o da fábrica de Valença. Há 5 pessoas no serviço do farol, tendo o  administrador 1.000 réis por dia, outro 800 réis e os mais 3.600 cada um. Queixaram-se de que era pouco pois que fazem todos as conduções da ilha e para ilha do que é preciso para o farol, e a limpeza deste à sua custa.

O subdelegado, que o é desde 1842, homem de 65 anos, mas que não parece, e que diz ter militado a bem da Independência, representou-me contra a falta de pedra na ilha, pois a freguesia é a de Cairu a 9 léguas de distância do mar.

O quartel das praças inválidas, que são 7, e entre as quais há um Manuel Pinheiro, de 84 anos e 60 de praça, está em mísero estado, e ao pé existe o calabouço onde se tem guardado o azeite para o farol e outras coisas, é uma miséria!

Depois fui ver a fortaleza que foi mandada construir pelo vice-rei Vasco César Fernandes de Meneses, como se vê da seguinte inscrição sobre o portão:  

Vasco Fernandes Cézar de Meneses, conde Sabugosa, do conselho de S.S. A.A. de Portugal, alcaide mor do reino, comendador da Ordem de Cristo, fundou esta fortaleza em 1730.

Há peças que ainda se podem aproveitar, e aí achei um fornilho para balas ardentes e instrumentos para seu emprego. O mar já deitou boa porção da muralha abaixo, e minou outra, passando-a de um lado para outro. Na ilha há 300 e tantas famílias, como me disse, da segunda vez, o comandante da fortaleza, que também inspeciona o farol, e mais de 2 mil pessoas segundo o subdelegado.

A escola pública é de meninos e meninas e tem por todos 30 e tantos, segundo me disse o professor. A ilha tem 14 léguas de extensão, conforme aventurou o comandante, não mostrando o mapa de Roussin senão 31, mas nenhuma cultura a não serem poucos pés de laranjeira e bananeira e muitos coqueiros, abundando em formigas e cupim, e jararacas e jararacuçus, segundo me disse o comandante do Amazonas; mas não foi confirmado pelo comandante Palmeira.

O inválido Paulo Pedro Rodrigues da Costa pediu-me para ser transferido para a companhia de inválidos da corte. Consta ter sido um dos melhores cornetas do exército na época da Independência. 

Há na ilha boa tabatinga para caiar, e outra mais dura que chamam solho e serve para o chão. Há de diversas cores tanto de uma como de outra qualidade. Nas praias, na baixa-mar, apanha-se pedra calcária, de que colhi amostra e fazem cal na ilha. Há uma fonte pública de 3 bicas com a seguinte inscrição: 

“O Ilmo. e Exmo. Sr. André de Mello e Castro, Conde das Galveias, vice-rei – cap-gal. de mar-e-terra do gno do Brasil, mandou fazer esta fonte em 1743”. 

A água que me deram para beber era pouco clara mas dizem que é boa, e não me pareceu má no gosto; é verdade que tinha bastante sede e a localidade passa por sadia ainda que a gente não o pareça pela fisionomia.

Fui depois ver o Curral, que é uma parte da enseada cuja entrada se encobre como uma ponta de areia cheia de mato, princípio de um baixio que já formou adiante uma ilha de areia, já coberta de vegetação, e que não existia ainda em 1823. É lugar muito abrigado e com fundo pouco raso, pouco afastado do baixio, e foi aí que estiveram em 1823 os navios da esquadra brasileira, com exceção na nau Pedro I e corveta Maria da Glória, que cruzavam por serem veleiros.

Indo para o curral passamos pela povoação de Gamboa, onde está erigindo uma capela o capitão Sousa Macieira, sendo esse o lugar onde se abrigam os navios costeiros. Aí encontramos um vindo de Valença (cuja matriz se avista ao longe, descobrindo-se grande parte da povoação do alto do morro do farol) com dois mastros, muito perto um do outro, e para o lado da proa, sendo o posterior inclinado para trás e tendo cada um uma vela, visando-se unicamente a do mastro posterior. A proa é semelhante à das gôndolas e mete bastante de popa, dizendo o Marques Lisboa que estes barcos têm belas linhas d’água, agüentando muito bem o vento. Colhi na ilha umas campainhas azul-acinzentado que já estão murchas do bolso, mas levarei assim mesmo. Logo ao chegar à ilha vi um chapéu da moda e depois mais três; até aqui!

9 ¾ – De tarde vieram diversos com requerimentos e, numa representação, pedem que se crie freguesia esta povoação de mais de mil almas, para cumprimento do “Crescite et multiplicamini”.

O farol acendeu-se às 6 horas e disseram-me que sua intermitência é de 5 segundos e mais brilhante em certa distância que perto. Não se vendo a torre, parece, quando menos brilhante, uma segunda lua no céu.

A povoação formou duas linhas de luminárias, com pessoas trazendo fachos. Vieram 3 repolhos monstruosos de presente.

Às 9 ½ chegou o comandante do Itajaí e o ajudante do capitão do porto da Bahia, com programa do desembarque publicado pelo Pena - souberam de nossa chegada ao morro de S. Paulo às 2 da tarde por uma lancha saída de manhã daqui. Os dois oficiais vieram num vapor mercante, parece que por não poder trazê-los o Itajaí e já se retiraram para a Bahia, onde se sabe que o Pirajá chegou 5a. f. Vou agora recolher-me para acordar amanhã antes de suspender o ferro.

No dia seguinte, Dom Pedro descreve no diário:

Dormi muito tranquilo desde perto de meia noite, porque estive lendo outra vez o programa e vendo a planta da cidade da Bahia até antes de 17:15 h. Suspendeu-se ferro ás 6:15 h, e escrevo deitado na baiúca porque joga muito e receio ficar enjoado. O dia está belíssimo e há três dias que venta S.O. sem que tenham vindo em resposta os pirajás. Acabo de regular o meu relógio pela hora da Bahia, são 8 horas e 7 minutos.

9 e 43’ – Avistam-se a Bahia e quatro vapores vindos de lá. Distinguem-se cinco vapores. .

* Pedro II, cognominado "o Magnânimo", foi o segundo e último monarca do Império do Brasil, reinando por 58 anos. Filho mais novo do imperador Pedro I 

segunda-feira, 30 de março de 2026

A grande reforma de Salvador

Paulo Ormindo de Azevedo*

Quando J. J. Seabra assumiu o governo da Bahia, no período de 1912 a 1916, já tinha na verdade equacionado com o apoio da iniciativa privada e grupos financeiros internacionais a transformação da cidade de modo a adequá-la a seu novo papel de exportadora de matérias-primas. Na medida em que as obras do porto e a ampliação da Cidade Baixa entravam em compasso de espera, em consequência da I Grande Guerra, Seabra punha em marcha a parte final de seu plano, aquela não bancado pela iniciativa privada, ou seja, a criação de vias urbanas adequadas aos novos meios de transportes e para facilitar o acesso ao Comércio, renovado e ampliado.

É preciso entender que o traumático, mas necessário, alargamento da Av. Sete, quando foram demolidos alguns monumentos religiosos e harmoniosos conjuntos de casas e sobrados de uma cidade até então intocada, não foi apenas motivado pelo desejo de embelezá-la, senão parte de uma reforma muito mais ampla de infra estruturação territorial e urbana da Bahia que incluía a integração dos sistemas ferroviários e marítimo e a incorporação de 800.000 m² de terrenos ganhos ao mar, no bairro mais dinâmico e acanhado da cidade, a Praia.

Este processo foi deflagrado em 1905, muito antes de Seabra ser governador da Bahia, ainda quando ele era ministro da Justiça e seria desenvolvido mais tarde como ministro da Viação e Obras Públicas (1910-1912). A reforma urbana de Salvador, como as do Rio de Janeiro (1906) e do Recife (1913), visava a inserção do Brasil no mercado internacional, tendo como um dos seus principais protagonistas, Seabra, nos três casos. Embora os trabalhos de melhoramento do porto só tivessem sido concluídos na década de 30, já em 1913 eram inaugurados 360 m de cais e três armazéns para onde passou todo o serviço de carga e descarga de mercadorias.  

O alargamento da Av. Sete foi um projeto do engenheiro e empreiteiro Jerônimo de Alencar Lima, sócio de Simões Filho no jornal A Tarde, aprovado pelo prefeito Júlio Viveiros Brandão em 1912. Seu projeto incluía também a abertura da Av, 2 de Julho, atual Carlos Gomes, que só seria executada mais tarde e a demolição da igreja da Sé. Seabra dispensou os serviços de Alencar e optou por executar a Av, Sete com os Guinle pelo fato deles intermediarem o empréstimo com os bancos europeus. Mas parte do empréstimo foi retida pelos bancos como ressarcimento de débitos de administrações anteriores e os Guinle foram substituídos pela firma Lafayete & Cia no alargamento da Av. Sete, como afirma o jornalista Nelson Varón Cadena.

O projeto de Alencar Lima seria retomado na década de 1930, na administração do prefeito José Americano da Costa, com a abertura da Av. Carlos Gomes e demolição da igreja da Sé. Crime grosseiramente atribuído a Arlindo Fragoso, braço direito de Seabra, que já havia falecido sete anos antes. 

PS – Meus livros ”Histórias urbanas & outros contos” e “Navegação errante” podem ser adquiridos em: www.editoramondrongo.com.br

*Professor Titular da Ufba. Arquiteto e Urbanista