terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Carnaval na Barra não mais

As chaves da cidade ainda não foram entregues ao Rei Momo. Mas a capital baiana já se encontra em processo acelerado de embriagues. Com um final de semana de antecedência ao calendário, milhares de baianos e turistas estão nas ruas celebrando a vida e a alegria como se não houvesse amanhã. De uma forma tão intensa e inconsequente que alguns já disseram que Salvador é uma cidade devastada pela alegria.
Bom, quem acompanhou de perto as passagens de Leo Santana e Baiana System pela Avenida Oceânica no último domingo pode afirmar que o Carnaval já acabou. Dificilmente haverá uma concentração tão grande até quarta-feira de Cinzas. E claro, com tanta gente na rua, empurrões, brigas e incidentes eram inevitáveis. Moradores da Barra postaram vídeos na internet mostrando a queda de uma muro por causa do tumulto e denunciaram que vândalos estão causando distúrbios nos arredores – que entre outros problemas causou a saída do ar dos sinais de telefone e internet da CVT/Vivo em algumas ruas do bairro.
O próprio secretário de Turismo da capital, Cláudio Tinoco, admitiu que a organização deve ser aprimorada para o próximo ano e deve ser considerado o chamado Furdunço com um dia normal de Carnaval. E de fato, se as ruas principais eram livres para os foliões, as saídas laterais estavam parcialmente impedidas, como não acontece nos dias oficiais da folia. Isso causou muitas dificuldades para quem quis sair de lado quando passavam as principais atrações.
Mas já teve gente reclamando que o Furdunço foi descaracterizado. Atrações demais, trios muito potentes e gente demais nas ruas. Num momento em que muita gente apostava na decadência do Carnaval de rua de Salvador, podemos dizer que esses são problemas até interessantes para quem organiza a festa.
No campo político, a guerra entre apoiadores de Rui Costa e de ACM Neto promete. Primeiro na propaganda. O Governo do Estado colocou nas TVs, rádios e outdoors que o Carnaval pipoca é estadual. A prefeitura respondeu na mesma medida e intensidade – aliás a cada intervalo de programas importantes, vemos muitas propagandas oficiais. No caso é uma briga boa para o folião – já que realmente haverá mais atrações sem cordas nas ruas e nas praças da cidade.
Porém até aí a disputa se mostra. A deputada do PSB, Fabíola Mansur, fez coro às críticas do secretário de Segurança Maurício Barbosa e reclamou do palco montado no gramado do Farol da Barra pela cervejaria oficial do Carnaval deste ano. Lá irão de apresentar Leo Santana, Saulo, Emicida e outros artistas, bem em frente ao Camarote Expresso 2222 de Gilberto Gil, assim que o último trio iniciar sua apresentação em todos os dias de Carnaval, a partir desta terça. Para ela, há uma descaracterização do espaço histórico do Farol com o palco. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Medellín vive transformação e humanização

SYLVIA COLOMBO - Folha de São Paulo
Até pouco tempo atrás, Medellín carregava o terrível fardo de ser conhecida apenas como a sede de um dos mais poderosos e brutais cartéis de droga, comandado por um bandido sanguinário chamado Pablo Escobar (1949-1993), hoje infelizmente transformado em ícone pop.
Nos violentos anos 1980, a cidade tinha uma das taxas de homicídio mais altas do planeta —praticamente não há um habitante de "Medallo" (como os locais chamam a cidade) com mais de 30 anos que não tenha um conhecido que morreu de forma violenta naqueles tempos.
Porém essa triste situação começou a mudar para o bem pouco depois da morte de Pablo Escobar.
A razão disso foi uma combinação de boas políticas públicas de reurbanização do espaço com uma sociedade ávida pela paz e animada pela sua personalidade, que mescla "reza e parranda" (parranda é festa, em tradução livre), como o Nobel de Literatura Gabriel García Márquez (1924-2014) definiu os "paisas" (habitantes da região de Antioquia, cuja capital é Medellín).
Gabo achava que apenas por combinar tão bem a fé com a alegria e a vontade de estar em comunidade é que os "paisas" eram capazes de atravessar coletivamente por momentos tão difíceis como aquele período.
PAZ E TURISMO
A Medellín que o turista encontra hoje é o resultado desse movimento de transformação coletiva. A natureza ajuda, dando ao local um agradável clima de montanha, porém não tão frio como o da capital, Bogotá. O ar é agradável e fresco, como numa contínua primavera.
Outro lugar onde literalmente se respiram os novos ares é o Jardim Botânico, com uma linda arquitetura e espaço para shows e conferências, além de um bonito parque arborizado e com trilhas.
Já um passeio obrigatório para quem quer conhecer o passado conflituoso da cidade é o Museo Casa de la Memória, um espaço dedicado a contar, por meio de mostras temporárias e um acervo permanente e multimídia, a história da região. Os monitores, em geral, são gente das próprias comunidades afetadas pela violência.
Quem estiver decidido a ir sempre pode ter uma boa ideia do lugar conhecendo um pouco de seus escritores. Alguns dos melhores da Colômbia nasceram por ali, como Fernando Vallejo, autor de "A Virgem dos Sicários", Jorge Franco, de "Rosario Tijeras", e Hector Abad Faciolince, de "A Ausência que Seremos".

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Os sete pilares claudicantes da ponte

Paulo Ormindo de Azevedo*
Com duas matérias de página inteira do jornal A Tarde dos dias 10 /01 e 7/02, o governo do estado anunciou a licitação da ponte de Itaparica, que não foi prevista no PDDU de Salvador, nem no termo de referência do plano metropolitano. Os sete pilares da ponte seriam:
1º - O Sistema Viário do Oeste vai trazer a produção de grãos e minérios do Oeste para o porto de Salvador. Acontece que o porto de Salvador não opera com  granéis  e o frete rodoviário é muito mais caro que o ferroviário da Fiol. O porto de Aratu, por outro lado, está saturado. 
2º - A ponte vai levar o desenvolvimento para o Oeste da BTS e Baixo Sul. Ou será o contrário? A atratividade de Salvador e do Litoral Norte para o sertanejo é bem maior que a de S. Antônio de Jesus para os soteropolitanos. Essa cidade e Feira de Santana vão ceder para Salvador grande parte de seu comercio. Para ir a Itacaré ou Barra Grande não é mais fácil o turista usar o novo aeroporto de Ilhéus e o Porto Sul?
3º - A ponte vai desenvolver a região metropolitana de Salvador. Como, se ela dá um salto sobre a baia? Um cinturão rodo-ferroviário em volta à baia, poderia integrar quatro portos: Salvador, Aratu e Temadre e São Roque, e quatro centros industriais - CIA, RLAM, estação de regazeificação e estaleiros, além de 20 poços reativados de petróleo. Com essa via se ganharia um polo turístico, histórico e náutico, no Recôncavo. Com a ponte, nada.
4º - Itaparica irá expandir Salvador. Sim, a ilha será um dormitório da Capital, como São Gonçalo no Rio e deposito de contêineres de seu porto. Salvador terá sua área metropolitana duplicada e o ônus de reproduzir mão de obra para gerar riqueza em outros munícipios 
5º - O centro histórico de Salvador vai ser revitalizado com a ponte. Sem um rodoanel, Salvador e seu C,H. vão ser cruzados por 140 mil veículos/dia, que se destinam ao Litoral Norte, aeroporto, COPEC, Ford e cidades do Nordeste. Haja engarrafamentos!
6º - Não haverá mais fila para ir a Itaparica. Não foi o que aconteceu no Rio. As filas para as barcas de Niterói continuam enormes. Não faz sentido pagar pedágio, enfrentar congestionamento e não ter onde estacionar no destino final.
7º - A ponte vai criar empregos e injetar sete bilhões de reais em Salvador. Ledo engano. Os chineses trazem tudo, mão de obra e equipamentos. Neste momento de crise, subscrever 25% deste empreendimento e pagar 480 milhões anuais pelo seu uso é um risco muito alto. O estado já tomou um calote da Asia/Kia e, há três anos, enterrou um carro Jac, chinês, em Camaçari. 

Qual o custo-beneficio, prioridade e riscos deste projeto, num estado que tem 25% de analfabetos, a maior taxa de desemprego do país e é o mais rural, além de concentrar 50% da renda na RMS.
*Arquiteto. Professor Titular da Ufba

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Canto do Povo de Um Lugar

Leonardo Campos*
Aos que não conhecem devidamente o gênero axé music e pensam nesta manifestação cultural apenas com ojeriza, o documentário Axé – Canto do Povo de Um Lugar é um didático e bem fundamentado material para promover a reflexão e fazer estes olhares míopes enxergarem as coisas de um modo bastante diferente. O gênero que havia completa 30 anos em 2015 (se considerarmos Luiz Caldas como o marco zero) não havia ganhado uma comemoração na seara audiovisual. Foi pensando nisto que Chico Kertész realizou a produção.
O começo já emociona: a voz over de Ivete Sangalo cantando Baianidade Nagô, canção lançada no álbum Negra, da Banda Mel, em 1991, dá o tom saudosista do filme. “Já pintou verão, calor no coração, a festa vai começar…”. Um misto de riso e emoção se revela nesta abertura, principalmente para quem viveu bem de perto esta história que parece ter entrado em decadência nos últimos anos.
É preciso convicção e entrar num consenso: o carnaval de Salvador não é mais o mesmo, concorda? Cláudia Leitte não exala uma gota de criatividade e parece um mix de Britney Spears com qualquer coisa ruim que Daniela Mercury já tenha feito. Ivete Sangalo é uma cantora competente, carismática aos extremos, mas não entregou nenhuma canção digna de orgulho para os baianos nos últimos anos. A topografia do carnaval não permite muitas modificações de estilo e a festa parece sufocante para os que curtem a folia longe de um dos maiores ícones da segregação carnavalesca: os camarotes. Para quem conhece o carnaval baiano por essas vias, torna-se compreensível uma reflexão de caráter negativo.
Há, entretanto, uma história rica e audaciosa por detrás dessa realidade mais atual e destas questões mais gerais, algo que precisa ser descoberto e entendido por todos aqueles que se interessam pela produção cultural realizada no Brasil. O carnaval, citado anteriormente, é uma base para qualquer reflexão ligada aos envolvidos com o gênero axé music, manifestação que mescla elementos da música afro, do pop, do samba e até mesmo de ritmos caribenhos. Diferente, por exemplo, da música pop estadunidense, que geralmente envolve um álbum, videoclipes, apresentações televisivas e turnês, a produção de música do gênero axé music têm a liberdade de circular por tais suportes, mas desaguam na movimentação cultural anual que ocorre geralmente no mês de fevereiro.
Considerado como um dos movimentos musicais mais globalizados do mundo, o gênero carrega muito do sincretismo e da história cultural da Bahia. Sendo assim, o documentário reúne entrevistas e imagens de arquivo, tendo em mira contar o passado, delimitar o marco zero (Luiz Caldas), propostas para o futuro e manutenção do movimento (Saulo Fernandes), sempre reforçando as participações mais importantes dentro deste panorama histórico, tudo do ponto de vista, claro, dos envolvidos na produção.
A tarefa hercúlea do esquemático roteiro, assinado pelo diretor Chico Kertész, em parceria com Jaime Martins, era contar uma história rizomática, que se espalha em nosso mapa cultural histórico repleto de acontecimentos de importante semelhança que atravessaram décadas e contagiaram gerações. Através de uma média de 90 entrevistas, o filme retrata a evolução técnica e artística do gênero axé music, bem como o preconceito de muitos desinformados no que diz respeito a tal estilo. A produção também radiografa com eficiência a relação do gênero com a economia que gravita em torno da indústria do carnaval e do show business baiano, além de traçar um bem fundamentado estudo das “origens” do gênero.
A produção, que levou dois anos para ficar pronta, graças ao nosso sistema burocrático de direitos autorais, traz depoimentos de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Saulo Fernandes, Vovô do Ilê Ayê, Netinho, Beto Jamaica, Claudia Leitte, Luís Caldas, Bell Marques, Ricardo Chaves, Sarajane, Márcia Short, Tonho Matéria, dentre outros artistas locais, bem como empresários, produtores, executivos, radialistas e alguns compositores.
Neste processo, os artistas mais importantes recebem os seus devidos reconhecimentos: Luiz Caldas apontado como o responsável por sedimentar os teclados e as guitarras elétricas; Gerônimo por mesclar salsa, merengue e ritmos latinos ao candomblé; as bandas Asa de Águia e Chiclete com Banana por arrastarem multidões; o Araketu por enfatizar o poder do tamborim no bojo do baticum; o grupo Olodum e a sua mundialização ao dar o devido tratamento ao samba-reggae, algo que causou interesse em artistas como Michael Jackson e Paul Simon; as bandas Mel e Reflexu’s por embalarem os blocos afros com o ritmo pop; Carlinhos Brown e a sua competência como artista; as coreografias com pitadas de axé e sensualidade do É o Tchan, espécie de precursor de grupos como Terra Samba, Harmonia do Samba e Psirico; Ivete Sangalo, apontada como o fenômeno mais importante pós-apogeu; e Daniela Mercury, a rainha do Axé, a “branca mais pretinha da Bahia”, responsável por internacionalizar o gênero e fundir elementos do pop e da MPB.
Nesta radiografia somos relembrados do emocionante show de Daniela Mercury no MASP, um evento que sacudiu, literalmente, as estruturas do museu. 

Há também os relatos da primeira apresentação de Ivete Sangalo na Banda Eva, bem como a sua saída, retratada com bastante emoção pelas imagens de arquivo; o sucesso do Gera Samba, logo depois transformado em É o Tchan, grupo musical que apesar de aparentemente fugaz, durou bastante e mesclou com eficiência elementos do samba, do pagode e de alguns outros ritmos de matriz africana.
Os importantes depoimentos de Caetano Veloso e Gilberto Gil, artistas que simpatizam com as manifestações culturais oriundas do gênero axé music, surgem como responsáveis por referenciar os artistas de maior destaque. A dupla reconhecida mundialmente por seus trabalhos há décadas, verdadeiros guardiões da cultura, apontam e analisam alguns destaques do cânone musical do gênero, alocados com eficiência na montagem do documentário.
Será que por conta da burocracia que transformou o processo de produção de seis meses para dois anos, Margareth Meneses tenha ficado sem a sua trajetória apresentada? E Cid Guerreiro, que sequer foi citado? Carla Visi também não dá as caras. A aparição de Armandinho é quase nula. Estas dúvidas ficam no ar, mas o deleite (sem trocadilhos intencionais) ficou por conta da análise de Cláudia Leitte, uma celebridade que apesar de aparecer muito bem em alguns depoimentos, tem o merecido tratamento: é apontada como uma artista com star quality, alguém que possui a capacidade de atrair a audiência, mas que artisticamente representa apenas um mero produto desta indústria tão ampla. Convenhamos, uma das maiores verdades do documentário. A moça é linda e capaz de se sair bem ao microfone, mas infelizmente tem péssima presença de palco, carisma zero e retórica pobre, algo que nos deixa com a difícil incumbência de informa-la, com muito pesar, sobre a sua importância quase nula para a nossa história cultural.
Das imagens de arquivo destacam-se as aparições de artistas nos programas televisivos, principalmente o de Chacrinha, apresentador que inteligentemente aumentava a sua audiência ao levar os sucessos que estouravam na Bahia, e por tabela, numa relação mútua, promovia a carreira destes artistas e os alçavam para os interesses comerciais nacionais.
Houve quem reclamasse da ausência do povo nos depoimentos, bem como da abordagem de questões sociais. O cineasta reforçou, durante entrevistas, que não era o seu foco. No entanto, para o espectador cidadão, não apenas os que vivem de perto a realidade do carnaval de Salvador, mas as pessoas que acompanham a mídia e inserem-se como entes reflexivos no bojo dos acontecimentos cotidianos nacionais sabem que esta questão está latente no documentário, permeando cada depoimento e imagem retratada no eficiente exercício de revisionismo histórico do roteiro.
“É cada um por si e Deus pelo axé”, sintetiza Netinho, aparentemente ainda abalado pelos acontecimentos com a sua saúde, destino trágico que o tirou do mapa há alguns anos. De acordo com o documentário, nos anos 2000 a coisa perdeu o rumo. E é neste bloco que há o maior espaço para algumas alfinetadas. O que sobrevive atualmente é o esquema dos blocos e a ganância dos empresários (óbvia), somada a desunião de artistas locais, questões que parecem ter minado um movimento de caráter bastante popular, diferente da atual segregação que toma conta da capital baiana no mês de fevereiro e transforma tudo numa comemoração da “estratificação social de cada dia”.
Esta denúncia, por sua vez, nem é tão contemporânea. Desde os anos 1980 alguns blocos de carnaval exigiam fotografia e comprovante de residência dos foliões, como estratégia de barrar negros e pessoas pobres, afirmou o professor Paulo Miguez, do IHAC (Instituto de Humanidades da Universidade Federal da Bahia). O intelectual defende que os blocos afros, atualmente relegados apenas ao circuito Batatinha, de pouca visibilidade, devem ser apoiados com base em políticas culturais. Esta é apenas uma das polêmicas. De acordo com Alberto Pitta, presidente da Liga dos Blocos Afros, “o bolo que criamos cresceu, mas nós ganhamos a menor fatia”. O profissional aponta que existe a necessidade de democratizar a festa.
Há, também, como reflexão ausente, mas que tangencia a história, a questão dos cordeiros. No livro Trama dos Tambores, a autora dedica um capítulo a simbologia destes profissionais temporários que assumem o posto de guardiões das paredes invisíveis que segregam o carnaval de Salvador, manifestação máxima do gênero axé music. Apesar destas cobranças por parte das reflexões sobre o documentário que circula nas redes sociais e em algumas críticas de cunho autorizado (publicadas por profissionais da crítica cultural), não é preciso refletir em demasia para compreender que mesmo tangenciando o filme, seriam mais bem acopladas em um documentário sobre a história do carnaval. Estamos tratando, especificamente, do gênero axé music. O carnaval é algo anterior a este movimento, vale ressaltar, e já segregava muito antes do apogeu de artistas como Ivete Sangalo e Daniela Mercury.
De maneira circular a produção amarra bem as suas pontas. Ao hastear a bandeira de Luís Caldas no “monte do marco zero” do gênero, aponta o carismático Saulo Fernandes como uma promessa para o futuro e encerra o filme com os dois cantando Raiz de todo bem, numa apresentação bem calculada para o desfecho desta história contada em detalhes.
Axé – O Canto do Povo de Um Lugar tinha três horas e meia no primeiro corte. Foi uma tarefa árdua enxugar para os 110 minutos finais, afirmou Kertész. De fato o tema é amplo e até mesmo a linha do tempo cheia de retrospectivas, empregada com muita elegância, não conseguiu dar conta de uma história tão rica. Ainda nas palavras do cineasta, foi “apenas um recorte”. E esta consciência é que faz do filme algo com maior valor, pois circunda todo o projeto a sensação de paixão, segurança na abordagem e ânsia em contar uma história muito relevante para o patrimônio cultural brasileiro.
Como estamos diante da análise de um gênero internacionalizado, é possível que a produção alcance o merecido sucesso em terras estrangeiras. Em breve o filme vai ser lançado em Nova York e em Londres, e sem dúvida, circular por outros países e ganhar do devido reconhecimento. Os produtores de documentários, principalmente aqui no Brasil, um gênero cinematográfico quase diletante, haja vista o seu potencial fraquíssimo no que tange aos aspectos mercadológicos, deveriam buscar em Axé – Canto do Povo de Um Lugar a inspiração para contar as suas histórias, pois é raro encontrar uma produção capaz de contar uma história tão complexa de maneira atraente e diplomática.
“Sou apaixonado por documentários e assisto bastante”, afirmou o cineasta. “Quando você faz um documentário no Brasil, sabe que o público não é tão grande”, alegou Kertész, ciente da sua realidade. O realizador sabe que o filme pode não render muito por aqui, mas convenhamos, pode ser a produção que o coloque no mapa. E dentro deste território, basta aguardar qual será a próxima história que este cineasta iniciante tem para nos contar.
Axé – Canto do Povo de um Lugar – Brasil /2017
Direção: Chico Kertész

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Jardinagem urbana e picaretagem

Luiz Mott*
Adoro plantas! Dizem que os taurinos têm o dom de saber plantar e fazer de pequeninos espaços, jardins paradisíacos. No exíguo quintal de minha casa nos Barris, cultivo quase uma centena de arbustos, flores e palmeiras que eu mesmo plantei, inclusive uma gigantesca filha da palmeira imperial do casarão onde viveu Anísio Teixeira em São Lázaro. 
Já escrevi nesse espaço um S.O.S. em defesa da centenária cajazeira ao lado da Misericórdia e alertei os riscos de desaparecimento das principais palmeiras imperiais de Salvador e do inigualável bambuzal do nosso Aeroporto Dois de Julho. Há menos de um mês uma bela touceira de bambu gigante no dique do Tororó estava em chamas, um crime ambiental! 
Faço agora grave denúncia: quem foi o responsável que mandou cortar as três belas e frondosas árvores do raro jasmim manga (pluméria rubra), que embelezavam a entrada da Concha Acústica do TCA? Aliás, essa milionária reforma da Concha deixou muitíssimo a desejar, pois no lugar dos aprazíveis bancos, jardins e dos ditos jasmins, construiu-se uma rampa anacrônica l que descaracterizou completamente o paisagismo original. 

Outro absurdo: a Orla da Barra ficou linda, tornando-se o principal espaço de socialização de soteropolitanos e turistas, porém, desde sua inauguração, até hoje, gastou-se uma fortuna com diversas iniciativas de jardinagem, todas redundando em retumbante fiasco. Primeiro colocaram nas imediações do Farol grandes vasos de ferro, com belas palmeiras que logo morreram devido à maresia. Tentaram mudas adolescentes de jasmim manga e “onze horas”, ambas tiveram vida curta. Gastaram outro tanto com um arbusto de folhas leitosas, novo fiasco. Desfecho: removeram os tais belos vasos - onde estarão? 

E as caras placas de grama em frente ao Farol da Barra do verão passado? Só sobrou pequenina nesga de gramado cercado pela Marinha, o resto virou poeirento chão de terra batida.
Jardinagem urbana não é coisa para amadores. Respeitem nossas plantas e não joguem fora nossos impostos!
*Antropólogo e Professor Catédrático da Ufba

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Metro de Salvador, um modelo de excelência e modernidade para os baianos

Carlos Martins*
O metrô de Salvador, durante 13 anos, tornou-se símbolo de incompetência, de mau uso de recursos, sem vantagens para o caótico trânsito e população de Salvador, nos seus 12 km originais, que o apelidaram de “metrô calça curta”. Mudanças de projeto que custaram mais de um bilhão de reais, nunca foram devidamente explicadas pelos gestores da época.
No entanto, três anos após o governo do estado assumir oficialmente o metrô, a situação inverteu-se. O sistema metroviário de Salvador transformou-se em modelo de “benchmarking”, na contratação e eficácia de obras. Os 12 km da Linha 1 foram rapidamente concluídos, ligando a Lapa a Pirajá. Em 24 meses, o sistema ultrapassou a marca de 18 milhões de passageiros transportados.
Mas os avanços não pararam, e o metrô, patrimônio dos baianos, deixou de ser apenas de Salvador para ganhar a RMS, chegando até Lauro de Freitas, como será em breve com a Linha 2. Em ritmo acelerado, as obras atravessam a Paralela, avenida criada nos anos 60, e que no seu projeto destinava o corredor central para um futuro transporte de massa. Assim prevê o projeto original, que alguns “futuristas do agouro”, insistem em politizar, minimizando uma obra importante para a mobilidade da capital e da RMS.
A linha permitirá que o trajeto entre Acesso Norte e o aeroporto seja percorrido em 27 minutos, passando pelas 12 estações que compõem o trecho. Isso tornará Salvador a terceira capital do país em trilhos – 41 km no total - e a primeira a ter um metrô ligando o aeroporto ao centro. Ainda em fase inicial, o trecho Acesso Norte – Rodoviária da Linha 2 já ampliou em mais 30% o número de usuários.
Além disso, cerca de 700 ônibus metropolitanos serão retirados da malha urbana, dando fluidez ao trânsito, devolvendo sustentabilidade ao sistema de ônibus da capital e consolidando o conceito de Integração Intermodal. A cidade ainda ganhará equipamentos modernos de transbordo, como os novos terminais da Rodoviária, Pituaçu, Mussurunga e Aeroporto. A segunda linha do metrô baiano permitirá, também, a retirada de milhares de veículos particulares que transitam na Paralela, dando aos motoristas a opção do metrô. A linha que chegará ao aeroporto ainda terá destaque para questão ambiental. O paisagismo e urbanismo da obra preveem compensações ambientais, incluindo a substituição da vegetação estrangeira por vegetação típica da mata atlântica local. As lagoas artificiais, construídas para evitar alagamentos na avenida, sofrerão um tratamento adequado, e terão até o retorno de peixes, que já eram escassos.
Uma pista de cooper e uma ciclovia margearão a linha, apoiadas por bicicletários em cada estação, e quiosques de apoio. O projeto prevê, dentro do conceito de parque linear, cinco áreas de lazer, que terão equipamentos esportivos, dependendo unicamente da aprovação pela prefeitura. Passarelas modernas, com elevadores e escadas rolantes, e em consonância com as leis de acessibilidade, e três novos viadutos tornarão a mobilidade do pedestre mais segura e agradável. Portanto, longe de ser um “muro da vergonha”, a Linha 2 será um ponto de integração da cidade.
Além disso, as estações estarão harmonicamente integradas a paisagem e acessibilidade dos seus usuários, permitindo, ainda, a possibilidade de novos negócios e pontos de arte e cultura ao longo do sistema.
Em paralelo ao metrô, os corredores transversais, das linhas Azul e Vermelha, serão elementos indutores de uma expansão da cidade, ligando a orla atlântica à Bahia de Todos os Santos, e permitindo a integração com o metrô e o futuro VLT do subúrbio, assim como o BRT, se a prefeitura desejar.
Se os números já comprovam, a opinião dos baianos sobre o metrô diz ainda mais. Satisfação e aprovação, que demonstram que o metrô veio pra ficar, e será cada vez mais um orgulho de todos os baianos.

*Carlos Martins é secretário de Desenvolvimento Urbano do estado da Bahia

domingo, 8 de janeiro de 2017

Um crime contra a Bahia

António Riserio*
Salvador assiste hoje àquele que é o maior crime urbanístico contra a cidade, desde que Thomé de Sousa comandou sua construção no ano de  1549.
E não vejo ninguém bater na mesa. Nem sequer reclamar. Seguem todos silentes diante do que o governo estadual está fazendo na Avenida Paralela.
A Paralela é, hoje, o retrato mais preciso que conheço desta cidade. Tem de tudo: vendedores de crack, sede da Odebrecht, lojas (não vou dizer “igrejas”) evangélicas, oficinas de carros velhíssimos, revendedora de automóveis importados, condomínios, terreiros de candomblé, etc.
Era uma avenida bonita. Quase 20 km de extensão, com um belo canteiro central, obra de Burle Marx. Lateralmente, havia lagoas e bosques. Mas o governo do Estado da Bahia está destruindo a avenida. Montando ali uma ferrovia murada ligando Salvador e Lauro de Freitas.
Mas o mais grave nem é a destruição do verde. É que teremos uma ferrovia MURADA. Olhem no mapa. A Avenida Paralela passa justamente entre os bairros pobres do miolo da cidade e os bairros privilegiados da beira do mar. Com o MURO, a cidade ficará irremediavelmente apartada. Teremos o nosso MURO DA VERGONHA.
De um lado, vai ficar a cidade pobre tipo Pau da Lima. De outro, a cidade privilegiada tipo Pituba-Costa Azul. A segregação será oficializada – e por um governo que faz de conta que é de esquerda. Nem mesmo um cachorro vira-lata conseguirá passar do Cabula para Piatã. Comparativamente, o Minhocão é obra delicadíssima.
Não posso esperar nada da Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Este órgão existe apenas para carimbar oficialmente as ordens do governador. Foi a Secretaria que assassinou a área de proteção ambiental de Pituaçu, deixando que invasões “white collar”  reduzissem o parque ecológico ao tamanho de um dedal. E a destruição do parque de Burle Marx foi autorizada pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente.
Mas onde estão os baianos, que não protestam? Onde estão os ambientalistas que tempos atrás defenderam as lagoas do lugar, virando inclusive manchete na mídia local? Onde estão os ambientalistas que abraçavam a velha igrejinha do Rio Vermelho? Todos calados, comprados, cooptados.
Onde estão os celebrados artistas locais? Onde estão os contestadores da tropicália? Onde estão Capinan e Caetano Veloso? Cadê a axé music? A cidade que se foda, que o importante são as coreografias do próximo carnaval?
Tudo indica que sim. Política e culturalmente, Salvador vive hoje os seus mais tristes e desprezíveis dias.
*Antonio Risério é antropólogo e escritor

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

As cidades e o mundo

Marcos Magalhães*
A primeira infância da internet quis desmanchar no ar o que há muito tempo parecia tão sólido: a importância do local. 
Algumas boas ideias na cabeça e uma conexão confiável bastavam para ligar as pessoas e as empresas ao espaço global. Não importava tanto se estivessem em uma praia esquecida ou no coração de Manhattan. 
Na segunda década do século XXI, porém, o local onde você está se tornou mais importante do que nunca. E as cidades estão prontas para desenhar o perfil econômico do planeta.
No Brasil, as eleições municipais são vistas frequentemente como uma bússola que indica os caminhos da política estadual e da política nacional. A escolha de um prefeito se torna mais importante quando fortalece as chances de outros políticos nas eleições que acontecerão dois anos depois. 
Uma espécie de antessala das decisões que realmente contam para o país. Em todo o mundo, porém, as cidades se tornam cada vez mais protagonistas. Tanto pela conexão com a economia global quanto pela ligação com a própria realidade local.
Duas novas linhas de pensamento mostram a importância estratégica das cidades. 
Do lado mais globalista, o estrategista indiano Parag Khanna, que tem no currículo os cargos de conselheiro geopolítico do governo dos Estados Unidos e de pesquisador sênior da Universidade de Singapura, coloca os grandes centros metropolitanos como polos de uma cadeia global de produção. 
Do lado do “localismo cosmopolita”, como define Jon Rae, diretor da Schumacher College, no sudoeste da Inglaterra, as cidades são atores principais de economias locais mais prósperas e resilientes.
“Nós estamos entrando em uma era”, diz Khanna em seu recente livro “Connectography — Mapping The Future of Global Civilizaton”, “em que as cidades serão mais importantes que os estados e onde as cadeias de produção serão uma fonte de poder maior que a dos militares. Na medida em que as populações, a riqueza e o talento concentram-se em grandes cidades, elas gradualmente tomam o lugar dos países como os principais centros gravitacionais do mundo”.
A mensagem parece atual para grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro e Salvador, que correm o risco de ficarem isolados da disputa mundial por talento e investimentos. 
Os recentes debates sobre as eleições municipais no Brasil passaram bem longe desse tema, é claro. Assim como dos argumentos quase opostos, e quem sabe complementares, levantados pelos integrantes do movimento Cidades em Transição, que tem na Schumacher College e na pequena cidade de Totnes as suas principais raízes. 
O principal lema do movimento é o de estimular “economias cooperativas mais próximas de casa”.
“O local importa”, diz Robin Hopkins, cofundador da Transition Network, uma organização internacional que estimula práticas de fortalecimento da economia local. 
As pequenas cervejarias, que já são responsáveis por 12% do mercado nos Estados Unidos, estão entre seus exemplos. Microempresários cervejeiros de Londres, relata Hopkins, decepcionam os jornalistas que lhes perguntam como vão expandir seus negócios. 
Eles afirmam que não querem crescer. Preferem permanecer pequenos e manter um “ecossistema de fantásticas cervejarias” na capital inglesa.
Hopkins é autor do “Manual da transição”, uma espécie de guia para líderes locais interessados em aderir ao movimento. Suas regras são tão simples quanto universais. 
A primeira delas sugere a mudança da expressão “de algum lugar” para “aqui” e tem como bandeira moedas locais como a libra de Totnes, que circula apenas na cidade e evita que o dinheiro local seja sugado para os grandes centros. 
Ele lembra que dois grandes supermercados ingleses instalados em Totnes vendem 20 milhões de libras por ano em alimentos, vindos de várias partes do mundo. 
Se apenas 10% das vendas fossem de alimentos produzidos na própria região, a economia da cidade receberia um grande estímulo.
O “localismo cosmopolita” não pretende fechar fronteiras — as mesmas que andam perdendo importância na análise globalista de Parag Khanna. Mas reforçar as economias locais. 
O futuro das cidades está em jogo no mundo inteiro, seja pela sua conexão com as grandes cadeias globais de produção, seja pelas maneiras criativas de reinventar as potencialidades locais. Está na hora de o Brasil prestar mais atenção ao tema. 
Os prefeitos que tomaram posse ontem já podem buscar inspiração em cidades inovadoras espalhadas pelo mundo.

Marcos Magalhães é articulista no jornal O Globo

domingo, 1 de janeiro de 2017

Requalificar o Centro Antigo

Paulo Ormindo de Azevedo *
No mês passado, a Prefeitura anunciou um programa para revitalizar o centro antigo de Salvador, que inclui bairros que vão da Sé à Lapinha e do Comercio ao Tororó e Barris.
O abandono da área se evidencia pelo número de ruinas, a demolição de 31 imóveis na Montanha, em 2015, e a falta de agua para inaugurar o Palace Hotel.
Desde a administração de Mario Kertész, esta é a primeira vez que a Prefeitura manifesta interesse pela área, um dos principais atrativos da cidade.
Mas tenho dúvidas que apenas incentivos fiscais e a criação da Vila Cultural da Barroquinha, que não se sabe bem o que é, possam recuperar uma área tão extensa.
Primeiro, pela situação legal das ruinas.
Ninguém sabe a quem pertencem, pois três gerações não fizeram inventários. Segundo, por imaginar que a iniciativa privada vá se interessar por um novo “shopping a céu aberto”.
Não sou pessimista, apenas acho que o enfoque é equivocado.
A recuperação daquela área só é viável com um plano urbanístico envolvendo município, estado e União, que contemple os aspectos físicos, ou de infraestrutura; sociais, com ênfase na habitação; e econômicos, com incentivos aos serviços.
Isto é programa de estado e não de governo municipal.
As 1.500 ruinas podem se converter em 10.000 habitações do programa Minha Casa e Minha Vida.
Ele pode começar com o projeto da Faculdade de Arquitetura/Conder para o Pilar, já pronto.
No artigo “O que o centro antigo precisa”, publicado neste jornal em 3/2/2013, apontei as obras de infraestrutura necessárias: melhorar o acesso ao Centro Histórico com passarelas ligando o Pelourinho ao Desterro e o Carmo à Saúde e galerias e elevadores subterrâneos conectando a estação de metrô do Campo da Pólvora à Baixa dos Sapateiros, ao Terreiro de Jesus e ao Comercio, instalação de escadas rolantes ligando a Preguiça e a Contorno à Pr. Castro Alves e criação de um centro cultural dinâmico no Pelourinho, aproveitamento os cines Jandaia, Excelsior e Pax, este com um estacionamento vizinho subutilizado.
Finalmente, dar uso cultural ao Solar do Saldanha e não apenas burocrático.
*Arquiteto e Professor Titular da Ufba
 SSA: A Tarde, 1º/01/2017

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Orla da Ribeira conserva estilo vintage

Luis Felipe Pondé*
Uma das maiores contradições do mercado de turismo é que quando você fala de uma praia legal e vazia, logo ela estará cheia de gente ouvindo música alta e chata. Trânsito infernal. Enfim, um mundo de gente querendo ser feliz. E isso é uma das maiores pragas do mundo contemporâneo. Felicidade em bando é como um enxame de insetos famintos por sangue.
E me entenda: esse enxame não é necessariamente de gente pobre. Ricos e gente com diplomas também formam enxames de felicidade no mundo. A diferença é que estes não sabem que também formam um enxame de famintos por sangue. Acham-se acima da categoria "enxame".
Se estiver procurando uma praia que pode ser, talvez, à prova de enxames, sejam de ricos ou de pobres, proponho a orla (como se fala na Bahia) da Ribeira e a praia do Monte Serrat –ambas no extremo da cidade baixa, em Salvador. Puro "vintage de verdade", o que é raro num conceito que pressupõe uma certa dose de fake para existir.
A cidade baixa, pra quem conhece Salvador, é uma região esquecida. De lá, muita gente conhece a igreja do Bonfim, quando vai brincar de culto afro-brasileiro ou quando vai experimentar a travessia pela balsa (que na Bahia chamam de "ferryboat") pra ilha de Itaparica –onde fica o Club Med (mais brega impossível).
Outro destino comum, no comecinho da cidade baixa, é o Mercado Modelo, um inferninho de quinquilharias afro e similares. Mas que vale a visita se você estiver a fim de uma experiência antropológica feita na medida certa para o consumo de massa.
"Ser esquecido" é uma das formas mais radicais de se manter a elegância em se tratando de turismo. E a cidade baixa "profunda" é, seguramente, um lugar esquecido do mundo. Ninguém chega lá.
Mauro Akin Nassor/Fotoarena

Praia da Ribeira, em Salvador (BA)
PARAÍSO DE SILÊNCIO
A orla da Ribeira, uma praia absolutamente calma (toda a região ali é parte da baía de Todos os Santos), água brilhante e mansa, é um paraíso de silêncio, sem trogloditas felizes. Poucos carros. "Only locals", gente também esquecida pelo mundo. Casas antigas, sem reformas afetadas, assinadas por arquitetos arrogantes. Dois lugares na orla da Ribeira merecem uma visita, além da praia em si.
O primeiro é a Sorveteria da Ribeira, datada dos anos 1930. O sorvete dá de dez a zero num monte de "sorvetes italianos" por aí. Sabores locais como tapioca (antes de a tapioca virar moda) são imperdíveis.
Outro lugar especial é a oficina de azulejos do artista Prentice, um homem idoso completamente tomado pela sua arte. Seus temas variam de santos católicos a orixás africanos, passando por desenhos tipicamente portugueses. Sua própria oficina e casa onde mora são uma experiência por si só, na medida em que revelam todo o estilo "lisboeta-baiano" da virada dos século 19 para o 20, marca de grande parte da cidade baixa em Salvador.
A praia do Monte Serrat (ou avenida da Boa Viagem), uma pequena baía dentro da baía de Todos os Santos, fica um pouco adiante da igreja do Senhor do Bonfim.
Afora a praia de água tranquila e distante do frenesi comum na Bahia, o forte de Monte Serrat, datado do período colonial, é um pequeno colosso. Vazio de turistas, traz uma das panorâmicas mais lindas de Salvador.
A cidade baixa, lugar esquecido da capital, pode ser uma experiência mais atraente do que as praias badaladas de Trancoso e sua superlotação chique para paulistas entediados com a riqueza.ode ser, talvez, à prova de enxames, sejam de ricos ou de pobres, proponho a orla (como se fala na Bahia) da Ribeira e a praia do Monte Serrat –ambas no extremo da cidade baixa, em Salvador. Puro "vintage de verdade", o que é raro num conceito que pressupõe uma certa dose de fake para existir.

* Filósofo e professor, residiu em Salvador na juventude

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A vida é dádiva

Mateus Araújo
Para comemorar os 50 anos de música, a cantora Maria Bethânia fez, em 1º de fevereiro, show gratuito na praça de Santo Amaro da Purificação, sua cidade natal, na Bahia. Com bom humor, ela topou dar entrevista, por telefone, ao repórter Mateus Araújo (que também assistiu à apresentação). De Santo Amaro, Bethânia conversou com o JC: contou da emoção de voltar à sua cidade, lembrou, com saudade, de sua mãe, Dona Canô, falou de fé e de seu dia a dia. Confira trechos:
JORNAL DO COMMERCIO – Quando se assiste a um show seu, a impressão que se fica e os comentários que se ouvem é de uma sensação de êxtase. O que acontece, Bethânia, quando você olha para a sua plateia e quando você canta para ela?
MARIA BETHÂNIA – A minha entrega é absoluta, a minha vontade de atingir de tocar as pessoas. O contrário eu não sei bem. Mas, certamente, eles ficam entusiasmados. Você usou “êxtase” que é uma palavra bonita e religiosa. Eu tenho muita confiança nas coisas. Vim para o mundo traduzir isso, lembrar as pessoas sentimentos, posições, valores. E isso vai fundo. Graças a Deus!
JC – A Maria Bethânia que está no palco são várias ou uma só?
BETHÂNIA – É uma só. Mas o Brasil é muita variado, rico, deslumbrante, comovente em muitas situações; em outras, terrível. Minha vida é cantar isso. Desde que comecei a cantar e descobri que queria me expressar. Aquela frase de Ferreira Gullar que diz “a arte vive porque a vida não basta” foi meu impulso na vida. A minha sensibilidade foi dada por Deus, que aprendi com minha família, meus pais, meus colegas, fica à disposição disso.


JC – Naquela estreia, em Opinião, em 1965, você assumia um papel diretamente político. Era o primeiro espetáculo contra a ditadura militar. Mas você nunca gostou de se dizer uma artista política.
BETHÂNIA – Não é gostar. Em arte cabe tudo, ela permite permear o que quiser. O que nunca gostei são limites. “Bethânia é uma cantora de protesto.” É mentira! Sou de protesto, de romantismo, chique, brega. Não gosto de limites. Quando canto político arrebento, mas gosto de arrebentar dizendo eu te amo. É mais duro dizer “eu te amo”, principalmente nos tempos de hoje, quando há gente queimada viva mostrada na televisão, gente degolada. Fora o que acontece de ruim mais de perto da gente.
JC – Havia uma frase de Millôr Fernandes, no cartaz de anúncio da sua estreia de Opinião, que dizia “seis meses e um diretor farão dela a grande cantora brasileira”.
BETHÂNIA – Millôr? Ele nunca gostou dos baianos. Você veja como é vida. E meu pé pega um pouco na Bahia. Não sou baiana radicada, vivo no Rio desde os 17 anos, mas tenho casa na Bahia por causa da minha família. Os meninos (Caetano Veloso e Gilberto Gil) que são baianééésimos apanharam, coitados.


JC – A aproveitando que você disse ser uma voz do Brasil: O que é o Brasil para você?
BETHÂNIA – Minha terra, um lugar mágico, lindo. Que está sendo destroçado. Mas a natureza está dizendo: “cansei, estão tirando a água, querem que eu tire o ar?”. Mas o Brasil é um Pais mágico. Somos maiores do que a burrice.
JC – E sua fé, Bethânia? Ela que lhe fortalece?
BETHÂNIA – Eu vivo na mão dos deuses, santos, santas, orixás, elementos da natureza. Sou mantida por eles.
JC – Então é a eles que você agradece por essa trajetória?
BETHÂNIA – É lógico. Fazer 50 anos de carreira... Só tenho a agradecer e a abraçar. E não me arrependo de nada!
JC – Qual o maior aprendizado deixado por sua mãe, Canô?
BETHÂNIA – Minha mãe é uma mulher tão especial. O espírito dela se mantém com a aquela luminosidade. Viveu 105 anos com lucidez, educando, ensinando e aprendendo. Tudo isso é uma marca, graças a Deus, que nunca pode ser apagada de nenhum de nós – dos filhos e das pessoas que tiveram a possibilidade de viver com ela. Particularmente, se eu respirar junto vem a saudade que eu tenho dela. A falta. Mas aprendi com ela que a vida é dádiva e que não se pode tratar com menosprezo seus amores, alegrias. Há um elo muito maior que tem que ser antes de tudo vivido. Aceitei em fazer o show em Santo Amaro mesmo ela não estando fisicamente ali. Mas ela estava no meu desejo de que ela me ouvisse, estava dentro de mim. Eu saí do seu ventre e hoje ela habita dentro de mim.

JC – Você já disse que quando não está no palco está ansiosa para estar nele. Nesses ínterins, o que você costuma fazer?
BETHÂNIA – Eu sou dona de casa. Dona da minha casa. Sou minha cozinheira, adoro mexer com minhas coisas, preparar a casa para receber meus amigos. Estou agora em Santo Amaro, mas em breve vou embora pro Rio. Ficarei lá no Carnaval, que na minha casa parece que não existe Carnaval. É uma paz. E quando estou em casa, cuido do meu jardim. Sou interiorana. Adoro meus amigos, dar risada. Agora, estou lendo muito Clarice Lispector, pois ganhei dos filhos dela muitos livros. 

Natal resiste a toda tristeza


Caetano Veloso:
"Passei o dia e a noite pensando em minha mãe. O dia de Natal passou a ser também o dia em que ela morreu. Nunca imaginei que fosse achar tão difícil aceitar que ela tenha morrido. Era uma grande alegria tê-la viva. Claro que alegra também saber que ela viveu bonito por tanto tempo e morreu bonito num 25 de dezembro. Mas o mundo tem me parecido, desde então, muito pior. Infelizmente não sei rezar como ela chegou a saber. Talvez tenha aprendido (principalmente com ela) que reconhecer a beleza da vida é uma maneira de rezar. Hoje, no dia de Natal, sinto como é difícil reencontrar a beleza. Não temos, no entanto - e muito menos eu que sou filho dela - o direito de abandonar a festa. A festa de tudo o que há, que é o que significa o jeito como ela habitou este mundo. Ela pôde dizer que a ideia de um Natal feliz resiste a toda tristeza. O mais justo com sua memória é acertar a ser feliz".