sábado, 9 de janeiro de 2010

A Teoria de Gaia e o futuro da Humanidade

As origens da moderna Teoria de Gaia (nome da antiga deusa grega pré-helênica que simbolizava a Terra viva) se encontram nos primeiros dias do programa espacial da NASA (Capra, 1997, p. 90). Os vôos espaciais que começaram na década de 60 permitiram aos homens modernos perceberem o nosso planeta, visto do espaço exterior, como um todo integrado, um Holos extremamente belo.... Daí as primeiras palavras dos astronautas serem de deslumbramento e emoção, muito longe do linear e frio linguajar técnico-científico presente nas operações de pesquisa e de lançamento dos veículos espaciais. Todos nós lembramos das poéticas palavras de Yuri Gagarin: "A Terra é azul"... Pois bem, esta percepção da Terra em toda a sua poética beleza, foi uma profunda experiência espiritual, como muitos dos primeiros astronautas não se cansaram de dizer, mudando profundamente as suas concepções e seu modo de relacionamento com a Terra. De certa forma, este deslumbre foi o passo inicial do resgate da idéia muito antiga da Terra como um organismo vivo, presente em todos as culturas e em todos os tempos (Capra, obra cit., p. 90; Campbell, 1990; Eliade, 1997).
Posteriormente, a NASA convidaria James Lovelock (foto)
para ajudá-la a projetar instrumentos para a análise da atmosfera e, conseqüentemente, para a detecção de vida em Marte, para onde seria enviada uma sonda Viking.
A pergunta capital para Lovelock, dentro deste contexto, era: "Como podemos estar certos de que o tipo de vida marciano, qualquer que seja ele, se revelará aos testes de vida baseados no tipo de vida terrestre, que é o nosso referencial?". Este questionamento o levou a pensar sobre a natureza da vida e como ela poderia ser reconhecida nas suas várias possibilidades.
A conclusão mais óbvia que Lovelock poderia chegar era a de que todos os seres vivos têm de extrair matéria e energia de seu meio e descartar produtos residuais em troca. Assim, pensando no meio terrestre, Lovelock supôs que a vida em qualquer planeta utilizaria a atmosfera ou, no caso de os haver, os oceanos como o meio fluido para a movimentação de matérias-primas e produtos residuais. Portanto, poder-se-ia ser capaz de, em linhas gerais, detectar-se a possibilidade da existência de vida analisando-se a composição química da atmosfera de um planeta. Assim, se houvesse realmente vida em Marte (por menor que fosse sua chance) a atmosfera marciana teria de revelar algumas combinações de gases características e propícias à vida que poderiam ser detectadas, em princípio, a partir da Terra. Ou, em outras palavras, qualquer planeta, para possibilitar a vida, necessita de um veículo fluido - líquido ou gasoso - para o transporte ou movimentação de componentes orgânicos e inorgânicos necessários à troca de materiais e resíduos resultantes da vida, pelo menos no nível e na dimensão do que se reconhece por vida dentro de nosso atual grau de conhecimento. Este meio fluido deve, portanto, apresentar uma somatória de características básicas.
Estas hipóteses foram confirmadas quando Lovelock e Dian Hitchcock começaram a realizar uma série de análises da atmosfera marciana, utilizando-se de observações feitas na Terra, comparando os resultados com estudos semelhantes feitos na nossa atmosfera. Eles descobriram algumas semelhanças e uma série de diferenças capitais entre as duas atmosferas: Há muito pouco oxigênio em Marte, uma boa parcela é constituída de Dióxido de Carbono e praticamente não há metano na atmosfera do planeta vermelho, ao contrário do que ocorre aqui. Lovelock postulou que a razão para tal retrato da atmosfera de Marte é que, em um planeta sem vida, todas as reações químicas possíveis já ocorreram há muito tempo, seguindo a segunda lei da termodinâmica - a da entropia que já foi exposta acima - e que estabelece que todos os sistemas físico-químicos fechados tendem ao equilíbrio termo-químico, ou de parada total de reações. Ou seja, ao contrário do que ocorre na Terra, há um total equilíbrio químico na atmosfera marciana, não ocorrendo reações químicas consideráveis hoje em dia.
Já na Terra, a situação é totalmente oposta. A atmosfera terrestre contém gases com uma tendência muito forte de reagirem uns com os outros, como o oxigênio e o metano, mas que, mesmo assim, existem em altas proporções, num amálgama de gases afastados do equilíbrio químico. Ou seja, a pesar da contínua reação entre os gases, seus componentes continuam presentes em proporções constantes em nossa atmosfera.Tal estado de coisas deve ser causado pela presença de vida na Terra, já que as plantas (terrestres e aquáticas) produzem constantemente oxigênio, e os outros organismos formam os outros gases, de modo a sempre se repor os gases que sofrem reações químicas. Em outras palavras, Lovelock provou que a atmosfera da Terra é um sistema aberto, afastado do equilíbrio químico, caracterizado por um fluxo constante de matéria e energia, influenciando e sendo influenciada pela vida, em perfeito biofeedback!
Eis as palavras de Lovelock do exato momento de sua descoberta:
"Para mim, a revelação pessoal de Gaia veio subitamente - como um flash ou lampejo de iluminação. Eu estava numa pequena sala do pavimento superior do edifício do Jet Propulsion Laboratory, em Pasadena, na Califórnia. Era outono de 1965, e estava conversando com Dian Hitchcock sobre um artigo que estávamos preparando... Foi nesse momento que, num lampejo, vislumbrei Gaia. Um pensamento assustador veio a mim. A atmosfera da Terra era uma mistura extraordinária e instável de gases, e, não obstante, eu sabia que sua composição se mantinha constante ao longo de períodos de tempo muito longos. Será que a Terra não somente criou a atmosfera, mas também a regula mantendo-a com uma composição constante, num nível que é favorável aos organismos vivos?"
Artigo originalmente publicado no site:http://www.healing-tao.com.br/

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A melhor Lição de Avatar

Jean Wyllys *
O mundo representado em Avatar – novo filme de James Cameron – não está tão além de nossa imaginação como alguns afirmam. Existem povos e pessoas que mantêm, com a natureza, relação semelhante à do povo Na’vi. Os indígenas e os adeptos do candomblé são alguns desses povos e pessoas. Por ignorância ou falta de repertório cultural, a maioria dos milhões de brasileiros que tem ido ao cinema assistir ao filme não consegue fazer tal comparação. Por isso mesmo, é importante que ela seja feita aqui e agora e que seja explorada ao máximo por professores dos ensinos fundamental e médio, sobretudo neste momento delicado em que terreiros de candombé de Salvador vem sendo atacados por criminosos e/ou “demonizados”por cristãos fundamentalistas e por uma mídia igualmente ignorante (aliás, em Avatar, o povo Na’vi é também atacado é vítima de preconceitos e tem seu "terreiro” destruído por armas e ferramentas de guerra). Para os adeptos do candomblé, a natureza é viva e, dela fazemos parte; a ela, estamos conectados profundamente......
Desespero semelhante ao do povo Na'vi diante da derrubada da grande árvore pode ser visto em terreiros cuja gameleira de fundação morre ou tomba. A ialorixá ou babalorixá e seus filhos choram a morte da árvore que representa o tempoi, o tempo do próprio terreiro A cena em que uma na'vi ensina o avatar a sacrificar o animal que servirá de alimento de forma "limpa", quase indolor, representa bem a maneira como animais são sacrificados em rituais de candombé. Ao contrário do que os ignorantes e preconseituosos propagam, não há crueldade em nenhum dos sacrifícios em rituais de candoblé. A razão do ritual é alimentar a família do terreiro, inclusive os pais e as mães ancestrais que estão na orígem de tudo, os Orixás.......
Os modos de vida do povo Na’vi não são frutos da imaginação criativa de James Cameron. O diretor certamente se inspirou em tratados antropológicos sobre povos que tem a natureza como algo sagrado (ver James Lovelock e a Teoria de Gaia); como uma “Grande mãe”; e, entre esses povos estão nossos indígenas (Yanomanis principalmente) e o povo de terreiro.
Assism, os que poluem, desmatam, profanam terreiros ou demonizam os orixás, eu deixo a melhor
lição de Avatar: o que a natureza deseja sempre é manter seu equilíbrio, mesmo que, para tanto seja necessário a extinção do” Homo Sapiens” e toda sua soberba de primata superior.

*Jornalista e escritor
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Não somos meramente uma doença; somos, por meio da nossa inteligência e comunicação, o sistema nervoso do planeta. Através de nós, Gaia se viu do espaço, e começa a descobrir seu lugar no Universo. Nós deveríamos ser o coração e a mente da Terra, não sua moléstia. Então, sejamos corajosos e paremos de pensar somente nos direitos e necessidades da humanidade, e enxerguemos que nós ferimos a Terra e precisamos fazer as pazes com Gaia. Precisamos fazer isso enquanto somos fortes o bastante para negociar, e não uma turba esfacelada liderada por senhores da guerra brutais. Acima de tudo, precisamos lembrar que somos parte dela, e que ela é de fato nosso lar"" James Lovelock. (Folha de SP, Mais!, 22/1/08)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Na Fieb, Pinheiro defende volta da Conder à sua missão original

Osvaldo Campos*
Em reunião na manhã desta quinta-feira no Conselho de Desenvolvimento Empresarial Estatégico da FIEB, presidido por Clovis Torres (foto), o Secretário de Planejamento do Governo da Bahia, Dep. Walter Pinheiro, defendeu o retorno da CONDER à sua missão original, o planejamento urbano e a articulação dos municipios da Região Metropolitana de Salvador.
Segundo Pinheiro, num eventual segundo mandato de Wagner, a Conder deverá estar vinculada à SEPLAN e ficará responsável pelo planejamento do desenvolvimento da Região Metropolitana de Salvador. Questões estratégicas para a economia de Salvador, Lauro de Freitas, Camaçarí, Simões Filho e toda ilha de Itaparica , como o sistema de transporte de massa e a futura ponte Salvador - Itaparica estão a exigir uma atenção especial por parte do Governo Estadual e uma articulação entre os diversos municípios que compôem a RMS.
O Secretário Walter Pinheiro anunciou que foi entregue pelo Governador Jaques Wagner ao presidente Lula, a PMI – Proposta de Manifestação de Interesse para construção da ponte Ponte Salvador – Itaparica. A futura ponte deverá ser incluída na segunda etapa do Programa de Aceleração de Crescimento do Governo Federal - PAC-2 e fortalecerá o vetor de integração do Oeste – Leste, articulando a RMS com a BR 242, em direção a Castro Alves, Seabra, Barreiras , Luis Eduardo e o estado do Tocantins.
Confirmou também a assinatura de acordo de cooperação entre o Governo da Bahia e a empresa sueca SAB/Grippen, a ser assinado em fevereiro, que deverá significar ganhos para a Bahia, no que diz respeito ao desenvolvimento do Parque Tecnológico. Instalação de unidade industrial do grupo poderá se concretizar caso o Governo Federal se decida pela compra dos aviões de combate do grupo empresarial sueco.
* Engenheiro e Mestre em Administração, Osvaldo Campos é membro dos Conselhos de Desenvolvimento Empresarial Estratégico e de Infra-estrutura da Fieb. É também o editor deste Blog

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Salvador de Outrora e Atual

AGENOR GORDILHO SIMÕES*
A Salvador de hoje é, em tudo e por tudo, completamente diferente da bela, romântica e aprazível cidade que tive a grata felicidade de conhecer no alvorecer da adolescência e dos anos que se seguiram sem o medo e o sobressalto próprios de uma quase metrópole mal estruturada e planejada para os tempos atuais.
Muito embora forçado a admitir como muitos, sem dúvida alguma admitem, que a mudança é sinal dos tempos, dado que nada permanece estático neste mundo segundo a ordem natural das coisas, persisto, sem entretanto querer me contrapor à modernidade nem sempre benfazeja, e prefiro não apenas filosofar, mas viver de minhas lembranças e saudades da Salvador de outrora, não apenas por mero ou puro saudosismo, mas, sobretudo, tangido pela memória imorredoura de ter a sorte de viver numa bela e majestosa época desta cidade.
Justamente por isso, é que podíamos desfrutar da plena liberdade de circular livremente pela pacata cidade sem os temores e o pânico que se apoderaram das pessoas, em decorrência da avassaladora onda de assaltos e todo tipo de violência que passou a preponderar no momento atual.
Daí não se constituir qualquer exagero pensar deste modo, e para tanto basta ver as notícias diárias transmitidas pela mídia falada e escrita com relatos de casos de assaltos, roubos e atropelamentos, até mesmo em cima das calçadas e praças com vítimas fatais que ocorrem a toda hora, deixando o soteropolitano aterrorizado com a perspectiva de que poderá ser a próxima vítima, pois a ninguém é dado se considerar imune à sanha assassina que se apoderou de nossas vidas.
Lembro-me perfeitamente que a nossa única preocupação era com o retorno para casa após as andanças noturnas pelas ruas do centro da cidade, desde que a partir de meia-noite não existia mais transporte e se perdêssemos o horário, teríamos que voltar a pé, o que costumeiramente fazíamos sem qualquer preocupação e até mesmo com o prazer da caminhada madrugada a dentro, mesmo porque nada nos importunava, a não ser o cansaço do trajeto percorrido, abrangendo o percurso correspondente, por exemplo: do centro da cidade ao bairro da Barra, no meu caso especial, considerando-se que os pontos de diversão se situavam numa área que se estendia da Rua Chile até a Praça da Sé, onde estavam localizados o Tabaris e o Rumba Dancing e outras casas de diversão noturna.
Tudo isto, portanto, que muitas vezes se constituía até mesmo motivo de farra e de brincadeira, já hoje, nem se poderia cogitar em fazê-lo, a não ser correndo o grande risco de perder a vida antes de alcançar a casa, tal a onda de violência que graça nesta cidade.
Daí não se cometer qualquer exagero em afirmar que a vida era tão sossegada nessa ocasião que os moradores podiam se dar ao luxo de se reunir em frente das suas casas, acomodados em cadeiras de lona em animados bate-papos que varavam a madrugada, como era rotina acontecer defronte da casa de moradores da Avenida Oceania sem que nada de mal ocorresse nesses animados serões de amigos e moradores vizinhos.
Já na atualidade, tal prática prazerosa, além de se mostrar praticamente inviável, poder-se-ia se constituir no risco de vida para as pessoas que quisessem adotá-la, mercê de estarem sujeitas a assaltos, bala perdida e até atropelamento, como soe acontecer em várias bairros da cidade, a exemplo do mais recente caso de atropelamento fatal de três membros de uma família catarinense que foram colhidos por um carro em alta velocidade, cujo motorista se evadiu sem prestar qualquer tipo de socorro às vítimas agonizantes, esfacelando desta forma o interesse de viver dos membros sobreviventes.
Caso fossemos relatar os números de mortes decorrentes de assaltos, atropelamentos e o mais variegado tipo de violência e pedofilia, esgotaríamos várias laudas de papel ante a assombrosa e macabra estatística, daí nos deter em apenas se reportar a esse trágico acidente em que sobraram apenas pai, filha e um menino de nove anos em estado grave no hospital, conforme noticiado neste jornal [A Tarde], edição do dia 18 de dezembro do corrente ano.
Aliás, a Barra era um bairro estritamente familiar, vez que a maioria dos moradores era constituída por famílias tradicionais que se conheciam e mantinham entre si um saudável e amistoso tratamento e cujos membros mais jovens, livres das drogas e violência, podiam desfrutar de um ambiente salutar em todos os sentidos.
Basta dizer que quase não se dava conta da existência do carnaval, não fosse pelo pequeno número de foliões mascarados que desfilavam pelas ruas e cujas festas momescas, que no início se concentravam mais no centro da cidade e também em clubes sociais, livres, portanto, do insuportável ensurdecedor desfile de bandas e trios elétricos responsáveis diretos por todo o desassossego vivido por seus moradores. Destarte não bastasse o tormento oriundo das drogas e violência provocadas pelos excessos cometidos.
Apesar dos pesares, acreditamos firmemente que dias melhores ainda virão, desde que haja um combate sistemático e implacável ao tráfico de drogas, à corrupção, os piores males que afligem a sociedade brasileira na atualidade, e que com o banimento, sobretudo da corrupção, surja neste horizonte tenebroso uma réstia de luz de esperança capaz de ensejar melhor aplicação das verbas públicas e assim propiciar uma melhor condição de vida aos moradores desta acolhedora cidade e primeira capital do país.
* Advogado e procurador do Estado

Metrô. Parceria Estado e Empresa?

Osvaldo Campos Magalhães*
Mais um ano se finda e continua a novela do Metrô de Salvador. Depois de várias alterações no projeto, depois de seguidos aditivos de valor e prazo e despendidos quase R$ 700 milhões, nenhuma perspectiva concreta para o equacionamento da grave questão do transporte público de passageiros em Salvador.A novidade é que temos de acompanhar as notícias, não mais nas páginas de economia ou nos cadernos da cidade dos jornais, mas sim, nas páginas policiais.
Notícia veiculada no jornal O Estado de São Paulo, (
http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,mpf-pede-investigacao-de-14-obras-da-camargo-correa,483180,0.htm ) inclui a obra do Metrô de Salvador, na operação da Polícia Federal - Castelo de Areia.
Uma das empresas integrantes do Consórcio do Metrô de Salvador está sendo acusada de corrupção ativa. Um dos indícios apontados está relacionado às constantes alterações ocorridas no projeto do Metrô de Salvador, que acarretaram na mudança dos valores contratuais e das especificações técnicas. Se mantido o cronograma inicial da obra, já estaria sendo concluído o trecho Estação da Lapa - Estação Cajazeiras e iniciada a segunda linha Estação Calçada - Estação Mussurunga.
As seguidas paralisações da obra do Metrô de Salvador, por conta da falta de recursos orçamentários e por interveniência do Tribunal de Contas da União – TCU demonstra a existência de brechas na legislação (Lei 8.666) que permitiu o início das obras do metrô sem que os recursos orçamentários estivessem totalmente assegurados e também, alterações do projeto no decurso da execução da obra. Ambos os fatores contribuíram para os atrasos verificados no cronograma da obra.
Com o crescimento do mercado imobiliário e a falta de planejamento urbano da Região Metropolitana de Salvador (RMS), a questão do transporte público de passageiros se apresenta como um dos maiores desafios para o futuro das cidades integrantes da RMS. A questão da viabilização do Metrô torna-se então estratégica para o crescimento econômico de Salvador e das cidades do seu entorno.
Talvez uma saída para o impasse seja a adoção da modalidade de concessão pública PPP - Parceria Público Privada. Originada da Grã Bretanha, esta modalidade de licitação transfere para o ente privado toda a responsabilidade pelo projeto, construção e exploração dos serviços públicos concedidos, cabendo ao poder público, a regulação, o estabelecimento do preço final a ser cobrado dos usuários e a garantia da viabilidade da implantação do empreendimento mediante a criação de um Fundo Garantidor.
Na Grã Bretanha, foi criado o Partnership UK, órgão público responsável por gerenciar as PPP´s. Desde o Governo Tony Blair, mais de 40 bilhões de libras já foram investidos em projetos de infra-estrutura mediante a utilização da modalidade de concessão PPP.
Com a escolha de Londres para sediar os Jogos Olímpicos de 2012, a Prefeitura de Londres e o governo inglês optaram por ampliar através de uma PPP, o sistema de transporte público, Docksland Light Railway – DLR, ligando a futura Vila Olímpica ao Metrô de Londres. O sistema que utiliza a modalidade VLT – Veículo Leve sobre Trilhos já está em operação, sendo gerenciado pela SERCO, empresa que ganhou a concorrência pública da PPP.
No caso de Salvador, com a escolha da cidade para sediar jogos da Copa do Mundo de 2014, a implantação do sistema de transporte público de passageiros, ligando o Aeroporto Internacional à futura Arena Fonte Nova ( compromisso com a FIFA), poderia utilizar a modalidade PPP, com o Fundo Garantidor sendo viabilizado através do pedagiamento urbano da Avenida Paralela, onde transitam atualmente cerca de 80 mil veículos dias.
Os exemplos de Buenos Aires, Londres, Estocolmo e Singapura apontam para o Pedágio Urbano como uma saída inteligente, melhorando a qualidade dos serviços públicos de transportes destas cidades.
Com o módico pedágio de R$ 2 /dias para viabilizar o Fundo Garantidor da PPP, a ligação Lauro de Freitas – Aeroporto – Rótula do Abacaxi poderia ser viabilizada em menos de três anos, utilizando-se a modalidade VLT, semelhante à opção londrina. O arcabouço legal já existe, vide a implantação do Emissário Submarino de Salvador. Falta a vontade política.
Com a palavra os gestores públicos municipais de Salvador e Lauro de Freitas, e o Governo do Estado da Bahia.
Artigo publicado originalmente no jornal A Tarde, edição de 03/01/2010
* Osvaldo Campos Magalhães, é editor do Blog - " Pensando Salvador do Futuro"
Engenheiro Civil e Mestre em Administração é membro dos Conselhos de Infra-estrutura e Desenvolvimento Empresarial Estratégico da FIEB
, coordena o NELT - Núcleo de Estudos em Logística e Transportes

domingo, 3 de janeiro de 2010

COP XIV - Mobilizar com sonhos, não com pesadelos

FERNANDO GABEIRA*
Uma forma otimista de ver a Conferência de Copenhague é acreditar que a humanidade não se coloca um problema que não consiga resolver. Mesmo que saia daí um acordo frágil, ainda haverá a chance de um tratado adiante, em 2010. Os parâmetros da decisão são os argumentos contidos no relatório de 2007 do IPCC. Eles pedem uma redução de emissões, num certo espaço de tempo. Se não forem atendidos, significa que o tempo ficará mais curto.
Mas o IPCC continuará produzindo relatórios e a maneira como o planeta reage acabará sendo também um argumento de peso, forçando a um ritmo mais veloz de adptação às mudanças climáticas.
Como relator do Protocolo de Kyoto na Câmara, eu tinha noção de suas grandes limitações, mesmo sem contar a ausência dos Estados Unidos e outros países. Mas era o que era possível conseguir naquele momento.
No campo nacional, foi dado um enorme passo ao se adotarem metas. O Brasil surpreendeu positivamente. Falta agora um plano adequado de redução das emissões, uma clareza sobre as fontes de financiamento. Nossa meta de redução será alcançada com facilidade com a redução do desmatamento, que representa, ao lado do uso da terra, a maior fonte de emissões do país, 52 por cento. Isto não significa que não haja mais o que fazer, mas meio caminho andado, como lembrou Carlos Minc, em Copenhague.
Com o fim de Copenhague recomeça o trabalho de formiguinha em todos os setores que se movem para uma sociedade de baixo carbono. Copenhague, onde há tantas bicicletas e tanto apreço pela energia eólica foi uma boa escolha.
Desde o principio, falei que era um pouco imprecisa a divisão norte-sul. Se no sul estavam os pobres, a China era um deles. Países como o Brasil, China e Índia precisam determinar suas reduções. A ajuda deve se destinar para aqueles países que sequer emitem, do tipo Etiópia, Somália, Haiti.
Muito do dinheiro flui hoje para quem tem projetos. Países como o Haiti não têm dinheiro para pagar projetos. O balanço do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo mostra que os países mais beneficiados, nos US$126 bilhões investidos foram exatamente China, Índia e Brasil, pela ordem.
O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo deve continuar. E virá também o REED (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação) com grande potencial de ajuda para a Amazônia. O Brasil tem tudo para sair-se bem, não no sentido de protagonismo, mas pode trabalhar em três linhas: pedir aos países mais avançados o máximo de proximidade nas reduções propostas pelo IPCC, articular a ajuda às florestas, e lutar para que os pobres sejam contemplados pelo Fundo, especialmente ilhas que podem desaparecer e os africanos.
A melhor tática para encarar o futuro não é enfatizar o apocalipse, mas mostrar os benefícios de fazer algo agora, das mudanças positivas que estão em curso. Um pouco como li no livro de Anthony Giddens sobre política ambiental: Martin Luther King mobilizou porque teve um sonho e não um pesadelo.
* Fernando Gabeira é Deputado Federal - PV(RJ)

sábado, 2 de janeiro de 2010

MPF pede investigação da obra do Metrô de Salvador

"Quem semia ventos , colhe tempestades"
GUSTAVO URIBE - Agencia Estado
O Ministério Público Federal em São Paulo (MPF-SP) encaminhou no final de dezembro, a nove Procuradorias, com sedes em outros Estados, pedidos de investigação de 14 obras cujas licitações foram vencidas pela construtora Camargo Corrêa. O MPF-SP alega que encontrou indícios de formação de conluio entre a construtora e outras empresas da área para fraudar processos de licitação e superfaturar obras.Entre as construções que serão investigadas pelas Procuradorias, estão a ampliação da calha do Rio Tietê, em São Paulo, a construção dos metrôs de Salvador (BA) e Fortaleza (CE), a ampliação dos metrôs de Brasília (DF) e do Rio de Janeiro (RJ) e a construção do atracadouro de navios em Alcântara, no Maranhão.
Os ofícios enviados pelo MPF-SP às Procuradorias acompanham laudos de exames das obras pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), realizados devido às investigações da Polícia Federal na Operação Castelo de Areia, que apurou suposto esquema de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e doações não declaradas a partidos políticos com a participação de executivos da construtora.
Algumas das obras incluídas nesses novos pedidos de investigação renderam no dia 7 de dezembro a expedição de representações a 18 autoridades estaduais para que apurem suspeita de crimes financeiros, atos de improbidade administrativa e eventuais ilícitos eleitorais. De acordo com o MPF-SP, as obras sob suspeita são mencionadas em planilhas e outros documentos apreendidos pela Polícia Federal, em maio deste ano, na construtora e com os diretores da empresa. Ao lado dos nomes das obras da Camargo Corrêa existem indicações de supostos beneficiados, entre eles parlamentares, secretários municipais e prefeitos, que teriam recebido pagamentos em dólares e em reais da construtora para financiar campanhas políticas próprias e de familiares.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Crise Urbana em Salvador e RMS - Desconstrução do setor público na Bahia?

PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*
O que iguala um operário e um empresário em dia de chuva em Salvador? A incerteza da hora que vai chegar à casa, o medo de um assalto no engarrafamento e a esperança de não encontrar o fogão ou o BMW flutuando na garagem. Esta perda de qualidade de vida é o retrato da desconstrução do setor público na Bahia. O “estado mínimo” acabou se transformando em “estado zero”.
Com raras exceções não existem mais corpos técnicos na prefeitura e no estado capazes de formular políticas públicas, redigir termos de referência e programas de obras ou avaliar os presentes de grego das empreiteiras. Os técnicos se aposentaram ou foram demitidos para serem substituídos por gestores partidários. Os poucos que restam são marginalizados.
Por esta razão, não temos políticas de estado, nem memória institucional, só ações circunstanciais, de curto prazo, eleitoreiras. O vácuo e a desarticulação são os mesmos na economia, infraestrutura, habitação, educação e saúde.
Enquanto o Rio e São Paulo debatem estratégias de desenvolvimento e capacitam seus gestores em fundações como Getúlio Vargas e Casa de Ruy Barbosa; Minas o faz na Fundação João Pinheiro e Pernambuco na Joaquim Nabuco, nós não possuímos centros de pensamento nem capacitação. Criou-se entre os nossos políticos a ideia de que o saber e a técnica só atrapalham, que progresso se conquista com concreto e ferro e o resto é blá-blá-blá.
A medida do desapreço dos nossos dirigentes pelo saber se mede pelo fato de só atrairmos duas universidades federais para a Bahia, enquanto Minas Gerais tem nove.
Mas já tivemos políticos mais sensíveis. Salvador teve, no início da década de 1940, o Epucs (Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade do Salvador), equivalente do Ippuc de Curitiba, que colocou aquela cidade como referência mundial em gestão urbana. Foram as avenidas de vale do Epucs que catapultaram ACM ao governo do Estado, mas poucos se lembram.
Na mesma época, possuíamos um centro de referência de engenharia, o Derba, hoje reduzido a pó. No início da década de 60, tivemos a CPE (Comissão de Planejamento Econômico), de Rômulo Almeida, responsável pelos únicos projetos públicos de industrialização da Bahia, o CIA e o Copec. De lá para cá nada. O ISP-Ufba trabalha hoje mais para outros estados, empresas privadas e municípios que para o governo da Bahia.
“Sem projetos,os governos estadual e municipal são meras instâncias reativas (…) O resultado é um passivo de custosas obras desarticuladas”
Sem planejamento nem projetos, os governos estadual e municipal não têm mando, são meras instâncias reativas, homologadoras de projetos do empresariado, num ritual que passa pela adoção de projetos carimbados, doação de terreno e infraestrutura, financiamento e isenções fiscais, sem nenhuma discussão com a sociedade ou avaliação do custo/benefício.
O resultado disto é um passivo de custosas obras desarticuladas, sem sustentabilidade, ou paralisadas, como o CAB, Aeroclube, VLT (veículo leve sobre trilhos), Metrô Rótula do Abacaxi, shopping Pelourinho, Via Náutica e viadutos que não levam a nada.
Se a gestão da Bahia e a de Salvador estão mal é consequência de uma crise maior. Nosso quadro político atual é formado pelos netos de interventores de Vargas e da ditadura de 64, por emergentes religiosos e sindicais, todos sem projetos, que se odeiam mutuamente, mas estão atados entre si pelas teias do poder.
Por falta de entendimento e planejamento não temos uma economia forte, não atraímos investimentos, não potencializamos a RMS (Região Metropolitana de Salvador) ou reduzimos a obesidade mórbida de Salvador.
O sintoma mais eloquente dessa doença é a incapacidade do estado e da prefeitura de elaborarem um projeto urbano para 2014 e transformarem a recuperação de um estádio em uma trapalhada local, nacional e mundial.
Não é, portanto, surpresa que o IBGE constate que Salvador tem o penúltimo PIB (Produto Interno Bruto) per capita do País, perdendo apenas para a pequenina Teresina. Por falta de uma política metropolitana, municípios riquíssimos, como São Francisco do Conde, primeiro no ranking nacional de PIBs, não têm nada e Candeias é um favelão. E que um cidadão capixaba tenha seis vezes mais renda que um baiano.
Neste ano novo, desejo ao povo baiano que eleja um governo que desprivatize e restaure o setor público, para que possamos voltar a ter um rumo e crescer.
Artigo originalmente publicado no jornal A Tarde, em 27/12/2009
*Paulo Ormindo de Azevedo – Professor da Ufba, é presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) – Departamento da Bahia

sábado, 26 de dezembro de 2009

Depois de 10 anos e R$ 1 bilhão a pergunta : E o Metrô de Salvador?

Mais um ano se finda e continua a novela do Metrô de Salvador. Depois de várias alterações no projeto, depois de seguidos aditivos de valor e prazo e despendidos quase R$ 1 (um) bilhão, nenhuma perspectiva concreta para o equacionamento da grave questão do transporte público de passageiros em Salvador.
A novidade é que temos de acompanhar as notícias, não mais nas páginas de economia ou nos cadernos da cidade dos jornais, mas sim, nas páginas policiais.
Notícia veiculada no jornal O Estado de São Paulo,(http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,mpf-pede-investigacao-de-14-obras-da-camargo-correa,483180,0.htm ) inclui a obra do Metrô de Salvador, na operação da Polícia Federal - Castelo de Areia. Uma das integrantes do Consórcio do Metrô de Salvador está sendo acusada de corrupção ativa. Um dos indícios apontados está relacionado às alterações ocorridas no projeto do Metrô de Salvador, principalmente na alteração que resultou na elevação de custo da obra no trecho Fonte Nova - Estação Rótula do Abacaxí por conta da mudança radical do projeto.
No cronograma inicial da obra, já estaria concluído o trecho Estação da Lapa - Estação Cajazeiras e iniciada a segunda linha Estação Calçada - Estação Mussurunga.
Com a palavra os gestores públicos, o Ministério Público Federal e a Sociedade Civil Organizada.
E por falar em Sociedade Civil, depois da reunião realizada na Reitoria da UFBa em maio, que daria início à organização, inspirada no Movimento Nossa São Paulo, nenhuma notícia do Movimento Nossa Salvador. Omissão também é cumplicidade.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Carta a Diógenes Rebouças

de HELIODORIO SAMPAIO*
Sem buscar o sucesso efêmero, mestres, como Diógenes Rebouças, se cercaram de atitudes firmes e discretas no ato do “saber fazer” coisas do ofício. As raras entrevistas, a ausência nas colunas sociais, a fuga ao sucesso fugaz, às comendas e atos correlatos atestam o modo de vida quase monástico, deste arquiteto-urbanista pioneiro do modernismo baiano.
Para Diógenes, a boa arquitetura tem capacidade de absorver mudanças no tempo. Repetia:
– Papel pintado se rasga e joga fora, se faz outro desenho; mas a obra não, ela estará lá sempre a espiar os nossos equívocos.
Três ideias-força circunscrevem a obra de Diógenes: a implantação no sítio geográfico; concepção generosa dos espaços de convívio – públicos ou semipúblicos; e estética austera, vincada numa espacialidade fiel à concepção estrutural.
Escola Parque, Hotel da Bahia, Fonte Nova, Politécnica, Faculdade de Arquitetura, antiga Rodoviária, avenidas Contorno e Centenário, casas, igrejas etc. contemplam suas ideias-força.
Em carta imaginária inédita, de 6.12.2007, tentamos mostrar o espírito guia da nossa cinquentenária escola, no que ela tem de melhor: a disposição para defender a cidade do desastre em curso; que atinge em cheio as obras do EPUCS, de Diógenes Rebouças e vários outros modernistas.
(Seguem trechos da carta):
“Mestre,
Faz tempo que nos falamos, desculpe o silêncio. Ando perplexo com velhas ideias que voltam a circular na nossa Salvador, mostrando o descuido com o sítio geográfico e a história do modernismo baiano no século XX, no qual o senhor foi um protagonista maior, exemplar. (…)
Na esteira de uma modernização caolha continuam a raspar do território as sobras da arquitetura e urbanismo do século passado. Persiste o equívoco de que “memória urbana” diz respeito apenas aos espaços do século XVIII para trás, em guetos turísticos. Seu livro e quadros certamente adornam prateleiras da mesma elite que destroça os vestígios da Salvador antiga. Só a arte de um Diógenes – o pintor e aquarelista – possibilita, ao lado de Munlock, Ferrez, Verger e outros artistas sensíveis, aferir os estragos causados pelo Urbanismo Demolidor que transpõe o século passado e nos alcança em cheio. (…)
Sua obra, ao lado de outros grandes arquitetos baianos, encontra nas picaretas o golpe que derruba edifícios, mas pouco alcança o silêncio de parte da mídia, conivente, cooptada. Tudo converge para os desígnios da cidade-mercadoria, espetaculosa, anunciando um futuro estarrecedor para a cidade herdada do EPUCS. (…)
Neste viés urbanístico, ideologicamente “progressista”, esquecem das experiências recentes desastradas, pelas consequências provocadas na decadência do Centro Histórico, e dos vazios no entorno da Paralela. Continua em curso a ênfase na centralidade da Paralela, congestionada, alimentando um processo que desde o século passado se revela desastrado. As eleições apontaram mudanças, outros quadros assumiram o poder político-administrativo – substituindo um ciclo esgotado –, mas o discurso urbanístico continua muito igual. A frase emblemática na placa no CAB: “Aqui se constrói o futuro sem destruir o passado”, continua firme na Paralela. Mas a qual passado se refere? Se o Centro Histórico continua problemático, cidade alta e baixa aos pedaços. Subúrbio e miolo, nem se fala. (…)
No seu livro, a tensão entre o velho e o novo retoma Augusto de Campos:
eu defenderei até a morte o
novo por causa do antigo e até a
vida o antigo por causa do novo.
o antigo que foi novo é
tão novo como o mais novo.
(…)
Mestre, até mais ver.”
A relação dialética entre o novo e o velho é essencial às cidades históricas. Já disse o poeta maior: “O valor das coisas não está no tempo em que duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”
Diógenes Rebouças é ímpar e também o par; indissociável desta cidade. Se o projeto demolidor ainda é papel, deve ser mudado. Como pedem Faufba, IAB, Crea, Conselho de Cultura, e nós cidadãos.
*Heliodorio Sampaio – Arquiteto, professor da Universidade Federal da Bahia

domingo, 13 de dezembro de 2009

DIMITRI GANZELEVITCH: “É PORQUE GOSTO DA BAHIA QUE FAÇO CRÍTICAS”

de CAROLINA MENDONÇA
Criado por uma família que sempre valorizou o livro e a cultura, o francês nascido no Marrocos Dimitri Ganzelevitch (foto) 73, escolheu a arte como forma de vida. Aos 5 anos, desejava ter um museu. Aos 14, passou a colecionar peças. Estudou em escolas de arte de Marrocos, Lisboa, Paris e Londres e chegou a vender peças da sua obra como pintor, mas seu olhar crítico fez com que ele abandonasse os pinceis e passasse para o outro lado do negócio, tornando-se marchand. Desde 1975, quando se mudou para a Bahia, vem apostando no trabalho de novos talentos e na valorização da cultura popular. O fundador da Associação Viva Salvador, que desenvolve ações de educação para a arte, teve seu acervo particular reconhecido pelo Ministério da Cultura, o que transformou sua residência na Casa Museu Solar Santo Antônio. Duro nas críticas às políticas públicas culturais praticadas no Estado, acredita que Salvador está perdendo sua identidade.
Um dos motivos da sua vinda à Bahia foi a música de Dorival Caymmi?
Com certeza. Quando eu morava em Portugal, tínhamos, em casa, muitos discos de música popular brasileira. Tinha Noel Rosa, Orlando Silva, Dick Farney e Dorival Caymmi, que me encantava. Quando ouvia Maracangalha, eu viajava! Um dia, um tio me convidou para conhecer o Carnaval do Rio, vim imediatamente. No Rio, eu tinha uma carta de apresentação para o escritor Orígenes Lessa. Ele me convidou para vir com ele à Bahia, para o casamento do filho de Jorge Amado. Entrei pela porta certa, não é? Fui recebido pelo Jorge, Carybé nos levou no Axé Opô Afonjá, Ildásio Tavares nos apresentou a Lagoa do Abaeté. Era maravilhosa. Fazíamos buracos na areia para colocar velas, havia sempre alguém com um violão, uma delícia. Claro que havia furtos, assaltos, mas era seguro, não se sabia o que era matar, como hoje. Tudo isso criou uma imagem de encantamento. Voltei várias vezes até que vim para ficar de vez.
Como marchand, o senhor sempre teve interesse pela cultura popular?
Sempre tive um olhar eclético. Morei em vários lugares diferentes e me familiarizei com muitas culturas. Diria que tenho um pé no acadêmico, um no contemporâneo e outro nas imagens do inconsciente. E gosto de apostar no novo. Dei um empurrão a artistas brasileiros que, depois tiveram reconhecimento. Tive a primeira galeria do Pelourinho. Quando dizia que morava no Centro Histórico, me olhavam como se eu fosse louco.
Esse interesse está também nos concursos que organizou para premiar os melhores carrinhos de café e barracas de festa de largo?
Quando a Lídice da Mata acabou com as barracas das festas de largo, sofri muito. Conheci as barracas quando tive uma loja no Mercado Modelo e fiquei maravilhado. Depois de um ou dois anos participando da festa da Nossa Senhora da Conceição, percebi que alguns barraqueiros já estavam colocando anúncios de refrigerantes, isso me deixou em alerta. Com medo de que aquilo desaparecesse, organizei, junto com Goya Lopes, Murilo e outros amigos, um concurso para a valorização da cultura das festas de largo. Premiávamos os bancos, fachadas, a comida, a higienização, eram várias categorias. Durou alguns anos até que o patrocinador, o dono de uma marca de tintas, faleceu. Pouco depois, assistimos à substituição das barracas por estruturas de metal, lona e plástico. Foi trágico, um erro total de leitura. O Instituto do Patrimônio Histórico e artístico (Iphan) chegou a fazer uma lei para proteger aquele patrimônio imaterial, mas já era tarde. Defendo, no entanto, que é possível recuperar essa cultura.
Barraca de Festa de Largo - 1986 - Foto:Adenor Godim
Salvador vem perdendo sua identidade?
Muitíssimo. Estão derrubando todas as construções históricas, estão depredando a cidade. Tudo está virando espigão. Aquilo que fizeram atrás da casa dos cardeais é um assassinato estético! Agora querem descaracterizar a Praça Cayru. Não se tem um projeto de desenvolvimento. Tudo depende da exploração imobiliária.
É considerado crítico?
Venho de uma cultura onde a crítica faz parte das discussões. Aqui, com a herança escravagista, uma república mais ou menos democrática e, depois, a Ditadura Militar, se perdeu o direito de criticar. Por isso, escrevo minhas crônicas, protesto. É justamente porque gosto da Bahia que faço críticas. Estou escrevendo sobre o abandono do Santo Antônio Além do Carmo, que está ameaçada por essa mocinha, a Luciana Rique, que está abocanhando parte do bairro. E as famílias que moravam naquelas casas? Vai ser a mesma burrice que se fez no Pelourinho
.
Entrevista publicada originalmente no jornal A Tarde

JUVENÁ LAMENTA O FIM DA CRIATIVIDADE NAS FESTAS DE LARGO

EMANUELLA SOMBRA
Veterano das festas de largo, o baiano Juvenal Silva Souza,(foto) 66 anos, o Juvená, é enfático: a Conceição da Praia acabou. Da época em que montar barracas para a festa significava ficar até uma semana dormindo ao ‘relento’ sobre engradados de cerveja e tomando banho de bica, ele não hesita:
– Essa série de intervenções padronizaram demais. Festa popular é festa popular.
Juvená passou 13 anos montando barracas de bebida nas festas da Conceição da Praia, Itapuã, Ribeira, Pituba e Rio Vermelho.
– Tenho uma saudade absoluta. Geralmente eu armava barraca dia 28 de novembro na Conceição, todo mundo ia pra lá e já fazia a festa antecipada. O dia 8 era uma festa grande, mas a gente já tava até satisfeito – lembra.
Há uma década o homem de barba branca não pisa o pé na Conceição. Prefere ficar em Itapuã, onde tem barraca de praia e residência.
– A festa que a gente costumava armar era mais criativa, a gente fazia e encomendava os “tamburetes”, a pintura dava uma conotação de arte. Era rústica mas era mais humana. Depois começaram a padronizar…
– A gente se entrosava, conversava, bebia, fazia samba-de-roda (o samba duro como chamam no Recôncavo baiano). Terminava a Conceição e a gente ia para a Boa Viagem antecipadamente. Era uma festa popular de fato. Era isso que era bom – diz Juvená que hoje prefere ver estas festas pela televisão.
Publicado originalmente no jornal A Tarde

sábado, 12 de dezembro de 2009

A Ponte para Itaparica e a Expansão da Região Metropolitana de Salvador

Já está em mãos do governador Jaques Wagner, desde o dia 26 de janeiro de 2009, um documento assinado pelo engenheiro Manuel Ribeiro Filho, diretor da Construtora OAS para a Bahia, Sergipe e Alagoas, solicitando autorização formal para efetuar, por sua conta e risco, os estudos necessários para a viabilização de um projeto que ligará a BR-324 até o ponto final da BR-242, na Ponte do Funil, que será duplicada juntamente com o trecho até Itaparica.
O sistema será criado a partir da Via Expressa Baía de Todos os Santos (novo Km 0 da BR-242) e que alcançará, pelo mar, a Ilha de Itaparica, daí prosseguindo pelo continente. A ponte é só rodoviária em todos seus 12km, com 8 pistas, das quais 2 exclusivas para cargas, um vão central estaiado de 560 m e 90m de altura, mais 2 outros estaiados adjacentes de 285 m. O custo estimado em R$ 2,5 bilhões prevê desembolsos de R$ 600 milhões anuais, cabendo40% ao setor privado (R$250 milhões), R$ 300 milhões ao governo federal e R$ 100 milhões ao governo estadual. Também poderá ser desenvolvida uma combinação de modalidades de concessão que envolveria a construção, operação e manutenção do sistema.
Segundo Manuel Ribeiro,(foto) a Ilha de Itaparica ganhará um Plano Diretor Único capaz de coibir sua degradação e a especulação fundiária, com a criação e implantação de núcleos urbanos planejados, diversificados, infra estruturados, integrados ao meio ambiente, absorvendo, de forma estruturada, parte da demanda habitacional da RMS. Torna-se, assim, um novo raio de expansão e turismo, beneficiando a mobilidade urbana e o planejamento de Salvador, que terá seu ritmo de ocupação reduzido e direcionado para áreas que deverão ser, a partir da implantação deste Vetor Oeste, recuperadas, renovadas e revitalizadas, a exemplo do Comércio e Península Itapagipana.
Adianta Ribeiro, que os impactos do projeto não ficarão restritos à RMS, sendo sentidos também no Baixo Sul (rumo a Itacaré-Ilhéus) com a redução das distâncias rodoviárias e ajudando a integrar a economia do Recôncavo e da RMS com a nova economia que surgirá com o Porto Sul e a Ferrovia Oeste Leste. Permitirá o acesso direto das BRs 101, 116 e 242 aos portos de Salvador, Aratu e PóloNaval sem interferir na capital baiana.
Coloca importância no escoamento de toda a produção do Oeste da Bahia por estas vias, alterando, significativamente, o Plano Nacional de Viação que terá o Km 0 da BR-242 no Porto de Salvador. Manuel Ribeiro garante ter a OAS conhecimento técnico e de gestão comprovadamente suficiente para desenvolver planos e empreender, isoladamente ou em consórcio, obras e intervenções previstas nos projetos de engenharia, transportes, mobilidade e desenvolvimento urbanos.
Para isto, contará com a assessoria técnica de profissionais especializados na área de urbanismo, desenvolvimento urbano e cálculo estrutural, destacando-se o arquiteto e urbanista Ivan Smarcevscki (concepção geral do Projeto), Escritório da LVA -Logística de Valor Agregado (operações urbanas a partir da introdução no projeto de conceitos do chamado Novo Urbanismo) e da Enescil Engenharia de Projetos (desenho e pré-dimensionamento estrutural da ponte). Compreenderá estudos técnicos de arquitetura, urbanismo, engenharia, jurídicos, econômicos e financeiros para modelagem adequada das PPP's ou concessões, envolvendo a definição de elementos de projetos básicos que permitam sua plena caracterização, o orçamento preliminar de investimentos, as diretrizes para o licenciamento ambiental do empreendimento, o estudo de viabilidade econômico-financeira com a indicação da forma de remuneração necessária ao investimento e à operação do projeto, a forma mais apropriada para contra prestação do poder público, os critérios objetivos de avaliação e desempenho do projeto.
Para a Ilha de Itaparica, sugere uma rigorosa proteção ambiental, principalmente da contracosta, tráfego pesado em via segregada, proteção aos sítios históricos da cidade de Itaparicae do Distrito de Baiacu (parque estadual para preservar o resto de manguezais e de Mata Atlântica), criação de bairros planejados em áreas antropizadas e de um consórcio público do Estado e os municípios de Vera Cruz e Itaparica para elaborarum novo PDDU, a ser aprovado pelas respectivas Câmaras de Vereadores. Propõe a implantação de 4 núcleos (Cultura,Verde, Conexão e Bem-Estar), ocupando 24,3% da ilha, com determinados tipos e critérios de ocupações (residenciais e comerciais), campo de golfe , nova marina e um centro de excelência para a indústria naval.
Texto originalmente publicado em Bahia Negócios - http://www.bahianegocios.com.br

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Futuro sombrio ou de progresso?

CRESO AMORIM*
Há dias foi publicado o artigo intitulado "Porto de Salvador: rumo ao futuro", assinado pelo presidente do Sindicato de Operadores Portuários de Salvador e Aratu, apoiando a proposta da Codeba de aditivo ao contrato do terminal arrendado e construção de um berço público. Gostaria de fazer o contraponto à opinião manifestada, apenas sob dois aspectos.
Primeiro, é estranho que o presidente do sindicato de empresas operadoras portuárias, que deveria promover o fortalecimento de seu segmento econômico, esteja a defender uma solução que beneficia uma única operadora. Não existe justificativa para se prolongar mais esse monopólio no Porto de Salvador, em detrimento das demais operadoras baianas. A conduta monopolística da empresa escolhida pela Codeba há dez anos para explorar o terminal de contêiner tem custado caro, pela imposição de ineficiências econômicas (filas no terminal e no depósito de contêineres vazios ou cobrança de tarifas adicionais), cujos custos assumidos pelas transportadoras ou exportadoras, se constituem no "custo Bahia". Também efeito dessa ineficiência, se agrava a fuga de mais de 30% das cargas baianas do comércio exterior para portos de outros estados, que diminui o mercado para as empresas baianas de transporte.
Seria louvável que o presidente do sindicato de operadores defendesse o seu segmento, para fortalecer as outras empresas baianas e estimular a criação de novas.
O outro aspecto é quanto ao mérito da proposta da Codeba, que pouco acrescenta às necessidades da Bahia e premiaria uma arrendatária, que a rigor até já deveria ter o contrato rescindido, em razão da conduta monopolística.
Assim, propomos que a Codeba resolva definitivamente o problema de capacidade de movimentação de contêineres com visão ampla e harmônica que contemple a licitação, não apenas de mais um terminal de contêiner, mas de dois ou três novos, verdadeiros interesses para o desenvolvimento da economia baiana, que não pode ficar contingenciada a propostas diminutas. Ninguém quer um porto cujo rumo seja um futuro sombrio.
A Bahia precisa de progresso para todos.
*Creso Amorim é presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Contêiner do Estado da Bahia

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

TRANSPORTE COLETIVO X TRANSPORTE INDIVIDUAL

Por Almir Santos*
Nenhuma grande cidade pode sobreviver priorizando o transporte individual, a menos que tenha um mega infra-estrutura viária. As duas maiores cidades brasileiras Rio de Janeiro e S. Paulo, principalmente esta, vivem problemas de trânsito incomensuráveis, em que pese terem uma rede de metrô. Modestas,diga-se, para suas dimesões.
Salvador, como uma taxa de motorização em torno de 5,0 habitantes/veículo, abaixo de muitas capitais do Nordeste, inexpressiva se comparada com S.Paulo, Goiania e Cutitiba que têm 2,0 habitantes/veículo, está caminhado para um caos, que poderia ser solucionado se oferecesse um eficiente meio de transporte de alta capacidade.
Pode-se imaginar o que seria se tivesse uma taxa de motorizaçao significativa. É importante citar a experiência brasileira bem sucedida da cidade de Curitiba que se antecipou à crise dos tranportes há aproximadamente 40 anos.
Lá foi concebida uma REDE INTEGRADA DE TRANSPORTES com sete categorias: convencional, expresso, interbairros, linha direta, alimentador, circular centro e estudantes.
Os ônibus projetados especialmente para cada categoria como o bi-articulado com capacidade de 270 passageiros que trafega nas linhas expressas e utilizam as caneletas segregadas equipadas com detectores que dão prioridade aos ônibus nas intercessões. Assim os horários são rigorosamente cumpridos.
O ligeirinho, que opera na Linha Direta, tem um número de paradas reduzido, onde o embarque é feito através de Estações Tubo, cuja plataforma se situa no mesmo nível do piso do ônibus e o pagamento da tarifa é antecipado. Dessa forma, o embarque e desembarque são quatro vezes mais rápidos do que nos ônibus convencionais. Os deficientes usam um elevador implantado no nível da pista.
O interbairros é composto de cinco circulares concêntricas nos dois sentidos. Não vai ao centro, mas integra com as outras categorias. Os ônibus são equipados com uma voz fantasma que informa todas as possibilidades de conexão, fechamento das portas, número de portas que serão abertas nos pontos de parada, mensagens educativas e avisos de interesse dos usuários.
A rede integrada engloba 14 municípios da Região Metropolitana, a maioria distantes aproximadamente 40 km do centro de Curitiba: São José dos Pinhais, Pinhais, Colombo, Piraquara e Rio Branco do Sul, Almirante Tamandaré, Fazenda Rio Grande, Campo Largo, Campo Magro, Araucária, Contenda e Itaperuçu. O maior deslocamento é Rio Branco do Sul a Contenda com 70 km de extensão. A tarifa única integrada é R$2.20 durante a semana e R$1,00 aos domingos o que representa uma tarifa média ponderada de R$2, 03.
A rede da Grande Curitiba comporta 469 linhas, sendo 388 integradas. Metrô não existe, mas o sistema eficiente de transporte público dá para deixar o automóvel em casa e não se perceber que a cidade tem uma frota de 1,2 milhões de veículos, o dobro da de Salvador. Um transporte especial feito através do SITES (Sistema de Transporte de Ensino Especial), atende 2.600 alunos portadores de deficiência transportados por dia em 38 linhas que apóiam 36 escolas especializadas (Único subsidiado pala Secretaria de Educação). 65% dos ônibus em Curitiba têm acessibilidade total para deficientes. Os chamados madrugueiros garantem um transporte regular durante 24 horasSão 351 Estações-tubo, 72 km de canaletas exclusivas, cinco grandes corredoresL(Boqueirão, Norte, Sul, Leste e Oeste), 5 mil pontos de parada, 21 Terminais de integração urbanos e 7 metropolitanos
A distância entre os pontos de parada é regulamentada. Para os Expressos é de 400m, para os alimentadores 250m, para os convencionais 300m, e para o ligeirinho 2000m. Os ônibus são limpos, bem conservados, equipados com voz fantasma e os motoristas educados têm uma boa postura profissional. Dessa forma pode-se optar pelo transporte coletivo no dia-a-dia ficando o transporte individual para o lazer, não se perceber que Curitiba tem o dobro da frota de Salvador e lá não se registram os problemas de trafego como em outras cidades. Mas o IPPUC- INSTITUTO DE PESQUISA E PLANEJAMENTO, URBANO DE CURITIBA, não pára.
Continua pesquisando, planejando e procurando alternativas visando melhorar o sistema.
* Almir Ferreira Santos é Engenheiro Civil, especialista em transportes urbanos. No Governo do Estado da Bahia, participou da elaboração do Programa Estadual de Logística de Transportes- PELTBAHIA.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Festa de Santa Bárbara/ Iansã, dá inicio ao calendário de festas em Salvador

O início do calendário de festas religiosas em Salvador começou na manhã de sexta feira com as comemorações da Festa de Santa Bárbara. Quase seis mil pessoas se reuniram nas ruas do Centro Histórico para homenagear Santa Bárbara, para os devotos católicos, e Iansã, para os fiéis do candomblé.
A festa, que rende homenagens à santa católica e à orixá ao mesmo tempo, já completa 135 anos. Desde 1874, as ruas da Baixa dos Sapateiros são tingidas de vermelho e branco em adoração à deusa da guerra, dos ventos, da tempestade. Para os católicos, a adoração é para a mulher que foi exemplo de fidelidade e firmeza, mesmo frente ao martírio. Pelas ruas do Pelourinho, no Mercado de São Miguel e na Barroquinha, o samba e as batucadas tomam conta do cenário.
A Boiada Multicor, coordenada pelo professor Jorge Conceição, segue pela Rua Gregório de Mattos e se apresenta pela primeira vez na festa de Santa Bárbara.
A tradição da festa é antiga. Aos 82 anos, Dona Maria Bernadete da Conceição, uma das coordenadoras da paróquia de Santa Bárbara, é testemunha ocular de anos de homenagens. Todo 4 de dezembro, veste-se de vermelho e branco. No pescoço, carrega o símbolo maior do sincretismo religioso, as contas de Iansã e uma medalha das Devotas de Santa Bárbara. "Eu amo essa santa. Essa é uma tradição dos antigos, que vem dos antepassados e vai passando de pai para filho, de uns para os outros", afirma, emocionada.
Pelourinho - A festa, no entanto, não parou com o cortejo oficial. As ruas do Pelourinho receberam shows durante o dia, com muito samba e apresentações de capoeira. As atrações itinerantes deste ano incluíram o Cortejo Maracatu da ONG Acasa, os Meninos do Pelô, a Boiada Multicor e o Swing do Pelô.
Já a programação musical contou com Jorginho Comancheiro, Grupo Terra Brasilis, Juliana Ribeiro, Alísio Menezes e Portela, Samba de Barbinha, Pagobanda, Band’Afro Detona, Walmir Lima, A Mulherada, Aquarela do Samba e Neto Balla e Profissão Samba.
Os shows, com exceção de Neto Balla e Profissão Samba, foram gratuitos e iniciaram a partir das 14horas desta sexta-feira, distribuídos entre as ruas do Centro Histórico, o Largo do Pelourinho, o Mercado São Miguel, o Terreiro de Jesus, e os largos Pedro Arcanjo, Tereza Batista e Quincas Berro D’Água.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Tributo a Rômulo Almeida

CLAUDIA CORREIA*
Dia 23 de novembro de 1988 falecia inesperadamente o brilhante homem público Rômulo Almeida. Como temos uma frágil memória histórica, poucos lembram de sua obra. Economista, nascido em Salvador de família de Santo Antônio de Jesus, ganhou nome de viaduto, de escola estadual e de rua. É muito pouco para a sua trajetória exemplar, repleta de contribuições ao desenvolvimento socioeconômico e cultural da Bahia, do Brasil e da América Latina.
Ele esteve presente na história de grandes empreendimentos brasileiros como a Fundação Casa Popular, a Petrobras, a Eletrobrás, a Confederação Nacional da Indústria, o Banco do Nordeste, a Sudene, a Rede Ferroviária Federal, o BNDES, a Capes e o Ibam, entre outros. Na Bahia, projetou a pioneira Comissão de Planejamento Econômico (CPE), a Coelba e o Polo Petroquímico de Camaçari.
Rômulo foi um visionário, um planejador humanista, um político sem vaidades. Era dotado de uma humildade típica dos sábios, que constrangia os que fazem da política trampolim para enriquecer a qualquer custo, dominar e ser bajulado.
Ele nunca quis ser mito, foi sempre um homem simples, de hábitos comuns e ao seu modo, muito amoroso. Concedia entrevistas a estudantes ávidos por conhecimento com o mesmo respeito que prestava atenção em monótonos discursos de intelectuais e políticos.
A última imagem que guardo de Rômulo, é ele sentado na varanda de sua casa na Pituba, com a “praguinha” do candidato Virgildásio Sena na camisa branca, no dia da eleição para prefeito de Salvador, quinze dias antes de falecer em 1988. Como de praxe, ele tinha percorrido algumas seções eleitorais e descansava brincando com o neto enquanto esperava o almoço ser servido.
Tive o privilégio de conviver com Rômulo de perto e observar cada gesto, ouvir cada ideia, compartilhar de algumas viagens por estradas empoeiradas na campanha de Waldir Pires ao governo da Bahia em 1986. Lembrar sua intensa presença na cena política e econômica nos desafia a ter esperança para superarmos a crise mundial e seguirmos perseguindo um desenvolvimento econômico com justiça social e equidade.
*Claudia Correia – Assistente social, jornalista

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Coleção Rodin na Bahia

Alem das quatro obras instaladas nos jardins do Palacete, mais 62 peças originais em gesso de autoria de Auguste Rodin fazem parte da Coleção Rodin na Bahia. Entre os trabalhos expostos, destacam-se inúmeros estudos feitos por Rodin para a criação da Porta do Inferno. Das obras mais conhecidas , o público poderá apreciar: O Beijo, A Defesa e principalmente o Pensador.
"Nessa Exposição, o gesso triunfa porque tais peças receberam diretamente as mãos do escultor. Elas são autênticas, e se pode ler nos escritos deixados por Rodin a explicação do processo criativo, no qual ele se coloca como escultor cheio de entusiasmo."
"A primeira ideia a nos fazer refletir é a que o gesso é a matéria prima que precede, invariavelmente, o uso de materiais nobres e caros como o bronze e o mármore, ambos raramente executados pelo próprio artista. O bronze é preparado no ato da fundição e o mármore, em geral, é talhado por auxiliares práticos sob supervisão do artista. Já em relação ao bronze, pode-se afirmar que as esculturas como Balzac monumental e até mesmo a famosa Porta do Inferno só foram produzidas em metal depois do falecimento do escultor e à partir de moldes em gesso, esses sim feito por Rodin, que jamais enquanto vivo realizou pessoalmente alguma fundição de suas obras."
(Heloisa Helena Costa - consultora científica da Coleção Rodin na Bahia)
O Pensador
Esta obra foi criada em 1880 medindo 70cm, e aparece na modelagem da Terceira Maquete da Porta do Inferno.
Inicialmente recebeu o título de O Poeta, representando Dante, autor da Divina Comédia, que inspirou a Porta do Inferno.
Era o criador meditando sobre sua criação. Em 1889 recebeu o nome de O Pensador: " era a um só tempo um ser em um corpo torturado, quase um condenado, e um homem de espírito livre, decidido a transcender seu sofrimento através da poesia (Francis Blanchetiere, 2008).
" Quando um bom escultor modela um torso humano, não somente os músculos que ele representa é a vida que os anima...melhor que a vida... sua força que lhes dá forma e lhe comunica seja a graça, seja o charme, seja o fogo indomado" (Rodin, 1911).
" Esforcei-me por fazer sentir em cada intumescência do torso ou dos membros o afloramento de um músculo ou de um osso que se desenvolvia em profundidade sob a pele. E desta forma a verdade das minhas figuras, em vez de superficial, parecia desabrochar de dentro para fora como a própria vida..." (Auguste Rodin, em O Modelado, de Paul Gsell)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

SALVADOR , ENTRE AMIGOS

A Fundação Pierre Verger, a PriceWaterhouseCoopers (PwC) e a Solisluna Design Editora lançaram ontem no Palacete das Artes, em Salvador , o segundo livro da trilogia Entre Amigos, Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia. O livro celebra a arte e, sobretudo, a grande amizade entre esses personagens e criadores do século XX que escolheram a Bahia e o jeito de viver de sua gente como motivo e cenário para suas obras.
O mar da Bahia foi o grande inspirador, quiçá uma fonte de encantamento determinante para as artes, odes de amor à terra e ao povo baiano dessas três personalidades de origens distintas, mas com olhares e percepções convergentes: o fotógrafo e pesquisador francês Pierre Verger; o argentino-baiano pintor de múltiplos fazeres Carybé e o músico baiano, também pintor nas horas vagas, Dorival Caymmi.
– É um orgulho e uma honra apresentar esse trabalho sobre os três baianos fundamentais que desenharam, fotografaram e cantaram a Bahia de uma forma indelével – afirma Gilberto Sá, presidente da Fundação Pierre Verger.
Em Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia, o leitor irá perceber o colorido das fotos em preto e branco da velha rolleiflex do gênio Verger, bem como toda a riqueza dos traços singulares de Carybé, prenhes de movimento e poesia que retratam o cotidiano da época em que as velas dos saveiros enfeitavam o azul das águas da Baía de Todos os Santos e ainda se presenciava a pesca do xaréu nas praias do litoral norte da histórica Salvador. Tudo isso embalado pelas magníficas canções praieiras de Caymmi, poesia pura na sua voz grave e num violão com sonoridade de ondas na praia.
– Não é um livro de arte, e sim da amizade entre três artistas – define bem o editor Enéas Guerra, idealizador da publicação da série Entre Amigos e responsável pela concepção, edição e design do livro.
Do ponto de vista editorial, o texto indica os caminhos que levarão o leitor ao encontro dos três personagens e suas criações em torno da magia do mar.
– A ideia do escrito é incitar o leitor a vivenciar como foi a intensa relação entre eles e relatar, de forma leve e bem humorada, os encontros, as curiosidades e os olhares convergentes destes símbolos da baianidade – conta o jornalista José de Jesus Barreto[*], autor do texto que é fundamentado em pesquisas do acervo da Fundação Pierre Verger, da família Carybé, entrevistas e depoimentos.

O diálogo das imagens captadas pela rolleiflex de Verger e pelos traços de Carybé, produzidos entre os anos 40 e 60 do século passado, está cerzido pelos poemas de Caymmi.
O pescador cantado por Caymmi é o mesmo fotografado por Verger, desenhado por Carybé. Os saveiros que chegam e saem do cais e rasgam as águas da baía, as festas para Iemanjá, o Bom Jesus dos Navegantes e Nossa Senhora da Conceição da Praia servem de inspiração para as canções-poemas, as pinturas e as fotos dos artistas – conteúdo desse trabalho.
O mar é o caminho, elo, destino e musa. O livro pretende ser uma celebração de amizade e da criação deles diante dos mistérios do reino de Iemanjá.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

As grandes cidades perderam a escala humana

Trechos da entrevista com o psicanalista Marcelo Veras à revista Muito, onde fala sobre as relações humanas e alerta para o fato de que estamos caminhando para a solidão.

O que Mudou nas relações entre as pessoas?
MV. As relações são mais rápidas e, forçosamente, mais efêmeras. A construção de uma relação requer um certo tempo, e o que vemos hoje são pessoas que não toleram a frustação do tempo longo, aquilo que a gente costuma chamar de fobia do tempo lento. Uma prova disso é que quando a internet começou a povoar a nossa vida, demorava um século para baixar uma página, hoje, o mínimo que o computador demore para responder já angustia a pessoa, a gente quer comprar um computador mais veloz, a gente não suporto mais esperar.
A internet tornou as relações entre as pessoas mais difíceis?
MV Isso pode tornar as relações mais difíceis. É claro que tem sempre quem diga que é facilitador, então não emito nenhum discurso de cunho moralizante, mas é difícil as pessoas se encontrarem hoje. As cidades tomaram uma dimensão tão gigante que é claro que nossos filhos precisam recorrer aos chats para se encontrar. As grandes cidades perderam a escala humana. Antes você andava na rua e enxergava a vizinha do segundo andar, hoje as proporções são muito altas e não se sabe o que se passa nestes prédios.
Por que as pessoas tem tanta dificuldade em se relacionar hoje?
MV Porque os novos ideais são eminentemente mais egoístas. Hoje temos uma sociedade onde o que vale é a imagem efêmera do sucesso. As pessoas buscam isso. Basta ver a proliferação de revistas onde só se mostram imagens. E essas imagens não traduzem as pessoas, não mostram o que são de verdade. Se você pega uma dessas revistas, percebe que 95% das imagens são de pessoas rindo. Elas não estão mais felizes. O que me preocupa é que vivemos num mundo onde há um imperativo da felicidade. A doutrina da felicidade ligada ao sucesso e à ideia de que alguém não seja feliz está errada.
Mas hoje as pessoas se acostumaram a confundir tristeza com depressão.
MV Pois é, mas a depressão é uma doença séria, que não pode ser banalizada, transformando todo mundo numa comunidade deprimida. Exatamente porque é muito séria. Não podemos nivelar por baixo ou, como já foi proposto certa feita, que determinados remédios fizessem parte da composição da água da cidade, como flúor, por exemplo.
O sexo sempre foi tabu para a maioria das pessoas. Ainda é?
MV No fundo, na aparente liberação sexual, você pode tudo. Você entra em pane de desejo. O desejo pede certo distanciamento porque exige manter aquilo que se deseja numa relação de satisfação. Aquele que só consegue se satisfazer através do objeto acaba se tornando um adicto. Ele confunde a satisfação do desejo, do postergar dessa satisfação, com o imperativo de satisfazer o desejo a qualquer preço.
Por que as pessoas se separam tanto e tão rápido nos dias de hoje?
MV As separações são comuns porque vivemos na cultura do descartável, do rápido. Tratamos a vida amorosa como manager, não tá bom, bota outro no lugar. O compromisso é muito mais com a rapidez, com a resolução das coisas, do que ter tempo necessário para o relacionamento.
Isso não vai nos levar à solidão?
MV Nós já estamos num mundo onde há muita solidão. E é um mundo em que a gente deve estar muito atento para ele, que é muito particular, porque é a solidão entre muitos. O que faz a verdadeira troca social é a possibilidade que temos de suportar o outro com as suas diferenças. Existe uma modalidade de solidão em grupo que tem uma certa tendência à segregação. É a "guetificação" dos meios, onde eu só consigo me sentir em grupo dentro da minha tribo.
Entrevistador: Ronaldo Jacobina
*Marcelo Veras é psicanalista. Graduou-se, em 1983, em Medicina pela Universidade Federal da Bahia. Após a faculdade, foi residente de psiquiatria do Hospital Universitário Professor Edgard Santos. Em seguida, tornou-se mestre em Psicanálise pela Université de Paris VIII e doutor em Psicologia pela UFRJ. Ocupou por sete anos a direção geral do Hospital Juliano Moreira, tendo sido presidente da comissão de Saúde Mental do Estado da Bahia. Após passar pela Direção Adjunta do Complexo Hospitalar Prof. Edgard Santos, Veras desempenhou o papel de Assessor do Reitor da UFBA para assuntos de saúde. Atualmente é o diretor executivo da Fapex- Fundação de Apoio à Pesquisa e a Extensão da Ufba.

Novos diretores da Fapex

O psiquiatra e psicanalista da UFBA, Marcelo Frederico Augusto dos Santos Veras, e a administradora Lilia Kátia Andrade Nunes(foto) compõem a nova diretoria da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Extensão (FAPEX).
A nova diretoria pretende continuar fazendo da Fundação uma instituição fundamental na pesquisa científica da Bahia. Para o novo diretor, “A FAPEX é uma instituição que comemora seus 30 anos de apoio a UFBA e que, a partir deste ano, passa a apoiar igualmente a UFRB. Temos o objetivo de afirmar nossa capacidade gerencial, respondendo com celeridade e rigor jurídico às diversas demandas emanadas por nossos colaboradores, e que visam construir a ciência e os novos saberes deste início do século XXI”.