Por Dom PedroII*
4-5-6 de outubro de 1859
O livro Viagem pelo Brasil, que traz o Diário de D. Pedro II no 2º. Reinado, quando ele estava no auge de sua popularidade e jovialidade, 40 anos antes do golpe chamado de Proclamação da República ( ), revela a sua passagem pela Bahia, Sergipe e Alagoas.
Após uma viagem de barco a vapor desde o Rio de Janeiro, quando zarpou no dia 1 de outubro, o vapor chegou á noite no porto ao lado da fortaleza, no dia 4 de outubro. A viagem consumiu portanto 4 dias, algo muito rápido para a época. Novos tempos, marcados por vapores, ferrovias, navios metálicos, expansão do comércio mundial e grandes transformações em todo o mundo, ao longo século dezenove. Vamos ler o que o rei descreveu sobre o Morro de São Paulo, naquela passagem rápida mas profundamente marcante, pela qualidade e intensidade de suas observações:
A chegada de noite – Desci ontem por volta de 21 horas e 15 minutos, porque estive a ler. De noite jogou muito, porém às 7 horas da manhã, fundeamos por detrás do morro do farol de São Paulo. O Feijó (primeiro oficial da secretaria do império) viu o farol ontem de noite antes do gajeiro.
Nesta enseada esteve a esquadra brasileira por ocasião da Independência desde depois do combate de quatro de maio até dois de julho de 1823. Um forte, que se vê agora completamente desmantelado, tinha, quando chegou a esquadra brasileira na época da Independência, apenas 27 balas e quatro peças, que se desmantelaram ao salvar a esquadra. Os carpinteiros desta, desembarcando, consertaram os reparos das quatro peças e o forte ficou fornecido com quatrocentos tiros de balas. Viram, do alto do navio, onde está hoje o farol, a evacuação da Bahia pela esquadra lusitana no dia 2 de julho, e a corveta Niteroi atravessou o baixio para ir á Bahia, escoltada de ambos os lados vinha na desmantelada cortina.
O farol foi construído na presidência de Gonçalves Martins 016; é de 1a classe bastando apenas uma lanterna, segundo diz o Marques, e sendo mais necessário na Ponta de Itapoã e nos Abrolhos (Ilha de Sta. Bárbara).
8 e 35 – Já ouvi missa e vesti-me para almoçar e daqui ir ver a ilha de Tinharé. O comandante do forte desmantelado, o major reformado Manuel do Carmo Correia Palmeira, baixo e grosso, chegou antes da missa. Soube por ele que a ilha tem cerca de 300 habitantes, que é capela curada, mas sem capelão, e que só pôde obter 6 inválidos para o forte, sendo o não-mutilado sujeito a ataques de ficar horas sem fala e respiração.
Há uma escola de meninos e as meninas aprendem particularmente. Julguei que a bandeira fosse nova; mas o Sr. Palmeira desenganou-me, fazendo-me reparar que a haste dela é uma vara; mais uma sinecura que é preciso acabar. Antes de ir vestir-me para almoçar vi uma embarcação de 3 mastros carregada de piaçaba que vinha de Valença para a Bahia, tinha a proa à semelhança da das gôndolas.
Acabado o almoço fui ver a ilha do morro de S. Paulo, que parecia não conhecerem aqui (pois que o ignora Palmeira) por ilha de Tinharé, como vejo nos mapas. Receberam-me com muito regozijo e cordialidade e os foguetes do costume, principalmente na Bahia. Subi por um caminho ruim até a Igreja, que é sofrível, para a localidade, com a invocação de N. S. da Luz, havendo irmandade desta Senhora, que também o é do Sacramento, acompanhando-me alguns irmãos de opa encarnada e tochas na mão. Orei por um pouco na Igreja 017, em cuja sacristia há um ex-voto de navegantes e fui depois visitar o farol.
A torre deste tem 74 pés de altura e sobe-se por 74 degraus de pedra e 4 de madeira e depois por dois lanços com 33 degraus de madeira e 1 de pedra até a varanda que rodeia a lanterna de onde se goza de excelente vista, chegando a descobrir-se, segundo dizem, o farol de Sto. Antônio na Bahia, a 10 léguas de distância. Há 9 degraus de ferro dentro da lanterna para chegar ao aparelho do farol, que é do sistema Fresnel, e do fabricante Henry Lepante, Paris. É muito bem-feito, sendo para sentir que alguns dos prismas tenham fendas, ainda que grande parte dessas na direção normal. É intermitente e a revolução de 12 minutos. Consome 124 camadas de azeite por três meses sendo doce, de mamona purificada, ou de coco; serve-se agora de doce, que dá luz pouco clara segundo disseram. Há perto uma casa, que ainda não serve para depósito de azeite e outros pertences do farol; os tanques para o azeite terão, cada um, a capacidade de 216 br3.
O farol foi construído pelo engenheiro Carson, o da fábrica de Valença. Há 5 pessoas no serviço do farol, tendo o administrador 1.000 réis por dia, outro 800 réis e os mais 3.600 cada um. Queixaram-se de que era pouco pois que fazem todos as conduções da ilha e para ilha do que é preciso para o farol, e a limpeza deste à sua custa.
O subdelegado, que o é desde 1842, homem de 65 anos, mas que não parece, e que diz ter militado a bem da Independência, representou-me contra a falta de pedra na ilha, pois a freguesia é a de Cairu a 9 léguas de distância do mar.
O quartel das praças inválidas, que são 7, e entre as quais há um Manuel Pinheiro, de 84 anos e 60 de praça, está em mísero estado, e ao pé existe o calabouço onde se tem guardado o azeite para o farol e outras coisas, é uma miséria!
Depois fui ver a fortaleza que foi mandada construir pelo vice-rei Vasco César Fernandes de Meneses, como se vê da seguinte inscrição sobre o portão:
Vasco Fernandes Cézar de Meneses, conde Sabugosa, do conselho de S.S. A.A. de Portugal, alcaide mor do reino, comendador da Ordem de Cristo, fundou esta fortaleza em 1730.
Há peças que ainda se podem aproveitar, e aí achei um fornilho para balas ardentes e instrumentos para seu emprego. O mar já deitou boa porção da muralha abaixo, e minou outra, passando-a de um lado para outro. Na ilha há 300 e tantas famílias, como me disse, da segunda vez, o comandante da fortaleza, que também inspeciona o farol, e mais de 2 mil pessoas segundo o subdelegado.
A escola pública é de meninos e meninas e tem por todos 30 e tantos, segundo me disse o professor. A ilha tem 14 léguas de extensão, conforme aventurou o comandante, não mostrando o mapa de Roussin senão 31, mas nenhuma cultura a não serem poucos pés de laranjeira e bananeira e muitos coqueiros, abundando em formigas e cupim, e jararacas e jararacuçus, segundo me disse o comandante do Amazonas; mas não foi confirmado pelo comandante Palmeira.
O inválido Paulo Pedro Rodrigues da Costa pediu-me para ser transferido para a companhia de inválidos da corte. Consta ter sido um dos melhores cornetas do exército na época da Independência.
Há na ilha boa tabatinga para caiar, e outra mais dura que chamam solho e serve para o chão. Há de diversas cores tanto de uma como de outra qualidade. Nas praias, na baixa-mar, apanha-se pedra calcária, de que colhi amostra e fazem cal na ilha. Há uma fonte pública de 3 bicas com a seguinte inscrição:
“O Ilmo. e Exmo. Sr. André de Mello e Castro, Conde das Galveias, vice-rei – cap-gal. de mar-e-terra do gno do Brasil, mandou fazer esta fonte em 1743”.
A água que me deram para beber era pouco clara mas dizem que é boa, e não me pareceu má no gosto; é verdade que tinha bastante sede e a localidade passa por sadia ainda que a gente não o pareça pela fisionomia.
Fui depois ver o Curral, que é uma parte da enseada cuja entrada se encobre como uma ponta de areia cheia de mato, princípio de um baixio que já formou adiante uma ilha de areia, já coberta de vegetação, e que não existia ainda em 1823. É lugar muito abrigado e com fundo pouco raso, pouco afastado do baixio, e foi aí que estiveram em 1823 os navios da esquadra brasileira, com exceção na nau Pedro I e corveta Maria da Glória, que cruzavam por serem veleiros.
Indo para o curral passamos pela povoação de Gamboa, onde está erigindo uma capela o capitão Sousa Macieira, sendo esse o lugar onde se abrigam os navios costeiros. Aí encontramos um vindo de Valença (cuja matriz se avista ao longe, descobrindo-se grande parte da povoação do alto do morro do farol) com dois mastros, muito perto um do outro, e para o lado da proa, sendo o posterior inclinado para trás e tendo cada um uma vela, visando-se unicamente a do mastro posterior. A proa é semelhante à das gôndolas e mete bastante de popa, dizendo o Marques Lisboa que estes barcos têm belas linhas d’água, agüentando muito bem o vento. Colhi na ilha umas campainhas azul-acinzentado que já estão murchas do bolso, mas levarei assim mesmo. Logo ao chegar à ilha vi um chapéu da moda e depois mais três; até aqui!
9 ¾ – De tarde vieram diversos com requerimentos e, numa representação, pedem que se crie freguesia esta povoação de mais de mil almas, para cumprimento do “Crescite et multiplicamini”.
O farol acendeu-se às 6 horas e disseram-me que sua intermitência é de 5 segundos e mais brilhante em certa distância que perto. Não se vendo a torre, parece, quando menos brilhante, uma segunda lua no céu.
A povoação formou duas linhas de luminárias, com pessoas trazendo fachos. Vieram 3 repolhos monstruosos de presente.
Às 9 ½ chegou o comandante do Itajaí e o ajudante do capitão do porto da Bahia, com programa do desembarque publicado pelo Pena - souberam de nossa chegada ao morro de S. Paulo às 2 da tarde por uma lancha saída de manhã daqui. Os dois oficiais vieram num vapor mercante, parece que por não poder trazê-los o Itajaí e já se retiraram para a Bahia, onde se sabe que o Pirajá chegou 5a. f. Vou agora recolher-me para acordar amanhã antes de suspender o ferro.
No dia seguinte, Dom Pedro descreve no diário:
Dormi muito tranquilo desde perto de meia noite, porque estive lendo outra vez o programa e vendo a planta da cidade da Bahia até antes de 17:15 h. Suspendeu-se ferro ás 6:15 h, e escrevo deitado na baiúca porque joga muito e receio ficar enjoado. O dia está belíssimo e há três dias que venta S.O. sem que tenham vindo em resposta os pirajás. Acabo de regular o meu relógio pela hora da Bahia, são 8 horas e 7 minutos.
9 e 43’ – Avistam-se a Bahia e quatro vapores vindos de lá. Distinguem-se cinco vapores. .
* Pedro II, cognominado "o Magnânimo", foi o segundo e último monarca do Império do Brasil, reinando por 58 anos. Filho mais novo do imperador Pedro I