segunda-feira, 6 de maio de 2013

O Planejamento da Região Metropolitana de Salvador

 Bernardo Chezzi*
Em tempos da importante discussão sobre os novos rumos desenvolvimentistas da capital e do Estado da Bahia, com grande obras públicas em pauta e novos investimentos da iniciativa privada, uma gravura muito maior talvez passe ainda desapercebida aos olhos dos debatedores. É preciso conceber-se o rumo da Região Metropolitana de Salvador, o pensamento em torno do seu conjunto e as propostas que a RMS pode agregar para o desenvolvimento urbano das suas cidades e da Bahia como um todo.
O conceito de região metropolitana no Brasil completa neste ano 30 (trinta) anos. Foi por meio da Lei Complementar nº 14 de 1973, ditada pelo então governo militar que foram inicialmente escolhidas as cidades que fariam parte das regiões metropolitanas do Brasil. É possível afirmar que houve diversos equívocos no direcionamento das intervenções regionais, entre eles orbitam os argumentos de que a escolha destas cidades tiveram o seu mérito muito mais contemplativo do que prospectivo, mais espacial do que econômico.
Em resposta a este mal entendido do passado, diversas cidades conseguiram se reorganizar enquanto metrópoles e definir um reordenamento espacial condizente com as suas necessidades e aspirações. O Estatuto das Cidades (Lei Federal nº 10.257 de 2001) ratificou a prerrogativa dos municípios promoverem este tipo de organização.  Em Minas Gerais, na região de Belo Horizonte, com 34 cidades integrantes, há uma Assembleia Metropolitana, deliberativa, e o Conselho de Desenvolvimento Metropolitano, órgão de suporte técnico e de planejamento. No Rio Grande do Norte, o Plano Natal Metrópole 2020 é outro exemplo de mútuo entendimento entre todas as cidades, com responsabilidade social e ambiental, entendendo a vocação de cada uma ao definir planos de consolidação de parques econômicos já existentes e a abertura de outros, de forma mais harmônica, sem que disputem entre si determinadas verbas públicas ou a atenção da mesma iniciativa privada.
Para importar experiências de sucesso para a RMS, legislativo e executivo devem andar juntos, com a discussão técnica concebida nas secretarias, emendadas pelas Câmaras Legislativas e culminadas na elaboração do processo de eleição dos representantes de cada cidade na RMS. O projeto precisa contar com a participação da população, economistas, sociólogos, ambientalistas, urbanistas, engenheiros de tráfego, líderes comunitários, associações e entidades de classe, promovida a Conferência Municipal, ouvido o Conselho Municipal de Salvador, à luz de sua lei orgânica, das leis municipais das outras cidades e da Resolução Federal do Conselho das Cidades nº 25 e 34, ambas de 2005. Será então preciso que os dispositivos de cada Plano Diretor sejam revistos à luz da nova carta reitora da RMS.
A ausência desta discussão concatenada e planejada é cara à cidade do Salvador. Extremamente dependente das cidades vizinhas, vista sob espectro de uma cidade dormitório, com grandes problemas de tráfego interurbano e dificuldades em identificar uma vocação industrial que substitua a ampla predominância do setor terciário em seu PIB, os vetores de crescimento parecem não estar claros à iniciativa privada. O Plano Diretor da RMS indicaria o marco legal para os investimentos importantes à capital baiana e derredor, a médio e longo prazo. De outro giro, planos escritos e bem concebidos são ferramenta importante a fim de vincular os próprios governantes e evitar o fenômeno já brasileiro da eterna invenção da roda com a troca dos poderes.
Está na hora de se pensar em um Plano Diretor da Região Metropolitana de Salvador: há de se buscar a sintonia ou correr o risco de andar sob solavancos e equívocos.




* Bernardo Chezzi, consultor jurídico da ADEMI-BA, especialista em Direito Imobiliário e Urbanístico. bernardo@lchadv.com.br

domingo, 5 de maio de 2013

"De Bike ao trabalho" - 10 de maio


O projeto Bike Anjo e parceiros vão realizar em 10 de maio o Dia de Ir de Bike ao Trabalho, dentro da campanha “De Bike ao Trabalho”, que incentiva o uso da bicicleta como um possível, saudável e inteligente meio de transporte. O evento, que cairá numa sexta-feira, é inspirado no Bike To Work Day, realizado anualmente em várias partes do mundo para promover a bicicleta como opção de transporte para o trabalho. 
O movimento começou nos Estados Unidos, em 1956, organizado pela League of American Bicyclists. No Brasil, não há um início oficial, mas 2013 será o primeiro ano de ação em âmbito nacional com a rede do Bike Anjo - a campanha foi lançada no dia 1º de maio, Dia do Trabalho, e contará com iniciativas durante todo o mês. 
Nessa 1ª edição no Brasil, parceiros locais de todo o país estão se mobilizando para organizar atividades, como oficinas de aprendizagem para iniciantes no mundo da bicicleta, café da manhã para quem for de bicicleta ao trabalho e campanhas de adesão de empresas para estimular o uso da bicicleta por seus funcionários. Empresas, organizações e governo também podem inscrever iniciativas e se tornarem "organizações amigas do ciclista". Mais informações e adesões no site debikeaotrabalho.org
O objetivo das campanhas de incentivo ao uso de bicicleta, como esta, é oferecer uma possibilidade diante das poucas opções de transporte, que têm feito os brasileiros – independentemente de classe social - perderem cada vez mais tempo no trânsito. Condição que gera, segundo ressaltam os organizadores do 10 de maio, "estresse e menos qualidade de vida, em um ciclo vicioso cada vez mais difícil de apaziguar". 
"Diante dessa realidade, a bicicleta aparece como uma boa opção de transporte sustentável, uma vez que é um veículo limpo, eficiente e que melhora a qualidade de vida do cidadão. Porém, é necessário que haja incentivos e estímulos para uma prática segura desse meio de transporte, bem como um melhor convívio no trânsito", afirmam os organizadores do 10 de maio. 

sábado, 4 de maio de 2013

Prefeitura da Baía de Todos os Santos - Por que não?

 Eduardo Athayde*
Os interessantes estudos sobre as origens dos contornos da Baía de Todos os Santos - BTS, realizados pelo Gabinete Português de Leitura, revelam que, originalmente, a barra de entrada da baía era maior do que a hoje estabelecida pela Marinha, entre o Farol da Barra e a Ponta dos Garcez. Os conquistadores portugueses tinham como regra fortificar as entradas das áreas protegidas, assim, a entrada original da BTS era guarnecida de um lado pelo Forte de Santo Antonio da Barra e, de outro, pela Fortaleza de Morro de São Paulo, abrigando as terras reentrantes da área, nitidamente mostradas na sua geografia.
A Escola de Sagres, de Portugal, que existiu apenas na virtualidade da inteligência larga dos seus navegantes e descobridores, sem sede de chão e parede, continua viva, incentivando novas percepções da realidade. A cidade do Salvador, criada pelo alvará régio de 29 de março de 1549, com atual organização dada pela Lei Estadual nº 687, de 30/12/1953, influenciada pelos ensinamentos de Sagres, avança na inovação da sua gestão, ciente de que dos 693 km² da sua área total (IBGE), 343 km²  é território seco e 350 km²  é território molhado da BTS, como mostra a Fundação Mario Leal Ferreira. A prefeitura municipal está criando subprefeituras com o objetivo melhorar os serviços municipais. Essa boa ideia, adotada em várias partes do mundo, precisa valer também para o território molhado - porque não? -, tão valioso e merecedor de cuidados quanto o território seco. 
A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, ratificada por mais de cem países, inclusive o Brasil, estipulou que os bens econômicos existentes na massa líquida, solo e subsolo marinho, ao longo de uma faixa litorânea de 200 milhas marítimas de largura, a chamada Zona Econômica Exclusiva (ZEE), são de propriedade exclusiva do país ribeirinho. Essa distância pode ser ultrapassada pela Plataforma Continental (PC), estendendo a propriedade econômica a até 350 milhas marítimas. As duas áreas (ZEE+PC) formam a chamada Amazônia Azul que estende-se pelos 8,5 mil quilômetros da costa brasileira. Sendo berço da civilização brasileira e localizada no meio da sua costa oceânica, a BTS oferece as suas águas interioranas e abrigadas para ser sede da Amazônia Azul.
Exatamente nessas águas centrais ainda ‘desgovernadas’ da BTS - sede natural da Amazônia Azul - está sendo construído o terminal de regaseificação da Petrobras. A prefeitura e a Câmara Municipal de Salvador não podem permitir que a maior empresa brasileira afete o maior patrimônio turístico da cidade, coloque de joelhos seus cidadãos e suas autoridades constituídas, ferindo-lhes a história, a cultura e o ambiente, descaracterizando a paisagem natural do seio da maior baía do Brasil e depreciando o território molhado do município com a escolha indevida desse local para construção de um porto inseguro. A charmosa Prefeitura da BTS, que já nasce destacada pela sua força natural, será visada pela mídia nacional e internacional, e pode ser sediada no Forte de São Marcelo, batizado pela Escola de Sagres como umbigo da America Latina.
* Eduardo Athayde  é  diretor da Associação Comercial da Bahia e do Rotary BTS:  eduathayde@gmail.com

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Mais caxixi, menos caxirola

Dafne Sampaio*
Não pensei que iria voltar a tratar da Copa tão cedo. Sinceramente. Só que poucos dias após ter publicado “Ah, que é isso? A Fifa está descontrolada” aconteceu a Revolta das Caxirolas e uma coisa assim não pode passar em brancas nuvens pelo Mexidão. Bem, a essa altura do campeonato quase todo mundo já está nervoso de saber o que é a caxirola, mas não custa fazer um flashback rápido...
Do nada, a Fifa e o Ministério dos Esportes vieram a público apresentar o instrumento musical símbolo da Copa das Confederações e da Copa do Mundo no Brasil. Criação do multi-instrumentista Carlinhos Brown, a caxirola é um chocalho de plástico feito a base de cana-de-açúcar produzida pela Brasken. O músico baiano registrou sua nova obra – contratada não sabe-se como e em quais termos pelo governo – e vendeu os direitos de fabricação e distribuição para a multinacional The Marketing Store. Os valores dessa gigantesca transação não são revelados (o valor de R$ 1,5 bilhão foi estimado aqui e ali), mas o preço sugerido ao torcedor é R$ 29,90.
Daí que logo na estreia oficial do instrumento, domingo passado, 28 de abril, o reformulado Estádio da Fonte Nova viu uma revoada de caxirolas rumo ao gramado. Eram torcedores revoltados do Bahia protestando contra seus dirigentes, enquanto o time perdia para o rival Vitória por 2 a 1. Foi o bastante para o pessoal da grana ficar de orelhas em pé prevendo novas manifestações não-musicais já agora na Copa das Confederações. Bateu um medinho e estão pensando em colocar uma bula para ensinar ao brasileiro como usar o instrumento com responsabilidade.
A torcida do Bahia com uma caxirola na mão é um bicho feroz
É isso que dá pensar só em dinheiro e não nas pessoas que fazem e sustentam o espetáculo. Porque, será mesmo que eles acham que ninguém perceberia que a caxirola não passa de um caxixi de plástico? E que é um completo absurdo privatizar um bem cultural tradicional? Ou então que a caxirola não tem relação alguma com o futebol brasileiro? Só mesmo Galvão Bueno e Tadeu Schmidt, os porta-vozes futebolísticos da Globo, para defenderem tal disparate.
Direto ao ponto, o jornalista José Trajano afirmou durante o programa Linha de Passe (ESPN) que o torcedor tem o direito de jogar a caxirola onde bem entender. Na Copa da África do Sul as vuvuzelas podiam ser (e eram) um inferno para os ouvidos estrangeiros, mas eram genuínas integrantes da cultura do futebol no país. E a caxirola? Até quinze dias atrás ela nem existia! Porque diabos deveríamos aceitar algo imposto por essa dobradinha poder público/iniciativa privada e que provavelmente foi gestado em algum reunião de brainstorm com publicitários de sapatênis?
Mas nada disso me surpreende, na verdade. Agora, o papel de Carlinhos Brown nessa tragicomédia... como é que pode um sujeito assumidamente ligado à cultura popular pegar um instrumento tradicional (alô pessoal da capoeira!), dar um tapinha e registrar como criação sua?! Sou fã de Brown e o defendi em março do ano passado no texto “Quem tem medo de Carlinhos Brown?”, mas prevejo que a chuva de garrafas que tomou na cabeça durante o Rock in Rio em 2001 vai ser pinto perto do tsunami de caxirolas que se avizinha por aí. Olha, a Revolta da Caxirola virou até cordel.
Essa apropriação privada de um instrumento popular é o mais grave desse caso, mais até do que a imposição de um símbolo (o pessoal da grana que se vire com o encalhe das caxirolas). Em texto contundente, o antropólogo Henrique Parra tem uma sugestão para minimizar o absurdo dessa situação: “Se o governo está interessado em criar um símbolo, bem poderia indicá-lo e deixá-lo livre, como são os símbolos, ao invés de transformá-lo em propriedade privada. (...) Diversas fabricantes nacionais poderiam produzi-lo, diversos comerciantes locais poderiam distribuí-lo e aquelas corporações interessadas em fazer o produto circular em “outras esferas” (produtos especializados para consumidores endinheirados) poderiam recolher uma taxa específica cujos recursos poderiam ser destinados ao apoio de milhares de escolas de capoeira e grupos culturais espalhados pelo País”. Isso sim é um Brasil de todos.
*Jornalista de cama, mesa e banho, mas com ênfase na cultura. Foi editor de cinema da Som Livre Loja Virtual, da revista "Monet" (Ed. Globo) e do site da "Istoé". Colaborou e colabora para veículos como "Piauí", "Revista da Gol", "Brasileiros", "CartaCapital" e "Folha de S. Paulo", entre outros.

Sete pontos sobre a “Revolta da Caxirola”

Paulo Ghiradel*
1) Carlinhos Brown colocou todo o seu cérebro no invento da caxirola, e então copiou o caxixe, usado na capoeira. Entregou o  produto para a Dilma, que havia feito o pedido.
2) Por sua vez, a presidente Dilma mostrou o instrumento para a FIFA, que percebeu o erro brasileiro (baiano) e tentou proibir o instrumento, uma vez que seu formato é aerodinâmico e seu peso permite certa inércia, podendo ser atirado e realmente atingir o alvo (que foi o que ocorreu!). A reação governamental afastou a interferência estrangeira e protegeu o artesanato baiano e a inteligência nacional.  Veio então o jogo experimental, na Bahia, claro, já com a caxirola em uso. 30 mil.
3) O ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, do PCdoB,  ficou “sem palavras” ao saber da “revota da Caxirola”. Depois, disse que não necessariamente iria acontecer o mesmo, na Copa, se o Brasil estivesse perdendo um jogo. (Bem, até ontem, domingo, eu tinha dúvidas sobre o que havia contribuído mais para o fim do comunismo, se havia sido a economia que não funcionou nunca, emperrando toda a URSS, ou se havia sido o cérebro do cidadão comunista).
4) Na verdade, Carlinhos Brown não se saiu mal, pois ele ganhou uma nota fazendo o que fez, ou seja, entregando o que lhe foi encomendado pelo governo.
5) Dilma não tomou um caxirolada na cabeça literalmente, mas metaforicamente, tomou. No passado, Dilma foi torturada por ser acusada de ligar-se aos comunistas. Atualmente, os comunistas a torturam pessoalmente.
6) A “Revolta da Caxirola” deveria, agora, constar de nome de rua em São Paulo. Haddad está trocando os nomes das ruas de São Paulo em função de gostos do PT. Então, deveria ao menos uma rua receber o nome de “A Revolta da Caxirola”. O PT não gosta de revoltas, revoluções etc.?
7) No país do futebol as autoridades deram nas mãos do torcedor uma arma. Ou seja, há alguém no governo que nunca viu uma partida de futebol, além, é claro, do próprio Carlinhos Brown (que, aliás, não se alfabetizou até hoje). Penso que deveríamos incluir então, na escola, a matéria “futebol” (por exemplo, nas aulas de Educação Física!). Ao menos na escola particular, tendo essa matéria, haveria menos chance de algum ministrou ou algum ideiudo do governo ficar sem noção sobre esse esporte, o que talvez possa trazer um futuro com menos desacertos do que ocorreu no domingo, dia 28 de abril de 2013 na Bahia.
*Paulo Ghiraldell é filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O torcedor e a Revolta das Caxirolas

 AndrE BARCINSKI
Estamos às vésperas da Copa das Confederações e a pouco mais de um ano da Copa do Mundo. Em qualquer país, o povo estaria respirando futebol.
Nas ruas, ninguém falaria de outra coisa. Crianças passeariam de camisa da seleção. Todo jogo seria uma festa, com estádios cheios e torcida animada.
Mas não é o que ocorre. Na verdade, não lembro uma época em que o futebol brasileiro estivesse tão por baixo quanto agora. 
Nossa seleção é execrada. Aliás, a seleção não é “nossa”, mas da CBF, como bem disse Ricardo Teixeira. O povo não se identifica com o time da CBF e vaia o time.
Nossos campeonatos estaduais foram sabotados pelas federações, que se perpetuam no poder à custa de favores aos times menores.
Nossos estádios, com poucas exceções, vivem vazios. Facções organizadas de torcedores profissionais dominam as arquibancadas.
Não podemos fumar, beber álcool ou levar bandeiras aos estádios. Não temos jogos de duas torcidas porque a polícia não tem competência para garantir a segurança. Partidas noturnas começam em horário de boate para satisfazer a TV. Enquanto isso, na “sisuda” Alemanha, quem paga ingresso pode fumar, beber e exibir bandeiras.
Nosso Ministro do Esporte vai ao programa de TV “Roda Viva” e não tem capacidade de responder com clareza a uma pergunta sequer sobre os problemas da Copa do Mundo, preferindo acusar os jornalistas de “adversários da Copa” e ressuscitando a filosofia militarista do “Ame-ou ou deixe-o”.
O primeiro jogo no Maracanã depois de uma reforma que custou quase 1 bilhão aos cofres públicos é uma pelada entre amigos de Ronaldo e amigos de Bebeto. Dizem que é um “jogo-treino”, mas o evento é transmitido pela TV e usado de propaganda por Dilma, Lula, Sergio Cabral e Eduardo Paes, o que o torna um evento oficial. Mesmo assim, Ronaldo acha por bem usar o Maracanã de playground e coloca um parente da esposa para jogar, enquanto Zico, Romário, Dinamite e tantos outros ídolos da história do Maracanã não foram convidados.
O apresentador da inauguração do novo Maracanã não foi José Carlos Araújo ou algum narrador esportivo com vínculos antigos ao estádio, mas Luciano Huck. Repito: Luciano Huck.
Nossos times, com poucas exceções, estão falidos, com dívidas impagáveis e divisões de bases dominadas por empresários.
Nossa imprensa esportiva se divide entre o oba-oba oficialesco e aqueles que insistem em dizer a verdade e são tachados de “pessimistas”.
O homem mais poderoso do futebol brasileiro é uma relíquia da ditadura que não pode nem chegar perto da presidente da República.
A FIFA manda e desmanda por aqui. Diz que “Mané Garrincha” não pode batizar o estádio em Brasília e que a cerveja estará liberada apenas durante a Copa. Depois da Copa, nós voltaremos a ser tratados como crianças e não poderemos tomar cerveja durante o jogo.
Para completar, temos a tal caxirola, uma invenção oportunista e com carimbo estatal, que o músico Carlinhos Brown quer nos empurrar goela abaixo – por módicos R$ 29,90 – como um apetrecho indispensável ao fervor nacionalista que deve reinar durante a Copa.
Ninguém pode ser a favor de torcedores jogarem objetos no campo. Isso é errado. Mas a Revolta das Caxirolas, como já ficou conhecida a chuva de chocalhos promovida pela torcida do Bahia, dá uma ideia da reação que se pode esperar do povão. Ninguém é idiota. As pessoas percebem quando uma iniciativa é puramente marqueteira. E não é todo mundo que se presta a servir de claque para esse espetáculo grotesco que virou o futebol brasileiro.
Tanto os mineiros que, no jogo Brasil x Chile, gritaram “olé” para humilhar o time da CBF, quanto os baianos que demonstraram as qualidades aerodinâmicas da caxirola, estão apenas descontando – com diferentes graus de civilidade – o que a CBF, as federações, os clubes, o governo e grande parte da mídia fizeram com o nosso futebol.
Alguns dizem que a Copa do Mundo será a “reviravolta” que todos esperamos para o futebol brasileiro. Do jeito que as coisas vão, a Copa parece mais um obstáculo ao desenvolvimento do esporte. Terminaremos a Copa com estádios superfaturados (alguns abandonados), com uma divisão ainda mais gritante entre times grandes e menores, com empresas particulares beneficiadas por contratos açucarados de exploração de estádios bancados com dinheiro público, e com ingressos mais caros para espantar o povão. E aí, periga não ter volta. Nem o Maracanã, Mineirão e Fonte nova teremos mais para recordar. Como chegamos a isso?
P.S.: Estarei sem acesso à Internet até o meio da tarde e, portanto, impossibilitado de moderar os comentários. Se o seu comentário demorar a ser publicado, por favor não me xingue ou reclame de censura. Obrigado.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Ruim para o futebol, bom para as empreiteiras

Paulo Carneiro*
Apuramos as informações a respeito da construção e operação da Arena Fonte Nova e apesar de ser uma PPP, que entendemos ser a melhor alternativa, os detalhes do contrato do consórcio são inaceitáveis. Construíram uma Torre de Babel onde o governo assume todos os riscos, endivida o Estado e nunca mais recebe o capital investido. Lembrem de Costa de Sauípe, até hoje na mão da Previ. Nossos governantes são de lascar. O TCE convocou na época alguns membros do governo para esclarecimentos. Como o TCE é formado de políticos indicados pelos governantes em épocas distintas, não aconteceu nada. 
Para a construção do estádio e o modelo econômico que o Estado escolheu, fizeram uma PPP, Parceria Pública Privada, com concessão administrativa e resolveram assumir o ônus da dívida com o BNDES, pois não poderão cobrar pela concessão. Em suma, usaram o dinheiro público para se manterem donos do empreendimento, que sem conteúdo esportivo é um grande “elefante branco”. E para terem a gestão, vão bancar pelo menos durante 15 anos, com pagamento de contraprestação, pois se espera que depois deste período, o negócio comece a dar lucro.



O Bahia resistiu, foi pressionado mas cedeu e fez um contrato de 5 anos com acesso apenas a uma "luva" de R$ 9 milhões/ano na bilheteria. Sem acesso às outras inúmeras receitas. Seu fundo de comércio (torcida) devia ser mais valorizado. Sem ele não tem negócio.


O consórcio assume o contrato, garante o negócio da construção e repassa a operação para terceiros (Arena Brasil). E o povo paga a conta dos recursos públicos que serão direcionados. E na operação, se não chegar a determinado patamar, o governo tem que reembolsar o consórcio por 15 anos uma contraprestação de até R$ 107 milhões por ano ou próximo disso.

Sempre soube que 25 anos é o periodo de se garantir o retorno do investimento. Por que mais 10 anos? Para remunerar a quem?

E o consórcio, qual a sua responsabilidade? Não bota um centavo, ganha pela construção e tem garantia mínima se não viabilizar a operação. Pra ser justo colocaram 20% na construção, mas esse percentual incluem no orçamento. Empreiteiro trabalha pra seus acionistas, não para o povo.

O Vitória está sendo fortemente assediado. Seus dirigentes ganharam há tempos atrás uma viagem a Holanda pra conhecerem a operação da Arena Amsterdã. Alexi reluta, sabe que o melhor caminho é a Arena Barradão. Seu candidato, todavia, está alinhado com o presidente da assembleia e o vice-governador para levar o Vitória pra lá. Vão engessar o clube por 35 anos. O erro está no modelo econômico. Ainda assim com o risco da operação não se viabilizar. Estádios de Copa são caros. Agora chegaram à conclusão que os altos custos da operação inviabilizam a promoção de shows.

O certo é que sem o Vitória a operação não fecha. Em 2007, quando o Brasil foi escolhido, o Bahia e o Vitória deveriam ter se unido para serem, juntos com o governo, donos do negócio. Construtora quer construir e agora devem estar se preparando para passar a operação para fundos de investimento. Meu clube tem o Barradão e ali devem fazer a Arena e viabilizar seu futuro.

Esse problema se espalha por todo país. Em Natal os clubes não querem jogar na Arena das Dunas, em Minas o Atlético já escolheu o Independência. Sua Diretoria divulgou que a perda de arrecadação de Cruzeiro e Atlético chega a R$ 100 milhões por ano. Só quem vai se beneficiar com as arenas da Copa são os clubes que cederam seus estádios: Corinthians, Inter e Atlético Paranaense. O fluxo de receitas do clube paranaense deve triplicar com a chegada da sua Arena. Seu estádio, financiado diretamente com o clube, não chega a R$ 300 milhões. O Vitória, ainda que tardiamente, pelo imobilismo de sua gestão, tem a chance de mudar de status e se aproximar dos grandes. É só não permitir que interesses políticos sejam mais importantes que os interesses do clube.

* Paulo Carneiro foi deputado estadual e presidente do Esporte Clube Vitória.

Pingos nos is

José Sérgio Gabrielli*
Quando o projeto de construção da ponte Salvador-Ilha de Itaparica, que é parte de um projeto indutor de desenvolvimento econômico e social da RMS, Recôncavo e eixo litorâneo sul, ganhou contornos de ação concreta, com etapas de estudo, planejamento e lançamento de editais, outras propostas retornaram a público como alternativa para conectar o continente e a ilha. A mais midiática delas é a chamada Via Litorânea ou Via Envolvente.
Em 2010, quando o governo da Bahia lançou o Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI) para a realização de estudos preliminares com vistas à construção da ponte, todos os interessados em propor soluções poderiam participar, inclusive com soluções alternativas, no entanto, esta via não apareceu entre as propostas apresentadas.
Ainda assim, ela passou pela análise de técnicos da Secretaria do Planejamento da Bahia e de outros órgãos de governo, mas foi descartada devido à incompatibilidade com o plano de desenvolvimento econômico e social da macroárea de influência da ponte Salvador-Itaparica.
A partir do PMI, o conceito do projeto foi escolhido, assim como as áreas de influência que deveriam ser beneficiadas. O caminho será aberto tendo como ponto de partida os municípios de Itaparica e Vera Cruz, passando por Nazaré e Castro Alves, absorvendo o tráfego das BRs 242 e 116, além de ofertar uma alternativa mais próxima para a BR-101, influenciando deste modo, o fluxo na BA-001, que vai até o litoral sul. Baseado nesta rota, os editais de sondagem, engenharia, estudos ambientais e masterplan urbanístico foram preparados, sendo alguns deles lançados.
E a Via Litorânea? A verdade é que ela não teria capacidade de ser um substitutivo ao projeto estadual, seja pelo percurso, pela geografia ou até pelo conceito. Se a via fosse substituir a ponte, além de aumentar o fluxo de veículos pesados no centro de cidades históricas, sujeitando à depreciação e graves interferências sociais, seria inevitável um enorme impacto ambiental na costa, especialmente nas áreas de manguezais, grande berço das espécies marinhas da Baía de Todos-os-Santos.
A ponte Rio-Niterói é um bom exemplo para dimensionar este fluxo. Quase 40 anos depois de inaugurada, entre 135 e 140 mil veículos a cruzam diariamente, números que serão atingidos pela ponte baiana em apenas três décadas.
Outra diferença é o tempo de viagem poupado. Vinte e quatro municípios terão sua distância de Salvador reduzida em mais de 40% com a construção da ponte Salvador-Ilha de Itaparica. São eles: Itaparica, Vera Cruz, Nazaré, Aratuípe, Salinas das Margaridas, Jaguaripe, Muniz Ferreira, Dom Macedo Costa, Valença, Santo Antônio de Jesus, São Felipe, Maragogipe, Varzedo, Elísio Medrado, São Miguel das Matas, Laje, Amargosa, Mutuípe, Cairu, Taperoá, Nilo Peçanha, Ituberá, Camamu e Piraí do Norte.
Essa economia de tempo, emissão de CO2 e dinheiro possibilita acelerar os investimentos em andamento, como estaleiros, terminais portuários e o turismo dentro da nossa baía, além de abrir novas oportunidades facilitadas pela logística, visto que a ponte será uma nova opção de via rodoviária. Muita gente vai passar a morar na Ilha e trabalhar na capital e vice-versa.
O Estado, no entanto, não descarta a Via Litorânea. Ela pode ser uma alternativa para integração de cidades históricas com potencial turístico, como Cachoeira, Santo Amaro, São Roque do Paraguaçu e Maragogipe.
Já a ponte terá um papel no vetor de expansão urbana e desenvolvimento econômico e social, principalmente para os moradores da Ilha, que terão novas oportunidades profissionais e mais acesso à saúde, educação e serviços públicos.
Em parceria com os municípios de Salvador, Vera Cruz, Itaparica e Jaguaripe, o Estado está conduzindo todas as etapas de modo a contemplar os interesses dos mesmos. Em breve será lançado o edital de urbanismo, que subsidiará o plano de desenvolvimento e ocupação das áreas de Vera Cruz e Itaparica. É deste modo, com respaldo técnico, que vamos garantir em tempo hábil e com responsabilidade, o novo marco do desenvolvimento baiano.
José Sergio Gabrielli | Secretário do Planejamento do Estado da Bahia

sábado, 27 de abril de 2013

Cultura Cidadã e Cidades Criativas - O exemplo de Bogotá

Ana Carla Reis Fonseca*
A Colômbia, é o país latino-americano que mais tem investido em uma estratégia de indústrias criativas, economia criativa e, finalmente, cidades criativas, trabalhando mais do que somente a capital, Bogotá. Isso parece se explicar por uma confluência de fatores. Em primeiro lugar, pela atuação intensa do British Council no país, instituição que desde o final da década passada tem promovido com afinco a proposta de criatividade como alavanca de desenvolvimento socioeconômico. Na Colômbia, em especial, a instituição fomentou e participou de vários projetos, tendo chegado mesmo a lançar um manual para empreendedorismo nas indústrias criativas.
Um dos fatores chaves da transformação de Bogotá, algo que não deixa de suscitar suspiros em quem mora no Brasil, é a continuidade de gestão e planejamento urbano. A cidade teve ao longo dos últimos 20 anos administrações cujos esforços foram complementares e pautados por uma mesma trajetória, apesar das eventuais orientações ideológicas distintas. Esta evolução, certamente nuançada, mas sem rupturas profundas ao longo de um fio histórico de algumas gerações, foi fundamental para dar vazão a um processo de transformação calcado no longo prazo e não nas usuais prioridades com horizonte de tempo restrito há no máximo quatro anos.
Tendo em vista a continuidade das gestões e do investimento em políticas sociais de base, não causa estranheza perceber que, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano, o índice de Desenvolvimento Humano de Bogotá passou de 0,768, em 1990, para 0,813, em 2000 e 0,880, em 2007.
Dos últimos prefeitos de Bogotá nestes vinte anos, dois merecem destaque. O economista Enrique Peñalosa (janeirode1998 a dezembro de 2000), em sua breve gestão, criou e inaugurou a primeira parte da maior referência de transporte público da cidade, o TransMilênio. Inspirado na Rede Integrada de Transportes de Curitiba trata-se de um sistema de veículos leves sobre pneus, no qual os ônibus transitam por duas faixas próprias em cada direção e sem cruzamento de nível. É composto por 514 veículos, que cobrem 84 km e 114 estações, circulando a uma velocidade média de 27 km/h e transportando no período de pico uma média de 170 mil passageiros por hora.
Em paralelo ao TranMilênio, Peñalosa investiu 300 km de ciclovias, uma rua pedonal de 17 km de extensão, rodízio para veículos e aumentou as taxas de estacionamento de veículos. Também investiu na infraestrutura de educação e cultura: construiu 52 novas escolas, reformou 150, dotou-as de computadores e elevou o percentual de matrículas em 34%. Do ponto de vista urbano, esse ex-prefeito pelo Partido Verde priorizou parques e áreas públicas, comprou terras na periferia (para evitar a especulação imobiliária) e plantou 100 mil árvores.
De todos os prefeitos de Bogotá nos últimos anos, o que se tornou mais conhecido por suas ações de transformação urbana foi Antana Mockus. Matemático, filósofo e ex-reitor da Universidade Nacional da Colômbia, sua maior bandeira foi a formação de uma “cultura cidadã”. Em suas palavras: “Por cultura cidadã entende-se o conjunto de atitudes, costumes, ações e regras mínimas compartilhadas por indivíduos de uma comunidade, que possibilitam a convivência e geram sentimento de pertencimento”.
Um dos grandes objetivos de Mockus, como porta de entrada ao desenvolvimento da cultura cidadã, foi levar as pessoas a observar a cidade, e a partir disso mudar sua conduta de modo consciente. Para tanto, recorreu a várias ações inusitadas, carregadas de conteúdo simbólico. Uma delas envolveu a contratação de mais de 300 grupos de mímicos e palhaços, espalhados por Bogotá, que buscavam romper com o moto-contínuo apático das pessoas, entre residência e trabalho e vice-versa, bem como promover a apropriação da cidade pelos transeuntes. Muitos desses mímicos tinham como atribuição zelar pelo respeito às faixas de pedestre e aos semáforos. A estratégia baseava-se “na vergonha como ação educativa, para que os cidadãos se convertessem em juízes dos infratores”.
A gestão da cultura cidadã promovida por Mockus lançou os alicerces para a construção de programa de iniciativas integradas e sintomáticas da transformação bogotana, a partir do mandato do próximo prefeito Luiz Eduardo Garzón (janeiro de 2004/dezembro de 2007).
“O grande sucesso político e cultural dos últimos prefeitos foi precisamente ter entendido a cultura como uma dimensão não ad latere, mas sim de centralidade na gestão da cidade de Bogotá. Foi precisamente na gestão pedagógica e simbólica da cultura cidadã que a cultura (mundo simbólico) se converteu em um elemento central da cidade. A cultura e a convivência tem a ver com normas, princípios e valores civis. Valores que não se aprendem simplesmente de maneira “institucional”, mas que devem ser interiorizado pelos cidadãos e, assim, influir sobre os comportamentos em termos de pagamentos de impostos, de convivência na cidade, de respeito ao tráfego etc. Trata-se de um grande avanço, se pensarmos que a cultura teve em geral pouca centralidade na agenda de nossos políticos e quando a teve foi por uma concepção de cultura como “cultura culta”, de levar cultura ao povo.” (German Rey)
Um dos aspectos que mais despertam a atenção no processo de transformação de Bogotá é a variedade de programas criativos que foram implementados ao longo de duas décadas, com firmeza de propósito, sem terem sofrido rupturas significativas entre as gestões municipais.
Porém, o aspecto mais inovador talvez resida no âmago dos próprios programas implementados, que souberam reconhecer e entender a cidade como sala de aula, restituindo ao espaço público o papel de cenário por excelência educativa e do desenvolvimento da cidadania, valendo-se de campanhas claras, carregadas de conteúdo simbólico, capazes de gerar a mobilização efetiva dos cidadãos.
*Economista com doutorado em Urbanismo pela USP. È autora do livro Cidades Criativas, baseado na sua tese de doutorado, de onde foi extraído este artigo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Pessoas criativas fazem as cidades criativas

Quando nós falamos em cidades, vamos muito além dos aspectos econômicos, apesar de, fisicamente, muitas vezes, a cidade refletir a economia que ela traz". A opinião é de Ana Carla Fonseca, especialista internacional em Economia Criativa e doutora em Urbanismo.
Em entrevista concedida ao portal EcoD, Ana Carla abordou detalhes importantes que estão no livro Cidades Criativas - Perspectivas, organizado por ela e cujo conteúdo reúne as visões de 18 estudiosos (de 13 países diferentes) sobre o tema. Disponível em português na internet, a obra foi editada pela Garimpo de Soluções.
PSF: Qual é a relação da economia criativa com as cidades criativas?
Ana Carla Fonseca: Falar de uma cidade criativa não é necessariamente dizer que esta cidade tem uma economia criativa pujante. A economia criativa é importante e atua como uma das características das cidades criativas, mas não é a única.
PSF: O crescimento desse conceito te motivou a organizar o livro?
Ana Carla Fonseca: Quando eu comecei a me debruçar mais sobre essa história, me dei conta de que existem poucas bibliografias sobre o tema cidades criativas no mundo. O objetivo foi organizar uma visão conjunta, harmonizada, do que elas sejam. Inicialmente, seria apenas um livro digital em inglês. Os colaboradores são colegas com os quais conheci ou trabalhei nos últimos anos. Eles aceitaram a minha proposta de expressar o que são as cidades criativas do ponto de vista deles, como é que uma cidade se desenvolve a partir de sua criatividade, desafios no âmbito público e privado, entre outros temas relacionados. Aí, trouxemos como parceiros o Sebrae, a SP Turis e o Santander. O livro foi lançado no Brasil em Salvador, São Paulo e Belo Horizonte.
PSF: E o que uma cidade precisa para ser, de fato, considerada criativa?
Ana Carla Fonseca: Ao analisarmos as contribuições dos 18 especialistas que integram o livro, percebemos que há três características básicas das cidades criativas, comuns aos pensamentos de todos eles: inovações, soluções inteligentes para problemas urbanos; conexões, com ligações entre áreas da cidade e parcerias entre setores público e privado; e cultura, com ações no circuito das artes, setores da moda, gastronomia, design e arquitetura que possam gerar um ambiente mais favorável à inovação.
ana carla fonseca "Quem faz as cidades são as pessoas. Se as pessoas são criativas, as cidades são criativas" - Ana Carla Fonseca.
PSF: Existem limites para que uma cidade possa ser criativa?
Ana Carla Fonseca: Há o risco de se achar que uma cidade criativa tem de ser de grande porte, mas isso não acontece, necessariamente. Uma cidade de 10 mil habitantes pode ser extremamente criativa, mesmo que não seja considerada uma “cidade global”, como Nova York e São Paulo. Ela pode ter suas inovações e conexões culturais aplicadas ao seu contexto. Uma cidade de 5 mil habitantes, como Guaramiranga, no Ceará, pode ser criativa levando-se em conta sua proporção. Pode não ter um grande polo científico, mas ações conjuntas inovadoras, como o reaproveitamento de garrafas PET para às construções. Quem faz as cidades são as pessoas. Se as pessoas são criativas, as cidades são criativas.
PSF: Uma determinada cidade pode ter ações criativas, porém, de forma isolada. Daria para classificá-la como criativa?
Ana Carla Fonseca: Este é um ponto interessante. O grande desafio é a cidade inteira se beneficiar de sua criatividade, porque ela é um sistema, que precisa funcionar de forma harmônica. Do contrário, só com ações isoladas, você acaba com bolsões de criatividade que não transformam a cidade. A essência de uma cidade criativa é ela voltar-se a si mesma, identificar o que possui de singular e quais são os seus problemas, para passar a trabalhar em cima disso. Não adianta querer copiar outra cidade. É preciso explorar o próprio potencial.

Economia criativa na Bahia

Ernesto Britto Ribeiro*

Sempre que falamos de economia criativa e suas relações com as indústrias locais, dizemos que uma tem tudo a ver com a outra e que a economia criativa faz desenvolver as indústrias de diversos segmentos. Dizemos ainda que as indústrias chamadas tradicionais fazem parte da economia criativa, ainda que alguns não percebam. Acreditando que isso é verdade, resolvi identificar os sindicatos industriais que têm maior proximidade com os segmentos nucleares da economia criativa.

Talvez por estar com fome, comecei pela área que mais me agrada, que é a gastronomia. Fazendo essa pesquisa, identifiquei pelo menos nove sindicatos de indústrias baianas que fazem parte, talvez sem saber, da economia criativa. Vamos a eles? Sindicato das indústrias do Açúcar e Álcool da Bahia, Sindicato das indústrias de Cerveja e Bebidas, Sindicato das indústrias de Óleos Vegetais, Cacau e Balas, Sindicato das indústrias de Café, Sindicato das indústrias de Carne e Derivados, Sindicato das indústrias de Laticínios e Produtos do Leite, Sindicato das indústrias de Panificação, Sindicato das indústrias de Congelados, Sorvetes e Sucos, Sindicato das indústrias de Trigo, Milho e Massas Alimentícias. Com isso fiquei pensando em diversas possibilidades de incremento dessas indústrias já instaladas e nas possibilidades de ampliação desses setores.
Será que as indústrias estão conectadas com os empreendimentos da ponta, bares, restaurantes, chefes de cozinha, que usam esses produtos? Está claro para todos que quanto mais a gastronomia se desenvolver, mais essas indústrias irão faturar?
Agora vamos para as áreas de Moda e Design. Identifiquei mais sete sindicatos industriais que fazem parte da economia criativa. São eles: Sindicato das indústrias de Calçados, Sindicato das indústrias de Vestuário, Sindicato das indústrias de Couro, Sindicato das indústrias de Papel e Celulose, Sindicato das indústrias de Fibras Vegetais, Sindicato das indústrias de Fiação e Tecelagem e o Sindicato de Mobiliário. Assim, podemos associar o crescimento de muitas dessas indústrias e seus sindicatos ao desenvolvimento dos segmentos da moda e do design.
Pensando nas indústrias do Sindicato do papel e celulose vale lembrar que em todos os produtos alimentícios ligados à gastronomia, anteriormente citados, existem as embalagens, que geralmente são feitas de papel ou de plástico, entrando ai também o Sindicato das indústrias de Artigos de Plástico. Ou seja, a economia criativa da moda e do design, assim como da gastronomia, faz crescer a indústria baiana. E o crescimento do design, assim como da arquitetura não beneficia as indústrias de Cerâmica e Olarias e as indústrias de Serraria? Então, decididamente, a economia criativa envolve partes importantes da indústria tradicional baiana.
Por falar em arquitetura, esse é outro segmento importante da economia criativa. Ligados a esse segmento encontrei pelo menos três sindicatos industriais que são o Sindicato da Construção Civil, Sindicato das Indústrias de Cerâmica e Olarias e Sindicato das Indústrias de Serraria. Além desses, observei também que existe na Bahia o Sindicato das Indústrias Gráficas e elas fazem parte da economia criativa da Editoração, assim como as empresas do Sindicato das Indústrias de Produtos Eletrônicos estão envolvidas na economia criativa do Design, da Comunicação e dos Games. Falando em Games, ouvi essa semana o Secretário de Cultura da Bahia, Professor Albino Rubim, dizer que a indústria de games, no mundo, já é mais importante do que poderosa indústria do cinema.
Confesso que foi uma agradável surpresa perceber que temos mais de vinte sindicatos de indústrias tradicionais na Bahia que fazem parte, de uma forma ou de outra, da economia criativa, esse novo conceito que reúne as empresas que têm a criatividade como insumo principal. Agora vêm os desafios para o desenvolvimento da economia criativa com suas ramificações industriais. Quais as redes produtivas e conexões comerciais existentes nesses segmentos? Como envolver nas mesmas redes produtivas indústrias de grande porte, prestadores de serviço e pequenos empreendedores criativos? Quais as diferenças entre o desenvolvimento de setores em cadeia, como as indústrias tradicionais, e o desenvolvimento de setores que se organizam em redes? Quais as lacunas existentes nessas redes produtivas e as dificuldades de conexão, articulação e para a geração de novos negócios? Isso é só o começo do desafio de desenvolver a economia criativa na Bahia, mas como dizem os chineses, toda grande caminhada começa com um primeiro passo.
*Ernesto é mestre em Administração Estratégica e trabalha com foco em desenvolvimento turístico desde 2001. Foi professor de disciplinas de Planejamento Turístico e Políticas Públicas de Turismo na Faculdade Visconde de Cairu e na Factur. Foi secretário municipal em Itaparica e sub-secretário em Salvador.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Oded Grajew: Cidade privilegiou o transporte individual e abandonou a periferia


Letícia Mori
Nascido em Israel e morador de São Paulo há 50 anos, Oded Grajew, 68, fez carreira na capital. Criador da marca Grow, ele iniciou forte atuação no terceiro setor nos anos 1990. Desde então fundou a Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos), foi presidente do Instituto Ethos e idealizador do Fórum Social Mundial.
Hoje, ele é coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo, que em janeiro divulgou a quarta edição da pesquisa Irbem, na qual os paulistanos avaliam o nível de satisfação com a metrópole.
Para Grajew, São Paulo é exemplo de como não construir uma cidade, mas ele diz acreditar que os principais problemas têm solução. "É preciso vontade política e competência."
O empresário paulistano é interessado no terceiro setor?

Menos interessado e menos participativo que o necessário. Se houvesse integração maior dos empresários com as organizações da sociedade civil, São Paulo seria uma cidade menos desigual. A cidade tem carências, mas pela pujança econômica poderia ser muito melhor.
Como envolver o empresário?

O empresário com um mínimo de consciência tem de se sentir mal se não estiver fazendo nada, já que tem recursos e competência. Além da gratificação pessoal, melhorando a sociedade você melhora o ambiente dos negócios. Pobreza, desigualdade, falta de educação e de saúde não geram um ambiente propício para os negócios.
O sr. foi idealizador do Fórum Social Mundial, cujo lema é "um outro mundo possível". Qual é a outra São Paulo possível?

A percepção do paulistano sobre a qualidade de vida é muito ruim e 56% das pessoas mudariam de cidade se pudessem. Então, a outra São Paulo possível é uma cidade onde as pessoas queiram ficar na cidade, não queiram abandonar.
Qual deveria ser a meta do prefeito?

Diminuir a desigualdade. Dos 96 distritos da cidade, quase a metade não tem biblioteca, parque, hospital. Os empregos estão ultraconcentrados. As pessoas têm de se deslocar por uma enorme distância para ter trabalho e acesso a serviço público, o que piora a mobilidade.
Qual é o papel das subprefeituras?

Em todas as grandes cidades do mundo, cada parte é administrada separadamente com orçamento próprio. O papel das 31 subprefeituras de São Paulo é fundamental, se for dado recurso.
O que São Paulo pode importar de outras cidades?

Uma priorização total e absoluta para o transporte coletivo, como Londres, Paris, Nova York e Bogotá fizeram. Desenvolver o transporte alternativo, via bicicleta. E descentralizar a administração.
E o que poderia exportar?

O que pode exportar é o que não deve ser feito. É mostrar a experiência negativa de se construir uma cidade focada no transporte individual, que abandonou a periferia e onde se deu liberdade absoluta à especulação imobiliária.

sábado, 6 de abril de 2013

Os arquitetos e a cidade


Lourenço Mueller*
Como articulista quinzenal de um jornal como A TARDE, tenho respaldo para escrever o que acho e ao contrário do que pensam certas pessoas, artigos de jornal não são efêmeros, expressam no cotidiano a opinião dos que as têm e muitos ficariam admirados de como isso é lembrado pelos leitores. O IAB-BA é uma instituição que prezo e de cujas eleições para a diretoria tenho participado como organizador; aqui já escrevi dois artigos sobre esse Instituto ("O arquiteto, a cidade e a ética", em 07.03.2010, e "Arquitetos", em 27.11.2011).
Penso que arquitetos deveriam escrever mais em jornal, criticar mais as ações malbaratadas de executivos sem respaldo técnico ou mediocremente assessorados nas intervenções urbanas, sejam elas legíferas ou factuais e quando falei de uso e ocupação do solo me referi aos empreendimentos e atividades que os configuram, pois da Louos em si mesma todos se lembram da promessa do prefeito, ainda em campanha, de revê-la junto com o PDDU: referi-me aos desmandos e irregularidades pontuais promovidos por quantos interferem na cidade de forma definitiva, porque, como diz Mies van der Rohe, "os edifícios têm vida longa" e essas ocupações horrorosas, essas, sim, equivocadas, devem ser analisadas e criticadas pelas poucas instituições que têm autoridade concedida para produzir pensamento crítico e ético sobre o urbano e suas complexidades e pô-los em prática (no caso da Ademi), já que a universidade só cumpre a primeira parte. Também o editor de Opinião, Jary Cardoso, é testemunha de como tenho solicitado a publicação de artigos de arquitetos.
Criticando a omissão do IAB-BA dei ao seu presidente a oportunidade de proclamar as suas realizações, pois muitos nem sabem que associação é esta e muitos arquitetos desconhecem a eficiência do Instituto; não estou sendo sarcástico: assunto diário e mais importante que o IAB é a transformação da cidade e seria útil que outros mais participassem dessas discussões amigáveis. Pelos jornais.
*Arquiteto e urbanista

Salvador: Já está melhor

 Antônio Carlos Magalhães Neto*
“Completo três meses como prefeito da primeira capital brasileira com a consciência absoluta de que estamos no caminho certo e que temos trabalhado muito para que tenhamos uma cidade cada vez mais digna e mais humana para o seu povo. Jamais disse que administrar Salvador era uma tarefa fácil e muito menos que os graves problemas da cidade seriam resolvidos com mágicas. Pelo contrário. Durante toda a campanha e em meu discurso de posse deixei claro que, antes de qualquer coisa, era preciso colocar a casa em ordem para, depois, iniciar as transformações e obras necessárias para resgatar a autoestima da nossa gente.
Mesmo assim, já temos muito a apresentar e confesso que não esperava fazer tanto em tão pouco tempo. Devo isso a um secretariado, colaboradores e servidores que trabalham muito, que são competentes e têm compromisso único e exclusivamente com a cidade. 
Para minha alegria vejo que a população já percebe que Salvador está diferente. A começar por um prefeito que está sempre presente nos bairros e governa junto com as pessoas. Isso resulta na melhoria nos serviços públicos, a exemplo da limpeza, iluminação e conservação da cidade. As ações nas áreas essenciais, como a saúde, a educação e a promoção social, também avançam com medidas como a reforma e construção de postos, escolas em tempo integral e o Bolsa Família Móvel. Na área da gestão e transparência, a prefeitura adotou medidas inéditas, a exemplo do decreto contra o nepotismo e recadastramento dos servidores.
Na Fazenda, uma proposta de reforma tributária, que não eleva impostos, foi enviada à Câmara para tornar Salvador autossuficiente do ponto de vista financeiro até 2016. E tem mais: a prefeitura prepara um projeto de requalificação da orla, investe para melhorar a mobilidade urbana e o transporte público com projetos como o Domingo é Meia, que vai beneficiar diretamente 500 mil pessoas a partir do próximo domingo. Isso sem falar que a cidade volta a ter ordem e fiscalização.
Na Educação, por exemplo, a prefeitura já iniciou a reforma de 70 unidades de ensino. A ação, desenvolvida pela Secretaria da Educação possibilitou a inauguração de quatro novas escolas: Pituaçu, Agnelo de Brito, União da Boca do Rio e Lagoa do Abaeté. Na saúde, retomamos a construção das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) dos bairros de Brotas e Itapuã, que estavam paralisadas, fortalecendo a atenção às urgências e emergências no município. Determinei, ainda, a construção de quatro novas unidades de saúde em Mussurunga, Fazenda Coutos, Parque São Cristóvão e Dom Avelar, além da reforma de outras 17 em diversos pontos da cidade.
Outra novidade é o Bolsa Família Móvel, serviço lançado em janeiro e que já visitou dez bairros e atendeu a quase 1.000 famílias. O objetivo é fazer a busca ativa de 40 mil famílias que possuem o perfil, mas que ainda não tiveram acesso aos benefícios sociais do governo federal.
Para melhorar a mobilidade urbana da cidade, a Secretaria Municipal de Urbanismo e Transportes (Semut) está desenvolvendo o projeto Corredores Progressivos, com piloto a ser implantado nos dois sentidos do trecho Aeroporto - Pituba e previsão para operar em junho deste ano, durante a Copa das Confederações. Também está em fase de elaboração o edital de concessão do sistema de transporte urbano de Salvador, para concessão dos serviços de transporte público e de terminais de passageiros.
No âmbito da gestão, temos atuado na reorganização do quadro de servidores e funcionários municipais, assim como nos processos administrativos, com o intuito de dar maior eficiência à administração municipal, valorizar o servidor público e melhorar a prestação de serviços junto à população. São ações como estas em todas as áreas que me deixam muito feliz neste aniversário de 464 anos de Salvador, cidade onde nasci e nasceram minhas filhas. Cidade que tenho orgulho de administrar e que vou dedicar meus quatro anos de mandato para recuperar sua autoestima e devolver a alegria aos soteropolitanos.” 
*Prefeito de Salvador
**Artigo publicado na Tribuna da Bahia - 29/03/2012