sábado, 11 de março de 2017

Carnaval sem cordas e axé music

Marcelo Dantas*
Diferentemente das escolas de samba do Carnaval do Rio, que se consolidaram no modelo de um desfile, sustentado na beleza do espetáculo, permanecendo atrativo mesmo quando durante anos nenhum samba se tornou imortal ou sequer tocou nas rádios do Brasil, o Carnaval da Bahia, que tem o modelo de participação de rua, tem sua atratividade relacionada ao sucesso dos seus artistas e das músicas. Isso é muito claro historicamente nas últimas cinco décadas.
Apesar de o trio elétrico ter sido inventado nos anos 1950, foi o sucesso da música Atrás do Trio Elétrico, de Caetano Veloso, em 1969, que despertou o interesse dos brasileiros pelo Carnaval de rua de Salvador, assim como revalorizou o Carnaval para os próprios baianos, levando-o a um patamar estimado de um milhão de pessoas participando da festa nos anos 1970.
Esse padrão de participação só começaria a se ampliar a partir dos anos 1990, quando a axé music se tornou um ritmo local de sucesso, que começou a interessar ao Brasil. 
É a primeira fase de Luís Caldas, com o Fricote (1985), e do bloco afro Olodum, com o sucesso de Faraó (1987). Mas somente em 1992, quando pela primeira vez o samba-reggae se torna a musica mais tocada do Brasil, com o Canto da Cidade, e o sucesso de Daniela Mercury, com o CD mais vendido do ano no país, a axé music começa a se tornar uma usina de sucessos em todo Brasil. Em público de shows e vendagens de discos, a axé music será o maior sucesso da música brasileira dos anos 1990 e o Carnaval da Bahia dobra de tamanho: passa a ter uma participação estimada de dois milhões de pessoas, padrão que se mantém até hoje.
O impacto de Daniela Mercury não se resumiria ao sucesso da sua música e performance admirada nos palcos. Típica empreendedora, a artista abriria sua própria empresa, que registrou como Canto da Cidade, para administrar a sua carreira com total independência. Em seguida, abriu sua editora musical, a Páginas do Mar, para controlar o uso de suas obras, assim como assumiu a gestão do Bloco Crocodilo para garantir sua autonomia artística no Carnaval.
Esse modelo de artista-empresário-empreendedor cultural, que usa os rendimentos do sucesso para investir na própria carreira e no mercado da música, se tornou generalizado na axé music. 
No Carnaval, esse impacto seria gigantesco: dezenas de artistas de sucesso começaram a criar suas produtoras e editoras, além de se tornarem sócios ou proprietários dos blocos, enquanto os empresários de música que não eram artistas começaram a procurar e lançar novas bandas e artistas como seu produto.
Mercado autônomo
Esse empreendedorismo cultural de sucesso fez com que a Bahia se tornasse a terceira cidade do país em quantidade de produtoras da área musical, editoras de música e estúdios de gravação, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro, que historicamente concentram a indústria cultural e os meios de comunicação mais importantes do Brasil. Com isso, Salvador reverteu a lógica de exportação de artistas para o sul maravilha – praticada por todo Brasil- para se tornar um mercado próprio, autônomo, poderoso e de repercussão nacional.
Foi essa geração que criou a axé music e desenvolveu ao longo de mais de 30 anos um modelo flexível de negócios e criativo de gestão, que tornou os blocos de trio a maior força de atração de público do Carnaval de Salvador. Esses blocos se formaram com um caráter associativo, com turma de amigos de bairro ou de escolas da cidade e, com o tempo e o espírito empreendedor dos seus administradores, e mais tarde dos artistas que os assumiram, essas organizações se transformaram em empresas, gerando emprego e renda para milhares de pessoas.
Para desenvolver o negócio, construíram um marketing poderoso a partir dos artistas e do sucesso das músicas, profissionalizaram suas equipes e estruturas, conseguiram expandir as atividades por todo o país, através dos carnavais fora de época, viabilizando seus eventos e produtos com a venda ao consumidor – abadás, ingressos para shows e festas – e o patrocínio de marcas cada vez mais interessadas em associar o seu marketing à alegria e celebração que caracterizam esses eventos.

É essa riqueza concreta e processo de desenvolvimento econômico através da cultura que Salvador desdenha, quando as vozes de formadores de opinião, autoridades públicas, governantes, acadêmicos defensores da pureza cultural e nostálgicos de um Carnaval espontâneo que nunca existiu, se erguem num consenso em alto e bom som para atacar a axé music, demonizando as cordas dos blocos e, na verdade, condenando todo o lado comercial do Carnaval.
Surpreendente é que os nossos governos municipal e estadual, em que pesem as suas diferenças ideológicas, se expressam de modo parecido nas suas propagandas para o Carnaval de 2017, com a mensagem de que derrubar as cordas é a grande contribuição deles para o Carnaval.
A verdadeira contribuição é quando os governos – como tem sido especialmente feito nos últimos quatro anos pela prefeitura de Salvador – se empenham em contribuir para ampliar os dias de festa, em criar novos eventos para incrementar a programação, melhorar a segurança, aprimorar cada vez mais as condições de mobilidade urbana, e difundir largamente pelo Brasil a grandiosidade do nosso carnaval.
Equívoco estratégico
Mas se para fazer tudo isso o governo precisa competir com a iniciativa privada, blocos, camarotes, artistas e empresários, que criaram esse maercado, alguma coisa está errada.
Todo esse equívoco estratégico começou há muito tempo e tem se agravado nos últimos anos. Os três últimos prefeitos, Antônio Imbassahy, João Henrique e agora ACM Neto, o que equivale a um período de quase 20 anos, passaram a seguir um raciocínio aparentemente inteligentíssimo: como a prefeitura de Salvador gasta anualmente R$ 50 milhões com o Carnaval, e como os empresários mostraram capacidade para captar milhões em patrocínio, a prefeitura, que detém o direito de publicidade de rua, teria todas as armas para atrair patrocinadores para a cidade. Mas a que custo?
Que cidade no mundo teria a visão de investir R$ 50 milhões para fazer circular na sua economia um total de R$ 1,5 bilhão é um mau negócio?
Ao conquistar R$35 milhões em patrocínio, a prefeitura retirou esse mesmo valor do que estaria disponível no mercado para financiar os blocos e camarotes, Com isso, o governo municipal amplia e melhora a sua performance no Carnaval enquanto os blocos e camarotes, com a redução drástica do patrocínio disponível, começam a entrar em crise a ponto de muitos deles estarem pouco a pouco cancelando suas apresentações no Carnaval, ameaçando fazer desaparecer, num futuro próximo, a maior parte dos 250 mil empregos diretos e indiretos gerados pela festa.

Essa visão que condena o sucesso econômico dos empreendedores do Carnaval ameaça destruir uma das mais sólidas cadeias de economia criativa do Brasil e do mundo – o mercado da música e o Carnaval de Salvador – contribuindo para o enfraquecimento de empresas, produtoras, editoras de música, estúdios, equipamentos, trios elétricos, empresas de sonorização, de montagem de palcos, e artistas e profissionais da área, como cantores, compositores, músicos, artistas plásticos, cenógrafos, figurinistas, maquiadores, técnicos de som, e técnicos de palco, produtores executivos, produtores musicais e todos os produtos e serviços relacionados à musica.
De resto, podem acabar com os lucros dos setores culturais que lucram com a festa: os hotéis, as companhias aéreas, transporte, hospedagem, vendedores ambulantes, aluguéis de temporada, negócios na área de alimentação e bebidas, entre outros.
Se a crise da axé music se tornar o fim desse empreendedorismo cultural, ou da cadeia produtiva da música que inclui o Carnaval, poderemos ter no futuro um Carnaval espontâneo – o que de fato significa isso? – com a queda do turismo, a queda dos negócios, a queda do emprego e renda, o fechamento das produtoras de música, o exílio dos artistas para morar em outras cidades menos hostis à sua atividade.
Estamos todos querendo nos tornar espontâneos, gratuitos e mais pobres? E assumir, nós mesmos, o papel daquele que matou a galinha dos ovos de ouro e ainda ficou surpreso porque não teria mais ovos nem renovação da riqueza? E ainda queremos ser considerados heróis da luta pela pureza das nossas manifestações culturais?

*Marcelo Dantas, Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris, Jornalista e pesquisador em Economia da Cultura - Mestre em Administaração - NPGA/UFBA 
** Artigo originalmente publicado no jornal A Tarde, 27/02/2017 - Caderno 2 , pg.4

sexta-feira, 10 de março de 2017

Por uma Nova Cidade Baixa

GIOVANNY GEROLLI

Colaboração para o UOL
Salvador começou voltada para a Baía de Todos os Santos. Ali, no que viria a ser o centro da cidade, a faixa ao nível da praia foi chamada Cidade Baixa. Acima, a conhecida Cidade Alta integra outra parte do coração da capital baiana. Hoje, já bastante deteriorada e completamente sufocada pelo trânsito de veículos, a Cidade Baixa recebeu um plano para revitalização urbana - o Projeto Nova Cidade Baixa, assinado pelo Brasil Arquitetura, escritório paulista que contou com o apoio de arquitetos locais da A&P Arquitetura e Urbanismo.
O projeto visa remodelar o centro com requalificação urbana, ambiental e paisagística, desde o bairro de Campo Grande até a Ribeira, abrangendo toda a extensão da baía, incluindo as famosas praias do Cantagalo e de Boa Viagem. Segundo as diretrizes do projeto, a orla deverá receber ampla área de novos espaços públicos qualificados para uso e lazer de pedestres, com ciclovias, novas linhas de transporte público (veículo leve sobre trilhos, ou VLT), além de moradias em edifícios residenciais baixos (para não esconder o horizonte), com serviços para seus moradores. Planeja-se ainda desviar o tráfego intenso para túneis e estacionamentos subterrâneos.
O plano dos arquitetos também prevê equipamentos de grande porte para a cultura e o desenvolvimento socioeconômico, como escolas profissionalizantes.
A atual concentração demográfica da região não é homogênea, apresentando pontos mais densos (caso da região do Comércio), e outros mais esparsos, a exemplo dos pavilhões militares ou lotes com edifícios industriais degradados e subutilizados, juntos à orla. “A intenção principal é reaproveitar esse espaço urbano que tem forte apelo histórico e turístico, homogeneizando sua ocupação, ao gerar novas moradias e desviar veículos para que o uso do espaço seja público, com horizonte aberto para o mar”, conta Cícero Ferraz Cruz, do Brasil Arquitetura.
Como se trata de um masterplan, ou seja, uma plano geral, sem detalhamento, o projeto não está pronto para ser executado. Assim, como recurso de planejamento, a equipe de arquitetos dividiu a Cidade Baixa em cinco grandes áreas - Campo Grande/Praça Cayru; Comércio/Fuzileiros Navais; Jequitaia; Cantagalo/Boa Viagem e Mont-Serrat-Tainheiros/Uruguai -, com inúmeras obras previstas para cada uma delas.
Todas as cinco áreas seriam assim beneficiadas por novos sistemas de transporte coletivo, como o VLT circular interligado com a linha suburbana de trem, e novos teleféricos para passageiros transitarem entre Cidade Alta e Cidade Baixa. Largos espaços para circulação de pedestres, ciclovias e uma linha regular de transporte náutico também seriam disponibilizados à população.
No Campo Grande, pontos como Passeio Público, Parque da Aclamação e Forte de São Pedro serão requalificados, enquanto a Avenida Contorno deverá ganhar outro passeio anexo. O projeto prevê também a construção de um teleférico entre o Largo dos Aflitos e o Solar do Unhão, onde fica o Museu de Arte Moderna.
Um túnel, chamado Mergulhão, desafogaria o tráfego afunilado na junção da Avenida Contorno com a Avenida da França. A Praça Cayru, por sua vez, seria assim liberada da atual função viária para receber edificações de fins culturais, além de esconder, sob sua nova esplanada, um estacionamento subterrâneo de 400 vagas.
Para o Comércio, a ideia é reestruturar – ou limpar – suas vias internas, totalmente encobertas por veículos e edifícios comerciais. “Propomos a priorização do fluxo de pedestres sobre o de automóveis, com novos passeios, estacionamentos, e a transformação da Avenida da França, principal, em via de mão dupla”, conta Cruz
Surgiria também uma nova Esplanada do Porto, espaço sem os armazéns portuários que hoje ocupam grande área, para que viesse a ter uso público, contínuo e aberto para a baía, com pontos comerciais de médio porte interligados por marquise, além de uma passarela elevada para conectar o Porto a um novo Terminal Internacional de Passageiros – onde fica ainda hoje o Instituto do Cacau.
O Moinho da Bahia e o Moinho Salvador receberiam escritórios, salas de cinema e mais comércio. Ainda na área identificada como Fuzileiros Navais, torres hoteleiras supririam a demanda de turistas que chegam à cidade nos cruzeiros; um Terminal Intermodal faria conexão entre VLT, teleférico, ônibus e metrô, e o também chamado Novo Comércio receberia edifício-garagem para mil vagas e um centro de convenções.
Por fim, dentre os projetos mais importantes e previstos no masterplan, a equipe do Brasil Arquitetura repensou a praia de Boa Viagem como um dos cartões postais mais importantes da cidade, e propõe sua revitalização desde a Ponta de Humaitá. Um novo parque, identificado como Parque Metropolitano de Itapagipe, trará verde e mais vida à área entre a Avenida Suburbana e a linha férrea.
Polêmica
O projeto Nova Cidade Baixa, apesar de prever melhorias para o espaço urbano de Salvador, não foi encomendado pelo poder público baiano. Segundo os arquitetos da Brasil Arquitetura, foi a Fundação Baía Viva, privada, quem o encomendou e o doou ao Estado da Bahia. A Fundação Baía Viva foi fundada em 1999 por um grupo de empresários baianos "preocupados com a preservação do maior cartão postal da Bahia e marco representativo da História do Brasil: a Baía de Todos os Santos", conforme o site da entidade.
A doação foi questionada pelo jornal baiano "A Tarde", que publicou em 27 de fevereiro de 2010 uma matéria cobrando do então prefeito João Henrique Carneiro (PMDB) a identificação do patrocinador do projeto Salvador Capital Mundial, do qual a proposta Nova Cidade Baixa faz parte. Na reportagem o jornal levanta a suspeita de que por trás da doação estariam interesses econômicos do próprio grupo diretor da fundação, que conta com empresários do mercado imobiliário entre seus membros - caso de Carlos Seabra Suarez.
O arquiteto Marcelo Ferraz garante, no entanto, que não sofreu qualquer tipo de pressão para o desenvolvimento do projeto. “Fizemos aquilo que achávamos melhor para a cidade do ponto de vista urbanístico; inclusive com apoio de profissionais locais conceituados.”
A reação lenta da prefeitura municipal em responder às críticas ressentiu o doador do projeto, que desfez a doação, retirando o projeto das mãos do poder público. “Esperamos agora que o novo prefeito, que se demonstrou muito interessado, possa reverter esta delicada situação, para que pelo menos parte do Nova Cidade Baixa possa vir um dia a tramitar nos órgãos legislativos, ser aprovado e finalmente executado”, declara Marcelo Ferraz.
Será que na nova gestão iniciada pelo prefeito Antonio Carlos Magalhães Neto serão viabilizados alguns dos projetos?
*Master in Philosophie/ Journalismus pela Universidade de Viena(2005

sexta-feira, 3 de março de 2017

Carnaval sem cordas e Axé Music - Parte I

Marcelo Dantas*
Diferentemente das escolas de samba do Carnaval do Rio, que se consolidaram no modelo de um desfile, sustentado na beleza do espetáculo, permanecendo atrativo mesmo quando durante anos nenhum samba se tornou imortal ou sequer tocou nas rádios do Brasil, o Carnaval da Bahia, que tem o modelo de participação de rua, tem sua atratividade relacionada ao sucesso dos seus artistas e das músicas. Isso é muito claro historicamente nas últimas cinco décadas.
Apesar de o trio elétricoter sido inventado nos anos 1950, foi o sucesso da música Atrás do Trio Elétrico,de Caetano Veloso, em 1969, que despertou o interesse dos brasileiros pelo Carnaval de rua de Salvador, assim como revalorizou o Carnaval para os próprios baianos, levando-o a um patamar estimado de um milhão de pessoas participando da festa nos anos 1970.
Esse padrão de participação só começaria a se ampliar a partir dos anos 1990, quando a axé music se tornou um ritmo local de sucesso, que começou a interessar ao Brasil. É a primeira fase de Luis Caldas, com o Fricote (1985), e do bloco afro Olodum, com o sucesso de Faraó (1987). Mas somente em 1992, quando pela primeira vez o samba-reggae se torna a m,usic mais tocada do Brasil, com o Canto da Cidade, e o sucesso de Daniela Mercury, com o CD mais vendido do ano no país, a axé music começa a se tornar uma usina de sucessos em todo Brasil. Em público de shows e vendagens de discos, a axé music será o maior sucesso da música brasileira dos anos 1990 e o Carnaval da Bahia dobra de tamanho: passa a ter uma participação estimada de dois milhões de pessoas, padrão que se mantém até hoje.
O impacto de Daniela Mercury não se resumiria ao sucesso da sua música e performance admirada nos palcos. Típica empreendedora, a artista abriria sua própria empresa, que registrou como Canto da Cidade, para administrar a sua carreira com total independência. Em seguida, abriu sua editora musical, a Páginas do Mar, para controlar o uso de suas obras, assim como assumiu a gestão do Bloco Crocodilo para garantir sua autonomia artística no Carnaval.
Esse modelo de artista-empresário-empreendedor cultural, que usa os rendimentos do sucesso para investir na própria carreira e no mercado da música, se tornou generalizado na axé music. No Carnaval, esse impacto seria gigantesco: dezenas de artistas de sucesso começaram a criar suas produtoras e editoras, além de se tornarem sócios ou proprietários dos blocos, enquanto os empresários de música que não eram artistas começaram a procurar e lançar novas bandas e artistas como seu produto.
Mercado autônomo
Esse empreendedorismo cultural de sucesso fez com que a Bahia se tornasse a terceira cidade do país em quantidade de produtoras da área musical, editoras de música e estúdios de gravação, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro, que historicamente concentram a indústria cultural e os meios de comunicação mais importantes do Brasil. Com isso, Salvador reverteu a lógica de exportação de artistas para o sul maravilha – praticada por todo Brasil- para se tornar um mercado próprio, autônomo, poderoso e de repercussão nacional.
Foi essa geração que criou a axé music e desenvolveu ao longo de mais de 30 anos um modelo flexível de negócios e criativo de gestão, que tornou os blocos de trio a maior força de atração de público do Carnaval de Salvador. Esses blocos se formaram com um caráter associativo, com turma de amigos de bairro ou de escolas da cidade e, com o tempo e o espírito empreendedor dos seus administradores, e mais tarde dos artistas que os assumiram, essas organizações se transformaram em empresas, gerando emprego e renda para milhares de pessoas.
Para desenvolver o negócio, construíram um marketing poderoso a partir dos artistas e do sucesso das músicas, profissionalizaram suas equipes e estruturas, conseguiram expandir as atividades por todo o país, através dos carnavais fora de época, viabilizando seus eventos e produtos com a venda ao consumidor – abadás, ingressos para shows e festas – e o patrocínio de marcas cada vez mais interessadas em associar o seu marketing à alegria e celebtração que caracterizam esses eventos.
É essa riqueza concreta e processo de desenvolvimento econômico através da cultura que Salvador desdenha, quando as vozes de formadores de opinião, autoridades públicas, governantes, acadêmicos defensores da pureza cultural e nostálgicos de um Carnaval espontâneo que nunca existiu, se erguem num consenso em alto e bom som para atacar a axé musicdemonizando as cordas dos blocos e, na verdade, condenando todo o lado comercial do Carnaval.
Surpreendente é que os nossos governos municipal e estadual, em que pesem as suas  ideológicas, se expressam de modo parecido nas suas propagandas para o Carnaval de 2017, com a mensagem de que derrubar as cordas é a grande contribuição deles para o Carnaval.
* Marcelo Dantas - Meste e Doutor, é Pesquisador e professor
Cultura, Economia Criativa

quinta-feira, 2 de março de 2017

Ivete, a amiga que todo mundo quer ter



Ivete se fantasia de palhaça e curte Carnaval de rua em Salvador

Ivete se fantasia de palhaça e curte Carnaval de rua em Salvador
Tenho alguns poucos crushes de amizade. Aquelas relações platônicas que a gente cultiva à distância e que se confirmam a cada declaração, a cada atitude. A pessoa solta um pum e a gente aplaude porque admira. Aquele tipo de gente que, se tivesse sete anos, eu aproveitaria a hora do recreio da escola para perguntar singelamente: "você quer ser meu amigo". Nós, então, dividiríamos o lanche e seríamos cúmplices para sempre.
Já quis ser amiga do Woody Allen. Diante da impossibilidade, vi quase todos os seus filmes, li tudo sobre ele. Praticamente seduzi o maître do bar Carlyle, em Nova York (EUA), onde Allen toca clarinete numa banca de jazz, toda as segundas. Os ingressos estavam esgotados, mas consegui um lugar no cantinho, em pé, piscando meus olhos bem devagarinho, olhando bem fundo nos olhos do maître com cara de mafioso, como se fosse uma das personagens, digamos, excêntricas, de um filme do diretor. Colou.
Depois que consegui me acomodar com o Martini mais caro que já paguei na vida, e girava minha azeitona para disfarçar o nervosismo, Allen subiu ao palco. Me sentia como se tivesse encontrado o Ryan Gosling. Como pode aquele senhorzinho, franzino, que parece mal ter forças no pulmão para soprar o instrumento, tão genial, estar a dez metros de distância?
Agnews

Ivete no último carro da Grande Rio com o marido Daniel Cady e o filho Marcelinho
Preciso ao menos dizer "oi". Não, preciso ao menos que ele olhe pra mim. Entrou mudo, saiu calado. No final do show, guardou o clarinete e foi andando no meio das pessoas em direção à saída. Eu estava no caminho da saída. Estava no lugar certo, na hora certa. Ele apenas me olha, como quem diz: vai ficar parada aí como uma múmia ou vai me deixar passar? E assim, a cinderela virou abóbora e eu voltei andando a pé para o hotel pelas ruas de Manhattan, me achando uma idiota.
Rob Lowe foi um crush de verdade. Eu não queria ser amiga do Rob Lowe, queria pegar o Rob Lowe todinho para mim desde que o vi no filme "About Last Night", que ele estrela com uma novinha Demi Moore. Devo ter assistido ao filme umas 30 vezes, sabia os diálogos de trás para frente e guardei durante anos na memória alguns trechos que, tinha certeza, seriam úteis um dia.
No meio da briga com um ex-namorado, safado e imprestável, enquanto eu chorava de raiva, minha memória acessouy o HD e quando me dei conta lá estava eu gritando no meio da sala: "Não diga isto (eu te amo)! Você não sabe o que é amor!". Soou tão falso que quase dei risada e continuei com aquele bosta.
Ivete Sangalo é um dos meus poucos e mais duradouros crushes. Quando se veste de palhaço e vai pular Carnaval com um grupo de amigos, na pipoca dos blocos de Salvador. Quando para o show para dar bronca no marido. Quem é esta aí, papai? Quando dança descalça em cima do trio e na avenida. Quando chora no "The Voice Kids".
"Descobri" Ivete no Carnaval do ano 2000, quando ela assumiu a frente do bloco Cerveja&Cia. Foi amor no primeiro axé. E desde lá, só a vi crescer como artista, como pessoa, como mulher. Ela é forte, autêntica, batalhadora, talentosa.
Mas é mais do que isso. Ivete tem cara de quem coloca um pijama velho para ver filme, comendo pipoca, com as amigas. Ela tem uutodo o jeito de que quando a gente liga para chorar umas pitangas, vai logo dizendo "deixe de ser abestada e vem aqui para eu te dar um colo". Tem pinta de ser aquela amiga para quem você propõe as coisas mais loucas e ela logo diz "bora". Parece de verdade e é esse tipo de gente que a maioria das pessoas quer ter como amiga. Inclusive eu.
absoluta, no Carnaval e no resto do ano










mariliz pereira jorge
É jornalista e roteirista. 
Escreve às quintas e sábados.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Impressões e expressões do carnaval da soteropolis

Fernando Guerreiro*
Apesar dos vaticínios e pragas das trombetas da derrota, o Carnaval desta cidade continua vivo, vibrante e deliciosamente contraditório. 


Considerações  de um humilde folião que adora observar a folia:
1. A personalidade deste Carnaval foi Gilberto Gil. Onipresente, esteve no camarote, nos palcos, nos trios, esbanjando vitalidade e sabedoria. Falou o necessário e funcionou como uma espécie de embaixador da paz.
2. Falar o necessário não foi o caso de nosso vereador Igor Kannário. Um festival de bobagens, comprometendo meio mundo, se transformando no maior mico carnavalesco da década. Um terror!
3. Terror apostar em celebridades na folia. Elas estão em extinção, não causam mais impacto, e a proliferação de ex-BBBs destruiu a categoria. Poucos globais nos camarotes, com impacto zero na mídia.
4. A mídia e o público se deliciaram com a nossa rainha da comunicação, Ivete Sangalo. Deu um banho no desfile do Rio e provou que é imbatível no quesito carisma. Sambou no asfalto, aprendeu coreografias e ainda protagonizou o primeiro cooper do Sambódromo, para chegar no carro destaque. Deliciosa!
5. Delícia poder voltar a pular no chão. O folião pipoca volta a dominar o Carnaval e junto com ele a sensação de que blocos de corda que não dependem de um artista de nome e tem identidade vão continuar na folia: Muquiranas é o maior exemplo. Existe espaço para tudo, desde que equilibrando as demandas. 
6. Demanda para ser resolvida com urgência: crianças querem mais espaço na folia. Onde estiveram, cantaram e encantaram, e são os foliões do futuro. Depende deles a sobrevivência da festa.
7. Festa para Bell que vendeu todos os abadás e provou que continua imbatível como puxador. Festa para Daniela, que apesar do ego nos infernos continua provocadora e polêmica, trazendo movimento para a folia. Festa para Tomate com sua loucura e Márcio Victor que apareceu com a melhor música, colado com Léo Santanna que fez o melhor Carnaval de sua vida. Festa para o Cortejo Afro, Olodum, Gandhy, Ilê e todas as agremiações que mantêm vivas as nossas tradições, apesar da dificuldade eterna de colocar o bloco na rua.
8. Falar em rua, a tradição de falar nos trios está matando os desfiles. Ninguém aguenta mais a conversa interminável dos artistas com emissoras de TV no circuito. Um poooorrrre e um desrespeito ao folião.  
9. Que o folião volte a reinar no Carnaval e seja o principal elemento e o protagonista de uma deliciosa esbórnia que todo ano se reinventa e surpreende. Que o Carnaval seja discutido o ano inteiro em fóruns representativos e eficientes e que possamos construir ações que extrapolem os 12 (!) dias da festa e durem o ano inteiro. Paro por aqui que o arrastão me espera!
Fernando Guerreiro é presidente da Fundação gregório de Matos

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Trinta anos de Faraó

Marco Aurélio Luz *
Em 1974 o Ilê Aiyê trouxe o "mundo negro" para o carnaval transformando-o num turbilhão dos blocos afro. Com ele vieram posteriormente outros tantos: Olodum, Muzenza, Malê de Balê, Araketu, Badauê, Oba Dudu, Oba L'aiyê, Oju Oba, Bankoma etc. Com eles, a expressão da afirmação existencial da comunidade negra apoiada pelos valores do riquíssimo legado da civilização negro africana.
O Ilê Aiyê manteve-se como "o mais belo dos belos", pelo conjunto de beleza desfilando com impávido orgulho de sabedoria negro africana encantando a todos.
A presença da Iyalorixá Gitolú D. Hilda, mãe do líder fundador Antônio Carlos Vovô, gerou um calendário de atividades culturais destacando-se "A Noite da Beleza Negra". Nessa atmosfera, foi constituída toda uma original e criativa linguagem própria, na música, na bateria, nas danças, nas roupas e suas estampas, nos penteados, turbantes etc.
Em 1979 foi fundado o Olodum. Depois de Petu e Jair chegou João Jorge vindo do Ilê Aiyê e juntamente com Neguinho do Samba e Lazinho, proporcionaram um calendário de atividades, como o Festival Femadun, e um mar de criatividade musical.
A genialidade de Neguinho do Samba proporcionou a criação do gênero samba reggae e implantou a forma orquestral do Olodum, constituindo sua principal identidade.
As interpretações intensas e originais do canto de Lazinho combinaram com a excelência das músicas e das letras dos compositores do Olodum, de temáticas variadas.
A letra do clássico "Revolta Olodum", de autoria de José Olissam e Domingos Sérgio, revela de forma magnífica uma condensação das revoltas contra as injustiças perpetradas contra o povo do Nordeste. O panorama histórico abrange o Palmares de Zumbi que comandou "exército de ideais, libertador", passando pela Balaiada, Revolta Malê, Canudos de Antônio Conselheiro, o sertão de Lampião, Maria Bonita e Corisco... com música pertinente encerrando com a onomatopeia do som das metralhadoras.
A obra de Cheikh Anta Diop revelando o Egito Negro Faraônico repercutiu em toda comunidade afro descendente. O Egito, antigo berço da civilização, é negro africano.
O Olodum celebrou e divulgou na Bahia e no Brasil a temática que envolveu o desfile "Faraó". A excelente composição de Luciano Gomes fez de "Faraó" um clássico que atravessou fronteiras. Na letra, dimensões civilizatórias se apresentam: religião, mitologia, arquitetura das poderosas pirâmides, a esfinge de Gizé... Tornou-se a principal música e a essência original do Olodum.
"E a terra tremeu e o céu mudou de cor" anunciou o bloco afro Muzenza, investindo num sonho de liberdade, vulcão de criatividade, beleza, alegria e sabedoria que abalou as ruas de Salvador carnavais afora.
Doutor em Comunicação, licenciado em Filosofia, professor, escritor, escultor | maolluz@terra.com.br

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Carnaval na Barra não mais

As chaves da cidade ainda não foram entregues ao Rei Momo. Mas a capital baiana já se encontra em processo acelerado de embriagues. Com um final de semana de antecedência ao calendário, milhares de baianos e turistas estão nas ruas celebrando a vida e a alegria como se não houvesse amanhã. De uma forma tão intensa e inconsequente que alguns já disseram que Salvador é uma cidade devastada pela alegria.
Bom, quem acompanhou de perto as passagens de Leo Santana e Baiana System pela Avenida Oceânica no último domingo pode afirmar que o Carnaval já acabou. Dificilmente haverá uma concentração tão grande até quarta-feira de Cinzas. E claro, com tanta gente na rua, empurrões, brigas e incidentes eram inevitáveis. Moradores da Barra postaram vídeos na internet mostrando a queda de uma muro por causa do tumulto e denunciaram que vândalos estão causando distúrbios nos arredores – que entre outros problemas causou a saída do ar dos sinais de telefone e internet da CVT/Vivo em algumas ruas do bairro.
O próprio secretário de Turismo da capital, Cláudio Tinoco, admitiu que a organização deve ser aprimorada para o próximo ano e deve ser considerado o chamado Furdunço com um dia normal de Carnaval. E de fato, se as ruas principais eram livres para os foliões, as saídas laterais estavam parcialmente impedidas, como não acontece nos dias oficiais da folia. Isso causou muitas dificuldades para quem quis sair de lado quando passavam as principais atrações.
Mas já teve gente reclamando que o Furdunço foi descaracterizado. Atrações demais, trios muito potentes e gente demais nas ruas. Num momento em que muita gente apostava na decadência do Carnaval de rua de Salvador, podemos dizer que esses são problemas até interessantes para quem organiza a festa.
No campo político, a guerra entre apoiadores de Rui Costa e de ACM Neto promete. Primeiro na propaganda. O Governo do Estado colocou nas TVs, rádios e outdoors que o Carnaval pipoca é estadual. A prefeitura respondeu na mesma medida e intensidade – aliás a cada intervalo de programas importantes, vemos muitas propagandas oficiais. No caso é uma briga boa para o folião – já que realmente haverá mais atrações sem cordas nas ruas e nas praças da cidade.
Porém até aí a disputa se mostra. A deputada do PSB, Fabíola Mansur, fez coro às críticas do secretário de Segurança Maurício Barbosa e reclamou do palco montado no gramado do Farol da Barra pela cervejaria oficial do Carnaval deste ano. Lá irão de apresentar Leo Santana, Saulo, Emicida e outros artistas, bem em frente ao Camarote Expresso 2222 de Gilberto Gil, assim que o último trio iniciar sua apresentação em todos os dias de Carnaval, a partir desta terça. Para ela, há uma descaracterização do espaço histórico do Farol com o palco. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Medellín vive transformação e humanização

SYLVIA COLOMBO - Folha de São Paulo
Até pouco tempo atrás, Medellín carregava o terrível fardo de ser conhecida apenas como a sede de um dos mais poderosos e brutais cartéis de droga, comandado por um bandido sanguinário chamado Pablo Escobar (1949-1993), hoje infelizmente transformado em ícone pop.
Nos violentos anos 1980, a cidade tinha uma das taxas de homicídio mais altas do planeta —praticamente não há um habitante de "Medallo" (como os locais chamam a cidade) com mais de 30 anos que não tenha um conhecido que morreu de forma violenta naqueles tempos.
Porém essa triste situação começou a mudar para o bem pouco depois da morte de Pablo Escobar.
A razão disso foi uma combinação de boas políticas públicas de reurbanização do espaço com uma sociedade ávida pela paz e animada pela sua personalidade, que mescla "reza e parranda" (parranda é festa, em tradução livre), como o Nobel de Literatura Gabriel García Márquez (1924-2014) definiu os "paisas" (habitantes da região de Antioquia, cuja capital é Medellín).
Gabo achava que apenas por combinar tão bem a fé com a alegria e a vontade de estar em comunidade é que os "paisas" eram capazes de atravessar coletivamente por momentos tão difíceis como aquele período.
PAZ E TURISMO
A Medellín que o turista encontra hoje é o resultado desse movimento de transformação coletiva. A natureza ajuda, dando ao local um agradável clima de montanha, porém não tão frio como o da capital, Bogotá. O ar é agradável e fresco, como numa contínua primavera.
Outro lugar onde literalmente se respiram os novos ares é o Jardim Botânico, com uma linda arquitetura e espaço para shows e conferências, além de um bonito parque arborizado e com trilhas.
Já um passeio obrigatório para quem quer conhecer o passado conflituoso da cidade é o Museo Casa de la Memória, um espaço dedicado a contar, por meio de mostras temporárias e um acervo permanente e multimídia, a história da região. Os monitores, em geral, são gente das próprias comunidades afetadas pela violência.
Quem estiver decidido a ir sempre pode ter uma boa ideia do lugar conhecendo um pouco de seus escritores. Alguns dos melhores da Colômbia nasceram por ali, como Fernando Vallejo, autor de "A Virgem dos Sicários", Jorge Franco, de "Rosario Tijeras", e Hector Abad Faciolince, de "A Ausência que Seremos".

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Os sete pilares claudicantes da ponte

Paulo Ormindo de Azevedo*
Com duas matérias de página inteira do jornal A Tarde dos dias 10 /01 e 7/02, o governo do estado anunciou a licitação da ponte de Itaparica, que não foi prevista no PDDU de Salvador, nem no termo de referência do plano metropolitano. Os sete pilares da ponte seriam:
1º - O Sistema Viário do Oeste vai trazer a produção de grãos e minérios do Oeste para o porto de Salvador. Acontece que o porto de Salvador não opera com  granéis  e o frete rodoviário é muito mais caro que o ferroviário da Fiol. O porto de Aratu, por outro lado, está saturado. 
2º - A ponte vai levar o desenvolvimento para o Oeste da BTS e Baixo Sul. Ou será o contrário? A atratividade de Salvador e do Litoral Norte para o sertanejo é bem maior que a de S. Antônio de Jesus para os soteropolitanos. Essa cidade e Feira de Santana vão ceder para Salvador grande parte de seu comercio. Para ir a Itacaré ou Barra Grande não é mais fácil o turista usar o novo aeroporto de Ilhéus e o Porto Sul?
3º - A ponte vai desenvolver a região metropolitana de Salvador. Como, se ela dá um salto sobre a baia? Um cinturão rodo-ferroviário em volta à baia, poderia integrar quatro portos: Salvador, Aratu e Temadre e São Roque, e quatro centros industriais - CIA, RLAM, estação de regazeificação e estaleiros, além de 20 poços reativados de petróleo. Com essa via se ganharia um polo turístico, histórico e náutico, no Recôncavo. Com a ponte, nada.
4º - Itaparica irá expandir Salvador. Sim, a ilha será um dormitório da Capital, como São Gonçalo no Rio e deposito de contêineres de seu porto. Salvador terá sua área metropolitana duplicada e o ônus de reproduzir mão de obra para gerar riqueza em outros munícipios 
5º - O centro histórico de Salvador vai ser revitalizado com a ponte. Sem um rodoanel, Salvador e seu C,H. vão ser cruzados por 140 mil veículos/dia, que se destinam ao Litoral Norte, aeroporto, COPEC, Ford e cidades do Nordeste. Haja engarrafamentos!
6º - Não haverá mais fila para ir a Itaparica. Não foi o que aconteceu no Rio. As filas para as barcas de Niterói continuam enormes. Não faz sentido pagar pedágio, enfrentar congestionamento e não ter onde estacionar no destino final.
7º - A ponte vai criar empregos e injetar sete bilhões de reais em Salvador. Ledo engano. Os chineses trazem tudo, mão de obra e equipamentos. Neste momento de crise, subscrever 25% deste empreendimento e pagar 480 milhões anuais pelo seu uso é um risco muito alto. O estado já tomou um calote da Asia/Kia e, há três anos, enterrou um carro Jac, chinês, em Camaçari. 

Qual o custo-beneficio, prioridade e riscos deste projeto, num estado que tem 25% de analfabetos, a maior taxa de desemprego do país e é o mais rural, além de concentrar 50% da renda na RMS.
*Arquiteto. Professor Titular da Ufba

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Canto do Povo de Um Lugar

Leonardo Campos*
Aos que não conhecem devidamente o gênero axé music e pensam nesta manifestação cultural apenas com ojeriza, o documentário Axé – Canto do Povo de Um Lugar é um didático e bem fundamentado material para promover a reflexão e fazer estes olhares míopes enxergarem as coisas de um modo bastante diferente. O gênero que havia completa 30 anos em 2015 (se considerarmos Luiz Caldas como o marco zero) não havia ganhado uma comemoração na seara audiovisual. Foi pensando nisto que Chico Kertész realizou a produção.
O começo já emociona: a voz over de Ivete Sangalo cantando Baianidade Nagô, canção lançada no álbum Negra, da Banda Mel, em 1991, dá o tom saudosista do filme. “Já pintou verão, calor no coração, a festa vai começar…”. Um misto de riso e emoção se revela nesta abertura, principalmente para quem viveu bem de perto esta história que parece ter entrado em decadência nos últimos anos.
É preciso convicção e entrar num consenso: o carnaval de Salvador não é mais o mesmo, concorda? Cláudia Leitte não exala uma gota de criatividade e parece um mix de Britney Spears com qualquer coisa ruim que Daniela Mercury já tenha feito. Ivete Sangalo é uma cantora competente, carismática aos extremos, mas não entregou nenhuma canção digna de orgulho para os baianos nos últimos anos. A topografia do carnaval não permite muitas modificações de estilo e a festa parece sufocante para os que curtem a folia longe de um dos maiores ícones da segregação carnavalesca: os camarotes. Para quem conhece o carnaval baiano por essas vias, torna-se compreensível uma reflexão de caráter negativo.
Há, entretanto, uma história rica e audaciosa por detrás dessa realidade mais atual e destas questões mais gerais, algo que precisa ser descoberto e entendido por todos aqueles que se interessam pela produção cultural realizada no Brasil. O carnaval, citado anteriormente, é uma base para qualquer reflexão ligada aos envolvidos com o gênero axé music, manifestação que mescla elementos da música afro, do pop, do samba e até mesmo de ritmos caribenhos. Diferente, por exemplo, da música pop estadunidense, que geralmente envolve um álbum, videoclipes, apresentações televisivas e turnês, a produção de música do gênero axé music têm a liberdade de circular por tais suportes, mas desaguam na movimentação cultural anual que ocorre geralmente no mês de fevereiro.
Considerado como um dos movimentos musicais mais globalizados do mundo, o gênero carrega muito do sincretismo e da história cultural da Bahia. Sendo assim, o documentário reúne entrevistas e imagens de arquivo, tendo em mira contar o passado, delimitar o marco zero (Luiz Caldas), propostas para o futuro e manutenção do movimento (Saulo Fernandes), sempre reforçando as participações mais importantes dentro deste panorama histórico, tudo do ponto de vista, claro, dos envolvidos na produção.
A tarefa hercúlea do esquemático roteiro, assinado pelo diretor Chico Kertész, em parceria com Jaime Martins, era contar uma história rizomática, que se espalha em nosso mapa cultural histórico repleto de acontecimentos de importante semelhança que atravessaram décadas e contagiaram gerações. Através de uma média de 90 entrevistas, o filme retrata a evolução técnica e artística do gênero axé music, bem como o preconceito de muitos desinformados no que diz respeito a tal estilo. A produção também radiografa com eficiência a relação do gênero com a economia que gravita em torno da indústria do carnaval e do show business baiano, além de traçar um bem fundamentado estudo das “origens” do gênero.
A produção, que levou dois anos para ficar pronta, graças ao nosso sistema burocrático de direitos autorais, traz depoimentos de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Saulo Fernandes, Vovô do Ilê Ayê, Netinho, Beto Jamaica, Claudia Leitte, Luís Caldas, Bell Marques, Ricardo Chaves, Sarajane, Márcia Short, Tonho Matéria, dentre outros artistas locais, bem como empresários, produtores, executivos, radialistas e alguns compositores.
Neste processo, os artistas mais importantes recebem os seus devidos reconhecimentos: Luiz Caldas apontado como o responsável por sedimentar os teclados e as guitarras elétricas; Gerônimo por mesclar salsa, merengue e ritmos latinos ao candomblé; as bandas Asa de Águia e Chiclete com Banana por arrastarem multidões; o Araketu por enfatizar o poder do tamborim no bojo do baticum; o grupo Olodum e a sua mundialização ao dar o devido tratamento ao samba-reggae, algo que causou interesse em artistas como Michael Jackson e Paul Simon; as bandas Mel e Reflexu’s por embalarem os blocos afros com o ritmo pop; Carlinhos Brown e a sua competência como artista; as coreografias com pitadas de axé e sensualidade do É o Tchan, espécie de precursor de grupos como Terra Samba, Harmonia do Samba e Psirico; Ivete Sangalo, apontada como o fenômeno mais importante pós-apogeu; e Daniela Mercury, a rainha do Axé, a “branca mais pretinha da Bahia”, responsável por internacionalizar o gênero e fundir elementos do pop e da MPB.
Nesta radiografia somos relembrados do emocionante show de Daniela Mercury no MASP, um evento que sacudiu, literalmente, as estruturas do museu. 

Há também os relatos da primeira apresentação de Ivete Sangalo na Banda Eva, bem como a sua saída, retratada com bastante emoção pelas imagens de arquivo; o sucesso do Gera Samba, logo depois transformado em É o Tchan, grupo musical que apesar de aparentemente fugaz, durou bastante e mesclou com eficiência elementos do samba, do pagode e de alguns outros ritmos de matriz africana.
Os importantes depoimentos de Caetano Veloso e Gilberto Gil, artistas que simpatizam com as manifestações culturais oriundas do gênero axé music, surgem como responsáveis por referenciar os artistas de maior destaque. A dupla reconhecida mundialmente por seus trabalhos há décadas, verdadeiros guardiões da cultura, apontam e analisam alguns destaques do cânone musical do gênero, alocados com eficiência na montagem do documentário.
Será que por conta da burocracia que transformou o processo de produção de seis meses para dois anos, Margareth Meneses tenha ficado sem a sua trajetória apresentada? E Cid Guerreiro, que sequer foi citado? Carla Visi também não dá as caras. A aparição de Armandinho é quase nula. Estas dúvidas ficam no ar, mas o deleite (sem trocadilhos intencionais) ficou por conta da análise de Cláudia Leitte, uma celebridade que apesar de aparecer muito bem em alguns depoimentos, tem o merecido tratamento: é apontada como uma artista com star quality, alguém que possui a capacidade de atrair a audiência, mas que artisticamente representa apenas um mero produto desta indústria tão ampla. Convenhamos, uma das maiores verdades do documentário. A moça é linda e capaz de se sair bem ao microfone, mas infelizmente tem péssima presença de palco, carisma zero e retórica pobre, algo que nos deixa com a difícil incumbência de informa-la, com muito pesar, sobre a sua importância quase nula para a nossa história cultural.
Das imagens de arquivo destacam-se as aparições de artistas nos programas televisivos, principalmente o de Chacrinha, apresentador que inteligentemente aumentava a sua audiência ao levar os sucessos que estouravam na Bahia, e por tabela, numa relação mútua, promovia a carreira destes artistas e os alçavam para os interesses comerciais nacionais.
Houve quem reclamasse da ausência do povo nos depoimentos, bem como da abordagem de questões sociais. O cineasta reforçou, durante entrevistas, que não era o seu foco. No entanto, para o espectador cidadão, não apenas os que vivem de perto a realidade do carnaval de Salvador, mas as pessoas que acompanham a mídia e inserem-se como entes reflexivos no bojo dos acontecimentos cotidianos nacionais sabem que esta questão está latente no documentário, permeando cada depoimento e imagem retratada no eficiente exercício de revisionismo histórico do roteiro.
“É cada um por si e Deus pelo axé”, sintetiza Netinho, aparentemente ainda abalado pelos acontecimentos com a sua saúde, destino trágico que o tirou do mapa há alguns anos. De acordo com o documentário, nos anos 2000 a coisa perdeu o rumo. E é neste bloco que há o maior espaço para algumas alfinetadas. O que sobrevive atualmente é o esquema dos blocos e a ganância dos empresários (óbvia), somada a desunião de artistas locais, questões que parecem ter minado um movimento de caráter bastante popular, diferente da atual segregação que toma conta da capital baiana no mês de fevereiro e transforma tudo numa comemoração da “estratificação social de cada dia”.
Esta denúncia, por sua vez, nem é tão contemporânea. Desde os anos 1980 alguns blocos de carnaval exigiam fotografia e comprovante de residência dos foliões, como estratégia de barrar negros e pessoas pobres, afirmou o professor Paulo Miguez, do IHAC (Instituto de Humanidades da Universidade Federal da Bahia). O intelectual defende que os blocos afros, atualmente relegados apenas ao circuito Batatinha, de pouca visibilidade, devem ser apoiados com base em políticas culturais. Esta é apenas uma das polêmicas. De acordo com Alberto Pitta, presidente da Liga dos Blocos Afros, “o bolo que criamos cresceu, mas nós ganhamos a menor fatia”. O profissional aponta que existe a necessidade de democratizar a festa.
Há, também, como reflexão ausente, mas que tangencia a história, a questão dos cordeiros. No livro Trama dos Tambores, a autora dedica um capítulo a simbologia destes profissionais temporários que assumem o posto de guardiões das paredes invisíveis que segregam o carnaval de Salvador, manifestação máxima do gênero axé music. Apesar destas cobranças por parte das reflexões sobre o documentário que circula nas redes sociais e em algumas críticas de cunho autorizado (publicadas por profissionais da crítica cultural), não é preciso refletir em demasia para compreender que mesmo tangenciando o filme, seriam mais bem acopladas em um documentário sobre a história do carnaval. Estamos tratando, especificamente, do gênero axé music. O carnaval é algo anterior a este movimento, vale ressaltar, e já segregava muito antes do apogeu de artistas como Ivete Sangalo e Daniela Mercury.
De maneira circular a produção amarra bem as suas pontas. Ao hastear a bandeira de Luís Caldas no “monte do marco zero” do gênero, aponta o carismático Saulo Fernandes como uma promessa para o futuro e encerra o filme com os dois cantando Raiz de todo bem, numa apresentação bem calculada para o desfecho desta história contada em detalhes.
Axé – O Canto do Povo de Um Lugar tinha três horas e meia no primeiro corte. Foi uma tarefa árdua enxugar para os 110 minutos finais, afirmou Kertész. De fato o tema é amplo e até mesmo a linha do tempo cheia de retrospectivas, empregada com muita elegância, não conseguiu dar conta de uma história tão rica. Ainda nas palavras do cineasta, foi “apenas um recorte”. E esta consciência é que faz do filme algo com maior valor, pois circunda todo o projeto a sensação de paixão, segurança na abordagem e ânsia em contar uma história muito relevante para o patrimônio cultural brasileiro.
Como estamos diante da análise de um gênero internacionalizado, é possível que a produção alcance o merecido sucesso em terras estrangeiras. Em breve o filme vai ser lançado em Nova York e em Londres, e sem dúvida, circular por outros países e ganhar do devido reconhecimento. Os produtores de documentários, principalmente aqui no Brasil, um gênero cinematográfico quase diletante, haja vista o seu potencial fraquíssimo no que tange aos aspectos mercadológicos, deveriam buscar em Axé – Canto do Povo de Um Lugar a inspiração para contar as suas histórias, pois é raro encontrar uma produção capaz de contar uma história tão complexa de maneira atraente e diplomática.
“Sou apaixonado por documentários e assisto bastante”, afirmou o cineasta. “Quando você faz um documentário no Brasil, sabe que o público não é tão grande”, alegou Kertész, ciente da sua realidade. O realizador sabe que o filme pode não render muito por aqui, mas convenhamos, pode ser a produção que o coloque no mapa. E dentro deste território, basta aguardar qual será a próxima história que este cineasta iniciante tem para nos contar.
Axé – Canto do Povo de um Lugar – Brasil /2017
Direção: Chico Kertész