sábado, 16 de maio de 2009

Quem fica parado é poste!

Angelina Bulcão Nascimento
Sobre as recentes manifestações de revolta em vários bairros de Salvador, como ocorreu em São Cristóvão, não temos análises nem pesquisas de estudiosos, que apontem para uma mudança de comportamento da população acusada de conformismo. Serão fatos isolados? Se a mudança é ocasional, o futuro dirá. Pois a fama do baiano sempre foi de acomodado, preferindo engolir o sapo a reivindicar. Não conheço estudos a respeito da dificuldade das pessoas não reclamarem seus direitos, dos mais simples aos mais graves. Descrédito? Descaso? Preguiça? Vergonha? Cansaço? Hábito entranhado? Tolerância mil? Medo de ser chato ou antipático? Ninguém ainda reclamou! É réplica comum às raras queixas provocadas por algum produto com defeito, ou algum prato de restaurante mal–feito. Em geral, o baiano não reclama. Mas também não volta. Antes mesmo da propalada crise, não foram poucos os restaurantes, lanchonetes, lojas fechados, aumentando o nível de desemprego. Há quem diga que, em nossa terra, os locais entram na moda e rapidamente saem. No início, todos cheios, fazendo furor, filas de espera. E depois, o esvaziamento, especialmente se o serviço e o que for oferecido não for muito especial. Este tipo de comportamento conformista é mais difícil de entender, quando se trata de exigências relativas à conservação da própria vida. Todo ano, quando chove, encostas caem, casas desabam, carros ficam submersos, arrastões acontecem em engarrafamentos quilométricos, pessoas morrem e dão graças aos céus quando enfrentam ‘apenas’ a perda dos seus lares. Assistimos, ao vivo e a cores, cenas filmadas das tragédias, lamúrias, resignação, e nenhuma iniciativa para resolver o problema crônico, ou reivindicações sérias e organizadas, para que os órgãos responsáveis tomem providências. Mais fácil afirmar que foi a vontade de Deus. Espectadores se comovem, muitos enviam alimentos e roupas, e logo esquecem, pois o permanente verão baiano reaparece. Rapidamente voltamos à idéia de somos um país tropical, abençoado por Deus. Não temos neve, furacões, ciclones, maremotos. Ainda! Mas temos árvores ocas caindo, ameaçando pedestres e carros, graças à gula dos cupins. Temos violência urbana, falhas de atendimento médico, salas de aulas precárias, que não dependem da natureza, e também continuam sem solução. O tema do conformismo aparece na imprensa, em artigo assinado por João Carlos Teixeira Gomes, ‘nosso’ Joca, em ‘A Tarde’ do dia 14 p. p. intitulado Vem quem quer . Escreve o autor: " Claro, protestar para quê? Temos de aceitar os fatos como são. (...) é assim, a grosso modo, o brasileiro. Passivo. Envergonhado de gritar de público diante das injustiças ou dos prejuízos que lhe causam. (...) No coletivo, é um ser resignado ". O artigo nos mostra que o conformismo não se limita aos baianos, como tantos apostam. Apelar pelos direitos, parece ter se transformado em uma forma de agressão. Joca conta que pagou mico, no Rio, ao cobrar bom atendimento, em ocasiões em que idosos estavam sendo indevidamente tratados. E qual não foi sua surpresa ao escutar de uma velhinha: Meu senhor, vem quem quer, não é verdade? Conta também que, de outra vez, ao alertar para o perigo de um elevador por demais cheio, ouviu de outra velhinha: “Para de falar, chega, chega, o senhor está aqui espalhando terrorismo!” Difícil explicar este fenômeno que deve escandalizar estrangeiros, pois estes, segundo dizem, estão sempre prontos a exigirem bom funcionamento, bom atendimento. Eu mesma tive oportunidade de, na Inglaterra, vivenciar um exemplo: havia colocado uma moeda numa máquina de refrigerantes de hotel, e a máquina não funcionou. Uma velhinha, que estava ao lado, ficou espantada de eu desistir, e não pedir de volta a moeda. Eu repliquei que eram apenas centavos. Ela, então, abriu a bolsa, achando que eu não havia compreendido, e sacudiu as moedas exclamando enfaticamente: money! certamente criticando alguém que parecia não valorizá–lo.Tive que prometer que iria reclamar, só para tranquilizar uma velha senhora agoniadíssima. Desconfiando de que eu não pretendia fazer nada, ela arrancou uma página de um bloquinho que carregava na sacola, e escreveu em letras grandes: out of order pendurando o pequeno cartaz na máquina grevista. E saiu muito empertigada, com ar de quem cumprira um dever cívico. Motivada por uma simples moedinha... A impressão é de que, além do receio de ser chato ou rabugento, está havendo uma aversão generalizada a cobranças, queixas, reclamações, sejam lá do tipo que forem. Mesmo que dirigidas a quem os está prejudicando. Em contrapartida, os silenciosos prejudicados queixam–se entre si ou aos seus analistas. Poucos aguentam tomar diariamente conhecimento de crimes, violência urbana, corrupção, cinismo. Em contrapartida, vivem assustados, ou transformam as críticas em humor, que espalham pela Internet. Volto ao artigo citado: “Vem que quer! Quando ouço ainda hoje estas palavras, que ressoam como uma maldição em meus ouvidos inconformados, lembro–me sempre da bela e poderosa frase, segundo a qual um povo que não luta pelos seus direitos verdadeiramente não merece tê–los. Assino em baixo”. Assinando, também, em baixo do texto de Joca, lanço a pergunta neste blog intitulado SALVADOR DO FUTURO. O que fazer para que, no futuro, o povo de Salvador saia da apatia, descubra fórmulas sem violência para ter assegurados seus direitos de cidadão? Admitimos que reclamar é necessário, mas não basta. Pode ser, no entanto, um indício de insatisfação, que dê pistas aos responsáveis interessados no bem comum. Por isso, mesmo não tendo fácil acesso às camadas menos favorecidas economicamente, este blog vem sendo um espaço para a expressão de idéias relativas aos problemas de nossa cidade. Sugiro, pois, que seja cada vez mais ampliado o número de pessoas que apresentem sugestões não utópicas, viáveis, para os problemas que nos atingem, e possíveis de serem realizadas, pelos que não desejam virar postes. Lembrando que até estes podem cair, com uma ventania mais forte...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Definição no porto

Levi Vasconcelos
O ministro Pedro Brito (foto) da Secretaria Especial dos Portos, ligou para Jaques Wagner e bateu o martelo: vai viajar com Lula hoje e, assim que voltar, nomeia José Moniz Rebouças, o indicado de Otto Alencar, para a direção da Companhia das Docas da Bahia (Codeba).
A notícia exatamente no dia em que instituições como a ACB (Associação Comercial da Bahia), ABTP (Associação Brasileira dos Terminais Portuários) e Sindopsa (Sindicato dos Operadores Portuários de Salvador) defenderam a permanência na Codeba do atual presidente em exercício, Newton Dias, que lá está desde que Marco Antônio Rocha, indicado de Lídice da Mata, pediu demissão por não concordar com a forma como o governo quer conduzir a ampliação do Porto (é a favor de nova licitação e não o aditamento do contrato que beneficia o Tecon, atual operador). Dizem os representantes dessas entidades que Dias foi quem mais tempo ficou no cargo, que os portos baianos vivem um momento crítico (o volume de cargas caiu 28,3% no trimestre) e o tratamento da questão deve ser técnico e não político.
Santa ingenuidade. O governo baiano iria abdicar de nomear o novo diretor? Pois sim...
Publicado no Jornal A Tarde - Tempo Presente

MP entra na briga

O Ministério Público Federal entrou na briga do Porto de Salvador, travada entre o Tecon e a maioria das outras operadoras. Instaurou inquérito para apurar a suposta violação do princípio da livre concorrência, pela Codeba. A razão da polêmica está na forma como o governo federal vai tocar o projeto de ampliação do Porto. Uma opção é fazer licitação, e a outra é aditar o contrato do Tecon, que já controla a parte ativa hoje. O governo inclina-se pelo aditamento, os outros operadores reagem. Eis a questão.
Notícias publicadas, no jornal A Tarde.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Mar, Navios e Portos

Oliveiros Guanais
O mar sempre foi estratégico para os homens e nações situados à sua beira. E foram justamente as nações marítimas, mesmo pequenas e frágeis, que avançaram à conquista de territórios distantes, descobrindo terras e matando ou escravizando seus antigos moradores.
Percebendo, antes mesmo de Pompeu ter avisado que navegar é preciso (navigare necesse...), os homens já tinham se aventurado ao mar em busca de mercadorias para o seu sustento.
E, claro, antes dos navegantes, surgiram as embarcações. E as embarcações pediram lugares de chegada e de partida, e para esse ir e vir foi preciso que se construíssem os portos, estações mais antigas inventadas pelo homem.
O mundo desenvolveu-se e coisas novas chegaram, para andar por terra ou voar pelos céus, mas as embarcações não cederam seu espaço, apenas aperfeiçoaram-se para a competição.
Tornaram-se grandes para grandes cargas. Luxuosos para as grandes exigências dos viajantes ricos. E numerosos para atender à demanda do mundo crescido, que faz dos navios o meio indispensável para cruzar os mares e chegar a outros continentes, levando o que se produz num lugar e carregando o de que se precisa noutro.
O comércio marítimo acompanhou a história das civilizações, e hoje está com exigências maiores do que antes, bastando dizer que 95% do comércio brasileiro além fronteiras se faz por via marítima.
Temos visto na imprensa - e este blog do Osvaldo tem dado atenção especial ao tema - que os portos precisam de evolução e eficiência para que as numerosas necessidades de atracação de cargueiros de grande calado não encontrem impedimento em estruturas portuárias inadequadas.
Podem as cidades desejar a chegada de grandes aeronaves se os seus aeroportos não oferecerem pistas de tamanhos apropriados para aterrissagens e decolagens? Todos sabem que não, porque uma pista curta pode resultar em catástrofes que atingem vidas humanas, e isso justifica não só a comoção que geram como o martelamento persistente da mídia sobre o assunto.
Mas o problema dos portos é silencioso. Se navios não podem atracar no porto de Salvador ou de Aratu, ou o fazem com atraso e custos operacionais elevados, isso é um problema de natureza comercial e econômica, e a população fica de fora como se não lhe dissesse respeito.
Se os cargos de direção da Codeba, a começar pelo de presidente, não são preenchidos com a celeridade necessária, isso é problema restrito e só conhecido por notícias ligeiras em jornais, e fica de lado a magnitude do problema que isso representa.
A população deve esperar, dos técnicos e especialistas em portos, as soluções para os problemas estruturais e físicos que precisam de respostas. Dos gestores encarregados de administrar o funcionamento das organizações portuárias, a competência e dedicação a serviço do bem público. Dos políticos, o necessário interesse por esse problema de importância magna para a nação, que não pode ficar, com mais de oito mil quilômetros de costa marítima, com esse sistema de transporte bloqueado por limitações que precisam desaparecer, mesmo que à custa de muito esforço e dispêndio.Mas o problema é que os portos não falam, como falam as rodoviárias e os aeroportos, lugares em que as pessoas se concentram e fazem sua grita, quando são desatendidos.
Vale aqui o comentário de Victor Hugo em um dos seus mais belos romances: “ai dos que são mudos”.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Minha querida rua Treze (2ª parte)

Almir Santos
Engenheiro Civil
Cultiva o mar, a lua, a musíca e
as histórias da cidade do Salvador

.....temos muitas histórias pra contar, muitas recordações e muitas alegrias. Era uma rua pequena. Grandes eram os seus moradores que formavam praticamente uma família.....

Algumas mudanças viriam depois. Seu Arnaldo construiu uma casa num terreno da esquina e mudou-se. Dava a frente para a Garibaldi, a de número 71. Era despachante aduaneiro, tinha uma boa condição financeira. Chegou a ter sete casas alugadas além de uma para veraneio em Itapagipe.
Foi o primeiro da rua a ter um carro particular. Um Ford Anglia, de fabricação inglesa, cuja placa era 230. Nessa época o Botafogo do Rio de Janeiro costumava entrar em campo com um mascote. Um cachorrinho branco e preto chamado Biriba. Por isso o carro de seu Arnaldo foi apelidado de Biriba.
Foi o primeiro também a fazer uma grande viagem, saiu de Salvador de trem até Juazeiro, pegou um navio gaiola, subiu o São Francisco até Pirapora, depois foi ao Rio de janeiro, retornado a Salvador de navio pela Costeira.
O segundo carro da rua foi o de Arivaldo, genro de Seu Fausto, que já tinha mudado para a casa n.° 13. Um Chevrolet 40, placa 1547. O nosso foi o terceiro. Um Austin modelo A 40, placa 620.
Mais ambicioso, seu Arnaldo foi à Europa numa excursão em 1950, o Ano Santo.
A Rua Treze era uma transversal da rua Garibaldi. Por isso aqueles moradores próximos à rua Treze faziam parte da comunidade.
Além de Seu Arnaldo, já morando no 71 na Garibaldi, moravam Seu Romualdo, Seu Eugênio Tranquilli, Seu José Bahia, Jaime Carneiro.
Não se podem esquecer aquelas vizinhas bonitas: Dona Carmosina, Dona Hilda, a alemã, e Dona Valdete.Era uma família, onde todos se conheciam e todos se respeitavam.
Ayrton, meu irmão mais próximo em idade, era meu parceiro. Muitos descendentes daquelas pessoas viriam a ser os nossos primeiros amigos. Entre eles, Milton Chagas, Dega, Valter, Valdemar, Francisquinho, Dedeco, Lulu, Abilinho, Raimundo Barreto...
Milton nos ensinou a jogar botão e nos incentivou a gostar de futebol. Comprava semanalmente as revistas O Globo Esportivo e o Esporte Ilustrado. Lia, depois passava para nós. Era torcedor do América, depois mudou para o Vasco. Na Bahia torcia pelo Ypiranga.
Entusiasta pelo jornalismo, Milton Chagas editava um jornal manuscrito dedicado ao esporte que informava sobre um campeonato de botões de uma liga dos Barris e um futebol de várzea do mesmo bairro. Sua vocação se concretizou com o ingresso na Rádio Sociedade onde tinha um programa diário às 11:00h, denominado Cadeira de Engraxate.
Dega, seu irmão era muito bom de bola, mas não tentou se profissionalizar.
Valter e Valdemar eram netos de Seu Fausto. Tocavam violão e violino. Fizemos com eles muitas serenatas.
Os moradores iam se renovando. Uma das mudanças foi o jovem Fred Meting que veio morar na casa onde morou Seu Epifânio. Descendente de alemães, Fred se destacava por contar suas aventuras. Falava muito de cinema, montarias, brigas, namoradas e suas primeiras inserções no mangue. Neste ponto, Dega também era craque.
No decorrer dos anos, outros tantos nomes viriam fazer parte da comunidade como Jorge Caveirinha, os irmãos Fortes que foram chegando, os Gavazas, Nilton Tranquilli. Zezinho de Dona Mimi, Heralda, Osman, Maria Bahia, Lia, Ciro, Julimar, Naná, Neínha e tantos outros...
Nossos primeiros contatos com a bola de meia foram na rua com os gols marcados com duas pedras.
Nessa época outros meninos começaram a fazer parte dos babas de rua. Ivan Lima, Fifia, Manoel Berro Grosso, Herádio, Evandro Caranguejo, Cadu, Zé Cutia...
Outro bem sucedido foi Ivan Lima. Nas férias minha mãe permitia a realização do campeonato de botões. Organizávamos um campeonato com os sete clubes que disputavam o campeonato baiano. O meu time era o Botafogo. Ayrton Vitória, Dega Ypiranga, Ivan Galícia, Fifia Guarani, Chico Fortes Bahia e Almir Fernandes, (único convidado, pois não era da rua) São Cristóvão. O primeiro campeão foi o Botafogo.
Ivan tinha um vozeirão e narrava o jogo de botão como se fosse uma partida de futebol. Quando se entusiasmava, minha mãe, que sempre tinha pelo menos uma criança dormindo, dizia: Ivan, baixe o rádio.
Muito esforçado. Filho de Dona Coló, uma baiana de acarajé, enteado de Adalberto Engraxate, procurou estudar. Ingressou garoto na Western Telegraf como estafeta.
Mas sua vocação se concretizou. Foi contratado pelo serviço de alto falantes A Voz da Avenida, logo passou para a Rádio Excelsior da Bahia. Nunca transmitiu um jogo na Bahia, mas fez sucesso como locutor esportivo na Rádio Poti da Natal e finalmente na Rádio Clube de Pernambuco, onde chegou a dirigir o Departamento de Esportes. Conheceu o mundo acompanhado a Seleção Brasileira e dirigiu o Geraldão (Ginásio de esportes Geraldo Magalhães) em Recife. Grande trajetória ! ! ! ( continua)

terça-feira, 12 de maio de 2009

Federação das Indústrias quer definição de nome para Codeba

Mais uma entidade torna pública sua preocupação com a instabilidade que ronda a Companhia Docas do Estado da Bahia (Codeba) nos últimos anos. Em entrevista exclusiva ao blog, o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Reinaldo Sampaio, classificou como “não conveniente” o impasse que cerca a nomeação do novo presidente da estatal responsável pelos portos de Aratu, Ilhéus e Salvador. O presidente interino Newton Dias completou cinco meses de mandato tampão, comprovando que a preocupação da Fieb tem fundamento.
“Considerando que a economia baiana responde por cerca de 50% do comércio internacional do Nordeste, a atenção e os investimentos por parte da União não só podem como devem ocorrer nos portos da Bahia. Até por isso, entendemos não ser conveniente o prolongamento da interinidade dentre outros aspectos, porque inibe ações de maior envergadura. Outro aspecto também indesejável é a chamada descontinuidade administrativa. E, sem dúvida e sem medo de errar, os portos da Bahia hoje apresentam insuficiências infra e superestruturais”.
Outro ponto polêmico que o vice-presidente da Fieb não se furtou a responder foi o interminável processo de discussão acerca da expansão do Porto de Salvador, em especial do que será feito com a exploração dos contêineres no maior porto do Estado. Empresários reclamam do monopólio da Wilson Sons, arrendatária do Tecon Salvador, e pedem que uma nova área seja licitada para que haja concorrência nas operações. Já o concessionário mostra-se interessado em ampliar o terminal , hoje sub dimensionado para receber os navios conteneiros em operação no Brasil (foto), restabelecendo o equilíbrio econômico financeiro do contrato. Neste caso, argumentam não ser exigível a abertura de concorrência pública.
“Esta é uma questão delicada e que ganhou dimensão maior que a sua importância. Mais importante que o modelo da estratégia da expansão é a visão de longo prazo e esta está abrigada no Plano Diretor Portuário da Bahia, que não tem sido objeto das reflexões necessárias. O Plano Diretor contempla a estratégia portuária da Bahia para os próximos 25 anos e nela está abrigada não só a expansão da Ponta Norte (novo terminal), mas a orientação para garantir a hinterlândia portuária para depois da expansão . A Bahia é o sexto estado mais rico do Brasil mas nem isso garante os investimento necessários em infraestrutura".
“A acessibilidade é condição precípua de atratividade e garantia da competitividade. E os portos baianos apresentam insuficiências nos modais ferroviário e rodoviário. Questões que estão em vias de solução através de investimentos previstos no PAC. Até por isso queremos para a Codeba um líder com visão empresarial. A Codeba não deve e não pode ser uma empresa deficitária. Teremos em poucos anos o Porto Sul em nosso Estado, um complexo aeroportuário que acelerará o desenvolvimento da Bahia e exigirá portos públicos cada vez mais eficientes”, diz Reinaldo Sampaio.
Artigo publicado hoje no Blog Porto Gente

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Caymmi e o trabalho

Oliveiros Guanais
Trabalhar é criar, destruir ou transformar alguma coisa, pela inteligência, pela inspiração, pelo conhecimento ou pela força. Acho que esta definição é razoável. É indecência justificar a exagerada riqueza de uns dizendo que trabalham muito, como se o operário em construção não trabalhasse nada. A riqueza nada tem a ver com trabalho, mas com esperteza. Também é parvoíce ou má-fé considerar preguiçoso um homem de gênio e talento, como Dorival Caymmi, que produziu uma das mais belas obras musicais e poéticas do Brasil, tendo por alvo e beneficiária, quase sempre, a Bahia, a Bahia em que viveu a mocidade e guardou no coração. Caymmi, em sua fase ativa, cantou as baianas, Itapoã, a Lagoa do Abaeté, os coqueiros, o mar e os pescadores, colocando esta terra como fonte permanente de beleza e inspiração. Caymmi não foi vencedor quantitativo de criação, mas, de qualidade, sim. Foi o expoente da obra-síntese, pouca mas perfeita. Que Caymmi virou o símbolo nacional do charme e do dengo, vá lá, porque, afinal, ele era um artista. Mas que era o símbolo da preguiça é transferir para ele o que os paulistas dizem de todos os baianos, e isso parece coisa de meninos que procuram eximir-se de culpas transferindo para outros os defeitos ou erros que lhes são atribuídos. (Argumento da delação). Caymmi compôs pouco porque não trabalhou por encomenda, nem para atender aos pedidos do momento, nem pensou em ganhar dinheiro fazendo música. Para ele, “a gente faz [apenas] o que o coração dita”. Caymmi há de ser lembrado sempre, enquanto houver memória e sensibilidade para apreciação da beleza.(E, de sobra, deixou também para os seus filhos o dom divino da música)

Indicação do Blog : Projeto IAB Bahia - "Depoimentos de Arquitetos Baianos"

Dando seguimento às memoráveis palestras dos arquitetos João Filgueiras Lima, o “Lelé”, e David Bastos, o “Projeto Depoimentos de Arquitetos Baianos” promoverá, no próximo dia 12 de maio, às 18:30h, no Auditório I da Faculdade de Arquitetura da UFBA, encontro com a arquiteta baiana Naia Alban.
Naia Alban Suarez se graduou em arquitetura pela Universidade Federal da Bahia em 1985, e a partir de 1987 se transferiu para Madri, onde desenvolveu sua tese de doutorado sobre a morfologia urbana de Salvador. Após a defesa da tese e o retorno para Salvador, em 1994, têm atuado como pesquisadora e professora da FAUFBA, onde atualmente ensina Ateliê de Projeto no quarto ano e coordena o Trabalho Final de Graduação. Paralelamente às atividades acadêmicas, lidera com Moacyr Gramacho o escritório Sete43 Arquitetura, tendo desenvolvido dezenas de projetos arquitetônicos e urbanísticos em diversas áreas, bem como projetos de cenografia e de arquitetura de eventos. Participou de diversos concursos e premiações nacionais e internacionais, destacando-se o 1º lugar na categoria Arquitetura de Espaços Urbanos na VI Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Urbanismo de Lisboa em 2008 pelo projeto da Praça Turca de Juazeiro e a seleção dos projetos da Casa Curva (2002) e da Casa Muro (1998) para participar da Exposição Comemorativa de Arquitetura do Ano do Brasil na França em 2005.
O Projeto “Depoimentos de Arquitetos Baianos” é uma iniciativa do Departamento da Bahia do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-BA) e da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (FAUFBA), marcando os cinqüenta e cinco anos de fundação do IAB-BA e os cinqüenta anos de criação da FAUFBA. Entre março e dezembro, em uma terça-feira a cada mês, o IAB-BA e a FAUFBA promoverão uma palestra com um arquiteto sediado em Salvador, tendo como tema a sua trajetória profissional. Para os jovens estudantes, uma oportunidade de travar contato pela primeira vez com a obra de experientes profissionais; para os arquitetos, a possibilidade de escutar, de um colega, um relato das suas experiências.

Fonte: IAB - Bahia

domingo, 10 de maio de 2009

Minha querida rua treze (1ª parte)

Almir Ferreira Santos
Engenheiro Civil
Cultiva o mar, a lua, música e as histórias da Cidade do Salvador


A origem do topônimo nunca me foi explicada convincentemente. Alguns dizem que todo o dia 13 de maio, Seu Fausto, um misto de músico, mestre de obra e marceneiro, reunia os músicos da família, que eram muitos, e amigos para uma apresentação. Há outras tantas histórias, mas de fato, quando me entendi já havia a placa Rua Souza Uzel colocada justamente na minha casa, n.° 6, a primeira da rua.
Confesso que não sei quem foi o homenageado que deu nome à rua, mas há registro na história de Salvador de uma escritora Carmosina de Souza Uzel, filha de Francisco Carlos de Souza Uzel.
Seu Fausto era o decano da rua. Morava na casa n.° 20. Lembro-me bem do seu aniversário. 10 de dezembro, sempre comemorado festivamente.
Os meus pais foram morar lá em 1933, numa casa construída para se casarem. Lá nasceram e cresceram seus 13 filhos. Norma, Almir, Ayrton, Norma Maria, Noélia, Antônio, Nely, Ari, Adi, Nildes, Ademir, Alvinho e Nubinha. Só nos mudamos em 1973.
Por isso temos muitas histórias pra contar, muitas recordações e muitas alegrias. Era uma rua pequena. Grandes eram os seus moradores que formavam praticamente uma família.
Lembro bem dos nossos primeiros vizinhos: Seu Arnaldo e Dona Alice. As nossas casas eram separadas por um muro baixo que dava para minha mãe, Núbia, e Dona Alice baterem um papo diário, atualizando os acontecimentos.
Conta minha mãe uma história que o primeiro nome que falei, para orgulho de Dona Alice e ciúme dela, foi Lice.
A filha Marina era muito ativa. Gostava muito de cantar, pular corda, correr, brincar de roda, andar em alta velocidade no velocípede.
Organizava trezenas de Santo Antônio, cujas velas de tostão eram colocadas em castiçais improvisados. Tampas de cerveja.
Depois vinha a casa de Seu Epifânio, (um empregado da Companhia Linha Circular), Seu Barreto, Seu Anísio (também empregado da Circular), Seu Pacífico, Seu Fausto, Seu Anfilófio (Seu Tatá)...
Uma coisa que me marcou nessa época foi Doralice, filha de seu Epifânio, cantando A VIDA É UMA ROLETA e pedindo-me para cantar O VAGABUNDO de Vicente Celestino. Barbaridade ! ! !
Do outro lado da rua moravam seu Manuel, cuja casa foi desapropriada para alargamento da rua. Com isso a primeira casa desse lado ficou sendo a de dona Damiana, embora sua fachada desse para a Rua Garibaldi.
Em seguida havia a casa de Dona Flora, mãe de Mocinha. Era uma casa de taipa coberta com pedaços de telha e zinco, muito pequena situada numa baixada. Depois, o n.° 13, de propriedade de Seu Fausto que alugava. Sempre estava mudando de inquilino.
O 15 era o armazém e residência de Seu Abílio, um português, casado com Dona Alice, que viria ser madrinha de um dos meus irmãos.
No n.° 17, morava Dona Menininha, mãe de Joaninha que mais tarde casaria com meu tio Edmundo.
No 19, Seu Joaquim, um sertanejo muito engraçado, em cuja casa tomei o primeiro pileque de minha vida numa festa de São Pedro. Falava demais, por isso foi até preso político.
Mais adiante moravam Seu Jorge, Seu Miguel, Seu Francisco Bocão, Argemiro Sapateiro, Tenente Artur Chagas, Seu Cristóvão, dono de uma pequena venda, Seu Mota, Dona Dudu, Seu Macedo e Chico Português, estes, donos de hortas. Paulo Lima a quem meu pai costumava visitar aos domingos para tomar um copo de cerveja era o mais distante morador.
Transversal à Rua Treze era a subida para o Alto do Candomblé, hoje chamado Alto do Gantois.
Lá moravam Seu Santinho, (que disputava com meu pai as pegadas de arraia), Seu Lili (o pintor), Zeca das Gueixas, (um carnavalesco que organizava o cordão As Gueixas em Folia) Zeca Maria, Honório, Dona Catarina.
Nezinho era filho de dona Catarina. Ele entrou na Marinha e foi à segunda guerra mundial. Sempre aplicado e com o tempo de guerra contado em dobro conseguiu, muito novo, entrar para a reserva como tenente. Um vencedor. Um exemplo de pessoa. Por sinal tomou-me para padrinho do seu filho Sidnei.
Honório trabalhava na marinha mercante. Muito simpático, destacava-se pelo fato de falar inglês e gostar de praticar atividades físicas. Grande figura.
Esse era o desenho mais remoto que tenho dos moradores da rua quando comecei a me entender. (continua...)

sábado, 9 de maio de 2009

Salvador, a cidade das chuvas

Antônio Risério
Vamos direto ao assunto. Chega desse papo furado de que a Cidade da Bahia é sinônimo de sol. O que mais temos aqui são chuvas. Logo qualquer prefeito medianamente inteligente tem de ser obrigado a pensar no seguinte. Esta não é uma cidade que precisa se fantasiar para o sol. Mas sim, se preparar para as chuvas.
Salvador é uma cidade com uma espantosa capacidade de produzir discursos ilusórios sobre si mesma. Discursos míticos e mistificadores. Nestas direções agem conjuntamente (embora não necessariamente de forma coordenada ou pelas vias da cooptação) o aparelho estatal, os intelectuais e muitos artistas. Assim foram criados muitos mitos baianos. E que conseguiram se nacionalizar pelo simples e eficaz fato de que conseguiram fazer com que os próprios baianos acreditassem nesses mitos.
A Bahia emitiu para o Brasil a mensagem de que aqui vive um povo ensolarado, preguiçoso, impontual, relaxado, sensual e feliz. Este foi um discurso elaborado simultaneamente, por políticos, gestores públicos, empresários, escritores e músicos populares. Mas resiste o mito à menor análise dos fatos? Claro que não.
Caymmi virou o símbolo nacional do charme, do dengo e da preguiça da Bahia. Mas quem disse que baiano é impontual e preguiçoso? Se de fato fosse, o Pólo Petroquímico de Camaçari simplesmente não funcionaria. Baiano trabalha – e muito. Caymmi nunca foi a regra. Mas, sempre a exceção. Os baianos que acreditaram nessa história estão a ver navios. Gostamos também de acreditar que fazemos sexo como ninguém. É outro mito. Fazemos sexo como o fazem muitos outros povos. Se baianos fosse assim tão gostosos, muitas das mulheres aqui nascidas não estariam vivendo hoje em outros países – da Europa ao Canadá – e alegres e felizes da vida com os maridos que escolheram ter.
Os mitos da preguiça e da sensualidade, todavia, não são diretamente prejudiciais à nossa vida cotidiana na cidade. Já o mito do sol sim. A gente se comporta como com se em Salvador, o sol reinasse o ano inteiro. E não é o que acontece. O sol, aqui, é um ilustre passageiro visitante. Um visitante que nunca se dignou a se demorar no céu da cidade.
Mas gostamos de pensar o contrário. Achamos que vivemos sob o signo do sol. É uma tremenda mentira. Salvador é uma das cidades com os mais altos índices pluviométricos do País. Chove aqui o ano inteiro. O sol, entre nós, tem um breve reinado. Vai, no máximo, de novembro a fevereiro. Ainda assim, em meio às chamadas chuvas de verão. Durante o resto do ano, é chuva e chuva e mais chuva.
Esta é uma cidade de céu predominantemente cinzento. De ruas e becos alagados. De enxurradas descendo dos morros. De riachos transbordando. De casas se movendo perigosamente nas encostas. De águas arrastando barrancos e barracos. De dezenas e dezenas de deslizamentos de terra. De crianças encharcadas, tossindo, chorando, pela noite fechada, cheia de lama.
E, no entanto, continuamos a acreditar que Salvador é a cidade do sol. É impressionante a facilidade com que mentimos para nós mesmos. Foi por isso mesmo que fiz a minha novela A Banda do Companheiro Mágico se passar sob um aguaceiro. Onde entre outras coisas, escrevi:
“Chove no Brasil, Atlântico Central. Chove mais ainda no recôncavo baiano. Chove ainda mais na capital baiana. Chove sem cessar na falha geológica de Salvador. Chove, chove, chove. Cidade de chuvas densas. Cidade das águas bruscas.”
Todo ano, entretanto, as pessoas me dizem: “Está chovendo demais”. Não, não está chovendo demais, está chovendo como sempre. Como sempre chove todo ano. O problema é outro. É que todo mundo embarcou na canoa furada ideológica da cidade ensolarada. Mas onde é mesmo que fica esta Salvador, cidade do sol? Aos mais de 50 anos de idade, tendo nascido aqui, ainda não tive o prazer de conhecê-la. Cidade do sol, meus amigos, é Fortaleza. Salvador, não. Nunca.
É estranho que os moradores locais, abrindo guarda-chuvas e metendo o pé na lama, não vejam isso. Mas muito mais estranho ainda é que administradores públicos caiam também, e com gosto, neste conto do vigário do sol. Eles deveriam ter um mínimo de sensatez e realismo. E, em vez de executar frescuras de veraneio, fazer coisas mais sérias para as chuvas.

Artigo publicado originalmente no jornal A Tarde

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Dois extremos das encostas: Pelourinho e comércio

Gey Espinheira
O Centro Histórico de Salvador se apresenta nas duas extremidades da encosta, tanto no bairros do Pelourinho na Cidade Alta, como no bairro do Comércio na Cidade Baixa, sendo a ligação entre os dois níveis da cidade feita através de ladeiras, elevadores e planos inclinados. O bairro do Comércio, na parte baixa da cidade, tem como sua principal característica a função portuária. Sucessivos aterros afastaram o mar de trapiches, ancoradouros e armazéns, modificando a dinâmica do bairro. Cenário de um incrível contraste entre construções de diferentes épocas, organizadas a partir da sua cronologia, quanto mais próximas da encosta, mais antigas e de arquitetura mais rebuscada. Espaço de becos, praças e mercados que abrigam ritmos antigos, e personagens que se estabelecem na rua para diversas atividades: engraxates, amoladores de objetos, e vendedores ambulantes.
O Pelourinho, na parte alta da cidade, é um lugar de marcante identidade afro-brasileira e sofisticado complexo arquitetônico colonial, antigo centro da capital da colônia. Sendo um dos primeiros núcleos centrais das cidades Latino-Americanas a ser objeto de processos de requalificação urbana, para a preservação de valores e patrimônios culturais. A expansão urbana da cidade desloca suas funções centrais para outras regiões, esvaziando o centro antigo, e alterando suas funções econômicas e características sociais. O primeiro momento, no século XIX, com a implantação do sistema de transportes, que proporcionou um modelo de ocupação da parte alta e sul da cidade por camadas de maior poder aquisitivo, para bairros próximos de praias, construídos por pescadores e veranistas.
O segundo momento, no século XX, com a transferência das funções administrativas do Governo do Estado para o Centro Administrativo da Bahia na Avenida Paralela, e o deslocamento do centro de comércios e serviços para a região do Iguatemi e Avenida Tancredo Neves. Em um curto período de tempo mais de vinte mil funcionários governamentais são transferidos de seus locais de trabalho desta zona da cidade.
A consequência é a substituição da população do centro antigo por uma de menor renda, ocasionando o aumento da densidade e a deterioração dos casarões históricos, sendo a função habitacional destinada apenas a uma população de desafortunados
[1].[1] “Em que diferem os estabelecidos dos desafortunados? Os primeiros são resistentes e emergentes, os segundos são produtos de uma condição de impossibilidades de realização”.
ESPINHEIRA, Carlos Geraldo D’Andrea. Identidade de Salvador: signos e vida cotidiana da Cidade Baixa – o turismo, a cultura e a vida social dos estabelecidos e dos desafortunados II. UFBA / PIBIC: 2005.

Podas mal feitas na cidade

Reinhard Lackinger
O que de cara chamou a minha atenção na Bahia, há 40 anos, foi o fato de tarefas subalternas e secundárias como tomar conta de crianças pequenas e preparar a comida em nossa casa, sendo executadas por gente com quase nenhum preparo. Foi um choque perceber as diferenças sociais da terra e também as diferentes importâncias que se davam aos serviços mais simples...
Ouço falar de trabalhadores erguendo edifícios e casas, nas quais jamais poderão morar... escolas, nas quais os filhos dos pobres jamais poderão estudar...Um discurso que em época de política faria qualquer palanque estremecer.
O problema é que as mãos dessa gente não manuseia apenas tijolos e sacos de cimento... devidamente supervisionado por engenheiros e mestres de obra... Há quem ande armado de motoserra e de facões. Ferramental usado por aqui para podar árvores e arbustos.
Imagino, que na rua em que moram os que podam as árvores em nossos bairros de IPTU caro, tenha muitos poucas árvores para serem podadas, quiçá nenhuma. O meu preconceito e o meu prejulgamento politicamente incorreto me fazem achar, que essa gente que poda as árvores em nossas ruas, pouco está se lixando e não está nem aí para o estrago medonho que apronta no verde de nosso meio ambiente. É o nosso bairro residencial... não é deles... não é dos que executam a poda.
Os que podam nossas árvores não tem nenhuma relação com a Barra por exemplo... minto... Eles podem até fazer parte do exército que invade nosso bairro em dias e noites de eventos que o poder público costuma promover no Farol da Barra e na Praia do Porto da Barra... às nossas custas...
Pois bem, toda vez que ouço os uivos de uma motoserra, eu me arrepio e vou logo ver onde o crime ambiental está ocorrendo... impotente diante dos estragos, montes de galhos no chão, em cima de caminhões e e caras de gente estúpida.
Pois é... além do preparo da comida em nossas casas e dos cuidados com crianças pequenas por gente sem preparo, a gente vê trabalhadores podando as árvores de nosso bairro sem nenhuma técnica... e se me desculparem a minha paranoia... fazendo o serviço com extrema má vontade.

PS. Sou morador da Barra. Seria bom se o pessoal de Parques e Jardins desse uma olhada nas mudinhas miudinhas plantadas ano passado ao longo do novo passeio da orla da Barra. Há muito capim, muito mato para pouca árvore... e há mudinhas que não tem cara de quererem vingar

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Políticos adoecem?

Oliveiros Guanais
Ninguém gosta de adoecer, mas para algumas pessoas a idéia de doença causa pânico. Por categoria, pode-se incluir quase todos os políticos. Julgam eles que suas carreiras, sua imagem perante o público não pode ser arranhada por algo que passe de um resfriado comum. Doenças com maior potencial de gravidade, não. Essas têm de ser ocultadas. Isto vem a propósito do internamento do prefeito de Salvador, ontem ( 06/5/09), no Hospital Aliança, fato cuja divulgação não foi sonegada ao povo. Ainda bem. João Henrique (foto), parece ser de natureza frágil e sensível, e não suporta grandes desafios. As enchentes de Salvador transbordaram as débeis paredes de sua resistência. Mas ele foi sensato, procurou um Hospital e deixou que o assunto fosse do conhecimento de todos. Isso pode parecer elementar, mas não é, porque políticos que estão no picadeiro escondem doenças, mesmo que elas sejam evidentes e que venham a matá-los em pouco tempo. Alguns exemplos? Petrônio Portela tinha grandes possibilidades de chegar à Presidência da República e negou o infarto que o acometeu numa viagem ao interior do Mato Grosso e que foi diagnosticado clinicamente pelos médicos. Petrônio tomou o avião e desfilou com elegância em sua chegada no aeroporto de Brasília, cumprimentando com pose imperial os que foram recebê-lo. Morreu logo depois, desse infarto. O senador Antônio Carlos fez tudo para esconder o seu, e mais tarde o de seu filho, chegando a chamar os médicos de charlatões. Tancredo Neves não podia adoecer, porque no dia seguinte ia assumir a Presidência da República. Deu no que deu. E os exemplos poderiam ir muito longe, mas fiquemos apenas nesses, acrescentando um caso antigo, que tem analogia com o de Tancredo, só que um cirurgião de coragem impôs a sua orientação. 1902. A coroação do rei Eduardo VII estava marcada para dois dias depois. Festa organizada, realezas e nobres de diferentes países já se encontravam em Londres para a festa quando os males que o futuro rei apresentava permitiram o diagnóstico de apendicite. O rei recusou-se a operar, dizendo que uma coroação não podia ser adiada como uma reunião de tiro ao alvo. Frederiks Treves, o cirurgião, respondeu-lhe: ‘”Então, sire, o senhor irá `a abadia como um cadáver”. O rei foi operado logo e a coroação deu-se dois meses depois.
Se o Dr. Tancredo tivesse a sorte de encontrar um cirurgião como Treves...

Mais uma " vítima" (?) das chuvas em Salvador.

Osvaldo Campos: bahianews
Prefeito João Henrique é internado no Hospital Aliança

A direção do Hospital Aliança ainda não divulgou boletim médico sobre o estado de saúde do prefeito de Salvador, João Henrique, que foi internado às pressas ontem (6) à tarde, depois que se sentiu mal após entrevista coletiva com o Ministro Geddel, na sede da Secretaria de Infraestrutura. A sede da prefeitura, o Palácio Thomé de Souza, foi interdidato pela DESAL, após o temporal de terça-feira.
Após voltar a acusar o governo estadual de "excesso de burocracia " para homologação da situação de emergência na cidade, o prefeito comentou: " Num momento em que você tem um governador e um prefeito que não são de um mesmo grupo político (?), a população acaba pagando por isso, por esta negligência histórica, crônica, emendou". Logo após o prefeito passou mal e foi conduzido ao hospital.
O prefeito deu entrada na emergência com forte dores no peito e pressão alta. O primeiro boletim médico, de acordo com o Aliança, só será divulgado a partir das 9 horas. O prefeito passou por uma bateria de exames e foi recomendado pelo cardiologista Maurício Nunes a permanecer no hospital. Segundo fontes próximas ao prefeito, ele está "sob forte stresse" e "comovido com com os estragos da chuva na cidade", " êle sofre muito com isso". Segundo o Secretário de Comunicação da prefeitura, o prefeito vem enfrentando uma dura rotina nos últimos dias em razão dos estragos causados pelas chuvas. Segundo a mesma fonte o mal estar do prefeito foi causado pela angústia de ver que o temporal causou mortes e fez desabrigados.
Foi cancelada a participação do prefeito no sobrevoo que faria hoje de helicóptero sobre Salvador e cidades da região metropolitana em situação de emergência, em companhia do Ministro da Integraçao Nacional.

Salvador: até quando vai perdurar a indiferença dos poderes públicos e da sociedade civil em relação ao meio ambiente?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Bondes, acidentes e ocorrências emocionantes

Almir Santos
Salvador. O bonde deixou saudades e recordações que nos marcaram.
Ganhou um vocabulário próprio, como paraquedista, saltar de frente, de costas, pongar, despongar, andar na cozinha, galinheiro, sossega leão, fazer terra e outras tantas expressões se incorporaram ao seu folclore.
Quantos namoros se iniciaram nos apertados corredores dos bondes.
O outro lado eram as ocorrências.
Um crime violento aconteceu na Ladeira da Barra. Um fiscal do bonde 701 obrigou um soldado de polícia, que tentava entrar pala porta traseira, descer e entrar pela dianteira, que era a forma correta de embarcar. O soldado irritado foi ao quartel, pegou um fuzil, esperou o retorno do bonde e atirou contra o fiscal. O fiscal se esquivou habilmente e Isaías, conhecido como Seu Nandinho, que não tinha nada a ver com o caso, que morava próximo nós foi atingido pela bala perdida e morreu.
Por causa de antigas divergências no trabalho o fiscal da Companhia Linha Circular conhecido como Bode Africano abateu a tiros o condutor em pleno 1.º Arco.
Acidentes ocorriam freqüentemente nas Ladeiras da Soledade, Praça, Cabula, Rua do Tijolo etc. Na Ladeira dos Bandeirantes o bonde n.º 220, linha 11-Brotas não atendeu o sinal num trecho de linha simples e bateu de frente no bonde que ia subindo. No choque um dos bancos girou e imprensou uma passageira que teve fratura de costelas.
Na Praça Municipal o bonde n.º 261, linha 5-Barris, descarrilou subindo a calçada da Sorveteria Cubana e por pouco não caiu na Ladeira da Montanha. Não houve vítimas.
Nas Sete Portas, próximo á Ladeira do Funil o bonde 289 que puxava um reboque bateu num caminhão, causando grandes estragos materiais.
O mais emocionante foi o que aconteceu na Rua Garibaldi. O bonde 173, linha 16-Amaralina fazia a última viagem por volta da meia-noite quando descarrilou e caiu totalmente numa ribanceira do lado da Rua da Lama (Padre Domingos de Brito). O bonde tombou de lado e uma senhora ficou presa numa das colunas. O primeiro trabalho, feito por um carpinteiro que morava próximo, foi serrar a coluna para resgatá-la.
Durante todo o dia seguinte tentou-se o resgate com o equipamento disponível da Companhia Circular, empresa concessionária, sem sucesso. Era tempo da segunda guerra e foi acionado um guindaste dos americanos que estavam instalados na Base Baker. Foi uma festa. O tráfego de bondes ficou interditado, pessoas se aglomeravam para apreciar com entusiasmo o espetáculo da operação.
Vendedores de sorvetes, pipocas, roletes de cana, baleiros, aproveitavam a oportunidade para aumentar as vendas dos seus produtos.De repente partiram-se os cabos do guindaste que tentava içar o bonde e a lança bateu da rede elétrica que se partiu. Foi um verdadeiro alvoroço. Gente se jogando do outro lado da ribanceira que parecia papel.
Da janela de minha casa na Rua Treze apreciava estarrecido o espetáculo. Seu Valdemar, o guarda civil 59, também espectador, tomou um chapuletada de um fio de alta tensão que se partiu e inexplicavelmente se salvou. Dois dias depois o bonde foi retirado, parcialmente desmontado. Na renumeração, completamente restaurado, o bonde sinistrado passou a ter o número 217

terça-feira, 5 de maio de 2009

Indicação do Blog - Exposição da obra de Carybé no MAM

Desde o dia 23 de abril, no Museu de Arte Moderna da Bahia, a exposição de obras de Hector Bernabó , o Carybé. A mostra reúne pinturas, esculturas, desenhos e gravuras que recontam a história deste argentino que adotou Salvador como morada e inspiração para sua obra. A temática afro-baiana foi uma constante no trabalho de Carybé, assim como, a sensualidade das mulheres baianas. A exposição comemora os 70 anos da primeira vinda do artista à Bahia e integra a programação especial de 50 anos do MAM, projeto que teve a liderança de Lina Bo Bardi, e de figuras de destaque do meio cultural baiano como Mario Cravo e Carybé.
Hector Julio Páride Bernabó, ou Carybé, nasceu em Lanús (Argentina) em 07 de fevereiro de 1911 e faleceu em Salvador, em 02 de outubro de 1997. Destacou-se pela arte figurativa brasileira, sobretudo a baiana, com motivos de mulatas lavadeiras, pescadores, e capoeiristas, por meio de estilo que se aproxima da abstração. Apesar de ter nascido na Argentina e vivido sua infância na Itália, foi no Brasil que teve sua formação artística e morada definitiva. Mudou-se para o Brasil em 1919, e freqüentou a Escola Nacional de Belas Artes entre 1927 e 1929. Seu primeiro contato com a Bahia foi em 1938, quando foi enviado pelo jornal Prégon para fazer uma reportagem sobre o célebre personagem Lampião. Com a falência do periódico, estendeu sua jornada pelo litoral norte do Brasil, que lhe inspirou desenhos para sua primeira exposição coletiva, em Buenos Aires, em 1939. Sua relação com o Brasil se aprofunda na década de 1940, quando verteu Macunaíma, de Mário de Andrade, para o espanhol. Na década de 1950, a convite do Secretário da Educação Anísio Teixeira, Carybé muda-se definitivamente para Bahia, onde auxilia a promover a renovação das artes plásticas. Em 1955 foi eleito o melhor desenhista da III Bienal de São Paulo, e, em 1961 recebeu o mérito de expor em sala exclusiva. Em 1957 naturalizou-se brasileiro, fato que legitimou sua condição de ícone da Bahia. Com efeito, suas obras visam, sobretudo, a retratar a riqueza da cultura popular baiana. Carybé realizou mais de cinco mil trabalhos, entre pinturas, desenhos, esculturas e esboços, incluindo ilustrações para obras de autores consagrados como Jorge Amado, Rubem Braga, Mário de Andrade e Gabriel Garcia Marquez. Possui murais nas cidades de Salvador, Londres e Nova York, em que se nota infl uência de Picasso e Rivera. Entre suas obras impressas, destacam-se a Iconografi a dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia, resultado de 30 anos de pesquisa, As Sete Portas da Bahia, coletânea de desenhos sobre a cultura baiana, e Olha o Boi e Bahia, Boa Terra Bahia, ambos em parceria com Jorge Amado. O escritor baiano, seu grande amigo, em um de seus versos integrantes da Cantiga de capoeira para Carybé, traça bela descrição da relação de Carybé com a cultura baiana: [...] A paisagem, a poesia e o mistério da Bahia, ê, ê camarado, e de quem é? É de Carybé, camarado,Ê camarado, ê...
Fonte: Revista do Ministério das Relações Exteriores

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Impasse nos portos

Porto de Aratu
Osvaldo Campos
Já estamos em maio e desde o final de dezembro a Codeba, permanece sem o seu presidente. O impasse se dá por conta de divergências acerca da ampliação do terminal de contêineres. Brasília desejando realizar um aditivo ao contrato do atual concessionário e os usuários do porto defendendo uma nova licitação e a introdução da concorrência nos serviços de movimentação de contêineres.
Enquanto isto, a crise financeira global, que afetou fortemente o comércio mundial, já mostra seus reflexos nos portos baianos com queda acentuada na receita. E continua a indefinição em relação aos futuros responsáveis pela ampliação do porto de Salvador. Esta demora trará prejuízos futuros para toda economia baiana.
Enquanto isso, os portos concorrentes de Pecém, Suape e Recife, administrados localmente por seus governos estaduais, são tratados pelos mesmos como prioridades estratégicas na atração de novos empreendimentos e na geração de emprego e renda para seus estados.
O que tem levado os baianos ao imobilismo? É chegada a hora do Governo da Bahia tomar uma posição política em defesa da nossa economia e do comércio exterior baiano.
Também em relação ao turismo marítimo, permanece o imobilismo na Codeba.
Apesar de Salvador apresentar um crescimento expressivo no número de escalas de Cruzeiros Marítimos, 103, com mais de 150.000 turistas visitando a cidade na última temporada encerrada em abril, os investimentos previstos para a implantação de um moderno terminal de cruzeiros marítimos desde 1988, ainda na gestão Sylvio Faria na Codeba, permanecem indefinidos.
A
concepção equivocada da administração municpal e de seus novos planejadores, acerca da importância do porto de Salvador para a economia da cidade e do estado, as constantes mudanças na presidência da Codeba, seis nos últimos seis anos, são fatores determinantes para a atual situação de incertezas. Contudo, o pensamento do novo secretário de planejamento do estado é um sinal alentador. Nada impede que Salvador, a exemplo de outras cidades como Barcelona e Amsterdan continue sendo um importante porto cargueiro
(foto: PTA - Terminal marítimo do porto de Amsterdan), especializado em contêineres e, também invista no segmento do turismo marítimo. Em Barcelona, há 15 anos, os números eram semelhantes ao do porto de Salvador, cerca de 100 navios de cruzeiros e movimentação de 350.000 conteineres. Com a liderança do governo regional da Catalunha, o porto investiu na modernização das instalações de turismo e de movimentação de contêineres. Atualmente, com mais de 1.000.000 de turistas marítimos e cerca de 2.300.000 conteineres, é o porto líder no Mediterrâneo nestes dois segmentos. Com a implantação do Porto Sul em Ilhéus, o Governo da Bahia deveria criar uma empresa portuária como fizeram o Ceará, Pernambuco e até o nosso vizinho estado de Sergipe e assumir a gestão dos portos públicos do estado, ( foto: Terminal de conteineres de Salvador)direcionando os mesmos para um novo ciclo de investimentos e modernização.
Engenheiro e Mestre em Administração, foi gerente de operações e diretor da Codeba (1983-1999) e Superintendente de Transportes da Bahia (2001-2006). É autor da tese : Portos e Competitividade - A questão Portuária na Bahia. Atualmente é Conselheiro da Fieb (Infra-estrutura).

domingo, 3 de maio de 2009

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Indicação de Leitura do Blog : Tradição Autocracia e Carisma


A trajetória política de uma das principais personagens da cidade do Salvador no século XX é o tema deste livro do Prof° Paulo Fábio Dantas Neto. Premiada tese de doutorado do IUPERJ agora acessessível a todos que se interessam pela cidade de Salvador suas histórias e personagens.

" Quanto ao conteúdo da obra pode-se afirmar que se concentra na origem e desenvolvimento de todo o arcabouço político e estratégico que consolidou a presença indelével de ACM na política de seu estado. Ademais, pauta-se por um referencial teórico que mescla as concepções de hegemonia e revolução passiva de Antonio Gramsci e as teorias da poliarquia de Robert Dahl. Estes referenciais são complementados por entrevistas com personagens de renome, bem como por uma pesquisa documental nos arquivos da Câmara dos Vereadores de Salvador, na Assembléia Legislativa da Bahia e no Congresso Nacional. Este cabedal de recursos faz do livro um referencial bibliográfico sobre as elites políticas nacionais.
Um ponto a ser destacado na pesquisa do professor Paulo Fábio é a desmistificação que prevalente acerca da atuação Antônio Carlos Magalhães enquanto político. A rigor, para o grande público, esta se resume aos mandatos executivos de prefeito de Salvador e governador da Bahia. O político ACM é acompanhado no livro em uma trajetória que inclui a sua atuação parlamentar na Bahia desde a década de 1950 e sua presença nos governos militares, especialmente no de Ernesto Geisel, pontos-chaves para se compreender a habilidade de sobrevivência, adaptação e influencia de ACM por mais de cinqüenta anos na linha de frente da elite brasileira.
Além disso, aborda o processo conhecido na Ciência Política como "circulação das elites". Assim, personagens como Juracy Magalhães, Antonio Balbino e Hélio Machado, representantes das velhas elites baianas, são inseridos na obra como atores protagonistas de um modelo político, econômico e social que se desmontava no Brasil e que, por sua vez, ecoava na Bahia. Este contexto histórico ilustra brilhantemente a capacidade de ACM em entender, antecipar e se adaptar às circunstancias.
O título do livro Tradição, Autocracia e Carisma, revela o périplo por onde, teoricamente e empiricamente, Paulo Fábio buscou traçar os elementos formadores de um corpus político, o "carlismo" que, mesmo em declínio, ainda se faz presente no cenário político estadual, regional e nacional. Tradição por se coadunar com as práticas e atitudes mentais de um povo que, compreendido pelo seu futuro líder, estava atrelado a determinadas atitudes de tutela política típicas ao provincianismo ainda perene nas relações sociais. Autocracia por se tratar de uma prática política levada a cabo por ACM de forma centralizadora e modernizadora. O chefe político ACM, ao contrário do que se pensa, não é um coronel típico da República Velha, mas um planejador político hábil que soube aliar as velhas tradições políticas de seu estado e de seu país com as inovações macroeconômicas da quais foi contemporâneo.
Por fim, o carisma. Este conceito tão vulgarmente alardeado pelo senso comum está associado ao seu motor na sociologia de Max Weber. O carisma, no caso, pode ser compreendido enquanto relação de dominação e qualidade da ação social de ACM enquanto ator político . A oratória, aliada à liderança, ao exemplo e à determinação eminentemente política são qualidades que os governados exigem de seus governantes. ACM, como poucos, soube identificá-las e as aplicou em benefício próprio, de seu grupo e de seu estado, não necessariamente nesta ordem, pois que variava de acordo com o instante e às necessidades. Enfim, o livro demonstra que ACM, como muitos de seus pares na política regional, foi uma liderança coerente com seu tempo, sua gente e seu país. Nada mais, nada menos.
Portanto, mesmo com todas as normas peculiares a uma produção de caráter científico, Tradição, Autocracia e Carisma é uma obra de leitura prazerosa. Não foi por acaso premiado com o título de "Melhor Tese do Ano" pelo IUPERJ, centro de excelência da Ciência Política Brasileira. É uma obra que vai marcar aquele que se dispuser a lê-lo sem juízos de valor apressados quanto ao seu personagem principal. Numa palavra: imperdível."
Resenha publicada no Blog do Helder Teixeira- 10/09/2007

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Cidade Baixa - Metamorfose do Comércio*

Gey Espinheira * (in memoriam)
Uma aparência de anacronismos: os tempos não se harmonizam na paisagem diversa da Cidade Baixa, do Comércio. Uma decadência ali se estabeleceu como uma gangrena em um corpo senil, como se a própria senilidade já não fosse, ela própria, uma promessa de aniquilamento. Prédios, igrejas, lugares abandonados, sujos, arruinados, testemunhados pela vitalidade da cidade inquieta, da gente que trabalha de mil modos para prover suas necessidades, produzindo coisas, cores, sons e odores, para tudo converter em dinheiro, única e grande razão de todos os esforços.
Anônimos, que não se querem esquecidos, picham e grafitam, ou melhor, picham, sujam, muros e paredes, fachadas de prédios, uma escrita, quase sempre feia, desesperada, identitária de pessoas e grupos, que macula a cidade, risca nas faces dos prédios e dos muros sujeiras
como uma linguagem tosca, maquiagem malfeita ou que se desfaz e logo lambuza mais que desenha ou enfeita; feições de decadência a dominar as expressões. São tristes essas assinaturas que gritam por presença, que trazem afogados à tona. São tristes porque são desesperadas e sem esperanças, são presenças feias, deselegantes como intromissões, anti-heroísmo dos deserdados que se recusam à exclusão. Mas, assim é a cidade dos silenciados, os deserdados que se querem fazer ver e ouvir, mesmo em seus gritos roucos e em sua linguagem desconexa, em suas imagens grotescas. Há homens e mulheres grotescos na cidade, que também se torna grotesca na forma de contê-los. De fazê-los grotescos em seus espaços como seus conteúdos. Nessa diversidade, a cidade se expressa, evoca situações e condições de vida de seus habitantes, nem todos bem inseridos no cotidiano de vida que, para muitos, é uma luta nas incertezas das situações imediatas em que vivem(...) Há um ar de decadência rondando toda essa área da cidade, em que pese o fato de que houve uma intervenção urbana há poucos anos por ali, que deu à Praça Deodoro a aparência e as funções atuais. Antes, um grande estacionamento de caminhões de carga à espera de contratos de transporte e na encosta prédios em condição de arruinamento, e por lá uma gente pobre, desafortunada, alojada em cubículos, ou entre paredes entreabertas de prédios semi tombados, mas também o famoso prostíbulo proletário, o Julião, cuja hierarquia sempre fora mais baixa do que aquele outro, mais ao alto, no emaranhado das ruas do centro histórico, nas vizinhanças do Pelourinho, o Maciel, o maior de todos, com centenas de mulheres e travestis, (Espinheira, 1971, 1984), tudo isso no prolongamento do processo de esclerose e gangrena urbanas, que contaminam certas partes da cidade (...)
Carlos Geraldo D'Andrea Espinheira, falecido em 17 de março de 2009, era Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Líderava o Grupo de Pesquisa: “Cultura, cidade e democracia: sociabilidade, representações e movimentos sociais”.
Artigo publicado originalmente no Blog : Estabelecidos e Desafortunados do Centro Histórico em 21/08/07. Fotos de Antonio Mateus, Isabela Duplat e Raul Bairrio