quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Ao Mestre, com Carinho

Antônio Risério*
Vivaldo da Costa Lima nunca foi meu professor, em curso algum. Mas, entre inícios da década de 1970 e finais da de 1990 – quando compromissos políticos e profissionais foram me afastando fisicamente, sempre mais, da Bahia –, me ensinou muito e sobre os mais variados assuntos. Foram conversas e mais conversas, em algumas reuniões, alguns encontros, algumas festas, mas principalmente circulando pela cidade, entre petiscos e bebidas, do centro histórico a Itapoã, passando, sempre, pelo bairro do Rio Vermelho.
Não quero chorar ou lamentar nada – nem dizer coisas do tipo “a Bahia ficou ainda mais pobre sem ele”. Apenas lembrar uma coisa. Vivaldo foi raro exemplo de homem de pensamento e ação. Era nosso antropólogo maior. E, certamente, um dos maiores antropólogos brasileiros. Mulato culto e sofisticado (no mais das vezes, dizia-se “branco baiano”, citando a classificação de Peirson), leitor de Mauss e Proust, foi, entre outras coisas, uma espécie de “intelectual orgânico” do candomblé. Gostava de beber (em um de nossos últimos encontros, no Gantois, me disse que o médico tinha-lhe proibido o consumo de cerveja – e que, portanto, por recomendação médica, ia passar a beber uísque), ler, conversar e comer, juntando o útil ao agradável em seus estudos de antropologia da alimentação. Era irônico e autoirônico. Para tudo, inclusive para si mesmo, tinha um olhar ao mesmo tempo cortante e generoso.
Como homem de ação, esquerdista em governos carlistas, foi quem de fato meteu a mão na massa em defesa da riqueza histórico-arquitetônica da Cidade da Bahia e do Recôncavo. Claro: antes dele, alguns intelectuais tinham protestado contra a demolição da velha Sé. Em 1935, a Semana de Urbanismo, realizada em Salvador, ressaltou a importância de nosso patrimônio. Caymmi não tomou conhecimento da modernização da cidade, celebrando, antes, as sacadas dos sobrados coloniais ou imperiais. Adiante, Diógenes Rebouças, elegantizando o traçado da Avenida de Contorno, evitou que aquela via destruísse o Solar do Unhão. Etc. Mas foi com Vivaldo à frente que a questão da memória arquitetônica e urbanística ganhou, entre nós, outra densidade e visibilidade. Na época em que ele defendia o patrimônio de Salvador, seu amigo Roberto Pinho fazia um cadastramento, casa por casa, de Cachoeira, que serviu de base para o tombamento da cidade. Foi graças a Vivaldo, enfim, que o Pelourinho foi considerado “patrimônio da humanidade”.
Com todo seu destempero e sarcasmo, era homem fino, educadíssimo. Amante, embora quase nunca o confessasse, da civilidade, do trato gentil, das normas e mesmo da etiqueta (fosse ela “vitoriana” ou candomblezeira – como Verger, aliás, que admirava o sentido hierárquico das relações dentro do terreiro de candomblé). Nunca me esqueço de um encontro nosso, começo de noite, na Cantina da Lua. Quando ele veio em direção à minha mesa, levantei-me para abraçá-lo e beijá-lo. Ele então falou alto, para o bar inteiro ouvir: “Sigam o exemplo! Aqui está uma pessoa educada. Uma pessoa que sabe se levantar para cumprimentar um amigo!”. Fiquei morrendo de vergonha, mas adorei. E, assim como sabia brigar, sabia desfazer brigas. Fez as pazes entre mim e o antropólogo Júlio Braga, por exemplo. Com um argumento sensacional: “Um já mandou o outro à puta que pariu – agora, podem se abraçar”.
Vivaldo não publicou – mas escreveu – muito. Tinha um senso quase destrutivo de autocrítica. Sempre que eu comentava isso, citava uma carta de Saussure, onde o grande linguista confessava “horror à pena”, dizendo que escrever era um “suplício inimaginável”. Vivaldo, não. Curtia escrever. O problema, para ele, era publicar. Vivia retocando e nuançando tudo, sempre em busca do rigor maior. Mas deixou muitos escritos. Sobre candomblé, culinária, questão indígena, etc. Coisas e mais coisas, que seus interesses eram variadíssimos. Devemos ver o que faremos, agora, com todos esses escritos. Com o baú fernandopessoano que Vivaldo nos deixou. É um tesouro que a Bahia tem em mãos. Saberá cuidar dele?
*Antonio Risério – Escritor, poeta e antropólogo
Artigo publicado originalmente no jornal A Tarde

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Em momento de crise na gestão pública, Salvador ganha movimento da sociedade civil

Luan Santos
Em meio a toda a crise de gestão, a cidade de Salvador está prestes a conhecer um novo movimento que pretende mobilizar a população diante dos problemas que afetam a capital baiana. Trata-se do Movimento Nossa Salvador, que visa, como diz seu lema, “trabalhar por uma cidade melhor para se viver”. O movimento será lançado oficialmente no dia 29 de março, quando Salvador sediará o II Encontro da Rede Latino-Americana de Cidades Justas e Sustentáveis.
Este encontro contará com a participação 50 cidades da América Latina que possuem movimentos com objetivos similares aos do Nossa Salvador.
O movimento começou a germinar em 2008, quando um grupo de pessoas teve a idéia inicial, mas só começou a ganhar força em 2009, como afirma Aldo Ramon Almeida, um dos líderes do movimento, “esse movimento teve um grande avanço em maio de 2009, com a vinda à Salvador de Bernardo Toro, que é um filósofo e cientista político colombiano. Ele fez uma palestra na Universidade Federal da Bahia, onde falou sobre o tema das cidades mais sustentáveis. E naquele momento o movimento se tornou mais conhecido para o grande público e muita gente começou a perguntar e a querer participar”.

Ricardo Pessoa, empresário e participante do movimento, comenta a importância do Nossa Salvador em meio à atual crise de gestão na cidade. “O movimento visa levar para as pessoas uma maior consciência de cidadania. Queremos tirar o foco de uma gestão política, partidária, para uma gestão social, sustentável, mais transparente”.
O Movimento Nossa Salvador pretende trazer para público discussões sobre assuntos que são importantes para a população. “É um movimento contributivo. Ele é apartidário, não há nenhum interesse de promoção individual, é interreligioso. É simplesmente um grupo de pessoas que têm contribuições e que querem que essas contribuições ganhem visibilidade, que possam ajudar a sociedade”, assim define Almeida.

O movimento atua com três frentes de trabalho: indicadores sociais, acompanhamento da gestão pública e educação para a cidadania. A partir destas três frentes, os membros do grupo elegeram uma série de eixos temáticos: educação, saúde, saneamento, meio ambiente, planejamento urbano, equidade de gênero e raça, juventude e trabalho e renda. Em relação a estes eixos, Aldo Ramon Almeida comenta que “a organização mínima do movimento consiste em identificar os eixos temáticos, que em nosso caso, elegemos estes. E pretendemos que cada pessoa que se identificar com um ou mais eixos, possa contribuir, possa dar sugestões e isso vai gerar ações que proporcionem o bem-estar da população”. Assim, a partir destes eixos, cada pessoa que quiser participar do movimento, se encaixa em um ou mais temas e começa a criar meios para mobilizar a população e o poder público visando a melhoria das condições de vida na cidade.
A organização do movimento será feita a partir de Grupos de Trabalhos, que serão construídos com base nos eixos temáticos citados. Estes GT’s discutirão os assuntos presentes nestes eixos e com base nisso apresentarão suas visões sobre os temas e buscarão soluções para os problemas sociais.
O Movimento Nossa Salvador foi inspirado por outro ocorrido há dez anos em Bogotá, capital colombiana. O movimento nesta cidade se iniciou com um grupo de intelectuais, acadêmico, empresários e civis se reuniram para discutir maneiras de tornar a cidade mais justa, mais igual, com melhor qualidade de vida. Tal iniciativa pioneira trouxe bons frutos à capital colombiana, de maneira que influenciou outras cidades da America Latina, como La Paz, Santiago, Santa Cruz De La Sierra e as brasileiras São Paulo , Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Ilhéus.
Encontro visando apresentação do movimento
No final de janeiro, o Movimento Nossa Salvador realizou um evento, visando apresentar-se e conseguir pessoas para integrarem a equipe de colaboradores. Em tal evento, estiveram presentes diversas pessoas ligadas a organizações como Fieb e Unicef com o objetivo de colaborar com o Nossa Salvador, todos convidados pelos líderes do movimento. Os participantes do evento foram convidadas com o objetivo de fazerem parte do movimento, colaborando nos eixos temáticos que foram escolhidos pelos líderes.
Nilton José Costa Pereira, que faz parte do Observatório de Segurança do Estado da Bahia e é professor da Unifacs, conta sobre sua motivação em participar do movimento. “Minha grande motivação é a causa pela qual luta o movimento, prova de que a sociedade toda não está apática”. Para ele, o movimento pode trazer grandes e bons frutos para a cidade de Salvador. “O movimento é uma semente que pode germinar. E com certeza a cidade de Salvador será muito beneficiada, pois problemas que estão esquecidos pela gestão pública, serão trazidos para a pauta de discussão da sociedade”.
Ricardo Pessoa, que também participou deste evento, diz que é importante uma grande adesão das pessoas ao movimento, para que haja discussões sobre temas que não são debatidos no espaço público. “Queremos estimular o debate na sociedade. Queremos plantar sementes que possam germinar no futuro, que não sejam ações esquecidas, mas que haja discussão no espaço público”. Ele conta ainda que aqueles que quiserem participar, não podem querê-lo apenas como marketing pessoal. “Ninguém aqui quer fazer movimento para chamar atenção para nós próprios. Queremos apenas que haja debate público sobre temas que interessam a sociedade”.

Encontro da Rede de Cidades será em Salvador
O comitê organizador do segundo Encontro da Rede Latino-Americana por Cidades Justas e Sustentáveis se reuniu em Salvador nos dias 27 e 28 de janeiro para definição de estratégias relacionadas ao Encontro.
A reunião preparatória foi no Hotel Catussaba Bussines, onde foi tratado o avanço dos trabalhos das atuais comissões do evento (Conhecimento, Governança e Conceitual), além de questões ligadas à preparação, tais como definição do programa, orçamento, recursos, convocação e logística.
O segundo Encontro da Rede Latino-Americana de Cidades Justas e Sustentáveis reunirá cerca de 50 cidades que estão implementando iniciativas relacionadas a qualidade de vida urbana por meio do controle público. O objetivo do evento é a troca de informações, com conhecimentos e experiências entre os integrantes para promover o aprendizado mútuo, o apoio e o fortalecimento das experiências locais em toda a America Latina.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Lelé - Um mestre da arquitetura

João da Gama Filgueiras Lima, Lelé, nascido em 10 de janeiro de 1932, no Rio de Janeiro é formado pela Escola de Belas Artes, no Rio de Janeiro em 1955. Iniciou sua carreira durante a construção de Brasília, onde teve participação ativa, colaborando diretamente com Oscar Niemeyer.
Participou da implantação da Universidade de Brasília, onde lecionou e coordenou a Pós-Graduação. Notabilizou-se pelo trabalho com a arquitetura pré-fabricada, realizando diversas obras em diversas capitais como Brasília, Rio de Janeiro e Salvador, transformando-se num dos mais importantes arquitetos do Brasil.
Desenvolveu o projeto da Rede Sarah de Hospitais em todo o país. Recebeu diversos prêmios em sua carreira, dentre eles o Grande Prêmio da Primeira Bienal de Arquitetura e Engenharia de Madrid pelo projeto da unidade do Hospital Sarah em Salvador. Em 2.000 representou o Brasil na Bienal Internacional de Veneza.
Atualmente está à frente do Instituto Brasileiro de Tecnologia do Hábitat (IBTH).
Poucos arquitetos brasileiros possuem tantas obras saídas de sua prancheta como João Filgueiras Lima, o Lelé (2).
Lelé é carioca de nascimento, radicado em Salvador e atuante em todo o país. Participou como protagonista de um dos momentos mais importantes do modernismo brasileiro, o nascimento de Brasília, projetando, construindo e colaborando com outros arquitetos, como Oscar Niemeyer. Ele foi capaz de desenvolver ao longo de sua carreira uma obra única, mesmo no contexto internacional, extremamente ligada a dois aspectos básicos da construção: o clima e a pré-fabricação.
A idéia de concretizar uma arquitetura mais humana, preenchida por luz e ventilação natural, além de racionalizada e economicamente viável, foi a marca de Lelé que tornou a Rede Sarah um símbolo de boa arquitetura (e boa administração) em nosso tropical e carente Brasil. O Centro de Tecnologia fornece hoje peças não só para os hospitais da rede, mas também para outras obras como Escolas, Tribunais de Contas e Tribunais Eleitorais em todo o país, provando seu sucesso.
A força das propostas de Lelé, capazes de romper a descontinuidade das políticas públicas, e penetrarem em grande parte de nosso território, mostra que a arquitetura pode, sim, ter sua parte num mundo e num Brasil melhor.
Mas é preciso quebrar a cabeça.
Afinal, se tem uma coisa que não combina com Lelé é perda de tempo.
A doença e o trabalho
Convivendo com um câncer na próstata há oito anos, o arquiteto não diminuiu o ritmo de trabalho e teve de inventar espaço em sua agenda para conceder esta entrevista em seu escritório em Salvador. João Filgueiras, o Lelé, está agora à frente do Instituto de Brasileiro de Tecnologia e Habitah - IBTH, onde concluiu recentemente o projeto arquitetônico do Tribunal Regional do Trabalho, adotando um inovador conceito de sustentabilidade ambiental e integração da estrutura com a natureza exuberante do terreno.
PSF- Por que escolheu morar aqui em Salvador?
Lelé:
Fui escolhido por Salvador. A vida da gente, no fundo, é movida por questões acidentais. A gente planeja, planeja e tudo sai ao contrário. O segredo é deixar as coisas acontecerem. Essa coisa de eu ter vindo parar em Salvador foi completamente acidental. Assim como foi acidental eu ter virado arquiteto. Toda a minha vida foi acidental. Eu não conheço certas coisas radicais que mudaram minha vida. E não conheço nenhuma delas que eu tenha planejado. Nem a ida pra Brasília, que foi completamente acidental. Nenhum arquiteto queria ir embora pra Brasília. Num almoço um cara perguntou se eu não queria ir pra lá. Aí eu disse: “Eu quero”. E me pegaram pelo pé (risos).
PSF- Uma questão que sempre foi associada à sua obra é a da sustentabilidade. Mas esse conceito virou certo modismo... Isso o incomoda?
Lelé
: Eu detesto, detesto... Mas está dando lucro ser ecologista. E, na verdade, o discurso da sustentabilidade disseminado por aí não está sendo praticado. Porque a gente precisa economizar os recursos naturais e utilizar o que a natureza nos fornece de mais barato. Sempre que eu falo sobre esse tema, uso a imagem da abelha. As abelhas lidam com uma coisa absolutamente sofisticada e escassa, que é o mel. A abelha retira o pólen das flores, faz um sacrifício enorme para transformar isso em mel. E o incrível é que a forma escolhida para fazer a colmeia, em hexágono, é a mais econômica que se tem. Seria mais fácil fazer uma casa redondinha, mas intuitivamente ela tem o cuidado de fazer hexagonal, que é a forma de juntar um casulo com o outro economizando o máximo de material. Então, quer dizer, o que o ser humano tem que fazer daqui pra frente construindo seus casulos, suas casas, suas cidades é usar a abelha como exemplo...

Projeto em Salvador é referência na arquitetura ambiental

Projeto de Lelé harmoniza estrutura e vegetação.
O projeto do Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região da Bahia é o primeiro de João Filgueiras Lima (Lelé) à frente do Instituto Brasileiro de Tecnologia do Hábitat (IBTH). Ele simboliza, portanto, uma nova fase na carreira do arquiteto, que em 2009 se desligou profissionalmente do Centro de Tecnologia da Rede Sarah (CTRS), do qual foi fundador e onde atuou por duas décadas. “Os hospitais têm custo alto de manutenção. Não é viável construir mais unidades da Rede Sarah”, observa Lelé.
A nova sede do TRT é um complexo constituído por oito edificações, a serem implantadas em terreno densamente arborizado e cuja topografia, na forma de vale, tem desnivel da ordem de 30 metros em relação à cota da via circundante. Essas características marcantes motivaram a adoção do partido arquitetônico definido pela mínima intervenção no lote.
A proposta de ocupação é pontual: o extenso programa foi setorizado em prédios estanques, dispersos pela área de implantação.
Trata-se de edifícios com, em média, oito pavimentos, quatro deles abaixo e quatro acima da cota pública envoltória, o que permitiu a criação de caminhos suspensos para interligar as construções.
Essas passarelas fechadas e envidraçadas somam cerca de 200 metros lineares de trajeto, de modo a enfatizar a grande escala da intervenção (são 130 mil metros quadrados construídos).
A linearidade do percurso, em contraste com a volumetria circular das edificações, reforça a distinção que o projeto estabelece entre o ambiente natural e o construído.
Os prédios do tribunal foram planejados com estrutura metálica, cujos apoios estarão restritos aos núcleos de circulação vertical, a fim de minimizar as movimentações de terra.
Nesse sentido, a maior intervenção ocorre nas bordas do lote, onde serão criados quatro pavimentos de garagem e estacionamento descoberto através de corte escalonado de 13 metros de altura.
O terreno da nova sede do tribunal fica no Centro Administrativo da Bahia - CAB, próximo ao prédio do Tribunal Regional Eleitoral, também projetado por Lelé no final dos anos 1990.
A equipe do projeto do TRT inclui ainda Beatriz Secco (paisagismo), Audium (acústica e sonorização), Roberto Vitorino (estrutura), Porthos Moreira Gontijo (elétrica), Kouzo Nishiguti (hidráulica) e George Raulino (ar condicionado).
* Matéria publicada originalmente em PROJETODESIGN

O Prefeito, o poste e a muriçoca

Luiz Bassuma*
Existem três tipos fundamentais de governantes. O primeiro (ideal e raríssimo), estilo Rui Barbosa: honesto e competente. O segundo tipo (muito comum), estilo Maluf: rouba, mas faz. O terceiro (o pior dos mundos), estilo Collor: desonesto e incompetente.
A atual administração de Salvador é uma das piores de toda a história da cidade. Não faltam escândalos envolvendo desvios de milhões, em muitas áreas. Salvador é a 3ª capital do país, cidade turística, linda e uma forte inclinação aos serviços. Como estão as praias?
Num momento em que mais de 600 pessoas morreram em conseqüência das fortes chuvas no Rio de Janeiro, nossa cidade tem sol em abundância. E qual é a grande obra estruturante que a prefeitura está executando? Substituindo postes de iluminação. Trocando um poste bom, por outro poste bom e gastando inutilmente e de forma suspeita, milhões, que poderiam ser gastos com obras de engenharia de encostas, evitando deslizamentos e mortes nas próximas chuvas, que certamente virão .
As poucas áreas verdes remanescentes estão sendo dizimadas irresponsavelmente, sem nenhuma preocupação ambiental. Um dos resultados mais imediatos desse desequilíbrio ecológico: a cidade está infestada por muriçoca como nunca visto.
Nosso trânsito é caótico, sem transporte de massa eficiente, seguro e barato, restando os automóveis. Salvador é uma das três capitais do Brasil com menor número de veículos por habitante. Curitiba tem três vezes mais veículos que Salvador, mas não tem congestionamento. Por que será?
O TCM, um tribunal bastante tolerante com a maioria dos maus prefeitos da Bahia, detectou sérias irregularidades na gestão do prefeito João Henrique. A Câmara de vereadores tem poder constitucional e moral de iniciar um processo de cassação, para que Salvador não seja aniquilada completamente em mais dois anos de sofrimento para três milhões de baianos.
*Luiz Bassuma, ex-deputado federal pelo PV foi candidato ao governo baiano em 2010.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Crise Urbana e Crise do Estado

Paulo Ormindo de Azevedo*
O que iguala um operário e um empresário em dia de chuva em Salvador? A incerteza da hora que vai chegar a casa, o medo de um assalto no engarrafamento e a esperança de não encontrar o fogão ou o BMW flutuando na garagem. Esta perda de qualidade de vida é o retrato da desconstrução do setor público na Bahia. O “Estado mínimo” acabou se transformando em “Estado zero”. Com raras exceções não existem mais corpos técnicos na prefeitura e no Estado capazes de formular políticas públicas, redigir termos de referência e programas de obras ou avaliar os presentes de grego das empreiteiras. Os técnicos se aposentaram ou foram demitidos para serem substituídos por gestores partidários. Os poucos que restam são marginalizados.
Por esta razão, não temos políticas de Estado, nem memória institucional, só ações circunstanciais, de curto prazo, eleitoreiras. O vácuo e a desarticulação são os mesmos na economia, infra-estrutura, habitação, educação e saúde. Enquanto o Rio e São Paulo debatem estratégias de desenvolvimento e capacitam seus gestores em fundações como Getúlio Vargas e Casa de Ruy Barbosa; Minas o faz na Fundação João Pinheiro e Pernambuco na Joaquim Nabuco, nós não possuímos centros de pensamento nem capacitação. Criou-se entre os nossos políticos a ideia de que o saber e a técnica só atrapalham, que progresso se conquista com concreto e ferro e o resto é blá-blá-blá. A medida do desapreço dos nossos dirigentes pelo saber se mede pelo fato de só atrairmos duas universidades federais para a Bahia, enquanto Minas Gerais tem nove.
Mas já tivemos políticos mais sensíveis. Salvador teve, no início da década de 1940, o Epucs (Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade do Salvador), equivalente do Ippuc de Curitiba, que colocou aquela cidade como referência mundial em gestão urbana. Foram as avenidas de vale do Epucs que catapultaram ACM ao governo do Estado, mas poucos se lembram. Na mesma época, possuíamos um centro de referência de engenharia, o Derba, hoje reduzido a pó. No início da década de 60, tivemos a CPE, de Rômulo Almeida, responsável pelos únicos projetos públicos de industrialização da Bahia, o CIA e o Copec. De lá para cá nada. O ISP-Ufba trabalha hoje mais para outros estados, empresas privadas e municípios que para o governo da Bahia.
Sem planejamento nem projetos, os governos estadual e municipal não têm mando, são meras instâncias reativas, homologadoras de projetos do empresariado, num ritual que passa pela adoção de projetos carimbados, doação de terreno e infra-estrutura, financiamento e isenções fiscais, sem nenhuma discussão com a sociedade ou avaliação do custo/ benefício. O resultado disto é um passivo de custosas obras desarticuladas, sem sustentabilidade, ou paralisadas, como o CAB, Aeroclube, VLT (veículo leve sobre trilhos), Metrô Rótula do Abacaxi, shopping Pelourinho, Via Náutica e viadutos que não levam a nada.
Se a gestão da Bahia e de Salvador estão mal é consequência de uma crise maior. Nosso quadro político atual é formado pelos netos de interventores de Vargas e da ditadura de 64, por emergentes religiosos e sindicais, todos sem projetos, que se odeiam mutuamente, mas estão atados entre si pelas teias do poder. Por falta de entendimento e planejamento não temos uma economia forte, não atraímos investimentos, não potencializamos a RMS (Região Metropolitana de Salvador) ou reduzimos a obesidade mórbida de Salvador. O sintoma mais eloquente dessa doença é a incapacidade do Estado e da prefeitura de elaborarem um projeto urbano para 2014.
Não é, portanto, surpresa que o IBGE constate que Salvador tem o penúltimo PIB (Produto Interno Bruto) per capita do País, perdendo apenas para a pequenina Teresina. Por falta de uma política metropolitana, municípios riquíssimos, como São Francisco do Conde, primeiro no ranking nacional de PIBs, não tenham nada e Candeias seja um favelão. E que um cidadão capixaba tenha seis vezes mais renda que um baiano. Neste ano novo, desejo ao povo baiano que eleja um governo que desprivatize e restaure o setor público, para que possamos voltar a ter um rumo e crescer.
* Arquiteto, é Diretor do CREA e do IAB - Bahia
Arti
**Artigo publicado originalmente no jornal A Tarde

São Paulo lidera ranking mundial de cidade da "ação e oportunidade"

O ranking Zeitgeist é organizado pela Hub Culture e lista as 20 cidades consideradas mais importantes do globo. O tema da edição de 2011 é "ação e oportunidade".
O ranking não se baseia em informações científicas, não envolve dados estatísticos ou econômicos. Mas para o grupo de pessoas conectadas, que viajam facilmente de um ponto a outro do globo, que são empreendedoras e influentes no mundo dos negócios e da cultura, São Paulo é, pela segunda vez consecutiva, a cidade que melhor representa o espírito do tempo em que vivemos.
O chamado Zeitgeist ranking é elaborado há cinco anos pela Hub Culture, uma sociedade fundada em 2002 que conta com mais de 20 mil membros espalhados pelo mundo. São figuras do mundo corporativo que preferem agir no anonimato, e também perfis descolados do cenário cultural que colaboram em diferentes projetos internacionais.
Novo mundo
A capital paulista, que entre os próprios moradores desperta rancor e paixão, é considerada "o lugar para se estar em 2011, onde tudo acontece", segundo a definição de Stan Stalnaker, fundador da Hub Culture.
"Por que São Paulo é a número um em 2011 e teve a mesma posição em 2010? Simplesmente porque há muita coisa acontecendo no Brasil agora, São Paulo é a maior cidade do país, o pólo econômico e representa muito bem o espírito da América do Sul. Há muita atividade e desenvolvimento em São Paulo", argumenta Stalnaker.
A metrópole brasileira, "onde dinheiro não é algo raro", se destaca por liderar em setores como marketing, consumo, mídia, tecnologia e, consequentemente, atrair o progresso. "Quem vai discordar que São Paulo é a terra da oportunidade atualmente?", argumenta a Hub Culture.
O diretor da entidade explica que o ranking leva em consideração a cena mundial, e procura identificar o ponto mais "quente" do globo. "São Paulo, Estocolmo e Sydney, as três primeiras colocadas, são um tipo de novo centro de pensamento, um tipo de novo mundo, com uma mentalidade mais progressista. Essas cidades representam ocasião e ação em 2011", acrescenta Stalnaker.
A fila anda
Estocolmo não é só a maior e mais importante cidade na Suécia. Mas tem sido também fonte de muitas novidades que provocaram mudanças recentes no cenário internacional, acreditam os membros do Hub Culture, que indicaram a capital sueca pela primeira vez.
"As razões que colocam Estocolmo como número dois não são, de fato, as mesmas que colocam São Paulo como número um", comenta Stalnaker. A cidade sueca tem uma forte consciência ambiental, norteia a discussão sobre direitos humanos, compartilhamento de informações – e abriga os servidores do site WikiLeaks.
E Berlim, que em 2010 ocupava o segundo lugar, em 2011 caiu para a quarta posição. Mas isso não quer dizer que a metrópole alemã não seja mais tão interessante, "mas há mais coisas acontecendo em outros lugares do mundo", avalia a Hub Culture.
A capital da Alemanha ainda continua na frente de Londres, Nova York, Los Angeles, Moscou, São Francisco – Paris sequer aparece na lista.
Fonte: http://www.dw-world.de/ - Empresa Oficial de Comunicação Alemã

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

“Envelhecer implica uma outra arte de viver”

Emanuella Sombra*
Sentado à beira da piscina, Gilberto Gil se despede aos poucos da casa onde mora quando está na Bahia. A partir do segundo semestre, a residência do Horto Florestal – das festas e das reuniões de petit-comité promovidas pela esposa Flora – deixará de ser o tranquilo e confortável refúgio em Salvador. A mudança para um apartamento amplo no Corredor da Vitória acompanha o caminho natural de toda e qualquer família. “A casa esvaziou, os meninos já estão grandes, se criaram. Em geral passavam férias aqui, e não mais”, sorri o patriarca, com a leveza e a simplicidade que lhe são característicos. Aos 68 anos, Gilberto Passos Gil Moreira quase nunca sai. Desde o Natal na capital baiana, onde fará show de lançamento do CD e do DVD Fé na Festa, dia 30, na Concha Acústica do TCA, tem uma rotina extremamente caseira. Nas poucas vezes em que põe os pés na rua, vai dirigindo o próprio carro até a Barra Avenida, onde vive a mãe. Se a rotina permite, acorda por volta das dez da manhã, lê os principais jornais do Brasil e do mundo, rende-se ao barulho dos netos pequenos, fala ao telefone. De sandália e bermuda, anuncia que fica aqui até o Carnaval. Foi-se embora a postura formal de ministro da Cultura, cargo exercido de 2003 a 2008, durante o governo Lula. Gil mudou o disco. Ícone da MPB, corresponsável pelo movimento tropicalista e dono de uma carreira antológica, o senhor elegante de cabelos brancos transforma o tempo como na música que empresta título à capa desta edição. Como premonição transformada em melodia em 1984, Tempo Rei nunca foi tão apropriada.
Quando o senhor saiu do MinC, sua mulher, Flora Gil, disse que a política lhe tirava o sono. Já consegue dormir?
Hoje em dia eu já durmo (risos). No tempo do ministério, eu acordava no máximo às sete da manhã e dormia tarde, havia viagens constantes, um tempo que, do ponto de vista físico, já era demasiadamente ocupado. E tinha a questão psíquica mesmo, da preocupação. Mesmo enquanto dormia, permanecia sempre a situação de sobressalto, a prontidão absoluta, a expectativa sobre o dia seguinte, se as coisas iam andar, o que a imprensa ia publicar. Era uma vigília permanente. Agora, não. Com exceção dos períodos de gravação, hoje em dia eu acordo às dez horas da manhã.
O que o senhor faz durante esse tempo?
Raramente saio. Eu leio jornal todo dia. Jornais de São Paulo, jornais daqui, do Rio, do mundo. Com a facilidade da internet, você pode ler El País, Le Monde, The New York Times… Leio tudo, não com a preocupação do acompanhamento da notícia, mas pelo sentido que eles têm, de cobrir o existencial. Tanto que eu leio mais os segundos cadernos, cadernos esportivos. Os primeiros cadernos também, mas não para me referir à notícia de ontem, relacionada à primeira notícia de amanhã.
Então o senhor deve estar acompanhando a crise por que passa hoje a Prefeitura de Salvador.
As administrações municipais são sempre muito cobradas. Elas que cuidam da limpeza pública, do transporte coletivo, da questão urbanística. A questão recente das barracas (de praia), que vários governos adiaram por ser uma decisão complicada, a prefeitura acabou resolvendo. De certa maneira, entra na conta positiva desse governo. Mas há também a diferença de tônus administrativo. Há governos que têm mais tônus, mais força e vibração. Outros são mais claudicantes, e isso vai muito da personalidade dos gestores, da qualidade técnica dos auxiliares, dos secretários. E, num certo sentido, vai cada vez mais do próprio modo de ser da população.
Como assim?
As populações estão cada vez mais responsáveis por uma série de problemas. No caso de Salvador, as encostas, o tratamento das invasões, o modo equivocado com que se trata a questão do lixo e o transporte, essa tentativa de substituição do transporte público pelo automóvel. É um ciclo vicioso, mas aí é que está. Não se pode somente responsabilizar a autoridade. É uma questão cultural, não é uma questão política só.
Mas há problemas que são exclusivamente administrativos, como, por exemplo, a incapacidade de concluir a primeira fase do
metrô.
Tenho impressão de que, se fosse possível uma inversão de cultura em relação a vários desses problemas, se transporte coletivo fosse uma coisa almejada, desejada pela população, ela adquiriria uma capacidade maior de pressão. E quando eu digo a população, eu digo setores que têm capacidade de pressão política. As classes médias – e não é um problema brasileiro, mas mundial – tendem a ser as que mais desprezam o sentido da responsabilidade pública, e por isso estimulam o desprezo, a negligência por parte do poder público. O sonho da classe média é ter o carro, não o metrô. É um sonho fáustico, ligado a uma ideia abstrata de bem-estar. É assim com o transporte e é assim com uma série de coisas, com o consumo, a alimentação…
Houve mudanças na postura da população, como a de eleger, sem que isso fosse uma bandeira, uma mulher presidente.
A eleição impõe respeito nesse sentido. Isso é uma coisa importante, valia tanto para Dilma como para Marina Silva. No caso de Dilma, existe a responsabilidade de prosseguir, deslocar um processo relativamente exitoso do Lula e interesses próprios dela, de afirmação. Existem questões de competência gerencial, de gosto pela tomada de decisão que, embora se alegue que não são conhecidas do grande público, de mim são conhecidas, eu, que convivi com a Dilma seis anos. Eu sei que ela é hábil e preparada.
Dizem que a política envelhece as pessoas. Como ex-ministro, o senhor sentiu este processo?
Eu não sei. As pessoas têm uma espécie de elemento de teste com os cabelos. “Ah, porque o exercício político embranquece os cabelos” (risos). Não sei se foi isso, os meus já estavam ficando brancos. Os governantes estão submetidos a situações aflitivas o tempo todo, a saias justas, potenciais de escândalos, de críticas, de rejeições e menosprezos. É um fator psicossomático muito grande esse peso de reflexos sobre o físico e o psíquico. Por outro lado, o homem público é talhado e vocacionado para isso, o sistema imunológico dele é mais forte. Eu não sou vocacionado, não sou político, não sou nem mesmo um gestor público como outros são. Eles, em geral, têm uma carreira política. Eu não tinha, não tenho e não terei (risos).
* Jornalista

**Foto: Fernando Vivas
Trechos da entrevista publicada na Revista MUITO -Janeiro 2011

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Londres limita trânsito de veículos poluidores

Uma das cidades pioneiras no mundo na cobrança do pedágio urbano, Londres, começa a restringir o trânsito de veículos poluidores em determinadas áreas da cidade.
A criação da Zona de Baixa Emissão de Poluentes ou Low Emission Zone (LEZ, na sigla em inglês) é um projeto que busca limitar o trânsito de veículos poluidores em algumas regiões de Londres, na Inglaterra. Para reforçar a iniciativa, a prefeitura irá aumentar as restrições a partir do próximo ano.
A intenção é tornar o ar da capital mais limpo e desencorajar o uso dos veículos que contribuem com a poluição, bem como melhorar a saúde e a qualidade de vida de todos que visitam, trabalham ou que vivem em Londres.
O programa começou limitando a circulação de caminhões de mais de 3,5 toneladas e ônibus movidos a diesel no centro da cidade. Em 2010, micro-ônibus e furgões de grande porte foram incluídos no programa.
Para entrar nas zonas, os veículos devem atender a determinados padrões de emissão, que limitam a quantidade de partículas provenientes de seus escapamentos. Segundo a prefeitura, essas substâncias contribuem com doenças do coração, asma e doença pulmonar, além de outros problemas respiratórios e até morte precoce.
Para se em enquadrar nas regras, os motoristas precisam registrar seus veículos na prefeitura e respeitar as sinalizações da LEZ. Câmeras vigiam as ruas 24 horas por dia e conferem as placas que circulam nas ruas com o cadastro oficial.
Aqueles que forem pegos de forma irregular devem pagar uma multa de £ 200,00 (cerca de R$ 540,00) por dia de circulação na zona.
Até os veículos de outras cidades devem se enquadrar nas regras e cadastrar seus automóveis na prefeitura para circular livremente pela capital britânica.
Mudanças em 2012
A partir do dia 3 de janeiro do próximo ano, a LEZ vai ficar ainda mais rigorosa. De acordo com os planos da prefeitura, mais veículos serão afetados pelas regras, e aqueles que já se enquadram na lei precisarão atender a critérios mais restritivos de emissões.
Na próxima etapa além dos caminhões, micro-ônibus e furgões, as caminhonetes, carros de passeio e vans também deverão adotar as regras.
As medidas fazem parte de um projeto que pretende transformar a capital britânica na cidade mais limpa do mundo até 2012 – ano em que serão realizadas as Olimpíadas na cidade.
Além da Zona de Baixa Emissão de Poluentes, a prefeitura também investe na instalação de ciclovias por toda a cidade. Uma pesquisa recente feita pelo Conselho de Transporte de Londres mostrou que os 40 km de ciclovias implantados em meados de 2010 já dobraram o número de viagens feitas de bike na capital.
O mesmo programa responsável pelas medidas acima também lançou um sistema público de aluguel de bicicletas. Inaugurado em julho de 2020, o programa já conta com mais de 11 mil registros para usar as cinco mil bicicletas disponíveis para a população.
* Texto publicado originalmente no portal EcoD

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Galícia, Ypiranga e Botafogo

Almir Ferreira Santos*
Três jóias do nosso tesouro esportivo tornam o Campeonato Baiano da Segunda Divisão um museu vivo do nosso futebol.
O Galícia, o Ypiranga e o Botafogo estarão juntos na competição planejada para começar em abril pela Federação Baiana de Futebol. Quando escrevo museu, não é em sentido pejorativo, como nos acostumamos a interpretar, como se a capacidade de armazenar informações e guardar objetos preciosos fosse um demérito. (Na foto, o Botafogo , 1955)
Vi muitos jogos do Botafogo e cheguei a cobrir o Botafogo quando repórter esportivo da Tribuna da Bahia, em 1988, na equipe que tinha Roque Mendes como editor, Luiz Britto e Jorge Allan Vivas, repórteres.
Tinha uma frase que circulava entre os jogadores e dizia bem o que era o futebol baiano:
Pra ganhar títulos, o Bahia. Pra ganhar dinheiro, o Vitória. Pra receber em dia, o Botafogo.
Pois até hoje o Botafogo é uma referência nacional em organização. Wilson Ferreira, prócer do clube, enviou-me uma correspondência, não muito tempo atrás, relatando em detalhes a contabilidade do clube, toda em dia.
Por isso, festejo neste post a volta ao futebol deste clube alvirrubro que fez os primeiros clássicos do futebol da Bahia contra o Ypiranga, ainda nos anos 1920.
Para quem não sabe, o Botafogo tem sete títulos de campeão e alguns de vice, quando vice era considerado título sim.
Só depois que o Vitória passou a dar estes desacertos em finais de campeonato é que o vice passou a ser pejorativo, mais ou menos como ocorreu com ‘museu’, lá do início do post.
Provavelmente, se o Vitória não tivesse dedicido nada e o Bahia tivesse só vices, a valorização do vice ia ser em alta.
Tenho um lápis, sim um lápis, do Botafogo e um caderno também que ganhei de algum botafoguense histórico.
Recebi agora há pouco um texto sobre o Botafogo, escrito em 1995, por Almir Santos, tio de meu querido amigo, Luciano, autor do preciso livro Barradão, emoções e vitórias.
Vamos ler o texto de Almir, escrito em 1995:
MEUS PRIMEIROS JOGOS
Lembro-me como se fosse hoje: meu pai, meu tio Lopes, Seu Arnaldo, Arnaldo de Dona Vitória, ao pé do rádio ouvindo as irradiações (transmissões) dos jogos de futebol.
A Rádio era a Sociedade da Bahia e o speaker (locutor), Ubaldo Câncio de Carvalho.
Ouvia nomes de times como Botafogo, Galícia, Vitória, Ipiranga, Bahia, Guarani, Flamengo, Fluminense, Vasco e jogadores, alguns com apelidos engraçados: Popó, Batatais, Cacuá, Zizinho, Incêndio, Palito, Heleno, Dois Lados, Vareta, Domingos da Guia, Cacetão, Leônidas, Bengalinha, Perácio, Manteiga, Siri e outros (deveria ser Ciri, pois era derivado de Ciridião).
Um dia meu pai resolveu me fazer uma surpresa: levou-me, juntamente com meu irmão Ayrton, para assistir uma partida de futebol no campo da Graça. Fiquei deslumbrado. Para mim o campo da Graça pareceu-me imenso.
As cores alvi-rubra e alvi-azul de Botafogo e Galícia e o verde do gramado, de impacto ,foram um espetáculo para os meus olhos.
A estrutura, toda em madeira, entretanto, balançava com a vibração dos torcedores, assustava-me. Suas acomodações dividiam-se em numeradas, arquibancadas A e B, sombra e geral.
Para evitar confusão, saímos poucos minutos antes do término da partida, que estava 1×1.
Era 15 de agosto de 1943. Tinha oito anos.
À frente do campo, ouvimos num rádio de um carro que estava estacionado, o gol de Da Hora, no último minuto, que deu a vitória ao Botafogo.
Daí a minha simpatia pelo Botafogo, que hoje, infelizmente, não chega nem a pleitear uma vaga na divisão de acesso.
O Botafogo jogou com Severino, Flávio e Rastelli; Manu, Abelardo e Dunga; Manoelito, Da Hora Didi, Inácio e Dino.
O Galícia com Nova, Carapicu e Lusitano; Neversínio, Palmer e Nouca; Louro, Curto, Palito, Novinha e Isaltino.
Vejo freqüentemente Novinha às tardes nos bancos do jardim da Praça da Piedade. Estive com Manoelito que era administrador da colônia de férias do SESC. Tive notícias de Nova, Palmer, Carapicu, Lusitano e Curto por Isaltino, que viria ser mais tarde meu colega de trabalho.
Grande figura. Gozador, contador de piadas, seresteiro e grande tomador de cerveja. Para isso, tem uma conta de poupança secreta para fugir do controle de sua mulher com gastos em bebida.
Sua carreira foi longa e vitoriosa. Aos 17 anos subiu para o time principal em lugar de Reginaldo, que tinha problema de contrato, quando foi tricampeão. Jogava de ponta esquerda e era possuidor de um fortíssimo chute. Logo foi para o Botafogo do Rio, onde teve uma rápida passagem. Retornou para o Bahia, onde encerrou sua carreira e deu muitas alegrias a sua torcida.
Entusiasmei-me com o futebol. O campo da Graça estava se tornando para mim cada vez mais familiar.
Outra surpresa meu pai me proporcionou: permitiu que fosse assistir a um jogo sozinho. Só, isto é, sem a sua companhia, mas com o meu irmão e o primo Hélio.
Senti-me muito importante. Compramos ingressos para a sombra.
Não me lembro bem quais as equipes que jogavam, mas um episódio marcou aquele primeiro jogo a sós. Ensaiava-se um sururu (porrada) entre torcedores perto de nós, quando um, mais exaltado, disse em tom ofensivo e pejorativo: -“torcedor do Bahia é chupador de b_ _ _ _ _”.
Aquilo me deixou confuso, pois não entendi o significado da agressão.
Chupar o que? Chupar por que?
Anos depois vim a entender tudo, não entendendo, entretanto, o porquê da ofensa e do pejorativo.
*Engenheiro, boêmio e escritor

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Salvador, a cidade que nós queremos

Paulo Ormindo Azevedo*
Vi recentemente no Centro Cultural Banco do Brasil, do Rio de Janeiro, um dos mais belos quadros do grande pintor mineiro Guignard. Mostrava Ouro Preto com seu casario chão recoberto pela neblina matutina, enquanto as torres bulbosas de suas igrejas emergiam das brumas com uma força e uma luz impressionante. Era uma exposição sobre o Barroco Mineiro e aquele quadro, de poucas décadas atrás, retratava melhor a cidade barroca que todas as imagens sacras e monumentos centenários expostos. Em Roma são as cúpulas, como em Istambul os minaretes e em Nova York os arranha-céus que dão identidade à urbe.
A identidade de Salvador vem de seus dois andares e do perfil de sua Montanha humanizada. Não é sem razão que os pintores holandeses e os viajantes e fotógrafos do século XIX retrataram tanto Salvador vista da baia. E que como uma cidade barroca Salvador tinha uma organização espacial única. Até 1972, as construções de nossa urbe não podiam exceder a cota da cornija da Catedral. Naquela época ainda se podia ver as torres das igrejas flutuando sobre o mar de telhados e àticos, como as cúpulas em Roma. A partir da lei 2403/72, a altura dos edifícios passou a ser regulado por coeficientes de utilização que privilegia os interesses da indústria imobiliária. É como se pudesse construir na área histórica de Paris ou Roma, como se constrói em sua periferia, por uma suposta isonomia imobiliária. Desde então, a cidade começou a perder sua imagem e característica de dois andares. Vista de Mont Serrat já quase não se distingue as duas cidades.
Uma conseqüência de seus dois andares são os mira-mares e torres mirantes, como os dos conventos da Lapa, Desterro e Soledade, para contemplação da baia. Tais mira-mares estavam geralmente ligados ao átrio de uma igreja, no bordo da Montanha. Preservam-se ainda os de Santo Antonio da Barra, Vitória, Aflitos, Santa Teresa, Santo Antonio Alem do Carmo e Lapinha. Bem ou mal esses belvederes se conservam e ao atravessarmos a Baia de Todos os Santos podemos ainda identifica-los pelas torres das igrejas que lhes dão nome. Outros se perderam, como a tricentenária igreja da Sé vendida por trinta moedas a uma empresa de bondes, que trinta anos mais tarde também viraria sucata. Um dos últimos mirantes privados desapareceu com a construção da Mansão dos Cardeais.
É especialmente por seu valor urbanístico e paisagístico que o tombamento da igreja da Vitória com seu átrio circundante se justifica. Não é demais lembrar que aquela igreja nasceu olhando a baia e só no final do século XIX teve sua fachada voltada para o interior. Sempre defendi mecanismos compensatórios às limitações impostas pelo tombamento em beneficio da sociedade. Infelizmente só em Salvador instrumentos urbanísticos modernos, como a transferência do direito de construir, Transcon, não se aplica aos tombamentos e à criação de praças e áreas verdes, como foi concebido no primeiro mundo.
São essas e outras questões que precisam ser discutidas tematicamente e sem atropelo, para a formulação do novo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano. A preservação da qualidade de vida de Salvador deve ser a preocupação primeira do PDDU, de tal modo que no futuro não seja necessário a adoção de medidas excepcionais, por uma instancia superior de poder, para assegurar a preservação de valores urbanos que não são apenas locais.
Foi com esta visão que defendi no Conselho Consultivo do IPHAN a manutenção do tombamento provisório do Corredor da Vitória, já descaracterizado, até que se lograsse um compromisso formal da Prefeitura de Salvador de reduzir drasticamente os coeficientes urbanísticos daquela área e frear a destruição continuada da encosta com charriots e piers. Não podia, por outro lado, endossar uma proposta inócua e escapatória, que tombava apenas as árvores da rua e meia dúzia de jardins e edificações públicas, alguns dos quais já tombados, para não enfrentar a pressão do mercado. Isto seria premiar o statu quo forjado pelo mesmo mercado, uma situação antagonicamente diversa a do tombamento dos "jardins" paulistanos.
Como eu previa, tal compromisso, negociado após o arquivamento do processo, nunca foi honrado e os alvarás para construção de novos espigões continuam a ser expedidos. O que o clube dos privilegiados moradores locais não compreende é que a persistirem os coeficientes urbanísticos atuais, com edifícios de 34 andares e seis carros por apartamento, de pouco serve preservar oitiseiros e fachadas empalhadas, pois em pouco tempo o corredor polonês da Vitória entrará em colapso circulatório e ambiental urbano. Em Manhattan, com suas avenidas de seis pistas, já não se permite mais garagens na ilha.
São questões como essas, não só da Vitória, como do Litoral Ferroviário, do Miolo e da Orla Atlântica que precisam ser discutidas em foros temáticos qualificados e não apenas em redundantes assembléias suburbanas. Se o debate técnico do PDDU ainda não foi aberto, a sociedade pode força-lo. Por isto mesmo, atos tresloucados, como o dos herdeiros de Arnold Wildberger e seus sócios, de demolirem sua mansão às escondidas, constituem um tiro no pé e uma grosseria urbana que mancha a memória e a imagem de seus maiores, e destrói um naco da cidade que é de todos nós.
*Paulo Ormindo é arquiteto.

** Tela: Cidade vista do mar - Diógenes Rebouças
Artigo publicado em A TARDE, em 10/02/07

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Ciclovias implantadas em Londres dobram uso de bicicleta

Apenas um mês após a implantação das ciclovias, já haviam 34% a mais de ciclistas nas ruas londrinas
Uma pesquisa feita pelo Conselho de Transporte de Londres, na Inglaterra, mostrou que os 40 km quilômetros de ciclovias implantados por toda a cidade, em meados de 2010, já estão dando resultado. Segundo o documento, o número de viagens feitas de bike na capital aumentou 70% desde então.
Em algumas regiões o aumentou passou dos 100% durante o horário de pico, diz a pesquisa. Uma enquete feita com os moradores das regiões onde as ciclovias foram construidas revelou um aumento de 34% de novos ciclistas apenas um mês após a inauguração das pistas.
Além disso, um em cada dez ciclistas disse ter aumentado o número de viagens de bike, três em cada dez compraram equipamentos de ciclismo e três quartos dos ciclistas se sentem mais seguros para transitar de bicicleta pela capital inglesa.
Segundo o diretor do Conselho de Transporte, Kulveer Ranger, os resultados reforçam o objetivo da prefeitura em aumentar o uso de bicicletas como meio de transporte. "Esta pesquisa mostra que as pessoas acreditam na importância das ciclovias, isso as torna mais seguras e permite um caminho direto até o centro de Londres”, ressalta Ranger.
Para manter a onda de bikes que vem invadindo as ruas da cidade, a prefeitura pretende investir £116 milhões entre os anos de 2010 e 2011 na infraestrutura ciclística local, em treinamento, promoção e educação.
Até o momento, já foram implantados 40 km de ciclovias, 94 pontos de parada, 46 junções de faixas, 39 espelhos de segurança, além de 2.372 vagas de estacionamento para bikes e 1.362 horas de aulas de ciclismo.
Os planos para o futuro da capital são ainda mais ambiciosos. A prefeitura pretende aumentar em 400% o número de ciclistas na cidade até 2025, em comparação aos índices de 2000, ou seja, 1 milhão de viagens por dia.
A ação faz parte de um projeto batizado de “Revolução das bicicletas” e que visa transformar Londres na capital mundial dos ciclistas. Outras ações, como a implantação de um sistema municipal de aluguel de bicicletas, unidades policiais especiais para ciclistas e 66 mil vagas de estacionamento para bikes, também estão planejadas e devem estar prontas até 2012.
Fonte: EcoD

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sustentabilidade Urbana - Desafio contemporâneo

Raquel Nunes*
Em toda grande cidade, o meio ambiente foi alterado de forma drástica e violenta. Mananciais de água e reservas subterrâneas foram contaminadas ou destruídas por resíduos da ocupação humana desordenada. Essa dura realidade mostra claramente sua pior face quando vemos cidades com altos índices de poluição ambiental mostrarem o quanto os efeitos dessa poluição são terrivelmente sentidos por nós; através do estúpido aumento do número de fetos nascidos com deformidades e anomalias congênitas das mais diversas. Um exemplo clássico em nosso país foi à cidade de Cubatão, no estado de São Paulo. Durante muitos e muitos anos, Cubatão foi considerada uma das cidades mais poluídas do planeta.
Poluir e degradar os lençóis d’água, as fontes de abastecimento, os rios, o solo e desmatar desenfreadamente encostas e morros ou manter lixões a céu aberto; são alguns dos elementos mais comumente adotados para mostrar como o homem moderno trata o meio ambiente conforme vai se “desenvolvendo”. Através dessas ações, ele consegue apenas enchentes, doenças, deslizamentos que levam a morte e a destruição aos mais expostos ao perigo e uma péssima qualidade de vida geral para sua população.
Aplicar políticas que visem criar a cultura da sustentabilidade e da ecologia urbana nas populações de todas as faixas sociais e, principalmente, nas camadas mais baixas da sociedade; é de fundamental importância para garantir uma melhor condição de vida para todos e dar a esses “menos favorecidos” a oportunidade de aprenderem que a utilização de meios sustentáveis de conviver com o meio ambiente em torno deles pode ser muito mais do que meramente “agir ecologicamente de forma correta”. Pode representar uma grande economia de recursos estatais que podem ser revertidos para suas próprias comunidades; ou representar uma fonte de renda considerável e um manancial de oportunidades de colocação para jovens e adultos desses aglomerados populacionais.
Criar usinas de reciclagem de lixo, aplicar mão-de-obra ociosa dessas comunidades na limpeza de mananciais e de áreas degradadas pode representar um ganho econômico e social de alto impacto nessas comunidades. Criando e fortalecendo a mentalidade da sustentabilidade urbana no trato com o meio ambiente que os cerca. Promovendo um “saber ecológico” ligado à criação de fontes de renda e de aprimoramento pessoal para esses indivíduos.
Assim, a sustentabilidade urbana consiste num dos maiores desafios do homem moderno e seus governantes. Ao mesmo tempo em que devem conviver com populações que se acostumaram a viver em condições degradantes de vida e que acham “natural” que assim seja; devem lutar para criarem novas formas de sensibilizarem essas mesmas populações para a importância de agir com responsabilidade frente ao ambiente em que vivem. E, essas dificuldades, devem-se a um fator muito simples: A miséria e a baixa instrução fazem com que essas pessoas sejam pouco permeáveis a essas “boas novas”. Portanto, a melhor forma de conseguir tocar essas pessoas, é fazê-las compreenderem que poderão ganhar algo agindo de forma sustentável em relação ao meio ambiente em que estão inseridas. Daí, a importância desses programas envolvendo reciclagem de materiais e usinas de processamento de resíduos. Desta forma estaríamos tratando um grande poluidor do meio ambiente o lixo.
*Arquiteta

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

"Para o Bem da Cidade do Salvador" - Ars is Pecunia

Maria da Conceição Paranhos*
Jesus, ao lançar a execração sobre Jerusalém lançava-a simultaneamente sobre a Cidade de Todos os Santos. Nós ainda não sabíamos. Mas estamos aprendendo depressa.
Observe-se o crescente desmonte da estrutura de uma cidade ameaçada diante de nossa impotência, a impotência já crônica do cidadão brasileiro. Devastam nosso passado e se ergue um presente ambíguo, sob o pretexto ralo de um progresso tanto ou mais impreciso quanto é mentirosa a conhecida expressão “para o bem da cidade”.
Ninguém diz nada, como naquele poema atribuído a Maiakowsky cujo autor eu não conheço, mas sei que existe.
Às portas desse silêncio, embuçados no poder, bárbaros vão arrebentando a cidade toda, casa por casa, árvore por árvore, pedra por pedra.
Comento com meu amigo – interlocutor maravilhoso, a diferença brutal da Salvador de hoje para a do tempo em que eu era adolescente. Andávamos numa cidade serena, arborizada, deleitosa, de temperatura grata. Então nos deparávamos com monumentos arquitetônicos, um deslumbre. Nossos monumentos estão sendo abatidos dia após dia, em crimes contra o patrimônio histórico.
Claro. Tudo a serviço do capital, nesse triste sistema econômico-financeiro nos quais nos empurraram desde após a suplantação do mercantilismo em nossa pátria.
Outro dia, minha mãe lembrou a destruição da Igreja da Sé, que não conheci. Para deixar passar o bonde. O bonde também se foi e levou consigo as ruínas de nossa história. O mais pungente é que nos subtraem do que há de melhor na cidade. Não se nos devolvem nada que nos restaure a saudade e a alma.
De modo geral, salvas as exceções, o novo é medíocre e antiecológico, são os carimbos dos que se nos apõem em lugar da beleza.
Fosse eu prefeita dessa cidade (nunca o desejei de fato, mas sonhar com a cidade levanta esses arroubos)!
Meditaria sobre seu passado, consultaria cada um de seus recantos e mistérios. Retiraria o pó dos olhos afogados de tanta coisa feia para enxergar essa monumental cidade.
Medite-se sobre a arquitetura colonial. Beleza e praticidade, prédios com aeração ideal, construídos em favor da luz, pois sabiamente orientados, a deixar fluir as dádivas que nossa natureza privilegiada nos oferece.
Não falo em nome de um passadismo piegas nem nostalgia vã. Nossos antepassados respeitavam a natureza. Compreendiam os trópicos melhor que o capital selvagem a quem não importa o que vai se perder em termos de cultura e bem-estar. É a garra do lucro. Sempre. O lucro fecunda todos os argumentos do mundo. O lucro compra tudo e a tudo prostitui. A cidade que se dane e seus moradores que se lixem. Dinheiro é a única cultura. Ars is pecunia.
Tem gente ganhando muito dinheiro nesse lance.
* Poeta, escritora e professora da Ufba

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Ildásio Tavares

Ele era um louco, o meu amigo Ildásio, mas eu diria, à Shakespeare, no Hamlet: “é loucura, mas tem método”. Diria mais, querendo mais dizê-lo: porém sua loucura tinha mérito.
Pedro Lyra o chamava de “O maluco”.
Maluco, no seu caso, era elogio.
Marcus Accioly
*
Dono de uma agressiva irreverência, Ildásio (como, aliás, todo poeta) não poupava ninguém. Fazendo jus à tradição baiana de Gregório de Matos, ele era um novo “Boca do Inferno”. Não são poucos os que sabem de cor seus epigramas, feitos de improviso, desembuchados (pois não vinham do coração), expelidos, cuspidos por entre os dentes, mas que adquiriam – quando pousados no lápis ou assentados no papel – uma graça de garça que, após o voo vertiginoso, com a flecha do bico apanha o peixe. Basta, como exemplo, a “jóia” sobre um pintor que era poeta e vice-versa: “quando ele pinta é um acinte / aos olhos que fazem greve, / mas, por pior que ele pinte, / pinta melhor do que escreve”. A quadra estralava como um tapa em uma face, e, na outra face, soava a ruidosa risada de Ildásio, como a do personagem – João Urso – de Breno Accioly.
Para dizer de Ildásio, seria necessário escrever livros e foram livros, na vida, o que ele fez e legou. De Somente um canto até Odes brasileiras, de A roda de fogo até O domador de mulheres, foram 42 livros de poesia, ficção, ensaio e o resto. Conheci-o em Sergipe – Aracaju – quando fizemos parte da comissão julgadora de um prêmio de poesia. Publicamos, no Rio, pela mesma editora, de Eduardo e Franco Portella – Tempo Brasileiro –, no mesmo ano de 1978. Ildásio era poeta, romancista, contista, tradutor, pintor, chargista, compositor (parceiro de Vinícius de Moraes), professor universitário, crítico literário e capoeirista do Campo da Pólvora. Certa vez, durante um show de Noite Ilustrada, em Campina Grande, resolveu provar a sua habilidade como capoeirista e começou a derrubar, uma por uma, todas as cadeiras desocupadas. Outra vez, no apartamento de Pedro Lyra – em “Copacanema” – durante uma discussão sobre pintura e poesia, retirou um quadro da parede e o defenestrou do 10º andar.
Quando, perplexo, Pedro indagou: “Se atingisse, na rua, uma criança?” Obteve a resposta inusual: “Sairia em manchete nos jornais: quadro ruim assassina criança”. Ildásio morou nos Estados Unidos, passou pela luta armada, escreveu regularmente nos jornais da Bahia, dizia-se filho de santo e coisas tais. Afinal, como o nome de um dos bares da sua terra, ele era uma espécie de “Ex-tudo”, mas, se fazia tudo com graça, nada fazia de graça, ou seja, sem seriedade.
Falava várias línguas e tinha uma verve que, faltando companhia, poderia conversar um dia inteiro consigo mesmo, diante de um espelho, ou com o papagaio. O seu apartamento e sua casa, em Salvador, viviam de portas abertas para os amigos, mas, para os inimigos, poderiam apontar, por uma das janelas, um cano curto de revólver, ou longo de espingarda. Viajou em derredor do mundo e (quem sabe?) por fora do planeta. Contudo, nas suas crises, em vez de alunissar, aterrissava sempre na Bahia. Conhecíamos as quatro fases, as quatro faces, as quatro frases de Ildásio. Ligava o telefone a qualquer hora da madrugada, com a costumeira frase: “Fala, macho!”
Ildásio Márquez Tavares deixou três filhos, duas filhas e, pelo menos, três ou 30 viúvas (ele também era do ramo). Amigo de Jorge Amado, de Eduardo Portella, de João Ubaldo Ribeiro e de quase todos os baianos – como Caetano e Gil, Bethânia e Gal – ele escolheu três amigos íntimos – e, por eles, também foi escolhido – pela coincidência do mês de janeiro e do signo de aquário: Fernando Mendes Viana (de Brasília) Pedro Lyra (do Ceará – radicado no Rio de Janeiro) e eu (de Pernambuco). Como Os três mosquiteiros – de Alexandre Dumas – éramos quatro, batizados por ele de “Os quatro cavaleiros do apocalixo”. Fernando Mendes Viana se foi.
Ficamos três “cavaleiros do apocalixo”. Ildásio se foi. Restamos dois “cavaleiros do apocalixo”. Se Kierkegaard nos fala de uma única escolha – “que eu possa ter sempre o riso do meu lado”
– eu poderia escolher: que eu possa ter sempre Ildásio do meu lado.
*Marcus Accioly é poeta

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Pensando a Bahia do Futuro

Cotado para permanecer à frente da Secretaria do Planejamento do governo baiano, o economista Alberto Valença (foto), vem coordenando a elaboração do Programa Estratégico - Bahia 2023, iniciado na gestão do ex-secretário e senador eleito Walter Pinheiro.
A elaboração do Plano Bahia 2023 vem sendo feita de forma participativa, a partir do ciclo de debates Pensar a Bahia. Já foram realizadas dez plenárias temáticas, onde foram debatidos os assuntos que terão destaque no Plano, a exemplo da segurança pública, saúde, educação, infraestrutura, territórios de identidade, dentre outros. De acordo com o secretário do Planejamento, as proposições e demandas colhidas durante os debates farão parte do Plano Bahia 2023, que é um documento de planejamento de longo prazo e estabelece as diretrizes para a elaboração dos próximos três Plano Plurianuais (PPAs).
Com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento sustentável do Estado da Bahia, a Secretaria do Planejamento (Seplan) esteve empenhada em diversas ações durante o ano de 2010. Na condução da política econômica e estratégica do Governo do Estado, a Seplan incorporou o ciclo de expansão das economias brasileira e baiana e também da retomada gradual da economia mundial para elaborar o Orçamento de 2011, cujo montante atingiu os R$ 26,6 bilhões, sendo R$ 16 bilhões destinados a área social.
“O ano foi muito positivo para o Estado, com a geração de mais de 108 mil empregos, estimativa de crescimento de 7,5% do PIB, a autorização de obras importantes como a Ferrovia da Integração Oeste-Leste, a entrega dos estudos preliminares do Sistema Viário Oeste e o início da elaboração do Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE)”, destaca o secretário do Planejamento, Antônio Alberto Valença, lembrando ainda que houve um incremento de 12,5% no Orçamento 2011 em relação ao exercício anterior.
Em 2010, fruto do trabalho em execução, a Bahia conquistou visibilidade no cenário internacional ao apresentar as oportunidades de investimentos, negócios e parcerias com o Estado nos segmentos de infraestrutura e logística durante missões ao exterior, a exemplo dos Estados Unidos, Espanha, Índia e China. Para o titular da pasta do Planejamento, a carteira de projetos, nas mais diversas áreas, terá um forte impacto transformador na realidade socioeconomica do Estado no horizonte de médio e longo prazo. “Estamos elaborando um plano intitulado Bahia 2023, que apresenta a estratégia do Governo da Bahia para promover as transformações econômicas, sociais e territoriais no Estado nos próximos 13 anos”, destaca Valença.
O documento que será finalizado em 2011 pontua o complexo logístico multimodal Porto Sul, que estará localizado próximo ao município de Ilhéus, como um dos principais projetos do Estado. Além de um porto offshore composto por terminais de exportação de minérios e grãos, o Complexo envolverá um pólo industrial e de serviços dentro de uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE), um aeroporto internacional, o Gasoduto Sudeste-Nordeste (Gasene), conexões com importantes eixos rodoviários nacionais e estaduais, e, principalmente, a integração com a Ferrovia Oeste – Leste.
“A ferrovia será o maior investimento em logística já realizado na Bahia, totalizando 1.490 km em toda a sua extensão, cerca de 1.100 km destes em território baiano, com obras já licitadas num valor de R$ 4,25 bilhões. Somando os investimentos federais e estaduais relacionados ao Complexo, apenas em infraestrutura logística, teremos mais de 8 bilhões de reais. Este será o projeto mais importante e transformador desde de que foi implantado o Complexo Petroquímico de Camaçari”, ressalta o secretário do Planejamento.
Outro projeto de destaque no Plano Bahia 2023 é o Sistema Viário Oeste, que engloba a ponte rodoviária ligando Salvador à Ilha de Itaparica, a duplicação da BA-001 na Ilha de Itaparica, a duplicação da Ponte do Funil e a duplicação das BA´s 001 e 046 entre Nazaré e Santo Antônio de Jesus (entroncamento com a BR-101).
O projeto encontra-se em fase de estudo preliminar e já tem assegurado recursos do Orçamento Geral da União (OGU) para a elaboração de projetos e estudos de viabilidade para o ano de 2011.
Na avaliação do secretário do Planejamento, o Vetor Oeste vem a solucionar um sério gargalo logístico da Bahia, criando uma nova conexão do complexo portuário da Baia de Todos os Santos com as BRs 101, 116 e 242, encurtando a distância entre 100 e 200 quilômetros para os fluxos que vierem do sul e do oeste. “O
Sistema também permitirá a retomada do desenvolvimento de uma região deprimida economicamente, que é o Recôncavo Baiano e a Ilha de Itaparica”, destaca Valença.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Uma Tarifa Justa

Almir Ferreira Santos*
Uma experiência brasileira bem sucedida é Curitiba que se antecipou à crise dos tranportes e do trânsito há aproximadamente 40 anos, quando foi foi concebida uma REDE INTEGRADA DE TRANSPORTES com sete categorias: convencional, expresso, interbairros, linha direta, alimentadores,circular centeo e estudantes englobando 14 municípios da Região Metropolitana
A REDE INTEGRADA DE TRANSPORTES opera com 2.367 ônibus convencionais, 163 ônibus biarticulados com capacidade de 270 passageiros equivalentes a 538 ônibus convencionais totalizando assim uma frota equivalente de 2.895, possibilitando um índice de aproximadamente de 850habitantes/ ônibus.
São sete categorias de serviços cuja programação visual é diferenciada por cores dos ônibus: o expresso é vermelho o convencional amarelo, o interbairros verde, os alimentadores laranja, o ligeirinho cinza, o circular centro branco e os estudantes azul.
Os ônibus são projetados especialmente para cada categoria como o bi-articulado com capacidade de 270 passageiros que trafega nas linhas expressas e utilizam as caneletas segregadas equipadas com detectores que dão prioridade aos ônibus nas intercessões. Nas canaletas só opera uma única linha. Assim os horários são rigorosamente cumpridos.
Compõem cinco grandes corredores: Boqueirão, Norte, Sul, Leste e Oeste.

O ônibus encosta na estação tubo, cuja plataforma está no mesmo nível do piso do ônibus. Por isso o embarque e desembarque são mais rápidos.
São equipados com uma voz fantasma que informa todas as possibilidades de conexão, fechamento das portas, número de portas que serão abertas nos pontos de parada, mensagens educativas e avisos de interesse dos usuários.
O ligeirinho, que opera na Linha Direta, tem um número de paradas reduzido, onde o embarque é feito também através de Estações Tubo, cuja plataforma se situa no mesmo nível do piso do ônibus e o pagamento da tarifa é antecipado. Dessa forma, o embarque e desembarque são quatro vezes mais rápidos do que nos ônibus convencionais.
Um elevador implantado na pista facilita o embarque e desembarque de usuários da cadeira de rodas e carrinho de bebê
A rede integrada engloba 14 municípios da Região Metropolitana, a maioria distantes aproximadamente 40 km do centro de Curitiba: São José dos Pinhais, Pinhais, Colombo, Piraquara e Rio Branco do Sul, Almirante Tamandaré, Fazenda Rio Grande, Campo Largo, Campo Magro, Araucária, Contenda e Itaperuçu. O maior deslocamento é Rio Branco do Sul a Contenda com 70 km de extensão.
As distâncias ente os pontos de parada obedecem a um critério: 400m para os expressos, 300m para os convencionais, 250m pra os alimentadores e 2000m para o ligeirinho. Por isso este último é denominado ligeirinho ou linha direta,
Compõe o sistema de 351 estações-tubo. 72 km de canaletas exclusivas, 5000 pontos de parada, 21 terminais de integração urbanos e 7 metropolitanos
Há ainda o transporte especial feito através do SITES (Sistema de Transporte de Ensino Especial) que transporta 2.600 alunos por dia em 38 linhas e atendem a 36 escolas especializadas
65% dos ônibus em Curitiba têm acessibilidade total para deficientes.
Os chamados madrugueiros garantem um transporte regular durante 24 horas
Os ônibus são limpos, bem conservados, e os motoristas educados têm uma boa postura profissional.
Dessa forma pode-se optar pelo transporte coletivo no dia-a-dia ficando o transporte individual para o lazer, não se perceber que Curitiba tem o dobro da frota de Salvador e lá não se registram os problemas de trafego como em outras grandes cidades.
A tarifa é R$2,20 de segunda a sábado e R$1,00 aos domingos que resulta uma tarifa média ponderada de R$2,03
Uma tarifa justa ! ! !

* Almir Ferreira Santos é engenheiro civil, especialista em logística e transportes

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Meu tipo Inesquecível

Armando Avena*
A antiga Seleções do Reader's Digest tinha uma secção intitulada “Meu Tipo Inesquecível”. Outro dia, sem que nem para quê, fiquei a pensar com meus botões quem seria meu tipo inesquecível. Detive-me apenas nos que já deixaram está dimensão e concluí que meu tipo inesquecível estaria representado nas figuras de Jorge Calmon e de Rômulo Almeida.
Jorge Calmon era um intelectual de escola, um jornalista extremamente dedicado e cioso do seu ofício e seu tipo sóbrio e elegante, tornou-se para mim inesquecível. E não poderia ser de outro modo, afinal foi Jorge quem descobriu em mim a vocação de jornalista ao convidar-me, ainda muito jovem, para escrever uma coluna no jornal A Tarde. E lá se vão quase trinta anos.
Muito tempo depois, quando meus livros e meus amigos Paulo Gaudenzi e Guido Guerra acenaram-me com a imortalidade, foi novamente Jorge que me tomou pelas mãos e me ajudou a entrar no Solar Goés Calmon. Jorge Calmon foi meu tipo inesquecível.
Rômulo Almeida tornou-se meu tipo inesquecível desde que, estagiário na Secretaria de Planejamento, descobri que a economia baiana recente tinha surgido da sua cabeça. Na biblioteca da antiga CPE – Comissão de Planejamento Econômico descobri que a Bahia moderna tinha sido desenhada por Rômulo nas famosas “ Pastas Rosas” e no Plandeb e que, passados muitos anos, a régua e o compasso da economia baiana ainda estavam em suas mãos. Desde então, de várias formas, na academia e na Seplan, intentei dar continuidade ao seu pensamento.
Tempos depois, no início de 1987, ouvi surpreso o governador eleito Waldir Pires dizer que Rômulo Almeida, o primeiro presidente da CPE, havia me indicado para ser o primeiro presidente da nova CPE, que havia sido extinta, e que ele iria recriar. Rômulo já era então meu tipo inesquecível.
E , assim como foram inesquecíveis na minha vida, Jorge Calmon e Rômulo Almeida foram tipos inesquecíveis de várias gerações de baianos e é com a lembrança deles que desejo um feliz 2011 a todos os baianos, especialmente aqueles que acreditam que uma idéia pode mudar o mundo
.
*Armando avena é economista e escritor

domingo, 2 de janeiro de 2011

Salvador tumultuada - II

Angelina Bulcão Nascimento*
Perplexos e revoltados, moradores da rua Morro do Escravo Miguel tomaram conhecimento no dia 30, de que, nos dias 31 e 1º, ficaríamos interditados, só podendo entrar e sair de casa com a ÚLTIMA conta de luz! E tendo que romper uma multidão de foliões. Ninguém poderia passar mal nem receber seus familiares no reveillon e primeiro dia do ano! Como se não bastassem as interdições de entrar e sair em suas casas, no Carnaval, maratonas, corridas de bicicleta, passeatas da Universal com trio elétrico.
E agora os moradores de ondina começam a padecer a construção, no lugar que era destinado a uma Praça, de um Apart Hotel com 101 apartamentos, 9 lojas e um restaurante, o que certamente trará consequencias para o já caótico trânsito de Salvador. Até o momento, não vi ninguém protestar pelo desrespeito de não sermos comunicados com antecedência, de impedirem nosso direito de sair e entrar em nossas residências, e receber nossos amigos e familiares numa data marcante do ano.
Não escutei nem li nenhuma crítica sobre a construção de um edifício, sem garagens suficientes para os 101 apartamentos, e que diminuirá mais ainda a ventilação, já prejudicada com o hotel à beira mar, fincado quase na areia da praia.
No início dos anos 90, quando construiam os prédios desta rua, que ultrapassaram os limites desejáveis, estava em vigor a Lei do Solo que limitava o número de construções, por vários motivos, inclusive relativos qualidade de vida. Ficava, pois, proibido construir à beira do mar! E o terreno defronte deveria ser utilizado para uma praça, coisa rara em nossa cidade, já tão carente de áreas verdes! Pelo visto, a Lei foi para o brejo...
Não falo apenas pelos moradores da rua citada, mas pelos habitantes de Salvador de vários bairros que a todo momento se queixam de problemas semelhantes e lamentam a descaracterização e agressão à uma cidade que está perdendo seus encantos e se transformando numa selva de pedra e palco de carnaval permanente...
Estes tristes fatos fazem lembrar um trecho de um poema que reproduzo abaixo: No caminho com Maiakóvski (fragmento de um poema de Eduardo Alves da Costa):
"....Na primeira noite eles se aproximame roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,matam nosso cão,
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz,
e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada..."
*Angelina Bulcão Nascimento é jornalista e escritora.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Salvador tumultuada

João Carlos Teixeira Gomes*
Em meu último artigo, prometi que completaria minhas impressões da bela Turquia, mas fiz então nova viagem, dessa feita à Polônia, e, no retorno, demorei-me cerca de um mês em Salvador.
Confesso que não gostei do que vi.
Sem meios-termos, devo dizer que a cidade me pareceu tumultuada e, em alguns aspectos, em processo de degradação urbana.
Possuo meus próprios critérios de investigação e o mais óbvio é ouvir taxistas sobre a atuação dos governantes. Posso garantir que em Salvador Jaques Wagner (a reeleição já o havia provado) está em alta, mas o prefeito João Henrique recebeu condenação unânime. E não só entre os taxistas: o povo nas ruas o desaprova. Muitas pessoas me disseram que hoje ele não mais se elegeria. Não foi à-toa que foi escolhido o pior prefeito do Brasil.
Várias são as críticas ao prefeito, a maioria se concentrando no problema do metrô.
Não custa lembrar que esse foi um reiterado item de campanha eleitoral, sempre descumprido. Há um detalhe que não pode ser omitido: Salvador talvez seja a única cidade do mundo em que o metrô, em vez de ser subterrâneo ou de superfície, é aéreo! Refiro-me, obviamente, à inconcebível linha do Bonocô. Abro meus artigos para alguém que possa me explicar por que, com tantos espaços nos canteiros das avenidas de vale, Salvador teve que construir uma longa linha de metrô elevado, montado sobre pilares e estruturas custosas.
É claro que João Henrique não pode ser responsabilizado por essa parte das obras, anteriores à sua administração, mas a ineficiência com que vem se conduzindo em relação ao resto do percurso e ao início do funcionamento do modesto trem urbano da Bahia é espantosa. Vários cidadãos me disseram: ele exibiu os vagões nos trilhos para se reeleger e depois deu sumiço em todos! Mas não é só isto: a desordem das construções na capital baiana é evidente. A orla marítima, urbanizada pelo pai do atual prefeito, está tomada pelo mato alto e horrendas construções em decadência, com destaque para o constrangedor monstrengo visual em que se transformou o Aeroclube Plaza. Em qualquer outra cidade do mundo, a prefeitura zelaria para que fosse a mais bela e nobre das áreas urbanas, à beira-mar plantada. Na Bahia, virou o símbolo da desorientação e da ineficiência administrativa.
Zonas de densa vegetação são hoje devastadas com o consentimento da prefeitura, tal como ocorreu com o Horto Florestal (li protestos em A TARDE), para dar lugar a gigantescos espigões, que, aliás, marcam agora, na atual gestão municipal, todos os pontos da cidade, gerando um aspecto atordoante para o visitante e torturante para o morador. Que será do futuro da cidade diante desse caos anunciado? O que a Bahia tem hoje de melhor deve exclusivamente à iniciativa privada, a exemplo do magnífico Salvador Shopping e outras obras enriquecedoras do tecido urbano, responsáveis pela dinamização dos acessos viários, pois a prefeitura, no particular, já no segundo mandato de João Henrique, nada fez de significativo. Não foi capaz sequer de aperfeiçoar o escoamento do tráfego que sai do shopping na direção da Avenida Tancredo Neves, outra área prematuramente degradada, pois, longe de ser a grande avenida de convivência social da Bahia moderna, é apenas uma estrada de rodagem de segunda categoria, frequentemente tumultuada (como toda a cidade) por um tráfego desordenado e infernal.
João Ubaldo Ribeiro me confessou que não vai mais à Bahia porque não há mais ruas para andar. Acha que a cidade ficou intransitável.
Salvador não é mais uma cidade para pedestres.
Não espanta que o Tribunal de Contas tenha rejeitado, unanimemente, as contas de João Henrique. Em suma, o prefeito, do qual tanto se esperava como liderança política nova, paga hoje o preço de ter eliminado da sua convivência elementos que foram decisivos para a sua condução ao poder e seriam relevantes, sem dúvida, para o seu desempenho. Mal dirigida, a nau municipal afunda, com a cidade levada no torvelinho do caos urbano e da falta de planejamento.
*João Carlos Teixeira Gomes é Jornalista, membro da Academia de Letras da Bahia. Foi editor do Jornal da Bahia
**Artigo publicado originalmente no jornal A Tarde