terça-feira, 23 de novembro de 2021

O vírus da festa e a retomada do carnaval

Gil Vicente Tavares* 
Das coincidências da vida, comprei o livro O Labirinto da Solidão, de Octavio Paz, por indicação de Wilson Gomes, e deparei-me com um capítulo que caiu como uma luva para o que queria dizer, na atual conjuntura. O livro é um belo estudo sobre o México e seu povo, e no terceiro capítulo, que trata do espírito festeiro do mexicano, uma frase saltou-me aos olhos: “Nossa pobreza pode muito bem ser medida pelo número e pela suntuosidade das festas populares”. E completa: “Os países ricos têm poucas [...] e não são necessárias; as pessoas têm outras coisas para fazer e quando se divertem o fazem em pequenos grupos”. E, logo adiante, cita o teatro dentre estes afazeres. A reflexão sobre a quantidade de dinheiro gasto, em meio à pobreza, para pouquíssimas, esparsas e gigantes festas, como desafogo e extravasamento pessoal frente ao cotidiano, na análise de Paz, vai ao encontro do que similarmente acontece no Brasil e, notadamente, em Salvador. Principalmente no Carnaval. Arte e cultura transformam o cidadão. Dão a ele capacidade de visão crítica, diferenciada, distanciada ou intensa da vida, dos amores, políticas, guerras, além de estimular a fantasia e ser um descanso do concreto e cinza repetitivo da vida cotidiana. Quanto mais acesso a diferentes culturas e artes, mais o repertório subjetivo e intelectual do ser humano se sofistica e se amplia. Amo carnaval e sei de sua importância cultural, econômica, e a quantidade de gente que espera esse período para lucrar, sejam ambulantes, artistas, equipe técnica ou rede hoteleira. Mas mesmo essa espera reflete a falta de uma política continuada. Os 5, 7 dias de festa, no carnaval, fazem a economia girar num curto período e para poucos. Os turistas não andam pela cidade consumindo em comércios, restaurantes, espaços culturais. Uma cidade com programação cultural forte e intensa o ano inteiro traz outro impacto. A cadeia produtiva de um espetáculo teatral, por exemplo, vai do elenco, passando por equipe técnica e artística, até funcionários do teatro, costureira, motorista, carpinteiro, copista, ambulantes, serralheiros. São dezenas de pessoas empregadas em função de apenas uma peça. Quem vai ao teatro, sai depois para um restaurante, bar. Compra roupa para a estreia. A produção compra tecido, madeira, sapato, ferro. O dinheiro gira por toda cadeia. Incentivar uma programação artística e cultural forte é estimular a economia, diminuir desemprego, desigualdade, e enriquecer a cidade com um atrativo que dure 365 dias, trazendo uma maior circulação de visitantes interessados pela riqueza de opções que a cidade tem, de museus a espetáculos, de concertos a música popular. A discussão atual, sobre a retomada do carnaval, é, antes de tudo, preocupante pela possibilidade de circulação de muitas pessoas de muitos países, que não estarão de máscara e álcool gel atrás do trio elétrico com distanciamento. Mas é, também, uma demonstração clara da falta de visão de nossos governantes que, em vez de estarem preocupados com toda uma economia criativa, que ao longo do ano pode voltar a movimentar a cidade trazer melhor qualidade de vida a seus cidadãos, insistem na pauta única (mas também importante) do carnaval. Salvador vive o estigma de ser um eterno balneário, para beijar na boca, mijar na rua e beber todas num curto período de histeria coletiva. Que não seja, também, um foco disseminador de um vírus que, em meio a negacionistas, está distante de ser controlado em todo o planeta.
*Gil Vicente Tavares é diretor, dramaturgo, compositor e professor da Escola de Teatro da UFBA. Doutor em artes cênicas, teve sua tese publicada pela EDUFBA com o título a Herança do Absurdo

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Privatização das Companhias Docas Enfrenta Resistências


A privatização dos serviços nos portos brasileiros e os arrendamentos de áreas e equipamentos ja foram feitos desde a promulgação da LEI 8.630. As Companhias Docas, desde então,atuam como Autoridades Portuarias, fiscalizando a ação dos Operadores Privados e promovendo o arrendamento de áreas e instalações. Esse é o modelo vigente em quase todos os paises,sendo que, na Europa, a maioria das Autoridades Portuarias são municipais. Para o consultor Frederico Bussinger, ex-diretor da Codesp e ex-presidente do Porto de São Sebastião, as privatizações de companhias docas são ruins para o ecossistema portuário e contrariam as boas práticas internacionais. "O benchmark aponta em outra direção. Autoridade portuária não é ativo. É uma função, que precisa equilibrar potenciais conflitos de interesses", afirma. Bussinger acrescenta que as administrações de portos nos EUA, na Europa e na Ásia continuam nas mãos do Estado. Na Austrália, experiência que costuma ser citada como modelo de gestão desestatizada, tem havido problemas, segundo o consultor. Ele acredita que as atividades de carregamento e descarregamento de cargas ("o mais importante"), como açúcar e contêineres, tiveram aumento considerável de eficiência desde os anos 1990 e já equivalem às melhores performances globais. Como alternativa à privatização, o prefeito de São Sebastião, Felipe Augusto (PSDB), mandou ofício ao Ministério da Infraestrutura, no dia 20 de outubro, pedindo a abertura de conversas sobre uma eventual municipalização do porto - sem dispensar o arrendamento de áreas internas e terminais ao setor privado. Em Itajaí, o porto foi delegado para o município até o fim de 2022. O prefeito Volnei Morastoni (MDB) também encaminhou uma carta ao ministro Tarcísio Freitas, na semana passada, pleiteando estender essa delegação por 25 anos. Ele teme desordenamento urbano com a perspectiva de triplicação da área do porto sob a iniciativa privada.
Em Salvador, uma alternativa seria a municipalização da Autoridade Portuaria e maior participação da comunidade local, como ocorre em Itajaí e portos europeus a exemplo de Antuerpia, Hamburgo e Rotterdan. Para articular o movimento contrário à privatização, foi criado neste ano o Fórum Permanente de Defesa Portuária, com a participação de empresas e sindicatos trabalhistas. A frente prioritária é a mobilização contra a venda da Codesa - alienação do controle acionário da estatal e concessão da autoridade portuária simultaneamente -, que abriria caminho para as privatizações seguintes. Guilherme Lacerda, ex-diretor do BNDES e integrante do fórum, diz que os estudos estão "eivados de questões nebulosas" e garante que o movimento contra a privatização não tem caráter ideológico. Ele defende como alternativas a abertura de capital da Codesa (com uso dos recursos levantados para obras de modernização) ou a criação de um condomínio (com os operadores de terminais) para administrar o porto. "Não deveríamos ficar acomodados, não se trata disso, mas o modelo proposto levará à oligopolização da atividade portuária", afirma Lacerda. Fonte: com informações do Valor Econômico

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Gatos, Ratos e o Arquivo Público

Nelson Cadena* Quando o presidente eleito da República Washington Luiz visitou Salvador, em meados de agosto de 1926, após o régio almoço oferecido pelo governador Góes Calmon, no Palácio da Aclamação, apreciou a exposição de documentos do Arquivo Público, mostruário preparado especialmente para ele com destaque para originais autógrafos de personalidades. O Presidente foi informado da relevância do acervo da instituição, o segundo arquivo mais importante do país, depositário de preciosidades documentais do Brasil-Colônia, do Império, bandeiras, mapas, plantas, retratos, periódicos. Na oportunidade, Afrânio Peixoto ofertou ao Arquivo a “Ode aos Bahianos” do Patriarca da Independência, José Bonifácio, autografado pelo autor. O que Washington Luiz não ficou sabendo é que a rica documentação do arquivo tinha sido preservada graças aos gatos que afugentaram os ratos dos matos da colina da Praça Thomé de Souza, especificamente do Palácio Rio Branco onde por séculos foram acumulados num quarto do térreo, úmido e cimentado, documentos da história de nossa cidade, conforme contou o ex-governador Francisco Vicente Vianna, primeiro diretor do estabelecimento: “cômoda morada e sossegado ninho dos gatos de toda a vizinhança”. Os gatos contribuíram para preservar os mais de 465 mil documentos acumulados e mais de um milhar de livros manuscritos, já encadernados, na “repartição”, ou depósito, sendo menos generoso com as palavras, que formaram o acervo inicial da instituição, inaugurada em 1890, com sede no Edifício da Escola de Belas Artes, na Rua 28 de Setembro. Parte do acervo já tinha sido transferido para a Biblioteca e Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. Outros documentos tinham sido emprestados __ e não voltaram__ para estudos que contribuíram com a historiografia baiana e brasileira, a Inácio Accioly, Mello Moraes, Gonçalves Dias, Valle Cabral, dentre outros. Por décadas o nosso Arquivo Público viveu de favor, em imóveis emprestados, a mesma sina da Biblioteca Pública que viveu em puxadinhos durante 107 anos (1812-1919) até ter uma sede para chamar de sua. O Arquivo foi instalado em cômodos da Escola de Bellas Artes, anos depois transferido para acanhadas salas num prédio da Rua do Tesouro; em 1919 obteve mais espaço com a locação na Rua Carlos Gomes do prédio da Associação dos Empregados do Comércio da Bahia, de mudança para a Rua Chile, no hoje chamado Palacete do Tira Chapéu, em reforma. Em 1942, o Arquivo mudou-se, na mesma Rua Carlos Gomes, para um edifício de esquina, onde permaneceu até 1980 quando transferido para a Baixa de Quintas, no imóvel de retiro do Padre Vieira, antiga Casa de Oração dos Jesuítas.
Reformada e adequada para funcionar como leprosário, em 1787, e logo mais para isolamento de doentes de febre amarela, varíola e beribéri. É o imóvel tombado pelo IPHAN, em 1949, mais pelo seu valor histórico do que arquitetônico, que a Bahiatursa ofereceu em 2005 como garantia em ação ajuizada por um escritório de arquitetura há mais de três décadas. Não tinha outro patrimônio a oferecer? E aqui estamos, testemunhando a insanidade do Arquivo Público ameaçado de despejo por imprudência, burrice, ou má fé de quem alocou o imóvel como garantia de dívida e desleixo de quem deixou o barco correr. O juiz do processo determinou a transferência do valiosíssimo acervo de 40 milhões de documentos em dois meses; serão necessários, no mínimo dois anos e isso qualquer tribunal superior deve garantir. A ameaça que paira no ar não é sobre o bem tombado, nem sobre o acervo, é sobre o bom senso que, se não restabelecido, abre precedentes para o vale tudo. (Nelson Cadena). *Pesquisador e jornalista Artigo publicado hoje no Correio*

domingo, 4 de abril de 2021

Salvador, Cidade Porto

Antes mesmo de se chamar Salvador, a principal fortaleza portuguesa construída no oeste do Atlântico, já fazia referência às condições geográficas que lhe tornam ideal para as chegadas e partidas de quem sonhava em dominar o mar. A capital dos baianos nasceu como a Cidade da Bahia – com o h na época –, sede do governo português além mar e viu as suas primeiras instalações portuárias acontecerem junto com a fundação da própria cidade. De 1549 para cá, muita coisa mudou. Entretanto a vocação da cidade para os embarques e desembarques de pessoas e mercadorias manteve inalterado. No século XVIII, Salvador foi o principal entreposto comercial do Atlântico Sul. Hoje, com uma série de investimentos, no decorrer de pouco mais de 100 anos, o Porto de Salvador, em sua atual localização, reúne às condições naturais investimentos em acessos terrestre e marítimo, além de condições para a atracação de embarcação consideradas sem iguais no ao Sul do Atlântico. Por cerca de 400 anos, as condições naturais foram suficientes para realizar a atracação de embarcações na região. Apenas no século XX, em 1906, o ancoradouro ganha o título de porto e começa a passar por um processo de modernização. A primeira parte do cais da alfândega ficou pronta em 1913, ano da inauguração oficial do porto. Em 1914, doze meses depois, já haviam sido construídos 750 metros de cais, com oito guindastes móveis sobre trilhos, três linhas férreas e acesso à Avenida da França, exclusiva para a movimentação portuária. Desde 1978, após intervenção federal na Companhia Docas da Bahia, o porto foi encampado pela União e passou a ser administrado pela Codeba. Nos últimos anos, o Porto de Salvador recebeu investimentos na sua infraestrutura. A Via Expressa
proporcionou uma ligação direta entre o terminal e a BR-324, sem causar grandes prejuízos ao trânsito de Salvador e permitindo acesso rápido das cargas ao porto. Somam-se a este investimento nos últimos anos, a dragagem do canal de acesso, a construção de um novo terminal de passageiros, modernização da estrutura para recepção de trigo, além da ampliação e compra de novos equipamentos para o Terminal de Contêineres (Tecon) – que movimenta a maior parte das cargas do porto, de acordo com informações da Companhia Docas do Estado da Bahia (Codeba). Ao todo, o porto tem pouco mais de 2 quilômetros de cais acostáveis, fundamentais para a escrita da história econômica da Bahia. DESENVOLVIMENTO O presidente da Federação da Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), Ricardo Alban, destaca a relevância da atividade portuária para a atividade econômica. “Em um mundo crescentemente globalizado, interligado nas chamadas cadeias globais de valor, a atividade portuária é vital para o andamento do comércio internacional e, consequentemente, para o desenvolvimento econômico do país e do estado”, diz. Ele lembra que na Bahia, por exemplo, 93% das exportações em 2020 foram realizadas pela via portuária, ultrapassando os US$ 7,3 bilhões. No Brasil, estima-se que cerca de 95% da corrente de comércio passa pelos portos. Ou seja, sem nossos portos, o país praticamente não teria relevância comercial. “Portos modernos e de elevada capacidade e produtividade são essenciais para transformação e impulsão da atividade econômica, a exemplo do que vimos nos estados de Pernambuco (Suape) e Ceará (Pecém)”, compara. “A Bahia precisa valorizar e modernizar sua infraestrutura portuária. Temos uma dádiva que é a Baía de Todos os Santos, que proporciona águas abrigadas e profundas, excelentes para abrigar portos públicos, como Salvador e Aratu, ou privados”, avalia Alban. Alban pede ainda um olhar para a situaçaõ do Porto Sul, que será erguido em Ilhéus. “Conjugado com a FIOL (Ferrovia de Integração Oeste-Leste), pode alavancar o desenvolvimento do estado da Bahia, com destaque para a região sul, que enfrenta há muitos anos os efeitos adversos da decadência de vetores econômicos como a cultura do cacau e o Polo de Informática de Ilhéus”, ressalta. POTENCIAL Sabidamente um apaixonado por tudo o que diz respeito à operação portuária, Paulo Villa, diretor executivo da Associação dos Usuários de Portos da Bahia (Usuport) acredita que o Porto de Salvador pode contribuir muito mais para o desenvolvimento da cidade e do restante do estado. “A cidade nasceu como um porto e o porto era a cidade. Salvador nasceu em um local natural para a operação portuária”, explica. “A Baía de Todos os Santos é o melhor sítio portuário do Atlântico Sul”, avalia. “O que temos é uma mina de ouro para a operação portuária”, diz Paulo Villa. Villa acredita que Salvador tem capacidade para receber os chamados “navios mãe”, que atraem cargas capazes de abastecer navios menores. Ele diz que este tipo de operação tem potencial para contribuir com a o desenvolvimento econômico de Salvador e de toda a Bahia. “O porto pode modificar todo o cenário econômico da Bahia”, acredita. Ele destaca o conjunto de intervenções humanas no local e avalia que o equipamento portuário montada no bairro do Comércio é de longe o maior investimento já realizado na infraestrutura de Salvador. “Este porto foi construído não apenas com 1,5 quilômetro de cais, mas com 2 quilômetros de quebra-mar. Aquilo ali é uma infraestrutura que dá qualidade invejável para Salvador”, acredita. Villa defende a necessidade de ampliar a estrutura para a movimentação de cargas e a construção de um novo terminal para movimentação de contêineres, mesmo com os investimentos em curso na ampliação do atual. “O porto é a maior obra de engenharia da cidade. Quem diz que é o metrô é porque não conhece o porto”, desafia. Para Paulo Villa, a maior celeridade no processo de modernização do porto passa por uma mudança no modelo de gestão dos portos baianos. O poder decisório em Brasília atrasa muita coisa, acredita. “As principais decisões são tomadas longe da Bahia. É uma incongruência porque fica distante da realidade”, diz. “Eu não vejo razão para portos serem estatais. Hoje já se fala em desestatizar a Codeba e a Usuport apoia isso porque é necessário que se tenha uma visão local”, defende. Ele lembra ainda que em alguns lugares do mundo, os municípios tem presença ativa na gestão portuária, tal a importância dos equipamentos para a dinâmica das cidades. “A ideia de aproveitar integralmente o potencial do porto é dez para a cidade, para o estado e para o país”.
CONTEINERS QUem atua na área portuária costuma dizer que o contêiner é a maior invenção da humanidade. Guardadas as devidas proporções e respeitando-se a natural empolgação dos que estão envolvidos no processo, aquelas caixas de metal trouxeram uma praticidade e segurança para a movimentação de cargas nunca antes vistas. E a movimentação deste tipo de cargas é hoje a principal vocação portuária de Salvador. O diretor do Tecon, Demir Lourenço, lembra compara a capital baiana com outras cidades portuárias do mundo para dizer que locais com a vocação de Salvador costumam colher bons frutos ao estimular isso. “Quem olha para cidades como a Antuérpia, na Bélgica, ou a holandesa Roterdã, sabe que o portos são estruturas centrais na dinâmica urbana destas cidades”, diz. “No mundo inteiro, as cidades que nasceram a partir da vocação portuária, elas continuam até hoje valorizando os portos como um fator central para o desenvolvimento da cidade”, diz. “Portos são ferramentas importantes para o desenvolvimento econômico e social, mas no Brasil nem sempre a sociedade enxerga a atividade desta forma”, acredita Demir Lourenço. “Salvador tem condições inigualáveis. O canal de acesso ao porto é naturalmente profundo, as águas são abrigadas, é uma vocação natural. Nós não temos assoreamento, que é um problema em grande parte dos portos no Sul”, acredita. Ele lembra que em Santos, por exemplo, o processo de dragagem é praticamente contínuo. Além disso, o diretor do Tecon lembra que a Via Expressa trouxe uma condição de acesso bastante privilegiada. “É uma condição que não se encontra mesmo em portos localizados em cidades pequenas. A via isolou o trânsito da cidade e o trânsito do porto”. Recentemente, o Tecon concluiu a expansão em sua área de atracação, já com 800 metros, a ampliação da área de apoio, com mais 30 mil metros quadrados também. “Estes investimentos nos colocam numa situação extremamente privilegiada. Salvador permanece como o principal porto do Norte-Nordeste em movimentação de longo curso. Suape tem uma movimentação total maior porque realiza mais operações de cabotagem e transbordo, mas Salvador é o principal em importação e exportação de contêineres”, compara. “A movimentação depende muito do desempenho econômico do estado, mas a nossa obrigação, que é prover a infraestrutura para esta movimentação, está sendo cumprida. A gente resolveu isso”, comemora. As operações do Tecon completaram 21 anos esse mês. O terminal baiano é um dos mais importantes instrumentos de atração de novos negócios e de investimentos para o estado da Bahia. Em duas décadas, movimentou 3.243.827 contêineres, com cargas relacionadas à produção e consumo da Bahia e outros estados, a exemplo de Minas Gerais, Espírito Santo, Tocantins, Pernambuco e Sergipe. Neste período, foram investidos mais de R$ 918 milhões no terminal baiano. Os investimentos e melhorias consolidaram o terminal como um dos mais importantes terminais do país, uma das instalações mais competitivas na América do Sul, e que recebe atualmente as principais linhas que escalam o Brasil. Neste ano, está finalizando a ampliação do berço de atracação, que passa de 377 metros para 800 metros, além da pavimentação de 30.000 m² de retroárea adicionais. O projeto, iniciado em 2018, demandou investimentos de R$ 443 milhões. Até 2050, serão investidos mais R$ 272 milhões em obras de expansão da unidade, totalizando R$ 715 milhões. A fase atual de investimentos é realizada com 100% de recursos próprios e empregou aproximadamente 700 profissionais diretos e 2.100 indiretos, sendo 90% dos contratados moradores de Salvador e cidades vizinhas.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Quem é o poeta baiano José Carlos Capinan, que aparece na capa do álbum Tropicalia?'

CLAUDIO LEAL*' Nos bastidores do Festival da Record de 1967, perto de ser anunciada a vitória de “Ponteio”, sua parceria com Edu Lobo, o poeta José Carlos Capinan entregou ao tropicalista Gilberto Gil a letra de “Soy Loco Por Ti, América”, tributo cifrado ao guerrilheiro Che Guevara. Um dos maiores letristas da música popular brasileira, Capinan não reconheceu fronteiras na construção de parcerias. De João Bosco ("Papel Machê") a Geraldo Azevedo ("Moça Bonita"), de Jards Macalé ("Gotham City") a Caetano Veloso (“Clarice”), de Paulinho da Viola (“Coração Imprudente”) a Roberto Mendes ("Yáyá Massemba"), de Sueli Costa (“Vuelve Mi luz”) a Moraes Moreira (“Cidadão”), sua poética muda livremente de território. Integrante do grupo da tropicália, Capinan chega aos 80 anos sem fixar outra fronteira, aquela instituída entre o ofício de poeta e o de letrista. “As coisas que aconteceram na linguagem poética alteraram muito essa relação. Não vejo esses dois textos como duas coisas diferentes. Tem mais ou menos um conceito ou preconceito de que a letra é alguma coisa inferior à poesia. Não me parece correto”, diz Capinan, que vive em Salvador. Nascido num arraial em Entre Rios, na Bahia, em 19 de fevereiro de 1941, o poeta se batizou na vida artística na capital baiana, engajado no Centro Popular de Cultura, o CPC, enquanto cursava direito e teatro. Não concluiu nem um, nem outro. Ele se diplomaria em medicina, nos anos 1970. Ainda na Bahia, houve uma prévia de seus vínculos com o movimento tropicalista. “O primeiro autor que me atraiu foi Tom Zé, quando a gente trabalhava no CPC, no ‘Bumba Meu Boi’. Gil aparecia eventualmente para ver alguns ensaios, assim como Caetano, que chegou a fazer um samba pra nossa escola de samba. Eram os caras mais soltos em relação aos compromissos acadêmicos”, lembra. Fugitivo do golpe militar de 1964, Capinan pegou a estrada para São Paulo, mas decidiu viver no Rio de Janeiro. Em “Inquisitorial”, de 1966, livro de estreia, seus poemas reagiam, sem estreiteza, à opressão. O poeta identifica dois eixos na obra. “Há textos com mais densidade literária e há poemas-piada, sem tomar a bênção ao que podia se chamar literatura. ‘Inquisitorial’ é trabalhado, já nos outros poemas há um relaxamento da linguagem, que é uma coisa da poesia moderna.” Naquele 1966, como frequentador dos encontros de músicos no Teatro Jovem, no Rio, ele se sentou certa feita ao lado de Paulinho da Viola. “Eu me chamo Capinan, vim da Bahia e a gente podia ser parceiro”, ele propôs, num intervalo. Pouco depois nasceria “Canção de Maria” —e a amizade. “No tempo em que Capinan viveu no Rio, a gente estava sempre junto. Capinan é muito inteligente, culto, com uma visão critica das coisas. Um dia ele falou ‘você sabe por que as escolas de sambas estão vivas? Porque elas nunca pararam no tempo’. A gente estava conversando sobre as mudanças na ditadura”, recorda Paulinho da Viola, seu parceiro em “Prisma Luminoso”. “Ponteio”, com Edu Lobo, seria uma virada no reconhecimento da crítica. “A vitória no Festival de 1967 deu visibilidade e alterou muito a minha presença na área musical”, avalia Capinan. O pulo para o tropicalismo o trouxe mais para perto das experimentações de linguagem. “O núcleo tropicalista principal, que eu visualizo em Caetano, Gil e Tom Zé, estava localizado em São Paulo. Quando o disco estava para ser lançado, Gil me convidou para uma reunião. Foi um convite do Gil, que eu conhecia de Salvador. Fizemos uma canção, ‘Miserere Nobis’.” Gilberto Gil reconhece as afinidades com o amigo. “Capinan vem de uma região do agreste baiano com uma formação muito severina, como eu lá no sertão. Eu já muito mais ligado a Salvador, a essa cultura litorânea, e ele só vem a conviver com esse mundo quando vem mesmo fazer a escola de direito. Aí vai incorporando ao imaginário poético essa cultura urbana e litorânea, com a coisa africana mais nítida”, observa Gil, um dos autores de “Viramundo”. “Ambos temos essa coisa sertaneja muito forte e, na segunda fase da adolescência, essa coisa urbana.” Os livros de poemas de Capinan seguem fora de catálogo. “Inquisitorial” e “Confissões de Narciso”, da Civilização Brasileira, não foram mais editados. Em 2004, a editora baiana Caramurê lançou “Vinte Canções e um Poema Quase Desesperado”. Ele pode ser lido na antologia “26 Poetas Hoje”, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda em 1976 e relançada pela Companhia das Letras. “Apesar de ter mais de 200 músicas gravadas, não consigo viver de direitos autorais. ‘Ponteio’ foi uma das que menos recebi direitos autorais. Não consegui receber direitos de ‘Ponteio’ no exterior”, conta Capinan. Em Salvador, ele é diretor do Muncab, o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira. Idealizado pelo ex-ministro Francisco Weffort, em 2002, com o acervo inicial organizado por Emanoel Araújo, o museu seria federalizado pelo antigo Ministério da Cultura, mas esse processo nunca se completou. Persiste a crise financeira. Capinan comemora seus 80 anos numa live-show de lançamento do volume dos "Cadernos de Música" sobre sua obra, no canal do YouTube do Muncab. Seu itinerário de letrista merece destaque na coleção editada por Ana Paula Simonaci, Sergio Cohn, Leonardo Lichote, Paulo Almeida e Janaina Marquesini. Além dela, será lançada a série de cinco capítulos dirigida por Jamile Coelho sobre suas canções mais célebres. Jards Macalé, Roberto Mendes e Gereba participam da live. “Movimento dos Barcos”, sua canção com Macalé, condensa desejos geracionais preservados por Capinan. “Não quero ficar dando adeus/ Às coisas passando, eu quero/ É passar com elas, eu quero/ E não deixar nada mais do que as cinzas de um cigarro/ E a marca de um abraço no seu corpo.” “Continuo falando daquilo que é e foi sempre o caráter do meu trabalho, o humanismo radical. Seja em ‘Papel Machê’, seja em ‘Soy Loco Por Ti, América’. Elas têm o homem como o centro do mundo. O homem como radical. Em qualquer canção minha está presente essa ideia. Seja a mais guerrilheira das canções, seja a mais romântica. Eu trabalho sempre abrindo para o lado humano”, diz o poeta. * Jornalista da Folha de São Paulo

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Ainda a Praga


 Antônio Risério *
Ainda no começo dessa praga do coronavírus, publiquei um artigo numa revista da Unicamp, onde, entre muitas outras coisas, escrevi que o confinamento, de um ponto de vista brasileiro, não deixava de ser uma espécie de violência antropológica. Como? Simples. O povo brasileiro é gregaríssimo e nunca respeitou o espaço físico alheio. Normalmente, em vez de se manter a uma distância educada, digamos assim, de seus interlocutores, os brasileiros se amontoam, se grudam, invadem o espaço físico uns dos outros. E tome abraço, tome beijo, tome etc. Sempre foi assim em todo canto: em roda de samba, reunião de político, redação de jornal, futebol na praia, agência de publicidade, etc., etc. Estrangeiros (nórdicos, em especial), quando conheciam o Brasil, registravam logo isso. Tinha antropólogo (Edward T. Hall e sua "proxêmica", ramo da "cinésica" de Ray Birdswhistell, por exemplo) que estudava isso, padrões de relacionamento espacial entre pessoas, em lugares diferentes do mundo. A tal da "distância social" - que seria mais corretamente definida como distância física - fere frontalmente o gregarismo brasileiro. É muito mais difícil para nós do que para um sueco obedecer. Nórdicos já nascem praticando essa distância. A gente é o contrário. A gente já nasce grudado. Para nós, tempos atrás, seria simplesmente impensável encontrar uma pessoa amiga sem abraços e beijos. Não por acaso temos a expressão popular "íntimo de mão na bunda".


*


Entendo perfeitamente como minha querida Lica Ceccato se sente, em seu confinamento. Mas confesso que, no meu caso, não sinto muito. Primeiro, porque sempre faço questão de avivar a memória: em comparação com a cela onde fiquei preso no Quartel do Barbalho e depois na base dos fuzileiros navais, em Salvador, prisão domiciliar é um luxo. Segundo, graças à internet e ao teletrabalho (não, não sou aposentado - e, como não tenho emprego fixo, sou obrigado a me virar), moro longe, numa praia tranquila, aqui em Itaparica. Mais importante que tudo, no meu caso: moro com Sara Victoria, que é um sonho in my life. Como se não bastasse, vivemos cercados de muitas plantas (de árvores grandes como o jamelão e a mangueira a coisinhas mínimas, passando por cajueiros, dendezeiros e acácias) e muitos bichos (cachorros, gatos, cágados e até um camaleão chamado Tião, que só aparece quando quer). Ou seja: posso me sentir tudo, menos só ou isolado. Assim, dá pra levar numa boa.


*


E acho bom mesmo a gente se preparar. Não consigo acreditar em "pós-pandemia". Acho que isso é uma fantasia que a gente curte - porque ajuda a passar o tempo, tocar o barco "provisoriamente". Mas até hoje nada me conseguiu convencer do contrário. Outro dia, aliás, um cara da Biontech falou com clareza: é impossível erradicar o coronavírus, vamos ter de nos acostumar a isso. O cara disse, ainda, que a OMS não conta toda a história para que a população segure a onda, sem abrir definitivamente a guarda, sem relaxar de vez. Acredito.

Outro dia, uma jornalista me perguntou por e-mail como eu me relacionava com essa coisa de teletrabalho, fazer "lives", etc. Disse a ela que, para mim, não era novidade: sempre fizemos gravações e, salvo em empreitadas especiais (antigas campanhas políticas, por exemplo), sempre fui, desde a adolescência, praticante disciplinado do teletrabalho. Falei que, do meu ponto de vista, o que era mesmo novo era a TELEVIDA. Esta é a novidade terrível em que estamos - e todos obrigados a tentar aprender a TELEVIVER. Mas vamos em frente.

*ANTROPÓLOGO e ESCRITOR

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Carnaval sem Máscaras



Esse ano não teremos uma das maiores festas de rua do Recôncavo Baiano, e porque não da BTS: o Carnaval de Maragojipe. Realizada há mais de 100 anos, a manifestação é considerada uma das mais tradicionais da Bahia, conquistando em 2009 o título de patrimônio cultural imaterial do Estado, através do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), órgão vinculado à Secretaria de Cultura. O Carnaval de Maragojipe mantém a tradição das fantasias usadas nos carnavais do século XIX e sucede os chamados entrudos. A comparação com o Carnaval de Veneza é inevitável pelo requinte das máscaras usadas durante a festa momesca. No carnaval da cidade ainda é possível dançar e se divertir ao som das tradicionais marchinhas carnavalescas que circulam pelas ruas e praças da cidade. A festa conta também com a tradicional escolha do Rei Momo, da Rainha e das Princesas, responsáveis por, simbolicamente, governar a cidade durante os dias de festa. Foto: Armando Correia Ribeiro

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Pastelaria Triunfo

Valdomiro Santana* 

Foi a memória involuntária que, generosa, desatou em mim a Pastelaria Triunfo. No chão da consciência nada consigo localizar, nenhum objeto, para dizer como de súbito a lembrança da pastelaria me apareceu trinta anos depois. Proust, num dia triste e com a perspectiva de mais um dia sombrio, bebeu sem vontade uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madeleine — bolinho de farinha de trigo, ovos e açúcar, semelhante à delícia que chamamos de brevidade —, e com esse gesto prosaico mudou a literatura do mundo.

Não resisto e transcrevo, na excelente tradução de Mario Quintana, o que diz Proust em Du côté du chez Swann, o primeiro volume da Recherche: “[…] no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Esse prazer logo me tornava indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres […] tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo”. 

Foi esse gosto da madeleine, embebida em chá-da-índia ou de tília, sentido muitos anos depois, que ressuscitou em Proust uma emoção antiga, única e instantânea: a lembrança de sua infância em Combray. Os rostos, as casas, as alamedas, o traçado dos jardins… tudo — que ele julgara morto para sempre — voltou em segundos a existir, vívido e cintilante, com seus detalhes, sua atmosfera particular. O que Proust recordasse de Combray lhe seria unicamente fornecido pela memória voluntária, a da inteligência — mas as informações que ela nos dá sobre o passado não conservam nada deste. Todos os esforços da inteligência são inúteis para evocar o nosso passado. “Está ele oculto, fora do seu domínio e do seu alcance, nalgum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material) que nós nem suspeitamos. Esse objeto, só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca”. Eis então o mistério da memória involuntária, a que dispensa o intelecto e é capaz de retrouver le temps, de redescobrir o tempo — que dávamos como irremediavelmente perdido.

“[…] quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas — sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis —, o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação”. 

Eu estava na praia com meus filhos. De repente, a Pastelaria Triunfo se desenhou inteira em minha lembrança. Que odor, que sabor, que madeleine, não sei; nada me ocorre que tenha operado esse encantamento, a palpitar no fundo de mim, para me fazer repetir a musicalidade feliz destas duas palavras: Pastelaria Triunfo, perfeitamente casadas, com seu quê de delicadeza e força. Há mais do que tonicidade na sílaba un de triunfo: há plenitude, que incorpora o nome e o faz pulsar para além de sua carga semântica. Triunfo, pastelaria, Triunfo. Em que eu estava pensando? Talvez em algas, ramagens, hipocampos… Ou em nada. E o velho casarão, plantado no alto da Ladeira da Praça, me trouxe de volta um menino de 13 anos, ainda usando calças curtas, o pai a segurar-lhe a mão. Saem do Elevador Lacerda, não têm nenhuma pressa, na brisa gentil do verão e sob a translucidez do céu; à esquerda, o prédio baixo, acinzentado pelo tempo, da Imprensa Oficial da Bahia, vizinho ao prédio maior, de um amarelo pardacento, da Biblioteca Pública; à direita, o Palácio Rio Branco, esquina com o trecho mais elegante da cidade, a Rua Chile, onde a loja Duas Américas dispunha, só ela em Salvador, de uma escada rolante, inaugurada havia pouco mais de um ano, uma coqueluche. 

Dezembro de 1959, quatro horas da tarde, e Terezinha Morango — mais uma vez — é capa de O Cruzeiro.

— Que pernas, meu Deus! Aaaah…! — o homem dissera, diante de uma banca de revistas na Praça Cairu, em tom baixo e suspirando, e seu “ah” se prolongara, cavo e sóbrio. O menino, querendo imitá-lo, soltara um “ah” nem um pouquinho rouco, de tão verde, longe daquela bossa, ou molho, que poucos homens conseguem, pondo um tanto de volúpia e solenidade na voz, para que saia um “ah” como convém: nem de mais, que soe a cafajestice, nem de menos, ou desenxabido, que lembre o “ah” idiota dos almofadinhas. 

Seguem de mãos dadas, passam pelo abrigo do ponto de ônibus e bondes em cuja cobertura, assim que anoitecer, brilharão os anúncios da cera Parquetina e dos chapéus Ramenzoni; em frente, a Prefeitura e a Câmara Municipal no mesmo edifício que já foi cadeia pública: sua fachada, após tantas deformações e acréscimos, mais parece a de um cabaré mexicano.

Desviam-se dos carros que vêm da Sé pela Rua da Misericórdia, e naquela confluência, bem no topo da ladeira, o que inunda os olhos do menino são os vidros bojudos de azeitonas em cima do balcão. Pretas, verdes, cor-de-damasco… 

— Autênticas da Grécia e da Espanha — o homem, um habitué, diz para o menino. — As pretas são magníficas.

Sentam-se a uma mesa redonda com pés de ferro, tampo de mármore. Os olhos do menino passeiam pelo balcão, acima do qual estende-se um cano vermelho descascado pendurando rolos de presunto, salame, caixinhas de figos secos, reclames de sal-de-fruta e de bebidas, tiras e arranjos de papel celofane.

— Pronto — diz o homem, cigarro no canto da boca, a fumaça espiralando em seu rosto. O menino não ouvira o pedido; e num tempo que a recordação hoje tornou matéria de sonho, o garçom surgirá do nada, mas era como se ali estivesse desde o começo do mundo: lépido, magrinho, de anel (topázio?) e sem gravata-borboleta, sorriu, “a família vai bem?”, “vai bem, obrigado”, trouxe os guardanapos de pano (linho?), o cálice de conhaque, chope, guaraná, as rodelas de pão e de salame, azeitonas pretas, “com licença”.

— Um equilibrista improvável — comenta o homem. — Viu como ele segurava a bandeja?

— Vi — diz o menino. — Quase ela cai. 

Uma tarde calma e honrada a que têm direito o homem e o menino, em meio a tantos odores convidativos, fortes, discretos, almiscarados ou não, das caixas de bacalhau, das conservas de enchovas e atuns, dos defumados, dos doces em compota, das frutas de clima frio, da profusão de queijos e da variedade de vinhos turvos e leves. E como havia patês, bolachas folhadas, nozes, castanhas, chocolates!

— O que é aquilo?

— Nêspera.

Mas não havia pastel. 

— Não é uma pastelaria?

— É.

— E não tem pastel?

— Não. 

O menino corre os olhos pelo balcão, prateleiras, envoltórios de vidro, escaninhos, cada compartimento, e vai à forra:

— Uma pastelaria improvável — diz. 

Menos de quatro anos depois a Triunfo desapareceu, devorada por um incêndio. Todos temos as nossas madeleines. Se o que narro aqui mal e mal não foi uma madeleine, foi com certeza, feito um alumbramento, a saudade de meu pai. Agora, no fim de janeiro, fez dois anos que ele morreu.

*Contista e cronista

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

João Mangabeira, um Socialista


Antonio Paim* 
 Político consagrado na República Velha, João Mangabeira evoluiu na direção do socialismo democrático. Muito ligado a Rui Barbosa, seria marcado pela ênfase que Rui passou a atribuir à questão social. Até mais ou menos a época do Estado Novo, contudo, essa adesão correspondia a uma espécie de desdobramento de postura humanista. A experiência dos anos 1930 e do Estado Novo é que iria despertá-lo para a necessidade de ser estruturada no País uma alternativa socialista de cunho nitidamente democrático, dado o fato de que essa corrente assumira, sobretudo em decorrência da ascensão de Getúlio Vargas, feição francamente autoritária. Baiano de nascimento, jurista e advogado de certo prestígio, começou a envolver-se na política – sem afastar-se do exercício da advocacia –, em 1906, quando completou 26 anos. Em 1909 começou uma atribulada carreira como deputado federal. Nas duas décadas seguintes envolveu-se em todas as principais questões típicas da República Velha, notadamente a praxe do reconhecimento (e a degola) de mandatos; as duas campanhas de Rui Barbosa à presidência; o envolvimento do País na Primeira Guerra Mundial; a situação de permanentes estados de sítio que o País vivenciou nos anos 1920; a Reforma Constitucional de 1926 etc. Assim, quando eclodiu a Revolução de 1930, era um nome consagrado no cenário político nacional, além de jurista de reconhecida competência. Devido a isto, participou da famosa Comissão do Itamaraty, a qual foi atribuída a missão de elaborar o projeto de Constituição que seria tomado como referência pela Assembleia Constituinte de 1934. Mangabeira elegeu-se para a Constituinte e passou a integrar a Câmara dos Deputados após promulgada a Constituição. Seguiram-se anos de extrema polarização no País, com choques de rua entre comunistas e integralistas, processo que culminaria com a insurreição de novembro de 1935, promovida pelos comunistas em quartéis da Capital da República e de alguns Estados, rapidamente esmagada. Serviu de pretexto para a decretação do Estado de Guerra, que suspendia as garantias constitucionais. Vargas iria valer-se dessa prerrogativa para prender os parlamentares que se destacavam como seus oposicionistas, entre estes João Mangabeira. Introduziu-se tribunal de exceção (Tribunal de Segurança Nacional) que condenou os parlamentares a variadas penas, sob a alegação de que seriam uma espécie de ponta de lança dos comunistas. Mangabeira foi condenado a três anos. O tribunal militar reduziu-lhe a pena. Ao todo ficou preso de março de 1936 a junho de 1937. Retornou à Câmara que, entretanto, foi fechada logo adiante pelo golpe de Estado de novembro, que instituiu o Estado Novo. Na fase de redemocratização do País constituiu, com outros intelectuais, a Esquerda Democrática, que iria fazer parte da União Democrática Nacional. Esse acordo terminou logo depois das eleições (dezembro, 1945). Em agosto de 1946, a Esquerda Democrática transformou-se no Partido Socialista Brasileiro (PSB). O programa do PSB foi escrito por um notável grupo de intelectuais, entre os quais sobressaíam João Mangabeira, escolhido presidente da nova agremiação, e Hermes Lima (1902-1978), eleito representante do PSB à Assembleia Constituinte de 1946. Mangabeira conquistaria mandato somente na eleição complementar realizada após a promulgação da Constituição, em 1947. O programa do PSB reiterava, sempre que oportuno, seu inequívoco compromisso com o sistema democrático-representativo. Antes de mais nada, deixava claro que a aplicação dos princípios que preconizava não se constituiria “em solução de continuidade na história política do País, nem violência aos caracteres culturais do povo brasileiro”. Desse modo, rompeu frontalmente com a tradição, emergente nos anos 1930, de “passar o País a limpo”, “inaugurar os novos tempos” e outras tiradas messiânicas desse tipo. O programa expressava a intenção de preservar a federação brasileira e a autonomia municipal. Todas as principais características da organização democrática do Estado são claramente referidas. O PSB incorporou, como “patrimônio inalienável da humanidade”, as conquistas democrático-liberais, embora as considerasse insuficientes para alcançar a almejada eliminação do sistema econômico que se baseia na “exploração do homem pelo homem”. Se chegasse a alcançar o poder, o PSB preservaria a liberdade de organização partidária. As transformações que almejava introduzir na estrutura econômica do País também são apresentadas de forma equilibrada. Assim, preconizando a “gradual e progressiva socialização dos meios de produção”, entende que somente deverão ser realizadas na medida em que as próprias condições do País o exijam. Ainda mais: a mencionada socialização não era identificada com a posse estatal, não poderia ser efetivada ao arrepio do Parlamento nem excluía a circunstância de que pudessem ser preferidas organizações cooperativas. Tampouco se cogitava da completa eliminação da propriedade privada. O documento evitou a expressão “luta de classes”, dando preferência a “antagonismo de classe”. Finalmente, o PSB não se identificava com nenhuma concepção filosófica nem circunscrevia-se à defesa de determinado grupo social, dizendo-se comprometido com todos que vivem do próprio trabalho. O PSB viria a ser a primeira agremiação no País, de índole socialista, de fato comprometida com o sistema democrático representativo, já que a expressão predominante dessa corrente, desde os anos 1930, revestiu-se de caráter nitidamente autoritário, sobretudo por se achar associada ao varguismo. Ao que parece, contudo, não encontrou ambiente favorável ao seu florescimento. No ciclo do interregno democrático, nunca conseguiu uma representação digna de nota no Parlamento. Como foi referido, Mangabeira seria deputado na primeira legislatura após concluídos os trabalhos da Assembleia Constituinte. Acentuando-se as divergências com a UDN, sobretudo por sua insistência com candidatura militar à presidência, nas eleições de outubro de 1950 concorreu com chapa própria, sendo candidato o próprio Mangabeira. Nessa eleição, Vargas obteve cerca de quatro milhões de votos, enquanto João Mangabeira menos de 10 mil (ao todo, 9.466), o que dá bem uma ideia da pouca expressão alcançada pelo PSB. Sob o parlamentarismo, ocupou a pasta da Justiça. Após a reintrodução do presidencialismo, optou por deixar a função, apesar da intenção de Goulart de mantê-lo no posto. Desde então, afastou-se da política, vindo a falecer menos de um mês após o movimento de 31 de março de 1964, em 27 de abril, pouco antes de completar 84 anos. A ideia de um socialismo comprometido, antes de mais nada, com o funcionamento das instituições mantenedoras da democracia não prosperou. O PSB que se reconstituiu nos dois períodos chamados de reconstituição democrática (1945-1964 e o pós-1985) perdeu a singularidade do socialismo democrático antes caracterizado, afeiçoando-se às agremiações que se tornaram a feição típica, como se mostra nas breves indicações adiante O Partido Socialista Brasileiro foi reorganizado em 1985. No período inicial, foi apropriado por um grupo que optou por transformá-lo numa agremiação de tipo marxista-leninista. A documentação resultante dessa fase foi examinada por Antonio Paim no livro O socialismo brasileiro-1979-1999, editado pelo Instituto Teotônio Vilela. A conclusão do autor é transcrita adiante. A análise precedente e os documentos que a instruem evidenciam que, nos três lustros iniciais, a tentativa de renascimento do PSB fez-se em flagrante contradição com o legado dos fundadores da agremiação em 1947. Os que assumiram tal responsabilidade, mesmo sendo socialistas, a tanto não estavam obrigados. Podiam simplesmente iniciar uma nova experiência, como fizeram os fundadores do PT. Se preferiram identificar-se com o PSB – e até adotaram o mesmo programa –, o que se poderia exigir é que revelassem um mínimo de conhecimento de causa. Ao contrário, o empenho foi dirigido no sentido de estruturar uma organização do tipo stalinista. Nunca causou qualquer constrangimento ao PSB suas alianças públicas com o PC do B, que corresponde precisamente ao absoluto contrário de todos os princípios que norteiam o socialismo democrático. E, mesmo depois da aprovação das novas diretrizes, no Congresso do Cinqüentenário (novembro, 1997) – que revogam a linha até então seguida e dizem expressamente que o PSB não é uma agremiação de classe –, após as eleições de 1998, o PSB formou um bloco com o PC do B na Câmara dos Deputados. No livro de memórias que nos deixou (Travessia, Rio de Janeiro, 1974), Hermes Lima fixou com exatidão o problema enfrentado pela Esquerda Democrática, ao desligar-se da UDN e dar nascedouro ao PSB: distinguir-se tanto dos liberais (UDN) como dos comunistas (PCB). Logo adiante, devido ao clima de histeria anticomunista que se instaurou no País após as eleições presidenciais, de que saiu vitorioso o general Eurico Gaspar Dutra – fechamento do PC; cassação de mandatos dos representantes comunistas; empastelamento de jornais e grande número de prisões – o PSB, já então constituído, tratou de fixar a sua posição independente, sem fazer concessões à falta de liberdades na União Soviética, mas defendendo firmemente o Estado Liberal de Direito em face das sucessivas violações às liberdades fundamentais presenciadas no País. Apesar da complexidade da situação, a impressão que se recolhe da documentação existente é que aquela liderança soube orientar-se adequadamente. Nesse particular, tudo indica que a questão central corresponde à capacidade de distinguir-se do comunismo, tratando-se de agremiação que, a partir mesmo do seu nascedouro, identificou-se com o socialismo democrático ocidental. Subsidiariamente, teria de acompanhar a evolução do socialismo na Europa Ocidental. Na verdade, entre as maiores agremiações socialistas do continente, somente o PS francês mantém-se fiel à bandeira socialista. As demais fizeram uma franca opção social-democrata, isto é, renúncia à utopia da sociedade sem classes e ao entendimento de que o socialismo deveria traduzir-se em estatização da economia. Em 1993, assumiu a presidência do PSB um tradicional líder da esquerda, Miguel Arraes (1916-2005), governador de Pernambuco cassado pelos militares e que, após 1985, voltaria a ocupar aquele cargo. Abandonou o projeto anterior, mas acabaria contribuindo para desfigurar totalmente a agremiação, ao aceitar, em 2002, o ingresso no partido de Anthony Garotinho, que ocupara o cargo de governador do Rio de Janeiro. Esse fato determinou o afastamento de Roberto Saturnino, então senador, que representava justamente a melhor tradição do socialismo democrático. Desde então, o PSB tornou-se progressivamente uma agremiação sem nítida feição própria, engolfada pela geleia geral que passou a representar a base de apoio dos governos subsequentes.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Elsimar Coutinho, a vida dedicada à Medicina e à Ciência

Retornando da França, o Dr. Elsimar tornou-se professor Associado de Fisiologia na Escola de Farmácia da Universidade Federal da Bahia, mas por pouco tempo, pois logo foi convidado a "fellow" da Fundação Rockfeller na área da endocrinologia reprodutiva, tendo trabalhado no "Rockfeller Institute for Medical Research" de Nova York, hoje "Rockfeller University", ao lado de renomados profissionais da área como os Professores A. Csapo e G. Corner, este último o descobridor da progesterona.

Seguindo os ensinamentos dos seus mestres, o Dr. Elsimar, passou então a estudar os esteróides com efeito progestagênico, e particularmente descreveu o papel dos íons, cálcio e magnésio, como agentes periféricos da ação da progesterona.

Retornando dos Estados Unidos, ele tornou-se o Diretor de Pesquisas Clínicas da Maternidade Escola da Universidade Federal da Bahia, fazendo desse serviço, a Maternidade Climério de Oliveira, em Salvador - Bahia, o primeiro centro de referência para estudos e pesquisas na área da Reprodução Humana da Organização Mundial da Saúde no Brasil.

No início dos anos 60, estudando o emprego de substâncias progestínicas na prevenção do trabalho de parto prematuro, Dr. Elsimar observou e descreveu o efeito anticoncepcional da medroxiprogesterona (MPA), que se por um lado não se prestava àquela ação, por outro lado apresentavam efeito anticoncepcional, chegando então a propor em seus trabalhos clínicos os primeiros anticoncepcionais injetáveis, utilizando a substância progestagênica isoladamente por períodos de três meses, ou em combinação a um componente estrogênico, sendo este contraceptivo injetável de uso mensal (Ciclofem).

A partir daí, o Dr. Elsimar Coutinho despontou para tornar-se uma das maiores expressões na endocrinologia da reprodução e no planejamento familiar, tendo desenvolvido além do primeiro anticoncepcional injetável de efeito prolongado (Depo Provera), a primeira pílula anticoncepcional contendo Norgestrel, que é hoje o progestínico mais usado do mundo seguida da primeira pílula de dosagem reduzida. Outros métodos anticoncepcionais, fruto do seu pioneirismo, desenvolvidos ao longo de quarenta anos de pesquisas na Faculdade de Medicina da UFBA, incluem implantes subcutâneos com efeito prolongado (seis meses, um ano, dois anos, 3 anos e seis anos), dispositivos intra uterinos (Cruz de Lorena e Cruz de Caravaca), e o Lovelle®, a pílula vaginal.

Ainda fruto de suas pesquisas foram os tratamentos de infertilidade provocada pela endometriose (condição na qual tornou-se autoridade mundial, presidindo o 4o Congresso Mundial de Endometriose cuja realização na Bahia ocorreu em 1994) ou pela miomatose.

O primeiro caso de regressão de mioma seguida de gravidez, relatada na literatura médica internacional foi de sua autoria, publicado em 1982. Foi um dos fundadores no "International Committee for Contraceptive Research" - ICCR, do "Population Council", que se destacou no desenvolvimento de métodos contraceptivos como os dispositivos intra uterinos medicados com cobre, e o implante hormonal subdérmico com levonorgestrel, o Norplant.

Foi membro do Conselho Diretor do Programa de Reprodução Humana durante seis anos e do "Steering Committee of the Task Force on Infertility of the Expanded Programme in Human Reproduction" da Organização Mundial de Saúde, durante oito anos. Na área da infertilidade, desenvolveu um novo tratamento para a endometriose com a administração da Gestrinona, descrevendo também sua ação no tratamento não-cirúrgico dos leiomiomas.

Participante de várias sociedades médico-científicas no Brasil e no exterior, e fundador da Sociedade Brasileira de Andrologia, realizou conferências, organizando e presidindo eventos médico-científicos não só no Brasil, mas em diversos países.

Além da sua atividade de pesquisa e acadêmica como Professor Titular do Departamento de Ginecologia, Obstetrícia e Reprodução Humana da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, exerceu o cargo de Presidente de uma clínica modelo em planejamento familiar em Salvador, o CEPARH - Centro de Pesquisas e Assistência em Reprodução Humana, que é a semente de uma série de serviços de excelência nessa área especifica de tamanha necessidade em nosso meio.

Foi também o Presidente de um organismo internacional, o "South to South", que congrega pesquisadores de países em desenvolvimento, particularmente localizados no Hemisfério Sul, para o desenvolvimento conjunto de novos métodos contraceptivos mais adequados a sua realidade como:

  • O gossipol, uma fração de óleo de algodão que apresenta efeito anti espermatogênese, a primeira proposta de uma pílula anticoncepcional para o homem.
  • A pílula vaginal, proposta de uma via alternativa, mais fisiológica, como meio de administração hormonal.
  • O Uniplant, um implante hormonal de única cápsula contendo progestínico de liberação contínua, de aplicação e seguimento mais simples que os disponíveis hoje no mercado internacional.
  • Na Faculdade de Medicina criou a disciplina de Reprodução Humana, única no Brasil, no qual tornou-se professor titular desde a sua criação até a sua aposentadoria compulsória aos setenta anos de idade. Na década de 90, o Professor Elsimar Coutinho tornou-se muito conhecido pelo público em geral através de sua participação em programas educativos versando sobre Fertilidade, Infertilidade, Sexualidade e Planejamento Familiar em âmbito nacional. Atualmente o professor é presidente da Sociedade Brasileira de Ginecologia Endócrina (SOBRAGE), primeiro vice-presidente da Academia de Medicina da Bahia (AMB), Presidente do Centro de Pesquisas e Assistência em Reprodução Humana (CEPARH) e Presidente da Sociedade Baiana de Climatério (SOBACLIM).
  • O Professor Elsimar era membro de 32 sociedades médicas. Até o ano de 2000 participou como conferencista convidado de 253 congressos. Publicou 350 trabalhos científicos, a maioria em revistas médicas internacionais como Nature, Endocrinology, Fertility and Sterility, American Journal of Obstetrics and Gynecology e Contraception.
  • Publicou e editou mais de dez livros, a maioria no exterior. Seu livro sobre a menstruação, publicado em 1996, encontra-se na 8a edição. A versão inglesa deste livro foi publicada pela Oxford University Press e recebeu elogios de revistas médicas como Lancet, Journal of the American Medical Association (JAMA) e do British Medical Association cujo reviewer o classifica de obra prima.
Elsimar Metzker Coutinho, que estava internado com covid-19 desde 20 de julho, não resistiu à doença e morreu nesta segunda-feira (17), no Hospital Sírio Libanês,em Sāo Paulo, para onde havia sido transferido. FONTE: http://www.elsimarcoutinho.com/o-medico/biografia/

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Hidalgo decidida a restringir serviços da Amazon em Paris

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As
autoridades de Paris ameaçaram tomar medidas legais sobre o novo serviço de entrega expressa da Amazon, alegando que isso poderia forçar as lojas locais a fecharem seus negócios. A prefeita socialista Anne Hidalgo prometeu adotar uma abordagem "intransigente" ao serviço Prime Now da Amazon, que oferece entrega em uma hora em uma variedade de produtos, incluindo mantimentos.
As autoridades temem que o serviço, que opera em 40 cidades como Nova York, Londres e Roma, possa perturbar o "equilíbrio comercial" da capital francesa. Eles também afirmam que foram informados sobre o serviço de Paris apenas alguns dias antes de ser lançado na semana passada.
Hidalgo disse que está pedindo aos legisladores que examinem o serviço de entrega da Amazon para ver se podem ser estabelecidas salvaguardas para evitar que isso prejudique comerciantes independentes.
A prefeitura de Paris também disse que vai procurar efeitos colaterais indesejados da operação, incluindo aumento de tráfego e poluição.
Hidalgo disse: “Esta operação corre o risco de afetar seriamente a balança comercial de Paris. Esta grande empresa americana não achou oportuno informar Paris até alguns dias antes do lançamento. ”
Ela disse que havia uma necessidade de “definir por lei, as proteções para impedir que esses serviços se tornem uma concorrência desleal para lojistas e artesãos. Paris será intransigente em relação à Amazônia. ”
A Amazon está se oferecendo para entregar mais de 18.000 produtos, incluindo itens elétricos e frutas e legumes frescos ou congelados, aos assinantes de seu serviço Premium, que custa € 49 (£ 38) por ano e promete chegar dentro de duas horas. Por um custo adicional de € 5,90, as mercadorias serão entregues dentro de uma hora.
Os itens são despachados de um armazém de 4.000 metros quadrados no 18º arrondissement, que foi revelado durante o lançamento de quinta-feira. O armazém emprega 70 funcionários.
Em declarações à rádio francesa, Olivia Polski, uma das vice-prefeitas de Paris, disse que o serviço é uma ameaça direta às lojas locais. "À primeira vista, pode parecer uma notícia muito boa ter um novo serviço de compras, exceto que não é uma loja real e não está sob as mesmas restrições que as empresas", disse ela, acrescentando que o serviço não estava sujeito aos mesmos impostos e regras de competição como lojas físicas. No domingo, a Amazon rejeitou as alegações.
Em uma declaração, dizia: “Refutamos essas informações incorretas, baseadas em muitos erros factuais e especulações infundadas. A Amazon paga todos os impostos necessários na França e em todos os países em que está presente.
"Com mais de 9.300 empregos na França esperados a partir de agora até o final do ano, nos tornamos um grande empregador e nosso" mercado "permitiu a criação de milhares de empregos extras em PMEs que vendem em nosso site".
A Amazon acrescentou que havia criado mais empregos na França entre 2013 e 2016 e disse que qualquer cálculo foi feito a partir de dados fora da Amazon.
Ele também disse que os cálculos de emissões subestimaram o tamanho do setor de computação em nuvem e foram erroneamente baseados em estimativas de servidores muito menos eficientes do que os usados ​​na AWS.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

A Morte e a Morte da Democracia

Fernando Gabeira
É preciso  retomar o tema da democracia ameaçada. A prisão de Fabrício Queiroz conteve o avanço da extrema direita. Muitos interpretam o perigo de golpe apenas como um blefe de Bolsonaro, um delírio que agora se dissolve.
São pessoas sensatas que me perguntaram quando soei o alarme se eu não estava exagerando.
De uma certa forma, abordei este tema num artigo de fim de semana. Lembrei a tensão nas democracias europeias dos anos 30 e as pequenas pausas que surgiam entre elas. Muitos as interpretavam como o fim dos problemas, um novo período de paz.
Não tenho nenhuma intenção de comparar a extrema direita brasileira com a Alemanha nazista. Isto serviria apenas para reforçar a ideia de que exagero. Minha preocupação é apenas analisar a pausa. Ela pode ser aproveitada para se avançar na defesa da democracia ou pode ser considerada como o fim de um período de hostilidades.
Muitos imaginam o golpe de estado clássico: tanques saindo dos quartéis e ocupando pontos estratégicos, Congresso e STF fechados. É uma espécie de tiro no coração da democracia. Acontece que, nos últimos anos, cresce o consenso de que a democracia é comida pelas beiradas, como um vírus que invade, gradativamente, seu pulmão até que pare de respirar.
Essa lenta e sistemática derrubada da democracia brasileira está em curso. Não há tanques na rua, nem censores dentro dos jornais.
Mas a informação de qualidade está sob intenso fogo. O IBGE teve contestado seus dados sobre desemprego; a Fiocruz, invalidada uma pesquisa sobre consumo de drogas; o Inpe, decapitado por seus informes sobre o desmatamento na Amazônia. O próprio Bolsonaro tentou, mas não conseguiu, suspender a Lei de Acesso à Informação.
É como se as luzes de um edifício fossem sendo apagadas gradativamente. Na Fundação Palmares já não é possível contestar o racismo. O governo já não defende a diversidade cultural. Somos todos filhos de um mesmo Deus. Nas palavras do Weintraub: “Odeio a expressão povos indígenas.”
Três mil militares ocuparam a administração civil. No Ministério da Saúde desalojaram técnicos num momento em que se luta, e se perde, contra uma pandemia que já levou mais de 50 mil vidas. As armas são vendidas em maior escala, na medida em que cai o controle do Exército.
Na preservação ambiental, as luzes já se apagaram há muito. Na escuridão, crescem o desmatamento, o garimpo ilegal, a grilagem. Não se respeitam as leis, e os funcionários que tentam aplicá-las são demitidos.
O avanço de um golpe clássico foi contido pelo STF. Mas ele foi propagado em faixas que pediam intervenção militar com Bolsonaro na Presidência. Frequentaram essas manifestações, além do presidente, generais no governo e o ministro da Defesa.
Foi preciso prender extremistas e investigar as contas de deputados que financiam as manifestações. O Congresso não se manifesta. Está escondido atrás das togas dos ministros, esperando que canalizem sozinhos a agressividade digital bolsonarista.
Um Congresso que tem medo de tuítes sairia correndo ao ver o primeiro fuzil. Mas é preciso contar com ele.
Felizmente, a sociedade começou a acordar. Manifestos surgiram em vários setores. Esboços de frentes vão se formando aqui e ali. Há sempre quem se ache o rei da cocada e não aceita certos parceiros. Mas o rumo geral é de união.
Apesar da pandemia, surgiram as primeiras manifestações de rua. De um modo geral, pacíficas, um ou outro choque com a polícia, uma solitária faixa pedindo ditadura do proletariado, rompendo o tom.
Seria importante interpretar a pausa apenas como um tempo que se ganha para se organizar, não relaxar, achando que as coisas se resolvem sem nossa intervenção. Uma semana depois da prisão de Queiroz, o TJ do Rio já concedeu foro especial a Flávio Bolsonaro e pode anular não só a prisão, como trazer o processo à estaca zero.
Daqui a pouco, volta toda a onda agressiva e vamos nos perguntar o que fizemos na pausa. As democracias europeias vacilaram inúmeras vezes, mas acabaram vencendo no final. Mas os analistas sempre se perguntam se a vitória não poderia ter vindo mais cedo, poupado mais vidas.
Mesmo em dimensões desarmadas, o preço da vitória depende da maneira como interpretamos as relativas calmarias, se alimentamos ilusões conciliatórias ou compreendemos que, cedo ou tarde, a batalha se dará.
Artigo publicado no jornal O Globo em 29/06/2020

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Uma Pausa para Avançar

Fernando Gabeira*
Além da pandemia, por décadas vamos sentir os efeitos da passagem de Bolsonaro pelo poder.
A leitura da História da Europa nos anos 30 mostra uma longa tensão bélica entrecortada por pausas que enchiam de esperança os que sonhavam com a paz. Poucos percebiam, como Winston Churchill, quão importante era aproveitar os momentos de tensão para se preparar para um confronto inevitável.
Guardadas as proporções, o Brasil entra numa pausa com a prisão de Fabrício Queiroz. Jogado na defensiva pelos diferentes processos no Supremo, um contra fake news, outro contra manifestações com bandeiras ilegais, Bolsonaro tende a se acalmar por alguns dias.
Toda a sua energia certamente estará concentrada em se defender do pepino do tamanho de um cometa que ronda seu governo. A presença de Fabrício Queiroz na casa do advogado da família Bolsonaro levou, de novo, não só os problemas de Flávio Bolsonaro, mas a incômoda questão das milícias cariocas para o terceiro andar do Palácio do Planalto.
Dificilmente, nesse período, crescerão as manifestações pedindo o fechamento do Congresso e do STF. Muito menos Bolsonaro, Mourão e o ministro da Defesa devem lançar novas notas afirmando que as Forças Armadas não aceitam julgamentos políticos. Isso agora soaria como um blefe.
Muito possivelmente Bolsonaro perdeu terreno nas Forças Armadas e também na faixa de seu eleitorado que esperava a luta contra a corrupção. Nesta última ele já havia perdido com a saída de Sergio Moro do governo denunciando suas tentativas de intervir na Polícia Federal do Rio. E as perdas se acentuaram quando firmou aliança com o Centrão, uma espécie de seguro contra o impeachment, que nem sempre é honrado pelos contratantes.
Quando a prisão de Queiroz apertou o botão “pausa” a sociedade estava se organizando para deter o golpe e fazer frente à política nefasta de Bolsonaro. Manifestações de rua surgiram aos domingos e manifestos brotaram de vários setores, indicando a possibilidade de uma frente democrática em gestação.
Nesse momento também a pandemia atingia seu auge, ultrapassando a casa de 1 milhão de contaminados e 50 mil mortos. O Brasil tornou-se um país a ser evitado. O fracasso no combate à pandemia, impulsionado pelo negativismo de Bolsonaro, afasta os potenciais visitantes.
A destruição da Amazônia, que pode alcançar 16 mil km2 no prazo de um ano, por sua vez, afasta os investidores. Fundos de pensão responsáveis por investimentos gigantescos podem voltar as costas ao Brasil, por causa da destruição da floresta e a cruel política para os povos indígenas.
Bolsonaro não torna o País inviável apenas simbolicamente, arrasando a cultura e atropelando nosso patrimônio histórico. Ele nos coloca nas piores condições possíveis para superar a profunda crise econômica, agravada pela pandemia. Embora o ministro Paulo Guedes veja um futuro brilhante pela frente, grandes economistas brasileiros, ao contrário, veem no horizonte uma das grandes privações por que passará o Brasil em sua História.
Quem se preocupa com a democracia apenas quando se aquecem os motores dos tanques militares pode ter uma falsa sensação de alívio. A democracia continuará exposta a pequenos golpes cotidianos Além disso, quanto menos margem de manobras Bolsonaro encontrar, mais possibilidade de buscar ações .
Enquanto a sociedade se move, ainda lentamente por causa da pandemia, o confronto com as aspirações golpistas concentrou-se na reação do Supremo Tribunal Federal. Infelizmente, o Congresso recuou para segundo plano, talvez temeroso da agressividade da militância bolsonarista.
É preciso que os deputados e senadores superem a fixação numa salvação individual nas eleições. Os deputados da extrema direita, segundo a PGR, usam verbas parlamentares para mobilizar o fechamento do próprio Congresso. Não há como se esconder atrás das togas negras do Supremo. É necessária uma frente democrática no próprio Congresso.
“Somos poucos”, dirão os deputados. Mas não importa tanto o número, o importante é começar. Se a pausa acionada com a prisão de Queiroz for entendida como um momento de distensão, uma época para simplesmente deixar andar o processo judicial, ela pode trazer surpresas desagradáveis…
Naturalmente, os processos legais têm de ser acompanhados. Mas os danos ao País continuam a ocorrer. E a chegada de momentos mais dramáticos da crise econômica pede a construção de redes de solidariedade.
Diz a OMS que o mundo sentirá por décadas os efeitos da pandemia de coronavírus. No caso brasileiro, além da pandemia, vamos também sentir por décadas a passagem de Bolsonaro pelo poder.
No trabalho de reparo dos estragos e reconstrução do futuro não pode haver pausa. Mesmo porque as desgraças não nos abandonam nem no cotidiano. O mínimo que esperamos de novo, nessa pausa, é uma voraz nuvem de gafanhotos que nos invade pelo sul do País.
Um aumento de chances de vitória é uma razão suficiente para intensificar a luta. Quanto menos nos preparamos para ela, mais difícil será o desfecho. Sem necessariamente estabelecer um paralelo com o nazismo, a História dos anos 30 é uma aula sobre as hesitações da democracia diante de um perigo no horizonte.
*Jornalista